Outra surpresa foi descobrir que, além das infindáveis hostes de psicanalistas e esquizoanalistas, também há uma unidade cuja orientação teórica é a teoria cognitivo-comportamental. Ventos de mudança também sopram no São Pedro. Enfim, mais um bom local de estágio para minha lista, mas ainda me inscreverei para tantas outras seleções quanto puder, e não abandonei o sonho de fazer estágio básico no Clínicas e extensão no Proteger. Apenas não acho tão ruim trocar o Clínicas pelo São Pedro. E o drama continua.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Dramas de Estágio (Parte 4)
Outra surpresa foi descobrir que, além das infindáveis hostes de psicanalistas e esquizoanalistas, também há uma unidade cuja orientação teórica é a teoria cognitivo-comportamental. Ventos de mudança também sopram no São Pedro. Enfim, mais um bom local de estágio para minha lista, mas ainda me inscreverei para tantas outras seleções quanto puder, e não abandonei o sonho de fazer estágio básico no Clínicas e extensão no Proteger. Apenas não acho tão ruim trocar o Clínicas pelo São Pedro. E o drama continua.
domingo, 2 de novembro de 2008
Dramas de Estágio (Parte 3)
Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS)
Ênfase em Trabalho e Psicologia
Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA)
Ênfase em Psicologia e Processos de Gestão em Saúde Mental Coletiva
Ênfase em Psicologia e Processos de Promoção da Saúde
Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
Universidade de Caxias do Sul (UCS)
Faculdade da Serra Gaúcha (FSG)
Comparando com a UFRGS:
Dramas de Estágio (Parte 2)
Esta configuração político-pedagógica tem suas peculiaridades. A primeira que quero destacar aqui é a amplitude dos temas englobados por cada ênfase. Dá para trabalhar muita coisa dentro delas. Basicamente, não existe uma separação de facto sobre o que uma ênfase pode abordar ou não, além da tradição. A única coisa que muda, como em todos os assuntos interdepartamentais no Instituto, é a posição teórica: se eu quiser, posso trabalhar com pequenos grupos usando a teoria comportamental, o que seria um pouco mais complicado, pela falta de orientador ou confito epistemológico com o que há (para meus colegas que lêem isso aqui: já imaginaram como deve ser o velho Leôncio orientando um estagiário behaviorista?). Claro, o bom senso e o desejo de se formar o mais cedo possível diz que isto é uma coisa a ser evitada, mas a possibilidade existe. Desejo boa sorte para quem quiser fazer algo assim, pois será muito necessária.
Talvez haja quem reclame do baixo número de ênfases, e que acharia melhor ter pelo menos umas sete ou oito opções de escolha. Provavelmente vários professores estariam dispostos a criarem novas ênfases, mas isto acabaria sendo uma fraqueza ao invés de uma virtude, pois os esforços de todos se espalhariam demais, e a qualidade do ensino iria para o chão.
Na ênfase, além dos estágios, temos que cursar as infames "eletivas avançadas". Elas são infames por que não existem, e ninguém sabe o que elas serão. Para ser bem sincero, ninguém sabe ainda o que serão os estágios. Eu imaginava que eles seriam apenas os estágios já existentes (Clínica, Escolar, Trabalho...) adaptados para o currículo novo. Porém, por causa de uma resolução do Conselho Nacional de Educação (esse eu tenho certeza!), eles mudarão muito mais do que pensado anteriormente.
Enfim, da mesma maneira que os estágios básicos, já estou pensando nos melhores locais para eu fazer meus estágios de ênfase. Como não decidi quais ênfases fazer (leia-se: não decidi se vou pra Psicanálise ou pra Social), listarei um local para cada possível ênfase:
Ênfase em Psicologia Institucional
Ênfase em Avaliação Psicológica
sábado, 1 de novembro de 2008
Dramas de Estágio
Este é um marco em minha vida acadêmica. Até agora, eu podia faltar ou chegar atrasado nas aulas, não entregar os trabalhos na data estipulada ou simplesmente não estar nem aí para o que os professores falam. Como futuro estagiário, tudo muda, a começar pelo fato de que, se perder a data de seleção, perco a vaga sem direito a renegociação. Abandonamos o sistema amigável do ordenamento inútil da Psicologia e entramos em um mundo onde precisamos competir com nossos colegas pela vaga no melhor local de estágio possível. É um ensaio para o mercado de trabalho e, devo dizer, nessas horas compensa ter gostos desviantes da média. Ainda assim, por mais estranho que eu seja, ainda tenho a obrigação de me inscrever em tantas seleções quanto possível, para não passar o ano de 2009 sem estágio algum.
Tem sido uma experiência estressante até o momento. Não há hostilidade entre a turma, mas todos sabem que, se forem escolhidos para uma vaga, os outros não serão. O fato de até o momento existirem poucas opções realmente interessantes não colabora em nada. O que nos tranquiliza é que os estágios básicos foram criados especialmente para a UFRGS, e que não teremos que enfrentar a concorrência de nenhuma outra universidade.
