sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Minhas Aulas na Faculdade (Parte 12)

Quinto Semestre

Disciplinas Obrigatórias

Chamei uma vez o currículo da Psicologia de “espiral descendente de coco”: todo semestre piora. Esse semestre não poderia ser diferente. Com a exceção do estágio básico, que vai nos possibilitar pôr a mão na massa e salvar nossas vidas de mais teorizações intermináveis, não há muita esperança. Já nem me importo mais. É como se eu estivesse perdido no meio da selva, e tudo que restasse fazer fosse caminhar para frente até encontrar minha salvação, um ponto de referência que me tirasse daquela situação. Estou já no quinto semestre, a exata metade do curso, e de agora em diante, há menos pela frente do que já superei. Now, I soldier on, até a formatura.

Avaliação Psicológica II
Preview:
Continuação de Avaliação Psicológica I, só que sobre testes de personalidade ao invés de testes de inteligência. Testes de personalidade são mais úteis e versáteis que testes de inteligência, apesar de mais bagunçados, além de me parecerem mais interessantes. Contudo, não tenho expectativas muito altas a respeito da didática das aulas, que provavelmente serão tão sonolentas quanto as do semestre passado.

Método Clínico e Diagnóstico I
Preview:
Antigamente conhecida pelo charmoso nome de MEDEP (seja lá por que motivo), e, por ser uma cadeira de clínica, pertence ao departamento de psicanálise. Até o ano passado, quem dava esta aula era um professor conhecido por sua excelência, tanto didática quanto clínica, e no ano passado, foi um professor substituto que fez tanto sucesso que foi escolhido paraninfo dos formandos deste ano (fez um discurso de merda, mas isso não vem ao caso agora). Seria algo animador pensar que teríamos aula com pelo menos um destes dois indivíduos, mas não teremos: o professor titular vai fazer um pós-doutorado na França (típico de psicanalista) e o contrato do professor substituto expirou. Ficamos, então, na expectativa de quem nos dará aula, e as perspectivas são ruins. Sempre esperamos pelo pior.

Psicofarmacologia
Preview:
Um pontinho brilhante na escuridão. Meus veteranos elogiaram bastante esta disciplina, dizendo que o professor é muito bom, tanto didática quanto teoricamente. Vai ser uma cadeira exigente, que provavelmente vai me forçar a lembrar de Neuroanatomia e Neurofisiologia, o que, apesar de ser complicado, não é de todo mal.

Seminário de Métodos e Práticas Profissionais
Preview:
Não importa quão ruim as disciplinas de um semestre podem ser, os seminários sempre conseguem ser as piores aulas de todas, pois é a única cadeira em que nem os professores, nem os alunos sabem o que deveria estar acontecendo. O seminário do primeiro semestre era para integrar as diversas questões e correntes teóricas que estávamos vendo – não funcionou. O seminário do segundo semestre era para integrar nossas práticas de pesquisa – acabou virando a aula de fazer relatório bobo (a parte do “bobo” eu fiz com gosto). E agora, vem esse seminário, que pretende integrar os métodos e práticas profissionais de todos nós. Talvez agora a coisa deslanche, mas a experiência diz o contrário.

Estágio Básico I
Preview:
A boa notícia das disciplinas obrigatórias. Essa realmente vai ser legal – e se não for, eu vou fazer com que seja na marra.

Creio que fui negativista demais nas minhas previsões. Talvez depois de dois anos de aulas com psicanalistas eu tenha desenvolvido o gosto por ver o pior de tudo (coisa em que eles são mestres), e isso acabe influenciando na maneira como vivencio as disciplinas. Apesar de ter feito as piores previsões possíveis, eu realmente não quero que elas se concretizem. Aliás, com a exceção das aulas que espero serem boas, espero estar errado a respeito de todas elas. É meio ingênuo nessa altura do curso pensar que isso realmente vai acontecer, mas não sonhar não custa.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Minhas Aulas na Faculdade (Parte 11)

Quarto Semestre

Bom, já fazem três meses desde que o quarto semestre já acabou, e eu ainda não fiz a minha costumeira avaliação das disciplinas. Quase nem lembro delas, para ser franco, e isso parece ser um marco do quarto semestre: ostracismo. Muito pouca coisa das aulas me marcou de fato, pelo menos no que se refere às disciplinas obrigatórias. Pouco a pouco, fui abandonando as aulas, deixando elas de lado e me preocupando com outras coisas mais interessantes. Só não parei em absoluto de comparecer às aulas por que, a Psicologia da UFRGS é molenga e permissiva, mas não dá para abusar e rodar por falta à toa. Fiquei ali, quase no limite do intolerável. Questiono-me agora até que ponto isso valeu a pena, mas detalharei isso melhor por disciplina.

