terça-feira, 22 de julho de 2008

Dias Dietéticos (Parte 2)

Essa dieta não é exatamente difícil, mas também não é tão fácil de ser seguida. Várias vezes hoje, senti fome e pensei em comer alguma coisa. E o que geralmente vinha à mente eram chocolates, biscoitos e outros doces que deliberadamente me privarei por uma semana. Toda vez que queria doce, comia uma fruta, como maçã ou banana. Pode até enganar, mas não é a mesma coisa.

Olhando por esse ângulo, foi uma boa coisa fazer esssa dieta, pois ficou óbvio que meus hábitos alimentares são, até certa medida, viciados. Aqui em Porto Alegre, exceto o bom e velho Nescau, dificilmente eu tenho chocolate ou doces em casa. Por isso, quando aparece uma barra de Alpino ou uma caixa de Bis por aqui, ela é quase que imediatamente devorada. Em Caxias, onde há maior oferta destes itens, eu faço a festa.

O mesmo que falei sobre os doces eu posso falar dos sucos - meu primeiro impulso quando tenho sede é ir até a geladeira e pegar um suco de caixinha. Costumeiramente, só tomo água quando não há mais nada em casa para aplacar minha sede (isto acontece com certa freqüência no final do semestre, quando sou atacado por todos os lados pelos trabalhos finais da faculdade, e relaxo na manutenção da boa ordem caseira).

O fato de poder fazer estas observações após meros dois dias de regime mostram em que grau estou mal-acostumado em termos alimentares. Não digo que é absolutamente insalubre comer chocolate ou tomar sucos doces, nem que pretendo abandonar seu consumo por completo - até por que gosto muito de suco e chocolate - mas certamente moderação é importante.

Ainda no assunto da dieta, estou um pouco indeciso quanto a se mel pode ser considerado doce. Estou com uma caixa de leite aberta na geladeira, e seu conteúdo irá azedar se não for consumida logo. Se não tivesse cortado o Nescau da minha dieta seria barbada. Não sou grande fã do gosto de leite integral puro, e por isso estava pensando em fazer uma batida no liquidificador, usando leite, mel e talvez alguma fruta (banana, preferencialmente, por ser fácil de descascar). Leite com mel fica muito gostoso. Não sei se posso comer mel, dadas as atuais restrições alimentares que me impus. Strictu sensu, mel é doce, portanto não posso comê-lo. Por outro lado, se analisarmos meu padrão de proibições, veremos que bani essencialmente produtos industrializados, coisa que mel não é.

Numa situação como esta, pergunto a mim mesmo "o que Gandhi faria no meu lugar?" A resposta é muito simples: ele seria honesto consigo mesmo, e avaliaria sua promessa inicial. Dei uma relida no post onde faço meus votos de dieta. Lá diz "nada de doces". Não diz nada sobre doces industrializados ou não. Sendo o mel doce, e usado para fazer doces, está fora da minha dieta atual. E, se mesmo depois de reavaliar o que foi dito anteriormente restarem dúvidas, ele aplicaria a lei do maior rigor: se mel fica numa área cinzenta, é sinal de que é ambíguo, e portanto deve ser abolido da minha dieta. Feita a decisão.

Post nada a ver sobre cores

Sinestesia, segundo a Wikipédia, é a relação de dois planos sensoriais diferentes, como sentir um gosto quando ouve um som, ou vê uma cor quando pensa em uma palavra. Eu tenho um pouco disto, pois, na maioria das vezes que penso em uma linha teórica da Psicologia, ela frequentemente vem associada com uma cor.

Psiquiatria, Neuropsiquiatria e Neurociências são linhas vermelhas para mim.

Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia, por outro lado, são azuis.

Análise Experimental do Comportamento, e a escola filosófica do Behaviorismo Radical, são verdes.

Psicologia Humanista e Psicologia Positiva são azul-celestes.

A Psicologia Transpessoal é algo entre branco e azul, um tom de prata, talvez.

A Psicanálise é uma incógnita para mim. Na maioria das vezes, ela é amarelo queimado, mas já apareceu como sendo vermelha.

A Sociologia não é uma linha teórica da Psicologia, mas vejo ela como amarela.

A Antropologia, outra Ciência Humana, é um azul meio verde, que as mulheres e os frescos chamam de Gelo.

Não posso explicar corretamente por que penso nas linhas da Psicologia (e áreas afins) por cores. Talvez faça isso como uma forma de categorização, mas não consigo identificar nenhum padrão. Sei a origem da associação entre as cores e as linhas, contudo - muitas vezes, li panfletos e sites destas linhas que eram coloridos com estas cores, e acabei associando-as de forma íntima. Por que escrevi este post? Sei lá. Achei que seria legal.

