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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Considerações filosóficas de final de tarde sobre educação

Atendendo muitos adolescentes, eu fico impressionado com a atitude que muitos pais têm em relação ao comportamento dos seus filhos. Quando eles vêm falar comigo, sempre fazem questão de dizer "doutor, eu dou tudo pra ele: roupa de marca, comida da boa, TV da Sky, me esfalfo trabalhando por ele e ele se comporta desse jeito! Tem cabimento, doutor?"

Nessa hora, ao ouvir tão fatídica pergunta, eu me faço de morto, mas normalmente preciso me controlar para não perguntar de volta "mas o senhor ensina ele o que fazer ao invés de agir dessa maneira?" Me controlo, por que tenho medo de desorganizar esse pai ou essa mãe, colocando no colo dele ou dela uma responsabilidade muito grande, que talvez eles não percebam possuir: a educação do seu filho.

Não quero defender apenas um lado aqui: normalmente, os adolescentes (e as crianças) que eu atendo fazem coisas terríveis. Mas daí eu pergunto: onde estão os adultos para controlar ela? Quem vai lá, aponta o que está errado e ensina como fazer direito? Se eu fizesse todas estas perguntas, aposto que duas coisas aconteceriam:

1) O pai/mãe ia me dizer "mas doutor, eu já estraguei todos os meus cintos e chinelos de tanto que bati nesse guri!"
2) Eu ia perder o paciente, por que o pai/mãe ia se sentir ofendido.

Ofender só funciona em um lugar nesse mundo: no seriado House, e olha que mesmo lá ele já teve sua cota de sofrimento por pisar nos calos da pessoa errada. Além disso, ofender seria incorrer no mesmo erro que esses pais incorrem: machucar ao invés de ensinar. Tomar uma surra ensina que não dá pra ser pego, e que se você consegue fazer o que quer sem que ninguém saiba, está tudo certo. Xingar na terapia também: se o doutor não souber, não acontece nada. É uma maneira primária de pensar, e a maioria dos meus leitores devem estar muito acima dela. Entretanto, não dá pra dizer o mesmo de grande parte da população.

Então, pra finalizar esse post, vou dizer algumas pérolas de senso-comum, mas que a experiência como psicoterapeuta me mostraram serem verdadeiras. A primeira é que "pai é quem cria", está lá, presente em nossos sucessos e também em nossos fracassos. A segunda é "bater não é educar" - se surra adiantasse alguma coisa, os presídios estariam cheios de santos e almas iluminadas, e não seriam considerados os piores lugares para se passar a vida. Terceiro, o ensino mais eficaz é o exemplo, a presença. Eu posso fazer meus filhos lerem vários tratados filosóficos sobre Ética, mas se eu não mostrar, através do meu comportamento, como colocar isso em prática, tudo o que eu vou estar fazendo é ensinando eles a justificarem os próprios erros. Justificativas normalmente não servem para nada, por que elas normalmente visam tornar correto o incorreto, ao invés de corrigi-lo e mudá-lo. E, em quarto e último lugar, o que vale para meus (no momento hipotéticos) filhos, vale para meus pacientes também: se eu quero que eles ensinem seus filhos a serem mais educados, eu tenho que ensinar da maneira que eu considero correta.

sábado, 12 de junho de 2010

Meu Dia em Imagens

Hoje, sábado, 12 de junho, é Dia dos Namorados. Neste exato momento, pelo menos cinco casais apaixonados se beijaram em Gramado, três trocaram presentes e quatro fizeram sexo em lugares públicos. Eu, por estar solteiro, não fiz nenhuma dessas coisas, por que eu estou no meu estágio, esperando os pacientes da tarde chegarem. Pois é, comecei a trabalhar no sábado de tarde também. Como vocês podem perceber, este é um assunto transbordando de drama, e, como vocês bem sabem, eu poderia escrever páginas e páginas de imbecilidades sobre este drama inócuo, mas hoje decidi adotar uma abordagem diferente. Ao invés de descrever detalhadamente tudo o que penso ser ridículo na situação de hoje, eu vou postar uma foto que, na minha opinião, resume tudo:


Feliz Dia dos Namorados para quem tem um(a). Para quem não tem, espero que vocês tenham algo melhor que livros, bergamotas e twitters para se entreter.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ensaios Evitativos - O Telefone e o Paciente

Em Psicologia, é considerado prática antiética falar sobre os seus pacientes para pessoas não envolvidas no caso. Por exemplo, vocês nunca vão me ver falando de um paciente específico aqui no blog, a não ser de uma maneira muito vaga e genérica, para que se torne impossível dele ser identificado por qualquer um que não seja o House. Assim sendo, podemos falar de nossa vida profissional, contanto que não envolvamos aqueles que atendemos.

Eu enrolei um parágrafo inteiro só pra dizer que eu detesto ter que ligar pra paciente que faltou atendimento.

Convenhamos, é um saco. Primeiro, por que eu atendo de graça, já que meu estágio é uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Hoje eu sou bolsista e ganho 360 reais para trabalhar aqui (apesar da UFRGS só ter depositado 204 reais na minha conta esse mês), mas eu trabalhei um ano aqui inteiramente no amor à camiseta. É uma sacanagem ter consulta grátis e não aparecer. Segundo, eu não gosto de telefones. Toda a situação de telefonar para alguém é bastante desconfortável, e esse desconforto só piora quando o telefonema envolve algum tipo de cobrança. A tudo isto, adicione o fato que, no meu caso, muitas vezes o número telefônico que eu tenho para chamar meus pacientes não é dos pacientes propriamente ditos, e sim de alguém que por acaso mora ou trabalha num raio de 4km da casa do dito paciente. Então, conversas do seguinte tipo são bastante comuns:

Eu- Oi, bom dia, meu nome é Andarilho, eu sou estagiário aqui do Ambulatório da UFRGS, e eu gostaria de falar com a Josmarie*.
Outro- Quem? Não tem ninguém aqui com esse nome. O senhor se enganou!
Eu- O telefone aí por acaso é XYZW-XXYW?
Outro- Sim, é esse mesmo, mas o senhor se enganou!
Eu- Não, eu não me enganei. Não tem ninguém que more aí perto que se chame Josmarie?
Outro- Aaah! Tem a Josita, que trabalha comigo aqui na loja, mas ela mora na outra rua e hoje ela não tá em casa.
Eu- Ai que orgásmico.
Outro- O senhor falou alguma coisa, moço?
Eu- Não, nada. Quando que eu posso ligar de novo?

Em suma, bastante complicado. Para ser sincero, este tipo de diálogo saído de uma esquete do Monty Python é relativamente rara. O que é mais comum, contudo, são as conversas altamente desconfortáveis, daquelas que algum personagem de "Friends" chamaria de "Awkward", como esta:

Eu- Oi, é da casa do Robertvaldson*?
Outro- Aqui é a mãe dele, quem gostaria?
Eu- Bom, meu nome é Andarilho, e eu sou estagiário lá na UFRGS. Eu estou atendendo o Robertvaldson, mas ele faltou a última consulta. O que aconteceu?
Outro- Ah doutor, é que a gente decidiu não ir mais.
Eu- (levemente irritado e surpreso) Como é que é?
Outro- Assim doutor, ele não gostou muito de falar sobre as notas dele no colégio com o senhor, daí a gente achou que era melhor ele não ir mais.
Eu- (tentando manter a civilidade) Ele, não, gostou... de falar das notas dele no colégio, é isso mesmo que eu ouvi?
Outro- É doutor.
Eu- Ele está quase rodando na escola, correto?
Outro- Sim doutor, mas...
Eu- (psicopata) E nós mal estamos na metade de maio, certo?
Outro- Sim, só que...
Eu- (com sede de sangue) E ele não quer mais vir para os atendimentos por isso, e a SENHORA deixa, não?
Outro- Sim, mas tem que ver doutor que...
Eu- O que que o Conselho Tutelar acha disso?
Outro- Não sei.
Eu- Pois eu vou descobrir pessoalmente. Bom dia.
*tuu tuu tuu tuu*

Nunca aconteceu nada exatamente assim comigo, porém eu já fui confrontado com questão parecida. E isto me leva ao terceiro ponto que me irrita em fazer telefonemas para pacientes: eu detesto confrontamento, e em muitos casos, não tenho coragem de dar a cara à tapa por que "vai ficar chato". Não vou dar mais detalhes a respeito do caso, mas eu já tive (pai de) paciente que decidiu interromper tratamento por que não gostou de algo que eu disse, e eu só não acionei o Conselho Tutelar por que a coisa não ia ser nada bonita para ninguém. Isso, e por que ia ficar chato.

