Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Experiência Subjetiva - Tomando Bebidas Energéticas

Fazer faculdade é tudo flores e doces (que mentira), até que o final do semestre se aproxima. Daí, meu filho, a água bate na bunda e você tem que correr contra o tempo para fazer teus trabalhos e entrega-los a tempo. Como muitas vezes as 12 horas de sol e luz de que dispomos não são suficientes para tanto, precisamos usar as 12 horas de noite e, isso mesmo que vocês estão pensando, deixar de dormir. Para algumas pessoas, isto é relativamente fácil. Como todos que já foram meus colegas de aula sabem, definitivamente não sou uma delas. Pelo o que aprendi com a observação de mim mesmo, preciso de uma quantidade consideravelmente grande de sono e, muitas vezes, mesmo depois de uma boa e longa noite atirado aos braços de Morpheu (olha a boiolagem), eu acabo apagando nos lugares mais impróprios, tais como salas de aula, auditórios lotados, campos de construção e zonas de bombardeio.

Então, quando o final do semestre chega, com sua cabeça feia e fedida, exigindo que eu fique acordado mais tempo do que posso ficar por conta própria, que faço para não dormir e terminar meus trabalhos? Uso drogas, é claro! Meu pai deve ter quase caído de sua confortável cadeira ao ler este parágrafo, então, para deixa-lo mais tranqüilo a respeito do tipo de substância que consumo, vamos definir o que são “drogas” para mim. Considero uma “droga” toda e qualquer coisa que eu possa consumir e alterar meus estados mentais – nesta definição, até Nutella pode ser considerada uma droga, pois quando eu como, eu fico feliz. Então, a droga que consumi para ficar acordado e fazer meus trabalhos foi uma bebida energética. Normalmente, bebo coisas mais leves, como chá preto, coca-cola ou café, que têm efeito similar e são menos duvidosas, apesar de certamente terem um efeito menor. Contudo, como eu estou com prazos bastante apertados, passei ontem no Zaffari e comprei duas latinhas de “Atomic”: uma para fazer meu último trabalho à noite, e a outra para ficar acordado em aula. Como vocês podem imaginar, eu acabei de tomar esse lixo, fiquei ligadão e, como eu gosto de compartilhar com vocês as demências mais bizarras que acontecem comigo, decidi escrever a respeito desta experiência desde seus primórdios, quando a terra era ainda jovem... e, porra, me perdi.

Já dá para saber, antes de tomar, que essas bebidas energéticas não prestam, a começar pelo nome que dão para esses lixos. O nome “atomic” me faz pensar que em coisas radioativas e potencialmente perigosas. Pegando a latinha e prestando mais atenção às letras miúdas, vê-se escrito “crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto. Não é recomendável o consumo com bebida alcoólica”. Viu? Falei que não presta. Que tipo de bebida precisa de prescrição médica para ser consumida? Eu sei que ninguém lê essas porras no meio de uma festa, mas imaginem a cena: um senhor de idade vai numa balada no Opinião e compra uma Red Bull. Cauteloso, ele lê as instruções de uso e vê que é recomendável falar com alguém que fez Medicina antes de consumir (por que quem fez Medicina sempre sabe de tudo). Ele pega o celular, liga para o médico de sua família e pergunta “doutor, será que eu posso tomar uma latinha de Red Bull”? O augusto herdeiro de Hipócrates diz que não, e nosso amigo obedece, devolvendo a latinha para o barman. Pois é, altamente improvável que isso venha a acontecer um dia. Muito mais provável é alguém tomar esse lixo e ter um piripaque (especialmente quando misturado com alguma bebida alcoólica de alta potência, como está na moda fazer agora, e como está escrito ali na embalagem que NÃO É PRA FAZER). E além de tudo isso, a latinha parece um pinto duro. Sério.