Dias Dietéticos

Ontem foi meu primeiro dia da minha dieta sem doces, sucos e carne vermelha. "Vai ser barbada" pensei, "é só comer o resto das coisas que não estão restritas". Fácil falar. Durante a reunião do pessoal do projeto de extensão, comecei a ficar com fome, a pensar em comida e a planejar o que eu iria comprar no supermercado, assim que saísse dali. "Queijo, peito de peru, maçã, banana e alguma outra fruta... limão... mas como é que eu vou comer limão? É azedo demais pra comer como laranja. Eu posso cortar, pôr no liquidificador com um pouco de açúcar e... merda, isso é suco" Só que, para eu perceber que isto era suco e que eu tinha cortado isto da minha dieta por uma semana, levei 15 minutos. Foi um insight rápido, ainda assim. Ontem de manhã, olhei o cardápio do RU para esta semana, e vi que na sexta-feira a sobremesa seria pavê. Eu adoro todos os doces servidos no RU, não por serem gostosos (o que realmente são), mas por serem quase tão raros quanto ver o cometa Halley. Fiquei esfuziantemente feliz com esta notícia, pensando "sexta-feira tem pavê! Sexta-feira tem pavê!". Só depois de algumas horas, quando pensei novamente no assunto, percebi que não poderia comer pavê, não se quisesse manter a disciplina. Merda.

Parece que o corpo pede justamente aquilo que a mente proíbe. Durante essa reunião, uma colega puxou um pacote de chicletes, pegou um e começou a mascar. Tenho a merecida fama de ser ladrão de comida, e na mesma hora que vi o pacote, pensei em pedir um. Mas, de novo, pensei: "Doce. Não. Merda."

Tirando o fato de não tomar nada além de água (exceto depois de treinos e no café da manhã), minha dieta permanece basicamente a mesma, pois já restringira meu consumo de carne vermelha anteriormente. A maior mudança que estou tentando fazer é aumentar meu consumo de frutas frescas. Comi uma banana meio verde ontem. E a terceira fruta que comprei foi bergamota.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Eu quero que o dia do amigo vá pro inferno

Comemora-se uma pletora de datas no Brasil. O mais cretino de todos é o Dia do Amigo. Primeiro, por que não é feriado. Segundo, por que amigo, ao contrário de pai e mãe, que no máximo tem 2 (vide casais homossexuais), de Papai Noel e Coelhinho, amigo todo mundo têm um monte - e a mera idéia de dar presentes para a metade deles me dá calafrios. E, terceiro, é irritante beirando o enlouquecedor ficar recebendo e lendo por aí recadinhos dizendo "Feliz Dia do Amigo". Pior que isso, só os powerpoints coloridos, cheios de bichinhos e coisas fofas, dizendo quanto eu sou especial para a pessoa que me mandou este amontoado de e-fezes cor-de-rosa, me desejando tudo de bom e pedindo pra que eu repasse a porcaria de mensagem para todos os meus amigos queridos. Um clássico é dizer que, se mandar para o amigo que mandou originalmente, ele vai ficar muito feliz pela amizade. Eu certamente não ficaria feliz com um e-mail de 2 mb na minha caixa de entrada, tendo um igual na caixa de saída. Em seu favor, o dia do amigo tem o fato de não ser uma data comercial, como o dia das mães. Mas até isso é irritante, pois o povo sai dizendo "feliz dia do amigo" por aí e nem faz a economia progredir.

Enfim, não é mais dia do amigo fazem pelo menos duas horas agora. Ainda assim, o recado ainda é válido. Quer ser meu amigo? Não me mande spam desejando feliz dia do amigo.

domingo, 20 de julho de 2008

Alimentação - Escolhas

Lendo o livro de Gandhi, tive outros pensamentos, mais físicos e pragmáticos do que os relatados no post anterior. Mais uma vez, são relacionados à minha dieta.

As escolhas de Gandhi em relação à sua alimentação foram muito severas, mas serviam um propósito claro, o cumprimento do Brahmacharya, o voto de conduta divina, que implica na mais absoluta austeridade e ascética no estilo de vida. Diante da severidade de tal voto que Gandhi tomou, fico quase envergonhado com minha lassidão e falta de autocontrole. Contudo, meus objetivos, apesar de visarem minha auto-realização da mesma forma que Gandhi, passam por caminhos bem diversos. Não preciso, portanto, passar a me alimentar apenas com frutas secas e sementes. Posso, contudo, me beneficiar do exemplo dele e cortar da minha dieta tudo aquilo que perceber como maléfico, e incluir mais do que percebo como benéfico e mudar de idéia, se assim for necessário e bom.