Escrevi este texto inteiro pra dizer que eu não gosto de ligar pra paciente, por que aqui do meu lado tenho uma folha com nome e telefone de alguns casos que precisam ser retomados, e eu não estou nem um pouco a fim de fazer isto. Porém, eu preciso, e talvez escrever aqui me ajude a parar de enrolar e encarar este fato da vida.




* Nome fictício mas muito verossímil.

terça-feira, 30 de março de 2010

It never gets easy

A maioria das profissões por aí ficam mais fáceis com o tempo. Com a prática, nos acostumamos com as dificuldades, e o que antes nos causava grande impacto começa a passar despercebido. Psicoterapia, entretanto, não é uma dessas profissões, por que o paciente deprimido desta semana te afeta tanto quanto o primeiro que você atendeu. E, francamente, não há como as coisas serem de outro modo: ou você se afeta, ou vira policial. Mais uma vez percebi essa dolorosa necessidade de sentir a dor dos outros, e penso que vou sentir muitas vezes mais. E se quero ser um bom psicólogo, é isso mesmo que tenho que fazer.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 3)

Há certas pessoas na mídia brasileira que todos conhecem pelo nome, estão sempre aparecendo em jornais, revistas e programas de TV, que são famosos em fim, mas que ninguém sabe exatamente por que. Nana Gouvêa é uma dessas pessoas.

Esse é o maior mistério em todo o submundo das celebridades brasileiras: o que faz Nana Gouvêa? Para solucionar este mistério, não poupei esforços, e digitei o nome dela no Google. A primeira página que aparece na pesquisa é o site oficial dela. Esperando encontrar ali a informação que responderia minha pergunta, cliquei no link. O site é divido em apenas quatro seções. A primeira seção é uma biografia, que é tão curta que vou copiar pra cá na íntegra:

"Nana Gouvêa, atriz, formada em Cinema e TV pela Faculdade da Cidade. Iniciou na carreira artística aos 10 anos como modelo fotográfico. Aos 17 já representava as maiores e melhores marcas como Ellus, Fórum, Zoomp, De Millus, entre outras. Como atriz, Nana Gouvêa apresenta trabalhos em novelas, minisséries, especiais, programas semanais e cinema."

E isso é tudo, pessoal! Esse texto parágrafo é a coisa mais vaga pouco informativa que li essa semana, começando pela formação acadêmica da nossa conhecida. "Cinema e TV", na Faculdade da Cidade? Pelo naipe, tem cara de ter se formado em uma UniEsquina, em um curso que apareceu do chão tipo cogumelo. E Faculdade de Qual Cidade? O Brasil deve ter, sei lá, umas 3 mil cidades. O nome me diz tanta coisa quanto uma mancha do Teste de Roscharch. Google neles de novo, minha gente! O mais próximo que eu cheguei foi na Faculdade da Cidade de Salvador. Mas é lá mesmo? Não consta entre os cursos de graduação "Cinema e TV" (consta, porém, Psicologia). Algo está errado aqui. O que fazer? Apelar para a Wikipédia, a fonte de conhecimento mais confiável depois da opinião pessoal dos taxistas de Porto Alegre. E sim, ela tem uma página lá, o que só reforça a noção de que ela é uma celebridade. Quem sabe esse artigo da Wikipédia esclareça bem a profissão dela.

E, como eu esperava, há bem mais informação sobre Nana na Wikipédia do que em seu site pessoal. Ela é natural de Jataí, também conhecida como a Princesinha de Goiás (ou Cidade abelha, sabe-se lá por que) e é caracterizada pela Wikipédia como atriz e modelo. A palavra da Wiki é Palavra de Deus. Porém, eu sou da opinião de que eu não vou virar engenheiro só por que todo mundo me chama assim, e o mesmo vale para a amiga Nana. Vamos ver que trabalhos ela fez, então. No site dela, há outra seção, apropriadamente nomeada "TV". Como o site dela foi feito com um programa de flash bagaceiro que não deixa copiar textos, e eu estou com menos paciência agora do que quando comecei a escrever este post, vou só colar um printscreen que dei da página dela:


Como estou cheio de trabalhos para fazer para a faculdade não tinha nada melhor para fazer, olhei um por um os especiais, minisséries e novelas que são listadas tanto no seu site quanto na Wikipédia. E, para minha surpresa, ela é listada como atriz apenas em "Faça sua História", no sétimo episódio, no papel de "Veranista".

Foi então, e só então, que percebi um estranho padrão. A Wikipédia, além de listar as "participações" de Nana na dramaturgia televisiva, lista também a aparição de nossa amiga em capas de revista, e todas em que ela apareceu foram revistas de estética/beleza. Ah, mas essas não foram as únicas revistas que Nana Gouvêa expôs seus dotes! A Wikipédia faz uma lista em separado das revistas eróticas para a qual posou nua: 4 capas da Sexy e 2 da Playboy (sem contar as que ela não foi capa). Na pesquisa no Google, com a exceção do site pessoal dela, todos os resultados são de fotos e/ou vídeos seus em trajes mínimos ou inexistentes (o melhor deles é um intitulado "OS CAÇA PEITOS" do Domingo Legal). Por Aslam, eu não sei nem por que eu considerei o site dela uma exceção à regra, por que as duas seções que restam do site são a galeria, onde há uma subseção só para fotos dela no carnaval, e a de capas de revista, onde, de 14 capas, 9 ela se encontra em posições altamente eróticas (eu contei a capa que ela está no meio de dois machos como uma insinuação de sexo grupal).

O que é Nana Gouvêa? Agora somos perfeitamente capazes de responder que ela é Gostosa. Não apenas esteticamente, mas profissionalmente também, pois ser Gostosa é o ganha pão de Nana Gouvêa, tanto quanto ser Arquiteto é para Niemeyer, ser Médico para Gregory House e ser Fresco para Leão Lobo. É a vocação dela, e é por isso que ela frequentemente aparece na nossa frente, expondo suas carnes para quem quiser ver, e assim será até o final dos tempos (ou quando ela começar a embarangar, o que vier primeiro).

Agora, vocês devem estar se perguntando, por que eu escrevi um post inteiro sobre a (falta de) profissão de Nana Gouvêa? E por que usando o mesmo título da série onde falo sobre minhas experiências televisivas no estágio? Simples, essa semana, durante uma das minhas rondas, acabei assistindo o programa da Sílvia Poppovic (outra criatura que me espanta), onde ela, Nana Gouvêa e outras mulheres discutiam o casamento gay. É por essas e outras que quem trabalha em Hospital Psiquiátrico ganha insalubridade.

