Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Considerações filosóficas de final de tarde sobre educação

Atendendo muitos adolescentes, eu fico impressionado com a atitude que muitos pais têm em relação ao comportamento dos seus filhos. Quando eles vêm falar comigo, sempre fazem questão de dizer "doutor, eu dou tudo pra ele: roupa de marca, comida da boa, TV da Sky, me esfalfo trabalhando por ele e ele se comporta desse jeito! Tem cabimento, doutor?"

Nessa hora, ao ouvir tão fatídica pergunta, eu me faço de morto, mas normalmente preciso me controlar para não perguntar de volta "mas o senhor ensina ele o que fazer ao invés de agir dessa maneira?" Me controlo, por que tenho medo de desorganizar esse pai ou essa mãe, colocando no colo dele ou dela uma responsabilidade muito grande, que talvez eles não percebam possuir: a educação do seu filho.

Não quero defender apenas um lado aqui: normalmente, os adolescentes (e as crianças) que eu atendo fazem coisas terríveis. Mas daí eu pergunto: onde estão os adultos para controlar ela? Quem vai lá, aponta o que está errado e ensina como fazer direito? Se eu fizesse todas estas perguntas, aposto que duas coisas aconteceriam:

1) O pai/mãe ia me dizer "mas doutor, eu já estraguei todos os meus cintos e chinelos de tanto que bati nesse guri!"
2) Eu ia perder o paciente, por que o pai/mãe ia se sentir ofendido.

Ofender só funciona em um lugar nesse mundo: no seriado House, e olha que mesmo lá ele já teve sua cota de sofrimento por pisar nos calos da pessoa errada. Além disso, ofender seria incorrer no mesmo erro que esses pais incorrem: machucar ao invés de ensinar. Tomar uma surra ensina que não dá pra ser pego, e que se você consegue fazer o que quer sem que ninguém saiba, está tudo certo. Xingar na terapia também: se o doutor não souber, não acontece nada. É uma maneira primária de pensar, e a maioria dos meus leitores devem estar muito acima dela. Entretanto, não dá pra dizer o mesmo de grande parte da população.

Então, pra finalizar esse post, vou dizer algumas pérolas de senso-comum, mas que a experiência como psicoterapeuta me mostraram serem verdadeiras. A primeira é que "pai é quem cria", está lá, presente em nossos sucessos e também em nossos fracassos. A segunda é "bater não é educar" - se surra adiantasse alguma coisa, os presídios estariam cheios de santos e almas iluminadas, e não seriam considerados os piores lugares para se passar a vida. Terceiro, o ensino mais eficaz é o exemplo, a presença. Eu posso fazer meus filhos lerem vários tratados filosóficos sobre Ética, mas se eu não mostrar, através do meu comportamento, como colocar isso em prática, tudo o que eu vou estar fazendo é ensinando eles a justificarem os próprios erros. Justificativas normalmente não servem para nada, por que elas normalmente visam tornar correto o incorreto, ao invés de corrigi-lo e mudá-lo. E, em quarto e último lugar, o que vale para meus (no momento hipotéticos) filhos, vale para meus pacientes também: se eu quero que eles ensinem seus filhos a serem mais educados, eu tenho que ensinar da maneira que eu considero correta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um problema para a ciência da Psicoterapia

A ciência da Psicoterapia, como ela é ensinada e difundida nos dias de hoje, tem um problema seríssimo, na minha opinião. Temos mais de 100 anos de conhecimento acumulado, diversos modelos teóricos altamente eficazes para o tratamento de diversos transtornos psiquiátricos e muitos profissionais competentes, tanto no "campo", atendendo pacientes, quanto na "academia", pensando e fazendo pesquisa básica. Desde que Freud começou sua revolução psicanalítica, nós avançamos muito, tanto que até me atrevo a dizer que finalmente começamos a entender aquilo que chamamos de "natureza humana". Então, qual é o problema?

O problema que eu vejo é que, apesar de todo esse conhecimento acumulado ao longo de um século, o índice de transtornos mentais parece estar aumentando ao invés de diminuindo. Um leitor atento e bem informado poderia por a culpa disso nos maus métodos diagnósticos preconizados pelas principais organizações psiquiátricas do mundo, que acabam enviesando nosso olhar de modo a ver mais doenças, mas penso que há mais por trás do nosso problema do que apenas um erro estatístico, por que ainda é possível ver muitos homens e muitas mulheres sofrendo profundamente sem nunca receberem nenhum diagnóstico psiquiátrico de brinde. O que quero dizer com este longo rodeio é que 90% das grandes descobertas no campo da psicoterapia não refletem em mudanças positivas para a vasta maioria da população, e parte do problema se encontra justamente no treinamento dos profissionais da área da saúde mental, especialmente o dos psicoterapeutas. Falo deste ramo profissional por ser o que melhor conheço, por eu mesmo ser um psicoterapeuta em treinamento, e por achar que este é o ramo com o maior potencial desperdiçado. Explico por que.

No começo do século XX, quando Sigmund Freud começou a psicanálise, a idéia de tratar problemas de saúde que não podiam ser atribuídos a causas biológicas óbvias era um tanto quanto nova, e precisava se fundamentar em outras ciências. Freud, por ser neurologista, fundamentou a nova ciência que estava nascendo na tradicional clínica médica, que consiste (de maneira resumida) em atender um paciente de cada vez, escutar seus problemas com bastante atenção e então formular um tratamento adequado para as necessidades daquele indíviduo particular. Para treinar novos psicanalistas, era necessário encontrar pupilos brilhantes que se interessassem por este tipo de problema, e se dispusessem a passar por uma longa e trabalhosa análise didática, que serviria, entre outras coisas, para tornar o futuro psicanalista consciente de seus próprios problemas psicológicos, até então inconscientes. Este modelo foi o melhor que Freud conseguiu criar, e era suficiente e adequado para os tempos em que ele viveu. Entretanto, da maneira como eu vejo, o mundo e suas necessidades mudaram, mas a maneira de treinar terapeutas continua essencialmente o mesmo.

No imaginário popular, quem entra para a faculdade de Psicologia, ou para a residência em Psiquiatria, vai trabalhar com pacientes, montando seu consultório em um bairro acessível, ou atendendo no postinho em alguma favela vila comunidade bastante afastada do centro da cidade. Na faculdade, apesar de vermos muito mais coisas para além da Clínica "pura e simples", e de em nossa formação nós sermos obrigados a ver muitas outras coisas para além dela, essa mentalidade se mantém praticamente intacta. Talvez, a imagem que nós, acadêmicos, temos da Psicologia Clínica é ainda mais engessada do que a da população, justamente por que nós sabemos em detalhe como deve ser uma clínica: primeiro, ela deve acontecer em um consultório, tecnicamente chamado de "setting terapêutico", que deve ter uma série de características físicas (duas poltronas em distância confortável, talvez um divã e uma mesa de centro, aspecto neutro ou agradável, sala de espera com revistas mais ou menos atuais e, se você mora em uma cidade úmida e quente como Porto Alegre, um ar condicionado bem calibrado), durar de quarenta à sessenta minutos e ser realizada com apenas um paciente por vez. Dependendo da orientação teórica do psicoterapeuta em questão, esse número de "um paciente por vez" pode aumentar consideravelmente, podendo virar "um grupo famíliar por vez" ou "um grupo terapêutico por vez". Mesmo assim, o problema persiste, por que não é amplo o bastante.

Treinar psicoterapeutas é caro, por que envolve pelo menos cinco anos de muito estudo na faculdade, comprar muitos livros e pagar muitas idas a congressos, sem contar as eventuais pós-graduações que podem aparecer no caminho. Os psicoterapeutas formados sabem que precisaram ralar muito para conseguirem seu diploma, e por isso cobram um preço justo por seus serviços. Quanto é esse preço, você quer saber? Segundo o site do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, o preço mínimo para uma consulta psicológica é de R$81,62, e o preço máximo é de R$139,93, mas é notório e sabido que profissionais a mais tempo no mercado podem cobrar muito mais do que isso por sessão. Quem é que pode pagar um preço desses? Quem tem casa própria, carro na garagem, renda fixa mais ou menos elevada, e que possui os meios necessários para comparecer pelo menos uma vez por semana ao consultório do psicólogo ou do psiquiatra. Quem são essas pessoas? Os membros das classes econômicas A e B. É bem possível que pessoas que pertencem às classes C, D e E paguem por sessões de psicoterapia, mas com grande sacrifício financeiro e pessoal. Quando este sacrifício não é possível ou desejável, existe a possibilidade de procurar ajuda gratuita em clínicas-escola, hospitais públicos e dispositivos do SUS como o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS, antigamente conhecidos como "CAIS Mental"), ou a Unidade Básica de Saúde (UBS, popularmente chamado de posto de saúde). Os serviços oferecidos nestes lugares, contudo, não atende às necessidades de quem os procura, seja por falta de equipe, seja por que a dita equipe está sobrecarregada. Em outras palavras, quem não tem dinheiro, não tem acesso à psicoterapia, de maneira geral (e, também de maneira geral, quem mais precisa de tratamento psicológico é justamente quem menos chance tem de pagar por ele).

Depois de toda essa exposição, você poderia ficar incomodado com toda essa minha ênfase na psicoterapia e dizer "OK, teus argumentos fazem sentido, mas a psicoterapia NÃO é a única ferramenta de saúde mental de que dispomos. Existem muitos outros serviços e modelos que poderiam dar conta desse problema, e que são muito mais vantajosos em termos de custo-benefício." Você poderia ainda me listar algumas destas alternativas, como aquelas desenvolvidas pela Psicologia Social Comunitária, a Psicodinâmica do Trabalho e a Terapia Comunitária, e me indicar toda uma série de leituras a respeito delas para saber de suas aplicações práticas. Eu aceitaria sua resposta, por que conheço estas linhas de trabalho, e as respeito. Entretanto, apesar de elas irem além da visão restrita que a maioria dos psicoterapeutas têm a respeito do tratamento em saúde mental, elas possuem um grande defeito: elas não são cientificamente embasadas. Todas elas, até onde eu sei, foram desenvolvidas por indivíduos excepcionalmente criativos, as aplicaram aos problemas do "mundo real" e colheram frutos, mas elas não foram devidamente testadas e reguladas como as teorias de psicoterapia modernas foram. Isto significa que elas podem ser fundamentadas em idéias inadequadas a respeito do comportamento humano, e no longo prazo causarem mais dano do que benefício. Esta é uma profecia que não precisa se realizar.

Olhando por cima do meu ombro, dentre os muitos livros espalhados no tapete do meu quarto, sete chamam minha atenção. Estes livros, apesar de obviamente terem sido escritos por pessoas tão reais e imperfeitas quanto eu, não representam apenas o que estas pessoas pensam a respeito da saúde mental, ou o que elas gostariam que fosse verdadeiro a respeito da natureza humana. Não, todos estes livros são o produto final de décadas de pesquisa rigorosa, do acúmulo do conhecimento de milhares de indivíduos inteligentes, que dedicaram boa parte de suas vidas para desvendar os mistérios por trás do nosso comportamento, do nosso pensamento e da nossa emoção. São livros de psicopatologia, personalidade, psicoterapia e neurociência e eu não tenho a menor dúvida de que, dentro deles, se encontra a resposta para o sofrimento psíquico, e que, com base neles, poderia se fazer uma verdadeira revolução na Saúde Coletiva brasileira. Quero dizer com isto que eles são o caminho, a verdade e a luz? Não, nada disso. Quero dizer que com o conhecimento que eles nos oferecem, podemos melhorar a vida de muitas pessoas, se os usarmos para reformular a maneira como a saúde mental é abordada e tratada em nosso país, por que não são apenas uma "sugestão educada". Entretanto, eles não oferecem uma resposta para todos os nossos problemas, por que eles foram escritos dentro do mesmo paradigma de treinamento de psicoterapeutas que critiquei acima. É preciso encontrar uma maneira de empregar este conhecimento em larga escala, não "um paciente a cada cinquenta minutos no consultório", mas "dez mil pessoas, o tempo todo, em qualquer lugar", desenvolver métodos para utilizar tudo isto que sabemos em salas de aula, em empresas, em calçadas movimentadas e mesmo filas de banco. Isto não significa que os dias da clínica e da psicoterapia individual estejam contados e que ela será abandonada. Significa que, no futuro, ela deixará seu lugar central no quadro geral da Saúde Coletiva para ocupar um outro, mais periférico. Entretanto, ao assumir este novo lugar, ela será finalmente livre, e trabalhará com o que ela sabe fazer de melhor, estimulando o crescimento pessoal e a realização de quem a procura.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pequena Resenha de um Grande Livro

Tirando meus posts sobre utopias, não é hábito meu fazer resenhas de livros aqui no blog. Contudo, este livro que pretendo comentar aqui foi tão marcante que sinto que estaria perdendo alguma coisa de muito importante se não escrevesse nada a seu respeito.