Avaliação Psicológica I – obrigatória
Overview:
Uma dessas disciplinas cujo conteúdo é extremamente importante, mas a forma como ele é dado deixa a desejar. Estaria sendo injusto se responsabilizasse apenas os professores por causa disso – faltei muitas aulas, e nas poucas que eu fui, prestei pouca atenção – mas não sei se há uma maneira realmente eficaz e envolvente de ensinar Psicometria. Arrependo-me um pouco por ter sido displicente com essa cadeira, mas acho que vou aprender mais sobre avaliação psicológica na prática, aplicando os testes para valer e entrevistando pessoas.

Método de avaliação:
Uma prova e um trabalho. A prova foi uma coisinha ridícula, pois fazem 10 anos que o professor usa a mesma. Pisei na bola por tentar estudar demais pelo livro e por não ter decorado as respostas do gabarito. Fui bem de qualquer forma, mas como as notas foram atribuídas por curva normal (mais ou menos como no vestibular, se a média de acertos é baixa, quem acerta um pouco mais vai bem melhor, mas se a média é alta, quem erra um pouco menos é prejudicado), acabei tirando só um B. Quanto ao trabalho, ele foi realmente interessante, pois tivemos que aplicar testes de verdade e realizar uma anamnese com alguém, e isso realmente valeu a pena. Contudo, o trabalho escrito foi chatinho de fazer, mas isso já é meio intrínseco a ele, pois era, no final das contas, um parecer psicológico, e pareceres não são conhecidos por sua riqueza literária.

Psicologia e Educação - Obrigatória
Overview:
Olha, essa cadeira foi uma excelente surpresa. No começo do semestre, não esperava que fosse ser muito melhor do que as disciplinas anteriores do Departamento de Psicologia Social – achei que ia ser a mesma dobradinha de papo furado sobre subjetividade e trabalhos idiotas que não acrescentam nada. Mas foi bem mais do que isso. O assunto é realmente interessante, e a professora fez com que ele não se estragasse, mas ficasse mais interessante ainda, além de ser ela mesma um exemplo de didática e dedicação. Às vezes as aulas ficavam “discutidas” e “desconstrutoras” demais, e mais para o final do semestre, eu fui ficando cada vez mais distante, indo menos nas aulas e participando menos quando presente. Realmente me arrependo disso.

Método de avaliação:
Dois trabalhos e participação em aula. O primeiro trabalho consistia em uma apresentação para a turma e um trabalho escrito em grupo, enquanto que o segundo era um ensaio crítico sobre os textos lidos em aula. Os critérios utilizados foram claros e bem aplicados. Quanto à participação em aula, foi um método de avaliação interessante, pois, na última aula do ano, ela discutiu pessoalmente com cada um de nós qual nota achávamos que merecíamos, e dizia se ela concordava com isso ou não. Ela é bastante honesta nisso. No meu caso, recebi menos nota do que eu originalmente achava merecer, mas diante da metodologia honesta e direta dela, acabei achando que a nota foi muito justa.

Psicopatologia II - Obrigatória
Overview:
A mesma coisa que Psicopatologia I. As aulas não acrescentaram nada de relevante à minha formação, exceto a possibilidade de fazer piadas sobre “André, o pervertido que gostava de chupar homem sujo” que foi o estudo de caso preferido da professora, que o citava sempre (semestre passado era o Jeremias). Bom, não é de surpreender, considerando que a linha de pesquisa da professora é a psicopatologia dos personagens literários. Isso realmente dá crédito para uma instituição de ensino de excelência.

Método de avaliação:
Três trabalhos, um sobre perversão, outro sobre neurose e um terceiro, metido no final do semestre sabe-se lá por que, sobre qualquer coisa. Meu trabalho de perversão ficou OK, e esse último trabalho sem sentido, nem entreguei (e fico muito feliz de assim ter procedido). Meu trabalho de neurose, contudo, ficou uma obra-prima – duvido que alguém no Brasil tenha feito qualquer coisa sobre este assunto com a mesma profundidade e criatividade que eu. OK, chega de acariciar meu pobre ego que tanto quero morto. Contudo, como eu já imaginava, a professora não soube ver estas qualidades do meu trabalho, e para variar, tirei B novamente. Pelo menos já não me importo com isto.