Bem, apesar de todas essas ressalvas, eu ainda preciso ficar acordado, e eu sei que bebidas energéticas deixam as pessoas ligadas e acordadas por experiência própria, pois não é a primeira vez que utilizo esta estratégia. Porém, na outra ocasião, meu objetivo era apenas manter-me desperto, e não produzir algum tipo de escrito, tornando os resultados deste experimento muito mais imprevisíveis. Mesmo assim, depois de perceber que se não tomasse uma providência logo, logo, capotaria de sono antes de terminar todos os meus trabalhos, dirijo-me à cozinha, abro a geladeira, e dou de cara com um portal para outra dimensão. OK, isso não é verdade. Eu só pego a latinha de “Atomic”, olho para ela e penso: como isso parece um pinto duro. Depois das devidas considerações psicanalíticas a respeito dos meus desejos homossexuais reprimidos e se deveria ou não colocar essa bomba química para dentro do meu sistema digestivo, abro-a e consumo o primeiro gole. E, preciso dizer, para um produto com tamanha demanda, essas bebidas energéticas tem um gosto horrivelmente parecido com Fruki Guaraná vencida e sem gás (o que me faz pensar, juntamente com o nome do negócio, se isso aí não é mijo de alguma vaca criada em Chernobyl).

De cara, sinto-me mais alerta. Obviamente, isso é o efeito placebo dando suas caras, pois só o tempo de tomar um golinho não é suficiente para as substâncias energizantes se espalharem por todo o meu organismo. Mas isso é positivo, pois mostra que acredito no poder de Jesus Cristo o Salvador da tal de “Atomic” e seu principio ativo de extrato de guaraná me manter desperto e atento. E acreditar é poder! Volto para a frente do computador, junto com a fiel latinha em formato fálico, ainda bebericando seu conteúdo, e sentindo lentamente seus efeitos verdadeiros chegarem chutando. O primeiro deles é uma maior agitação corporal, que me faz mexer com violência minha perna direita. Depois disso, percebo um déficit na minha capacidade de concentrar-me nas tarefas dadas e de manter as idéias tempo o suficiente em minha memória para desenvolve-las. Percebi este sintoma enquanto tentava escrever meu trabalho de Método Clínico e Diagnóstico, mas ficou ainda mais óbvio quando comecei a escrever este post aqui – por que eu sei que estou num nível hardcore de procrastinação quando começo a escrever qualquer coisa para meu blog quando tenho pilhas de coisas por fazer. Logo após perceber a diminuição de minha atenção, percebo que estou mais propenso a cometer erros de digitação, não por que eu tenha ficado mais descuidado (a neurose obsessiva me impede), mas por que minha coordenação motora fina, a que move os dedinhos e faz com que eles batam as teclinhas com letrinhas do laptop, ficara prejudicada por um certo descontrole e um leve tremor – leve, mas nem por isso desprezível. Há também sintomas psicológicos positivos. Especialmente notável é o aumento na minha capacidade criativa, pois, além de começar este texto aqui, consegui resolver um problema filosófico que atravancava o pleno desenvolvimento de minha argumentação.

Em outras palavras, talvez seja possível dizer que esse mijo de vaca radioativa chamado “Atomic” instalou em mim um estado muito semelhante em alguns aspectos à hipomania. Para os leigos, hipomania é o estado de humor extremamente positivo que acomete os pacientes com Transtorno do Humor Bipolar do Tipo II. Contudo, não notei em mim nenhum sentimento de euforia aumentada ou irritabilidade, mas é um tanto quanto complicado de identificar estes sintomas sem ninguém por perto. Também não lembro se tremores nas mãos e menor coordenação motora fina são também sinais de hipomania. Numa ida ao banheiro para urinar e escovar os dentes, percebo que não é só minha coordenação motora fina que ficara um tanto quanto abobalhada, mas também meu senso de equilíbrio. Durante minha rotina de higiene bucal, fechei por um instante os olhos e senti meu corpo inteiro pender para um lado, não o suficiente para me fazer cair como uma tábua, mas o bastante para me fazer perceber meu estadinho.

Com o tempo, os efeitos do “Atomic” vão se esvanecendo e tornando-se mais sutis, mas ainda presentes em sua maior parte. Começo a ficar um pouco menos alerta, minha perna pára de sacudir alucinadamente e cometo menos erros ortográficos. A minha concentração aumenta consideravelmente, e minha criatividade começa a tornar-se mais cinzenta e menos florida (apesar de ainda ser bastante escandalosa). Mais uma porção de tempo passa, e mais uma vez noto a paulatina mudança nos sintomas da bebida energética. Encontro-me agora na situação ideal para produção de textos e trabalhos que requerem concentração e esforço, pois o cansaço não me aflige, os tremores desapareceram quase que inteiramente, sinto-me alerta e perceptivelmente inspirado, como se algum espírito estivesse aqui ao meu lado, sussurrando as palavras por dizer.

