quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Lições da Vida Universitária

São duas e meia da manhã e eu deveria estar dormindo, mas como fiquei assistindo vídeos estupidamente engraçados sobre filmes absolutamente escrotos e tenho um trabalho para entregar AMANHÃ sobre educação não-formal, eu estou acordado, e levemente hiperativo.

O trabalho, esqueci de mencionar, é em grupo, e falta eu escrever a minha parte. Isto está sendo particularmente complicado por que não consigo pensar em nada bom, por menos que seja. Decidi dar uma lidinha no que meus colegas já tinham escrito. Ainda na primeira linha do primeiro parágrafo, dou de cara com a seguinte oração: "Não demorou para que percebêssemos o intrincado e complexo caminho que se abria uma vez que tal pergunta foi feita."

Meus colegas estão enchendo murcilha. Isso fica evidente pelo fato de que alguém decidiu escrever duas palavras sinônimas na mesma frase. Dizer que algo é "intrincado e complexo" é o mesmo que dizer que a água é "molhada e úmida". Eu conheço bem demais o brainstorming de onde esta aberração lingüística saiu. Algum colega meu (posso até dizer o nome dele), também em plena madrugada, decidiu começar a escrever o texto e pensou "essa porra tá curta demais... eu preciso de mais linhas. Já sei! Eu vou colocar umas palavras complicadas a mais aqui e vou dar a impressão de que eu li mais do que as revistas que meu dentista deixa na sala de espera!". E, assim, "intrincado e complexo" vira parte do texto. Não culpo meu colega. Também já fiz isso. Com as MESMAS DUAS PALAVRAS QUE ELE USOU POR QUE EU QUERIA ENROLAR E AO MESMO TEMPO DEIXAR MEU TRABALHO COM CARA DE ERUDITO! Já ouviram falar em marcadores biológicos de doença? Resumidamente, se você tem um, também tem uma doença. Nasceu um bebê com cara de asiático em uma família de suecos? Síndrome de Down! Olhos inchados, vermelhos e riso fácil? Alguém fumou maconha! Um alienígena saiu de sua barriga e estourou as suas tripas? Você é Sigourney Weaver! "Intrincado e complexo" é o marcador literário que indica claro desejo de enrolação, especialmente se aparecerem nas PRIMEIRAS DUAS LINHAS do trabalho.

É uma tática grosseira para fazer volume no trabalho, que, além de desnecessária, é um tiro no pé. Desnecessária por que os professores, a ABNT e mesmo a APA fazem de tudo para que nossos trabalhinhos pareçam mais rechonchudos do que realmente são, começando com o infame espaçamento 1,5 entre as linhas, passando pela introdução e conclusão e finalizando com as malditas referências. Um tiro no pé por que faz quem quer que esteja corrigindo o trabalho ative "Código Amarelo de Ensebação". Eu fico imaginando o que meus professores pensam quando vêem uma coisa dessas:

-"Intrincado e complexo"? Espera um pouco, essas palavras não significam a mesma merda? Por que diabos esses animais colocaram uma do lado da outra? Puta que pariu Hermes esse trabalho deve tá uma merda. Deixa eu ler isso com mais cuidado.

E, como frequentemente ocorre, o trabalho realmente está uma droga! Só que, se não fosse o nosso marcador literário, talvez o professor nem levantasse a hipótese de seus queridos aluninhos serem uns folgados. Há modos e modos de fazer trabalhos ruins e com pouco esforço, alguns mais sutis do que outros. Talvez você seja um destes escolhidos pela natureza que não só conseguem escrever um monte de abobrinha, como arrumam um séquito de seguidores que lê cada imbecilidade sua como se fosse o mais precioso bálsamo sagrado (alguém aqui poderia citar uma pessoa assim?), e, talvez o professor vire seu fã também! E eu sei, "séquito de seguidores" é tão ruim quanto "intrincado e complexo", mas eu não ganho nota nenhuma por escrever este texto e vocês não ganham dinheiro nenhum para lê-lo (até, bem pelo contrário, vocês gastam dinheiro para acessar esse amontoado de absurdos que é a internet e a blogosfera). Mas isso não vem ao caso aqui! O que eu quero dizer é que é plenamente possível passar em uma disciplina na faculdade realizando trabalhos medíocres ou até mesmo estúpidos, desde que você saiba fazer isto de uma maneira bonitinha.

E esta maneira bonitinha não inclui "intrincado e complexo". Provavelmente inclui neologismos retardados e expressões nonsense como "maximização de dividendos", "upgrade técnico-industrial do paradigma quântico" ou qualquer palavra nova que apareça em livros de Psicologia em geral. Mas nunca use "intrincado e complexo". Diga que é sofisticado, diga que é complexo, ou diga que é intrincado. Mas sob hipótese alguma, use "intrincado e complexo" na mesma frase. NUNCA!

Agora, com licença, preciso mudar aquela porcaria de trabalho antes que seja tarde demais.

Um comentário:

marceloduarte disse...

Meu deus cara, mas esse teu post foi deveras intrincado e complexo. Acho melhor tu pegar leve nessa tal de "faculdade" aí.