sábado, 29 de novembro de 2008

Time after Time

Com as férias se aproximando, começo a pensar um pouco na experiência de fazer faculdade. Sempre tive a impressão que cada mudança de semestre acarreta não só uma alteração na organização do tempo, mas também do espaço. Sempre volto para o mesmo prédio, mas nunca para a mesma faculdade, ou, melhor dizendo, descubro alguma coisa nova sobre ela e passo a enxergá-la sob outro prisma. Creio que isto ocorre graças ao fato de nunca termos aula na mesma sala por dois semestres seguidos, mas também pelos conteúdos, professores e mesmo colegas que sempre mudam.

A passagem do primeiro para o segundo semestre foi estranha - ainda era bixo, verde na UFRGS, mas tinha adquirido um saber que me deixava quase em pé de igualdade com muitos de meus veteranos.

A passagem do segundo para o terceiro semestre foi ainda mais estranha, pois, finalmente, deixava de ser calouro e tornava-me eu mesmo um veterano de pleno direito, e junto com meus colegas adotava os recém-chegados como protegidos.

A passagem que se aproxima transformará os meus bixos, aquelas criaturinhas ingênuas, bobocas e perdidas que acolhi um ano atrás em também veteranos, enquanto eu caminho a passadas largas em direção à antigüidade de um "vôterano" (o Marcelo e o Brunão, por sua vez, vão virar bisavôteranos). Na verdade, dizer que mudar a folhinha do calendário e o fim das aulas nos transforma em algo é incorreto, pois passamos o ano inteiro nos metamorfoseando, nos tornando algo diferente e (esperamos) melhor, e o fim do semestre apenas oficializa nossa chegada a um ponto de referência desse nosso crescimento fluido, por onde todos os que fizeram faculdade antes passaram, mas que no final das contas não quer dizer muito.

Dito isso, mal posso esperar para ver as caras novas que irão habitar o nosso prédio conosco no próximo ano.

As Provações da Faculdade XXXII

Lá vou eu fazer meu último trabalho de Psicopatologia II. Que merda.

Ciência da Desorganização

Tenho a seguinte teoria: quanto mais sujo e desarrumado for um local da casa, mais importante ele é. Segue foto da mesinha do meu computador, que corrobora esta hipótese.


Dei uma limpada nela, e tirei os copos e pratos dali, mas continua uma baderna.

Uma conversa sobre a importância da Psicologia

O texto que segue é uma formatação mais bonitinha de uma conversa que tive com uma amiga e colega de curso, a Pri. Quisera eu ter tido essa conversa antes de entregar meu trabalho de Ética, pois nele são expressas idéias que há tempos tento formular. Agradeço à Pri por me deixar publicar nossa conversa e, obviamente, por tê-la construído comigo. Para os mentalmente lentos, Heart of Sword sou eu, Pri Zorzi é minha amiga, e colori as nossas falas de forma diferente para nos diferenciar. Lá vai:

Pri Zorzi diz:
Ah, essa fala-vômito...

Heart of Sword diz:
Tô fazendo uma fala-meio-vômito agora, no sentido que não paro de digitar. Tô elaborando o que diabos me irrita nele.

Pri Zorzi diz:
Eu to tentando pensar também. Mas falei fala-vômito no sentido de que fede, é nojento, e de onde veio essa sempre tem mais. E uma fala-vômito não raro incita outras...

Heart of Sword diz:
Ah sim, da mesma forma que uma fala inteligente estimula outras (Mas que pode também ser soterrada por vômito, como aconteceu com uma pergunta que eu fiz na aula de Ética e que foi sumamente ignorada, apesar de sua genialidade).

Pri Zorzi diz:
Huahuahua... Que pergunta era? (e não te esqueça que a aula era Ética, aonde falas-vômito ganham um bônus +4)

Heart of Sword diz:
Pra que servem os psicólogos, e por que não deixamos tudo na mão dos psiquiatras?

Pri Zorzi diz:
É uma boa pergunta, mas tu acha mesmo que psicólogos são desnecessários?