Minha primeira decisão é relativamente leve, se for me comparar com Gandhi: por uma semana, não vou comer nada de doces e carne vermelha, beberei só água e comerei tantas frutas quanto puder. De resto, manterei minha dieta como está. À única exceção feita ao que bebo será o leite de soja, que tomo depois dos treinos e no café da manhã – e mesmo assim, não vou tomar o de sabor chocolate. Quanto à carne vermelha, é um pequeno experimento meu. Já faz algum tempo que pretendo largar o consumo de carne por completo. Até o presente momento, não consegui fazer isso, mas não fui totalmente fracassado, pois diminui drasticamente quanto de carne vermelha como. Não parei de comer carne vermelha por completo por causa do RU, que é levemente indiferente aos vegetarianos e pessoas que querem comer mais salada e ainda assim se manterem vivos e saudáveis. Mas esta semana, que passarei em Porto Alegre, vou ignorar esse fato, e mesmo que só sirvam bife todos os dias, não vou comer em nenhum deles. Depois que minha experiência acabar, vou calcular os benefícios, os prejuízos e ver o que faço daqui para a frente.

Vida e Espírito

Estou lendo a autobiografia de Mohandas Gandhi, “Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade”. Esta leitura tem suscitado em mim muitas dúvidas, algumas das quais expus nos meus textos anteriores sobre hábitos alimentares, disciplina e ética. A dúvida que me vem a mente agora é mais sutil e complexa do que comer carne ou não. Gandhi, como qualquer um que saiba um pouco de história recente pode dizer, era um asceta, e fazia rigorosas dietas, em que não só a carne e o álcool lhe eram vetados, mas o leite, os ovos e até mesmo leguminosas e sal. E em ao longo do livro, ele relata diversos momentos de doença grave, seja sua ou de entes queridos, onde precisou decidir entre suas crenças alimentares e a vida. Deveria ele tomar leite e recuperar-se rapidamente, ou persistir com sua dieta, e correr risco eminente de morrer? Ou, deveria ele autorizar que fosse dado caldo de carne para sua mulher, para que ela tivesse uma alimentação mais rica em proteína e pudesse se salvar, ou expô-la a riscos maiores, mas persistir na fé?

Como disse anteriormente, não são questões nada fáceis. Em todas as situações deste gênero que Gandhi relatou, ele escolheu sua fé e sua crença no ahimsa, na não-violência contra qualquer ser vivo, seja ele humano ou animal, e não autorizou nenhuma mudança em sua dieta (exceto uma vez, quando se permitiu ingerir leguminosas cruas). E, todas as vezes que assim se portou, foi capaz de impedir a morte da sua própria maneira. Se assim aconteceu por causa ou apesar de suas escolhas, não cabe a mim decidir, e também não acho que ele tenha mentido ou omitido qualquer ocasião em que seu estilo de vida fez com que alguém morresse, pois seu compromisso com a verdade era grande demais para tal. Isto certamente demonstra uma grandeza sem par, onde o Espírito sempre prevaleceu sobre a matéria. Contudo, o Espírito humano não pode manifestar-se senão através do corpo, da matéria, e, se digo que Gandhi teve sorte, é por que as coisas poderiam ter acontecido de maneira muito diversa, e ele poderia não ter levado sua missão adiante por ter se negado a comer carne quando necessário. Há uma história de um santo russo, cujo nome correto ainda não encontrei, que, na ocasião da Sexta-Feira Santa, encontrou um homem subnutrido e moribundo, e decidiu que ele deveria ingerir carne para fortalecer-se. Como o homem se negava a quebrar uma regra tão sagrada, o santo comeu junto, para convencer o homem a fazer o mesmo. Também neste santo vemos um exemplo de grandeza moral, pois ele preferiu ir contra tudo o que a convenção eclesiástica dizia e salvar a vida de um semelhante. Mas quem é mais nobre: Gandhi ou o santo russo?

Vejo-me obrigado a dizer que não tenho uma resposta satisfatória para tal pergunta, mas ainda outra: a vida precede o espírito, ou o espírito vem antes da vida? Em nome de nossa verdade, devemos abrir mão de nossa vida a qualquer momento, ou devemos manter-nos vivos, para podermos perseguir nossa verdade por muito tempo? Ambas as alternativas são igualmente válidas, e igualmente perturbadoras. Eu posso manter-me fiel a meus votos, mas por causa disso morrer, e não mais ser capaz de cumprir minha missão neste mundo; por outro lado, eu posso permanecer vivo e realizar meu destino, mas talvez a mácula do pecado seja grande demais, e me impeça de viver minha vida plenamente – atingir a Verdade.