Os e-mails falando de processos de seleção pipocam em meu Gmail. Farei uma pequena análise dos locais disponíveis até o momento, e por que eles parecem interessantes ou não para mim:
Hospital Psiquiátrico São Pedro - O mais clássico local de estágio em Psicologia de Porto Alegre. Atualmente, é o local que mais vagas tem disponíveis para o estágio básico da UFRGS, distribuídas em 5 departamentos e oficinas diferentes. Destes, com exceção do Ambulatório e da Unidade José Barros Falcão, que incluem entre as atividades previstas a prática de Acompanhamento Terapêutico, nenhum é realmente interessante. Aliás, o São Pedro como um todo me é desinteressante por ser tão parecido com o Instituto de Psicologia em seu modus operandi. Passei quase dois anos aguentando a esquizofrenia institucional daquele prédio, e não ter que passar por isto também no meu estágio.
Grupo Hospitalar Conceição - Pelo que falam, o GHC é um gigantesco conglomerado de hospitais, unidades básicas e postos de saúde espalhados por toda a cidade. Tirando isto, não sei absolutamente anda a respeito dele. Parece interessante, simplesmente por ser um hospital grandão, mas nada impede de que seja uma bela bomba.
Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Até o momento, o lugar que mais me chama a atenção, por que é grandão, é high tech (montes de pesquisa na área da saúde são realizadas ali) e é perto de casa. Infelizmente, há poucas vagas disponíveis. Para o eventual colega meu que ler isto aqui, informo que, se você também estiver interessado em estagiar no HCPA, terá que concorrer comigo, e eu não vou dar moleza pra ninguém.
Secretarias Municipais da Saúde e da Educação - Falaram destes dois locais durante a reunião, mas eu estava ocupado demais comendo chocolate no meu canto e delirando sobre o pavê do RU para prestar atenção. Um homem tem que ter prioridades na vida, e o creme colorido e doce que o RU serve com os nomes de "pavê", "pudim" ou "gelatina" deve ser a prioridade de todo bom estudante da UFRGS. Em todo caso, pelo o que posso imaginar destes dois locais, deve ser legal ser um estagiário ali, e ver por conta própria os programas de saúde e educação do município serem elaborados e postos em prática, e toda a política por trás deles. Provavelmente o trabalho não envolve atendimento ao público e deve ser em sua maior parte burocrático, o que considero negativo, mas toda a experiência institucional deve ser fascinante.
Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS - Há, entre os locais listados, dois que classifico como "BIG FUCKING NO-NO". Numa tradução bastante livre, "NÃO ME INSCREVO NEM FODENDO", e a clínica é um destes locais. Nada contra o local em si, apenas não quero fazer estágio no local que é considerado "A Psicologia da UFRGS com esteróides".
Centro de Avaliação Psicológica, Seleção e Orientação Profissional - O segundo "BIG FUCKING NO-NO" é o CAPSOP. Além de ser localizado dentro do prédio da Psicologia (e isto está para o estágio da mesma forma que montar uma barraca no jardim da vovó está para acampar), não consigo pensar em nada mais chato do que trabalhar ali. OK, Avaliação Psicológica é legal, mas toda vez que passo na frente da salinha do CAPSOP sou invadido por uma onda de chatice. Imagina se eu trabalho ali. Não é uma justificativa logicamente fundamentada, mas para mim é o suficiente.
Projeto Quero-Quero: Programa Educação pelo Esporte - Outro local com pouca informação disponível. OK, devem ter falado a respeito na reunião de quarta-feira, mas o pavê do RU é hipnotizante, mesmo à distância. Como o nome indica, envolve esportes, mas mesmo assim, não estou muito interessado, já que não é o tipo de coisa com o que quero trabalhar futuramente.
Ambulatório de Neuropsicologia HCPA - Eu não sei por que eu coloquei este local na minha lista de possibilidades, por que ele simplesmente não é. Mesmo que eu tivesse interesse em trabalhar com isto, eu não poderia, pois o único pré-requisito para o candidato à estagiário é ter trabalhado em algum momento no grupo de pesquisa NEUROCOG/NEUROPSILIN, coordenados por quem? Pela mesma pessoa que coordena o ambulatório. Há três vagas para este local, e apenas três pessoas que atendam ao pré-requisito. "Cartas marcadas" é o termo que vem a minha mente quando penso neste local de estágio. Se eu tivesse tempo sobrando, eu me inscreveria para a seleção só pra encher o saco. Mas tenho mais o que fazer, infelizmente.
Pesquisa Assédio Moral no Trabalho - Esse local é bem peculiar, por que não é um local: é um projeto de pesquisa. Deixe-me fazer uma pequena digressão sobre o funcionamento político do Instituto para explicar o porquê disto. No currículo antigo, apenas dois dos três departamentos ofereciam/exigiam estágios (não sei qual verbo é mais adequado aqui), o de Psicologia Social e Institucional e o de Psicanálise e Psicopatologia, enquanto que o Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e Personalidade, apesar de não oferecer/exigir estágio, oferecia muitas linhas diferentes de pesquisa para os estudantes se inserirem, e exigia que todos eles apresentassem um trabalho no Salão de Iniciação Científica. Em outras palavras, a coisa mais próxima de um estágio que o Desenvolvimento tinha até então era a pesquisa. Com o advento do currículo novo, o qual estou cursando, novas propostas de estágio tornaram-se necessárias, e o Desenvolvimento teve que inventar alguma coisa. Só que, ao contrário dos outros dois departamentos, que têm ligações com vários locais diferentes, o Desenvolvimento só tem pesquisa. Um monte de pesquisas, que rendem um monte de dinheiro e linhas para o currículo Lattes, mas só pesquisas ainda assim. Então, para suprir esta nova demanda, eles resolveram aproveitar os locais parceiros de pesquisa (como o HCPA), e os projetos de longa duração (seis meses à um ano) como propostas de estágio. Isso não alegrou muita gente, mas como na guerra urubu é frango, os outros dois departamentos aceitaram isso, desde que as pesquisas escolhidas fossem caracterizadas como estágios e não só como projetos. Pessoalmente, acredito que isto é positivo, pois aproveita os recursos disponíveis, e garantirá uma variação muito grande nos "locais" de estágio oferecidos pelo Desenvolvimento, já que toda pesquisa, bem sucedida ou não, um dia acaba, e será substituída por outra. O lado negativo é a impossibilidade de constituir uma tradição em um local de estágio, como ocorre com o HPSP e a Clínica, mas tradição não é tudo na vida. Mas, voltando à vaca fria, este projeto/estágio não tem local pré-determinado, pois a doutoranda encarregada vai em vários locais de trabalho diferentes para entrevistar pessoas, e o estagiário selecionado iria junto para... segurar a bolsa dela, sei lá. Esse tipo de coisa nômade é realmente interessante, e acredito que eu teria uma boa chance de ser selecionado como estagiário (desta vez, o famoso QI -Quem Indica- está do meu lado). Mas não sei se eu aprenderia tanto quanto em um local fixo.