Creio que, de agora em diante, as mudanças na minha fisiologia e comportamento serão mais quantitativas do que qualitativas. Por isso, me dou ao luxo de escrever uma conclusão a respeito do meu pequeno experimento de tomar energético para ficar acordado e fazer trabalhos: só repito essa indiada no final do próximo semestre, com a diferença que, nessa hipotética próxima vez, eu vou beber essa porcaria com duas horas de antecedência e ficar saltitando feito um pogobol chapado até eu sentir-me concentrado o suficiente para escrever páginas e mais páginas de trabalhos.

E a latinha ainda parece um pinto. E tenho dito.

Pergunta do momento

Por que final de semestre sempre vem acompanhado por uma sensação de apocalipse iminente? É a privação de sono ou os trabalhos para entregar amanhã?

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 2)

Mais um dia de estágio, mais um dia de exposição às ondas televisivas. Fui na casa de um morador, para ver como ele estava e conversar um pouco. Como era de praxe, a TV estava ligada. Se serve de consolo, pelo menos desta vez ele não estava sentado no sofá semi-morto, mas tomando seu café da tarde na mesa ao lado, onde se podia apenas escutar a TV. O programa que assistiamos hoje não era nem um filme ruim de doer, nem aquele programa de velhas fofoqueiras com sede de sangue que é o "Brasil Urgente" do Datena - era o show da Márcia. Para os abençoados que não lembram ou são jovens demais para lembrar, aqui vai a maldição do conhecimento - depois que vocês lerem este post, nunca mais esquecerão. Resumidamente, essa Márcia é uma apresentadora rampeira que trabalha como "cabeça" de shows vagabundos há um bom tempo, mas que estourou de verdade há uns 10 anos ou mais quando foi contrada para apresentar um programa de auditório (narcisisticamente chamado de "Márcia") cuja principal missão era a de ser um fórum para aqueles que, não satisfeitos em brigar com algum amigo ou parente por um motivo besta, queriam mostrar para todo o Brasil que estavam brigando com algum amigo ou parente por um motivo besta. Lembro de ter assistido alguns episódios, e a coisa era realmente besta - a atração principal de um era dois amigos brigando sobre qual era o melhor time, Grêmio ou Inter (falando nisso, como tem corinthiano aqui em Porto Alegre, hein?). Tenho a impressão que, por mais que eu me esforçasse, jamais poderia ter idéias tão idiotas. Em todo caso, depois de um tempo ela começou a perder credibilidade (que mesmo hoje não é exatamente muito grande), o programa saiu do ar e ela foi parar na geladeira do SBT. Maaaas, sendo a fênix que ela é, ressurgiu tempos depois, em outro canal, apresentando a mesma porcaria. No presente momento, ela apresenta um programa praticamente igual ao que lembro dela apresentar no SBT, inclusive com o mesmo nome (por que alguém que disse ao vivo que queria que todas as mulheres que assistiam o seu programa fossem fortes, firmes e decididas não deixaria seu narcisismo assim tão facilmente).

O programa é um lixo. Um grande, verdadeiro, completo e total lixo. Não paira nenhuma dúvida a respeito disso. Eu sei disso, o auditório sabe disso, os moradores do São Pedro sabem disso, a produção do programa sabe disso, a Márcia sabe disso! Ainda assim, não dá para tirar os olhos da droga da TV por que a maldita apresentadora enrola tanto, faz tanto doce que no fim qualquer que seja a merda que ela esteja apresentando parece a coisa mais interessante do universo! Veja o exemplo do programa de hoje. A atração principal era um quadro chamado "Espelho Meu" - nesse quadro, a produção do "Márcia" escolhe uma pessoa, geralmente mulher, pobre, favelada e com uma história de fazer a Joseph Klimber chorar, para passar por uma reforma geral no próprio corpo e sair praticamente uma deusa. Esta proposta é duplamente chamativa, por que atrai a atenção do público tanto pela caridade que a Márcia "faz", quanto pela curiosidade mórbida. Eu fui pego pela segunda, pois o que realmente me chamou a atenção foi o close que deram nos dentes completamente podres da pobre candidata à princesa encantada antes do "extreme make over". Mas, o fator que gera mais curiosidade é o mistério. Não se acompanha passo a passo a lenta transformação desta mulher, nunca se vê ela por inteiro, só em partes (os dentes podres, por exemplo). Quando ela tem que aparecer com todo o corpo, ela aparece usando uma roupa preta e uma máscara branca, cobrindo tudo.