Ética – Obrigatória
Overview:
Cadeira que, pra mim, não fede nem cheira. Teve bons momentos, e no começo do semestre eu estava inspirado para as discussões, mas conforme fomos avançando, as aulas foram ficando mais repetitivas e eu com menos paciência, e então parei de me importar muito (só o suficiente para passar).

Método de avaliação:
Três trabalhos: uma apresentação em grupo, um ensaio livre e um trabalho menor sobre casos éticos verdadeiros. Nossa apresentação sobre psicoterapia e serviços de Psicologia pela internet foi OK, assim como os outros dois trabalhos também. Aliás, acho que meu problema foi esse: estava tudo OK, mas não estava lá muito bom. O ensaio livre, que é meu território por excelência (porra, esse blog tá cheio deles!), ficou meia boca por ter sido feito na pressão de ter que ser bom (e por ter sido escrito em cima da hora).

Genética para a Psicologia – Eletiva
Overview:
Melhor disciplina do semestre, sem a menor sombra de dúvida. O nome da cadeira pode parecer meio árido, mas o professor vai muito além da genética propriamente dita, e abarca neurociências, filosofia da ciência, evolucionismo e muitas intersecções possíveis entre estes assuntos, todos do meu interesse. Talvez outro colega meu, mais “teatro subjetividade”, chegado em Deleuze, Guattari e Lacan não curtisse muito a proposta da disciplina, nem a atitude do professor, que adora uma polêmica, mas outro amolador de facas certamente se beneficiaria e se divertiria. Aliás, é justamente a posição debochada e questionadora do professor que faz essa cadeira tão divertida, desafiadora e instigante. Se você fizesse uma afirmação que fosse contra a opinião dele, ele retrucaria “tem paper pra provar isso?” Se você não tivesse um artigo para comprovar tuas opiniões, teria que sentar quietinho e ouvir o resto da aula. Agora, se você tiver o paper, ele certamente vai lê-lo e, muito provavelmente, mudar de opinião. Poderia criticar essa posição materialista e academicista, que só aceita artigos científicos como verdade, mas eu posso contar nos dedos de uma mão só quantos professores meus fariam isso que ele faz.

Método de avaliação:
Duas provas e um trabalho. Para alguém que faz Psicologia na UFRGS, duas provas é o equivalente a um estupro, mas dá para encarar. São provas muito mais interpretativas, de entender o texto e ligar os pontos entre ele e as respostas, e não de apenas decorar o conteúdo. Mas a jóia desse semestre, sem dúvida, foi o trabalho. Tivemos que apresentar um seminário para a turma sobre um paciente com alguma doença genética ou similar, apontando os sintomas e problemas causados, a vida do paciente por causa dela e possibilidades de como lidar com isto. Para isto, tivemos que ir até o hospital e acompanhar os atendimentos destes pacientes, discutir o caso com os professores e pesquisar seriamente sobre o que fazer. Meu trabalho ficou muito bom, apesar de ter sido feito baseado só em telefonemas e uma quase-consulta. Além de muitos pontos de XP (experiência, em nerd), também me rendeu alguns pontos de prestígio. Depois das apresentações, ocorreu uma reunião jurídica, com a presença da mãe da paciente que acompanhei. Meu trabalho serviu de guia para o professor saber onde estava se metendo, e eu fiquei lá, acompanhando e até dando minha opinião de vez em quando. Perdi o primeiro pedaço da aula de Psicologia e Educação por causa disso, e eu não era realmente indispensável lá, mas o fato de ter ficado para a reunião pegou bem. Pelo menos eu acho, já que vou começar a trabalhar lá próxima terça-feira.

Neuropsicologia – Eletiva
Overview:
A única eletiva que realmente me decepcionou. Passamos a maior parte do tempo assistindo as apresentações dos colegas, e a professora quase não deu aula, com a exceção do início do semestre. O conteúdo também não me deixou muito feliz. Achei que seria Neurociências, mas acabou sendo muito mais uma introdução à Neuropsicologia Clínica, com um pouquinho de pesquisa sobre memória. Para quem gosta do assunto e quer trabalhar com isso foi ótimo. No meu caso, só deixou ainda mais claro que não perdi nada em não fazer a seleção para o estágio no Serviço de Neuropsicologia do Hospital de Clínicas (eu nem podia mesmo).

