quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Trabalho de Psicologia e Educação

Enfim, terminei o último trabalho de Psicologia e Educação, e já posso dizer que tenho uma cadeira a menos para me preocupar, apesar de ainda ter que freqüentar as aulas e participar das discussões. Em todo caso, estou um tanto quanto preocupado com a qualidade do meu trabalho. Por isso, posto ele aqui para apreciação crítica de meus amigos:

Questões Relevantes sobre Psicologia e Educação

Antes de começar meu trabalho propriamente dito, gostaria de esclarecer alguns pontos em relação à maneira como ele foi escrito. Ao invés de apresentar/discutir duas questões que considerei relevantes/importantes em cada texto, justificando sua importância e apresentar que posturas assumiria ao trabalhar no campo da Educação ,como foi explicitado pela professora, preferi elaborar duas questões gerais e abrangentes, e tentar respondê-las de acordo com o que acredito ser o correto no momento, usando a bibliografia a minha disposição como fundamentação teórica para meus posicionamentos.

Como estudante de Psicologia, acredito que, por mais pragmáticos que devemos ser em nosso campo de atuação, não podemos nunca abandonar os questionamentos epistemológicos sobre nossas práticas. Portanto, antes de pormos em andamento qualquer programa educacional, devemos ser capazes de responder as seguintes perguntas:

1) Qual é o papel da Educação?
2) Que função a Psicologia exerce no contexto educacional?

Como um complemento à primeira questão, também deve-se perguntar:

1.1) A Educação cumpre seu papel de forma satisfatória?

Por serem por demais amplas, não existem respostas únicas e corretas para estas duas questões. Existem formas idiossincráticas de responder, baseadas em crenças e experiências pessoais, que são determinados pelo tempo e local em que estão circunscritas. Apresentarei neste artigo a maneira como eu vejo as coisas, e as posturas éticas que acredito que adotaria se trabalhasse na Educação, e estão sujeitas a mudarem futuramente, pois, conforme o tempo passa, não só a sociedade e suas concepções científicas que mudam, como também nós vamos transformando nossas formas de ser (Bock, 2000).

Acredito que o papel da Educação é muito complexo, além de ser muito importante. Gosto muito da definição dada por Ghiraldelli Jr. (2000) das influências existencialistas da obra de Freire, que a educação deve permitir que o homem deixe de ser objeto e torne-se sujeito de sua própria história, pois ao mesmo tempo em que define o indivíduo como ativo e capaz de mudar a si próprio e seu meio, não exclui as influências determinantes do ambiente, da cultura e da biologia. Tenho a firme convicção de que a educação e a humanidade como um todo só progredirão na medida em que forem capazes de ensinar ao indivíduo a serem mais conscientes de sua própria condição e a mudá-la. Um estudo realizado por Rogers (1980) e seus orientandos de pós-graduação abordou os fatores preditores de comportamento delinqüente em adolescentes. Foram feitas cuidadosas classificações objetivas do clima familiar, das experiências educacionais, das influencias da vizinhança e culturais, das experiências sociais, do histórico da saúde, do alicerce hereditário de cada participante e uma avaliação do grau de autocompreensão, incluída tardiamente. Surpreendentemente, o melhor prognosticador de comportamento futuro, com correlação de 0,84, foi justamente o grau de autocompreensão, enquanto que a qualidade da experiência social correlacionou 0,55. O estudo foi replicado tempos mais tarde, com outro grupo de sujeitos, e os resultados encontrados foram basicamente os mesmos. Creio que este estudo, além de dar suporte empírico para minha crença, também indica de forma clara como se pode alcançar este protagonismo através da educação, ajudando o estudante a ser mais autoconsciente.

Contudo, há de se questionar se a Educação, não só em sua modalidade formal, como também informal e não-formal (Gohn, 2006), atinge este objetivo e, se não for este o caso, questionar também por que assim ocorre. É difícil afirmar com confiança que as instituições de ensino (fundamental, médio e superior) falham completamente em ensinar aos indivíduos a serem “sujeitos de sua própria história”, primeiro por não dispor de dados específicos que aleguem isto; segundo, por que a educação neste paradigma não depende apenas da capacidade do professor e da instituição de ensinar, mas também da dedicação e vontade do estudante de aprender. Ainda assim, baseado em anedotas como os artigos de Heckert et al. (2001), Eizirik & Comerlato (2004) e, principalmente, na minha própria experiência, digo que o grau de sucessos é muito menor do que o de fracassos. O maior incentivo que existe dentro das salas de aula do ensino médio e fundamental é a necessidade de tirar boas notas para passar de ano e conhecer o conteúdo para passar no vestibular em uma boa faculdade. No ensino superior, devido a maior liberdade intelectual e prática oferecida aos seus estudantes (que já não podem ser taxados de crianças), penso que haja maior autoconsciência e capacidade de autodeterminação entre os estudantes, mas não creio que isto seja a regra. Mais uma vez, devo ressaltar aqui o caráter idiossincrático de minhas afirmações, e que tudo está aberto para investigações.