Mais uma vez, lamento em dizer que não tenho respostas satisfatórias, no máximo, hipóteses muito precárias. Talvez seja um exercício infrutífero analisar estes casos a posteriori, e decidir qual foi a decisão superior. Ambos os homens tiveram bons motivos para agirem como agiram, e ambos foram felizes em suas escolhas. Não se sabe o que teria acontecido se tivessem feito escolha oposta àquela feita, muito menos se poderiam ser repreendidos se assim fosse. No fim, ambas as decisões gravitaram em torno do caráter sagrado da vida – seja mantê-la, seja consagrá-la e perde-la – e talvez o único norte que temos em tais situações-limite seja nossa voz interior. E não sabemos o que se passa na alma alheia, nem na de Gandhi, nem na do santo.

sábado, 19 de julho de 2008

Oh não! Ainda mais algumas notas sobre minha alimentação!

Prometo que este será o último post do dia sobre comida (até por que acho que falei sobre tudo que me deixa pensativo sobre esse assunto atualmente). Desta vez, o tópico é salada. No Orkut, já fui membro de uma comunidade intitulada “capim é pra cavalo!”. Admito, salada tem gosto ruim. Rúcula é amarga, alface não tem gosto de nada e tomate, bem, tomate até que é gostoso. Apesar de tudo isso, sempre soube que salada é saudável e que é necessário comer um pouco por dia. Só depois de 17 ou 18 anos de vida me disciplinei a pegar salada nos bifes e restaurantes em que como. No RU, eu sempre pego um pouco, por mais medonha que seja a aparência, e como junto com o feijão e com o arroz para disfarçar o gosto. Na casa dos meus pais, como com óleo de oliva, que é muito gostoso (e bom para o coração ou algum órgão vital do corpo, dizem por aí). Aqui no meu apartamento, contudo, salada é coisa rara: quando tem, eu não pego, apodrece fácil, vai fora, e concluo que salada é dinheiro posto fora. E assim, abandono qualquer plano de ter um estoque de alface e tomate na minha geladeira.

Não descarto a possibilidade de, um dia, comprar salada em quantidade razoável para consumo próprio aqui em Porto Alegre. Mas, no momento, vou empurrando com a barriga o dia tomarei esta decisão. Acho que preciso, primeiramente, me acostumar a comer coisas saudáveis mais gostosas, como frutas, e ir gradualmente comprando capins mais agradáveis ao paladar, como tomate e beterraba, para só então partir para os extremos, como rúcula.

Aqui perto de casa tem um restaurante de comida chinesa que só serve pratos vegetarianos. É gostoso comer lá, apesar de caro. Até eu me acostumar a comer menos carne e mais salada, vou almoçando por lá e no RU.

Ainda mais algumas notas sobre minha alimentação

Como ainda estou embalado, decidi escrever um terceiro post sobre meus hábitos alimentares: o hábito de comer carne. Vegetarianismo e carnivorismo são dois movimentos alimentares tão opostos quanto Grêmio e Internacional. De minha parte, estou dividido entre os dois.

Há muitos argumentos contra o consumo de carne – religiosos, éticos e científicos. Como este não é o lugar para ficar falando extensamente sobre a questão de comer carne ou não, citarei apenas os principais: infligimos sofrimento aos animais, que são nossos semelhantes e não possuem meios de defenderem-se do ser humano, o que gera karma. Além disso, um número considerável de pesquisas científicas tem demonstrado que comer carne faz mal para a saúde em diversos aspectos, e que o consumo de vegetais (frutas, legumes e verduras) é extremamente saudável. Em contrapartida, também há argumentos religiosos, éticos e científicos em defesa do consumo de carne, a saber: Deus criou os animais para servirem o ser humano, o que inclui a alimentação; nos preocupamos com os animais e não com as pessoas morrendo de fome, e, para coroar tudo, há um número igualmente considerável de pesquisas demonstrando exatamente que consumir carne faz bem para a saúde, e que ingerir apenas vegetais pode ser danoso à saúde.