Método de avaliação:
Boa pergunta. Não sei como foi a avaliação. Tivemos que fazer uma apresentação em grupo para a turma, mas não sei como isso seria o suficiente para avaliar e dar notas por todo o semestre. Bem, tirei A e estou feliz com isso.

Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos – Eletiva
Overview:
Foi o que eu gostaria que a disciplina de Neuropsicologia tivesse sido, e portanto, a segunda melhor disciplina do semestre. A dinâmica das aulas me lembrou muito Análise Experimental do Comportamento, que cursei no distante segundo semestre da faculdade – como havia pouca gente em aula, podíamos discutir com mais liberdade os assuntos, que realmente correspondiam ao nome da cadeira. Também foi um excelente substituto às aulas de Psicopatologia, pois realmente discutíamos doenças sérias e seus correlatos neurais aqui, ao invés de ficarmos falando sobre o sexo faz-pipi dos anjos. Como o progresso das aulas dependia quase que exclusivamente de nossas leituras de artigos, precisávamos ler bastante, e nem sempre conseguíamos fazer isso adequadamente. Além disso, os artigos eram complicados, e mesmo quem já trabalha na área se complicava um pouco com alguns deles. Mas nem a professora nem nós deixamos com que as aulas se tornassem maçantes, o que é realmente admirável.

Método de avaliação:
A avaliação também foi muito similar à de Análise Experimental do Comportamento, e baseou-se quase que exclusivamente em participação em aula e interesse demonstrado pelo aluno durante o semestre. Também tivemos que fazer uma apresentação em grupo para a turma (isso é um paradigma na Psicologia). Foi a mesma coisa que a cadeira de Neuropsicologia propriamente dita, mas como a dinâmica de Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos foi muito diferente, foi bem mais adequado.

E não perca, no próximo post desta série: quinto semestre!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Dúvidas pertinentes para a humanidade

Clipes do Queen geralmente me deixam pensando uma coisa: como é que a camisa do Fred Mercury some assim tão fácil? Foram só 5 segundos (de 0:55 à 1:00 de vídeo)!

Por que eu escrevo tanto

Certa feita, estava eu conversando com uns colegas na faculdade quando uma amiga minha diz que descobriu este egocêntrico blog, e que eu escrevia demais. O Marcelo, presente à conversa, foi rápido em acrescentar que eu era perito em dissertar sobre o nada, e que eu estava cada vez melhor nisso, escrevendo cada vez mais e mais sobre coisa cada vez menos relevantes (lembrei-me na hora de um livro intitulado "O Melhor Livro Sobre Nada", onde o autor discutia assuntos relevantes como restos de sabonete, e como eu falo sobre quase exatamente o mesmo tipo de assunto aqui no blog).

Realmente, eu escrevo demais, se comparado com outras pessoas da minha idade, e, realmente, a relevância dos assuntos de minha escolha frequentemente é duvidosa (como a importância de não usar a expressão "intrincado e complexo" em um trabalho universitário). Mas não posso evitar escrever - melhor dizendo, não quero evitar. As idéias surgem em minha mente, e preciso trazê-las para o mundo das palavras, caso contrário morrerão, qual bebês que não saíram do útero materno em tempo. Dramático, eu sei, mas se você é leitor desse blog já deveria saber que tenho fortes tendências para frases hiperbólicas e exageradas. Mas, mesmo deixando toda a dramaticidade de lado, se deixo de dar vida à uma idéia, fico a sensação de que algo bonito se perdeu, mesmo quando a idéia em questão é um tratado inteiro sobre o chiclete que pisei na calçada ou considerações filosóficas disparatadas a respeito da fumaça do cigarro (não, nunca escrevi nada a respeito destes temas, mas certamente escreveria se a oportunidade me surgisse).

