terça-feira, 17 de novembro de 2009

Por que eu sou uma tiete da Google

O Google é uma megacorporação, que dentro em breve dominará todo o mundo informatizado, instituindo a maior ditadura já vista sobre a face da terra. Apesar de todas as implicações negativas disto, não consigo parar de pensar em como o mundo se tornaria mais eficiente e bonitinho, por que faz tempo que vendi minha alma para esta empresa.

Tudo começou com o próprio sistema de busca deles. Oh meu Deus! Eu não acreditei que uma busca na internet pudesse ser tão rápida. Depois, veio o Gmail, que rapidamente substituiu meu antigo @uol.com.br como principal meio de comunicação (depois das vozes na minha cabeça, é claro). Deste ponto em diante, parei de pensar por que acho o Google absolutamente fodástico e passei a considerar isto como uma verdade básica, como as Leis de Newton:

1?) Lei da Inércia;
2?) Princípio Fundamental da Dinâmica;
3?) Lei da Ação e Reação;
4?) Google é Deus.

Mas o leitor deve estar pensando neste exato momento: qual será a próxima subcelebridade a virar atriz pornô? Se você está realmente pensando nisto, provavelmente entrou no blog errado, pois a verdadeira questão aqui é: por que, se sou tiete da Google faz tanto tempo, eu decidi fazer esse post só agora? Estarei eu recebendo algum tipo de jabá? Se estivesse, garanto que estaria bajulando eles com muito mais força. Tenho dois motivos para fazer isto agora: Google Tarefas e Google Labs.

O Google Tarefas, para quem não sabe, é um aplicativo do Gmail que permite ao usuário criar listas de tarefas (por exemplo, o que comprar no mercado, quais números jogar na Mega Sena, textos para publicar em um blog, essas coisas). É um aplicativo bagaceiro, que qualquer macaco poderia programar com algumas aulas de HTML básico e uma penca de bananas. Contudo, é justamente a bagaceirice desse aplicativo que o torna tão genial. Além disso, ele é perfeito para um obsessivo-compulsivo com problemas de memória como eu, pois serve para mim tanto como uma forma de lembrar minhas tarefas como um reforçador positivo, por que dá um prazer danado marcar as coisas que já fiz como feitas nele!

O Google Labs eu conhecia a mais tempo, mas comecei a usar só hoje. Na verdade, comecei a usar só agora. Em resumo, o Labs é o playground dos programadores da Google, onde eles podem inventar traquitanas que tu pode acoplar ao teu e-mail e trabalhar de maneira mais eficiente. E, através deste serviço, instalei uma traquitana (gadget, como eles preferem chamar) que me permite escrever posts no meu blog a partir do Gmail. Legal, não? Ainda preciso descobrir alguns truques, como por exemplo, formatar o texto em justificado e escrever em negrito, mas acho que é questão de prática. H? muitos outros gadgets no Labs, mas vou explorando eles aos pouquinhos, e, se achar que há algum que mereça o esforço de escrever outro texto lambendo as gônadas reprodutivas do Google por ela ser tão maravilhosa, eu escrevei.

Google, conquiste o mundo logo, e instale o Google Labs em Brasília.

PS.: Resolvi tirar a prova dos 9 e ver como fica o rascunho salvo no sistema interno do Blogger. Não fiquei muito feliz com o resultado, mas mantenho firme minha fé que o Google colocará tudo em seu devido lugar. Amém.

Onde os Poetas Reinam

Neste post, gostaria de falar um pouco mais sobre as descobertas que tenho feito em minhas breves incursões no reino da poesia, que comecei faz pouco tempo (e não um conto sobre um lugar onde os poetas deram um golpe de estado, como alguns de vocês poderiam imaginar).

Um livro de poesia, diferente de romances ou tratados científicos, não deve ser lidos de uma vez só. Claro, pode-se proceder desta maneira e tentar absorver todo o conteúdo nele escrito, mas seria um tanto quanto vão, pois a informação nele (se é que se pode chamá-la deste modo) contida não é linear e objetiva, e sim errática e subjetiva. Por isso, prefiro ir saltando páginas, pegando poemas aleatórios e vendo se eles me afetam de alguma maneira particular. Em caso afirmativo, leio-os várias e várias vezes, até que eles fiquem como marcados à fogo em meu coração ("de cor", como diríamos em bom português) e eu me torne incapaz de esquecer seus versos. Porém, por ser uma arte subjetiva, talvez seja possível que algum outro indivíduo prefira ler o livro inteiro, de cabo a rabo, e ainda aproveitá-lo da melhor maneira possível - essa metodologia só não dá certo comigo.