Este livro é "Human Chance Processes" de Michael Mahoney.

Acredito que preciso comentá-lo aqui por dois motivos. O primeiro é o próprio mérito do autor, que graças a seu grande conhecimento teórico e prático da psicoterapia e das ciências como um todo, dedicou dez anos de sua vida ao processo de escrever uma obra magnífica, que transcende todos os manuais de psicoterapia que li até hoje (e olha, não foram poucos). O segundo é a ignorância dos profissionais da saúde mental no Brasil a respeito deste livro. Ele chegou a ser traduzido e publicado em 1998 pela Artmed, os números esgotaram e não houve mais reimpressões desde então, fazendo com que o livro seja encontrado apenas em sebos - e com relativa dificuldade. Considerando que vivemos um país onde incontáveis livros de psicanálise são publicados e republicados todos os anos, isso é bastante triste.

Expostas minhas razões, vamos ao livro em si. Não espero conseguir fazer uma resenha profunda e abrangente, que abarque todos os assuntos tratados no livro, por que "Human Change Processes" é extremamente abrangente, com capítulos sobre ética nas profissões de ajuda, uma história das idéias, bases e futuro da Psicologia Científica, ciências cognitivas, teoria construtivista e auto-organização, teoria da evolução, desenvolvimento humano, processos emocionais e estudos sobre o Self. Porém, o livro também é extremamente específico, pois todos estes assuntos não foram jogados no texto de forma desconexa e aleatória, como em uma enciclopédia ruim: há um fio condutor que os une, e que conduz até a parte final do livro, que trata sobre a psicoterapia em si - princípios, técnicas e, principalmente, a experiência de mudança em um contexto terapêutico, tanto do cliente quanto do terapeuta.

Em Psicologia e Ciências Humanas, estima-se que o conhecimento torna-se desatualizado em cinco anos. Isto significa que, no ano em que eu me formar, o que aprendi no primeiro ano de faculdade não terá mais validade - livros e artigos que li estarão superados, bem como as teorias que os embasavam. Dentro desta lógica, "Human Change Processes", por ter sido publicado em 1991, estaria 3,6 vezes desatualizado. Algumas das pesquisas citadas por Mahoney com certeza estão superadas, mas o livro como um todo não, por que ele não se limita ao seu tempo. De forma poética, eu poderia dizer que "Human Change Processes" é um livro além do tempo, pois fala da experiência de mudança e troca entre seres humanos que é e sempre será a Psicoterapia, e por isso, mesmo que seja lido daqui a 100 anos, continuará atual.

terça-feira, 23 de junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXIV

O número e qualidade de idéias de textos para o blog é diretamente proporcional à urgência dos trabalhos para a faculdade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Alquimia do Estágio

Na sociedade ocidental contemporânea (ai, que clichê essa introdução!), os jovens geralmente passam boa parte de suas vidas estudando, e ao longo deste percurso, enfrentam muitas mudanças e crises de identidade, como diria o velho Erik Erikson. Em relação à escola, a primeira crise é quando começamos a freqüentar o jardim-de-infância ou a creche, e pela primeira vez conhecemos pessoas que não são nossos parentes. Depois, vem a 1ª série, o ensino médio, o vestibular, o começo da faculdade e o começo dos estágios. Pois é, caros amigos, como vocês bem sabem, estou enfrentando esta última crise.

Considero a “crise de estagiário” qualitativamente muito diferente de todas as outras crises que a antecederam. Quando se entra no ensino médio, faz o vestibular ou começa a faculdade, apesar da mudança de contextos e cobranças, você continua fazendo a mesma coisa – estudar. Pode ser que o 1º ano do ensino médio seja mais difícil que a 8ª série do ensino fundamental, que o vestibular exija que você decore muita coisa irrelevante (por exemplo, que Frederico Westphalen é uma cidade produtora de jóias semipreciosas) e que na faculdade você tenha que estudar assuntos muito mais específicos do que história, matemática ou geografia, mas, em essência, para superar todas estas crises a estratégia é a mesma: ler livros, fazer anotações em aula, tirar dúvidas com os professores e colegas. Quando você começa a estagiar, isso tudo, apesar de continuar importante, torna-se insuficiente, pois sua competência e aprendizado não serão medidos por provas e testes, mas na prática, atendendo pacientes, melhorando a vida deles, fazendo o que é necessário. E isso é muito mais complicado do que dissertar sobre a natureza do Self, ou discutir os aspectos teóricos das crenças centrais. De certa forma, é um pouco como ir para a escolinha pela primeira vez, com a diferença que, agora, seus erros influenciam muito mais pessoas do que seus coleguinhas, seus pais e as “tias”.

Como já disse por aqui, esta sensação de desamparo é tão grande, que quando confrontei meu primeiro paciente, pensei “tudo que estudei foi para nada!”, pois senti-me absolutamente despreparado para fazer qualquer coisa. Naquele momento, pareceu extremamente verdadeiro dizer que ler não adiantava para nada, mas esta afirmação não se sustenta diante de uma análise cuidadosa e honesta, como percebi alguns minutos mais tarde. Os estudos não me prepararam para trabalhar, mas onde e como eu estaria se não tivesse lido absolutamente nada, exceto o básico para passar nas disciplinas da faculdade (e que não é tanto assim)? Acho que é razoável dizer que eu estaria ainda mais perdido e fazendo estágio num lugar cagado como a Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS ou no CAP-SOP.

Não, para quem enfrenta os estágios, as leituras são ainda mais fundamentais. Eu poderia cair na falácia de dizer que quem começa a trabalhar deve descobrir o que funciona e o que não funciona tudo por conta própria, que a teoria não funciona na prática e que estudar é perda de tempo. Mas não vou fazer isso. Teorias são sínteses das experiências de outras pessoas, e não ler a respeito delas é jogar fora o conhecimento acumulado por outras pessoas muito boas que se dignaram a dividi-lo. Mas o problema todo não é ter conhecimento sobre o que fazer no estágio (se fosse, os filósofos teriam emprego garantido), mas saber o que fazer. Essa diferenciação entre “saber” e “conhecimento”, e a relação entre “saber” e “poder” foi descrita por Michel Foucault, pensador francês e careca. Só agora percebo o valor do que ele diz (aliás, teria esquecido completamente dele, se não fosse o Brunão me lembrar dele ontem, conversando entre um paciente e outro).

Tenho visto, nestes dias como estagiário, que conhecimento e saber são duas coisas distintas, mas intimamente ligadas – lendo eu tenho idéias sobre que intervenções fazer em uma consulta, e aplicando-as, vejo quais idéias são boas, quais não são e com quais eu trabalho melhor. Outra conversa com outra pessoa, a Mariza, psicóloga (já formada) do ambulatório pode ilustrar melhor o que quero dizer. Em um dado momento, quando ia pegar uma folha de papel para escrever alguma coisa durante uma consulta, nos esbarramos no corredor, e ela me pergunta “precisa de alguma coisa?” – perguntei se ela não teria um pouco de experiência para vender (tipo o Tome of Experience do Warcraft III, que seria realmente útil na vida real). Ela me respondeu citando um psicanalista cujo nome já esqueci que disse que, com o tempo, as nossas leituras iriam se amalgamando em nós mesmos. Achei essa uma metáfora muito bonita, e que resume bem a maneira como penso a relação entre teoria e prática.

Transformar o conhecimento em saber, aplicar a teoria à prática, especialmente em uma profissão como a Psicologia, é um processo extremamente pessoal, ao mesmo tempo simples e difícil. De forma poética, poderia dizer que é um processo alquímico, onde precisamos transformar o chumbo de nossos estudos no ouro de nossa prácita. É bom poder conversar com professores e outros psicólogos com experiência clínica (mesmo psicanalistas), pois eles podem dar idéias interessantes e nos ensinar novas maneiras de encarar um problema. Mesmo assim, eles não vão estar lá conosco quando atendemos um paciente particularmente complicado, e como vamos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo em saber ainda é problema nosso. E eu tenho pilhas de chumbo aqui para transformar em ouro.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dramas de Estágio (Parte 10) - Jedi Knight

A Lady Hell, do Play the Coin, criou uma série intitulada "'Trabalhando' nas férias". Nas suas próprias palavras, ela criou esta série "para auxiliar as pessoas que, à despeito do solzão brilhando lá fora, do calor convidativo para um chopp ou ceva bem gelada e da lezeira provocada antes, durante ou depois do almoço, necessitam trabalhar. Afinal, as contas não se pagam sozinhas." Atualmente, me enquadro nesta descrição, apesar da minha situação ser muito mais suave: sou bolsista de iniciação científica e estagiário no ambulatório do departamento de genética para casos de agressão e violência. No primeiro emprego, ganho 300 reais por mês para ficar mexendo em uma caixa de madeira estranha e ficar fazendo perguntas ainda mais estranhas para desconhecidos catados pelos campi da UFRGS, além de outras coisas relacionadas à ciência, sem nenhum horário fixo. O segundo trabalho é voluntário (ou seja, nada de pilas pra mim), mas tem uma carga horária baixa - apenas um turno por semana atendendo pacientes. Contudo, apesar de ser relativamente pouco tempo, eu estou aprendendo horrores.

Apesar de ter começado com minha bolsa ainda no meio do ano passado, considero o estágio no ambulatório (que na verdade é uma extensão - vou estagiar oficialmente no Hospital São Pedro) meu primeiro emprego de verdade, pois apesar de estar localizado no Campus do Vale, seu ambiente é muito diferente do acadêmico. Lá há todos os elementos que um serviço subordinado à uma universidade necessariamente teria, mas o que acontece dentro daquelas salinhas transcende o meramente intelectual. Estou atuando como psicólogo, atendendo pacientes, fazendo diagnósticos e, ainda que não tenha feito isso até o momento, dou receitas médicas, que são assinadas pelo coordenador do ambulatório, formado em Medicina, mas confia em nossas decisões.

É uma experiência simultaneamente aterrorizante, desafiadora e envolvente. No meu primeiro dia no ambulatório, fiquei apenas assistindo alguns atendimentos, para conhecer o modus operandi do local e saber melhor o que fazer no próximo, quando finalmente encararia meus primeiros pacientes. Contudo, achava que, nestes primeiros encontros, o professor estaria comigo, guiando a mim e as sessões, até eu sentir-me confiante o bastante para fazer isto sozinho. Que nada. Logo no primeiro atendimento da tarde, ele entrou na sala, apresentou o ambulatório, a si mesmo e a mim para o gurizão que atenderia, me deu algumas diretrizes sobre quais os objetivos daquela entrevista e saiu, me deixando sozinho. Por um segundo, foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus pés e minha mente esvaziado de qualquer idéia, deixando-me sem reação. Contudo, não pedi por ajuda, pois já sabia que a resposta seria "sei lá, te vira, tu que é o psicólogo aqui" ou algo parecido. Não estava sendo abandonado, mas ganhando carta branca para fazer o que eu achasse necessário (dentro dos limites cabíveis dados pela lei e meu bom senso). Era necessário honrar esse voto de confiança, e foi o que fiz. No final do dia, depois de duas consultas, já estava formulando livremente hipóteses de diagnóstico sobre meus casos e fazendo planos de tratamento. Creio que nos próximos atendimentos não vou nem mais precisar que o professor apareça na salinha.