Com os meus textos mais profundos, filosóficos e inspirados (ou que pelo menos considero profundos, filosóficos e inspirados), parece-me que não tenho muita escolha a não ser dar-lhes corpo. O processo é sempre o mesmo: em algum momento, tenho uma idéia particularmente sonora, impactante, penso que deveria escrever a respeito no blog, mas nada faço - deixo-a ali onde a encontrei, maturando. De tempos em tempos, parágrafos do texto que escreverei surgem e amontoam-se, até a "substância poética" que os compõe atingir massa crítica, e eu me ver impelido a sentar em algum lugar e esculpir o pensamento com palavras, seja na frente de um computador, seja com papel e caneta. Geralmente um "ensaio sublime", se é que podemos chamá-los assim, demora alguns dias para tornar-se forte o suficiente em meu espírito para poder ser escrito, mas várias vezes no passado, quando confrontado com severa dúvida, sentei-me em casa e pus-me a escrever aqui neste blog mesmo tudo o que me surgia sobre o assunto, costurando as frases e os parágrafos da forma mais coerente, poética e sucinta que posso. Este mesmo texto aqui, que vocês lêem agora, nasceu assim. De certa forma, é como se eles viessem de outro planeta, enviados por alguma civilização extraterrestre mais avançada para o bem da humanidade (to serve men?), e que apenas eu posso transcrevê-los adequadamente. Além de egocêntrico, megalomaníaco, mas é apenas uma metáfora que me pareceu adequada no momento - ou para os homenzinhos verdes (minhas colegas se divertirão horrores comentando estas últimas frases na faculdade comigo).

Falta agora, como falta muitas vezes em diversos textos meus, concluí-lo. A conclusão é, pelo menos para mim, a parte mais difícil de escrever: na introdução, apresenta-se o assunto, e dá-se uma pista de sua opinião a respeito; no desenvolvimento, espraia-se os argumentos e as idéias, deixando-as óbvias para quem quer que leia seu texto, e, na conclusão, ata-se todas as pontas deixadas soltas ao longo dos parágrafos, fazendo como que o trançado de um tapete, dando-lhe um sentido final, que transcende o próprio texto. Em outras palavras, justifica-se por que diabos me dei ao trabalho de escrever tanto, e é precisamente isto que me parece complicado: escrevo por escrever, afinal de contas! Creio que acabei me extendendo um pouco demais sobre meu processo criativo, e que preciso agora fazer um último esforço que valide este grande amontoado de palavras que dei à luz. Disse que escrevo por escrever, mas isto não significa que seja algo sem propósito. No fim, acho que o que tenho para dizer, por mais inútil que possa soar (nomes alternativos para o diretório acadêmico?), possui um propósito, e que o universo inteiro perderia algo bom se as reprimisse ou as deixasse morrer. Por isso, continuarei sendo prolixo por aqui, e falando sobre as maiores bobagens que eu desejar, por que, talvez, não sejam tão bobas assim quanto desconfio.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Leituras de verão

Durante o período letivo, eu prometi a mim mesmo que, nas férias eu iria ignorar completamente as leituras recomendadas pelos professores e ler somente o que me agradasse. Como acabei fazendo isso mesmo antes de acabarem as aulas, decidi cortar pela metade as leituras de livros de Psicologia e dar prioridade aos romances e clássicos da literatura.

Gosto de ler livros de Psicologia e ciências afins. Se eu não gostasse, estaria em sérios apuros, pois é a profissão que pretendo seguir, e seria impossível fazer isto sem ler bastante. Contudo, leituras técnicas, por mais agradáveis que possam ser, como os livros de Carl Rogers e Erich Fromm, cansam. O conteúdo é necessariamente complexo e denso, sendo intelectualmente exigente passar duas horas seguidas lendo o mesmo manual sobre técnicas psicoterapêuticas ou considerações teóricas sobre processos cognitivos. Interesso-me por estes assuntos, mas, ao contrário do que pensam meus colegas, não possuo capacidades sobrehumanas de leitura e preciso descansar de vez em quando.

Por isso, tornei quase um hábito meu nesses poucos dias aqui em Porto Alegre desde que voltei de viagem consultar o catálogo das bibliotecas da UFRGS (já sei digitar de cor o endereço) por alguns autores famosos, como Herman Hesse, Aldous Huxley e Leon Tolsoi, ver quais de suas obras estão disponíveis e onde posso retirá-las. Os livros que me interessam mais, anoto o título em um arquivo do Word para lembrar-me mais tarde, e se a oportunidade surge, os retiro e leio. Também sigo bastante o acaso, pegando livros que chamam minha atenção em alguma estante. Por exemplo, ontem fui na biblioteca da FABICO pegar "Sidarta" do Herman Hesse. Não tinha intenção de pegar nenhum outro livro, mas ao passar na seção de literatura alemã, vi vários outros livros interessantes, e voltei para casa com três outros títulos além do que eu pretendia ler originalmente.

Ao contrário dos livros técnicos, romances e histórias são fáceis de ler, quase magnéticos. "Sidarta" terminei de ler hoje, e já estou na metade de "A Metamorfose" de Franz Kafka, que comecei a ler não fazem duas horas. Seria um vício, se não me fizesse tão bem.