Outro "dogma de leitura" que deixo de lado quando pego um livro de poesia é a obrigatoriedade de lê-lo todo. Quando pego um livro qualquer - sobre Neurociência ou Sociologia, por exemplo - leio os prefácios, agradecimentos, introduções, capítulos, posfácios e apêndices: tudo, em suma. Com os livros de poesia, leio o que me agrada, quanto me agrada. Duas páginas ou duas dezenas, tanto faz. O que importa é o que eu li, e não quanto. Assim, se achar que um livro não me trará nada de novo por enquanto, o devolvo à estante onde pertence, ou à biblioteca de onde o retirei, e deixo-o lá até achar que preciso dele de novo. Tenho certeza de que não perdi ou perderei tempo assim procedendo.

Sintetizando toda a experiência, posso dizer que esta nova maneira de tratar os livros tem me aberto novas portas no teatro mágico da minha alma (vão ler "O Lobo da Estepe" inteiro se não entenderam essa metáfora - certamente valerá a pena), e me mostrado novas maneiras de existir. Verei até onde isso me levará.

domingo, 15 de novembro de 2009

Utopias (4)

Terminei de ler, ainda esta semana, um livro que apesar de não descrever uma utopia propriamente dita, esbarra na irremediável busca do ser humano por algo mais elevado, e nos erros que ele comete nesta senda. Falo de "Sebastopol", escrito pelo russo Leon Tolstoi. Apesar de ter sido escrito por um autor mundialmente reconhecido, é bem provável que vocês nunca tenham ouvido falar deste livro, pois foi um dos primeiros que Tolstoi publicou e alcançou o sucesso. Quem leu alguma obra posterior de Tolstoi e ler "Sebastopol" perceberá que neste livro o estilo de escrita do autor ainda não alcançou a plenitude, e mesmo assim, não se sentirá decepcionado, pois as três histórias nele contadas são baseadas na vida do próprio Tolstoi, quando ele lutou como oficial de infantaria no Cerco de Sebastopol, a maior batalha da Guerra da Criméia e famosa pelos atos de heroísmo de seus defensores.

E é sobre esses atos de heroísmo de Tolstoi nos conta. À época da Guerra da Criméia, pululavam em toda a Rússia histórias sobre a grande coragem dos soldados de Sebastopol em sua incansável defesa da Grande Rússia e de sua lealdade ao Tsar, o "Pai da Pátria" contra um inimigo muito mais numeroso e bem equipado, e como os bastiões (onde as batalhas aconteciam) eram locais de bravura, glória e honra. Tolstoi, porém, conta uma outra versão – uma em que os soldados sentem medo, os oficiais preocupam-se mais com as condecorações, promoções e honrarias que poderiam ganhar na batalha, as trincheiras são fétidas e cheias de cadáveres, e que no fim, a luta parece não passar de uma grande e mortal vaidade. Tudo isto ele contrasta com aquela imagem romantizada da guerra que era tão comum àquela época e que ainda hoje encontra eco em nós – e a discrepância é gigantesca.

Como disse no primeiro post desta série, o ser humano desde muito tempo busca a perfeição, ou, em outras palavras, algo superior, que transcenda a si próprio, que traga cor e calor para sua vida cinzenta e fria. A guerra, neste sentido, tem servido para isto, levando homens comuns a erguerem-se como heróis em defesa de sua pátria, como ocorreu em Sebastopol, na II Guerra Mundial e mesmo nas guerras modernas. Contudo, o preço que elas cobram por esta transcendência é alto. Ao longo de sua vida e de seus escritos, Tolstoi foi lentamente forjando em si uma consciência pacifista, de que temos que transformar nossas espadas em relhas de arados, mesmo sendo um "herói de guerra". Fico com a impressão que, em nossa busca pela perfeição, devamos destruir essa utopia de que a guerra é algo belo, nobre e necessário, e substituí-la por outra, que cause menos destruição.

 

 


Vou demorar para ler "A Ilha" ou "A República", como disse no post anterior, mas não abandonei a idéia de lê-los e comentá-los aqui.

