sexta-feira, 5 de setembro de 2008

No Pain, No Gain!

Só para continuar no assunto de Wushu.

Quarta-feira, quando saí da academia, tentei me balaquear para fechar uma porta com o pé, calculei mal a distância e bati o ombro com tudo na parede, depois de ter acertado meu cotovelo com o nuntchako e minha coxa com o cotovelo (não vou dar muitos detalhes, só digo que doeu). Já não sinto mais dor nenhuma.

Estas são apenas as lesões mais recentes. A pior de todas, pelo menos das que eu lembre, foi quando resolvi treinar uma hora de rolamentos, dois dias seguidos. Passei um final de semana inteiro prostrado em dor. Acho que já falei desse causo antes, mas cabe repetir. A segunda pior de todas não doeu no corpo, mas na minha alma masculina. Treinando Karatê, em dupla, resolvi complicar um pouco a técnica e oferecer resistência. Acabei levando um joelhaço no saco. Posso não ser tão sem-noção quanto alguns por aí, mas eu realmente não sei onde eu estava com a cabeça quando decidi que seria divertido ficar de palhaçada com uma faixa preta.

Uma coisa que o Kung Fu nos proporciona é tolerância à dor e alta velocidade na recuperação de machucados. Claro, depois de muito se lesionar e muito ficar chorando de dor.

Dia de Faixa Verde

Essa tarde, participei de um minicurso de fotografia digital no Salão de Extensão da UFRGS (tanto o minicurso quanto o salão foram muito legais, mas falarei disto em outro post). Como já estava no centro mesmo, decidi que iria treinar hoje também. Foi meu primeiro treino como faixa verde. Achei estranho que a minha imagem no espelho da academia não tivesse a cintura amarela.

Foi um treino como qualquer outro - não fiquei mais cansado do que costumo ficar, mesmo sendo a "sexta-feira infernal" do prof. Fábio. Na verdade, ele inventa exercícios novos e mais extenuantes do que nunca e, para aplicá-los, diz que sexta-feira é dia de se ralar. Besteira. TODO treino com ele é de ralar. Mas isso não vem ao caso aqui.

A maior diferença que notei foi quando treinei luta ensaiada com o outro faixa verde do horário: ele não teve medo de me machucar, coisa que nunca acontecia entre faixas amarelas. Não que ele tenha me acertado um cotovelaço na cara ou chutado meu saco sem querer, mas se eu bobeasse alguma coisa deste tipo teria acontecido. Parece que a faixa verde passa a mensagem de que eu agüento, e que ele não precisa se refrear. Consegui me defender e manter o ritmo da técnica sem grandes problemas, apesar de ter notado muitos erros meus. Eu achava que o treino dos faixas verdes era mais puxado, que os professores pegavam mais pesado. Talvez o aspecto mais marcante seja o foco e a falta de medo de se machucar.

Motivação

Gostaria de falar um pouco do que me motiva a escrever neste blog. Antes de tudo, tenho enorme vontade de pôr minhas habilidades em prática, de desenvolvê-las e ampliá-las. Isto tanto o blog quanto o Kung Fu me proporcionam, e ambas as práticas me trazem maior equilíbrio emocional. O blog, contudo, possui um ar diferenciado, pois nele me permito trazer à tona todas as minhas angústias, dúvidas e incertezas, da mesma forma que meus êxtases, convicções e alegrias, compartilhá-las com outras pessoas e discutí-las. Mesmo que poucas pessoas comentem aqui e falem comigo no meu dia-a-dia, é uma experiência animadora.

Vejo o Espadachim Cego como o meu diário de campo: uma ferramenta de pesquisa científica, onde escrevo sobre minhas impressões, tanto do ponto de vista "objetivo" quanto "subjetivo". Escrevo para outras pessoas lerem sobre assuntos que considero relevantes, de uma forma idiossincrática. Considero isto muito positivo e válido, pois me passa a impressão de que estou ajudando a construir algo maior e melhor para a humanidade (perdoem o exagero).