Contudo, não acho que parei de estudar Psicologia só porque estou lendo livros de outro estilo. Na verdade, me parece que apenas mudei o foco: com os manuais, aprendo a teoria pura, e com os romances, vejo o nosso objeto de estudo em detalhe, descrito por alguém que tem prazer em fazê-lo. Muito já se disse que aprende-se mais sobre Psicologia lendo a obra de Tolstoi do que qualquer livro científico sobre os Cinco Grandes Fatores de Personalidade e coisas parecidas, mas vou deixar essa discussão para outro post ;).

Cenas da vida de um jovem (futuro) psicólogo

Fui hoje falar com meu orientador de estágio. Tínhamos combinado que, quando eu voltasse, eu apareceria por lá para colocar os últimos detalhes em ordem, fazer um treinamento na burocracia do local. Coisa pouca, pensei na época.

Pois é. Enquanto eu preenchia um formulário, ele chama a secretária e diz "Lúcia, sabe aqueles pacientes da semana que vem que não tem hora marcada ainda? Passa eles pro Andarilho que ele vai assumir os casos". Próxima terça-feira à tarde eu já tenho compromisso. Para quem pensava que teria suas últimas férias sossegado é um bom começo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Back in Black

Agora que estou de volta ao Brasil, com um computador sempre ao alcance de minhas mãos nervosas por escrever, retornarei à antiga rotina de atualizar este blog sempre que possível. Apesar de ter valido a pena, fico um pouco triste por tê-lo deixado às moscas por um mês inteiro, e ter feito a primeira atualização do ano só no dia 12 de janeiro, mesmo tendo tantas coisas para falar.

Mas não se preocupem, fieis leitores do Espadachim Cego, os novos textos, gigantescos e dissertando sobre o absoluto nada, não tardarão em aparecer! No momento, estou planejando algumas coisas novas. A primeira delas está relacionada com a Expedição Austral - contarei algumas histórias que aconteceram conosco durante a viagem e que valem a pena serem compartilhadas por escrito. Creio que farei uns sete ou oito posts nesta série, mas não prometo nada. Também quero postar algumas fotos que tiramos (a maior parte delas foi o Marcelo quem bateu, mas eu não me importo de plagiá-lo dar-lhe crédito por seu trabalho), e fazer um mapa, detalhando nosso trajeto (assim que eu conseguir entender como o Google Maps me permitiria fazer isso).

Feliz Ano Novo com 12 dias de atraso para vocês!

A Expedição Austral - O Retorno II

Estou de volta da Argentina, fazem quase dois dias. As coisas aqui em Porto Alegre não parecem ter mudado muito, mas, para mim, parecem radicalmente diferentes. No final das contas, fui eu quem mudou. De certa forma, sabia que isto aconteceria depois desta viagem, mas não era capaz de imaginar a magnitude desta mudança. Talvez nunca serei capaz.

Diferente de muitas pessoas, acredito que a vida tem um sentido, e que cada um de nós tem uma missão para cumprir em vida. Antes da Expedição, tal como Jonas, eu sabia disto, mas me recusava a aceitá-la. Precisei eu também trilhar um longo caminho para perceber que não quero fazer outra coisa. Talvez isto soe enigmático ou enrolado demais para muitas pessoas, mas para mim, nunca algo fez tanto sentido. Minha vida recomeça aqui e agora, e prometo vivê-la da melhor maneira possível, e cumprir aquilo que me foi designado, mesmo que eu seja incapaz de entender o porquê.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

A Expedição Austral - O Retorno

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Expedição Austral, ou, De Porto Alegre à Ushuaia num Del Rey na Banguela

Caros amigos, quando vocês estiverem lendo este texto, já estarei longe em terras estrangeiras. Hoje à tarde viajo para Buenos Aires, onde ficarei três dias antes de dirigir-me para o extremo sul do continente, a cidade de Ushuaia, no fim do mundo.

Como a viagem para o ENEP em Campo Grande, sinto que esta será mais uma jornada da minha alma, e que não voltarei o mesmo. Há semanas tenho sonhos agitados e confusos, porém estranhamente desafiadores e cheios de esperança, que sinto indicarem aglo no horizonte de minha vida, e que esta expedição às terras austrais não acontece por acaso.