Poetry

Criado como fui, um homem no Rio Grande do Sul, nunca senti-me muito atraído pela Poesia. Na verdade, nunca dei-lhe importância, ou, quando muito, a classifiquei como uma arte desconexa e afeminada. Por isso, nunca peguei um livro de poesia ou me dignei a ler mais a respeito dela do que os afazeres escolares me obrigavam. Recentemente, esta opinião mudou radicalmente, depois de assistir "A Sociedade dos Poetas Mortos" novamente, e deixar a paixão que o personagem interpretado por Robin Williams expressa pela vida através dos versos tomar conta de mim. Por causa desta paixão, fui até a Biblioteca Central e peguei um livro de Walt Whitman. Comecei tibiamente, lendo algumas estrofes aqui e ali, sem saber muito bem o que encontrar e o que fazer do que lia.

Hoje, porém, creio que descobri por que os personagens do filme reuniam-se em uma caverna para ler poesia, pois, depois de acordar com uma sensação de que nada na vida vale a pena, procurei a ajuda de meu amigo Walt, e em suas palavras encontrei grande conforto – um conforto que poucas vezes senti antes. Em seu estilo simples e belo, ele me falou do desespero, e do medo de viver como um tolo, não como um autor raso, que fala da boca para fora, mas do fundo de seu coração, como só alguém que sentiu tudo isto poderia fazer. Porém, ele não se limitou à negra escuridão da alma, pois em suas palavras deixou um relance da aurora por vir, e da força que a tudo permeia e tudo dirige. Nenhuma outra arte ou ciência pode fazer com a mesma potência que a Poesia.

O me! O life! of the questions of these recurring, 
Of the endless trains of the faithless, of cities fill'd with the
 
foolish,
 
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I,
 
and who more faithless?)
 
Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the
 
struggle ever renew'd,
 
Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see
 
around me,
 
Of the empty and useless years of the rest, with the rest me
 
intertwined,
 
The question, O me! so sad, recurring-What good amid these, O me,
 
O life?

Answer. 
That you are here-that life exists and identity,
 
That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.

(Walt Whitman)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

3ª Idade

Ontem, saíndo de alguma aula e conversando com um calouro meu, perguntei "tu tá no quarto semestre, certo?" Pelo jeito eu estava redondamente enganado, pois ele está mal no segundo. Esse foi o gatilho que levou a perceber que já não consigo mais diferenciar muito bem entre os meus bixos e os bixos deles. Quando apareço na faculdade para as poucas aulas que lá me restam, só consigo diferenciar entre meus colegas que entraram em 2007 comigo, quem entrou antes de mim e quem entrou depois. A última categoria tem se tornado mais e mais numerosa - tanto por que todo ano entra mais gente nova, quanto por que todo ano também sai mais gente velha.

E como disse um cara que fez vários semestres de Biologia (e agora é meu bixo do noturno): tu percebe que é um ancião no curso quando vê que teus bixos já têm bixos. É, acho que estou ficando velho.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ensaios sobre o nada

Fui ontem à uma pizzaria, em comemoração ao aniversário de um colega de Kung Fu. E, depois de socializar com as pessoas presentes à mesa, enquanto assistia Zorra Total passando no telão do restaurante, refletia a respeito de uma importante questão: quando se começa a comer durante um rodízio de pizza? Talvez esta pergunta pareça irrelevante num primeiro momento, porém, depois de uma breve reflexão, se perceberá que ela é não só irrelevante, como também imbecil, o que apenas reforça a necessidade de pensarmos com mais profundidade em suas implicações.

Comecemos a entender nosso problema pelo princípio. Todos nós já passamos por isso em nossas vidas: alguém do nosso círculo de amizades resolve comemorar algo, reserva uma mesa com 50 lugares em alguma pizzaria e chama todo mundo que conhece para se empanturrar de pizzas pouco convencionais, como sorvete de agrião e pimenta do reino. Você, sendo convidado e não tendo nada melhor para fazer sentindo-se na obrigação de honrar seu camarada, vai na tal pizzaria, senta do lado de alguém que nunca viu na vida e espera o rodízio começar. Mas quando ele começa? Não há nenhum sinal externo que o marque este evento, como alguém chamar um garçom e dizer "que a orgia alimentar comece!", ou o garçom dizer "já dá pra começar a suruba de comida, patrão?". Nada. Quando tu menos espera, tem um cidadão segurando uma travessa de pizza do teu lado, dizendo "frango com tomate seco?", esperando tua resposta. Como isso foi acontecer?