O que não entendo muito bem é por que algumas pessoas criam blogs para ficar falando apenas das festas que foram, do jogo do Grêmio ou das olimpíadas. Em outras palavras, não vejo sentido em criar um blog para fazer dele um flog ruim. Para ser mais exato, consigo imaginar alguns motivos que levam as pessoas a escreverem sobre e para si mesmos apenas, como necessidade de auto-afirmação ou desejo de aparecer, mas nenhum deles é egosintônico para mim, ou o é de forma muito reduzida e superficial. Em mim, é muito mais forte a motivação de dar uma contribuição original e espontânea ao mundo. Talvez mude de idéia futuramente, mas acredito que é isto que faço com o blog.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sócrates Modernos

Muitos fatores influenciam na escolha de uma profissão. Desejo de prestígio e poder, interesse, curiosidade, vontade de sentido, fatores culturais e até mesmo genéticos. Quando decidi que queria fazer Psicologia, não tinha muito claro por que o queria, mas sabia que não fazia minha escolha de forma mercenária ou por meramente não ter melhor opção. Tinha claro, contudo, que é uma profissão nobre. Hoje, mais do que antigamente, tenho certeza disto.

Sei que há muitas atribuições tecnológicas ao psicólogo, como avaliação psicológica, psicoterapia, aconselhamento e outras tantas que nos são ensinadas nas salas de aula, mas é nossa função filosófica, que aprendemos em toda nossa experiência estudantil, tanto antes quanto depois da graduação, como nossa mais importante missão.

Herdamos da Filosofia, e especialmente de Sócrates e Kierkegaard, a missão de questionarmos a vida em si mesma, tirá-la de sua redoma de óbvia naturalidade e mostrá-la de formas nunca antes vistas. Talvez mais do que outros cientistas humanos e sociais, é nosso papel desconstruir as verdades absolutas que nos cercam, e mostrar que há outras alternativas para elas. Mas ao contrário dos pós-estruturalistas, que meramente destroem tudo que lhes agrada, devemos ir além de desmontar tijolo por tijolo os frágeis prédios de nossas certezas; devemos reconstruí-los, maiores e mais firmes que antes, para então, quando se provar necessário, recomeçar tudo do início.

Não podemos nos arrogar o posto de senhores da razão, estáticos em nossa sabedoria. Antes de tudo, devemos sempre manter-nos humildes e em constante mudança. Não podemos nos permitir que crenças e esquemas se cristalizem em nós mesmos, ou caso contrário nos tornaremos aquilo que deveríamos combater - fontes de preconceito e estagnação. Devemos, isto sim, nunca nos darmos por satisfeitos, e continuarmos a nos formar, tanto como pessoas quanto como profissionais. Não há uma única maneira certa e clara de fazermos isto, pois se existisse, já teria sido descoberta. Cada um encontra a sua própria, enquanto tenta desvendar seu enigma. Não digo com tudo isto que os psicólogos são os mais importantes de todos os profissionais. Certamente seríamos bastante inúteis sem a ajuda de médicos, engenheiros, faxineiros, pedagogos, nutricionistas e sabe-se lá mais que outras profissões eu poderia citar aqui! O que desejo demonstrar é que temos uma importância igual as demais, só que deveras singular se comparada com elas.

Realmente não sabia o que esperar da Psicologia quando entrei na faculdade, e sou incapaz de recordar com precisão o que realmente imaginava que estava por vir. Talvez eu acreditasse que veria coisas mais "técnicas" e "objetivas", ou que a coisa mais importante seriam minhas leituras. Só agora começo a vislumbrar que o que realmente importa é o que nos tornamos com tudo o que vemos e vivemos, Sócrates modernos, tentando conhecer a si mesmos, para ajudar os outros a fazer o mesmo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Minha Universidade em Fotos

Foto em preto e branco do prédio do Parobé, sede do curso de Engenharia Mecânica da UFRGS (eu acho).

Faz algum tempo que estou pensando em pegar minha máquina digital e sair fotografando os prédios da UFRGS, mas eu nunca tinha tempo. Esta tarde participei de um minicurso (frustrado) de fotografia digital no Salão de Extensão. Tirei a foto em preto e branco por que, teoricamente, iríamos a recolorir depois com o Photoshop, mas como faltou luz justamente na sala onde iríamos fazer isto, tivemos que largar a idéia de mão. Hopefully, sexta-feira retomaremos o minicurso. Mas acho que vou tirar outras fotos, de outros prédios, e talvez uma foto do Parobé colorida.

At long last...

