sábado, 25 de outubro de 2008

Da Economia ao Espírito

Quem me conhece pode dizer que sou estatisticamente estranho - a maioria de meus comportamentos não se encaixam na média ou moda geral. Eu sou o que poderia se chamar de excêntrico, ou até mesmo subversivo. Sei que após o fim da ditadura e com o florescer da democracia no Brasil subversivo virou um adjetivo elogioso, e até desejável. Em outros termos, ser subversivo é a regra. Por isso, acho um tanto quanto suspeito quando alguém diz que algo é subversivo como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo e hesito em usá-la. Ainda assim, devo admitir que sou subversivo, justamente por que não o quero ser. Quase um koan budista isto.

Feita esta pequena introdução, gostaria de falar sobre o que me levou a escrever este post. Por causa da faculdade e todos os seus trabalhos, textos e festas idas à biblioteca, tornei-me um alienado em relação aos acontecimentos atuais, tanto do Brasil, quanto do mundo, e fico sabendo apenas do que é realmente importante, como o caso Isabella, o caso Eloá, o nariz da Amy Whitehouse, e a maior crise econômica desde 1929 que assola o mundo justamente durante a campanha presidencial dos Estados Unidos da América, os donos do mundo. Desde que me conheço por gente, o esporte da maioria das pessoas cultas é criticar os EUA. Professores de ciências humanas e humanidades, como sociologia, filosofia, história, geografia e psicologia, tanto do ensino fundamental até a pós-graduação são os campeões neste esporte, não só na prática em si quanto em sua popularização, doutrinando muitos e muitos de seus aluninhos a falarem da mesma forma que eles. Obviamente, eu fui um destes aluninhos.

OK, OK, não é tão difícil assim convencer alguém que os gringos fizeram muita porcaria por este mundo. Para ficar apenas nos exemplos recentes, eu cito a II Guerra do Golfo, a Guerra do Afeganistão e as intervenções militares indiretas na América do Sul para eliminar plantações de coca. Eu poderia também descambar para a teoria da conspiração e dizer que JEWS DID 9/11!!! o governo estadounidense planejou o 11 de setembro, mas eu não comprei esta história como aceitável. Ainda assim, o mero fato de cidadãos dos EUA duvidarem da honestidade de seu próprio governo neste nível é um sinal claro de que, sim, é bem fácil pensar que os EUA são bandidos, sem contar todos os outros exemplos que deixei de fora. Não é algo realmente surpreendente que nós, brasileiros bem educados, bem alimentados e bem informados critiquemos os EUA, e repudiemos suas políticas. Mas, obviamente, eu não vou terminar este texto dizendo algo como "os EUA são maus, muito maus", nem "os EUA vão salvar o mundo destes comunistas", e é aqui que começa a parte subversiva do texto.

Na verdade, por mais que ache justificadas as críticas, elas quase sempre soam aos meus ouvidos como hipocrisia, por serem muito mais chutar o cachorro morto do que argumentos fundamentados logicamente. Eu e meus colegas teorizamos que pode-se deduzir que alguém vai falar bobagem pela forma como começa sua frase. Por exemplo, nada de bom pode vir depois de "primeiro, a gente compra um Del Rey"; nada de bom pode vir depois de "a gente fala com uns agricultor"; e nada de bom pode vir depois de um "ah, por que o Bush..." dito em uma sala de aula. Dificilmente será algo acima do pastiche senso comum que circula pelos meios "iluminados intelectualmente" aqui no Brasil. Certamente, Bush Jr. foi um dos piores presidentes de todos os tempos, competindo até com o infame James Buchanan, que permitiu a Guerra Civil nos EUA. Mas não há nada melhor para se dizer sobre ele? Nada além disso? Se não houver, por que não podemos considerar isto como consensual e seguir em frente? Pelo jeito não, pois nunca antes na história deste país apareceu um cachorro morto tão bom para se chutar.