E numa nota não relacionada ao assunto do texto, Nana Gouvêa tem duas filhas, o que faz dela uma MILF oficial.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fragmentos de um dia no estágio

Chego uma hora atrasado por que o céu decidiu cair na minha cabeça antes de eu sair de casa. Caminho a passadas largas em direção ao Quartel-General da equipe, a Casa 6, mas sou parado antes por um morador, que me chama animado. Entro na casa dele e tento pôr seu rádio para funcionar.

Tomo meu rumo novamente. Entro na Casa 6, mas quase imediatamente saio de novo, e vou em direção à casa de outra moradora. Coloco um CD de músicas gauchescas para tocar lá e saio de novo. Encontro meu supervisor e os residentes. Sigo a corrente e vou com eles visitar uma paciente "lá de cima", do Hospital. Vamos tomar café no barzinho do outro lado da rua, mas acabo pedindo uma Fruki Guaraná, que vem em garrafa de cerveja. Penso que é o melhor refrigerante de guaraná já feito na história da humanidade.

A paciente fala em francês com um residente. O outro não fala nada. Eu falo para meu supervisor sobre todas as maneiras em que um ônibus pode causar enxaquecas. Os residentes vão embora, e ficam só a paciente, meu supervisor e eu. Meu supervisor começa a falar algo sobre mim e como eu tenho feito diferença no local de estágio, mas ele é interrompido e não retoma essa conversa (para minha infelicidade). Conversamos sobre a língua francesa, a língua espanhola, Argentina e Caribe. Alguém na mesa pede um martelinho de cachaça de abacaxi. Tomo um gole que desce queimando meu esôfago.

Voltamos para as casinhas, conversando sobre como curar dores de cabeça induzidas por ônibus problemáticos. Passo na casa em que deixei tocar o Teixeirinha - uma moradora diz que adorou e pede se pode ficar com CD. Fico feliz. Vou para a casa de outro morador, que não abre a porta para mim pela primeira vez desde que comecei a estagiar ali por que está muito cansado. You win some, you lose some. Deixo ele em paz.

Vou para casa cansado e com fome. Um dia normal e estranhamente atípico.

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Talvez, quando vocês lerem esse texto, achem ele bastante estranho. De fato, ele é, mas foi escrito para ser assim, fragmentário como percebi este dia. Queria escrever um monte de acontecimentos diferentes sem ligação lógica e ver como ficava. Não se preocupem, no próximo post escreverei como uma pessoal normal novamente e não como o Paulo Coelho.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 2)

Mais um dia de estágio, mais um dia de exposição às ondas televisivas. Fui na casa de um morador, para ver como ele estava e conversar um pouco. Como era de praxe, a TV estava ligada. Se serve de consolo, pelo menos desta vez ele não estava sentado no sofá semi-morto, mas tomando seu café da tarde na mesa ao lado, onde se podia apenas escutar a TV. O programa que assistiamos hoje não era nem um filme ruim de doer, nem aquele programa de velhas fofoqueiras com sede de sangue que é o "Brasil Urgente" do Datena - era o show da Márcia. Para os abençoados que não lembram ou são jovens demais para lembrar, aqui vai a maldição do conhecimento - depois que vocês lerem este post, nunca mais esquecerão. Resumidamente, essa Márcia é uma apresentadora rampeira que trabalha como "cabeça" de shows vagabundos há um bom tempo, mas que estourou de verdade há uns 10 anos ou mais quando foi contrada para apresentar um programa de auditório (narcisisticamente chamado de "Márcia") cuja principal missão era a de ser um fórum para aqueles que, não satisfeitos em brigar com algum amigo ou parente por um motivo besta, queriam mostrar para todo o Brasil que estavam brigando com algum amigo ou parente por um motivo besta. Lembro de ter assistido alguns episódios, e a coisa era realmente besta - a atração principal de um era dois amigos brigando sobre qual era o melhor time, Grêmio ou Inter (falando nisso, como tem corinthiano aqui em Porto Alegre, hein?). Tenho a impressão que, por mais que eu me esforçasse, jamais poderia ter idéias tão idiotas. Em todo caso, depois de um tempo ela começou a perder credibilidade (que mesmo hoje não é exatamente muito grande), o programa saiu do ar e ela foi parar na geladeira do SBT. Maaaas, sendo a fênix que ela é, ressurgiu tempos depois, em outro canal, apresentando a mesma porcaria. No presente momento, ela apresenta um programa praticamente igual ao que lembro dela apresentar no SBT, inclusive com o mesmo nome (por que alguém que disse ao vivo que queria que todas as mulheres que assistiam o seu programa fossem fortes, firmes e decididas não deixaria seu narcisismo assim tão facilmente).

O programa é um lixo. Um grande, verdadeiro, completo e total lixo. Não paira nenhuma dúvida a respeito disso. Eu sei disso, o auditório sabe disso, os moradores do São Pedro sabem disso, a produção do programa sabe disso, a Márcia sabe disso! Ainda assim, não dá para tirar os olhos da droga da TV por que a maldita apresentadora enrola tanto, faz tanto doce que no fim qualquer que seja a merda que ela esteja apresentando parece a coisa mais interessante do universo! Veja o exemplo do programa de hoje. A atração principal era um quadro chamado "Espelho Meu" - nesse quadro, a produção do "Márcia" escolhe uma pessoa, geralmente mulher, pobre, favelada e com uma história de fazer a Joseph Klimber chorar, para passar por uma reforma geral no próprio corpo e sair praticamente uma deusa. Esta proposta é duplamente chamativa, por que atrai a atenção do público tanto pela caridade que a Márcia "faz", quanto pela curiosidade mórbida. Eu fui pego pela segunda, pois o que realmente me chamou a atenção foi o close que deram nos dentes completamente podres da pobre candidata à princesa encantada antes do "extreme make over". Mas, o fator que gera mais curiosidade é o mistério. Não se acompanha passo a passo a lenta transformação desta mulher, nunca se vê ela por inteiro, só em partes (os dentes podres, por exemplo). Quando ela tem que aparecer com todo o corpo, ela aparece usando uma roupa preta e uma máscara branca, cobrindo tudo.


Disfarce da participante do quadro "Espelho Meu". Creepy...


A idéia é ir gerando tensão e curiosidade no público, para segurar ele até o final e ver o resultado. E, meu chapéu, como funciona! E como aquela desgraçada da Márcia se aproveitava de nossa paciência! A cada cinco minutos, mostrava na tela um pedaço do processo - no cabelereiro, no dentista, no dermatologista, no pai de santo - dizia que a mulher estava ali, conversava com ela, e então ameaçava mostrá-la ao público. Porém, no exato momento em que achávamos que ela ia mostrar, ela cortava para os comerciais ou para o jabá de algum produto remelento. Isso chegou a atrapalhar meu desempenho profissional. Estava lá eu, conversando com meu acompanhado terapêutico, fortalecendo nosso vínculo, quando de repente aparecia a Márcia e começava a falar no "Espelho Meu". Desconcentrava-me completamente e ficava prestando atenção na TV, pensando "É agora!". Não, nunca era. Depois da terceira vez que ela negou fogo, decidi que era hora de ir embora. Passei, contudo, na casa de outra moradora, e adivinhem o que ela estava fazendo? Sim, olhando a Márcia. Decidi que era meu destino ver como ficara a pobre mulher totalmente repaginada, e fiquei assistindo aquele lixo televisivo até o final. E, como era de se esperar, me decepcionei. Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que falei foi "colocaram uma cebola no lugar do cabelo dela?" OK, admito, ela estava bonita, mas não o suficiente para justificar toda a atenção que dei para ela. E esse programa é sempre assim: capturam tua atenção com uma chamada espalhafatosa, te enrolam até onde conseguem e então te decepcionam. Mas, não importa quantas vezes isso tenha acontecido, sempre que você ligar a TV naquele canal, naquele horário, vai acabar olhando o programa da Márcia de novo, por que com certeza alguma idiotice vai te atrair. O site do programa também é assim - "mulher noiva há 25 anos"? "Marido infiel jura ter mudado"? Que porra é essa? Não sei, mas quero ver! E é assim que programas ruins continuam no ar: atacando continuamente os nossos pontos mentais mais fracos.