Rock on.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dias de Treino

Vencendo uma forte onda de marasmo que corria por meu corpo, fui treinar na academia ontem à noite. Impressionante como, por mais que eu saiba que eu nunca me arrependo de treinar, eu quase sempre tenha que ultrapassar uma forte barreira inercial. Como sempre, valeu à pena caminhar à noite pelas ruas de Porto Alegre para exercitar não só meu corpo como minha mente e meu espírito. Mas, desta vez, a satisfação veio de coisas outras além do prazer intrínseco ao exercício físico.

Entrando no local de treino, cumprimentei um dos professores. Ele olhou para meu uniforme e perguntou, à queima-roupa "não recebeu tua faixa nova ainda?". Estou esperando o resultado do exame há mais de dois meses. Toda vez que fazia alguma pergunta relacionada com o exame eu recebia como resposta "calma, tudo a seu tempo". E não precisava nem ser a clássica "passei, Laoshi?". Que ele mencionasse este assunto tão despreocupadamente só poderia ser bom sinal. Fiquei sabendo por uma colega que o pessoal que passou da faixa branca para a faixa amarela já tinha recebido a sua nova "cor". Fiquei levemente preocupado com este novo dado - será que eu não passei?

Planejei perguntar para o outro professor no final da aula, mas não foi preciso. Todos os treinos são estruturados da mesma maneira: começa todo mundo se aquecendo e alongando, depois se treina coletivamente as quatro primeiras formas, e, então, dependendo do que o professor tem em mente, divide-se o grande grupo pelo nível de treinamento - faixas brancas para lá com o monitor, faixas amarelas e o cara quase passando pra amarela ali e faixas verdes para cima do lado da janela. As formas funcionam um pouco como uma peneira. Todo mundo faz as duas primeiras, só a metade faz a terceira, e a última só três ou quatro já conseguem fazer, por ser do "currículo" da faixa verde. Eu sempre ia até a última forma junto com os faixas verdes, mas era mandado para treinar com os faixas amarelas. Isto já estava me incomodando. Não que eu me ache melhor que todos os outros faixas amarelas, mas andei treinando com um pessoal que me dava a impressão de fazer corpo mole, o que realmente me irritava. Ontem foi diferente. No clássico momento de dividir a turma, o professor falou "todos os faixas amarelas pra lá, menos o Andarilho" (obviamente ele me chamou pelo meu nome verdadeiro, mas isto não importa aqui). Pela primeira vez, treinei como um faixa verde de verdade. Já treinara anteriormente com os faixas verdes, mas por que era o único faixa amarela do horário, e não fazia sentido treinar com os faixas brancas. Ontem foi bem diferente.

E ontem eu senti dificuldade em acompanhar os outros. Fomos instruídos a treinar uma forma específica, que ainda não sei por inteira. Não consegui acompanhar os outros. Na hora de treinar as técnicas de torções, bobeei e tomei um cotovelaço na cara. Claro, não era a intenção do meu colega me acertar: simplesmente, eu estava trabalhando em uma velocidade aquém da necessária. Ele compreendeu isto, mas poderia ter interpretado como sendo má vontade ou preguiça. Por isso não acho que tenho mais direito de ficar nervoso com meus outros colegas. Nada que um cotovelo na bochecha não mude, não? Para minha sorte, ele não estava com tanto ânimo, e não me nocauteou.

No final do treino, depois das duas séries de flexões saltitantes, quando já estava indo para o vestiário, o monitor me chamou, e perguntou se eu não estava interessado em participar do campeonato de Kung Fu que vai acontecer em novembro. Fiquei pensando no que teria levado ele a perguntar isto justamente para mim. Sou tão bom que eu poderia competir? Meu ego gostou desta alternativa, mas refutei-a rapidamente porque... bem... eu não sou tão bom assim! Preciso treinar muito mais! Isto me levou a pensar "ele tem alguma coisa a ver com a organização e tá ganhando um por fora por cada competidor inscrito", hipótese que me levou a perguntar quem estava organizando o campeonato (se ele dissesse que era alguma organização da qual ele era membro, já saberia a resposta). Mas, pelo que pude inferir, ele não tem nada a ver com a história. Então me caiu a ficha. Uns tempos atrás, um dos professores me falou que só competia faixa verde pra cima. Na verdade, ele se referia aos campeonatos de luta, mas eu nunca fiquei sabendo de nenhum faixa amarela competindo em formas. Fui feliz da vida para casa.

