quarta-feira, 16 de julho de 2008

Fenomenologia do Porre

Estou bêbado. Na verdade, o mais exato seria dizer que estava bêbado cinco minutos atrás, se bem que ainda sinto os efeitos da bebida no meu corpo. Mas isso não importa.

Acabo de voltar de uma pequena confraternização com meus colegas, onde rolou uma pequena janta de sushi. Enquanto a comida não ficava pronta, passava de mão em mão um copo improvisado de caipirinha, feita pelo sr. Fábio Culau. Caipirinha, para os desavisados que moram no exterior ou em uma caverna no Brasil, é um drinque preparado com cachaça ou vodka, açúcar, gelo e limão. É docinha, portanto. Não estou acostumado a ingerir bebidas alcoólicas, o que significa que preciso de muito pouco para ficar alegre. Eu gosto de bebidas doces, caipirinha é doce, bebi caipirinha, fiquei bêbado. Foi um processo simples, rápido e indolor - nem notei quando fiquei alegre. Devido ao caráter extraordinário do meu porre, decidi fazer uma análise fenomenológica da situação, e descrever as sensações internas causadas pela "marvada".

O corpo foi o primeiro a sentir os efeitos do álcool. Sóbrio, tenho um senso espacial e de equilíbrio acima da média populacional, bem abaixo dos mestres, mas ainda acima da média. Isso foi perdido em parte depois de quatro ou cinco goles de caipirinha. Ao fazer a famosa pose de 4 (manter-se em pé sobre apenas uma perna, enquanto a outra fica cruzada na altura do joelho), meus pés se moviam e se deslocavam no chão para melhor me sustentar. Se estivesse sóbrio, ficaria completamente parado, imóvel. Buscando testar ainda mais meus limites, tentei efetuar um chute de Wushu um pouco mais complexo, e só consegui fazê-lo depois da terceira tentativa frustrada: a perna escapava do lugar, me desequilibrava quando voltava à base inicial. Quando caminhava, sentia o chão um tanto quanto distante, como se houvesse uma camada de ar entre meus pés e o piso. Na verdade há uma camada de ar entre meus pés e o piso, por fina que seja, mas a sensação que tinha era que flutuava levemente acima do chão. Apesar da minha coordenação geral ter sido prejudicada, aparentemente minha coordenação motora fina foi beneficiada pelo álcool, pois pela primeira vez em minha vida consegui segurar os palitinhos de comer sushi e pegar comida com eles ao mesmo tempo. É questionável se consegui fazer isso por causa da bebida ou apesar dela, mas não vou entrar em detalhes.

Os efeitos do trago na minha mente foram mais elusivos. Como bom bebum, fiquei mais expansivo e loquaz, além de mais propenso a falar bobagens e rir de coisas sem graça. Contudo, percebi uma notável dissociação mental - ao passo que uma parte de mim ria e fazia besteiras, outra parte de mim ficava acima de tudo, apenas observando, intervindo em meus comportamentos apenas quando necessário. Esta mente superior estava no controle de tudo, e não parecia ser afetada em nada pelo álcool. De fato, foi ela quem teve a idéia de escrever um post para o blog falando da minha experiência alcoólista e, aparentemente, é ela quem está movendo meus dedos pelo teclado, pois não estou cometendo mais erros de digitação do que de costume. Dizer que há duas mentes distintas agindo ao mesmo tempo sobre o mesmo corpo é inexato e até mesmo contraproducente em termos científicos, apesar de prático para fins de comunicação. Uma metáfora melhor para o que estou experienciando seria, talvez, de uma empresa dividida em departamentos: é a mesma empresa, parte do mesmo corpo, mas enquanto um departamento sai de férias, o outro continua trabalhando e sustentando a firma. Ainda é uma metáfora ruim, mas agora eu posso, pela primeira vez na minha vida, por a culpa na bebida.

Sinto também uma leve desorientação espacial, a "tonturinha". Não gosto muito pensar que se precisar correr ou brigar eu começarei em desvantagem, mas é uma sensação bem agradável, e entendo por que tanta gente goste tanto de beber. O álcool solta a língua e o corpo, e, até um certo ponto, nos torna mais verdadeiros e honestos, com o mundo e com nós mesmos, e pode até ajudar-nos a atingir níveis mais elevados de consciência se bem utilizado. Contudo, o risco de perder este objetivo a longo prazo pelo prazer imediato da desorientação e do esquecimento momentâneo do pudor e dos problemas, e tornar a pessoa ainda mais inconsciente e perdida no abismo que é este mundo. Na primeira vez que fiquei "alegre" deste jeito, em um Psico 8 e 1/2 do ano passado, decidi que seria espontâneo e verdadeiro como um bêbado, mesmo que sóbrio. Obviamente, isto não é possível de ser posto em prática logo de cara, sendo mais um ideal a ser buscado do que uma meta propriamente dita. Este ideal foi renovado hoje, mas com a ressalva de não cair ainda mais profundamente na inconsciência.

Se eu ficar de ressaca, talvez escreva alguma coisa para reclamar da dor de cabeça. Ou simplesmente fique tomando água e café pra passar.

Um comentário:

marceloduarte disse...

Ainda que seja um fenômeno mais difícil entre os obsessivos, fazer ambos os departamentos da empresa saírem de férias ao mesmo tempo é possível com a ingestão de cachaça pantaneira.