Márcia: histericamente chamando nossa atenção em mais de um front.

domingo, 10 de maio de 2009

Televisão, Estágio e Loucura

Fazer estágio nos leva a experienciar coisas que, em nossas vidas "normais", dificilmente o faríamos. Eu, como todo guri criado na década de 1990, cresci assistindo TV, e todas as porcarias que a Globo, o SBT ou a Record resolvessem passar. Não sei se é razoável dizer que fui um perfeito viciado em TV, mas posso seguramente dizer que eu assistia muitos programas, alguns deles bons, muitos deles ruins. Contudo, depois de uma certa época, acho que a partir do meu tempo fazendo cursinho, isso mudou completamente, e este comportamento cessou quase que completamente. Atualmente, só olho TV em quando minha mãe a liga para assistir o jornal e eu passo pela sala para ir até a cozinha. Poderia argumentar que troquei um vício por outro, pois passo boa parte de meu tempo na internet (coisa que rende muitas piadas entre meus colegas de faculdade), mas não creio que seja uma comparação completamente válida, pois o conteúdo veiculado na TV é mais homogêneo, pobre e restrito do que o que aparece na internet.


Resumindo tudo em poucas palavras: não tenho o hábito de assistir TV, e estou feliz com isto. Porém, nem todas as pessoas do mundo se comportam da mesma maneira que eu. Como exemplo disto, gostaria de citar os moradores do Residencial Terapêutico Morada São Pedro, onde atualmente faço estágio básico. Todos eles passaram muito tempo internados em instituições psiquiátricas totais, como clínicas e hospitais psiquiátricos, que são locais onde frequentemente a única opção de lazer é assistir TV (ou, pelo menos, escutar a estática quando o aparelho estraga). Além disso, apesar de agora morarem em casas próprias, onde eles próprios decidem o que farão (salvo alguns detalhes), eles passam muito tempo sem sair, e fazem o que sabem fazer: sentar no sofá e assistir o que for que estiver passando.


Nesta semana que passou tive uma experiência curiosa quanto a isso. Faltando menos de uma hora para ir embora, resolvi passar em uma das casas para conversar um pouco e tomar um café. Quando cheguei lá, como sempre, estavam assistindo a Globo. Eram quase 18 horas, hora da clássica "Sessão da Tarde". Digo "clássica" por que é um daqueles horários podres que ninguém assiste, mas que precisam ser preenchidos com alguma coisa, que acaba sendo um filminho de 10 ou 20 anos atrás. Às vezes passam coisas legais, como "Os Goonies" ou "Conta Comigo" neste programa, mas na maioria das vezes são filmes ruins. Como desta vez que passei lá naquela casa do Morada - era "Velocidade Máxima 2".


O "Velocidade Máxima" original era um filme de ação com uma premissa inovadora - um psicopata instalou uma bomba ao motor de um ônibus cheio de gente, e a programou para explodir caso a velocidade caísse para 20 km/h, colocando motorista, passageiros e autoridades responsáveis em apuros, por vários motivos que tenho preguiça de enumerar. Sendo criativo, empolgante e contar com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves como personagem principal, foi um estrondoso sucesso. Foi aí que os empresários mercenários de Hollywood pensaram em fazer uma seqüência. O psicopata foderia complicaria imensamente a vida de outros 47 clientes (sentados) da companhia municipal de transportes? Não, isso era café pequeno para eles. Por que não sonhar alto, e pôr em risco a vida de centenas de pessoas ao mesmo tempo? Dois ônibus ao mesmo tempo? Não. Um prédio inteiro? A velocidade média de um prédio é Zero km/h, o que iria contra o título da série. Então... por que não um iate transatlântico? Sim, um psicopata ameaçaria explodir um barco inteiro, junto com todos seus passageiros e tripulação por algum motivo pouco convincente. O tamanho do navio emularia o tamanho do ego do cidadão que teve essa idéia e pegaria embalo na comoção de "Titanic", ainda por ser lançado nos cinemas. Idéia genial, não?


Deve ter parecido quando foi concebida, mas quando apareceu nas telas de cinema, ficou óbvio que quem a pariu foi um executivo sanguessuga, e que arte e dinheiro deveriam ser discutidos separadamente, pois o filme é um completo lixo. Keanu Reeves teve insight o suficiente para não estrelar esta porcaria, mas mesma qualidade salutar não pode ser atribuída à Sandra Bullock, que aparentemente estava pensando só na bufunfa (especialmente durante as gravações). Surpreendentemente, justamente por ser tão ruim o filme fica tão bom. A cena do iate descontrolado invadindo uma cidade portuária foi tão malfeita que uma criança de 10 anos poderia dizer que era falso, e precisei me conter muito para não gritar "OLHA A MAQUETEEEE!" e bater os pés no chão para não matar minhas anfitriãs do coração. Contudo, não consegui segurar o riso quando, no clímax, o avião anfíbio do vilão, voando sem um dos flutuadores (como não ficou todo desestabilizado eu não sei), bate numa torre de metal de um petroleiro, cessa imediatamente de mover e EXPLODE TODO O MALDITO BARCO! Como? Não sei. Sei que tive que dizer "que filme fantástico" para explicar aquela risada.


Depois desse final apoteótico, me despedi e fui visitar outra casa. E o que estavam fazendo lá? Assistindo TV, ora bolas! Mas não era um filme a atração principal, mas um programa jornalístico. Bem, o termo "jornalístico" é aqui empregado de forma bastante ampla, de maneira tal que possamos considerar jornalismo profissional programas sensacionalistas e sem o menor rigor investigativo, pois era o "Brasil Hoje" do José Luis Datena. Eu achava que conhecia o Datena, e achava que conhecia programas "pinga-sangue" baratos que passam à tarde na TV aberta, mas Zé Luis é mais do que um âncora de em algum canal bagaceiro - ele é um artista e um revolucionário, que quebra todos os paradigmas. Quando comecei a assistir o programa, a reportagem era sobre um assalto a um posto de gasolina onde uma atendente tinha sido assassinada pelo assaltante após ele ter limpado o caixa. O Datena começou um discurso estupendamente moralista sobre o bandido, mas parou para falar com o Comandante Airton que, com seu helicóptero, sobrevoava a cidade de São Paulo procurando notícias fresquinhas. Sim, você entendeu corretamente: o Datena tem helicóptero só pra ele, procurando desgraça todo dia para dar ibope para o programa dele. E, cacete, é eficiente o tal Airton! Quando o Datena parou de falar sobre tiros desnecessários, o Comandante começou a contar a última morte ou acidente grave: "É Datena, um cidadão aqui caiu de 6 metros de altura quando concertava o telhado" - no que o Datena respondia "6 metros é alto, ele deve ter se machucado bastante". Sabe aquilo que as velhas do grupo de estudos bíblicos faz na hora do chá? Se chama fofoca. Agora, imagine se essas velhas tivessem um HELICÓPTERO para procurar assunto para elas? Essa é a essência do "Brasil Agora". E é essa a beleza do programa: ele é para o jornalismo o que a Nouvelle vague foi para o teatro! Convenhamos, é um feito e tanto, não? Também é digno de nota que, foi durante minhas horas de estágio, fiquei sabendo que Bruna Surfistinha já pensou em dizer para um de seus clientes que ele transava mal e que já gostou tanto de alguns programas que não cobrou pelo serviço.