Astrofísica do Saco Cheio

A primeira aula da tarde está tão chata que eu receio que um vórtex de tédio surgirá da nossa sala de aula e sugará todo o universo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Crueldade e Ética na Internet

Hoje tive a graça de entrar no blog Ballastexistenz, que há tempos não lia, e dei de cara com o texto "Internet Eugenics". Certamente o título do texto chamou minha atenção, mas quando comecei a ler, percebi que ele era baseado grandemente em um outro texto, "The Trolls Among Us". Resumidamente, eles falam sobre um assunto muito antigo e muito humano, a crueldade humana, mas em um contexto relativamente recente, a internet.

Na famosa rede mundial de computadores, nasceu e existe uma subcultura, cujos membros são chamados de "trolls". Trolls são pessoas que se divertem incomodando os outros, escrevendo comentários intencionamente ingênuos, irrelevantes ou irritantes, com o objetivo de ver as reações alheias, e ver quem cai na brincadeira. Nos primórdios da internet, nos anos 1980, ficava só por isso mesmo, mas atualmente a coisa é muito mais séria: há casos de bullying pela internet, violação de propriedade e ameaças de morte. Bem, não acho necessário ficar relatando estes causos em detalhes, pois está tudo nos artigos que linkei aqui. O que importa aqui é que coisas muito violentas acontecem, e tudo por que alguns indivíduos querem dar umas risadas - they did it for the lulz. Não que isto seja algo inédito na história da humanidade, mas o fato de que qualquer pessoa com uma conexão à internet, um pouco de paciência e disciplina e muita vontade de fazer mal aos outros possa fazer isto, e de forma absolutamente anônima é sem precedentes.

Coisas como estas fazem pipocar na minha mente o velho argumento de que o ser humano é uma criatura essencialmente má, anti-social e egoísta que precisa refrear seus impulsos mais profundos e verdadeiros, sublimá-los em formas mais positivas e altruístas de comportamento para ser-lhe permitido viver em sociedade e portanto sobreviver e perpetuar seus genes. Não tenho certeza se Freud foi o primeiro a desenvolver este argumento, mas certamente seus artigos e pontos de vista são os mais conhecidos no mundo inteiro, seja por cientistas sociais ou pessoas leigas no assunto. De forma grosseira e sucinta, concordar com Freud é aceitar que as pessoas consideradas mais puras por nós são na verdade as mais desonestas de todas, e que nossa espécie não tem salvação, pois eventualmente os nossos desejos mais profundos serão libertados, e destruiremos a nós mesmos.

Mas além de lembrar-me do velho Sigmund, estes textos fizeram-me relembrar um outro texto que li em um blog por aí, "Fragmentos da Sociedade Virtual", do Saíndo da Matrix. Neste artigo, o autor fala de sua experiência como jogador de um Massive Multiplayer Online Role-Playing Game (MMORPG), Lineage II. Como nos dois textos anteriores, o assunto deste artigo são as relações sociais criadas no jogo, que funciona de muitas maneiras como uma feira livre medieval, com livre comércio, lutas com monstros demoníacos e interação entre jogadores. O autor fala que é como ver uma sociedade, primitivamente sem regras, formar-se e estabelecer códigos de conduta próprios. E, no jogo, a prática de atacar outros jogadores é desencorajada de todas as maneiras: você não ganha nem experiência, nem dinheiro, e seu nome fica marcado em vermelho, indicando que você é um PK (Player Killer). E, apesar de todas estas desvantagens, sempre existem PKs. Sempre há quem esteja disposto a matar seus iguais apenas por poder fazer isto. Fazendo um pequeno paralelo com a sociedade, é um fenômeno parecido com a Sociopatia, que em longo prazo, não traz nenhum benefício para ninguém, nem para a sociedade, nem para o sociopata. Isto poderia ser apontado como mais uma prova da maldade intrínseca do ser humano. Mas, neste mesmo jogo, existem pessoas heróicas, que arriscam suas vidas para caçar os PKs, e contribuir para o bem comum. E mesmo em assuntos menos dramáticos, a boa vontade e a sinceridade parecem ser mais a regra do que a exceção ali. Os MMORPGs seguem regras próprias, mas estão sempre subordinados às regras sociais humanas mais amplas, pois nada mais são do que grandes aglomerados de pessoas, convivendo e buscando seus próprios objetivos. E lembro-me de Carl Rogers, que dizia que a essência mais verdadeira do ser humano é positiva e boa, sendo a maldade apenas a distorção dos nossos impulsos mais profundos, de amor e crescimento.

domingo, 31 de agosto de 2008

Sorte Orkutiana do Dia (Parte 5)

Sorte de hoje: Não deixe que os amigos abusem de você. Trabalhe com calma e em silêncio.