Projeto Proteger - Ambulatório coordenado pelo Renato Flores, voltado para maus-tratos, mas que lida com uma vasta gama de problemas, inclusive saúde mental. Não há vagas de estágio determinadas para estudantes de Psicologia, mas um veterano meu, o Brunão, é extensionista lá, e segundo o próprio, o ambulatório é um excelente local para estágio básico. Tendo isto em mente, os amoladores de facas começaram uma campanha para transformar isto em realidade. Sei lá se vai dar certo. Tomara que dê. Pelo o que o Brunão fala, dá para ir lá trabalhar só um turno por semana, e ainda assim aprender muita coisa. Meu sonho de consumo é conseguir um estágio no HCPA, e fazer extensão no Projeto Proteger. Veremos no que vai dar isto.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Trabalho de Psicologia e Educação
Antes de começar meu trabalho propriamente dito, gostaria de esclarecer alguns pontos em relação à maneira como ele foi escrito. Ao invés de apresentar/discutir duas questões que considerei relevantes/importantes em cada texto, justificando sua importância e apresentar que posturas assumiria ao trabalhar no campo da Educação ,como foi explicitado pela professora, preferi elaborar duas questões gerais e abrangentes, e tentar respondê-las de acordo com o que acredito ser o correto no momento, usando a bibliografia a minha disposição como fundamentação teórica para meus posicionamentos.
Como estudante de Psicologia, acredito que, por mais pragmáticos que devemos ser em nosso campo de atuação, não podemos nunca abandonar os questionamentos epistemológicos sobre nossas práticas. Portanto, antes de pormos em andamento qualquer programa educacional, devemos ser capazes de responder as seguintes perguntas:
1) Qual é o papel da Educação?
2) Que função a Psicologia exerce no contexto educacional?
Como um complemento à primeira questão, também deve-se perguntar:
1.1) A Educação cumpre seu papel de forma satisfatória?
Por serem por demais amplas, não existem respostas únicas e corretas para estas duas questões. Existem formas idiossincráticas de responder, baseadas em crenças e experiências pessoais, que são determinados pelo tempo e local em que estão circunscritas. Apresentarei neste artigo a maneira como eu vejo as coisas, e as posturas éticas que acredito que adotaria se trabalhasse na Educação, e estão sujeitas a mudarem futuramente, pois, conforme o tempo passa, não só a sociedade e suas concepções científicas que mudam, como também nós vamos transformando nossas formas de ser (Bock, 2000).
Acredito que o papel da Educação é muito complexo, além de ser muito importante. Gosto muito da definição dada por Ghiraldelli Jr. (2000) das influências existencialistas da obra de Freire, que a educação deve permitir que o homem deixe de ser objeto e torne-se sujeito de sua própria história, pois ao mesmo tempo em que define o indivíduo como ativo e capaz de mudar a si próprio e seu meio, não exclui as influências determinantes do ambiente, da cultura e da biologia. Tenho a firme convicção de que a educação e a humanidade como um todo só progredirão na medida em que forem capazes de ensinar ao indivíduo a serem mais conscientes de sua própria condição e a mudá-la. Um estudo realizado por Rogers (1980) e seus orientandos de pós-graduação abordou os fatores preditores de comportamento delinqüente em adolescentes. Foram feitas cuidadosas classificações objetivas do clima familiar, das experiências educacionais, das influencias da vizinhança e culturais, das experiências sociais, do histórico da saúde, do alicerce hereditário de cada participante e uma avaliação do grau de autocompreensão, incluída tardiamente. Surpreendentemente, o melhor prognosticador de comportamento futuro, com correlação de 0,84, foi justamente o grau de autocompreensão, enquanto que a qualidade da experiência social correlacionou 0,55. O estudo foi replicado tempos mais tarde, com outro grupo de sujeitos, e os resultados encontrados foram basicamente os mesmos. Creio que este estudo, além de dar suporte empírico para minha crença, também indica de forma clara como se pode alcançar este protagonismo através da educação, ajudando o estudante a ser mais autoconsciente.