Alguns donos de pizzaria de Caxias do Sul, percebendo a importância desta questão para seus negócios, ofereceram uma solução simples e efetiva, colocando sobre as mesas pequenos objetos hexagonais com três lados pintados de cores diferentes: uma significando "mandem as pizzas salgadas", outra "agora queremos pizzas doces" e uma terceira que diz "chega!", permitindo, assim, que o cliente decida quando começar a comer feito um porco na engorda. Porém, for de Caxias do Sul, esta grave situação persiste. Formulemos votos que este excelente hábito seja copiado por mais pizzarias em todo o Brasil e, quem sabe, o mundo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Arte de Procrastinar

As listas bizarras do Cracked parecem mais engraçadas quando se tem dois trabalhos importantíssimos por fazer.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Utopias (3)

Mais uma utopia a se comentar por aqui. Li, com muito esforço, "Horizonte Perdido", de James Hilton, que descreve o mítico monastério de Shangrí-La. Digo que foi difícil por que peguei uma cópia que, de tão velha, já se esfarelava e atiçava minhas alergias. Quanto à leitura em si, foi bastante agradável.

Sendo mais específico a respeito da história, ela é contada de uma maneira pouco costumeira. Não é um relato em primeira pessoa como "Walden II", onde o narrador visita a comunidade e descreve seus costumes, mas um relato de segunda mão. O narrador de "Horizonte Perdido" reencontra um velho amigo de escola, o escritor Rutherford, que lhe conta algumas coisas estranhas a respeito de um conhecido em comum, Hugh Conway. Por uma coincidência, os dois se encontram em uma pequena cidade chinesa e viajam juntos em um transatlântico, onde Conway conta, em uma noite, todos os fantásticos acontecimentos que o levaram de Baskal, na Índia, a Karakal, o Vale da Lua Azul escondido entre as impenetráveis montanhas da cordilheira de Kuen Lun (que, para minha surpresa, existem de verdade), que Rutherford prontamente transforma em um relato escrito e o entrega para o narrador.

Não vou estragar a história e contar os detalhes - se quiserem sabê-los, façam como eu e peguem uma rinite alérgica o livro e leiam - apenas a parte "sociológica", por assim dizer.

Como já deve ter dado para entender, Karakal era uma comunidade quase inacessível, pois ficava escondida entre altas montanhas, em uma região árida e desconhecida. Porém, por algum feliz acaso, ela se encontrava em um vale que, por motivos vários, era muito fértil e agradável de se viver, aos pés de uma magnífica montanha branca que emanava uma luz azul em noites de lua cheia. E esta confluência de fatores permitiu que seus aldeões, na maioria chineses e tibetanos, desenvolvessem uma cultura própria, sem maiores intromissões do resto da humanidade. Ainda assim, estas intromissões ocorriam. No início do século XVIII, um missionário cristão de Luxemburgo chamado Perrault chega em Karakal à beira da morte, e depois de se recuperar, põe-se a trabalhar na construção do monastério cristão de Shangri-Lá. Porém, o clima de Karakal não deu a seus moradores apenas a chance de criarem uma cultura pura, como também deu outro presente: longevidade. Os tibetanos e chineses criados naquele local não se tornavam especialmente mais longêvos em Karakal por já estarem acostumados desde a infância à sua atmosfera, mas estrangeiros que ali viessem a estabelecer residência poderiam atingir idades bastante avançadas. Quando a construção de Shangri-Lá terminou, Perrault contava 109 anos e estava bastante ativo. E ele prolongou ainda mais sua vida, através de exercícios de Ioga, alimentação controlada e sabe-se lá mais o quê.

Com o tempo, depois da construção do monastério, Perrault passou a estabelecer algumas políticas de contato com o mundo exterior, visando o bem de sua civilização, e também de engenharia cultural. Uma comunidade um pouco maior, como Porto Alegre, pode abrigar ondas relativamente grandes de imigrantes sem que sua cultura seja grandemente influenciada ou seus recursos todos utilizados, mas o mesmo não poderia ser dito de Karakal: se muitas pessoas aparecessem ao mesmo tempo para morar em Karakal, ela se autodestruiria por motivos econômicos. Ainda assim, para garantir a continuidade da comunidade e evitar os males das relações incestuosas, estrangeiros devem ser trazidos de fora de tempos em tempos. E, deste modo, foi se formando um pequeno grupo de europeus, que acabavam ficando por Lua Azul e tornando-se monges de Shangri-Lá e aprendendo os segredos da vida longa.