Porque toda vez que vejo esta sorte a expressão "estupro consentido" vem à minha mente?

Um Sentido e algumas coisas aleatórias

Eu devia estar dormindo, pois já são 5 da manhã, e além de eu não ter nenhum trabalho de faculdade urgente por fazer, amanhã eu tenho que estar de pé e alerta às 10 da manhã, pois o caminhão com as tralhas da minha mãe chega mais ou menos nesta hora. O que me manteve acordado foi a necessidade de escrever um texto sobre a minha possível experiência de estágio, e como isto pode influenciar em minha formação. Não é frescura, mas necessidade mesmo! Chega um ponto em nossas vidas que coisas que antes eram apenas atividades de lazer tornam-se tão importantes quanto comer ou respirar. O Viktor Frankl conta, em um de seus livros, uma história que, quando da iminente evacuação de um campo de concentração, os prisioneiros esvaziaram as prateleiras da biblioteca do comandante do campo. Ele faz um comentário que, nessas horas, o espírito é mais importante que o estômago. Tenho que concordar com ele. Sinto-me muito mais satisfeito agora, por ter escrito algo que há tempos vem me incomodando, do que se tivesse ido dormir. É como se eu tivesse feito algo mais duradouro e importante para a humanidade ao privar-me do meu descanso que se tivesse sido indulgente comigo mesmo.

Also, eu escrevo frases mais compridas quando estou cansado.
Estou levemente chapado de sono. Levemente, apenas.

A Faculdade, os Estágios e Tudo Mais

O ensino superior, e os cursos de graduação de forma especial, tem entre seus principais objetivos a formação de profissionais capacitados para o mercado de trabalho. Isto envolve muitos fatores, como o ambiente de ensino, a relação com os professores, a teoria ensinada, a perspectiva de emprego após a formatura e o que se faz nos estágios. Isso tudo acaba por formar um certo tipo de personalidade - estudantes de Engenharia tornam-se mais metódicos com o tempo, estudantes de Filosofia mais questionadores, estudantes de Geologia tornam-se mais maconheiros. Claro, poderia-se afirmar que os cursos, devido às suas estruturas, já atraem pessoas com estes traços de personalidade, mas acredito ser inegável que com o tempo eles são reforçados e aprofundados.

Isto acontece de forma ainda mais dramática na Psicologia. Para ser um psicólogo, é necessário primeiro desenvolver uma personalidade sintonizada com o campo de trabalho, para poder utilizar com sucesso as técnicas ensinadas durante o curso. Por isso, acredito ser especialmente crítico os locais onde nos formamos enquanto "seres-psicólogos". Há dois tipos principais de locais de formação: a instituição de ensino e os locais de estágio. Também poderia incluir nesta lista os "locais e/ou oportunidades de extensão" e "grupos de pesquisa", mas como estes dois últimos geralmente são muito parecidos com locais de estágio, ou são muito ligados à instituição de ensino, preferi não diferenciá-los, apesar de também considerá-los de extrema importância para a formação do profissional em Psicologia.

A instituição de ensino nos influencia desde o primeiro dia de aula, até mesmo desde antes, como foi meu caso. Estudo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das maiores e mais prestigiosas universidades do Brasil inteiro. Não acho que isto influencie positivamente na formação de melhores psicólogos, mas certamente forma um estilo de agir diferenciado. O Instituto de Psicologia onde estudo é relativamente isolado das demais unidades orgânicas (faculdades, institutos e escolas), mas é impossível fugirmos do fato de que estamos inseridos em uma universidade enorme e cheia de diferenças. Um bom exemplo disto é a maneira como o REUNI, projeto de expansão das universidades federais, leva estudantes de diversos cursos e campi a reunirem-se no DCE para discutir como ele está sendo implantado e quais serão as conseqüências futuras disto. Mas além disto e apesar de nosso relativo entrincheiramento, por estudarmos em uma universidade plural e gratuita, temos literalmente centenas de oportunidades para expandirmos nossas visões com pessoas de outros cursos e locais - seja fazendo eletivas no Campus do Vale, cursos de extensão no Campus Centro, ou simplesmente indo jogar sinuca no Diretório Acadêmico da Comunicação (DACOM) com os malucos do jornalismo. Certamente, uma pessoa que estuda na Universidade de Caxias do Sul (UCS) também tem muitas oportunidades de fazer coisas semelhantes, mas muitas destas serão mediadas e/ou atrapalhadas pelo fato da UCS ser um monstro parasita que suga dinheiro de seus alunos particular. Até é possível para um estudante de Psicologia fazer umas disciplinas da Biologia, só que daí sai mais caro, e não é muito convidativo. A Lady Hell não me deixa mentir quanto a isto.

