segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Volta do Filho Pródigo

Este final de semana, dei uma passada no meu antigo grupo de escoteiros. Tinha falado com um amigo meu que ainda participa, e resolvi aparecer para a atividade deste sábado.

Depois do almoço, peguei o ônibus linha Pioneiro, que vai até os Pavilhões da Festa da Uva, e ao chegar à sede, entrei direto na sala do Clã Pioneiro. Passei quase a tarde inteira sentado escutando os outros falarem. Mas, depois que a atividade acabou, fui junto com os outros para a chácara de um amigo, onde a tropa sênior estava acampando. Neste mesmo local passei muitos finais de semana divertidos, comendo porcarias, dizendo besteiras, nadando na piscina e construindo pioneirias. A partir do momento que me disseram que iríamos para lá, sabia que a minha pequena visita se tornaria uma viagem ao meu selvagem passado sênior.

Para ser sincero, não esperava que fosse uma experiência prazerosa. Achava que tanto tempo distante de todo aquela atmosfera me mudara demais para poder apreciá-la da mesma forma, e que eu não teria o que falar com meus amigos, que estão envolvidos com coisas muito diferentes do que eu. Em parte, estava certo: com certeza, não tive a mesma sensação que costumava ter ao ver aquela piscina suja e entrar naquele mato embarrado, e meus amigos achavam mais interessante falar sobre futebol e carros do que política e genética. Mas, ainda assim, foi muito bom ter ido.

Obviamente, o cheiro de fumaça ainda é o mesmo, mas eu o sinto de forma diferente agora, depois de quase dois anos morando e estudando em Porto Alegre, numa instituição de ensino superior considerada de excelência. Geralmente eu evitaria esta definição, mas o fato é que minha vida de dedicação exclusiva aos estudos me diferenciou bastante dos meus amigos, que estão mais preocupados em trabalhar e ganhar dinheiro. Não que eles não estudem nada, mas isto é meramente secundário para eles, enquanto que para mim isto é central.

Mesmo assim, senti-me em casa. Todo ex-escoteiro acaba um dia voltando para seu grupo, por um dia que seja. Fiz isto esse sábado. Visitei os cantos das patrulhas, elogiei sua organização e suas pioneirias. Acredito que fui o primeiro ex-sênior em muito tempo (se não o primeiro de todos) que, ao invés de criticar e reclamar da deterioração da tropa depois que saiu, elogiou e disse que eles estavam mais bem preparados do que eu estava na minha época. Acho que isto os animou (se algum veterano de tropa meu dissesse isso, eu certamente ficaria animado).

Mas apesar de achar que eles estão muito bem, ainda fiquei surpreso de vê-los por lá, sendo seniores. Cacete, quando eu era sênior aquela gurizada só ficava tirando ranho do nariz e brincando! Como podem agora estar montando torres de sinalização e trabalhando noites inteiras? Acho que só posso dizer que o tempo não pára, e as coisas sempre estão mudando. Eu, por exemplo, durante meus tempos de escoteiro nunca me imaginara largando o grupo para estudar em Porto Alegre. Aliás, eu achava que continuaria no movimento ad eternum, e seria pioneiro e chefe. Doce ilusão. Mal cheguei aos pioneiros e saí. Olhando para trás agora, posso dizer que foi uma decisão acertada. Contudo, durante a levemente chata reunião da tarde, ouvindo o que meus amigos fazem agora como pioneiros, pude ver que não teria sido uma má idéia continuar no movimento, pois são atividades realmente enriquecedoras. Isto me entristeceu um pouco, pois deixei para trás um pedaço importante da minha vida quando saí em definitivo, e fiquei com a sensação de ter perdido muita coisa. Claro, quem diz isto sou eu, Andarilho, depois de passar por muitas outras experiências fantásticas que me deram uma visão mais ampla da vida, visão que, talvez, eu não teria agora caso tivesse escolhido ficar em Caxias. Mas isto é pura especulação, e nunca saberei ao certo.

Mesmo as situações quem mais deixaram claro o meu distanciamento foram divertidas. As mais marcantes ocorreram quase em seqüência. Comecei a discutir sobre implicações éticas e filosóficas das pesquisas em genética e ser interrompido pelos demais, que se sentiam perdidos, para depois dar vexame por não conseguir rachar um pedaço de lenha a machadadas. Tornei-me um intelectual. Por um lado isto me agrada, e por outro me irrita. Não quero passar o resto da minha vida apenas discutindo: eu quero fazer! E para isto o escotismo me proporcionava grande número de oportunidades.

Pensando um pouco na minha carreira escoteira, posso dizer que fui esforçado. Não era particularmente brilhante ou adepto em fazer as coisas, mas minha persistência e força de vontade me colocavam de igual para igual com meus colegas mais fortes e habilidosos. Nunca fui o melhor em fazer amarras, nem em cozinhar ou em qualquer outra habilidade campeira (exceto em pagar flexões e competir em aventuras, que eram meu motivo de maior alegria e são agora motivo de maior nostalgia). Fui, contudo, suficientemente bom em todas elas.

Bem, acabei escrevendo um texto um tanto quanto desconexo e piegas, mas bastante honesto. Para concluí-lo, devo dizer que não voltarei para o meu grupo, não neste meu momento existencial atual. Porém, certamente aparecerei mais vezes na sede do velho Grupo Escoteiro Moacara, e me encontrarei mais com aquelas pessoas que tanto fizeram por mim, sejam meus ex-colegas, sejam meus chefes. De uma forma ou de outra, eles fazem parte do que sou hoje.

Um comentário:

barbara disse...

EM PARTE... FAÇO MINHAS AS TUAS PALAVRAS...