Não vou discutir se estes argumentos são válidos ou não (aposto que alguém vai fazer algum comentário sobre isso). Quero apenas enumerá-los para mostrar como a questão é complexa. Como já disse, sinto-me dividido entre comer e não comer carne. O argumento de que causamos sofrimento desnecessário aos animais ressoa muito fortemente dentro de mim, da mesma forma que não somos superiores a eles. Continuo a comer carne, contudo, por diversos motivos. O primeiro deles é por que é gostoso. Fui criado comendo carne, e admito que gosto.O segundo motivo é comodismo: o RU da Saúde é ótimo, mas não dá muita trela para vegetarianos, e eu não gosto da idéia de negligenciar minha dieta por um idealismo que não faz sentido para mim, pelo menos não agora. O terceiro, e talvez mais importante motivo, é justamente a minha saúde – não acho que as pesquisas científicas de ambos os lados tenham chegado à conclusão definitiva alguma. Poderia deixar de comer carne, mas não sei o que comeria em seu lugar. Carne de soja? Tem gosto de sola de sapato. E não, nunca comi sola de sapato, mas só queria usar um comparativo que deixasse claro que abomino o gosto do supracitado alimento. Já ouvi vegetarianos dizerem que carne de soja tem o sabor que o cozinheiro desejar, desde que este saiba o que está fazendo com as panelas, mas não sei não. Além disso, não conheço muitos modelos alimentares vegetarianos confiáveis. A quintessência da alimentação 100% sem carne, para mim, é a macrobiótica, e não a vejo com bons olhos. Segundo ela, não poderíamos comer feijão com arroz, por que o primeiro é um legume, e o segundo uma semente, ou alguma babaquice sem fundamento do gênero (tá certo, o fato de ter ouvido uma pessoa sem o menor conhecimento de Nutrição falar isso com a maior convicção do mundo ajudou a moldar minha opinião, mas isso não vem ao caso). E histórias que ouvi de gente que passa uma semana só comendo arroz integral me soam absurdas.

Apesar das minhas dúvidas, não fiquei paralisado. Seguindo o conselho do meu antigo professor de Kung Fu, parei de comer carne de gado e de porco, e, exceto em situações extraordinárias (o RU servindo bife na chapa e eu ter só R$ 1,30 no bolso e nada pra comer em casa), como só carne de frango e peixe. A lógica por trás desta decisão é tão científica quanto a explicação macrobiótica para não comermos feijão com arroz, mas fez sentido (e por confiar no meu professor): primeiro, paro de comer carne de animais de quatro patas; depois, de duas patas, e, por fim, deixo de comer qualquer tipo de animal, tenha ele patas ou não. Esse processo é gradual, e não me faria ter uma “crise de abstinência carnívora”, e me acostumaria aos poucos com uma dieta mais vegetariana.

Mais algumas notas sobre minha alimentação

Outro assunto referente à minha alimentação são os líquidos que bebo. Normalmente, não ingiro bebidas alcoólicas, por achar que têm gosto ruim (exceto quando são doces, como caipirinha) e que os efeitos colaterais não compensam qualquer desvantagem social de ser abstêmio. Também não bebo refrigerantes, por ter sentido na pele a influência devastadora que eles exercem sobre a resistência e capacidades físicas: fui competir numa prova de 3200 metros depois de comer um cachorro-quente e tomar uma Coca-Cola, e não me lembro de nenhuma outra situação que eu tenha desejado tão ardorosamente morrer, tão desagradável a experiência foi. Tomo, contudo, muitos sucos. Prefiro os naturais, mas os de caixinha industrializados são gostosos e saudáveis, pelo menos aparentemente. Normalmente, é bem tranqüilo para mim não beber álcool ou refrigerante, mesmo em situações que só haja estes dois tipos de bebida e comida muito salgada.

No ENEP, contudo, eu relaxei a disciplina, e bebi muito refrigerante – Coca-Cola principalmente, mas bastante Guaraná. Racionalizei que ENEP só acontece uma vez por ano, e poderia curtir tanto quanto pudesse, desde que, de volta em Porto Alegre, eu começasse um programa de purificação corporal. Antes do ENEP, não ingeria muito da boa e velha água mineral. Por isso, decidi que passaria pelo menos uma semana sem tomar sucos, naturais ou industrializados, e beberia só água nas refeições, que seriam regulares. A exceção desta regra foram as bebidas “grossas”, como o leite de vaca e de soja, que bebo no café da manhã e após os treinos. Talvez esta decisão tenha sido um erro, mas me parece plausível que, ao acordar, eu precise de mais energia que um copo de água pode me oferecer, e que depois de exercício físico, eu precise repor mais proteína e todas aquelas coisas de nome complicado que os nutricionistas falam do que de costume.

Não segui, contudo, essa minha dieta à risca. Na quarta-feira, na festa do sushi da minha turma, tomei caipirinha (com efeitos já bem conhecidos por meus leitores). Decidi, como forma de compensação, estender até a próxima quarta-feira meu regime de água. Outro erro que cometi foi beber leite demais, tomando três ou quatro copos bem servidos (o suficiente é um e meio, segundo meus cálculos e intuição). Estou considerando a opção de estender por mais alguns dias para compensar este excesso, mas não sei determinar quanto tempo mais.