Contudo, há de se questionar se a Educação, não só em sua modalidade formal, como também informal e não-formal (Gohn, 2006), atinge este objetivo e, se não for este o caso, questionar também por que assim ocorre. É difícil afirmar com confiança que as instituições de ensino (fundamental, médio e superior) falham completamente em ensinar aos indivíduos a serem “sujeitos de sua própria história”, primeiro por não dispor de dados específicos que aleguem isto; segundo, por que a educação neste paradigma não depende apenas da capacidade do professor e da instituição de ensinar, mas também da dedicação e vontade do estudante de aprender. Ainda assim, baseado em anedotas como os artigos de Heckert et al. (2001), Eizirik & Comerlato (2004) e, principalmente, na minha própria experiência, digo que o grau de sucessos é muito menor do que o de fracassos. O maior incentivo que existe dentro das salas de aula do ensino médio e fundamental é a necessidade de tirar boas notas para passar de ano e conhecer o conteúdo para passar no vestibular em uma boa faculdade. No ensino superior, devido a maior liberdade intelectual e prática oferecida aos seus estudantes (que já não podem ser taxados de crianças), penso que haja maior autoconsciência e capacidade de autodeterminação entre os estudantes, mas não creio que isto seja a regra. Mais uma vez, devo ressaltar aqui o caráter idiossincrático de minhas afirmações, e que tudo está aberto para investigações.
Resta saber qual papel nós, como psicólogos, cumprimos no processo educacional para que este objetivo possa ser alcançado. Cada vez mais a Psicologia se insere dentro da Educação. Segundo artigo de Meira (2000), uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia em 1992 constatou que a Educação é o terceiro maior campo de atuação profissional da Psicologia, com 24,4% do total de entrevistados, atrás apenas da clínica (37,2%) e organizacional (29,6%). Assim sendo, nossa classe está em posição privilegiada para influenciar o processo de aprendizagem-educação, seja fora das salas de aula, agindo “nos bastidores” e colocando nossos conhecimentos em prática, seja dentro da sala de aula, transmitindo este conhecimento. Porém, segundo Rocha (1999), a função que o psicólogo tem exercido dentro das escolas tem sido como um diagnosticador de deficiências de aprendizagem do aluno e/ou da metodologia utilizada pelo professor para desenvolvimento de suas atividades de classe. Rocha também identifica que os psicólogos que trabalham dentro de escolas dividem-se na maneira como definem seu modelo de atuação: alguns vinculam-se à categorização do psicólogo como profissional da saúde (modelo clínico), outros da cultura (modelo pedagógico), enquanto que um terceiro grupo define-se como adotando o modelo da análise institucional. Contudo, apesar das diferentes nomenclaturas, todos buscam essencialmente a mesma coisa: a adaptação dos indivíduos ao ambiente da escola e isto, creio eu, mesmo às custas do pensamento crítico e da autonomia estudantil. Permita-me exemplificar isto com uma experiência própria, vivida no meu terceiro ano do Ensino Médio. No último trimestre do ano letivo, estava me preparando para fazer intercâmbio estudantil nos Estados Unidos, e a burocracia envolvida era muito pesada. Precisava que a diretora de meu colégio assinasse um certo documento e, para pegá-la, aproveitei um dia em que, ao invés de aulas, ocorreria um simulado de vestibular oferecido por uma universidade gaúcha. Ao entrar no prédio, encontrei a coordenadora pedagógica, cuja formação básica suspeito ser Psicologia, e falei-lhe da minha situação. Ela me disse que teria que esperar e me levou para minha sala de aula, onde estava sendo aplicado o simulado. Não muito satisfeito com esta situação, saí da sala e, encontrando novamente a coordenadora, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Ela ficou nervosa e disse que eu deveria estar fazendo “as coisas que realmente importam”, ao invés de ficar “correndo atrás de irrelevâncias como o intercâmbio” (também tive que ouvir a outra coordenadora pedagógica dizer que, se ela fosse minha mãe, estaria muito preocupada comigo!). Passados quase três anos desde o ocorrido, posso dizer com segurança que em seis meses morando no exterior aprendi mais do que os três anos que passei sentado nas carteiras da minha velha escola, e que aquele simulado não fez a menor diferença em minha vida!
Fazendo uma caricatura da situação, é provável que a maioria dos psicólogos que trabalhem na educação estejam muito mais preocupados em manter o status quo, a imagem pré-concebida da escola, do que em estimular verdadeiramente a autoconsciência e autonomia dos educandos, por mais que os projetos político-pedagógicos adotados por eles digam o contrário.
Tendo tudo isto em mente, o que pode ser feito para ajudar os psicólogos em formação a entenderem seu papel socrático na educação, de estimular os estudantes a conhecerem a si próprios, e, mais importante ainda, como sair do discurso e fazer isto na prática educacional? Lamento não ter nenhuma outra resposta além de sermos nós próprios autoconscientes de nossas próprias limitações, de nos policiarmos permanentemente (não no sentido foucaultiano!) para que não caiamos no erro de buscar apenas a adaptação ao meio, e sermos humildes para aceitarmos quando erramos. Acredito que colocar isto em prática é uma ferramenta pedagógica muito mais eficaz do que qualquer aula expositiva.
Referências
BOCK, A. B (2000). As influências do Barão de Münchhausen na psicologia da educação. In: TANAMACHI, E. R.; ROCHA, M. L. P. Psicologia e educação: desafios teóricos-práticos. São Paulo: Casa do Psicólogo. p. 11-34.
