domingo, 31 de agosto de 2008

A Faculdade, os Estágios e Tudo Mais

O ensino superior, e os cursos de graduação de forma especial, tem entre seus principais objetivos a formação de profissionais capacitados para o mercado de trabalho. Isto envolve muitos fatores, como o ambiente de ensino, a relação com os professores, a teoria ensinada, a perspectiva de emprego após a formatura e o que se faz nos estágios. Isso tudo acaba por formar um certo tipo de personalidade - estudantes de Engenharia tornam-se mais metódicos com o tempo, estudantes de Filosofia mais questionadores, estudantes de Geologia tornam-se mais maconheiros. Claro, poderia-se afirmar que os cursos, devido às suas estruturas, já atraem pessoas com estes traços de personalidade, mas acredito ser inegável que com o tempo eles são reforçados e aprofundados.

Isto acontece de forma ainda mais dramática na Psicologia. Para ser um psicólogo, é necessário primeiro desenvolver uma personalidade sintonizada com o campo de trabalho, para poder utilizar com sucesso as técnicas ensinadas durante o curso. Por isso, acredito ser especialmente crítico os locais onde nos formamos enquanto "seres-psicólogos". Há dois tipos principais de locais de formação: a instituição de ensino e os locais de estágio. Também poderia incluir nesta lista os "locais e/ou oportunidades de extensão" e "grupos de pesquisa", mas como estes dois últimos geralmente são muito parecidos com locais de estágio, ou são muito ligados à instituição de ensino, preferi não diferenciá-los, apesar de também considerá-los de extrema importância para a formação do profissional em Psicologia.

A instituição de ensino nos influencia desde o primeiro dia de aula, até mesmo desde antes, como foi meu caso. Estudo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das maiores e mais prestigiosas universidades do Brasil inteiro. Não acho que isto influencie positivamente na formação de melhores psicólogos, mas certamente forma um estilo de agir diferenciado. O Instituto de Psicologia onde estudo é relativamente isolado das demais unidades orgânicas (faculdades, institutos e escolas), mas é impossível fugirmos do fato de que estamos inseridos em uma universidade enorme e cheia de diferenças. Um bom exemplo disto é a maneira como o REUNI, projeto de expansão das universidades federais, leva estudantes de diversos cursos e campi a reunirem-se no DCE para discutir como ele está sendo implantado e quais serão as conseqüências futuras disto. Mas além disto e apesar de nosso relativo entrincheiramento, por estudarmos em uma universidade plural e gratuita, temos literalmente centenas de oportunidades para expandirmos nossas visões com pessoas de outros cursos e locais - seja fazendo eletivas no Campus do Vale, cursos de extensão no Campus Centro, ou simplesmente indo jogar sinuca no Diretório Acadêmico da Comunicação (DACOM) com os malucos do jornalismo. Certamente, uma pessoa que estuda na Universidade de Caxias do Sul (UCS) também tem muitas oportunidades de fazer coisas semelhantes, mas muitas destas serão mediadas e/ou atrapalhadas pelo fato da UCS ser um monstro parasita que suga dinheiro de seus alunos particular. Até é possível para um estudante de Psicologia fazer umas disciplinas da Biologia, só que daí sai mais caro, e não é muito convidativo. A Lady Hell não me deixa mentir quanto a isto.

As características do nossa unidade em particular também são de grande importância. No Instituto de Psicologia, recebemos uma formação teórico-filosófica muito mais sólida do que em muitas outras universidades, além de sermos enormemente incentivados a participarmos de pesquisas (talvez) inéditas e dos aspectos políticos e burocráticos de nossa formação. Eu, por exemplo, participo ativamente das políticas estudantis do Diretório Acadêmico de Psicologia (DAP), sendo membro da comissão responsável pela formulação e estruturação dos estágios curriculares e metendo o bedelho constantemente em assuntos diretamente relacionados com nossa formação, como qualidade das aulas e do material à nossa disposição, além de trabalhar como bolsista de Iniciação Científica do Laboratório de Fenomenologia Experimental, que lida majoritariamente com pesquisa básica (isto é, não aplicável diretamente a situações da vida real). Um exemplo de atividade de extensão em que participo é o projeto "Juventude em Cena", do qual sou monitor.