Resta saber qual papel nós, como psicólogos, cumprimos no processo educacional para que este objetivo possa ser alcançado. Cada vez mais a Psicologia se insere dentro da Educação. Segundo artigo de Meira (2000), uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia em 1992 constatou que a Educação é o terceiro maior campo de atuação profissional da Psicologia, com 24,4% do total de entrevistados, atrás apenas da clínica (37,2%) e organizacional (29,6%). Assim sendo, nossa classe está em posição privilegiada para influenciar o processo de aprendizagem-educação, seja fora das salas de aula, agindo “nos bastidores” e colocando nossos conhecimentos em prática, seja dentro da sala de aula, transmitindo este conhecimento. Porém, segundo Rocha (1999), a função que o psicólogo tem exercido dentro das escolas tem sido como um diagnosticador de deficiências de aprendizagem do aluno e/ou da metodologia utilizada pelo professor para desenvolvimento de suas atividades de classe. Rocha também identifica que os psicólogos que trabalham dentro de escolas dividem-se na maneira como definem seu modelo de atuação: alguns vinculam-se à categorização do psicólogo como profissional da saúde (modelo clínico), outros da cultura (modelo pedagógico), enquanto que um terceiro grupo define-se como adotando o modelo da análise institucional. Contudo, apesar das diferentes nomenclaturas, todos buscam essencialmente a mesma coisa: a adaptação dos indivíduos ao ambiente da escola e isto, creio eu, mesmo às custas do pensamento crítico e da autonomia estudantil. Permita-me exemplificar isto com uma experiência própria, vivida no meu terceiro ano do Ensino Médio. No último trimestre do ano letivo, estava me preparando para fazer intercâmbio estudantil nos Estados Unidos, e a burocracia envolvida era muito pesada. Precisava que a diretora de meu colégio assinasse um certo documento e, para pegá-la, aproveitei um dia em que, ao invés de aulas, ocorreria um simulado de vestibular oferecido por uma universidade gaúcha. Ao entrar no prédio, encontrei a coordenadora pedagógica, cuja formação básica suspeito ser Psicologia, e falei-lhe da minha situação. Ela me disse que teria que esperar e me levou para minha sala de aula, onde estava sendo aplicado o simulado. Não muito satisfeito com esta situação, saí da sala e, encontrando novamente a coordenadora, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Ela ficou nervosa e disse que eu deveria estar fazendo “as coisas que realmente importam”, ao invés de ficar “correndo atrás de irrelevâncias como o intercâmbio” (também tive que ouvir a outra coordenadora pedagógica dizer que, se ela fosse minha mãe, estaria muito preocupada comigo!). Passados quase três anos desde o ocorrido, posso dizer com segurança que em seis meses morando no exterior aprendi mais do que os três anos que passei sentado nas carteiras da minha velha escola, e que aquele simulado não fez a menor diferença em minha vida!

Fazendo uma caricatura da situação, é provável que a maioria dos psicólogos que trabalhem na educação estejam muito mais preocupados em manter o status quo, a imagem pré-concebida da escola, do que em estimular verdadeiramente a autoconsciência e autonomia dos educandos, por mais que os projetos político-pedagógicos adotados por eles digam o contrário.

Tendo tudo isto em mente, o que pode ser feito para ajudar os psicólogos em formação a entenderem seu papel socrático na educação, de estimular os estudantes a conhecerem a si próprios, e, mais importante ainda, como sair do discurso e fazer isto na prática educacional? Lamento não ter nenhuma outra resposta além de sermos nós próprios autoconscientes de nossas próprias limitações, de nos policiarmos permanentemente (não no sentido foucaultiano!) para que não caiamos no erro de buscar apenas a adaptação ao meio, e sermos humildes para aceitarmos quando erramos. Acredito que colocar isto em prática é uma ferramenta pedagógica muito mais eficaz do que qualquer aula expositiva.

Referências

BOCK, A. B (2000). As influências do Barão de Münchhausen na psicologia da educação. In: TANAMACHI, E. R.; ROCHA, M. L. P. Psicologia e educação: desafios teóricos-práticos. São Paulo: Casa do Psicólogo. p. 11-34.

Eizirik, M. F.; Comerlato, D. (2004) A escola (in)visível: jogos de poder, saber e verdade. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS.

GHIRALDELLI JR, P (2000). As concepções de infância e as teorias educacionais modernas e contemporâneas. In: Educação e Realidade: Os nomes da Infância. V 25 n.1. Porto Alegre: Rosa Maria Bueno Fischer.

GOHN, M. G. M (2006) Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 11-25.

Heckert, A. L.; Corona, C. R; Manzini, J. M. ; Machado, R. E.; Fardin, V. L. (2001) A Escola como Espaço de Invenção. In: Jacó-Vilela, A. M.; Cerezzo, A. C. e Rodrigues, H. B. C. (orgs). Clio-psyché hoje: fazeres e dizeres psi na história do Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ.

Meira, M.E.M. (2000). Psicologia Escolar: Pensamento crítico e práticas profissionais. Em: E. de R. Tanamachi; M.L. da Rocha & Souza, M.P.R. (Orgs). Psicologia e Educação: desafios teórico-práticos. (pp. 35-72). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Rocha, M. L. (1999) A formação na interface psicologia/educação: novos desafios. In: Jacó-Vilela, A. M.; Mancebo, D. (Org.). Psicologia social: abordagens sócio-históricas e desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Ed. UERJ.

Rogers, C. R. (1980) Duas Tendências Divergentes. In: May, R. (org): Psicologia Existencial (pp. 97-106). Porto Alegre: Globo.

Um comentário:

Cháris disse...

Samuel, que fantástico! Coloquei no Google o nome de um dos textos desse trabalho para pegar a referência, e não é que acho a referência de todos eles juntos! Valeu por ter postado teu trabalho. Fiz o meu completamente em outros moldes, mas acho que tudo tá valendo.
Uma cadeira a menos!
Beijos,
Cháris