terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dias de Treino

Vencendo uma forte onda de marasmo que corria por meu corpo, fui treinar na academia ontem à noite. Impressionante como, por mais que eu saiba que eu nunca me arrependo de treinar, eu quase sempre tenha que ultrapassar uma forte barreira inercial. Como sempre, valeu à pena caminhar à noite pelas ruas de Porto Alegre para exercitar não só meu corpo como minha mente e meu espírito. Mas, desta vez, a satisfação veio de coisas outras além do prazer intrínseco ao exercício físico.

Entrando no local de treino, cumprimentei um dos professores. Ele olhou para meu uniforme e perguntou, à queima-roupa "não recebeu tua faixa nova ainda?". Estou esperando o resultado do exame há mais de dois meses. Toda vez que fazia alguma pergunta relacionada com o exame eu recebia como resposta "calma, tudo a seu tempo". E não precisava nem ser a clássica "passei, Laoshi?". Que ele mencionasse este assunto tão despreocupadamente só poderia ser bom sinal. Fiquei sabendo por uma colega que o pessoal que passou da faixa branca para a faixa amarela já tinha recebido a sua nova "cor". Fiquei levemente preocupado com este novo dado - será que eu não passei?

Planejei perguntar para o outro professor no final da aula, mas não foi preciso. Todos os treinos são estruturados da mesma maneira: começa todo mundo se aquecendo e alongando, depois se treina coletivamente as quatro primeiras formas, e, então, dependendo do que o professor tem em mente, divide-se o grande grupo pelo nível de treinamento - faixas brancas para lá com o monitor, faixas amarelas e o cara quase passando pra amarela ali e faixas verdes para cima do lado da janela. As formas funcionam um pouco como uma peneira. Todo mundo faz as duas primeiras, só a metade faz a terceira, e a última só três ou quatro já conseguem fazer, por ser do "currículo" da faixa verde. Eu sempre ia até a última forma junto com os faixas verdes, mas era mandado para treinar com os faixas amarelas. Isto já estava me incomodando. Não que eu me ache melhor que todos os outros faixas amarelas, mas andei treinando com um pessoal que me dava a impressão de fazer corpo mole, o que realmente me irritava. Ontem foi diferente. No clássico momento de dividir a turma, o professor falou "todos os faixas amarelas pra lá, menos o Andarilho" (obviamente ele me chamou pelo meu nome verdadeiro, mas isto não importa aqui). Pela primeira vez, treinei como um faixa verde de verdade. Já treinara anteriormente com os faixas verdes, mas por que era o único faixa amarela do horário, e não fazia sentido treinar com os faixas brancas. Ontem foi bem diferente.

E ontem eu senti dificuldade em acompanhar os outros. Fomos instruídos a treinar uma forma específica, que ainda não sei por inteira. Não consegui acompanhar os outros. Na hora de treinar as técnicas de torções, bobeei e tomei um cotovelaço na cara. Claro, não era a intenção do meu colega me acertar: simplesmente, eu estava trabalhando em uma velocidade aquém da necessária. Ele compreendeu isto, mas poderia ter interpretado como sendo má vontade ou preguiça. Por isso não acho que tenho mais direito de ficar nervoso com meus outros colegas. Nada que um cotovelo na bochecha não mude, não? Para minha sorte, ele não estava com tanto ânimo, e não me nocauteou.

No final do treino, depois das duas séries de flexões saltitantes, quando já estava indo para o vestiário, o monitor me chamou, e perguntou se eu não estava interessado em participar do campeonato de Kung Fu que vai acontecer em novembro. Fiquei pensando no que teria levado ele a perguntar isto justamente para mim. Sou tão bom que eu poderia competir? Meu ego gostou desta alternativa, mas refutei-a rapidamente porque... bem... eu não sou tão bom assim! Preciso treinar muito mais! Isto me levou a pensar "ele tem alguma coisa a ver com a organização e tá ganhando um por fora por cada competidor inscrito", hipótese que me levou a perguntar quem estava organizando o campeonato (se ele dissesse que era alguma organização da qual ele era membro, já saberia a resposta). Mas, pelo que pude inferir, ele não tem nada a ver com a história. Então me caiu a ficha. Uns tempos atrás, um dos professores me falou que só competia faixa verde pra cima. Na verdade, ele se referia aos campeonatos de luta, mas eu nunca fiquei sabendo de nenhum faixa amarela competindo em formas. Fui feliz da vida para casa.

2 comentários:

Lady Hell disse...

Essa história de "Tenho que treinar muito ainda" é bem coisa de quem faz Kung-Fu. O Manuel vive me dizendo isso. Não que eu discorde, mas enfim, vocês me fazem pensar que é muito mais foda do que talvez devesse ser.

Feliz "faixa-verde" pra ti, hehehe!

=*

Andarilho disse...

Lady, não é tão difícil assim, só que leva muito tempo para se ficar realmente bom, e muita gente com potencial desiste bem antes disso. Pensando no plano cartesiano, sendo o eixo X tempo e o eixo Y a dificuldade, a linha do Kung Fu seria mais ou menos 45 graus. Cretina essa minha exposição, mas acho que é por aí mesmo.

Agora que a coisa é oficial, obrigado. ;)