A cultura de Karakal é essencialmente chinesa e tibetana. Shangri-Lá, que foi concebida originalmente como um mosteiro cristão, ao longo do tempo tornou-se muito budista, por assim dizer. Esta religião, apesar de ser a dominante, não é a religião oficial do estado, e há liberdade de culto, com templos de outros credos no Vale, como taoísta. A cultura européia também deixou sua marca através de todos os imigrantes que de lá vieram, mas sua influência é mais sentida no monastério e em sua classe monástica do que na comunidade leiga. O mosteiro, apesar de ter sido construído no começo do século XVIII, dispõe de água encanada, uma vasta e ampla biblioteca de clássicos europeus e orientais e instrumentos musicais - como um piano de cauda. Karakal foi abençoada com um abundante suprimento de ouro, que é usado como moeda para os comerciantes dispostos a ir até lá para fazer negócio e trazer essas comodidades. No Vale da Lua Azul abaixo de Shangri-Lá, reina a paz, pois todos na vila seguem o princípio de ser moderado em tudo, inclusive na moderação: beber um pouco de álcool, fazer um pouco de sexo, ouvir um pouco de música, governar um pouco. Roubos não acontecem por que todos possuem o que necessitam, e crimes passionais são inexistentes por que todos possuem desejos também moderados. Os monges de Shangri-Lá são o principal exemplo desta filosofia de vida, passando seus dias sem pressa, apreciando as coisas com moderação ou "produzindo sabedoria" (meditando, imagino eu).

A utopia descrita em "Horizonte Perdida" é linda: há abundância de alimentos, seus habitantes vivem em harmonia em um paraíso natural e com uma cultura rica e florescente. Porém, há algo nela que rejeito, como se ela fosse falsa, ou pior, morta por dentro. William James certa feita visitou uma cidade universitária "experimental", onde tudo funcionava da maneira mais perfeita - nas escolas fundamentais as crianças aprendiam alegremente, nas faculdades os estudantes pensavam com ampla liberdade, festas aconteciam frequentemente e não havia menor sinal de miséria ou desigualdade social nas ruas. James obviamente achou tudo isto maravilhoso, mas logo que saiu de lá pensou "ainda bem que saí daquela pasmaceira pasteurizada! Precisava voltar para um mundo sujo e sangrento". Bem, tenho bastante certeza de que, apesar desta não ser a citação exata (que li em "A Filosofia de William James"), ter passado a sua mensagem. Ao longo de todo o livro, o autor consistentemente dá a entender que Karakal é um lugar de paz e tranquilidade, perfeito para Conway, de temperamento contemplativo. Porém, apesar das reiteradas afirmações de quão maravilhoso é este vale, não consigo sentir-me atraído por ele, por ser mais parecido com uma cemitério cheio de zumbis do que o berço de uma nascente civilização, e foi-me impossível não simpatizar com Mallinson, personagem que, apesar de ser irritante por causa de seu desejo de sair de Shangri-Lá o quanto antes, é o único que parece estar realmente vivo! Toda paixão de viver em Karakal é substituída por uma longa espera preguiçosa pela morte, sem objetivo ou sentido maiores. Talvez apenas eu seja incapaz de viver em tal lugar assim, por causa de meu temperamento, mas não acho que nenhum ser humano verdadeiramente saudável poderia considerar Karakal algo mais do que um local para passar as férias.

Próximas utopias: A Ilha, de Aldous Huxley e A República, de Platão.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Segundo Dia Que Me Caiu o Cu da Bunda

Resolvi olhar de novo o Recent Hits do contador do Bravenet. Se ontem eu achei "TESTE CEGO DA FRUKI COLA" de fazer cair os butiá do bolso, hoje a coisa veio em dose dupla:


Clique para aumentar e ver as aberrações em seu habitat natural

"trabalho de conclusao de curso sobre o filme 11 homens e um segredo" - O que possivelmente pode ser dito a respeito disso aqui? Será que ele estava procurando um trabalho de conclusão de curso cujo tema central era o filme "11 Homens e um Segredo"? Ou ele estava procurando subsídios para fazer o seu próprio TCC, que será sobre esse filme? Dúvidas, dúvidas, dúvidas! Quase me dá vontade de procurar a respeito disso (com palavras chave decentes) e ver se acho algo para esclarecer este enigma. Em todo caso, apesar de toda obscuridade envolvendo essa pesquisa, posso afirmar que esse TCC foi feito ou será feito em um curso de Psicologia, e terá um título do tipo "O Desejo perverso e a pulsão escópica em '11 Homens e Um Segredo' - Um Estudo de Caso".