Outra coisa que me dei conta após um dia de trabalho como psicólogo foi a importância das leituras para nossa prática. Até o segundo ano, o grosso da minha formação foi feita pelos livros - muitos deles, e tão variados quanto poderiam ser. Sem sombra de dúvida, sou o cara que mais lê em minha turma, mas mesmo assim, quando me vi frente a frente com meu primeiro paciente (um gurizão de 14 anos), não pude deixar de sentir que nada do que li me preparara completamente para aquele momento. Mas a coisa é mais complicada que isto, pois não quão preparado estaria se não tivesse estudado nada, e depois de ter terminado meus atendimentos, fiquei pensando em quais livros ler para melhor conduzir minhas intervenções. Atualmente, no campo da psicoterapia, que envolve médicos, psicólogos, assistentes sociais e, pelo menos no ambulatório, cientistas sociais, advogados e enfermeiros, a teoria mais importante é a das Terapias Cognitivo-Comportamentais. Digo "terapias" no plural por que há vários modelos diferentes de atuação, com diferentes técnicas, mas que se baseiam no pressuposto de que os pensamentos, comportamentos e sentimentos se influenciam mutuamente, e que é, alterando a forma como o paciente pensa, é possível levá-lo a se comportar e ter emoções mais saudáveis. Minha explicação está bastante simplificada, mas creio que captura a essência do chamado Modelo Cognitivo.

O que mais diferencia as terapias cognitivo-comportamentais dos demais modelos de psicoterapia é, além de seu tempo de duração, mais curto, o fato de suas técnicas e teorias serem empiricamente validadas. Em outras palavras, há muita pesquisa por trás das TCC, que embasam cientificamente tanto suas teorias quanto suas técnicas. Eu poderia escrever um post inteiro sobre ciência, pesquisa e seus mecanismos, pois adoro esse assunto e há muito sobre o que escrever, mas como este não é o assunto do texto, vou parando por aqui. Contudo, um dos corolários de toda essa produção científica é a publicação de muitos artigos e manuais de psicoterapia, que fazem toda essa informação circular, possibilitando que mais psicoterapeutas tenham acesso a elas, e possam testá-las, formular novas hipóteses, gerar mais informação e alimentar o processo científico (de novo, é mais complicado que isto, mas não quero digredir demais). Têm para todos os gostos, desde os introdutórios até os avançados, os focados em técnicas aos focados em teoria ou nos transtornos a serem abordadas. Atualmente, como vocês podem ver em minhas leituras atuais e futuras no final desta página, meu interesse neste campo está voltado mais para a Terapia Cognitiva, criada originalmente por Aaron Beck, a Terapia do Esquema, um modelo cognitivo com uma proposta diferente para a psicopatologia (ainda não consegui ler muito a respeito, mas o manual Schema Therapy já está comigo), e a ACT, sigla para Acceptance and Commitment Therapy (Terapia da Aceitação e Compromisso), que aborda não o conteúdo dos pensamentos, mas a própria estrutura da mente, explicada de forma muito clara e simples no livro "Get Out of Your Mind and Into Your Life". Tenho também um forte interesse pela Psicologia Humanista-Existencial, bem representada entre meus livros por Abraham Maslow e seu livro 'The Farther Reaches of Human Nature", e pelas Neurociências. Outras leituras, apesar de não tão atraentes assim para mim, incluem a Análise Experimental do Comportamento e as muitas teorias psicanalíticas, que variam enormemente em qualidade (desde C. G. Jung até Jacques Lacan - vocês sabem minhas opiniões a respeito desses cidadãos).

Todas estas abordagens, apesar de divergirem em vários pontos, são altamente congruentes, completando umas as falhas das outras, e suas diferenças apenas fomentam o processo científico. Conheci esses tempos uma menina que cursava, ao mesmo tempo, Ciências Sociais na UFRGS e Psicologia na UFCSPA, e fiquei pensando como este peculiar processo de estudo pelo qual ela está passando irá influenciar sua maneira de olhar o trabalho. Fico pensando agora como a leitura de todos estes livros e teorias, tão diferentes e ao mesmo tempo complementares, irão me moldar. Só vivendo para saber.

sábado, 29 de novembro de 2008

Time after Time

Com as férias se aproximando, começo a pensar um pouco na experiência de fazer faculdade. Sempre tive a impressão que cada mudança de semestre acarreta não só uma alteração na organização do tempo, mas também do espaço. Sempre volto para o mesmo prédio, mas nunca para a mesma faculdade, ou, melhor dizendo, descubro alguma coisa nova sobre ela e passo a enxergá-la sob outro prisma. Creio que isto ocorre graças ao fato de nunca termos aula na mesma sala por dois semestres seguidos, mas também pelos conteúdos, professores e mesmo colegas que sempre mudam.

A passagem do primeiro para o segundo semestre foi estranha - ainda era bixo, verde na UFRGS, mas tinha adquirido um saber que me deixava quase em pé de igualdade com muitos de meus veteranos.

A passagem do segundo para o terceiro semestre foi ainda mais estranha, pois, finalmente, deixava de ser calouro e tornava-me eu mesmo um veterano de pleno direito, e junto com meus colegas adotava os recém-chegados como protegidos.

A passagem que se aproxima transformará os meus bixos, aquelas criaturinhas ingênuas, bobocas e perdidas que acolhi um ano atrás em também veteranos, enquanto eu caminho a passadas largas em direção à antigüidade de um "vôterano" (o Marcelo e o Brunão, por sua vez, vão virar bisavôteranos). Na verdade, dizer que mudar a folhinha do calendário e o fim das aulas nos transforma em algo é incorreto, pois passamos o ano inteiro nos metamorfoseando, nos tornando algo diferente e (esperamos) melhor, e o fim do semestre apenas oficializa nossa chegada a um ponto de referência desse nosso crescimento fluido, por onde todos os que fizeram faculdade antes passaram, mas que no final das contas não quer dizer muito.

Dito isso, mal posso esperar para ver as caras novas que irão habitar o nosso prédio conosco no próximo ano.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Trabalho de Psicologia e Educação

Enfim, terminei o último trabalho de Psicologia e Educação, e já posso dizer que tenho uma cadeira a menos para me preocupar, apesar de ainda ter que freqüentar as aulas e participar das discussões. Em todo caso, estou um tanto quanto preocupado com a qualidade do meu trabalho. Por isso, posto ele aqui para apreciação crítica de meus amigos:

Questões Relevantes sobre Psicologia e Educação

Antes de começar meu trabalho propriamente dito, gostaria de esclarecer alguns pontos em relação à maneira como ele foi escrito. Ao invés de apresentar/discutir duas questões que considerei relevantes/importantes em cada texto, justificando sua importância e apresentar que posturas assumiria ao trabalhar no campo da Educação ,como foi explicitado pela professora, preferi elaborar duas questões gerais e abrangentes, e tentar respondê-las de acordo com o que acredito ser o correto no momento, usando a bibliografia a minha disposição como fundamentação teórica para meus posicionamentos.

Como estudante de Psicologia, acredito que, por mais pragmáticos que devemos ser em nosso campo de atuação, não podemos nunca abandonar os questionamentos epistemológicos sobre nossas práticas. Portanto, antes de pormos em andamento qualquer programa educacional, devemos ser capazes de responder as seguintes perguntas:

1) Qual é o papel da Educação?
2) Que função a Psicologia exerce no contexto educacional?

Como um complemento à primeira questão, também deve-se perguntar:

1.1) A Educação cumpre seu papel de forma satisfatória?

Por serem por demais amplas, não existem respostas únicas e corretas para estas duas questões. Existem formas idiossincráticas de responder, baseadas em crenças e experiências pessoais, que são determinados pelo tempo e local em que estão circunscritas. Apresentarei neste artigo a maneira como eu vejo as coisas, e as posturas éticas que acredito que adotaria se trabalhasse na Educação, e estão sujeitas a mudarem futuramente, pois, conforme o tempo passa, não só a sociedade e suas concepções científicas que mudam, como também nós vamos transformando nossas formas de ser (Bock, 2000).

Acredito que o papel da Educação é muito complexo, além de ser muito importante. Gosto muito da definição dada por Ghiraldelli Jr. (2000) das influências existencialistas da obra de Freire, que a educação deve permitir que o homem deixe de ser objeto e torne-se sujeito de sua própria história, pois ao mesmo tempo em que define o indivíduo como ativo e capaz de mudar a si próprio e seu meio, não exclui as influências determinantes do ambiente, da cultura e da biologia. Tenho a firme convicção de que a educação e a humanidade como um todo só progredirão na medida em que forem capazes de ensinar ao indivíduo a serem mais conscientes de sua própria condição e a mudá-la. Um estudo realizado por Rogers (1980) e seus orientandos de pós-graduação abordou os fatores preditores de comportamento delinqüente em adolescentes. Foram feitas cuidadosas classificações objetivas do clima familiar, das experiências educacionais, das influencias da vizinhança e culturais, das experiências sociais, do histórico da saúde, do alicerce hereditário de cada participante e uma avaliação do grau de autocompreensão, incluída tardiamente. Surpreendentemente, o melhor prognosticador de comportamento futuro, com correlação de 0,84, foi justamente o grau de autocompreensão, enquanto que a qualidade da experiência social correlacionou 0,55. O estudo foi replicado tempos mais tarde, com outro grupo de sujeitos, e os resultados encontrados foram basicamente os mesmos. Creio que este estudo, além de dar suporte empírico para minha crença, também indica de forma clara como se pode alcançar este protagonismo através da educação, ajudando o estudante a ser mais autoconsciente.

Contudo, há de se questionar se a Educação, não só em sua modalidade formal, como também informal e não-formal (Gohn, 2006), atinge este objetivo e, se não for este o caso, questionar também por que assim ocorre. É difícil afirmar com confiança que as instituições de ensino (fundamental, médio e superior) falham completamente em ensinar aos indivíduos a serem “sujeitos de sua própria história”, primeiro por não dispor de dados específicos que aleguem isto; segundo, por que a educação neste paradigma não depende apenas da capacidade do professor e da instituição de ensinar, mas também da dedicação e vontade do estudante de aprender. Ainda assim, baseado em anedotas como os artigos de Heckert et al. (2001), Eizirik & Comerlato (2004) e, principalmente, na minha própria experiência, digo que o grau de sucessos é muito menor do que o de fracassos. O maior incentivo que existe dentro das salas de aula do ensino médio e fundamental é a necessidade de tirar boas notas para passar de ano e conhecer o conteúdo para passar no vestibular em uma boa faculdade. No ensino superior, devido a maior liberdade intelectual e prática oferecida aos seus estudantes (que já não podem ser taxados de crianças), penso que haja maior autoconsciência e capacidade de autodeterminação entre os estudantes, mas não creio que isto seja a regra. Mais uma vez, devo ressaltar aqui o caráter idiossincrático de minhas afirmações, e que tudo está aberto para investigações.

Resta saber qual papel nós, como psicólogos, cumprimos no processo educacional para que este objetivo possa ser alcançado. Cada vez mais a Psicologia se insere dentro da Educação. Segundo artigo de Meira (2000), uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia em 1992 constatou que a Educação é o terceiro maior campo de atuação profissional da Psicologia, com 24,4% do total de entrevistados, atrás apenas da clínica (37,2%) e organizacional (29,6%). Assim sendo, nossa classe está em posição privilegiada para influenciar o processo de aprendizagem-educação, seja fora das salas de aula, agindo “nos bastidores” e colocando nossos conhecimentos em prática, seja dentro da sala de aula, transmitindo este conhecimento. Porém, segundo Rocha (1999), a função que o psicólogo tem exercido dentro das escolas tem sido como um diagnosticador de deficiências de aprendizagem do aluno e/ou da metodologia utilizada pelo professor para desenvolvimento de suas atividades de classe. Rocha também identifica que os psicólogos que trabalham dentro de escolas dividem-se na maneira como definem seu modelo de atuação: alguns vinculam-se à categorização do psicólogo como profissional da saúde (modelo clínico), outros da cultura (modelo pedagógico), enquanto que um terceiro grupo define-se como adotando o modelo da análise institucional. Contudo, apesar das diferentes nomenclaturas, todos buscam essencialmente a mesma coisa: a adaptação dos indivíduos ao ambiente da escola e isto, creio eu, mesmo às custas do pensamento crítico e da autonomia estudantil. Permita-me exemplificar isto com uma experiência própria, vivida no meu terceiro ano do Ensino Médio. No último trimestre do ano letivo, estava me preparando para fazer intercâmbio estudantil nos Estados Unidos, e a burocracia envolvida era muito pesada. Precisava que a diretora de meu colégio assinasse um certo documento e, para pegá-la, aproveitei um dia em que, ao invés de aulas, ocorreria um simulado de vestibular oferecido por uma universidade gaúcha. Ao entrar no prédio, encontrei a coordenadora pedagógica, cuja formação básica suspeito ser Psicologia, e falei-lhe da minha situação. Ela me disse que teria que esperar e me levou para minha sala de aula, onde estava sendo aplicado o simulado. Não muito satisfeito com esta situação, saí da sala e, encontrando novamente a coordenadora, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Ela ficou nervosa e disse que eu deveria estar fazendo “as coisas que realmente importam”, ao invés de ficar “correndo atrás de irrelevâncias como o intercâmbio” (também tive que ouvir a outra coordenadora pedagógica dizer que, se ela fosse minha mãe, estaria muito preocupada comigo!). Passados quase três anos desde o ocorrido, posso dizer com segurança que em seis meses morando no exterior aprendi mais do que os três anos que passei sentado nas carteiras da minha velha escola, e que aquele simulado não fez a menor diferença em minha vida!