Disfarce da participante do quadro "Espelho Meu". Creepy...


A idéia é ir gerando tensão e curiosidade no público, para segurar ele até o final e ver o resultado. E, meu chapéu, como funciona! E como aquela desgraçada da Márcia se aproveitava de nossa paciência! A cada cinco minutos, mostrava na tela um pedaço do processo - no cabelereiro, no dentista, no dermatologista, no pai de santo - dizia que a mulher estava ali, conversava com ela, e então ameaçava mostrá-la ao público. Porém, no exato momento em que achávamos que ela ia mostrar, ela cortava para os comerciais ou para o jabá de algum produto remelento. Isso chegou a atrapalhar meu desempenho profissional. Estava lá eu, conversando com meu acompanhado terapêutico, fortalecendo nosso vínculo, quando de repente aparecia a Márcia e começava a falar no "Espelho Meu". Desconcentrava-me completamente e ficava prestando atenção na TV, pensando "É agora!". Não, nunca era. Depois da terceira vez que ela negou fogo, decidi que era hora de ir embora. Passei, contudo, na casa de outra moradora, e adivinhem o que ela estava fazendo? Sim, olhando a Márcia. Decidi que era meu destino ver como ficara a pobre mulher totalmente repaginada, e fiquei assistindo aquele lixo televisivo até o final. E, como era de se esperar, me decepcionei. Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que falei foi "colocaram uma cebola no lugar do cabelo dela?" OK, admito, ela estava bonita, mas não o suficiente para justificar toda a atenção que dei para ela. E esse programa é sempre assim: capturam tua atenção com uma chamada espalhafatosa, te enrolam até onde conseguem e então te decepcionam. Mas, não importa quantas vezes isso tenha acontecido, sempre que você ligar a TV naquele canal, naquele horário, vai acabar olhando o programa da Márcia de novo, por que com certeza alguma idiotice vai te atrair. O site do programa também é assim - "mulher noiva há 25 anos"? "Marido infiel jura ter mudado"? Que porra é essa? Não sei, mas quero ver! E é assim que programas ruins continuam no ar: atacando continuamente os nossos pontos mentais mais fracos.




Márcia: histericamente chamando nossa atenção em mais de um front.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXVI

Aparentemente, este desenho revela muitas coisas a respeito de minha personalidade.

Aparentemente, este aqui também.


Seguindo esta lógica impecável, o desenho abaixo também deveria.


Minha opinião a respeito de algumas cadeiras, pelo menos.

As Provações da Faculdade XXXV

Toda culpa que eu sentia por fazer o trabalho de Avaliação Psicológica II em cima da hora e com o mínimo de empenho desapareceu no momento em que li com mais atenção os critérios utilizados para a interpretação dos dados do teste projetivo H-T-P (House-Tree-Person).

Domingo, 28 de Junho de 2009

Postura Terapêutica em Situações Complicadas

Esse post é baseado em uma conversa que eu e meu colega Bruno tivemos no Google Talk. É curta, mas aborda assuntos que todos que trabalham na área da saúde eventualmente terão que confrontar, especialmente profissionais da saúde mental. Corrigi erros de português e coloquei umas palavras a mais para deixar o texto mais claro, mas não mudei sua essência. Aqui vai ele:

Eu: Cara, mudando de assunto, qual tua opinião a respeito de dizer o diagnóstico para o paciente? Por exemplo, dizer para uma paciente que ela é borderline? Tu acha que é terapêutico ou iatrogênico?

Bruno: depende de cada caso, e do teu plano sobre o que fazer ao informá-lo. No caso, digamos, de uma adolescente identificada como borderline, primeiro, é preciso testar rigorosamente essa hipótese. Também é preciso avaliar a gravidade. Se ela tem muitas tendências suicidas, e já tentou matar ex-namorados algumas vezes é bom informar a ela e aos seus familiares o que é isso e como proceder, e porque é importante ela se manter em tratamento. Por que a pergunta?

Eu: Interesse acadêmico. Meu supervisor local falou sobre isso esses tempos lá no Morada, e depois eu ouvi alguém no congresso falar exatamente o oposto.

Bruno: Hummmmm... teu supervisor local se posicionou contra a devolução do diagnostico?

Eu: Sim – disse que era iatrogênico dizer para alguém que ele era neurótico, por que ela se identificaria com isso. Ou algo assim.