"como Douglas Macgregor elaborou a teoria x y" - OK, com esse amigo aqui eu simpatizo, pois está pesquisando sobre um assunto interessante e com potencial para ser algo mais do que piada de bar. Porém, está me cheirando a trabalho sendo feito nas coxas: alguém não fez o que devia ter feito no tempo certo, e agora está apelando pra magia do Google. Boa sorte, garoto (por que garotas não fazem esse tipo de baianada), por que aqui eu não vou te dizer como ele elaborou. Procura uma médium pra falar com ele que é mais garantido.

"DANE-SE E PALAVRAO?" - Adoro caps lock. Me lembro da Xuxa e seu jeitinho. Quando começaram a sacanear a filha dela no Twitter, ela mandou todo mundo se danar ou ir à merda? Ah, dane-se. Deixando as digressões de lado, posso dizer que quem quer que estivesse com esta dúvida mordaz não a esclareceu aqui no Espadachim Cego, apesar de eu ser quase PhD em palavrão (teria me dado bem na Marinha Mercante). Porém, como eu sou um inútil indivíduo muito curioso, pequisei a mesma bobagem no Google, e descobri esse amável texto aqui. Segundo ele, "dane-se" é o "foda-se" dos menores de idade e pessoas politicamente corretas. Contudo, se pensarmos que "danar-se" é ir queimar no fogo dos infernos, deveria ser uma das ofensas mais pesadas em nossa sociedade judaico-cristã.

Acham que este post acabou? Não, ainda não. Depois de duas ou três horas, chequei de novo o Bravenet onde, para minha surpresa, descobri novas pesquisas bizarras que trouxeram internautas para esta perdida ilha no meio dos interblags:


"definiçao de cortex pré frontal" - Pô, custava pegar um livro de anatomia na biblioteca pública e ler?

"quanto tempo dura uma massa de pastel" - Se a pessoa que digitou esta pesquisa estava pensando em fritar pastéis, deve ter desistido depois de ler o meu post relatando a minha aventura no mundo das frituras.

Por hoje é só, pessoal. Prometo que este será o último post a respeito de pesquisas bizarras do Google que vem parar aqui. A não ser que apareça alguma coisa muito, muito, muito medonha. Até mais.


PS.: Daniela Cicarelli pelada fazendo sexo. Vamos ver quantos vão cair aqui por causa dessa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Dia Que Me Caiu o Cu da Bunda

Pensemos metaforicamente. Imaginem que a Internet é um planeta, e o Google seu oceano. Agora, imaginem que, neste oceano, encontram-se muitos continentes e ilhas. Os continentes são, naturalmente, sites grandes e com grande número de acessos, como o G1 e o Kibe Loco, enquanto que as ilhas são os blogs pequenos e não tão visitados.

Seguindo esta lógica, o "Espadachim Cego" é a ilha de Lost. Não por que meus posts sejam todos a respeito de fumaças assassinas, escotilhas misteriosas ou ursos polares em regiões tropicais, mas por que visitante novo só aparece aqui depois de acidentes bizarros.

Faz algum tempo, eu instalei o contador de visitantes da Bravenet, para ver quantas pessoas apareciam na minha humilde  ilha. Originalmente, eram só os números  que me interessavan mesmo, mas descobri outros aplicativos da Bravenet bem mais fascinantes. Entre eles, o que mais se destaca é o "Recent Hits", que mostra como os visitantes vieram até aqui. Por exemplo, se você digitou o endereço no seu navegador, vai aparecer ali "Direct Hit"; se você clicou num link em outro site ou blog, o dito site/blog irá aparecer; ou ainda, se você navegou pelo Google, as palavras que você utilizou como parâmetro de busca serão mostradas.

E hoje eu descobri que alguém visitou o Espadachim Cego procurando por "TESTE CEGO DA FRUKI COLA".