Algumas notas sobre minha alimentação

Comida! Um assunto muito importante para todo ser humano. É base da hierarquia de necessidades de Maslow, algo que nos mantém vivos e felizes. Pesquisando pela palavra “comida” no Google, aparecem aproximadamente 46.700.000 resultados. Claro, é uma pesquisa tão rigorosa quanto, digamos, ficar discutindo psicopatologias de personagens literários, mas dá uma mostra de quão importante comer é para nós.

Quando um determinado assunto é importante, ele é levado em consideração de diversas maneiras por diferentes pontos de vista. Acredito ser razoável dizer que todos os sistemas religiosos do mundo possuem um código de conduta relacionado à boa alimentação. Judeus e muçulmanos não comem carne de porco, alguns hindus não comem carne nenhuma, outros chineses não comem alho ou cebola, por motivos tão variados quanto é possível. Como era de se esperar, há um campo de pesquisas científicas sobre alimentos e saúde, as Ciências da Nutrição, que, apesar de crença em contrário, vêm ampliar e apoiar os esforços espirituais por uma vida mais pura. Cientistas e místicos podem não concordar em tudo, por exemplo, em relação à carne, mas são atritos necessários para o progresso.

Comecei a ler esta semana a autobiografia de Mohandas Gandhi, “Minha Vida e Experiências com a Verdade”. Neste livro, o aclamado Pai da Índia (ele provavelmente detestava esse título, por isso o aclamado) fala, além de seu envolvimento com política e resistência não-violenta, de seus experimentos alimentares comportamentais, que praticava em busca de maior harmonia e com o mundo e a Verdade. Eu próprio, como um buscador da Verdade tenho feito algumas tentativas de melhorar minha alimentação. Tento várias abordagens diferentes ao mesmo tempo, mas no momento, desejo falar da minha busca por comer mais frutas.

Casa de solteiro homem universitário é uma tristeza, pois as únicas criaturas que se alimentam bem em tal recinto são as formigas e as baratas. O webcomic PhD frequentemente faz piada disso, debochando do grande gosto que os estudantes de pós-graduação dos EUA têm por Cup Noodles e Miojo (por lá conhecido como Ramen). Admito que muitas das insuficiências alimentares que enfrento são devidas à preguiça, mas meu desconhecimento das artes culinárias e caseiras muito contribuiu para que eu seja um cliente assíduo do RU (que, diga-se de passagem, oferece uma dieta bastante balanceada, ainda que bastante carnívora).

Minhas experiências de comprar frutas começaram fazem dois ou três meses, quando, passando na frente de uma banquinha perto da rodoviária, resolvi comprar uma manga. Comi no mesmo dia. Verde. Não sei, ainda, diferenciar frutas maduras das verdes, nem em quanto tempo elas amadurecem. Por essas e outras já joguei muita laranja fora por deixar “passar do prazo”. Tenho comprado, com certa freqüência, maçãs, que são relativamente baratas e gostosas, além de fáceis de comer, já que não precisa descascar nem nada. Já comprei pêras também, mas deixei elas um pouco de lado depois de perceber que, mais uma vez, eu não sei a diferença entre verde e maduro. Quando compro frutas, tento comê-las o mais rápido possível, para que não apodreçam, mas isso já me custou muito gosto ruim na boca por ingeri-las antes do ideal (indigestão, contudo, não tenho tido, pois me acostumei com essa vida dura).

Minha última “descoberta” (na verdade, dica do Marcelo, outro morto de fome sovina) foram as bananas: elas vêm em quantidade, são baratas, versáteis e fáceis de descascar – verdadeiros coringas em dias de fome. O inconveniente delas é o apodrecimento veloz. Comprei uma penca no início desta semana, e acabei com elas agora há pouco. Como vou para Caxias esta tarde, decidi comer todas, para que não fossem fora. Havia três sobrando, o que me fez pensar “por que não as amasso e como com açúcar e toddy?” Minha mãe fazia isso direto pra mim quando era pequeno – e eu gostava. Por que não iria gostar agora? Além disso, não devia ter nenhum segredo em pegar um garfo e ficar pressionando as bananas até elas virarem pasta.

Essa minha ilusão de ser uma barbada foi por água abaixo quando comecei a amassá-las. Credo, como pode uma fruta tão mole oferecer tanta resistência? Estava sozinho na cozinha, mas se tivesse alguém por perto, ele certamente riria dos meus achaques histéricos perante o prato empapado de fruta. Por fim, depois de muita briga, peguei o jeito, e logo as bananas estavam tão amassadas que um desdentado poderia ingeri-las sem problemas. Peguei o açúcar, o Toddy, uma colher e comecei a espalhar pelo prato. O açúcar eu misturei com a pasta, mas o Toddy eu deixei por cima. Por causa de um telefonema, deixei o prato parado por alguns minutos, e o achocolatado foi absorvido pela banana, criando uma mistura entre amarelo-banana e marrom-chocolate até que bonito. Pena que não durou o suficiente pra tirar uma foto.