Não pretendo, com este post, desmerecer meus amigos do Morada por terem mau gosto televisivo - primeiro por que seria presunção minha dizer que o que eles gostam é "ruim" ou "inferior", e o que eu gosto é "bom" e "superior" - levei (e levo) uma vida diferente da deles, e aprendi a gostar de programas menos barulhentos e mais sutis. O que me levou a escrever este post foi o sentimento de estranhamento que tive, tanto entre meus gostos e dos moradores, quanto das minhas reações passadas e presentes a filmes que me desagradavam. Parece-me um bom sinal que eu seja mais capaz de rir deles do que sentir-me injuriado.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ô Dotô!

Tem uma comunidade no Orkut intitulada "Doutor é quem tem doutorado", e em seus fóruns, os membros da dita comunidade alternam acusações de arrogância aos médicos e advogados que exigem serem tratados por "doutor", e acusações de inveja aos demais, que foram incompetentes demais para entrar na faculdade de Medicina ou Direito e assim, merecerem o privilégio de poderem colocar "dr." na frente do nome.

Bem, isso pode parecer nobre e de suma importância para muitas pessoas, mas baseado em minhas experiências pessoais, posso dizer que isso é perda de tempo. Por que? Bem, esses dias, lá no ambulatório, estava conversando com a mãe de um paciente sobre o transtorno dele, quando ela me perguntou algo como "mas doutor, o que eu faço nesse caso?". Não lembro qual era a pergunta, mas lembro claramente que ela me chamou de doutor. Ontem mesmo, voltando da aula, uma colega minha disse que também fora chamada de "doutora" no estágio dela.

Nem eu, nem minha colega temos diploma em Medicina ou Direito, nenhum de nós dois fez doutorado, e tampouco temos caras de pessoas respeitáveis, pois ambos temos cara de criança. Na hora, pensei "puxa, como é disseminada essa mania de chamar alguém em posição de autoridade de 'doutor'", mas depois, quando percebi que qualquer estagiário pode ser doutor se disser algumas bobagens e prescrever alguns remédios para um paciente qualquer, vi que ser doutor não vale nada, e que ficar discutindo sobre isso é uma perda de tempo. Por isso, de agora em diante, assinarei meus textos como "Dr. Andarilho". Ou "Dom Andarilho", tipo bispo. Sei lá.

Texto escrito pelo genial, maravilhoso e humilde Dr. Andarilho

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Alquimia do Estágio

Na sociedade ocidental contemporânea (ai, que clichê essa introdução!), os jovens geralmente passam boa parte de suas vidas estudando, e ao longo deste percurso, enfrentam muitas mudanças e crises de identidade, como diria o velho Erik Erikson. Em relação à escola, a primeira crise é quando começamos a freqüentar o jardim-de-infância ou a creche, e pela primeira vez conhecemos pessoas que não são nossos parentes. Depois, vem a 1ª série, o ensino médio, o vestibular, o começo da faculdade e o começo dos estágios. Pois é, caros amigos, como vocês bem sabem, estou enfrentando esta última crise.

Considero a “crise de estagiário” qualitativamente muito diferente de todas as outras crises que a antecederam. Quando se entra no ensino médio, faz o vestibular ou começa a faculdade, apesar da mudança de contextos e cobranças, você continua fazendo a mesma coisa – estudar. Pode ser que o 1º ano do ensino médio seja mais difícil que a 8ª série do ensino fundamental, que o vestibular exija que você decore muita coisa irrelevante (por exemplo, que Frederico Westphalen é uma cidade produtora de jóias semipreciosas) e que na faculdade você tenha que estudar assuntos muito mais específicos do que história, matemática ou geografia, mas, em essência, para superar todas estas crises a estratégia é a mesma: ler livros, fazer anotações em aula, tirar dúvidas com os professores e colegas. Quando você começa a estagiar, isso tudo, apesar de continuar importante, torna-se insuficiente, pois sua competência e aprendizado não serão medidos por provas e testes, mas na prática, atendendo pacientes, melhorando a vida deles, fazendo o que é necessário. E isso é muito mais complicado do que dissertar sobre a natureza do Self, ou discutir os aspectos teóricos das crenças centrais. De certa forma, é um pouco como ir para a escolinha pela primeira vez, com a diferença que, agora, seus erros influenciam muito mais pessoas do que seus coleguinhas, seus pais e as “tias”.

Como já disse por aqui, esta sensação de desamparo é tão grande, que quando confrontei meu primeiro paciente, pensei “tudo que estudei foi para nada!”, pois senti-me absolutamente despreparado para fazer qualquer coisa. Naquele momento, pareceu extremamente verdadeiro dizer que ler não adiantava para nada, mas esta afirmação não se sustenta diante de uma análise cuidadosa e honesta, como percebi alguns minutos mais tarde. Os estudos não me prepararam para trabalhar, mas onde e como eu estaria se não tivesse lido absolutamente nada, exceto o básico para passar nas disciplinas da faculdade (e que não é tanto assim)? Acho que é razoável dizer que eu estaria ainda mais perdido e fazendo estágio num lugar cagado como a Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS ou no CAP-SOP.

Não, para quem enfrenta os estágios, as leituras são ainda mais fundamentais. Eu poderia cair na falácia de dizer que quem começa a trabalhar deve descobrir o que funciona e o que não funciona tudo por conta própria, que a teoria não funciona na prática e que estudar é perda de tempo. Mas não vou fazer isso. Teorias são sínteses das experiências de outras pessoas, e não ler a respeito delas é jogar fora o conhecimento acumulado por outras pessoas muito boas que se dignaram a dividi-lo. Mas o problema todo não é ter conhecimento sobre o que fazer no estágio (se fosse, os filósofos teriam emprego garantido), mas saber o que fazer. Essa diferenciação entre “saber” e “conhecimento”, e a relação entre “saber” e “poder” foi descrita por Michel Foucault, pensador francês e careca. Só agora percebo o valor do que ele diz (aliás, teria esquecido completamente dele, se não fosse o Brunão me lembrar dele ontem, conversando entre um paciente e outro).

Tenho visto, nestes dias como estagiário, que conhecimento e saber são duas coisas distintas, mas intimamente ligadas – lendo eu tenho idéias sobre que intervenções fazer em uma consulta, e aplicando-as, vejo quais idéias são boas, quais não são e com quais eu trabalho melhor. Outra conversa com outra pessoa, a Mariza, psicóloga (já formada) do ambulatório pode ilustrar melhor o que quero dizer. Em um dado momento, quando ia pegar uma folha de papel para escrever alguma coisa durante uma consulta, nos esbarramos no corredor, e ela me pergunta “precisa de alguma coisa?” – perguntei se ela não teria um pouco de experiência para vender (tipo o Tome of Experience do Warcraft III, que seria realmente útil na vida real). Ela me respondeu citando um psicanalista cujo nome já esqueci que disse que, com o tempo, as nossas leituras iriam se amalgamando em nós mesmos. Achei essa uma metáfora muito bonita, e que resume bem a maneira como penso a relação entre teoria e prática.