Nem vou comentar o "kung fu cego"


Eu achava que já estava acostumado com as bizarrices. Sempre que eu verificava as últimas visitas, encontrava coisas do naipe de "como escrever um depoimento para mim mesmo" por pessoas que queriam afagar o próprio ego e acabavam caíndo em um texto meu que fora concebido originalmente para ficar no meu perfil do Orkut (sabendo que este post de agora em diante também será chamariz para estas pessoas, já aviso: não, não tem como escrever depoimentos para si próprio no Orkut, a não ser que você crie outro perfil e se adicione. Mas fazer isso é o fim da picada e de qualquer autoestima). Igualmente numerosos eram as pesquisas sobre Psicologia e livros obscuros, que para cá eram atraídas pelo meu gosto por estes dois assuntos e minha prolixa prolífica escrita.

Mas "TESTE CEGO DA FRUKI COLA" me fez cair o cu da bunda.

O que diabos este cidadão queria encontrar para usar estas palavras chave? Informações a respeito do rito de passagem de um clã de ninjas, onde o iniciado é obrigado a descobrir, com uma venda nos olhos, qual das Fruki Colas está envenenada? Ou o que ele procurava era um teste duplo cego entre o refrigerante de cola da Fruki e de outras marcas? Nunca saberemos ao certo. Mas, caso o indivíduo que empreende tão arrojada busca aqui voltar, deixo a seguinte dica: tem uma dissertação de mestrado em Administração na UNISINOS intitulada "Efeitos da sensibilidade ao preço sobre o valor de marca e na intenção de compra do consumidor", defendida em 2007. São uma 150 páginas, escritas de uma maneira muito, muito, muito chata, então vou te poupar o trabalho de ler tudo e resumir em uma frase: as pessoas compram a marca, e não o produto.

Pronto, fiz do mundo um lugar melhor, duas vezes até. Porém, fiquei agora com vontade de e

domingo, 20 de setembro de 2009

Revolução Farroupilha


Feliz 20 de setembro, dia que o Rio Grande do Sul inventou uma guerra contra o resto do Brasil, perdeu e disse que se rendeu pela paz! Aproveitem o feriado no domingo!

sábado, 19 de setembro de 2009

Vida Dura (Parte 26)

Há outra coisa no transporte público portoalegrense além da superlotação do D43 que me serve de pretexo pra fazer tempestade em copo d'água enche de horror: a BusTV. Se este ridículo nome, criado a partir da fusão das palavras "bus" e "TV", não foi óbvio o suficiente para você entender do que se trata, eu explico: são televisões dentro dos ônibus.

Praticamente todos os meus colegas de faculdade reclamam da programação da Rede Globo (e os que não fazem isso não assistem TV). No começo, eu pensava que era só empolamento de acadêmico, que acha que tudo no Brasil vai mal por que ele não é contatado pra arrumar as coisas, mas quando eu assisti "Fantástico" e "Caminho das Índias" depois de um jejum televisivo de quase um ano, fui obrigado a concordar. Os programas são feitos para retardados assistirem: superficiais, carnavalescamente coloridos e explicando até as vírgulas do que era dito, por que brasileiro é burro, e vai continuar burro com esse tratamento. Porém, meus amigos, quem critica a Globo certamente não anda de ônibus (o que não é uma má idéia), e não conhece a BusTV.