O meu problema em comprar frutas é a falta de hábito: sei que me faz bem, mas se não faço um esforço consciente, quando vou ao mercado dificilmente as compro. Acho que estou revertendo isto, pois está mais fácil ir ao Zaffari e sair com duas maçãs (tudo devidamente pago, claro). Vou comprar bananas com mais freqüência daqui em diante, provavelmente tentando alternar com maçãs. Gradativamente, vou comprando mais tipos de fruta diferentes, como pêras, mangas, laranjas, bergamotas e talvez até mesmo limões.

Argonautas do Asfalto - Parte IV

Antes de começar o relato propriamente dito, gostaria de abrir um parênteses, e dizer que, talvez não tenha sido a melhor das escolhas falar sobre o ENEP cronologicamente, pois, de certa forma, ele está além do tempo. O Marcelo bem disse que cada um viveu seu próprio ENEP. Eu acrescentaria que cada um o viveu em seu próprio tempo.

O quinto e último dia oficial de encontro chegou, e com ele, um ar cheio de alegria e tristeza. Alegria pelo o que vivemos, e tristeza pela despedida, precoce na opinião da grande maioria dos participantes. A plenária final tomou lugar no centro do alojamento. Bem diferente da do ano anterior, foi apenas um círculo informal, sem frescuras burocráticas para falar ou votar: bastava chegar ali e dar sua opinião. Apesar deste clima mais livre, evitei tanto quanto pude participar dela: não estava lá para aquilo.

Nossa sociedade se dividia e dissipava pelo Brasil: Karol ficaria em Campo Grande, para ir num show; Lucas e Natanael decidiram ir para Belo Horizonte com o pessoal de Minas Gerais que estava por ali; Roger voltaria mais cedo de avião, enquanto que eu, Marcelo, Chico, Dani e William pegaríamos o primeiro ônibus que pudéssemos; os porto-alegrenses voltariam para Porto Alegre, e o William voltaria para aquela cidade dele cujo nome não me recordo. Mas é uma cidade amável, tenho certeza.

Para nossa insatisfação, não conseguimos passagem alguma para aquele dia, e teríamos que ficar mais uma noite no alojamento, quando o evento já tivesse acabado e os seguranças ido embora. Mas nossa insatisfação não foi tão grande, pois ninguém estava tão interessado assim em encarar mais 20 e tantas horas de viagem para voltar a fazer o que sempre fazemos em casa.

As despedidas tomaram conta do ENEP – tínhamos que dar adeus não só as pessoas que conhecemos ou reencontramos, mas do alojamento, das capivaras, de Campo Grande e de toda a experiência transformadora que foi este encontro. Para onde quer que olhássemos, víamos aspirantes à psicólogos fazendo isso. Dei meu adeus para tudo aos poucos: primeiro dos amigos, depois do alojamento e, por fim, da cidade. Da menina do vestido amarelo, despedi-me pelo menos quatro vezes. Não me despedi, porém, do próprio ENEP, pois ele continua a acontecer dentro de mim, pois as marcas que em mim deixou são indeléveis.

Pouco a pouco, aquele espaço vibrante e cheio de vida que era o Moreninho foi esvaindo-se, esvaziando-se, e onde havia anteriormente um grande acampamento colorido foi transformando-se novamente em um grande piso de madeira, frio e vazio. Pouco a pouco, as pessoas foram indo embora, mergulhando aquele ginásio cada vez mais no silêncio. Houve, contudo, um movimento de resistência contra isto – nos unimos e cantamos juntos, por uma última vez em Campo Grande, todas as besteiras que aprendemos nesse tempo de faculdade, fizemos aquelas dancinhas ridículas e humilhantes e afastamos, ainda que por um breve instante, o pensamento que logo iríamos embora, e por um breve instante, vivemos uma vez mais o ENEP em toda sua força.

Esse instante acabou, e cada um foi para seu lugar. Tentei ir dormir mais cedo, mas acabei indo parar no churrasquinho atrás do ginásio, e conversando com um colega de artes marciais de Porto Velho, RO. Após a conversa acabar, esbocei uma tentativa de leitura, mas ela soçobrou diante meu sono.