Fazendo uma caricatura da situação, é provável que a maioria dos psicólogos que trabalhem na educação estejam muito mais preocupados em manter o status quo, a imagem pré-concebida da escola, do que em estimular verdadeiramente a autoconsciência e autonomia dos educandos, por mais que os projetos político-pedagógicos adotados por eles digam o contrário.

Tendo tudo isto em mente, o que pode ser feito para ajudar os psicólogos em formação a entenderem seu papel socrático na educação, de estimular os estudantes a conhecerem a si próprios, e, mais importante ainda, como sair do discurso e fazer isto na prática educacional? Lamento não ter nenhuma outra resposta além de sermos nós próprios autoconscientes de nossas próprias limitações, de nos policiarmos permanentemente (não no sentido foucaultiano!) para que não caiamos no erro de buscar apenas a adaptação ao meio, e sermos humildes para aceitarmos quando erramos. Acredito que colocar isto em prática é uma ferramenta pedagógica muito mais eficaz do que qualquer aula expositiva.

Referências

BOCK, A. B (2000). As influências do Barão de Münchhausen na psicologia da educação. In: TANAMACHI, E. R.; ROCHA, M. L. P. Psicologia e educação: desafios teóricos-práticos. São Paulo: Casa do Psicólogo. p. 11-34.

Eizirik, M. F.; Comerlato, D. (2004) A escola (in)visível: jogos de poder, saber e verdade. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS.

GHIRALDELLI JR, P (2000). As concepções de infância e as teorias educacionais modernas e contemporâneas. In: Educação e Realidade: Os nomes da Infância. V 25 n.1. Porto Alegre: Rosa Maria Bueno Fischer.

GOHN, M. G. M (2006) Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 11-25.

Heckert, A. L.; Corona, C. R; Manzini, J. M. ; Machado, R. E.; Fardin, V. L. (2001) A Escola como Espaço de Invenção. In: Jacó-Vilela, A. M.; Cerezzo, A. C. e Rodrigues, H. B. C. (orgs). Clio-psyché hoje: fazeres e dizeres psi na história do Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ.

Meira, M.E.M. (2000). Psicologia Escolar: Pensamento crítico e práticas profissionais. Em: E. de R. Tanamachi; M.L. da Rocha & Souza, M.P.R. (Orgs). Psicologia e Educação: desafios teórico-práticos. (pp. 35-72). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Rocha, M. L. (1999) A formação na interface psicologia/educação: novos desafios. In: Jacó-Vilela, A. M.; Mancebo, D. (Org.). Psicologia social: abordagens sócio-históricas e desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Ed. UERJ.

Rogers, C. R. (1980) Duas Tendências Divergentes. In: May, R. (org): Psicologia Existencial (pp. 97-106). Porto Alegre: Globo.

domingo, 14 de setembro de 2008

Educação e Capitalismo

Em questões políticas, eu divirjo bastante da média dos estudantes de Psicologia, e de estudantes universitários como um todo. Por exemplo, tenho convulsões faciais graves toda vez que escuto alguém falar do capitalismo como o mal do mundo. Na verdade, eu viro meus olhos em horror toda vez que escuto a palavra capitalismo ou o nome de Marx, por que duvido muito que algo de bom possa vir depois delas (isso foi comprovado empiricamente por mim mesmo em muitos encontros estudantis).

Uma coisa que nunca entendi verdadeiramente é a gana que o pessoal do DCE e do movimento estudantil de universidades públicas contra o ProUni, programa do governo que distribui bolsas de estudo em universidades particulares para alunos que em outras condições não poderiam pagar a matrícula. Eles dizem que valeria mais a pena criar mais vagas nas universidades federais atuais, investindo em sua (geralmente) decrépita infraestrutura, e que o ProUni é só uma jogada do FMI para manter as universidades particulares às custas do governo, ocupando suas vagas ociosas. Sempre fui da opinião de que é melhor aproveitar o que já tem pronto do que sair comprando ou criando a mais - e ainda acho que isto é válido para uma porção de coisas, mas nem tanto para o ensino superior.

Para quem não sabe, meu pai é psicólogo também, e dá aulas em uma faculdade particular em Caxias do Sul (não vou dizer qual). Na próxima aula, ocorrerá um seminário sobre relacionamento terapêutico, um assunto que considero muito interessante. Por isso, perguntei se poderia participar. Ele assentiu, mas falou que o coordenador do curso poderia ficar sabendo. Acostumado que estou com a personalidade medrosa e cumpridora da lei dele, achei que fosse exagero. Mas ele justificou-se, dizendo que uma aluna da pós-graduação pedira anteriormente para assistir uma aula dele (vou repetir para enfatizar: UMA aula), mas o coordenador do curso não permitiu - pois para assistir aula tem que pagar. Vamos analisar a situação com mais atenção. Não era uma pessoa de fora pedindo para assistir uma aula, nem uma aluna de algum outro curso pedindo para assistir todas as aulas de graça. Era uma aluna da própria instituição pedindo para assistir uma única aula, visando aprender mais para ser uma melhor profissional. Mas isto, como ficou claro, é secundário para esta faculdade. O que importa é ganhar dinheiro, e dane-se se quem estuda ali não seja capaz de exercer suas funções profissionais, por que isso é problema dele e não da instituição de ensino.

Eu estou mal acostumado na UFRGS, muito mal acostumado mesmo. Eu posso achar as aulas dos meus professores absurdamente chatas (and have no doubt: they are!), mas não posso negar que, para muitos deles, se não a maioria, a prioridade é nos dar aula e nos auxiliar para que nos tornemos bons profissionais. Isto se deve, em parte, ao fato dos alunos não pagarem para estudar, e da fonte de verba não residir nas matrículas. Nunca que a coordenadora do nosso curso se oporia à alguém assistir uma aula, ou mesmo uma disciplina por um semestre inteiro, mesmo sem matrícula.

Não quero dizer com este post que os professores de universidades federais não são dinheiristas - se não fossem, não ficariam publicando artigo em cima de artigo pra ganhar pontos com a CAPES. Também não quero dizer que em todas as particulares só se quer ganhar dinheiro, e acho que meu pai é um exemplo de professor devotado ao ensino (ele vai ficar com o ego inflado ao ler isso aqui). Também não acho que o ProUni deva ser extinto. Mas estaríamos em maus lençóis se todo o ensino superior do Brasil estivesse nas mãos dos capitalistas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Uma Teoria da Educação

Pensando sobre a formação em Psicologia, concluí que há uma característica necessária, mas talvez não suficiente, para a boa aprendizagem: a ampla variedade de estímulos.

Acho que para qualquer um que tenha pego um livro do Skinner na mão estou chovendo no molhado ao dizer isto, mas acredito que não é algo tão óbvio ou intuitivo assim para todas as pessoas que trabalham com Educação. Tomemos por exemplo o nosso sistema educacional geral, desde a primeira série do ensino fundamental, passando pelo terceiro ano do ensino médio, até os cursos de ensino superior. Qual é o cerne comum a todas estas etapas? A obrigatoriedade de presença em sala de aula, para ficar ouvindo e copiando o que o professor repete de um livro-texto que também é a repetição do que um pesquisador graúdo disse (e que talvez também nem seja tão original assim). Pela lógica do senso comum, é assim que aprendemos. Mas se é assim, por que é que eu lembro tão pouco da Química e da Biologia que me ensinaram no terceiro ano? Se ignorarmos o fato que ficar lendo um livro relativamente grande para decorar o que está escrito nele é uma experiência frequentemente traumática, fica um tanto quanto óbvio que não é uma atividade estimulante. Igualmente desestimulante é ficar sentado, junto com mais vinte ou trinta pessoas, por quase duas horas inteiras, ouvindo o que a professora tem para dizer sobre funcionamento cerebral e comportamento animal. E, veja bem, não são assuntos que considero desinteressantes - bem pelo contrário, é justamente o que estudo na faculdade! E isso era basicamente como eu "aprendia" no Ensino Médio. Acho impressionante que eu lembre de qualquer conteúdo que tenha sido passado para mim naquela época.

Já naquela época, gostava de trabalhos um pouco mais desafiadores, e que envolvessem mais coisas do que a sala de aula, o professor e o quadro-negro. No segundo ano do ensino médio no meu antigo colégio, por exemplo, temos aulas de Química no laboratório. Faz parte do currículo. Foram as aulas mais estimulantes e divertidas que tive de Química até hoje, e foi graças à nota do laboratório que passei de ano (já que nas provas eu sempre apanhava). Este semestre na faculdade, não posso exatamente reclamar de não ter oportunidades estimulantes, pois quatro das sete disciplinas que curso atualmente têm trabalhos que envolvem mais do que pegar um livro na biblioteca e escrever um relatório: terei que entrevistar pessoas, conhecer serviços e fazer diagnósticos e atuar como um psicólogo hospitalar, e talvez eu venha a aplicar testes e coisas afins. Em poucas palavras, uma grande quantidade de estímulos diferentes, além das aulas presenciais.

Agora, pergunto: por que não poderia ser assim sempre? Por que o modelo clássico de dar aula tem que prevalecer? Não gosto muito deste funcionamento onde o professor apenas ensina e os alunos apenas aprendem. Isto não funciona tão bem quanto poderia. Não estou dizendo que deveríamos extingüir as aulas presenciais, demitir os professores e deixar na mão dos estudantes o que eles querem fazer. Na verdade, minha proposta é muito menos destrutiva, e muito mais construtiva, apesar de ser iconoclasta. Por que não diminuir o número de horas de aulas presenciais, dar mais tempo de leitura e mais trabalhos de campo? Por exemplo, a disciplina de Processos Grupais, por mais... mais... complicada que tenha sido, proporcionou uma excelente oportunidade de ver a dinâmica de um grupo externo à faculdade, e apesar de ter dado uma BAITA trabalheira, foi muito interessante. Por que não temos um maior contato com a prática psicológica, não só de pesquisa como também aplicada?

Sei que há muitos impedimentos políticos contra esta abordagem, mas certamente seria muito interessante estudar desta maneira.

Até logo, e obrigado pelos certificados!

Continuando o assunto da minha formação em Psicologia...

Como disse antes, não comecei a fazer nenhum estágio curricular ainda. Com sorte, começarei no início do próximo ano. Em outras palavras, em quase dois anos estudando Psicologia na UFRGS, o currículo do meu curso apenas me proporciou aulas presenciais. Não quero dizer com isto que passei todo esse tempo apenas ouvindo o que um cidadão com PhD a quem é convencional chamarmos de "professor" tem para dizer sobre Foucault, Bowlby ou Freud, mas, de forma grosseira, que é só isso que a faculdade propriamente dita tem para oferecer ao seus estudantes. Francamente, é humanamente impossível apenas assistir aulas para ser um bom estagiário, quanto mais um bom profissional. Digo isto por que, com o tempo que passamos dentro do Instituto, perdemos perspectiva de quase todo o resto do mundo, que vibra, fala e faz coisas que nós muitas vezes nem ao menos imaginamos, envolvidos que estamos em discutir a cientificidade da Psicanálise ou da Psicologia.

Não me limitei às broxantes aulas presenciais, e fiz muitas outras coisas que a universidade, a academia como um todo e a "vida real" (por que vivemos em conto de fadas dentro da faculdade) me proporcionaram: fiz cursos extracurriculares, fui em congressos e em encontros estudantis, participei e participo de programas de pesquisa e extensão, troquei idéias com pessoas de todas as regiões do Brasil (sem exagero - sul, sudoeste, centro-oeste, nordeste e até mesmo norte) e li muito, não só os polígrafos que os professores disseram que deveríamos ler, como coisas que me interessam e sei que dificilmente verei em aula.