Bruno: Hummmmm... No caso do diagnostico estrutural psicanalítico, eu acho que sim. E de transtornos de personalidade também... com exceção de borderline, talvez. Tipo, não me parece que ajuda dizer pro paciente que ele é histriônico ou narcisista, mas dizer que ele tem Transtorno de Humor Bipolar, personalidade borderline, epilepsia ou esquizofrenia parece muito benéfico, porque ajuda ele a se entender, e entender que aquilo vai continuar pra sempre mesmo, e vai ter que seguir em tratamento psicológico e farmacológico.

Eu: Então, na tua opinião, depende do transtorno?

Bruno: Depende do beneficio que for trazer. Tem transtornos que parecem não trazer beneficio nenhum, enquanto outros sim.

Eu: É contextual, então.

Bruno: Aham, e depende muito da conduta do terapeuta. Tipo, só mostrar o diagnostico vai deixar o paciente muito confuso. É importante explicar como funciona e, principalmente, o que fazer. Isso tem que ajudar ele a se entender, ser compreendido por familiares e colegas, e fornecer o instrumental para ele viver uma vida mais feliz

Eu: E, mais importante, o terapeuta deve deixar claro que tem tratamento, por que se não, daí sim é iatrogênico.

Bruno: Bah, muito boa. Isso se aplica pra diagnosticos psi. Lembra da Síndrome de Huntington? Ou da Síndrome de Hatch? São doenças neurodegenerativas muito graves e sem cura, e é um baita dilema sobre dizer ou não que a pessoa pode demenciar e morrer logo. Mas acho que aí que ta o tentar oferecer uma vida de menos sofrimento. Tipo, dizer isso pra um adulto, que ele vai demenciar e morrer dentro de dez anos, tem que ser acompanhado de um baita trabalho para estimulá-lo a aproveitar a sua vida plenamente, se não ele vai acreditar que não vale a pena viver. E dar a certeza de que, quando ele demenciar, sua família vai acolhe-lo com cobertores quentinhos, comida boa e deixá-lo vendo desenho e levando-o para a praça ou para ver o mar.

Eu: Essa certeza é meio complicada de dar, considerando que não depende da gente.

Bruno: Sim, sim. Mas a gente tem que fazer esse acordo com a família.

Eu: E torcer para que eles cumpram com a palavra deles (ou que o paciente demencie logo e não lembre nada a respeito disso).

Bruno: XDDDDDDDDD

Eu: Em todo caso, a gente cai na velha discussão de "quem cuida dos cuidadores?" - por que, por um lado, cuidar de um familiar demenciado não é fácil, mas por outro, cumprir a promessa de dar cuidado para ele pode dar uma sensação de sentido para os cuidadores.

Bruno: por isso a importância do acompanhamento. Os familiares também sofrem, e precisam desse amparo e de orientação.

Publicado originalmente nos Amoladores de Facas.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXIV

O número e qualidade de idéias de textos para o blog é diretamente proporcional à urgência dos trabalhos para a faculdade.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Vida Dura (Parte 24)

Ao contrário do que o senso comum poderia dizer, o centro de uma grande universidade não é a reitoria, mas o restaurante universitário. Para o diabo com o reitor e suas politicagens, pois o povo quer saber é de comida barata! É no RU onde todas as tribos se encontram pois, afinal de contas, desde o bicho-grilo cheirando à maconha mais chinelão das Ciências Sociais à patricinha mais rica e perfumada da Odontologia* querem poupar dinheiro (o primeiro para comprar livros do Marx e "erva doce da paz" e a segunda para comprar cremes da Avon e suas botas para cair na noite do Madras). Além disso, é o local onde estes tão diversos estereótipos convivem e ocupam as mesmas mesas, os mesmos talheres e, claro, comem o mesmo rango.