Por pelo menos três semanas, viverei a minha "existência desnuda", sem todas estas parafernalhas modernas que me enfraquecem e me tornam um escravo de meus sentidos. Será difícil. Comerei apenas o que preciso, dormirei apenas o necessário e minha vida será apenas aquilo que consigo carregar em minhas costas. Poderia apenas ficar em casa e aproveitar os confortos que a tecnologia me proporciona, mas esta opção parece destituída de sentido. Eu quero domar o touro pelas aspas, por mais insano que possa parecer. Como Thoreau fez em Walden, quero conhecer a vida em si mesma, para que, quando eu morrer, não descubra que não vivi. Pode parecer um desejo audacioso ou pedante, mesmo para esta dura viagem que empreenderei, mas ela é só um passo nesta descoberta.

Receio não ter muito mais o que falar neste momento. Despeço-me de todos e de todas, desejando um feliz Natal e um feliz Ano Novo, e deixando a promessa de voltar com muitas fotos e com um espírito fortalecido.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Dramas de Estágio (Parte 9) - O Retorno do Jedi

Mais uma vez, venho escrever sobre minhas experiências como futuro estagiário, apesar de já saber que esta série de posts é considerada por alguns leitores dramática demais.

Fico feliz por poder escrever que meus planos para o estágio básico deram certo: consegui uma vaga no Residencial Terapêutico São Pedro, e uma vaga como extensionista no Ambulatório do Projeto Proteger. Já tenho até alguns horários definidos. Está tudo tão certo quanto poderia estar. Ainda assim, algumas dúvidas me incomodam.

Num desses almoços no RU, conversei bastante com o Marcelo sobre o que poderia se chamar de "Metaética dos Estágios". Não lembro dos detalhes, mas ele me citou alguns casos de veteranos, e as decisões que tomaram em relação aos seus locais de estágio e seu futuro profissional. Basicamente, há duas atitudes possíveis em relação a esta escolha: inovação ou comodismo. O Marcelo contou a história de uma amiga nossa que há pouco tempo atrás fora convidada para dar uma palestra sobre movimento estudantil e saúde mental no Ceará, com a passagem de avião paga pela organização do evento. Que ela tenha sido convidada não é realmente surpreendente, pois ela é uma das pessoas mais batalhadoras, persistentes e criativas* da faculdade (eu costumo dizer que o passatempo dela é salvar as criancinhas do Butão), e esse convite é apenas fruto de seu esforço. Mas este merecido reconhecimento é, em grande parte, um reflexo da escolha de seu campo de atuação, pois, ao invés de se contentar em reproduzir, ela preferiu criar e inovar, trabalhando em uma área onde ninguém ainda trabalhava. Como fez isto inteiramente sozinha, tornou-se referência em toda a região sul, e uma das pessoas mais importantes de seu campo no país inteiro. Isso antes mesmo de se formar.

O Marcelo também fez uma comparação entre dois estudantes. O primeiro deles, quando começou o estágio de Psicologia Social, decidiu criar uma interface entre Marketing e Psicologia; a segunda deixou bem claro que escolheu estagiar em um local tradicional, já estabelecido. Enquanto hoje ele é O Cara da área do Marketing e da Psicologia, ela é só mais uma estagiária de Psicologia. O próprio Marcelo é um exemplo disto, pois está batalhando para criar um estágio novo, em uma área ainda inexplorada da Psicologia no Rio Grande do Sul.

Fiquei pensando no que eu quero fazer. Não escolhi nenhum estágio inovador, revolucionário ou qualquer outro adjetivo do gênero, e escolhi locais já relativamente estabilizados. Mas também não posso dizer que fiz como todos os meus colegas, pois vou estagiar de facto em dois locais diferentes, e que fiz esta escolha por que acredito que os dois locais me possibilitarão aprendizados diferentes e complementares. Será mais complicado, mas creio que valerá a pena.





*Resourceful seria o termo mais adequado.