Não há uma coisa mais importante que a outra nesta pequena lista de coisas que fiz. Matricular-se e ser aprovado nas disciplinas é obrigatório se eu quiser ter um diploma de bacharel em Psicologia, mas não me torno um bom psicólogo apenas por comparecer às aulas. Aprendo com tudo que faço. Não é um processo linear e previsível, como uma "adição de conhecimentos" do tipo "Ler Freud = Saber Psicanálise Freudiana", por que poucas pessoas no mundo sabem citar de cor qualquer parágrafo de um livro, e os poucos que sabem talvez não saibam o que estão falando, e por que conhecimento puro e simples não tem muito valor. "Não sejam um vagão de munição, sejam uma espingarda!" já disse um professor de Carl Rogers, que foi muito influenciado por esta filosofia. Não acumulemos conhecimento por acumular, vamos aplicá-lo! Por isso, acho que o que aprendemos não é simplesmente jogado em um depósito mental e de lá retirado quando necessário, mas é integrado aos nossos processos humanos de mudança, modifica e é modificado pelos nossos pensamentos, emoções, motivações e comportamentos. O que aprendemos adiciona força ao que já sabíamos antes, mas não é uma adição puramente mecânica e simplista. Não sei qual seria a melhor forma de explicar isto, mas a imagem mental que tenho do processo de aprendizado é de uma bola de energia, que cresce cada vez que descubro algo novo, até o infinito.

Acho que isto tem muito a ver com a formação do psicólogo, não importa em que área ele atua ou venha atuar. Como disse anteriormente, a boa prática de nossa profissão depende muito fortemente da nossa personalidade, que deve ser moldada (ou amolada) constantemente para continuarmos sendo eficientes e eficazes. Dificilmente o que eu aprendi na faculdade terá uso na minha vida profissional, mas o fato de eu ter estudado, aprendido, assimilado certamente me influenciou, e me tornou cognitivamente mais capaz - em outras palavras, afetou a gestalt da minha personalidade, e essa gestalt em particular nunca se fechará, e estará sempre em mudança. E é essencial que assim seja, pois a própria humanidade muda com o tempo, e é necessário que mudemos juntos para podermos compreendê-la.

Se ficasse o tempo todo na faculdade, indo em todas as aulas mas sendo preguiçoso e lendo só o que eles dissessem para ler, e mais nada, eu certamente seria capaz de passar em todas as disciplinas (o que não é lá tão difícil no Instituto de Psicologia, onde um macaco bem treinado poderia se doutorar), mas ao chegar nos estágios, eu certamente sofreria bastante - afinal de contas, meu único referencial, o único lugar que busquei desenvolver meu repertório "psi" (detesto essa expressão, mas relevem) foi naquele antro de gente bitolada que é a faculdade! Talvez o estágio me salvasse e eu expandisse meus horizontes, mas ainda assim eu não seria a metade do profissional que eu poderia ser se tivesse ido mais vezes fazer programas como almoçar com o pessoal da Psicologia da UNISINOS, ou tomar nescau no corredor do alojamento do ENEP com umas baianas perdidas. Eu fiz isso tudo, e muitas outras coisas que não lembro mais. Certamente, não sou capaz de imaginar como eu seria, que tipo de psicólogo eu me tornaria se não tivesse participado de ENEPs, EREPs e tudo o mais. Mas tenho bons motivos para dizer que não seria tão bom quanto o que estou me tornando.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ser doutor sem ser médico?

A educação formal no Brasil começa cedo - aos 7 anos os pais são obrigados por lei a colocar seus pimpolhos na escola. Muito antes disso já se começa a perguntar para as crianças o que elas querem ser quando crescerem, mas a partir da primeira série esta questão se torna gradativamente mais importante e presente.

No Ensino Fundamental, ela é feita com alguma freqüência, mas pouca seriedade. Geralmente, quando o professor ou algum outro chato intrometido pergunta para as crianças mais novas com o que elas querem trabalhar, tem como resposta coisas como bombeiro, astronauta, médico (1) ou qualquer outra profissão vistosa - dificilmente as crianças respondem que querem ser psicólogos, nutricionistas ou garis. No Ensino Médio a coisa muda de figura, pois os estudantes estão quase em idade de trabalhar, e esta escolha deverá ser feita muito em breve - na melhor das hipóteses, em 3 anos. Considerando que se espera que os jovens escolham a profissão que praticarão pelo resto de suas vidas, é pouco tempo.

Diante desta escolha, alguns decidem fazer um curso técnico e entrar direto no mercado de trabalho, enquanto outros preferem encarar uma faculdade de 5 anos, aprender um ofício em profundidade, para só então, com um diploma em mãos, procurar emprego. Mas, mesmo entre os que cursam faculdade, há os que preferem continuar estudando por mais tempo ainda, fazendo especializações, mestrados e doutorados. Não sei se dá para dizer que estudantes de graduação em universidades federais são mais propensos a cursarem pós-graduações, mas posso dizer que com certeza eles são muito mais expostos à pesquisa e "produção de conhecimento" do que estudantes de universidades particulares. Também a motivação é diferente para ambos - quem busca estudar em uma federal sabe que, muito provavelmente, vai ter que se dedicar exclusivamente aos estudos antes de começar a trabalhar, ao passo que quem entra em uma particular muitas vezes vai dar prioridade ao trabalho, e cursar só duas ou três disciplinas por semestre e (com sorte) usar o que aprender para melhor seu desempenho profissional. Claro, nem sempre é assim, mas é bem freqüente.

E foi assim comigo. No Ensino Fundamental, não pensava no que queria ser (e se pensava, não era muito sério); no Ensino Médio, eu era obrigado a pensar, por que os professores não paravam de falar no vestibular e como era importante para nossas vidas estudar e entrar para a faculdade para estudar ainda mais. Às vezes, parecia que eles tinham uma visão muito estreita da realidade, pois davam a entender que o único caminho disponível para nós era o Ensino Superior, quando na verdade não é (2). Cheguei no fim do Terceiro Ano querendo cursar Direito. Ainda bem que adiei meu vestibular e fui para os EUA fazer intercâmbio. Isso me deu mais tempo para pensar e chegar à conclusão de que queria fazer Psicologia. Agora, estou no segundo ano da faculdade. Por enquanto, posso me afundar nos livros e estudar feito um condenado sem ter que pagar minhas contas, mas depois que me formar, as coisas mudam de figura. Entre as minhas opções, está fazer mestrado e depois doutorado, além de começar a trabalhar assim que for possível. Sinceramente, por mais que ache que eventualmente engatarei um mestrado, não quero fazer isto logo após terminar a graduação, e muito menos na UFRGS. Adoro este lugar, mas por favor, depois de 5 anos (ou mais) eu quero conhecer outras universidades. Além disso, eu já tive as aulas da pós-graduação, pois a grande maioria dos professores só dá uma aula - o mesmo conteúdo, a mesma entonação de voz e as mesmas piadas (se existirem) foram contadas para todos os seus alunos, tanto de graduação quanto de pós.


Mais do que isso, não quero passar o resto da minha vida dentro da academia, e me tornar como alguns de meus professores, que parecem não saber como as coisas funcionam fora de seu mundo encantado. Talvez um dia eu vire doutor sem fazer Medicina, mas no momento, não consta na minha lista de desejos passar mais 6 anos estudando.










-------
1. "médico da cabeça" é algo perfeitamente plausível de uma criança dizer, mas pode significar tanto psiquiatra quanto psicólogo ou neurologista.

2. Digo isso por experiência própria. Um dia, no colégio, estavam nos oferencendo a oportunidade de fazermos uma prova simulada da Unisinos. Por mais achacados que fossemos para fazer esta porcaria, não era obrigatório, e eu preferi usar minha manhã para correr atrás da papelada para meu intercâmbio (naquela altura do campeonato eu estava alucinado para juntar tudo que precisava em uma semana). Fui no colégio lá pelas 9 horas para pegar a assinatura da diretora, mas acabei sendo levado pela coordenadora pedagógica, Rita, para a sala de aula para fazer o simulado. Pensando nisto agora, me dei conta de como fui tratado como pirralho mesmo tendo 17 anos, mas na época estava tão acostumado com isto que nem me dei conta. O tempo necessário para decidir que não iria fazer a tal prova foi o tempo que levei para sentar na minha carteira e descobrir que o tamanho mínimo da redação eram 60 linhas. Saí da sala quase imediatamente, encontrei a coordenadora pedagógica e a tia do SOE, Leda (vulgarmente conhecida como "Cotonetão" ou "Beavis"), e num arroubo de assertividade, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Tive que ouvir como resposta da Rita que eu deveria estar fazendo o simulado, e não correndo atrás de coisas irrelevantes como "intercâmbios", e da Leda que, se ela fosse minha mãe ela estaria muito preocupada com minhas atitudes (o que não deixa de ser engraçado, já que ela tem seus 60 anos, é solteira, não tem filhos, é provavelmente virgem e provavelmente assim morrerá).

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Divulgação científica

Falando com uma amiga minha por MSN essa semana, acabei divulgando um certo blog que fala de ciência, filosofia e coisas do gênero, com a ressalva de que era legível. A resposta dela veio em forma de pergunta: dá para um leigo ler?

Esta pergunta representa bem o estado atual das ciências no mundo. Geralmente, idealiza-se que elas são domínio do cientista, e que pessoas não iniciadas em seus meios são incapazes de compreender a quantidade absurda de dados e teorias. Acho que isto é falha nossa, pois ajudamos a perpetuar este modelo elitista de conhecimento, onde os acadêmicos pesquisam e o resto da população acredita no que eles dizem. Não deveria ser assim, em nenhum aspecto.

Karl Popper, considerado o maior filósofo da ciência do século passado, postulou que, para que uma determinada disciplina ou campo de pesquisa possa ser considerada científica, é necessário que seus postulados teóricos sejam passiveis de teste e falseabilidade. Em outras palavras, que possam ser refutados em favor de postulados melhores. Eu acrescentaria outra característica das ciências sérias: elas podem ser explicadas para qualquer um, numa linguagem relativamente simples e pouco técnica.

OK, admito que essa minha afirmação é bem contestável. Afinal, como poderíamos explicar Física Quântica Teórica para pessoas que nunca estudaram isso na vida, e que no máximo assistiram “O Segredo”, um filme que todo bom físico deseja ver banido da existência? Como não quero entrar em polêmica sobre o filme, e por que não sei lá muita coisa de Física, não sei como fazer isso. Entretanto, em se tratando de Psicologia, Psiquiatria e Neurociências, acredito que isto não é apenas possível de ser feito, mas necessário.

Até o momento, toda boa teoria que li era inteligível – era possível de entender com apenas uma leitura atenta. Nem toda a teoria clara é boa, mas toda teoria boa é clara. Posso não gostar tanto assim de Freud, mas devo admitir que suas proposições são boas, que colaboraram com o progresso da ciência psicológica de muitas maneiras, e, principalmente, que estão expostas de forma a não deixar margem para dúvidas. E mesmo que a teoria seja um pouco indigesta, é possível eu pedir para alguém que entenda mais do assunto me explicar e me recomendar outras leituras para aprofundar meus conhecimentos. No caso das pseudociências, isto não acontece, por que geralmente os textos são truncados e mal escritos (eu diria até que de propósito), e mesmo que se peça ajuda para alguém que entenda da matéria, esta pessoa não irá explicar, por que: 1) o assunto é complexo demais para ser reduzido a poucos tópicos, e fazer isso seria mutilar a teoria; 2) ela também não sabe explicar, mas não quer perder a pose de entendido. Nas vezes que pedi explicações sobre pseudociências, ouvi a primeira alternativa, mas tenho fortes motivos para acreditar que a segunda é mais verdadeira.