Eizirik, M. F.; Comerlato, D. (2004) A escola (in)visível: jogos de poder, saber e verdade. 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS.
GHIRALDELLI JR, P (2000). As concepções de infância e as teorias educacionais modernas e contemporâneas. In: Educação e Realidade: Os nomes da Infância. V 25 n.1. Porto Alegre: Rosa Maria Bueno Fischer.
GOHN, M. G. M (2006) Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 11-25.
Heckert, A. L.; Corona, C. R; Manzini, J. M. ; Machado, R. E.; Fardin, V. L. (2001) A Escola como Espaço de Invenção. In: Jacó-Vilela, A. M.; Cerezzo, A. C. e Rodrigues, H. B. C. (orgs). Clio-psyché hoje: fazeres e dizeres psi na história do Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ.
Meira, M.E.M. (2000). Psicologia Escolar: Pensamento crítico e práticas profissionais. Em: E. de R. Tanamachi; M.L. da Rocha & Souza, M.P.R. (Orgs). Psicologia e Educação: desafios teórico-práticos. (pp. 35-72). São Paulo: Casa do Psicólogo.
Rocha, M. L. (1999) A formação na interface psicologia/educação: novos desafios. In: Jacó-Vilela, A. M.; Mancebo, D. (Org.). Psicologia social: abordagens sócio-históricas e desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Ed. UERJ.
Rogers, C. R. (1980) Duas Tendências Divergentes. In: May, R. (org): Psicologia Existencial (pp. 97-106). Porto Alegre: Globo.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Happy Birthday to me!
Pois é, hoje fiquei mais velho. Aliás, esta é uma forma engraçada de dizer. "Fiquei mais velho" legalmente, mas o que mudou de ontem, quando ainda tinha 19 anos e 394 dias, para hoje?
Aniversários são divertidos (tenho pelo menos 100 novos recados no meu orkut, me parabenizando por fazer algo que qualquer um faz), mas são, no final das contas, apenas uma data arbitrariamente escolhida para comemorar nossa sobrevivência.
Mas estou reduzindo demais as coisas e não estou fazendo sentido. Feliz aniversário para mim, e para todo mundo que nasceu no mesmo dia que eu.
Insight de Aniversário
Ao contrário do ano passado, hoje tive um importante insight: próximo semestre meus estágios começam. Eu já sabia disto intelectualmente, mas o peso deste conhecimento não tinha me atingido verdadeiramente até hoje, quando suas conseqüências ficaram finalmente claras para mim.
Começar meus estágios no próximo semestre significa que finalmente começarei a trabalhar de verdade (além da bolsa de iniciação científica), e que preciso, a partir de agora, começar a procurar um local onde estagiar. Nesta mesma reunião foram apresentados vários locais diferentes, entre os quais alguns me interessaram bastante, de especial maneira o próprio Hospital de Clínicas. Contudo, há poucas vagas lá, e talvez eu tenha que me contentar em estagiar em outro lugar. Assim, recomeça meu esforço metaético de decidir o que quero me tornar, escolhendo onde quero aprender a trabalhar, sem saber exatamente o que acontecerá comigo e como isto me influenciará.
sábado, 25 de outubro de 2008
Da Economia ao Espírito
Feita esta pequena introdução, gostaria de falar sobre o que me levou a escrever este post. Por causa da faculdade e todos os seus trabalhos, textos e
OK, OK, não é tão difícil assim convencer alguém que os gringos fizeram muita porcaria por este mundo. Para ficar apenas nos exemplos recentes, eu cito a II Guerra do Golfo, a Guerra do Afeganistão e as intervenções militares indiretas na América do Sul para eliminar plantações de coca. Eu poderia também descambar para a teoria da conspiração e dizer que
Na verdade, por mais que ache justificadas as críticas, elas quase sempre soam aos meus ouvidos como hipocrisia, por serem muito mais chutar o cachorro morto do que argumentos fundamentados logicamente. Eu e meus colegas teorizamos que pode-se deduzir que alguém vai falar bobagem pela forma como começa sua frase. Por exemplo, nada de bom pode vir depois de "primeiro, a gente compra um Del Rey"; nada de bom pode vir depois de "a gente fala com uns agricultor"; e nada de bom pode vir depois de um "ah, por que o Bush..." dito em uma sala de aula. Dificilmente será algo acima do pastiche senso comum que circula pelos meios "iluminados intelectualmente" aqui no Brasil. Certamente, Bush Jr. foi um dos piores presidentes de todos os tempos, competindo até com o infame James Buchanan, que permitiu a Guerra Civil nos EUA. Mas não há nada melhor para se dizer sobre ele? Nada além disso? Se não houver, por que não podemos considerar isto como consensual e seguir em frente? Pelo jeito não, pois nunca antes na história deste país apareceu um cachorro morto tão bom para se chutar.
Mas o movimento anti-EUA não se restringe a criticar as guerras deles, as políticas deles ou os hábitos deles. Chega ao ódio gratuito. Lembro muito bem de, logo após ter entrado para a faculdade, de uma pessoa dizer que gostou de ver os EUA se se foder com os atentados ao World Trade Center, apesar de sentir tristeza pelas vítimas. Como se os EUA fossem governados por robôs sem coração (ou criaturas reptilianas do espaço), à parte de sua população. Fiquei especialmente chocado com esta afirmação por tê-la escutado poucos meses após minha estadia naquele país, onde morei por seis meses sob o mesmo teto que quatro outros estadounidenses. Como disse anteriormente, também fiz coro com todas estas pessoas que fazem de criticar os EUA seu esporte, mas morar lá me fez mudar muitas, se não todas, idéias que tinha anteriormente.