As características do nossa unidade em particular também são de grande importância. No Instituto de Psicologia, recebemos uma formação teórico-filosófica muito mais sólida do que em muitas outras universidades, além de sermos enormemente incentivados a participarmos de pesquisas (talvez) inéditas e dos aspectos políticos e burocráticos de nossa formação. Eu, por exemplo, participo ativamente das políticas estudantis do Diretório Acadêmico de Psicologia (DAP), sendo membro da comissão responsável pela formulação e estruturação dos estágios curriculares e metendo o bedelho constantemente em assuntos diretamente relacionados com nossa formação, como qualidade das aulas e do material à nossa disposição, além de trabalhar como bolsista de Iniciação Científica do Laboratório de Fenomenologia Experimental, que lida majoritariamente com pesquisa básica (isto é, não aplicável diretamente a situações da vida real). Um exemplo de atividade de extensão em que participo é o projeto "Juventude em Cena", do qual sou monitor.

Todas estas experiências certamente marcam minha formação, e se alguma delas tivesse ocorrido de forma diferente, eu também seria diferente. Talvez muito diferente. Por exemplo, se ao invés de ter entrado na UFRGS, eu tivesse entrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), eu estaria envolvido por contingências sociais completamente diferentes: teria que pagar pela matrícula, seria um chinelão entre os ricaços, teria que pegar ônibus para ir e voltar das aulas, não teria conhecido as mesmas pessoas, estaria em uma instituição completamente diferente, e muitas outras coisas que sou incapaz de enumerar aqui. Outro bom exemplo é o ano de meu ingresso: entrei em 2007. Se tivesse entrado em 2006, eu seria colega direto do Bruno e do Marcelo, estudaria o currículo antigo e provavelmente teria me incomodado com o processo de reforma curricular. Da mesma forma que se tivesse ingressado em 2008, eu estaria muito mais tranqüilo, pois haveria à minha frente a turma de 2007 se ferrando (muito mais) com os imprevisíveis ajustes curriculares.

Bem, acho que estou fazendo digressões demais. O que quero dizer de fato é que, a mudança de um fator me tornará um estudante diferente, e no futuro, um psicólogo diferente. E para piorar a situação, sou incapaz de prever quão diferente serei, pois não posso executar um "programa de simulação profissional", que reuna todas as variáveis envolvidas, faça alguns cálculos e me apresente resultados sobre minha personalidade futura. Devo fazer a disciplina eletiva de Análise Experimental do Comportamento ou Pesquisa em Psicanálise? Dou preferência para os textos de Avaliação Psicológica ou Psicopatologia II? E aqui, chego no ponto que me levou a escrever tudo isto: e estágio, onde eu faço?

Os estágios influenciam nossa maneira de agir tanto quanto a instituição de ensino em si, mas de uma maneira qualitativamente diferente, pois, ao contrário da universidade, que é predominantemente teórica e envolta em uma "bolha asseptica" (há quem diga que é uma torre de marfim), nos estágios somos jogados no meio da sujeira da vida real, prática, onde os livros são de pouca ou nenhuma valia para nós. Talvez meu professor de Filosofia fique impressionado com o fato de eu ter lido "O Ser e o Nada" inteiro (não, eu não li nada), mas o médico que manda em mim no meu estágio no Hospital de Clínicas só vai achar isto interessante na medida que servir para alguma coisa, como varrer o chão ou fazer aquele pirralho chato parar de chorar. OK, estou exagerando um pouco, e tecendo muitas fantasias, pois nem comecei a fazer estágio ainda. Mas acho que não estou tão longe da realidade aqui.