Além de tudo isso que já falei, divulgação científica é legal! Se não fosse pelos caras que se prestam a transformar a ciência em uma complexidade mais compreensível como Lévi-Strauss fala, eu saberia muito pouco sobre câncer, física de partículas ou até mesmo minhas queridas Neurociências. São, sem dúvida, assuntos bem complexos, mas que dizem respeito a todos nós. Sou suspeito para falar, mas acredito que todos em nossa sociedade, não importa qual profissão decidam seguir, deveriam ter uma formação científica sólida, para poder entender o que se passa nos confins da pesquisa avançada, e compreender como isto pode afetar-nos. No Ensino Fundamental temos uma aula sobre bichinhos, plantinhas, átomos e tubos de Becker que se chama “Ciência”. No Ensino Médio, ela se desdobra em Biologia, Física e Química, e por mais interessantes que possam ser, são insuficientes, pois aprendemos apenas o que é tomado como certo – só vemos coisas as coisas velhas, e dificilmente abordam-se desdobramentos recentes nestas áreas (eu aprendi, por exemplo, que o número de neurônios mantém-se constante ao longo da vida, quando não é bem assim). Além disso, saí-se dessas aulas com a impressão de que a ciência é a portadora da verdade, que cientistas sabem tudo, quando é justamente o contrário: cientistas não sabem nada, e é por isso que pesquisam! Por que pesquisar o que já se sabe?

A divulgação científica está aí para popularizar a pesquisa e a ciência entre as pessoas leigas, que não trabalham em áreas tão especializadas. Pode parecer um trabalho bobo, até mesmo simplório, ficar falando em termos simples para pessoas que não sabem muito do assunto. Entretanto, acredito isto ser fundamental, não só para tornar a ciência mais palatável e divulgada, mas para criar o tipo de sociedade democrática e crítica que desejamos.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Sociedade, Personalidade e Neurodiversidade

Para viver em sociedade é necessário ser bem ajustado de várias maneiras. A mais global destas maneiras é ter uma personalidade socialmente aceitável. Agrupamentos sociais selecionam pessoas com traços de personalidade mais bem vistos e vantajosos para o grupo. Não vejo nenhum problema nisto, até por que seria um contra-senso selecionar características que prejudicam a todos. Porém, isso acarreta alguns problemas. O primeiro é o processo de seleção. Em geral, seleciona-se as pessoas mais parecidas com a população em geral – em outras palavras, pessoas excêntricas, fora do centro comum, acabam excluídas socialmente. Por “centro comum” quero dizer qualquer coisa: brancos ou pretos, judeus ou arianos, introvertidos ou extrovertidos... ou qualquer outro parâmetro que se desejar. Hoje em dia isso não quer dizer grande coisa, já que dá para viver sozinho num apartamento comendo comida congelada e tele-entrega, mas há não muito tempo atrás, viver isolado de qualquer coletivo significava morte certa (e em algumas situações-limite ainda significa).

O processo de seleção não é, contudo, um sistema meramente binário, tendo mais possibilidades do que DENTRO DO GRUPO e FORA DO GRUPO. Na verdade, a exclusão social é o último recurso, pelo menos na civilização atual. Antes disso, ocorre uma tentativa de moldar a personalidade do excêntrico. Isso por si só não é ruim, e acredito ser possível justificar tal prática numa isolada tribo da Nova Guiné, mas suas conseqüências podem ser nefastas. Acho que não é necessário explicar com muita profundidade no que consiste esse processo, pois acredito que todos que lêem este blog já passaram por alguma situação em que sentiram-se pressionados a mudarem seu jeito de agir para serem socialmente aceitos: tirar boas notas, pegar mulher na festa, beber até cair, não urinar em sala de aula... qualquer coisa. Como já disse, essa mudança não é necessariamente ruim (sinceramente, eu não gostaria que mijassem na sala aqui de casa). Acho que o buraco é mais embaixo.

Historicamente, personalidades ditas ruins foram consideradas patológicas – a mais exemplar destas é a personalidade anti-social, mais conhecida como personalidade de psicopata. Não quero defender os crimes cometidos por psicopatas por aí, pois acho que qualquer ser humano que conscientemente (1) se torna um risco para outros e não sente remorso por isso, ou, se remorso for pedir demais, não ver vantagens em ser socialmente adaptado, ele deve ser mantido fora da sociedade. Deve ser tratado com dignidade e respeito, mas isolado para que não cause danos a ninguém. Entretanto, muitas pessoas são discriminadas por características comportamentais e personológicas que são mal-vistas por causa de crenças coletivas infundadas. Entre essas pessoas encontram-se psicóticos, Autistas (3), “portadores” (2) de Transtorno de Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade (TDA/H), e outros cujos comportamentos estão definidos no DSM ou na seção 7 da CID (4).

Aqueles que se enquadram em uma ou mais destas definições não são perigosos por causa de seus transtornos. Admito que um psicótico em surto pode ser bem perigoso, especialmente se ele achar que é Azrael o Anjo da Morte e que a hora de todos os seus vizinhos chegou (5), mas não é durante o surto que o preconceito acontece (até porque não dá tempo de fazer isso enquanto se tenta impedir que Azrael te decapite a pauladas), mas depois, com as rubricas sociais: “te cuida com aquele ali, ó, ele já foi pro São Pedro (6) quatro vezes. É louco de pedra!”; “é doido, coitado. Segura tua bolsa, querida.”; “lugar de louco é no hospício!” O sujeito pode ser a criatura mais mansa do universo, mas a mancha está lá, e ele está condenado ao limbo da sociedade.

Com os autistas, a coisa é um pouco mais complicada. Em termos gerais, o distúrbio caracteriza-se por uma grande dificuldade de socialização, de empatizar com outras pessoas e tendência a ficar muito tempo em seu “mundo interior”. Há casos mais sérios, mas o núcleo comportamental comum a todos que se encaixam no espectro autista está aí (se estiver errado ou incompleto me corrijam). Isto não é necessariamente ruim, e não o é na maioria dos casos, mas como dificuldade de socialização é uma coisa socialmente mal-vista (DÃ!), e muitos pais de crianças autistas sentirem na pele como é duro seu filho não olhar em seus olhos, faz-se de tudo para desenvolver técnicas para que eles tornem-se mais capazes destas coisas e saiam de dentro de suas conchas. De novo, considerando as coisas positivas que socializar-se traz, não vejo nada errado com isso. Só que o processo é bem duro, e muitas vezes maltrata os autistas. Por exemplo, autistas que tomaram remédios para tornarem-se mais mansos relatam que sentiam-se mentalmente inertes. Em uma situação mais cruel, autistas têm os olhos muito sensíveis para luzes fluorescentes, e quando entram em recintos iluminados predominantemente por lâmpadas deste tipo começam a gritar, fazer escândalo, essas coisas que a gente não quer ver por aí, por que dói. Para que isto não aconteça (e para que os pais dos autistas sintam-se como pais normais), as crianças são condicionados via Análise Aplicada do Comportamento para não emitirem este comportamento. A dor nos olhos continua, mas pelo menos eles são bons meninos e boas meninas, e é isso que conta.

O problema dos “TDA/Hs” é diferente. Eles são perfeitamente capazes de socialização, mas tem maior dificuldade do que a média da população para concentrar-se em uma tarefa só e manter-se nela por um período considerável de tempo, e precisam estar em constante movimento, além de “viajarem” com muita facilidade (de forma similar aos autistas, TDA/Hs são bastante introspectivos). Trazendo para o plano concreto, é mais difícil para eles prestarem atenção em aulas (especialmente expositivas) e trabalharem, pois não conseguem prestar atenção direito e ficam “brincando” de alguma forma para manterem-se em movimento (por exemplo, malabarismos de uma mão só, com canetas, controles remotos e similares). Não é que não consigam – é só bem mais complicado. Sou um paciente com TDA/H típico, e sinto na pele estes problemas. Falando por experiência própria, quando preciso trabalhar, eu trabalho, e quando preciso estudar, eu estudo. A diferença entre eu e uma pessoa não-TDA/H é o tempo que eu levo para sair de um estado passivo de vadiagem para um estado ativo de estudo/trabalho. Em um panorama mais geral, são poucos portadores deste transtorno que não conseguem realmente trabalhar – se a preguiça é a mãe da necessidade, a necessidade é mãe do trabalho árduo. Adultos que dependem de seu salário sabem que, se vadiarem, vão para rua. Inclusive TDA/Hs. Quem mais sofre com este “problema” são as crianças em idade escolar. Não conseguir parar quieto em aula não só é um comportamento mal-visto, mas é encarado como desrespeito pelo professor e falta de interesse em aprender por parte do aluno. Não considero aulas expositivas o modelo de ensino ideal para ninguém, mas, como sinto na própria pele, é muito pior para quem têm déficit de atenção e/ou hiperatividade (7). Assuntos que em outro contexto seriam muito interessantes tornam-se francamente aversivos, como Física ou Química, e o aluno TDA/H sofre muito mais para estudar (esqueci de dizer que a tolerância à frustração para portadores deste distúrbio é menor do que a média da população). E daí, dá-lhe ritalina pro guri parar quieto e obedecer o professor!

Numa sociedade perfeita, a distância entre o socialmente aceitável e o existencialmente mais agradável seria a menor possível, permitindo que as pessoas convivessem em harmonia, mas não tolhessem seu crescimento pessoal e potencialidades para tanto. Não é assim onde nasci e me desenvolvo. Os remédios e técnicas utilizados para tornar estas pessoas mais socialmente aceitáveis funciona e trás benefícios claros – um surto psicótico causa danos irreparáveis no cérebro, e quanto mais puderem ser evitados, melhor, e não há via mais eficiente que o tratamento farmacológico (8). Posso dizer o mesmo para autistas e TDA/Hs, pois ambos se beneficiam de certos tratamentos. Entretanto, a personalidade destes, seu próprio modo de ser é mutilado, destruído até. E por que isso? Por causa de uma sociedade incapaz de acolher e aceitar as diferenças. Soa patético e piegas isso, eu sei. Mas é real. Não foram poucos os psicóticos, autistas e hiperativos que demonstraram aptidões artísticas e científicas excepcionais. O São Pedro está cheio de artistas; desconfia-se que Einstein era aspergher, e pode-se inferir com bastante certeza de que Jung era um TDA/H também (e eu, é claro).

Recentemente, um grupo de autistas e simpatizantes trocou idéias e uniu-se pela causa de garantir maior liberdade para os autistas poderem ser o que são – autistas. Como eles próprios afirmam, eles são cidadãos de pleno direito, mas com um funcionamento cerebral diferenciado. Chamam sua causa de Neurodiversidade. Acredito que o mesmo pode ser dito dos outros “transtornos” que citei aqui, e esta busca ampliada para incluí-los também. Por que não considerá-los formas de personalidade diferentes? O próprio Jung, segundo diz meu pai, identificara o TDA/H antes dos psiquiatras do DSM o classificarem. Mas ao contrário destes, Jung o definiu como sendo a personalidade intuitiva – cujo foco libidinal é mais voltado para o mundo interior. Bem diferente da doentificação psiquiátrica.

Não defendo deixar os autistas viverem como estão, deixar os psicóticos em surto correndo por aí ou os TDA/Hs eternamente perdidos em suas divagações – isto não seria saudável. Em sua obra, Jung fala do processo de Individuação. Este processo de crescimento se dá através do desenvolvimento das funções pouco desenvolvidas em nós: introvertidos tornam-se mais extrovertidos, pessoas racionais tornam-se mais emotivas; o contrário também acontece (9). Acredito que, em uma sociedade ideal, nossas diferenças seriam respeitadas, mas nos seria permitido desenvolver aquilo que precisamos para nos tornarmos indivíduos únicos e saudáveis, e acredito que, se desejamos que tal sonho torne-se realidade, devemos primeiro criar uma sociedade mais neurotolerante.






------
1. A questão da consciência em psicopatas me soa complicada demais para poder dizer se eles possuem consciência ou não de seus atos, mas considerando que muitas pessoas com transtorno de personalidade anti-social são muito inteligentes e capazes de elaborar detalhadamente planos para longo prazo, vou assumir que eles têm consciência de que o que fazem é errado.

2. Palavra ruim, eu sei, mas não consigo pensar em nenhuma melhor.

3. Por motivos práticos, considero autista todos os portadores de condições que se encaixam no espectro autista, como a síndrome de Asperger.

4. DSM = Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, atualmente na quarta edição revisada; CID = Classificação Internacional de Doenças, atualmente na décima edição. A seção 7 da CID é de transtornos mentais (se não me engano).

5. Nesse caso, internação em uma ala psiquiátrica de hospital geral com vigilância faz MUITO sentido. No momento aqui no Brasil, e mais especificamente em Porto Alegre, os psicóticos surtados são internados em hospitais psiquiátricos, mas por motivos que não quero comentar aqui, não é a situação ideal. O Marcelo já falou sobre isso aqui e aqui.

6. Hospital Psiquiátrico São Pedro, também conhecido como “O Glorioso”. Pelo menos é assim que o diretor daquela joça chama o lugar.