Todas estas experiências certamente marcam minha formação, e se alguma delas tivesse ocorrido de forma diferente, eu também seria diferente. Talvez muito diferente. Por exemplo, se ao invés de ter entrado na UFRGS, eu tivesse entrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), eu estaria envolvido por contingências sociais completamente diferentes: teria que pagar pela matrícula, seria um chinelão entre os ricaços, teria que pegar ônibus para ir e voltar das aulas, não teria conhecido as mesmas pessoas, estaria em uma instituição completamente diferente, e muitas outras coisas que sou incapaz de enumerar aqui. Outro bom exemplo é o ano de meu ingresso: entrei em 2007. Se tivesse entrado em 2006, eu seria colega direto do Bruno e do Marcelo, estudaria o currículo antigo e provavelmente teria me incomodado com o processo de reforma curricular. Da mesma forma que se tivesse ingressado em 2008, eu estaria muito mais tranqüilo, pois haveria à minha frente a turma de 2007 se ferrando (muito mais) com os imprevisíveis ajustes curriculares.

Bem, acho que estou fazendo digressões demais. O que quero dizer de fato é que, a mudança de um fator me tornará um estudante diferente, e no futuro, um psicólogo diferente. E para piorar a situação, sou incapaz de prever quão diferente serei, pois não posso executar um "programa de simulação profissional", que reuna todas as variáveis envolvidas, faça alguns cálculos e me apresente resultados sobre minha personalidade futura. Devo fazer a disciplina eletiva de Análise Experimental do Comportamento ou Pesquisa em Psicanálise? Dou preferência para os textos de Avaliação Psicológica ou Psicopatologia II? E aqui, chego no ponto que me levou a escrever tudo isto: e estágio, onde eu faço?

Os estágios influenciam nossa maneira de agir tanto quanto a instituição de ensino em si, mas de uma maneira qualitativamente diferente, pois, ao contrário da universidade, que é predominantemente teórica e envolta em uma "bolha asseptica" (há quem diga que é uma torre de marfim), nos estágios somos jogados no meio da sujeira da vida real, prática, onde os livros são de pouca ou nenhuma valia para nós. Talvez meu professor de Filosofia fique impressionado com o fato de eu ter lido "O Ser e o Nada" inteiro (não, eu não li nada), mas o médico que manda em mim no meu estágio no Hospital de Clínicas só vai achar isto interessante na medida que servir para alguma coisa, como varrer o chão ou fazer aquele pirralho chato parar de chorar. OK, estou exagerando um pouco, e tecendo muitas fantasias, pois nem comecei a fazer estágio ainda. Mas acho que não estou tão longe da realidade aqui.

Acho que a influência dos estágios também é mais crítica que a maior parte de nossas horas/aula por que, além de serem predominantemente práticos e realistas, nós escolhemos onde vamos fazê-los. Melhor dizendo, escolhemos onde queremos competir por uma vaga como estagiário, pois, excetuando o fato de que não somos pagos e não sabemos nada, é um trabalho como qualquer outro. Mesmo em um mundo ideal, onde pudéssemos estagiar no local que mais nos agrada, teríamos que escolhê-lo, e renunciar a todos os outros possíveis locais. Um local de estágio é, de certa forma, uma microcultura, com suas práticas, piadas internas e gírias, e é muito provavelmente irrepetível. O Marcelo esses dias me falou como há um cachimbo de crack pendurado na parede do seu posto de saúde, e que os residentes de Medicina com quem ele trabalha chamam bebês com menos de 1kg de "abortinhos"; o Bruno me falou como todos os estagiários do ambulatório onde ele trabalha podem prescrever receitas médicas; e eu mesmo poderia escrever um post inteiro sobre como eu fiquei rindo com meus "empregadores" na entrevista de seleção para bolsista e das minhas tentativas de fazer com que uma guria pare de chutar os outros no Juventude em Cena. As combinações de variáveis envolvidas em cada uma destas situações são únicas, e apresentam forças e fraquezas próprias. Não posso mudar o que já se passou comigo, e acho que mesmo se pudesse não o faria. Contudo, sou levado a pensar: onde devo fazer meus estágios curriculares?

Antes de tentar responder esta pergunta, devo dizer que não sei nem mesmo COMO serão meus estágios, burocraticamente falando. Teoricamente, eu já deveria estar fazendo o Estágio Básico I, que seria uma introdução ao campo de trabalho, mas isto foi adiado para o próximo semestre, pois não se sabia como esta introdução seria feita - e ainda não se sabe. Mais para o final do curso, terei que fazer os estágios de ênfase. Estes, apesar de já serem um pouco mais estruturados por "canibalizarem" os estágios curriculares do antigo testamento currículo, serão provavelmente muito modificados, graças à uma resolução do Conselho Nacional de Educação, que corta o número de horas de estágio do nosso currículo em praticamente dois terços. Assim, qualquer coisa que falar aqui pode mudar de uma hora para a outra. Isso dá um sabor de aventura para a faculdade, mas não deixa de ser uma bela merda também quando se quer predizer qualquer coisa a nosso respeito. Outra coisa que torna meu exercício de olhar no futuro um tanto quanto inconsistente é o fato de conhecer poucos locais onde o pessoal faz estágio. Ainda assim, falarei o que sei a respeito deles, e o que os torna atraentes ou não para um futuro estagiário como eu.