Fim de semana passado aconteceu aquilo que posso considerar o gatilho deste post. Estava com meus amigos dos escoteiros ao redor de uma fogueira, e conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Na maior parte do tempo, foram assuntos que pouco me interessam, como futebol e carros. Mas em um certo momento, passou-se a comentar sobre o quadro político atual, e eu, apesar de temporariamente alienado, ainda me interesso por este tipo de conversa, e até mesmo acho que sei alguma coisa a respeito! O foco da conversa foi direcionado para as eleições presidenciais estadounidenses, e seus candidatos, Barrack Obama e John McCain. Havia como que um consenso entre os presentes que o melhor dos dois é Obama. Um amigo meu verbalizou isto de forma bem clara
Apesar de impactante, esta afirmação não causou um efeito imediato em mim, mas ficou como que incomodando minha mente, fazendo idéias pipocarem de vez em quando, até este momento, quando tornou-se insuportável não escrever nada a respeito. De qualquer maneira que posso imaginar, estamos indissoluvelmente ligados aos EUA, gostemos ou não. De um ponto de vista estritamente materialista, eles são o motor econômico do mundo, que gastam mais do que ganham e assim fazem as mercadorias e o dinheiro circularem; eles são um dos países mais tecnologicamente desenvolvidos do mundo, investindo pesadamente em pesquisas sem precedentes*, tanto básicas quanto aplicadas; e eles são os maiores exportadores de cultura, influenciando o mundo inteiro com seus hábitos, seja isto bom ou ruim. Desejar o mal para os EUA economicamente é desejar o mal para si próprio! Se não acredita em mim, apenas leia os jornais ou livros de história, e veja que há uma alta relação causal entre crise nos EUA e crise no resto do mundo.
De um ponto de vista filosófico, religioso, espiritual, esta afirmação ganha ainda mais peso, pois não são apenas nossas ações na BOVESPA que estão em jogo, mas nossas próprias existências e almas. Em diversos lugares do mundo, em diferentes épocas, pessoas chegaram a conclusão de que todos nós estamos ligados a todos os outros, e que todo mal que causamos sempre volta para nós. Jesus disse que aquilo que fazemos aos outros, no fim fazemos a ele. Jesus tinha chegado à esta mesma conclusão. Estamos ligados uns aos outros, e ainda assim, continuamos a nos prejudicar mutuamente. Seremos cegos?
* Não quer dizer que todas estas pesquisas sem precedentes sejam todas úteis, mas são inovadoras ainda assim. Antes de pesquisar, ninguém sabia que fotos da Paris Hilton acalmavam ratos de laboratório. O mesmo é válido para a regulação hormonal do organismo e para a energia nuclear.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Vida Dura (Parte 19)
Eu moro do lado do Restaurante Universitário. É uma posição muito estratégica e positiva, que me permite almoçar a preço de banana quando eu bem entender. Como hoje o cardápio era bife com molho, decidi ficar em casa e comer um congelado. Peguei um calzone no congelador, coloquei num pirex de vidro (atentem para esta parte) e coloquei no forno. Quando ficou pronto, tirei do forno, coloquei meu calzone num prato e larguei o pirex na pia. Não satisfeito com isto, resolvi encher o pirex com água fria.
Eu sempre faço isso. Desde criancinha eu gosto de pegar a torradeira ainda quente e colocar debaixo da torneira para ouvir o barulho da evaporação súbita. Babaca e infantil, eu sei, mas muito divertido. O que mudou hoje, que me motivou a escrever um post a respeito, foi a quantidade de água envolvida na brincadeira e o fato do vidro ser termodinamicamente diferente dos metais. Coloquei o pirex na beira da pia, posicionei a torneira na melhor (ou seria a pior?) posição e abri a corrente. O barulhinho do “tshhh” era hipnotizante, e mantive a torneira aberta, enchendo tanto quanto fosse possível o pequeno recipiente, até que BLAM! Ele explodiu, arremessando caquinhos de vidro por toda a cozinha.
Sim, foi o choque térmico. Qualquer calouro de Física poderia dizer que essa foi uma idéia de arigó, pois por causa do resfriamento súbito, o material contrairia demais e trincaria. Deste ponto de vista, o pirex não explodiu, mas implodiu com muita violência, mas para todos os efeitos foi uma bela merda. Por sorte, o pirex só estourou para os lados, pegando apenas na minha camiseta, que me protegeu contra qualquer ferimento.
Minha primeira reação, ao ver toda a destruição que causei foi gritar “UHUUL! QUE MERDA EU FIZ?” É, ambivalente assim mesmo. Foi extremamente divertido brincar de cientista maluco, mas também foi extremamente encagaçante. Vidro voando para todo o lado tem esse poder. O experimento estava concluído, e as hipóteses testadas. Mas, ao contrário dos Mythbusters, eu não tenho uma equipe nos bastidores esperando a gravação terminar para limpar todo o estúdio. Pra começo de conversa, não tenho nem uma câmera para filmar nada, e meu estúdio é minha cozinha. De algum jeito eu teria que limpar aquela bagunça. Eu poderia ter deixado tudo como estava, escrever um bilhete dizendo “Surpresa, mãe!” e deixar lá. Só que, se fizesse isso, minha querida mãe me daria uma surra, a primeira em 19 anos de vida. Sim, ela me surraria. Por isso, fiz questão de ligar para ela e dizer “tenho uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que eu sei muito mais sobre Física agora. A má notícia é que eu estourei um pirex e enchi a cozinha com caco de vidro no processo”. Uma bela merda. Catei tudo o que consegui por conta própria e deixei para minha mãe a limpeza final, mais refinada.