7. Nunca conversa informal esses dias, o Lobo da Estepe (outro TDA/H óbvio e assumido) disse que a escola ideal para um TDA/H seria um parque de diversões com livros em locais específicos e bem chamativos, para que as crianças pudessem movimentar-se e ler à vontade quando achassem melhor. Os professores ficariam por perto para tirar dúvidas e cuidar para que os moleques não se esfolem além da conta (por que infância sem joelho ralado não existe). Talvez isso não funcionasse em uma escola primária, mas eu certamente adoraria se a Psicologia da UFRGS funcionasse dessa maneira.

8. Claro que, para alguns, o melhor remédio é um “bom ambiente”.

9. Na tipologia jungiana, há quatro funções psíquicas diferentes, além dos pólos extroversão-introversão da direção da libido: sensação, pensamento, intuição e emoção. Simplificando bastante, intuição é a função oposta de sensação, e pensamento a oposta de emoção. Cada pessoa tem uma dessas como função primária, a mais importante e desenvolvida, outra como função secundária, auxiliar à primária e tão desenvolvida quanto, a terciária e a quaternária, que são muito pouco desenvolvidas se comparadas com as duas primeiras. No processo de individuação, busca-se harmonizar estas funções e torná-las igualmente desenvolvidas. Se dispostas em um círculo, as quatro funções ficariam cada uma em um ponto cardeal, sendo seu centro o Self (arquétipo do desenvolvimento humano máximo e ideal a perseguir). Para uma melhor explicação, clique aqui (em inglês).

terça-feira, 13 de maio de 2008

Um Desafio Socrático

Acho que cansei de dizer por aqui que mato aula, e que não sinto o menor remorso por isso. OK, eu sinto uma pontinha de remorso, mas isso não vem ao caso. A questão é que na maioria dos casos, matei aula por que não a achava estimulante. Convenhamos, é difícil achar uma senhora de meia idade falando de Lacan com um power point excitante (tem colega meu que acha, mas é por outros motivos). Este um ano e meio de faculdade varreu da existência a minha vergonha na cara, o que me permite tranquilamente levantar-me, sair da sala e só voltar no dia seguinte, pois nem mochila eu levo para as aulas! Então, se a aula é chata, nem preciso pegar nada para ir embora. Minha professora de Psicologia Humanista troçou com isso, e respondi que eu sou existencialmente livre.

Admito que, apesar de em alguns dias não ter nem ao menos me dignado em dar o ar da graça na faculdade, tenho medo de rodar por FF – a infame falta de freqüência, a pior nota que se pode tirar na UFRGS. E admito que, apesar deste medo, não pensava em reconsiderar minha posição: pensava em no máximo aparecer nas aulas, pegar chamada e ir embora logo em seguida.

Entretanto, acontecimentos recentes me fizeram pensar a respeito de minhas atitudes perante as aulas exponenciais. Continuo achando que são chatas, e que me beneficio muito mais de discussões entre pequenos grupos, lendo e escrevendo. Mas foi justamente em discussões que cheguei a conclusão de que posso me beneficiar muito mais ao freqüentar as aulas, e beneficiar meus colegas no processo.

Esse final de semana, o senhor meu pai, psicólogo clínico e professor universitário (em crise), apontou uma incoerência em minhas atitudes. Com o Wushu, faço o possível e o impossível para treinar, faço exercícios em casa, vou na academia em horários ruins, tudo isso para fazer algo que não é tão diferente do que faço na faculdade: ouvir e ver o que outra pessoa tem para me ensinar. Claro, o Wushu é muito mais físico e prático do que a Psicologia, mas o princípio por trás dos dois é o mesmo – disciplina. É necessário disciplina para treinar formas e fazer flexões, mas também é necessário disciplina para permanecer em aula e prestar atenção. Por que desenvolvo apenas uma, e não a outra?

A segunda discussão que mudou muitos de meus conceitos foi com uma amiga minha, veterana e monitora na famigerada disciplina de Processos Grupais I. Além das muitas outras coisas que discutimos por MSN, ela me mostrou uma nova imagem do professor, que desde o início imaginei como dogmático, egocêntrico e agressivo. Segundo ela, o tio Leôncio* é uma pessoa flexível, disposta a rever seus conceitos e crítico. Se não tanto, pelo menos mais do que nós imaginamos. Este professor tem o hábito de nos dar cortaços – dependendo de quem leva, é bem traumático. Para mim, é só um cortaço entre os muitos que já tomei. E essa minha amiga me fez a proposta de discutir mais em aula o assunto tratado, questionar o que o professor diz, ao invés de tentar absorver por osmose o conteúdo.

No fim, percebo mais uma vez que o que me motiva são os desafios. Anteriormente, as aulas não pareciam interessantes por serem tão estáticas e mortas, sem nenhuma possibilidade de aprendizado real. Devo admitir que isto é falso, e que eu era incapaz de perceber todo o potencial nelas encerrado.

Antes desta discussão com minha amiga, fiquei pensando em como manter-me atento nas aulas, sem entediar-me profundamente e sair da sala. A primeira estratégia é dormir. Mas se eu for para a aula para dormir, é melhor nem aparecer no Instituto. A segunda estratégia era ficar desenhando em aula, mas como me conheço, é possível que eu comece a matar aulas para ficar desenhando (já faço disso com alguma freqüência para escrever). A terceira e última alternativa que pensara era encher o saco dos outros em aula. Por encher o saco, não penso em ficar jogando bolinhas de papel embebidas em saliva, ou queimar coisas fedorentas, mas questionar incessantemente. Isso enche muito mais o saco. A bolinha de papel atinge apenas a pele, mas as perguntas bem feitas acertam o coração.

Para ser franco, não sei como fazer isso. Recapitulando as últimas aulas, toda vez que pensava “preciso dizer algo”, nada vinha a minha mente. O que não é surpreendente, diga-se de passagem. Mas não fico pensando muito nisso. Se na hora eu tiver uma pergunta para fazer, farei. Vou ficando melhor com o tempo.

Kierkegaard, antes de abandonar sua antiga vida para dedicar-se à filosofia, chegara a conclusão que no mundo de facilidades em que vivia, era necessário que alguém tornasse as coisas difíceis novamente, para que viver não se tornasse insuportavelmente fácil. Decidiu, então, tornar-se um novo Sócrates, e questionar a essência de tudo e de todos. Pretendo fazer o mesmo, e questionar meus professores e colegas como se nada soubesse, e tudo tivesse para aprender.

Se isso vai mudar minha idéia de que aulas expositivas são chatas? Não, não vai. Até hoje acho fazer flexão uma atividade maçante. Mas com certeza, permanecerei em aula. Eu não consigo recusar um desafio.




*Esse não é o nome dele. Chamo-o assim por que ele é a cara daquela morsa que o Pica-Pau fica atazanando.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Eu e a Educação

Até 1968, as Faculdades de Filosofia dominavam a produção do conhecimento. Na UFRGS, a Faculdade de Filosofia era responsável por 16 cursos de graduação, desde Química até Letras. E como dizia Foucault, o saber e o poder andam lado a lado (1).

Por isso, em 1968, o governo militar impôs a reforma universitária, que alterou toda a forma como as universidades se estruturaram: substituíram as antigas cátedras pelos departamentos, dividiram os cursos de graduação entre diversas unidades orgânicas (1), e com isso, fizeram da filosofia um instituto qualquer. O objetivo dos generais era enfraquecer um possível núcleo golpista, e para sedimentar seus poderes sobre a Academia, criaram as Faculdades de Educação como novos centros de irradiação de poder.

Não sei se os militares atingiram todos os seus objetivos com esta reforma, mas acredito que pelo menos em parte o fizeram: a FACED tem uma das melhores bibliotecas da universidade, vários alunos de vários cursos de graduação têm aulas lá, e muitos professores de muitas áreas distintas são especialistas em Educação, e estão intimamente ligados com os facedianos. A Psicologia é uma delas.

Sinceramente, sempre tive uma certa birra com educação. Não com a Educação, mas com a educação formal que tive. E eu tive educação formal desde pelo menos os 6 anos de idade, quando entrei na 1ª Série do Ensino Fundamental. Já falei disso antes, quando reclamei de algumas aulas da faculdade, mas falei um tanto quanto superficialmente.

O que me deixa incomodado é a forma passiva como temos que aprender: o professor entra em sala, todos os alunos sentam e permanecem quietos, enquanto que o sábio mestre despeja seu conhecimento sobre nós, pobres ignorantes. Não há espaço para pensamento crítico, por mais que os professores digam que apreciem “livres pensadores” (3). Toda vez que uma voz solitária se levanta e questiona o professor de qualquer maneira, a resposta é rápida e rasteira. A mais clássica de todas é a pergunta “para que preciso aprender isto?”, que muitas vezes fiz durante muitas aulas. Quando fazia essa pergunta para minha professora de Biologia, ela dizia “por que cai no vestibular”; quando perguntava para meu professor de Filosofia, ele respondia “para que tu tenhas pensamento crítico”; quando perguntei para a psicóloga educacional do colégio por que tínhamos que ter aulas de italiano, ela me respondeu “na vida, às vezes temos que fazer coisas que não queremos fazer”.

São respostas válidas, mas que não estão à altura da pergunta feita. Por que alguém que não quer fazer vestibular, alguém que queira ser marceneiro, deve aprender sobre protozoários? Como se cria pensamento crítico aprendendo o que outra pessoa quer que eu aprenda? E eu tive que aprender italiano por que vocês querem? E por que os professores não se sujeitaram a nossa vontade, que não gostávamos e não aproveitávamos as aulas de italiano, e as tiraram do currículo?

Mais uma vez, volto à relação desigual entre professores e alunos. O nome “aluno” já diz muita coisa: vem do latim, e significa “sem luz”, esperando que algum sábio ilumine ou coisa assim. Os professores nunca teriam tirado italiano do currículo por que nós não gostávamos, por que eles sabiam o que era melhor para nós. Afinal de contas, o que pirralhos de 10 anos sabem sobre eles próprios? E como eles, que foram para a faculdade e estudaram poderiam estar errados? É inconcebível! Mesmo as piadas deles são melhores que as nossas. Lembro-me de uma aula de Biologia, em que a professora disse para a coordenadora, de forma nada sutil, que tínhamos espermatozóides na cabeça. Um colega meu retrucou, e deu uma risada cretina, meio mongolóide, para evidenciar quão sem graça a professora fora. A turma riu do gracejo, mas a professora ficou indignada, e o chamou de mal-educado. Ela pode dizer que a gente tem porra na cabeça, mas ai de quem inferir que ela é sem graça.

Na faculdade, esta relação tornou-se mais parelha, mas não muito. Isso fica óbvio já nas eleições para reitor, onde o voto dos estudantes tem peso 1, e dos professores peso 3 (4). Mas há coisas mais sutis – a famigerada chamada. A chamada é a maneira que os professores encontraram para achacar seus aluninhos a ficarem em aula ouvindo suas belas vozes. No Ensino Fundamental e no Ensino Médio elas são consideradas parte do processo de aprendizagem, tanto pelos adultos quanto pelas crianças. Mas no Ensino Superior, não existem crianças dóceis, apenas adultos, que não obedecem tão facilmente o que um indivíduo com giz na mão diz. Para que a lista de presença exerça influência sobre os estudantes, basta apenas o professor dizer no começo do semestre que faz chamada e que roda por falta de freqüência. Claro, dá para pegar a chamada e sair da sala logo em seguida (muito fiz isso), mas o professor pode ser murrinha, e fazer a chamada em horários alternados: às vezes no início da aula, às vezes durante a aula, às vezes no final da aula; ou fazer chamada duas vezes por aula e dar falta para quem pegou só a primeira. Ainda dá para driblar o sistema, mas torna-se muito mais prático (e cômodo) aceitar que a batalha está perdida e assistir as aulas (5).