Acho que a influência dos estágios também é mais crítica que a maior parte de nossas horas/aula por que, além de serem predominantemente práticos e realistas, nós escolhemos onde vamos fazê-los. Melhor dizendo, escolhemos onde queremos competir por uma vaga como estagiário, pois, excetuando o fato de que não somos pagos e não sabemos nada, é um trabalho como qualquer outro. Mesmo em um mundo ideal, onde pudéssemos estagiar no local que mais nos agrada, teríamos que escolhê-lo, e renunciar a todos os outros possíveis locais. Um local de estágio é, de certa forma, uma microcultura, com suas práticas, piadas internas e gírias, e é muito provavelmente irrepetível. O Marcelo esses dias me falou como há um cachimbo de crack pendurado na parede do seu posto de saúde, e que os residentes de Medicina com quem ele trabalha chamam bebês com menos de 1kg de "abortinhos"; o Bruno me falou como todos os estagiários do ambulatório onde ele trabalha podem prescrever receitas médicas; e eu mesmo poderia escrever um post inteiro sobre como eu fiquei rindo com meus "empregadores" na entrevista de seleção para bolsista e das minhas tentativas de fazer com que uma guria pare de chutar os outros no Juventude em Cena. As combinações de variáveis envolvidas em cada uma destas situações são únicas, e apresentam forças e fraquezas próprias. Não posso mudar o que já se passou comigo, e acho que mesmo se pudesse não o faria. Contudo, sou levado a pensar: onde devo fazer meus estágios curriculares?

Antes de tentar responder esta pergunta, devo dizer que não sei nem mesmo COMO serão meus estágios, burocraticamente falando. Teoricamente, eu já deveria estar fazendo o Estágio Básico I, que seria uma introdução ao campo de trabalho, mas isto foi adiado para o próximo semestre, pois não se sabia como esta introdução seria feita - e ainda não se sabe. Mais para o final do curso, terei que fazer os estágios de ênfase. Estes, apesar de já serem um pouco mais estruturados por "canibalizarem" os estágios curriculares do antigo testamento currículo, serão provavelmente muito modificados, graças à uma resolução do Conselho Nacional de Educação, que corta o número de horas de estágio do nosso currículo em praticamente dois terços. Assim, qualquer coisa que falar aqui pode mudar de uma hora para a outra. Isso dá um sabor de aventura para a faculdade, mas não deixa de ser uma bela merda também quando se quer predizer qualquer coisa a nosso respeito. Outra coisa que torna meu exercício de olhar no futuro um tanto quanto inconsistente é o fato de conhecer poucos locais onde o pessoal faz estágio. Ainda assim, falarei o que sei a respeito deles, e o que os torna atraentes ou não para um futuro estagiário como eu.

O local de estágio mais clássico para estudantes de Psicologia de Porto Alegre é o Hospital Psiquiátrico São Pedro, vulgo "Glorioso" (porra nenhuma). É cheio de história, coisas por fazer e internos que provavelmente morrerão ali dentro, além de ser um prédio absolutamenta pavoroso para se andar à noite. O que não me atraí nele é o fato dele estar intimamente ligado aos Departamentos de Psicanálise e Psicopatologia e de Psicologia Social e Institucional. Ou seja: é um antro de psicanalistas e esquizoanalistas.

Outro local de estágio clássico para os estudantes do Campus Saúde é o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o maior da rede pública municipal (não sei se esta afirmação é correta por fazer parte da autarquia federal que é a UFRGS). Devem existir muitas seções, departamentos e serviços interessantes para conhecer ali dentro - o que um estagiário poderia muito bem fazer - mas dois chamam minha atenção mais fortemente: o Serviço de Psiquiatria e o Serviço de Neuropsicologia. O primeiro por ser, sem exagero, um importante centro mundial de pesquisas em saúde mental, e o segundo por ser oferecido explicitamente como local de estágio para nós, e uma inesgotável fonte de interesse para mim. Contudo, o HCPA me parece um pouco menos atraente justamente por ser parte da UFRGS e provavelmente compartilhar de seu modo de pensar. Claro, não há só psicólogos por lá, como também enfermeiros, nutricionistas, (principalmente) médicos, farmacêuticos e muitos outros tipos de profissionais que sou preguiçoso demais para ficar imaginando (terapeuta floral não deve ter). Isto certamente deve dar ao HCPA um clima mais pragmático e aberto, mas posso estar muito enganado. Seria um local perto de casa, pelo menos.