Transformar o conhecimento em saber, aplicar a teoria à prática, especialmente em uma profissão como a Psicologia, é um processo extremamente pessoal, ao mesmo tempo simples e difícil. De forma poética, poderia dizer que é um processo alquímico, onde precisamos transformar o chumbo de nossos estudos no ouro de nossa prácita. É bom poder conversar com professores e outros psicólogos com experiência clínica (mesmo psicanalistas), pois eles podem dar idéias interessantes e nos ensinar novas maneiras de encarar um problema. Mesmo assim, eles não vão estar lá conosco quando atendemos um paciente particularmente complicado, e como vamos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo em saber ainda é problema nosso. E eu tenho pilhas de chumbo aqui para transformar em ouro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Dramas de Estágio (Parte 11) - Jedi Academy

Já fazem duas semanas desde que comecei a atender no Ambulatório do Departamento de Genética, e dentro de um mês iniciarei meu estágio básico oficial no Morada São Pedro. Posso dizer que, apesar de ainda ter um ano inteiro como estagiário pela frente, este assunto está encerrado, ou melhor dizendo, o barco já está em alto-mar, e não há mais nada que eu possa fazer a respeito (exceto sair do estágio no São Pedro, o que seria o equivalente a pular na água e ir nadando até o mar, mas vou deixar essa metáfora para lá). Restam-me ainda os dois estágios de ênfase obrigatórios, e um possível terceiro estágio opcional, caso eu decida cursar as três ênfases (depois de comer muito cocô).

Um dos fatores que mais influenciaram minha decisão sobre quais em locais estagiar foi o tipo de experiência que eles me proporcionariam, e que quanto mais variadas elas fossem, melhor. Decidi trabalhar tanto no São Pedro quanto no Ambulatório de Genética por que são dois ambientes muito diferentes, tanto no público que atendem quanto na metodologia que empregam, e por que acredito que este "choque de culturas" me será benéfico por estimular uma maior flexibilidade cognitiva e enriquecer meu repetório como psicólogo. Só estou trabalhando no Ambulatório até agora e não tive oportunidade de comprovar isso na prática, mas estou bastante seguro de que minha hipótese está correta.

Quando pensei pela primeira vez onde fazer meus estágios de ênfase, cheguei em três locais ideais: o Instituto Psiquiátrico Forense, o Estação Psi e a Clínica São José. Contudo, analisando friamente e comparando estes locais com os que trabalharei por todo este ano, eles são parecidos demais. Tanto o Insituto Psiquiátrico Forense, quanto o Estação Psi e o Ambulatório atendem pessoas em conflito com com a lei - a única diferença entre eles é que, no primeiro, o público consiste de pessoas com sofrimento mental severo, que torna a internação necessária, enquanto que nos dois últimos são menores em conflito com a lei. E a Clínica São José, da mesma forma que o São Pedro e o IPF, atende pacientes psicóticos. Seria mais do mesmo para mim.

Tendo isto em vista, comecei a pensar em outros locais para aprender outras coisas, e passei a cogitar locais que antes não me atraiam tanto. Para a ênfase em Psicologia Social, eu poderia fazer estágio em alguma secretaria municipal, como a Secretaria Municipal de Educação (SMED), que já tem uma parceria forte com a UFRGS, e para a ênfase em Desenvolvimento Humano, em uma clínica particular. Interesso-me especialmente pela WP. Falarei a respeito disto mais para a frente.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dramas de Estágio (Parte 10) - Jedi Knight

A Lady Hell, do Play the Coin, criou uma série intitulada "'Trabalhando' nas férias". Nas suas próprias palavras, ela criou esta série "para auxiliar as pessoas que, à despeito do solzão brilhando lá fora, do calor convidativo para um chopp ou ceva bem gelada e da lezeira provocada antes, durante ou depois do almoço, necessitam trabalhar. Afinal, as contas não se pagam sozinhas." Atualmente, me enquadro nesta descrição, apesar da minha situação ser muito mais suave: sou bolsista de iniciação científica e estagiário no ambulatório do departamento de genética para casos de agressão e violência. No primeiro emprego, ganho 300 reais por mês para ficar mexendo em uma caixa de madeira estranha e ficar fazendo perguntas ainda mais estranhas para desconhecidos catados pelos campi da UFRGS, além de outras coisas relacionadas à ciência, sem nenhum horário fixo. O segundo trabalho é voluntário (ou seja, nada de pilas pra mim), mas tem uma carga horária baixa - apenas um turno por semana atendendo pacientes. Contudo, apesar de ser relativamente pouco tempo, eu estou aprendendo horrores.

Apesar de ter começado com minha bolsa ainda no meio do ano passado, considero o estágio no ambulatório (que na verdade é uma extensão - vou estagiar oficialmente no Hospital São Pedro) meu primeiro emprego de verdade, pois apesar de estar localizado no Campus do Vale, seu ambiente é muito diferente do acadêmico. Lá há todos os elementos que um serviço subordinado à uma universidade necessariamente teria, mas o que acontece dentro daquelas salinhas transcende o meramente intelectual. Estou atuando como psicólogo, atendendo pacientes, fazendo diagnósticos e, ainda que não tenha feito isso até o momento, dou receitas médicas, que são assinadas pelo coordenador do ambulatório, formado em Medicina, mas confia em nossas decisões.

É uma experiência simultaneamente aterrorizante, desafiadora e envolvente. No meu primeiro dia no ambulatório, fiquei apenas assistindo alguns atendimentos, para conhecer o modus operandi do local e saber melhor o que fazer no próximo, quando finalmente encararia meus primeiros pacientes. Contudo, achava que, nestes primeiros encontros, o professor estaria comigo, guiando a mim e as sessões, até eu sentir-me confiante o bastante para fazer isto sozinho. Que nada. Logo no primeiro atendimento da tarde, ele entrou na sala, apresentou o ambulatório, a si mesmo e a mim para o gurizão que atenderia, me deu algumas diretrizes sobre quais os objetivos daquela entrevista e saiu, me deixando sozinho. Por um segundo, foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus pés e minha mente esvaziado de qualquer idéia, deixando-me sem reação. Contudo, não pedi por ajuda, pois já sabia que a resposta seria "sei lá, te vira, tu que é o psicólogo aqui" ou algo parecido. Não estava sendo abandonado, mas ganhando carta branca para fazer o que eu achasse necessário (dentro dos limites cabíveis dados pela lei e meu bom senso). Era necessário honrar esse voto de confiança, e foi o que fiz. No final do dia, depois de duas consultas, já estava formulando livremente hipóteses de diagnóstico sobre meus casos e fazendo planos de tratamento. Creio que nos próximos atendimentos não vou nem mais precisar que o professor apareça na salinha.

Outra coisa que me dei conta após um dia de trabalho como psicólogo foi a importância das leituras para nossa prática. Até o segundo ano, o grosso da minha formação foi feita pelos livros - muitos deles, e tão variados quanto poderiam ser. Sem sombra de dúvida, sou o cara que mais lê em minha turma, mas mesmo assim, quando me vi frente a frente com meu primeiro paciente (um gurizão de 14 anos), não pude deixar de sentir que nada do que li me preparara completamente para aquele momento. Mas a coisa é mais complicada que isto, pois não quão preparado estaria se não tivesse estudado nada, e depois de ter terminado meus atendimentos, fiquei pensando em quais livros ler para melhor conduzir minhas intervenções. Atualmente, no campo da psicoterapia, que envolve médicos, psicólogos, assistentes sociais e, pelo menos no ambulatório, cientistas sociais, advogados e enfermeiros, a teoria mais importante é a das Terapias Cognitivo-Comportamentais. Digo "terapias" no plural por que há vários modelos diferentes de atuação, com diferentes técnicas, mas que se baseiam no pressuposto de que os pensamentos, comportamentos e sentimentos se influenciam mutuamente, e que é, alterando a forma como o paciente pensa, é possível levá-lo a se comportar e ter emoções mais saudáveis. Minha explicação está bastante simplificada, mas creio que captura a essência do chamado Modelo Cognitivo.