O local de estágio mais clássico para estudantes de Psicologia de Porto Alegre é o Hospital Psiquiátrico São Pedro, vulgo "Glorioso" (porra nenhuma). É cheio de história, coisas por fazer e internos que provavelmente morrerão ali dentro, além de ser um prédio absolutamenta pavoroso para se andar à noite. O que não me atraí nele é o fato dele estar intimamente ligado aos Departamentos de Psicanálise e Psicopatologia e de Psicologia Social e Institucional. Ou seja: é um antro de psicanalistas e esquizoanalistas.

Outro local de estágio clássico para os estudantes do Campus Saúde é o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o maior da rede pública municipal (não sei se esta afirmação é correta por fazer parte da autarquia federal que é a UFRGS). Devem existir muitas seções, departamentos e serviços interessantes para conhecer ali dentro - o que um estagiário poderia muito bem fazer - mas dois chamam minha atenção mais fortemente: o Serviço de Psiquiatria e o Serviço de Neuropsicologia. O primeiro por ser, sem exagero, um importante centro mundial de pesquisas em saúde mental, e o segundo por ser oferecido explicitamente como local de estágio para nós, e uma inesgotável fonte de interesse para mim. Contudo, o HCPA me parece um pouco menos atraente justamente por ser parte da UFRGS e provavelmente compartilhar de seu modo de pensar. Claro, não há só psicólogos por lá, como também enfermeiros, nutricionistas, (principalmente) médicos, farmacêuticos e muitos outros tipos de profissionais que sou preguiçoso demais para ficar imaginando (terapeuta floral não deve ter). Isto certamente deve dar ao HCPA um clima mais pragmático e aberto, mas posso estar muito enganado. Seria um local perto de casa, pelo menos.

As duas "cerejas do bolo" são o Instituto Psiquiátrico Forense (IPF) e o ambulatório coordenado pelo meu professor de Genética, o Renato Flores. Acho o IPF altamente interessante justamente por não ser uma instituição de saúde mental, mas um presídio para criminosos que foram consideradospsicologicamente deficitários ou doentes, mas ainda perigosos demais para um hospital geral ou psiquiátrico. Em outras palavras, loucos perigosos. OK, talvez não, mas com certeza meu pai vai ter um treco quando ler que eu cogito pleitear uma vaga de estágio num local cheio de assassinos mais mentalmente instáveis do que assassinos costumam ser. O IPF tem dois problemas em potencial: o primeiro deles é que não sei se vou me relacionar com os internos ou ficar só cuidando da papelada para os psiquiatras. Acho que é óbvio que, se quero voluntariamente estagiar em um local cheio de loucos ditos perigosos, não é pra cuidar da burocracia. Saber se este problema é real ou não é fácil, pois uma veterana minha já está fazendo estágio lá, e basta perguntar para ela qual o trabalho de estagiário por lá. O segundo problema é mais complicado: por questões burocráticas, talvez a vaga no local cesse de existir. Como não tenho informações mais precisas a respeito disto, prefiro não fazer nenhum comentário.

O ambulatório do Renato Flores localiza-se no Campus do Vale, anexo ao prédio do Departamento de Genética, e atende basicamente casos de violência e doenças genéticas. Só isto já seria o bastante para despertar meu interesse, mas o fato dele ser cordenado pelo Renato Flores o torna fascinante. Não que o Flores seja bonito ou algo assim. Beeem pelo contrário. Mas a personalidade dele lembra muito a do Dr. House. Ele tem um advogado à disposição do ambulatório, e o último e-mail que recebi do professor sobre as aulas de genética terminavam com a frase "Nós vamos acompanhar a situação e , caso não ganhe a cadeira vamos entra na justiça para defender o direito do guri". CA-RA-LHO. Só pode ser empolgante trabalhar num lugar assim. Mas talvez eu esteja idealizando, e seja tudo uma bela merda (o Bruno provavelmente poderia me esclarecer este fato, e na verdade, já esclareceu essa semana, quando me disse que começou a receber casos cada vez mais escabrosos. E "escabroso" no meu léxico é sinônimo de "foda" e "divertido"). Virtualmente, é um local de estágio perfeito, excetuando-se o fato de estar encravado no meio do território da UFRGS, e, talvez esteja impregnado demais com a "Urguianidade" que me cerca no Instituto de Psicologia (se bem que deve ser difícil).