Na manhã que se seguiu a última noite de festa, fomos de carona para a rodoviária. Eram nossos últimos momentos na capital do Mato Grosso do Sul. Nos despedimos de William, que iria em outro ônibus, e embarcamos para nossa viagem de volta. Nas trinta horas que se seguiram, em todas as paradas e durante o caminho, o silêncio foi nosso mais constante companheiro. Mas este silêncio já não era o mesmo da ida, pois nós também não éramos os mesmos. Não havia constrangimento ou vergonha no fato de permanecermos quietos – talvez o cansaço tenha contribuído para esta situação, mas havia algo maior por trás de tudo. Este silêncio era fruto e símbolo da profunda amizade que brotou entre nós, argonautas do asfalto, que decidimos, juntos, buscar a riqueza, a aventura e a loucura em Campo Grande, no Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia. Nós tivemos a coragem e o desapego para viajarmos mil quilômetros, e sofremos e sorrimos juntos. Se tivéssemos viajado em um grande grupo, nossa jornada não teria o mesmo significado que teve e tem até agora. Nenhum de nós é o mesmo agora.

E assim, concluo minha breve narrativa sobre o ENEP. Ano que vem tem mais: EREP Maringá e ENEP Belo Horizonte. Até lá, quando desbravaremos mais rodovias do Brasil.

O Direito de Sonhar e o Dever para Realizar

É fácil sonhar. É fácil imaginar como as coisas seriam se pudéssemos morar em outra cidade, estudar em outra faculdade, arranjar um trabalho e ganhar nosso próprio dinheiro. É realmente fácil. Todos temos o direito de sonhar, mas junto com este direito, vem o dever de fazermos tudo ao nosso alcance para torná-los algo mais que doce quimera. E onde o direito vira dever que as coisas começam a tornarem-se difíceis. Quando sonhamos, viajamos em nossa própria mente para um mundo ideal, onde as coisas acontecem como queremos, mas no mundo real, tudo permanece igual. Mas quando buscamos mudar isto, fazer realidade de nossos sonhos, nada é fácil.

Realizar um sonho é sempre uma tarefa solitária. Podemos contar com a ajuda de pais, amigos e parentes, mas no final das contas, está tudo sobre nossos ombros. E o caminho para realizarmos o que buscamos é árduo, longo e envolto na névoa misteriosa do futuro, que tudo promete, mas tudo esconde e muito nos engana. O futuro é sempre promissor, mas nunca certo. E, diante desta incerteza, desta solidão, já vi muitos amigos e conhecidos meus desistirem, e meramente aferrarem-se ao seguro e conhecido, por mais desagradável e indesejável que ele seja, e por mais brilhantes que suas esperanças fossem. Frequentemente, alegam que “o mundo” não permitiu que realizassem seus sonhos. Asneira! O mundo não está aí para nos dar respostas ou coisas prontas, mas para ser um desafio para nosso caráter e força de vontade! Nele, estão todas as ferramentas que precisamos para transformar sonho em realidade, e todo o material para construirmos nosso castelo nas nuvens. Devemos, contudo, não nos acomodarmos com o que é confortável, nem nos desanimarmos com as oportunidades que perdemos. Para cada porta que se fecha, outras três se abrem para nós. É preciso, entretanto, estar atento para elas.

Estamos aqui para nos tornarmos tudo que podemos ser, e há poucas coisas que considero tão tristes quanto alguém que poderia ser grande, um símbolo de coragem e perseverança para toda a humanidade, mas prefere ser um pouco mais do que nada, por ter medo do que terá de enfrentar. Choro por todos os sonhos que morreram antes de nascerem! Como seres humanos, somos frágeis e finitos, mas através de nossa coragem para realizarmos nossos sonhos, nos tornamos imortais, mesmo que no fim nada dê certo. “É melhor que alguém cumpra sua própria tarefa como puder, mesmo falhando, que assumir deveres dos outros, embora pareçam bons” diz o Bhagavad Gita. Talvez o que os outros desejam para nós seja mais belo ou mais grandioso, mas somos nós quem devemos decidir qual é a verdade de nossa vida. De certa forma, sermos nós mesmos da forma mais autêntica e profunda é atingir a imortalidade, e qualquer ato contra esta auto-realização de quem quer que seja é o maior crime que pode ser cometido por um homem ou uma mulher.

Por isso te peço, ó desconhecido que lê estas palavras, que não desista do teu sonho, por mais distante que ele pareça. Não quero fazer coro com as vozes do desânimo, e dizer-te que nada podes fazer, e encher-te o coração de desespero. Já há pessoas demais fazendo isto! Prefiro ser aquela voz distante, porém segura, que te encoraja a fazer o impossível. Vai, contra todas as probabilidades, te lança no desconhecido e conquista teu destino! Torna-te eterno através da tua audácia e da tua sinceridade, mesmo que por um segundo apenas. Vai, e faz aquilo que ninguém antes conseguiu. Quem sabe tu não consigas? Vai, e mostra para este mundo cruel, pessimista, materialista e cego que a força do teu espírito é a maior de todas as forças.