Mas o movimento anti-EUA não se restringe a criticar as guerras deles, as políticas deles ou os hábitos deles. Chega ao ódio gratuito. Lembro muito bem de, logo após ter entrado para a faculdade, de uma pessoa dizer que gostou de ver os EUA se se foder com os atentados ao World Trade Center, apesar de sentir tristeza pelas vítimas. Como se os EUA fossem governados por robôs sem coração (ou criaturas reptilianas do espaço), à parte de sua população. Fiquei especialmente chocado com esta afirmação por tê-la escutado poucos meses após minha estadia naquele país, onde morei por seis meses sob o mesmo teto que quatro outros estadounidenses. Como disse anteriormente, também fiz coro com todas estas pessoas que fazem de criticar os EUA seu esporte, mas morar lá me fez mudar muitas, se não todas, idéias que tinha anteriormente.

Fim de semana passado aconteceu aquilo que posso considerar o gatilho deste post. Estava com meus amigos dos escoteiros ao redor de uma fogueira, e conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Na maior parte do tempo, foram assuntos que pouco me interessam, como futebol e carros. Mas em um certo momento, passou-se a comentar sobre o quadro político atual, e eu, apesar de temporariamente alienado, ainda me interesso por este tipo de conversa, e até mesmo acho que sei alguma coisa a respeito! O foco da conversa foi direcionado para as eleições presidenciais estadounidenses, e seus candidatos, Barrack Obama e John McCain. Havia como que um consenso entre os presentes que o melhor dos dois é Obama. Um amigo meu verbalizou isto de forma bem clara tornando-se o porta-voz do grupo segundo Pichon-Riviere, e depois acrescentou "mas eu quero mesmo é que o McCain ganhe, por que eu odeio os EUA e quero que eles se fodam". Não houve muitos protestos contra esta afirmação, aliás, não houve nenhum. Isto também era um consenso do grupo!

Apesar de impactante, esta afirmação não causou um efeito imediato em mim, mas ficou como que incomodando minha mente, fazendo idéias pipocarem de vez em quando, até este momento, quando tornou-se insuportável não escrever nada a respeito. De qualquer maneira que posso imaginar, estamos indissoluvelmente ligados aos EUA, gostemos ou não. De um ponto de vista estritamente materialista, eles são o motor econômico do mundo, que gastam mais do que ganham e assim fazem as mercadorias e o dinheiro circularem; eles são um dos países mais tecnologicamente desenvolvidos do mundo, investindo pesadamente em pesquisas sem precedentes*, tanto básicas quanto aplicadas; e eles são os maiores exportadores de cultura, influenciando o mundo inteiro com seus hábitos, seja isto bom ou ruim. Desejar o mal para os EUA economicamente é desejar o mal para si próprio! Se não acredita em mim, apenas leia os jornais ou livros de história, e veja que há uma alta relação causal entre crise nos EUA e crise no resto do mundo.

De um ponto de vista filosófico, religioso, espiritual, esta afirmação ganha ainda mais peso, pois não são apenas nossas ações na BOVESPA que estão em jogo, mas nossas próprias existências e almas. Em diversos lugares do mundo, em diferentes épocas, pessoas chegaram a conclusão de que todos nós estamos ligados a todos os outros, e que todo mal que causamos sempre volta para nós. Jesus disse que aquilo que fazemos aos outros, no fim fazemos a ele. Jesus tinha chegado à esta mesma conclusão. Estamos ligados uns aos outros, e ainda assim, continuamos a nos prejudicar mutuamente. Seremos cegos?





* Não quer dizer que todas estas pesquisas sem precedentes sejam todas úteis, mas são inovadoras ainda assim. Antes de pesquisar, ninguém sabia que fotos da Paris Hilton acalmavam ratos de laboratório. O mesmo é válido para a regulação hormonal do organismo e para a energia nuclear.

2 comentários:

Luiza Vanset disse...

Muito bom!
inveja e burrice = desejar o mal dos EUA, ou seja la' do que..
preciso praticar muuuito mais para nao repetir esse erro, mas chego la'

=)

Lady Hell disse...

Realmente, querer que aquele país "se foda" é dar um tiro no próprio pé. A gente consome os produtos deles e eles, os nossos. A idéia de "mundo globalizado" ainda não entrou na mente da maioria das pessoas, até porque, ainda vejo gente dizendo que se eles afundarem, nós não iremos sofrer. Essa gente atende por "militantes do PT".
=P