Claro, a relação que os estudantes de universidades particulares têm com seus RUs é um tanto quanto diversa da dos estudantes de universidades públicas (especialmente federais). Nas particulares, como todas as outras coisas, ela é definida pelo preço da refeição - sempre caro, entre 5 ou 6 reais. Já nas públicas, a questão do preço surge apenas esporadicamente, geralmente quando a reitoria decide aumentar o preço e o DCE organiza passeatas e protestos e os estudantes ficam gritando até o reitor mudar de idéia e deixar tudo como está, sendo o mais importante a natureza duvidosa da comida servida. Tá, eu sei que as estagiárias de Nutrição estão lá, zelando pela nossa saúde e cuidando para que não ocorra uma intoxicação alimentar em massa, mas a impressão corrente é que elas não têm muito sucesso nesta empreitada, e comer no RU da UFRGS é sempre uma aventura. Já ouvi relatos de já terem servido feijão peludo e da nutricionista responsável vir a publico dizer que aquilo na bandeja de todo mundo não era cabelo, mas carne desfiada (eu gostaria de estar inventando isto). Estes são apenas os casos saídos da Twilight Zone, que acontecem de vez em quando. São realmente bizarros, mas não dá para construir uma sólida reputação apenas com um ou dois grandes eventos, mas nas coisas pequenas e constantes de nosso dia a dia, como o feijão com pedrinhas, o arroz cru, a salada radioativa, as bandejas pré-servidas, o suco sabor caneta marca-texto, a carne que deveria ser estudada pelos geólogos e não por nutricionistas... enfim, todas as miudezas que fazem do RU ser tão nosso!

Diante desta situação, como reagem os estudantes? Continuam comendo lá, mas nem por isso deixam de reclamar. É fato que reclamar do RU é um esporte extremamente popular na UFRGS (e este deve ser meu enésimo post nesta categoria). Contudo, todavia, porém, dentre os muitos dias de comida esquisita (e que pode morder em retaliação), aparecem alguns dias que fazem valer a pena gastar R$1,30 para almoçar: os dias que servem delícias como banana com calda de chocolate.




Claro, a banana deve estar verde e tem pouca calda de chocolate, mas ainda é banana com calda de chocolate! E notem que o feijão com arroz também vem acompanhado com batata palha.

*Só pra constar: aqui na UFRGS esse encontro de titãs é difícil, mas pode acontecer em pelo menos um RU - o do Campus do Vale, onde o curso de Odontologia tem pelo menos algumas disciplinas.

Viva a Sociedade Alternativa!

Sentei-me hoje na biblioteca com duas colegas minhas para estudar. Não foi nada extraordinário - para ser franco, para um observador externo seria uma cena um tanto quanto monótona, pois quase nem conversamos. Ainda assim, senti como se algo fantástico estivesse acontecendo naquele exato momento, naquela mesa onde estavamos sentados fazendo algo tão comum.

Senti algo parecido semana passada, e na outra, durante a reunião do nosso diretório. Mais uma vez, não estavamos fazendo nada que não se faz em qualquer reunião de qualquer coisa, seja de diretório ou de clube de biriba: discutimos pautas, tomamos decisões práticas, ouvimos informes, fizemos piada a respeito de algumas bobagens. No meio de toda a algazarra, deixei-me levar e apenas observar, sentir e ouvir o que acontecia ali, e senti-me profundamente contente, pois foi-me permitido ver um coletivo estudantil decidindo seus próprios rumos, mesmo durante o inferno do final de semestre, e tudo isto sem conflitos partidários e brigas mesquinhas! Pode ser que dure pouco e que esta semana o DAP morra novamente, mas durante os últimos seis meses, como ele viveu! Fiquei ainda mais contente quando um outro colega meu, também presente nesta reunião, falou que sentiu algo muito parecido com o que eu mesmo senti.

Que sensação é essa? A resposta surgiu antes mesmo que conseguisse formular a pergunta - é a sensação de pertencer a um grupo, a algo maior que si mesmo e mesmo assim continuar um indivíduo único - de poder depender dos outros mas continuar independente. Se todo movimento estudantil fosse assim, viveriamos uma verdadeira revolução.

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

O Segredo da Flor de Ouro

Pois é gente, eu sei que a última atualização deste blog foi em 18 de maio, 20 dias atrás. Considerando meu estilo de produção alucinado, isto é um tanto quanto incomum. Bem, talvez não seja. Tenho a teoria de que nossas maneiras de enfrentar a vida variam com o tempo, e que oscilamos entre extremos. Que quero dizer com isto? Que sou preguiçoso estou em uma fase em que não preciso escrever para elaborar meus enigmas existenciais. Talvez o verbo "precisar" não seja o mais adequado, pois ainda gosto de escrever, tanto que preciso disto tanto quanto eu preciso comer ou dormir (por isso estou aqui). Contudo, não estou em um momento produtivo, mas em um momento reflexivo, cujo foco maior está em absorver o que acontece comigo e transformar isto em algo dentro de mim. Talvez, quando este ciclo estiver superado, eu mostre aqui o que fiz com a flor da minha alma.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Experiências subjetivas de um treino incomum

Gostaria de, neste post, relatar uma experiência subjetiva que, apesar de relativamente banal e pouco interessante de um ponto de vista externo, impressionou-me profundamente este final de semana, a ponto de achar essencial descrevê-lo fenomenologicamente aqui.