Também existe a possibilidade de fazer estágio em uma das muitas clínicas psicológicas particulares espalhadas pela cidade, como o Instituto Delphos de Psicologia Humanista, o Instituto Wilfred Bion de Psicanálise e a Clínica WP, só para ficar nas que eu lembrei agora. Eu provavelmente entraria em contato com muitas pessoas diferentes e exerceria o papel de psicoterapeuta, o que já é interessante em si, mas não veria muito mais do que isto. Em outras palavras, seria uma experiência pobre em estímulos distintos, e um hiperativo como eu quer novidades.

Por fim, o último local de estágio que consigo pensar são os postos de saúde. O Marcelo estagia num desses. Não me parecem ser especialmente interessantes, simplesmente por serem comuns e com poucos atrativos. Metaforicamente, se eu fosse uma criança, o IPF ou o ambulatório do Renato Flores seriam uma loja de doces e um parque de diversões, enquanto o posto de saúde seria uma biblioteca. Obviamente a loja de doces (com cartão) e o parque de diversões são muito mais atraentes e encerram muitas possibilidades em si mesmas. Mas isto não significa que eu não possa aprender muito mais na biblioteca se eu me aplicar para tanto. Claro, quem me conhece atualmente com certeza diria que eu preferiria os livros aos doces e aos brinquedos, mas não sou capaz de dizer se um possível estágio em posto de saúde seria tão positivo quanto imagino que os outros dois locais seriam. O Marcelo me relata casos interessantes que ele vê lá, e discussões com os residentes de Medicina que não encontram igual em nenhum outro lugar da UFRGS, quiçá de Porto Alegre. Pode ser que eu acabe num destes, e goste muito da experiência. Sei lá.

Colegas que leram este post, especialmente vocês dois que eu citei ad nauseam, deixem seus comentários a respeito do que disse aqui, especialmente se vocês discordarem de algo!

3 comentários:

Lady Hell disse...

Eu ainda acho que tu deve ir na loja de doces o.o

Pelo menos eu iria. E parece que na Psicologia, quanto mais bizarro, melhor.

E realmente, a UCS não suga só tempo como grana também e vai me fazer me formar depois de todos vocês. Mas que se foda, huehuehue, vou aproveitar tudo que eu puder até lá.

Andarilho disse...

Lady, tu pegou o espírito da coisa: quanto mais bizarro, melhor e mais divertido. Mas isto só acontece com monstros como eu e os indivíduos citados ao longo do texto. Grande parte do pessoal que faz Psicologia é mais feijão-com-arroz mesmo, e quer trabalhar só com clínica ou em empresas.

Bruno Graebin de Farias disse...

éééeééééé!!!!!!!!!
abaixo os trabalhos bundões em psicologia!!!!

eu particularmente, só gosto de problemas hardcore e com um conteúdo político e social bastante forte. e que sejam difíceis e que ninguém sabe como agir. no mínimo, crianças mal-comportados no colégio. no futuro, atenderei psicopatas monstruosos e travarei guerras tribais. acho um desperdício de nossas próprias habilidades gastarmos tempo tratando pequenas neuroses ou disfunções sexuais, que a pessoa resolve de forma muito mais barata e eficiente comendo masi amendoim ou lendo um livro decente.


OK. Agora a parte séria. Realmente, os estágios eles são absolutamente cruciais pra nossa formação, e vão ajudar a cosntruir as pedras qeu muito provavelmente serão fundamentais em toda a nossa carreira. Aprendemos coisas bastante específicos e nos moldamos às instituições. Por isso a escolha tem qeu ser muito bem feita.
Uma das primeiras coisas que pensei para escolher meus estágios foi: 'o que quero aprender?'. Contato com a psicopatologia, trabalho em equipe, transdisciplinaridade, psicofarmologia, manejo de surtos, escuta clínica, o que seja. Também é importante pensar qual o serviço que lhe dá mais noção política e do sistema no qual estamos inseridos(saúde, jurídico, constitucional, escolar...), porque essa visão global nos ajuda a construir um quadro da psicologia no mundo.
Também é importane que esse serviço dê liberdade. Não adianta muito ser um lugar renomado, com casos muito interessantes, se tu não pode fazer nada. Aprender a ficar sentado olhando prejudica demais a nossa formação.
O último dos pontos importantes que eu levei em consideração foi a importância social do serviço, e como eu poderia contribuir para isso. O que significa escolher a proposta que tenha a ver comigo. Reforma Psiquiátrica, Direitos da Criança e do Adolescente, Não-violência, etc... Assim, saíram das minhas opções aquelas instituições retrógradas que sabemos bem quais são.

Tem também os critérios de chinelão: ser perto de casa, horários flexíveis, equipe amigona...

Ah, uma última coisa: é horrível ser o único estagiário no local. Tente cooptar um colega para ser teu comparsa.