O que mais diferencia as terapias cognitivo-comportamentais dos demais modelos de psicoterapia é, além de seu tempo de duração, mais curto, o fato de suas técnicas e teorias serem empiricamente validadas. Em outras palavras, há muita pesquisa por trás das TCC, que embasam cientificamente tanto suas teorias quanto suas técnicas. Eu poderia escrever um post inteiro sobre ciência, pesquisa e seus mecanismos, pois adoro esse assunto e há muito sobre o que escrever, mas como este não é o assunto do texto, vou parando por aqui. Contudo, um dos corolários de toda essa produção científica é a publicação de muitos artigos e manuais de psicoterapia, que fazem toda essa informação circular, possibilitando que mais psicoterapeutas tenham acesso a elas, e possam testá-las, formular novas hipóteses, gerar mais informação e alimentar o processo científico (de novo, é mais complicado que isto, mas não quero digredir demais). Têm para todos os gostos, desde os introdutórios até os avançados, os focados em técnicas aos focados em teoria ou nos transtornos a serem abordadas. Atualmente, como vocês podem ver em minhas leituras atuais e futuras no final desta página, meu interesse neste campo está voltado mais para a Terapia Cognitiva, criada originalmente por Aaron Beck, a Terapia do Esquema, um modelo cognitivo com uma proposta diferente para a psicopatologia (ainda não consegui ler muito a respeito, mas o manual Schema Therapy já está comigo), e a ACT, sigla para Acceptance and Commitment Therapy (Terapia da Aceitação e Compromisso), que aborda não o conteúdo dos pensamentos, mas a própria estrutura da mente, explicada de forma muito clara e simples no livro "Get Out of Your Mind and Into Your Life". Tenho também um forte interesse pela Psicologia Humanista-Existencial, bem representada entre meus livros por Abraham Maslow e seu livro 'The Farther Reaches of Human Nature", e pelas Neurociências. Outras leituras, apesar de não tão atraentes assim para mim, incluem a Análise Experimental do Comportamento e as muitas teorias psicanalíticas, que variam enormemente em qualidade (desde C. G. Jung até Jacques Lacan - vocês sabem minhas opiniões a respeito desses cidadãos).

Todas estas abordagens, apesar de divergirem em vários pontos, são altamente congruentes, completando umas as falhas das outras, e suas diferenças apenas fomentam o processo científico. Conheci esses tempos uma menina que cursava, ao mesmo tempo, Ciências Sociais na UFRGS e Psicologia na UFCSPA, e fiquei pensando como este peculiar processo de estudo pelo qual ela está passando irá influenciar sua maneira de olhar o trabalho. Fico pensando agora como a leitura de todos estes livros e teorias, tão diferentes e ao mesmo tempo complementares, irão me moldar. Só vivendo para saber.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cenas da vida de um jovem (futuro) psicólogo

Fui hoje falar com meu orientador de estágio. Tínhamos combinado que, quando eu voltasse, eu apareceria por lá para colocar os últimos detalhes em ordem, fazer um treinamento na burocracia do local. Coisa pouca, pensei na época.

Pois é. Enquanto eu preenchia um formulário, ele chama a secretária e diz "Lúcia, sabe aqueles pacientes da semana que vem que não tem hora marcada ainda? Passa eles pro Andarilho que ele vai assumir os casos". Próxima terça-feira à tarde eu já tenho compromisso. Para quem pensava que teria suas últimas férias sossegado é um bom começo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 9) - O Retorno do Jedi

Mais uma vez, venho escrever sobre minhas experiências como futuro estagiário, apesar de já saber que esta série de posts é considerada por alguns leitores dramática demais.

Fico feliz por poder escrever que meus planos para o estágio básico deram certo: consegui uma vaga no Residencial Terapêutico São Pedro, e uma vaga como extensionista no Ambulatório do Projeto Proteger. Já tenho até alguns horários definidos. Está tudo tão certo quanto poderia estar. Ainda assim, algumas dúvidas me incomodam.

Num desses almoços no RU, conversei bastante com o Marcelo sobre o que poderia se chamar de "Metaética dos Estágios". Não lembro dos detalhes, mas ele me citou alguns casos de veteranos, e as decisões que tomaram em relação aos seus locais de estágio e seu futuro profissional. Basicamente, há duas atitudes possíveis em relação a esta escolha: inovação ou comodismo. O Marcelo contou a história de uma amiga nossa que há pouco tempo atrás fora convidada para dar uma palestra sobre movimento estudantil e saúde mental no Ceará, com a passagem de avião paga pela organização do evento. Que ela tenha sido convidada não é realmente surpreendente, pois ela é uma das pessoas mais batalhadoras, persistentes e criativas* da faculdade (eu costumo dizer que o passatempo dela é salvar as criancinhas do Butão), e esse convite é apenas fruto de seu esforço. Mas este merecido reconhecimento é, em grande parte, um reflexo da escolha de seu campo de atuação, pois, ao invés de se contentar em reproduzir, ela preferiu criar e inovar, trabalhando em uma área onde ninguém ainda trabalhava. Como fez isto inteiramente sozinha, tornou-se referência em toda a região sul, e uma das pessoas mais importantes de seu campo no país inteiro. Isso antes mesmo de se formar.

O Marcelo também fez uma comparação entre dois estudantes. O primeiro deles, quando começou o estágio de Psicologia Social, decidiu criar uma interface entre Marketing e Psicologia; a segunda deixou bem claro que escolheu estagiar em um local tradicional, já estabelecido. Enquanto hoje ele é O Cara da área do Marketing e da Psicologia, ela é só mais uma estagiária de Psicologia. O próprio Marcelo é um exemplo disto, pois está batalhando para criar um estágio novo, em uma área ainda inexplorada da Psicologia no Rio Grande do Sul.

Fiquei pensando no que eu quero fazer. Não escolhi nenhum estágio inovador, revolucionário ou qualquer outro adjetivo do gênero, e escolhi locais já relativamente estabilizados. Mas também não posso dizer que fiz como todos os meus colegas, pois vou estagiar de facto em dois locais diferentes, e que fiz esta escolha por que acredito que os dois locais me possibilitarão aprendizados diferentes e complementares. Será mais complicado, mas creio que valerá a pena.





*Resourceful seria o termo mais adequado.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 8) - O Império Contra-Ataca

Saiu meu primeiro resultado de seleção de estágio! Meus serviços escravos foram gentilmente recusados pelo Serviço de Psicologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Já esperava por isso, pois não me destaquei muito durante a entrevista coletiva. Não falei merda nem nada, mas não fui especialmente criativo ou enérgico.

Ainda assim, eu não sei como conseguiram selecionar alguém só com aquela entrevista coletiva chinelona, onde todo mundo, sentado em um círculo (psicólogo adora essa frescura), falava seu nome e por que gostaria de fazer estágio no HCPA. Disse que não fui especialmente criativo ou enérgico, mas não acho que dê pra dizer que alguém foi isso durante a entrevista. Foi um negócio morno.

Mas, deixando a falsa modéstia de lado, problema deles que não me selecionaram. Para ser sincero, apesar do HCPA ser inicialmente um dos locais que mais me interessavam, ele foi perdendo o apelo com o tempo. Não quero fazer como a raposa de Esopo que diz que as uvas que ele não alcança estão verdes - OK, um pouquinho eu estou fazendo - e o HCPA ainda me parece um lugar bacana para fazer estágio, mas acho que há outros lugares ainda disponíveis para estagiar, e que me possibilitariam excelentes chances de aprendizagem.