Todos os sábados à noite, na academia de Kung Fu, ocorrem treinos extras, para aqueles que querem participar de competições e demonstrações públicas. Eles são estruturados de maneira bastante diversa dos treinos regulares, pois o treino físico é grandemente reduzido, deixando muito mais tempo para a prática de formas a serem apresentadas em eventos externos. Outro ponto em que eles diferem da norma é que nem sempre o professor está presente - quando, por um motivo ou outro ele não está, as atividades feitas em conjunto, como o aquecimento e o alongamento, são ditadas pelo aluno mais antigo. Depois que elas são concluídas, cada um vai para seu canto (tanto quanto isso é possível) e treina as formas que decidiu apresentar em eventos externos individualmente. Quando o professor está na academia, ele impõe maior ordem no treino e acaba funcionando como um fator de "coesão social" entre nós e os outros colegas. Porém, isto não muda o fato de que cada um dos presentes tem que praticar suas técnicas independentemente dos demais. Ao final de cada treino, apresentamos as formas que praticamos para os outros, simulando uma competição. Pessoalmente, acredito que este momento final é o mais interessante, por que nele posso ver como os outros se comportam diante de uma situação potencialmente estressante e, principalmente, como eu me comporto nestas mesmas condições - se minha técnica está boa, se esqueço das coisas, se me mantenho calmo e concentrado.

Até então, meus "resultados" nesta apresentação final tinham sido de certo modo desapontadores. Uso este termo por não existirem outros mais adequados, já que, na verdade, não me senti verdadeiramente desapontado ou chateado em nenhuma das vezes, apenas notei que cometi muitos erros e segui adiante. Meu erro mais comum, de longe, é esquecer partes das formas durante as apresentações. Ficava preocupado demais em fazer tudo corretamente, e deixava de prestar atenção ao que estava fazendo naquele instante.

Neste último treino, entretanto, notei uma grande diferença em mim mesmo. Depois de termos aquecido e alongado, nos separamos e começamos a treinar separadamente, como sempre. Só que, desta vez, em quanto fazia minhas formas, senti uma mudança radical: não tinha nenhuma opinião sobre se o que eu estava fazendo estava certo, errado, bom ou ruim, mas me sentia extremamente satisfeito apenas em fazer. Quando parei e tentei observar esta sensação de forma mais atenta e entender o que a causava, ela sumiu, e voltou apenas quando deixei de procurá-la. Mais tarde, na hora das apresentações, ficou decidido que cada um mostraria apenas uma forma, para a coisa toda não levar muito tempo. Tinha treinado duas formas diferentes - uma de mãos livres, e outra de bastão. Enquanto a primeira eu sentia dominar relativamente bem, a segunda eu sentia certa insegurança, pois costumo esquecer ou confundir vários pedaços dela. Quando falaram que apresentariamos apenas uma forma, pensei que seria mais fácil apresentar aquela que dominava mais. Porém, logo em seguida pensei "por que eu não me desafio e apresento a forma mais ansiogênica?" e decidi demonstrar a forma de bastão. Para minha surpresa, pela primeira vez não esqueci nem errei nada. Relembrando a experiência e a colocando em palavras, parece tudo muito engraçado e paradoxal, pois durante minha apresentação eu não pensava, pelo menos não do mesmo jeito que estamos acostumados, pois mesmo assim eu estava plenamente consciente que não estava pensando! Os únicos pensamentos que quebravam este padrão de absorção ocorriam quando eu percebia algum erro na minha movimentação - e assim que o movimento errado fosse corrigido, eu voltava ao estado anterior. Não havia nenhum sentimento ou emoção, mas eu ainda assim (paradoxalmente), me sentia extremamente bem.

Não posso dizer se este estado de consciência que experimentei se tornará cada vez mais freqüente ou se foi apenas um caso isolado. Tomara que seja o primeiro. Se não for, paciência.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Vida Dura (Parte 23)

Decidi pegar nas panelas e cozinhar minha própria janta. Esperem pelo pior.