A programação da BusTV é ruim, muito ruim, tanto que me faz pensar que ela é montada por macacos com paralisia cerebral, por que só desta maneira seria possível escolher programas tão deploráveis. OK, talvez eu esteja sendo exagerado, mas só posso definir esse negócio como podre - são tomadas curtas que tentam imitar programas mais longos e atingir os mesmos resultados. Sem o menor sucesso, é claro. Poderia citar vários exemplos disto, mas minha memória é fraca e só lembro de dois. Esses dois, contudo, são para mim as cerejas do bolo: "Toque do Guru" e o Horóscopo. Que merdas fantásticas. O primeiro deve ser a realização do desejo reprimido de algum roteirista de escrever livros de auto-ajuda, dando conselhos profundos como um pires e cobertos de senso comum. O segundo é ainda melhor, por que, apesar de também dar conselhos profundos como um pires e cobertos de senso comum, ele faz de acordo com o signo das pessoas. Isto não significa que pessoas de Touro recebam conselhos diferentes das pessoas de Escorpião - a única diferença real é que se Peixes recebe o conselho de "Não faça nada que você possa se arrepender mais tarde" na terça, Aquário recebe na quarta. Só. E os conselhos são assim mesmo, puro senso comum. Se eu fosse um funcionário descontente da BusTV, eu certamente sabotaria esse quadro, e colocaria entre as pílulas diárias de sabedoria coisas como "pegue na minha e balance" ou "você é corno. Procure um terapeuta". Deixaria algumas senhoras de respeito escandalizadas e me tornaria simplesmente incapaz de arranjar qualquer emprego em Porto Alegre, mas valeria a pena. Há outros quadros que não são fixos (ou eu nunca vejo), mas que sempre me pegam num espírito de porco tal que, sempre que os vejo, preciso compartilhá-los com meus amigos por mensagem de celular. Se eu gostar de você e tiver seu telefone, você certamente receberá uma porcaria dessas (e vai me odiar por isso). Um deles é o "Recordes do Rio Grande do Sul", que compartilha com os passageiros do ônibus as coisas que o nosso amado estado tem de mais notável, como a maior cuia do mundo (4 metros de altura) e o maior arroz de leite do mundo (uma tonelada). É tão boboca e absurdo que eu quase tenho um surto psicótico de pensar nisso. Igualmente enlouquecedor é a sessão de piadas. Para sua decepção, não é o Ari  Toledo falando barbaridades a respeito das loiras ou dos papagaios, mas piadinhas família, que por serem limpas e comportadinhas, são completamente sem graça. Uma dessas ("O que o minhoco disse pra minhoca? Você minhoquece!") era tão ruim que o Marcelo me mandou tocar fogo no ônibus (é, eu tenho o celular dele, coitado). Por fim, digno de nota, foi no BusTV que eu descobri a existência de uma música chamada "Ur so Gay" (cujo clipe feito com barbies e uma letra bizarra é tão mesmerizante que eu deveria escrever um post só sobre como é a experiência de assisti-lo).

E tudo isso em câmera lenta. Sim, por que não basta fazer uma grade de programação só com lixo - ela tem que ser excruciantemente demorada, para te fazer sofrer todos os instantes dentro do coletivo. Aparentemente, os gorilas com paralisia cerebral além de tapados são lentos, então as legendas passam muito devagar. Assim sendo, para passar três horóscopos é necessário três paradas. E nesse tempo, meu cérebro morre um pouquinho, alguns milhões de neurônios de cada vez. Coloque-se no meu lugar, indo quase todas as manhãs de ônibus para o estágio, e quase todas as vezes sendo obrigado a assistir lavagens cerebrais em forma de dicas de guru e conselhos astrológicos. Até o final do curso eu vou estar no São Pedro, não como psicólogo, mas como um daqueles caras que anda pelado e carrega troncos de árvore de um lado para o outro! E isto não é um efeito colateral indesejável da BusTV: é tudo uma grande conspiração! Pesquisando no Google, encontrei um site listando todas as vantagens de anunciar pela BusTV. E não tenham dúvidas, meus amigos - eles querem conquistar o mundo. Vejam com seus próprios olhos:

Por que anunciar na BusTV?

* A 
BusTV conta com o apoio integral de instituições públicas e governamentais.

* A mensagem chegará de forma completa, sem interferência, sem efeito zapping.

* Atua em momento de pouca dispersão do usuário, o que permitirá maior fixação de seu produto na mente de seu consumidor.

* Entretenimento durante o tempo do percurso tornando a viagem mais agradável causando a sensação de menor tempo gasto.

* Fonte de informações úteis sobre assuntos de interesse público.

* Melhoria de visão que o usuário tem do transporte coletivo.

* Fidelização do usuário a uma programação atrativa procurando o seu bem estar psicológico.
 


Estão vendo? E o pior de tudo, meus amigos, é que isto não está acontecendo apenas em Porto Alegre, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza, além de Caxias do Sul e seus Visatões tocando funk sem parar! Estamos perdidos, resistence is futile! E além do mais, eu preciso ir pro estágio, então o que me resta fazer é pegar um livro e tentar (bastante) ignorar essas porcarias.

Esta quinta-feira, porém, no ônibus para o Campus do Vale, a programação foi um pouco diferente: uma tela preta, com palavras em vermelho dizendo "Signal Loss". E a paz esteve conosco.