Heart of Sword diz:
Se eu achasse que a Psicologia é desnecessária, eu já teria largado o curso. Pra falar a verdade, acho que ela é muito útil, necessária, até, só que eu queria ver o que meus colegas iriam dizer. Não foi uma provocação, foi um chute na boca do estômago da turma pra fazer ela falar... Ou pelo menos deveria ter sido, considerando que a única resposta direta à pergunta foi uma colega minha choramingando que a gente é muito submisso aos médicos.

Pri Zorzi diz:
Eu sei, e eu acho que daria uma excelente discussão. O pessoal às vezes tem medo de pensar a utilidade do curso, talvez com medo de constatar que a Psicologia pode ser suplantada por outras coisas. Mas as pessoas da turma normalmente ignoram perguntas assim. Todas as turmas.

Heart of Sword diz:
Não tinha formulado dessa maneira. Eu pensei que era mais uma coisa de "naturalizar" a importância do psicólogo, como se a importância da Psicologia fosse como a importância do ar ou da água pra humanidade, pedantismo.

Pri Zorzi diz:
É que todo mundo sabe que a Psicologia esbarra em várias outras áreas do conhecimento. O que eu acho muito natural, visto que os possíveis "objetos de estudo" da Psicologia são abrangentes, mas acho que as pessoas tem muito medo disso. Eu acho Psicologia super importante. Mas eu prefiro um psiquiatra bom do que um psicólogo ruim. Pra qualquer função.

Heart of Sword diz:
A Psicologia não tem um objeto de estudo ou área que seja só dela.

Pri Zorzi diz:
Claro que não. E por que deveria? Pra assegurar mercado de trabalho, só se for.

Heart of Sword diz:
Não acho que deveria.

Pri Zorzi diz:
Eu sei que tu não acha. Se achasse não teria problematizado a questão, mas muita gente acha, creio eu.

Heart of Sword diz:
É que fica uma coisa meio... "se outros podem fazer, psicólogo não é necessário de verdade". O que, claro, não é verdade, mas a sensação fica.

Pri Zorzi diz:
Algum professor em algum momento comentou (lamento não lembrar mais) que basta a gente ser bom no que faz que sempre vai ter trabalho pra gente. Acho que Psicologia é antes de tudo um olhar diferenciado.

Heart of Sword diz:
Esses tempos eu pensei em um exercício filosófico interessante para identificar a importância da Psicologia. Imagina que cai um avião no meio da Amazônia com um engenheiro, um médico, um militar e um psicólogo (todos sobrevivem, só pra constar).

Pri Zorzi diz:
(sim, imagino)

Heart of Sword diz:
Os três primeiros tem funções óbvias no grupo: descobrir um jeito de voltar pra casa, cuidar da saúde do grupo, caça e proteção. E o psicólogo, o que faz? (Um podia ser um zumbi, mas isso não vem ao caso).

Pri Zorzi diz:
Cuida da alimentação, oferecendo seu corpo para ser devorado pelos demais (Subitamente imaginei uma tese de mestrado: "Um psicólogo zumbi seria melhor que um psicólogo comum? Um paradigma ético-estético do mundo capitalístico contemporâneo").

Heart of Sword diz:
Pôr todo mundo sentado em círculo para analisar a dinâmica do grupo? (A professora de Ética e sua dietética poderia cuidar da alimentação. Exceto se ela fosse um zumbi. Daí ela comeria cérebros e deu).

Pri Zorzi diz:
Acho que isso bate um pouco no estereótipo de psicólogo como uma pessoa com cérebro de ameba que faz todo mundo dar as mãozinhas e se sentir melhor. Sério, pra algumas pessoas psicólogo é a mesma coisa que padre. Isso me dá nos nervos.

Heart of Sword diz:
Acho que, nessa situação, o psicólogo poderia trabalhar para manter o grupo coeso. A experiência como um todo é estressante: no meio do mato, com fome, longe de casa, com gente estranha... E, se ele for bem sucedido, pode garantir a cooperação do grupo e, consequentemente, sua sobrevivência.