A hipótese testada foi: o Andarilho sabe o que faz? Conclusão: não sabe porra nenhuma. É impressionante que ele ainda esteja vivo com este cérebro.
A Volta do Filho Pródigo
Depois do almoço, peguei o ônibus linha Pioneiro, que vai até os Pavilhões da Festa da Uva, e ao chegar à sede, entrei direto na sala do Clã Pioneiro. Passei quase a tarde inteira sentado escutando os outros falarem. Mas, depois que a atividade acabou, fui junto com os outros para a chácara de um amigo, onde a tropa sênior estava acampando. Neste mesmo local passei muitos finais de semana divertidos, comendo porcarias, dizendo besteiras, nadando na piscina e construindo pioneirias. A partir do momento que me disseram que iríamos para lá, sabia que a minha pequena visita se tornaria uma viagem ao meu selvagem passado sênior.
Para ser sincero, não esperava que fosse uma experiência prazerosa. Achava que tanto tempo distante de todo aquela atmosfera me mudara demais para poder apreciá-la da mesma forma, e que eu não teria o que falar com meus amigos, que estão envolvidos com coisas muito diferentes do que eu. Em parte, estava certo: com certeza, não tive a mesma sensação que costumava ter ao ver aquela piscina suja e entrar naquele mato embarrado, e meus amigos achavam mais interessante falar sobre futebol e carros do que política e genética. Mas, ainda assim, foi muito bom ter ido.
Obviamente, o cheiro de fumaça ainda é o mesmo, mas eu o sinto de forma diferente agora, depois de quase dois anos morando e estudando em Porto Alegre, numa instituição de ensino superior considerada de excelência. Geralmente eu evitaria esta definição, mas o fato é que minha vida de dedicação exclusiva aos estudos me diferenciou bastante dos meus amigos, que estão mais preocupados em trabalhar e ganhar dinheiro. Não que eles não estudem nada, mas isto é meramente secundário para eles, enquanto que para mim isto é central.
Mesmo assim, senti-me em casa. Todo ex-escoteiro acaba um dia voltando para seu grupo, por um dia que seja. Fiz isto esse sábado. Visitei os cantos das patrulhas, elogiei sua organização e suas pioneirias. Acredito que fui o primeiro ex-sênior em muito tempo (se não o primeiro de todos) que, ao invés de criticar e reclamar da deterioração da tropa depois que saiu, elogiou e disse que eles estavam mais bem preparados do que eu estava na minha época. Acho que isto os animou (se algum veterano de tropa meu dissesse isso, eu certamente ficaria animado).
Mas apesar de achar que eles estão muito bem, ainda fiquei surpreso de vê-los por lá, sendo seniores. Cacete, quando eu era sênior aquela gurizada só ficava tirando ranho do nariz e brincando! Como podem agora estar montando torres de sinalização e trabalhando noites inteiras? Acho que só posso dizer que o tempo não pára, e as coisas sempre estão mudando. Eu, por exemplo, durante meus tempos de escoteiro nunca me imaginara largando o grupo para estudar em Porto Alegre. Aliás, eu achava que continuaria no movimento ad eternum, e seria pioneiro e chefe. Doce ilusão. Mal cheguei aos pioneiros e saí. Olhando para trás agora, posso dizer que foi uma decisão acertada. Contudo, durante a levemente chata reunião da tarde, ouvindo o que meus amigos fazem agora como pioneiros, pude ver que não teria sido uma má idéia continuar no movimento, pois são atividades realmente enriquecedoras. Isto me entristeceu um pouco, pois deixei para trás um pedaço importante da minha vida quando saí em definitivo, e fiquei com a sensação de ter perdido muita coisa. Claro, quem diz isto sou eu, Andarilho, depois de passar por muitas outras experiências fantásticas que me deram uma visão mais ampla da vida, visão que, talvez, eu não teria agora caso tivesse escolhido ficar em Caxias. Mas isto é pura especulação, e nunca saberei ao certo.
Mesmo as situações quem mais deixaram claro o meu distanciamento foram divertidas. As mais marcantes ocorreram quase em seqüência. Comecei a discutir sobre implicações éticas e filosóficas das pesquisas em genética e ser interrompido pelos demais, que se sentiam perdidos, para depois dar vexame por não conseguir rachar um pedaço de lenha a machadadas. Tornei-me um intelectual. Por um lado isto me agrada, e por outro me irrita. Não quero passar o resto da minha vida apenas discutindo: eu quero fazer! E para isto o escotismo me proporcionava grande número de oportunidades.
Pensando um pouco na minha carreira escoteira, posso dizer que fui esforçado. Não era particularmente brilhante ou adepto em fazer as coisas, mas minha persistência e força de vontade me colocavam de igual para igual com meus colegas mais fortes e habilidosos. Nunca fui o melhor em fazer amarras, nem em cozinhar ou em qualquer outra habilidade campeira (exceto em pagar flexões e competir em aventuras, que eram meu motivo de maior alegria e são agora motivo de maior nostalgia). Fui, contudo, suficientemente bom em todas elas.
