segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ensaios Evitativos - O Telefone e o Paciente

Em Psicologia, é considerado prática antiética falar sobre os seus pacientes para pessoas não envolvidas no caso. Por exemplo, vocês nunca vão me ver falando de um paciente específico aqui no blog, a não ser de uma maneira muito vaga e genérica, para que se torne impossível dele ser identificado por qualquer um que não seja o House. Assim sendo, podemos falar de nossa vida profissional, contanto que não envolvamos aqueles que atendemos.

Eu enrolei um parágrafo inteiro só pra dizer que eu detesto ter que ligar pra paciente que faltou atendimento.

Convenhamos, é um saco. Primeiro, por que eu atendo de graça, já que meu estágio é uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Hoje eu sou bolsista e ganho 360 reais para trabalhar aqui (apesar da UFRGS só ter depositado 204 reais na minha conta esse mês), mas eu trabalhei um ano aqui inteiramente no amor à camiseta. É uma sacanagem ter consulta grátis e não aparecer. Segundo, eu não gosto de telefones. Toda a situação de telefonar para alguém é bastante desconfortável, e esse desconforto só piora quando o telefonema envolve algum tipo de cobrança. A tudo isto, adicione o fato que, no meu caso, muitas vezes o número telefônico que eu tenho para chamar meus pacientes não é dos pacientes propriamente ditos, e sim de alguém que por acaso mora ou trabalha num raio de 4km da casa do dito paciente. Então, conversas do seguinte tipo são bastante comuns:

Eu- Oi, bom dia, meu nome é Andarilho, eu sou estagiário aqui do Ambulatório da UFRGS, e eu gostaria de falar com a Josmarie*.
Outro- Quem? Não tem ninguém aqui com esse nome. O senhor se enganou!
Eu- O telefone aí por acaso é XYZW-XXYW?
Outro- Sim, é esse mesmo, mas o senhor se enganou!
Eu- Não, eu não me enganei. Não tem ninguém que more aí perto que se chame Josmarie?
Outro- Aaah! Tem a Josita, que trabalha comigo aqui na loja, mas ela mora na outra rua e hoje ela não tá em casa.
Eu- Ai que orgásmico.
Outro- O senhor falou alguma coisa, moço?
Eu- Não, nada. Quando que eu posso ligar de novo?

Em suma, bastante complicado. Para ser sincero, este tipo de diálogo saído de uma esquete do Monty Python é relativamente rara. O que é mais comum, contudo, são as conversas altamente desconfortáveis, daquelas que algum personagem de "Friends" chamaria de "Awkward", como esta:

Eu- Oi, é da casa do Robertvaldson*?
Outro- Aqui é a mãe dele, quem gostaria?
Eu- Bom, meu nome é Andarilho, e eu sou estagiário lá na UFRGS. Eu estou atendendo o Robertvaldson, mas ele faltou a última consulta. O que aconteceu?
Outro- Ah doutor, é que a gente decidiu não ir mais.
Eu- (levemente irritado e surpreso) Como é que é?
Outro- Assim doutor, ele não gostou muito de falar sobre as notas dele no colégio com o senhor, daí a gente achou que era melhor ele não ir mais.
Eu- (tentando manter a civilidade) Ele, não, gostou... de falar das notas dele no colégio, é isso mesmo que eu ouvi?
Outro- É doutor.
Eu- Ele está quase rodando na escola, correto?
Outro- Sim doutor, mas...
Eu- (psicopata) E nós mal estamos na metade de maio, certo?
Outro- Sim, só que...
Eu- (com sede de sangue) E ele não quer mais vir para os atendimentos por isso, e a SENHORA deixa, não?
Outro- Sim, mas tem que ver doutor que...
Eu- O que que o Conselho Tutelar acha disso?
Outro- Não sei.
Eu- Pois eu vou descobrir pessoalmente. Bom dia.
*tuu tuu tuu tuu*

Nunca aconteceu nada exatamente assim comigo, porém eu já fui confrontado com questão parecida. E isto me leva ao terceiro ponto que me irrita em fazer telefonemas para pacientes: eu detesto confrontamento, e em muitos casos, não tenho coragem de dar a cara à tapa por que "vai ficar chato". Não vou dar mais detalhes a respeito do caso, mas eu já tive (pai de) paciente que decidiu interromper tratamento por que não gostou de algo que eu disse, e eu só não acionei o Conselho Tutelar por que a coisa não ia ser nada bonita para ninguém. Isso, e por que ia ficar chato.

Escrevi este texto inteiro pra dizer que eu não gosto de ligar pra paciente, por que aqui do meu lado tenho uma folha com nome e telefone de alguns casos que precisam ser retomados, e eu não estou nem um pouco a fim de fazer isto. Porém, eu preciso, e talvez escrever aqui me ajude a parar de enrolar e encarar este fato da vida.




* Nome fictício mas muito verossímil.

4 comentários:

Lizandra disse...

caro andarilho,
também não gostava nem um pouco de ligar pra paciente, mas era o jeito! concordo plenamente contigo, é de graça e o pessoal ainda desiste?!
e aqui na minha universidade ainda tinha mais um problema, a estadual aqui de teresina não tinha e ainda não tem uma clinica escola, então eu estagiei na raça em um lugar que não tinha ninguém pra intermediar o contato com o paciente, imagina aí, primeiros atendimentos e a marcação de consulta, triagem e atendimento eram diretamente comigo.
aja crédito de celular.
um grande abraço e boa sorte.

Andarilho disse...

Pois é, eu sei que é o jeito, mas meu comportamento evitativo é reforçado pelo fato de nós termos uma secretária que faz os contatos por nós (e me fez finalmente entender por que existe curso de Secretariado - próximo passo: descobrir pra que serve Arquivologia!). Só que, como ela está no oitavo mês de gravidez, daqui a pouco ela sai em licença maternidade e eu mesmo vou ter que telefonar. Agradeço o apoio - vou telefonar para o maior número possível de pacientes antes dela sair em "férias mamãe" :)

barbara schneider disse...

vou tentar te ajudar a encarar a vida.

PORRA MEU! É PAI DELE! TU NÃO QUE DECIDIR O QUE É MELHOR PRA ELE, "MELHOR" DO QUE O PAI DELE, NÉ, MEU?!!!!!

QUE PORRA!








ahuahuahauhauhauahuahuaha!

abraço!

Pri Zorzi disse...

Cara, impossível não me identificar com teu texto quando a primeira coisa que eu pensei quando acabei o estágio na Clínica foi "ótimo, agora não preciso mais ligar pra ninguém". E era paciente, era futuro terapeuta, velho terapeuta, supervisor... Todos os contatos a gente que fazia.

Telefones são um saco, mais ainda com "estranhos". E a coisa piora se tu sabes que, bem ou mal, precisas medir as palavras a serem usadas porque aquela ligaçãozinha ali também faz parte da relação terapêutica.

(talvez fosse por isso que eu nunca quis ligar para um paciente usando pijamas)