Não gosto de aulas presenciais. Melhor dizendo, gosto mais de estudar por conta própria. A vantagem de estudar em uma faculdade é ter os professores a disposição para tirarem dúvidas, proporem desafios, darem idéias, e é impossível que tudo isso ocorra sem um tempo de lousa, giz, suor e até os famigerados power points. Mas acho que o equilíbrio se perde quando temos que assistir aulas das 13:30 até às 19:10. Tenho, em média, sete disciplinas obrigatórias por semestre. Com tudo isso, não dá tempo de fazer o que quero. Sim, o que EU quero, e não o que os professores querem. Eu sei o que me agrada, eu sei em que período do dia sou mais produtivo, eu sei como estudo melhor. Se disser isso para algum professor meu, ele provavelmente irá concordar. Entretanto, ele vai dizer que por um motivo ou outro não é possível por isto em prática. Os motivos alegados podem ir de que não estamos preparados, que o instituto não tem estrutura para isso, até que esta pedagogia poderia beneficiar certos professores, mas o que acho que é verdade nunca seria dito: os professores gostam de ter o poderzinho deles. Preferem ficar ouvindo suas belas vozes a orientar as mentes inquietas de seus alunos, como disse William James (meu herói).

Eu mato aulas, muito mais do que imaginava que iria matar no início da faculdade. Faço isso basicamente por princípios. Não vou pregar moral de cuecas, e dizer que nunca faltei aulas por preguiça ou para fazer algo que deveria ter feito antes – pelo contrário. Mas toda vez que não apareci na sala para fazer um trabalho, tinha em mente a quantidade absurda de horas-aula que tenho. E me indigno quando lembro do que um professor me disse quando reclamei da falta de tempo livre, que deveríamos maneirar nossas atividades “extracurriculares”. Nunca as curriculares.

O que eu realmente gostaria que fosse posto em prática, não só na faculdade, mas no Ensino Fundamental e Médio, é o Ensino Centrado no Estudante. Neste spin-off da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, o estudante é o responsável por sua aprendizagem e crescimento pessoal. Não é mero aluno, é estudante, que estuda ativamente. O professor e a escola estão lá, para apoiar o estudante, fornecer-lhe informação e orientação. Mas tal e qual Morpheus no filme “Matrix”, o professor apenas mostra a porta: quem a abre é o estudante. Me daria muito bem nesse sistema, pois poderia ler mais, discutir mais, escrever mais para o blog sobre o que aprendo por aí, ao invés de ter que perder horas e horas ouvindo o grasnar egocêntrico de muitos professores.

Mas a vida é injusta, então eu tenho que me virar com o que tenho.




------
(1) Conhecimento é diferente de saber para Foucault, mas este não é o lugar para falar disso (além do mais, estou com preguiça).

(2) Faculdades, Escolas e Institutos.

(3) Na realidade, eles apreciam os livres pensadores que concordam com eles.

(4) E dos funcionários, peso 2.

(5) Pode-se exercer resistência ainda assim, e ler qualquer porcaria no fundo da sala, conversar, trocar bilhetinhos ou simplesmente dormir.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Eu e as Neurociências

Se aplicarmos um teste de associação de palavras para uma pessoa qualquer, e o termo “Psicologia” aparecer, a resposta muito provavelmente será “Freud”, ou algo relacionado com um teórico clínico relativamente famoso.

Freud tornou-se famoso e importante por que, em sua época, a Psicologia e a Psiquiatria eram ciências com pressupostos epistemológicos e experimentais muito frágeis, e a prática de pesquisa consistia basicamente em observações e entrevistas – havia tentativas de pesquisas neuropsicológicas, tentando associar comportamentos com características fisiológicas, como a frenologia, mas pouco progresso se obteve por esta via.

Na época de Freud, devido a esta fragilidade científica, para que se obtivesse algum progresso, era necessário que algumas pessoas, baseadas em seus insights, formulassem teorias sobre o comportamento humano e as testassem, para ver se eram verdadeiras ou não. Como os métodos para verificar se as teorias eram falsas ou verdadeiras(1) naquela época não eram lá tão eficazes, muitas teorias opostas conviviam como igualmente corretas. Isso ocorre em menor grau até hoje(2), e explica em parte por que até hoje ainda estudamos a teoria freudiana clássica e outras similares.

Porém, mais de 100 anos após o nascimento da Psicanálise, a situação é bem diferente. Com os progressos das ciências, seja da Física, da Química, da Matemática, seja da Psicologia, da Farmácia e da Medicina, hoje existem métodos de pesquisa muito mais eficientes, e que produzem conhecimentos relevantes(3) de forma cada vez mais acelerada, para áreas distintas como psicoterapia, lingüística, políticas públicas e ciência básica(4). A intersecção destas disciplinas chama-se comumente de Neurociências.

Temos na faculdade pelo menos duas disciplinas sobre Neurociências logo nos dois primeiros semestres: Neuroanatomia Funcional Aplicada à Psicologia, e Fisiologia Geral Aplicada à Psicologia. Sinceramente, foi horror à primeira vista, pois não entendia nada do que os professores diziam, e quando estudava em casa, não era capaz de memorizar nenhum dos termos que lia (Córtex Órbito-frontal? Quem lembra de um nome desses na hora da prova?). Entretanto, no final da cadeira de Fisiologia, quando realmente vimos as relações entre o cérebro e os órgãos internos com os comportamentos humanos, percebi como o assunto era fascinante.

Meus conhecimentos do assunto ainda são bem rudimentares (não sei o que o Córtex Órbito-frontal faz), mas estou lendo o que posso da maneira que consigo sobre o assunto. Digo da maneira que consigo por que, como não tenho mais nenhuma cadeira para tirar notas boas, não preciso me forçar a entender o assunto, então, leio com calma, não entendo nada, mas vou lendo outros textos sobre o mesmo assunto, até que uma hora eu me sinta confortável o bastante para dizer que entendo.

Tenho um acesso relativamente fácil aos livros deste assunto. O Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS mantém um curso de pós-graduação em Neurociências, e no Instituto de Psicologia temos o Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Comportamento (LPNeC), e já tive aula com professores destes dois órgãos acadêmicos (que estão intimamente ligados).

Porém, encontro alguns obstáculos significativos no estudo destas disciplinas. O primeiro é a falta de tempo livre para ler livros que não os que tenho que ler para a faculdade. O segundo é a tacanhice de muitos de meus professores, que preferem que estudemos teorias do século XIX (uma professora nossa diz que nós fazemos faculdade de História da Psicologia. A Psicologia atual a gente estuda depois de formado, trabalhando ou fazendo pós-graduação). As duas estão intimamente ligadas, pois se nos fossem dadas mais disciplinas neurocientíficas, não precisaria ficar fazendo tempo para ler sobre o assunto. Não é, na minha humilde opinião, a situação ideal, já que, apesar de ler sobre um assunto interessante, eu seria obrigado a ler o que o professor quer, e não o que eu quero, mas seria um pequeno progresso. O problema maior vem de outro lado, da política intrainstitucional da faculdade. Há dois ou três anos, quando decidiu-se reformar o currículo do curso de graduação em Psicologia, os professores foram convidados a apresentarem projetos para a nova estrutura curricular. Dois professores apresentaram um projeto que mudaria radicalmente a forma como as aulas seriam dadas para nós: as aulas presenciais seriam cortadas pela metade, teríamos tempo abundante para estudar por conta própria e não existiriam “disciplinas” propriamente ditas – teríamos tópicos para pesquisar a respeito, e contaríamos com a ajuda dos professores para tanto. Mas como isso seria bom demais para ser verdade, os professores que idealizaram este modelo pertencem ao Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e Personalidade, e os professores dos outros departamentos, junto com os estudantes envolvidos no processo, vetaram esta idéia logo de cara. Como eu sei disso, e por que mataram uma idéia tão boa logo em sua concepção? Bem, conversei com um dos estudantes envolvidos. Segundo ele, o Desenvolvimento tem uma política de cooptação de graduandos tremenda, e que eles teriam mais poder de fogo ainda com este esquema. Isso é verdade? Infelizmente sim. Mas, para ser franco, todos os três departamentos do Instituto fazem isso – o Desenvolvimento é apenas o mais descarado. Os outros dois apenas fingem (mal e parcamente) que isso é eticamente errado, mas tentam cooptar estudantes pelegos para suas pesquisas igualmente. O cara que me contou isso está convicto de que fez o melhor para o curso – se mais alunos fossem para o lado do Desenvolvimento, haveria um desequilíbrio de forças dentro da unidade orgânica. Fico me perguntando se haveria mesmo. E se isso viesse a acontecer, por que os outros departamentos se importariam tanto? Talvez por que gostariam de que eles monopolizassem o Instituto (alguns professores já deixaram isso claro para nós), e preferiram manter-se presos ao passado, tentar fazer o galo parar de cantar do que correr o risco de perder poder. Mais uma vez, a política atrapalhou a ciência.

Mas, pelo o que sei, a história não parou por aí, já que os dois professores que falei continuaram envolvidos na reforma curricular. Um deles, meu amigo falou, só encheu o saco e barrou de todas as maneiras possíveis os trabalhos. O outro, pelo que percebo de suas atitudes, tentou salvar o que podia do projeto original. Propôs que as aulas presenciais ainda fossem reduzidas, e que mais tempo de biblioteca fosse disponibilizado, mas foi em vão. William James já falava sobre isso. Quando uma pessoa lhe falou sobre uma proposta de substituir as palestras na Escola de Medicina(5) por um “sistema de análise de casos”, ele disse: “Acho que você está inteiramente certo, mas seu sábio professor se rebelará. Ele sem dúvida prefere sentar-se e ouvir sua própria voz maravilhosa a guiar as inseguras mentes dos estudantes”. Dando um salto imaginativo não muito longo, aposto que foi isso que aconteceu aqui na gloriosa Universidade Federal do Rio Grande do Sul: a maioria dos professores prefere ficar se exibindo na frente da sala de aula, e a idéia de perder seu palco e seu publico cativo é aterrorizadora, e para que tal crime não seja cometido, dizem que “pelo bem dos estudantes” deve-se continuar dando horas intermináveis de aulas presenciais.

Mas devo dar o braço a torcer para estes professores: eles são bons no que fazem, pois conseguiram convencer quase todos os graduandos de Psicologia não só de que estão certos, mas que o departamento de Desenvolvimento e tudo o que fazem é coisa do “demônio” (que é comodamente chamado de “Lombroso”, considerando que luminares sapientíssimos como eles sabem que nem Deus nem o diabo existem). E as Neurociências em especial são o tridente do cramunhão para eles, por representarem um “retorno” à práticas de extermínio debaixo de uma roupagem moderna. Alguém lembra de uma certa nota de repúdio? E os professores conseguem fazer tudo isso sem perder a pose de tolerantes e progressistas. Fantástico.

Sinto que fugi um pouco do assunto, pois cai na enredada situação política da minha faculdade, que ligeiramente toca as Neurociências (não vai ser por causa dos meus professores que todas as máquinas de PET Scan do mundo vão ser destruídas). Mas o título desse post é “Eu e as Neurociências”, e estou diretamente implicado neste rolo que relatei. Portanto, tem tudo a ver com o post.

Sinto que as Neurociências, apesar da tacanhice de alguns, tem muito o que oferecer para a Psicologia. Ao contrário do que muitos temem, dificilmente a ressonância magnética irá substituir a psicoterapia – pois nada nunca irá substituir as relações humanas, nem a Psicologia se tornará uma “neurologia de segunda mão”. Como disse anteriormente, acredito que teremos cada vez mais Neurociências no currículo de Psicologia, mas este assunto não substituirá, apenas complementará e tornará mais rico o que aprendemos na faculdade. Acho que Freud aprovaria isto.






1. Relevem o “verdadeiro”, estudantes de Epistemologia e solipsistas.
2. Não é necessariamente negativo ou contraproducente. Bem pelo contrário, acredito que quando mais teorias diversas, maior número de pesquisas sobre assuntos diversos são realizadas, e maior progresso se alcança.
3. Em sua maioria. Não subestimem a capacidade dos cientistas de pesquisarem bobagens. Nunca.
4. Na visão tradicional de ciência, a pesquisa em ciência básica não tem um foco específico: pesquisa-se sobre um assunto por que pouco se sabe a seu respeito, não por que seja necessário fazer uma intervenção. Pesquisas em ciência aplicada, por outro lado, focam-se em problemas específicos, com o intuito de resolvê-los. A ciência básica fundamenta a ciência aplicada, e esta dá idéias de pesquisa para a primeira. Na realidade, não é bem assim que funciona, pois a coisa é muito mais complexa. Falarei disso outra hora (se me der na telha).
5. Lembre-se que a formação de William James foi toda na área da Medicina, já que em sua época não existiam departamentos de Psicologia nas universidades dos Estados Unidos.