Bem, acabei escrevendo um texto um tanto quanto desconexo e piegas, mas bastante honesto. Para concluí-lo, devo dizer que não voltarei para o meu grupo, não neste meu momento existencial atual. Porém, certamente aparecerei mais vezes na sede do velho Grupo Escoteiro Moacara, e me encontrarei mais com aquelas pessoas que tanto fizeram por mim, sejam meus ex-colegas, sejam meus chefes. De uma forma ou de outra, eles fazem parte do que sou hoje.
sábado, 18 de outubro de 2008
O Monstro de Sete Cabeças da Política Estudantil
Desde que entrei na UFRGS, minha relação com a política do movimento estudantil foi bastante ambígua. Se, por um lado, eu sempre tive vontade de participar ativamente na construção de uma universidade melhor, por outro fui levado a desconfiar bastante de quem se envolve em órgãos deliberativos estudantis, em especial maneira o Diretório Central dos Estudantes (DCE).
De certa forma, sou um produto típico do meu curso, pois a Psicologia é politicamente estranha e até mesmo alienada, pois ao mesmo tempo que somos conclamados a participarmos de movimentos como a Reforma Psiquiátrica e o boicote à Lei do Ato Médico, ninguém dá a mínima para o que acontece no Campus do Vale, ou até mesmo nas unidades vizinhas à nossa se isto não interfere de forma direta nos nossos próprios interesses. Estou sendo injusto ao dizer que ninguém dá a mínima para o que acontece no resto da Universidade. Mas o que observei ao longo de quase dois anos estudando ali é que são muito poucos os casos de pessoas que fizeram algo concreto nesta direção. Geralmente, as energias de quem se interessa por este assunto são voltadas para nosso próprio Diretório Acadêmico da Psicologia (DAP). Eu próprio me incluo nesta categoria.
O DAP, ao contrário da maioria dos diretórios e centros acadêmicos é uma auto-gestão. Isto significa que não são feitas eleições anuais para decidir qual grupo (geralmente, patrocinado por algum partido político relativamente influente) irá representar os interesses estudantis, mas que não só o estudantes de psicologia da UFRGS, mas TODAS as pessoas que queiram se envolver, integram a sua administração, e têm direito a voz e voto, não importando se eles são membros do PT, do PSOL ou de partido algum, como ocorre em muitos outros lugares. Se todos os indivíduos ligados de alguma forma ao DAP fossem responsáveis e se envolvessem de forma satisfatória, este seria o modelo perfeito de gestão. Mas, como qualquer ser humano com mais de 10 anos e que já fez trabalhos escolares em grupo sabe, as coisas não funcionam assim, e o que quase sempre acontece é que um ou dois infelizes carregam o piano sozinhos, e os demais ficam apontando o que eles fazem de errado. Quem se importa com o que acontece no resto da UFRGS está ocupado demais com os problemas específicos da Psicologia, e quem não se importa não faz nada de qualquer maneira.
A própria ideologia da auto-gestão nos leva a ignorar as instâncias deliberativas mais amplas, principalmente o DCE. Pensamos que nosso modelo é o mais democrático possível e que qualquer outra forma de participação menos direta é perda de tempo. Um dinossauro do DAP falou em uma reunião que nunca se envolveu com o DCE por que não acredita no sistema de voto representativo e por que não queria ser manipulado por nenhum partidão.
Paradoxalmente, todas estas influências me levaram a concluir que devemos, sim, pelo menos uma vez entrar no jogo da eleição do DCE. Por eu ser um destes carregadores de piano, enfrentei as minhas próprias limitações e as de outros cursos, e percebi que não podemos fingir que estamos isolados. Concluí que é covardia usar a podridão do sistema como desculpa para alienar-se dele, e que é inaceitável criticar de braços cruzados quem não adota a mesma postura e vai à luta usando as regras do próprio sistema. Concluí, então, que este ano eu tenho que de algum jeito participar ativamente em alguma chapa concorrente para o DCE, pois esta é a maneira mais simples e direta de fazer aquilo que o Marcelo denominou de Democracia Direta. O momento existencial que vivo agora me faz desejar ser mais do que um observador empolado (coisa que psicólogos fazem com muita freqüência) e fazer as coisas com minhas próprias mãos, mesmo que isto me leve a envolver-me com os partidões e suas sujeiras (acredite, já estou no meio delas antes mesmo de ter feito qualquer coisa especial). E, por fim, é esta imagem que tenho do DCE como um monstro de sete cabeças que me faz querer enfrentá-lo. É o cheiro de desafio que ele emana que me atrai. Eu sempre tive um complexo de herói.Está na hora de encarar alguns dragões.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Minha Ausência
Normalmente, meus textos são escritos quando eu quero escrever, e quando tenho um assunto relativamente estruturado em minha mente. Quando não tinha um assunto mas tinha desejo de escrever, eu rapidamente descobria alguma abobrinha que chamasse atenção o suficiente para fazer pipocar alguma idéia. Isto continua ocorrendo, mas com uma freqüência muito menor. Por outro lado, estou lendo muito mais do que antes.
Acho que estou em uma fase mais receptiva do que produtiva atualmente, e estou elaborando as coisas de forma diferente. Não quer dizer que vou parar de escrever aqui. Ainda gosto muito de fazer isso. Apenas, muito provavelmente, não vou escrever feito um tarado por um tempo.