As duas "cerejas do bolo" são o Instituto Psiquiátrico Forense (IPF) e o ambulatório coordenado pelo meu professor de Genética, o Renato Flores. Acho o IPF altamente interessante justamente por não ser uma instituição de saúde mental, mas um presídio para criminosos que foram consideradospsicologicamente deficitários ou doentes, mas ainda perigosos demais para um hospital geral ou psiquiátrico. Em outras palavras, loucos perigosos. OK, talvez não, mas com certeza meu pai vai ter um treco quando ler que eu cogito pleitear uma vaga de estágio num local cheio de assassinos mais mentalmente instáveis do que assassinos costumam ser. O IPF tem dois problemas em potencial: o primeiro deles é que não sei se vou me relacionar com os internos ou ficar só cuidando da papelada para os psiquiatras. Acho que é óbvio que, se quero voluntariamente estagiar em um local cheio de loucos ditos perigosos, não é pra cuidar da burocracia. Saber se este problema é real ou não é fácil, pois uma veterana minha já está fazendo estágio lá, e basta perguntar para ela qual o trabalho de estagiário por lá. O segundo problema é mais complicado: por questões burocráticas, talvez a vaga no local cesse de existir. Como não tenho informações mais precisas a respeito disto, prefiro não fazer nenhum comentário.

O ambulatório do Renato Flores localiza-se no Campus do Vale, anexo ao prédio do Departamento de Genética, e atende basicamente casos de violência e doenças genéticas. Só isto já seria o bastante para despertar meu interesse, mas o fato dele ser cordenado pelo Renato Flores o torna fascinante. Não que o Flores seja bonito ou algo assim. Beeem pelo contrário. Mas a personalidade dele lembra muito a do Dr. House. Ele tem um advogado à disposição do ambulatório, e o último e-mail que recebi do professor sobre as aulas de genética terminavam com a frase "Nós vamos acompanhar a situação e , caso não ganhe a cadeira vamos entra na justiça para defender o direito do guri". CA-RA-LHO. Só pode ser empolgante trabalhar num lugar assim. Mas talvez eu esteja idealizando, e seja tudo uma bela merda (o Bruno provavelmente poderia me esclarecer este fato, e na verdade, já esclareceu essa semana, quando me disse que começou a receber casos cada vez mais escabrosos. E "escabroso" no meu léxico é sinônimo de "foda" e "divertido"). Virtualmente, é um local de estágio perfeito, excetuando-se o fato de estar encravado no meio do território da UFRGS, e, talvez esteja impregnado demais com a "Urguianidade" que me cerca no Instituto de Psicologia (se bem que deve ser difícil).

Também existe a possibilidade de fazer estágio em uma das muitas clínicas psicológicas particulares espalhadas pela cidade, como o Instituto Delphos de Psicologia Humanista, o Instituto Wilfred Bion de Psicanálise e a Clínica WP, só para ficar nas que eu lembrei agora. Eu provavelmente entraria em contato com muitas pessoas diferentes e exerceria o papel de psicoterapeuta, o que já é interessante em si, mas não veria muito mais do que isto. Em outras palavras, seria uma experiência pobre em estímulos distintos, e um hiperativo como eu quer novidades.

Por fim, o último local de estágio que consigo pensar são os postos de saúde. O Marcelo estagia num desses. Não me parecem ser especialmente interessantes, simplesmente por serem comuns e com poucos atrativos. Metaforicamente, se eu fosse uma criança, o IPF ou o ambulatório do Renato Flores seriam uma loja de doces e um parque de diversões, enquanto o posto de saúde seria uma biblioteca. Obviamente a loja de doces (com cartão) e o parque de diversões são muito mais atraentes e encerram muitas possibilidades em si mesmas. Mas isto não significa que eu não possa aprender muito mais na biblioteca se eu me aplicar para tanto. Claro, quem me conhece atualmente com certeza diria que eu preferiria os livros aos doces e aos brinquedos, mas não sou capaz de dizer se um possível estágio em posto de saúde seria tão positivo quanto imagino que os outros dois locais seriam. O Marcelo me relata casos interessantes que ele vê lá, e discussões com os residentes de Medicina que não encontram igual em nenhum outro lugar da UFRGS, quiçá de Porto Alegre. Pode ser que eu acabe num destes, e goste muito da experiência. Sei lá.

Colegas que leram este post, especialmente vocês dois que eu citei ad nauseam, deixem seus comentários a respeito do que disse aqui, especialmente se vocês discordarem de algo!