Nomes de Diretório

Dei uma viajada este final de semana e fiquei pensando no nome do nosso órgão representativo. Ao contrário de outros diretórios e centros acadêmicos que homenageiam pessoas ilustres, ele se chama apenas Diretório Acadêmico de Psicologia - DAP, para os íntimos. Na Medicina, há o Centro Acadêmico Sarmento Leite (CASL), que homenageia o fundador da Faculdade de Medicina da UFRGS; o Diretório da Psicologia da PUCRS se chama Diretório Acadêmico Irmão Hermes Pandolfo (DAIHP), e da UCS é Diretório Acadêmico de Psicologia Silvia Lane (DAPSIL). Toda essa variedade de nomes me faz pensar que só DAP, apesar de charmoso em sua simplicidade, é um nome muito sem graça. Por isso, seguindo este padrão de homenagear pessoas importantes do nosso campo de atuação, pensei em alguns nomes diferentes para nosso diretório, levando em conta a importância histórica do homenageado e o que a escolha de seu nome representaria:

Diretório Acadêmico Sigmund Freud (DASF) - Freud e Psicologia é o maior clichê que pode existir, e por isso não podia ser deixado de fora desta lista. Pessoalmente, não gosto muito da idéia, por reforçar ainda mais o pensamento psicanalítico presente na nossa faculdade.

Diretório Acadêmico Jacques Lacan (DAJL) - Mesmo depois de dois anos de faculdade, tenho que admitir que sou incapaz de perceber por que diabos Lacan é considerado tão importante dentro da Psicologia. Ainda assim, tem muita gente por aí que lê o que ele escreveu, e não seria tão absurdo nomear o diretório em sua homenagem. Seria, contudo, bastante simbólico escolhermos um grande enrolador, "picareta autoconsciente" (segundo Chomsky) e entusiasmado nihilista para representar os ideais mais elevados do nosso diretório.

Diretório Acadêmico Deleuze e Guattari (DADG) - OK, são duas pessoas diferentes, mas é tão comum ouvir seus nomes em seqüência que me parece até natural homenagear os dois ao mesmo tempo. Não gosto muito dos escritos deles, por me parecerem desnecessariamente incompreensíveis e prolixos. Mas, em seu favor, devo dizer que, ao contrário de Lacan, eles adotaram uma visão muito mais otismista do ser humano, e acreditavam no seu potencial. Pode não parecer muita coisa, mas para mim é realmente significativo.

Diretório Acadêmico Carl Jung (DACJ) - Jung é um cara legal dentro da Psicologia, mas tenho a impressão que seu nome não é muito representativo de nada, e que renomear nosso diretório em sua homenagem não seria uma boa idéia.

Diretório Acadêmico Ivan Pavlov (DAIP) - Nome mais amolador possível para nosso DA. Soa legal, mas Pavlov, por mais importante que tenha sido na história da Psicologia com sua reflexologia, parece representar ideais já ultrapassados.

Diretório Acadêmico Fred Skinner (DAFS) - Outro nome extremamente amolador. Skinner, ao contrário de Pavlov, é bem mais contemporâneo e moderno, e suas idéias excercem uma influência muito forte sobre as psicologias experimentais. Contudo, o pandeterminismo pregado por ele não me agrada muito, apesar de achar muito do caralho a possibilidade deste nome.

Diretório Acadêmico William James (DAWJ) - Historicamente, William James foi para a América o que Freud foi para a Europa. Mas, ao contrário deste, grande parte de suas idéias continuam atuais e significativas. Seu nome implica uma forte postura humanista, grande rigor científico e, ao mesmo tempo, uma atitude levemente debochada. Eu sentiria grande orgulho de atuar no DAWJ (que acabaria sendo pronunciado como Dauge).

Diretório Acadêmico Carl Rogers (DACR) - Uma excelente escolha para nome de diretório de Psicologia. Rogers, além de ser um teórico muito interessante, excerce forte influência sobre outras áreas de conhecimento, especialmente a Educação, e representa ideais humanistas muito elevados. Além disso, não seria difícil convencer o pessoal a escolher este nome (eu acho).

Diretório Acadêmico Abraham Maslow (DAAM) - Mesma coisa que Carl Rogers, só que pouco conhecido no Brasil. Seria um nome legal, mas duvido que alguém mais além de mim votaria nele.

Diretório Acadêmico Viktor Frankl (DAVF) - Junto com William James um dos meus preferidos. Nomear nosso diretório em homenagem ao psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazista e criador de uma das mais belas teorias em psicologia seria muito significativo.

Diretório Acadêmico Aaron Beck (DAAB) - Único dos teóricos aqui citados ainda vivo. Seria um nome bastante amolador, considerando que o velho Beck é o maior expoente das terapias cognitivo-comportamentais da atualidade. Legalzinho, mas fraco do ponto de vista ideológico.

Diretório Acadêmico Içami Tiba (DAIT) - "O diretório que ama, e por isso educa!". Preciso dizer alguma outra coisa?