Para aqueles que foram selecionados pelo HCPA: minha vingança será maligna. Not.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 7) - Ataque dos Clones

Terminei mais um trabalho! Faltam 4 ainda, e mais uma prova, mas estão todos encaminhados de uma forma ou de outra. Quero falar um pouco mais sobre meus estágios. Mas, desta vez, quero falar não sobre os estágios básicos ou de ênfase, mas sobre os extracurriculares, aqueles que não possuem vínculo com a universidade, mas que mesmo assim são importantes pra cacete.

Considero a opção de fazer um estágio nas férias faz um bom tempo. No final do segundo semestre, participei de uma reunião do COREPSUL na UCS e, como estávamos alojados em um dos blocos onde a Psicologia tem aula, dei uma conferida nos murais, e acabei encontrando uma proposta de estágio voluntário no Hospital Geral. Era aberto também para estudantes de Serviço Social, Medicina e alguns outros cursos, além de Psicologia. Anotei o telefone para contato mas, no último dia, achei melhor ter férias e arquivar essa idéia de ficar trabalhando de graça para ser reutilizada novamente.

Contudo, apareceu esses dias na minha caixa de entrada um e-mail a respeito da oitava edição do Estágio de Vivência Transdisciplinar em Saúde Mental, que é um estágio de férias que acontece todos os anos em São Lourenço do Sul e alguma outra cidade (esse ano é Pelotas, e ano passado foi Novo Hamburgo), e que dura duas semanas. Geralmente eu preferiria passar meu tempo livre treinando, lendo ou vendo filmes, mas essa oportunidade parece boa demais para eu não tentar pelo menos. O Brunão fez esse estágio ano passado, nas férias de inverno, e falou muito bem de toda a experiência. Mas, mais do que isso, é o desejo de me aventurar que fala mais alto. Parece uma bola de neve isso: quanto mais eu exploro o mundo e todas as suas possibilidades, mais quero descobrir coisas novas. Não nego que essa possibilidade existe se decidir passar minhas férias em Porto Alegre ou Caxias e coçar meu saco, mas ela é bem menor do que se tentar pegar esse estágio.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 6) - Force Unleashed

Foi hoje, gente. Não posso mais me considerar mero estudante vagabundo, pois neste dia, eu participei da minha primeira seleção de estágio. Agora estou no mercado de trabalho, exercendo meu papel de mão-de-obra barata e dispensável. Para todos os efeitos, eu já sou um estagiário, mesmo não tendo um local certo para fazer estágio ainda.

Fui para a entrevista coletiva hoje para as vagas do Morada São Pedro. O caráter coletivo dessa entrevista é duvidoso, pois só eu e um colega meu comparecemos - aliás, só eu e esse meu colega tínhamos nos inscrito para a seleção do Morada. Não sabemos quantas vagas serão abertas neste local, mas a pessoa que nos entrevistou falou que o número de estagiários já variou de 1 a 5 por ano. Então, a chance de nós dois conseguirmos vaga ali é bem considerável.

Mas como não dá pra contar com ovo que a galinha ainda não colocou, me inscrevi para a seleção do Serviço de Psicologia do HCPA, e ainda me inscreverei para a seleção da Unidade Básica de Saúde do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), para a pesquisa-estágio básico "Assédio Moral no Trabalho" e para o CAIS Mental Centro. É uma questão evolutiva: quanto mais variadas forem minhas possibilidades, menor chance eu tenho de ficar a ver navios em 2009 com a questão dos estágios.

Também há a possível possibilidade de sair estágio no Ambulatório de Genética no Campus do Vale. Lanço mão de um pleonasmo aparentemente vicioso por que, na verdade, o estágio lá é uma possibilidade de uma possibilidade bem remota. Duvido que ele saia este ano por que há muita burocracia envolvida no processo de oficializar a vinculação de um local de estágio com a Psicologia da UFRGS, e, até onde eu sei, não há ninguém realmente dedicado vendo essa papelada. Em outras palavras, eu não estou mexendo uma palha por este estágio e estou deixando na mão de quem se importa. Para ser franco, não consigo lembrar de nada que minha turma fez que saiu do chão sem a minha participação. Mas isso realmente interessa a algumas pessoas, que não querem nem pensar em serem supervisionados por psicanalistas (eu não gosto da idéia, mas não acho o fim do mundo), e que fariam de tudo para achar um porto seguro para serem cientificístas. Resta saber até que ponto eles querem isso mesmo ou se são os acomodados que eu imagino serem. Seria mais vantajoso para mim se essa vaga não saísse esse ano, pois ficaria mais fácil para pegar uma extensão lá, mas seria muito bacana mesmo que alguém estagiasse num dos departamentos mais hard science da universidade. Tapa na cara do PSI02! Além disso, enriquerecia as experiências trocadas pela turma, tanto em aula quanto nos bate-papos alcoolizados que temos na frente da matriz do Diretório e de suas filiais na Jerônimo de Ornellas e na Lima e Silva (Tia Vilma e Bar do Rossi).

E cada vez mais me interesso por estagiar no São Pedro, e cada vez menos no Clínicas. Tenho a impressão de que o Residencial esteja mais afinado com meu ideal de Psicologia do que o HCPA. Já desconfiava disso há algum tempo, mas depois de conversar um pouco com o Marcelo a respeito, e, pelo o que ele me disse, o Clínicas não é um lugar tão quente assim para estagiar como eu pensara. Veremos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 5) - Rebel Assault

Começou a temporada de seleções de estágio! Segunda-feira, dia 10 de novembro, acontecerá a entrevista coletiva no Hospital Psiquiátrico São Pedro, e dia 20 de novembro, a seleção para as duas vagas no Serviço de Psicologia do Hospital de Clínicas. Há também quatro vagas no Grupo Hospitalar Conceição, e possivelmente o Ambulatório de Genética do Projeto Proteger ofereça uma vaga, dependendo da burocracia.

Estou repensando qual seria o melhor local para se fazer estágio. A idéia de trabalhar no Clínicas ainda me é muito atraente, mas conversei com algumas pessoas que estagiaram no São Pedro, e o que ouvi foi positivo. Além disso, o tipo de experiência que teria em cada local seria muito diferente. Baseado apenas em introspecções, tenho a impressão que, enquanto no HCPA o trabalho seja eficiente, científico e high tech, também será um tanto quanto frio, distante, ao passo que, no HPSP, especialmente na Morada Terapêutica, haja mais calor humano. Mas não sei. Introspecções não são confiáveis o suficiente para se estabelecer teorias a respeito de nada baseado nelas, apenas hipóteses temporárias.

Também tenho a impressão de que o estágio no Ambulatório de Genética não vá sair, dado o adiantado do ano, e o estupro burocrático requerido para oficializar o local para estágio básico (sem falar no preconceito que alguns professores do Instituto têm contra o Renato Flores). Se não sair, pretendo falar com o professor e trabalhar lá como extensionista.

Sou um cara bastante auto-confiante quando se trata de trabalho e seleções de estágio (beirando a arrogância, para ser sincero), mas sei que posso não ser selecionado para nenhum local. Deixo isso nas mãos do Destino.

Por fim, gostaria de deixar um recado para meus colegas interessados em fazer estágio no HCPA, no Ambulatório de Genética e no Morada São Pedro: preparem-se para uma sangrenta e dura batalha, pois eu estarei lá na hora da seleção.