Pri Zorzi diz:
Sim, foi o que eu pensei... Parece o tipo da situação aonde seria necessário um psicólogo...

Heart of Sword diz:
Isso é tri importante. Qualquer pessoa poderia tomar esse papel para si, mas ter uma pessoa que trabalha exclusivamente com isso é muito melhor (eu imagino). Só que, ao mesmo tempo que é importante, também é ignorado, por que psicólogo "é coisa de puto" ou "charlatão".

Pri Zorzi diz:
Acho que é ignorado por que todo mundo pensa que sabe fazer... Sabe, no estágio de escolar agora eu aprendi bastante coisa sobre a função de um psicólogo. É impressionante como numa escola todo mundo demanda uma escuta: direção, professores, alunos, pais... Todo mundo tem problema pra cacete. Claro, qualquer um poderia oferecer essa escuta, mas eu acho que a gente é treinado pra oferecer uma escuta mais qualificada. É isso o que a maioria das pessoas esquece. Parece que todo mundo nasce meio psicólogo e que a gente passa cinco anos na faculdade catando coquinho.

Heart of Sword diz:
Acho que algumas pessoas leigas poderiam se sair tão bem quanto um psicólogo nesse papel, mas são poucas.

Pri Zorzi diz:
Sim, concordo, tem gente que tem uma sensibilidade natural, sei lá... Mas são poucos. Acho que isso é desvalorizar o saber do psicólogo: achar que qualquer um pode fazer isso. E é muito engraçado que as pessoas acham que tu sabe horrores só por ser psicólogo... Tipo, elas pensam que é só dizer o nome e o psicólogo já pode dar o perfil completo (bom, alguns psicanalistas fazem isso, mas...).

Heart of Sword diz:
Olha, pra ser franco, acho que isso tem seu fundo de verdade - a gente é treinado pra prestar atenção em coisas aparentemente irrelevantes e desconexas e a ligar os pontos entre elas... Daí parece meio mágico. Mas é um troço complicado, e muitos erros acontecem nesse processo.

Pri Zorzi diz:
Pois é, o problema é que as vezes as pessoas esperam muito desse processo. Tipo um professor que te encaminha um aluno e espera que depois de uma ou duas consultas já se note a diferença.

Heart of Sword diz:
Ou o clássico caso da pessoa que tu conhece na festa que, quando fica sabendo que tu é estudante de psicologia diz "tu não tá me analisando?" ou "interpreta esse meu sonho? [segue relato de como ele sonhou que um bisão estuprava sua vó]".

Pri Zorzi diz:
Hahahahahahaha... É, por aí.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dada

Tenho a sensação de que ando negligenciando o blog, mas não tenho nenhuma boa idéia de post. Por isso, catei a imagem mais absurda que pude encontrar em uma rápida pesquisa nos intertubes e a publico aqui. Have fun.

Dramas de Estágio (Parte 8) - O Império Contra-Ataca

Saiu meu primeiro resultado de seleção de estágio! Meus serviços escravos foram gentilmente recusados pelo Serviço de Psicologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Já esperava por isso, pois não me destaquei muito durante a entrevista coletiva. Não falei merda nem nada, mas não fui especialmente criativo ou enérgico.

Ainda assim, eu não sei como conseguiram selecionar alguém só com aquela entrevista coletiva chinelona, onde todo mundo, sentado em um círculo (psicólogo adora essa frescura), falava seu nome e por que gostaria de fazer estágio no HCPA. Disse que não fui especialmente criativo ou enérgico, mas não acho que dê pra dizer que alguém foi isso durante a entrevista. Foi um negócio morno.

Mas, deixando a falsa modéstia de lado, problema deles que não me selecionaram. Para ser sincero, apesar do HCPA ser inicialmente um dos locais que mais me interessavam, ele foi perdendo o apelo com o tempo. Não quero fazer como a raposa de Esopo que diz que as uvas que ele não alcança estão verdes - OK, um pouquinho eu estou fazendo - e o HCPA ainda me parece um lugar bacana para fazer estágio, mas acho que há outros lugares ainda disponíveis para estagiar, e que me possibilitariam excelentes chances de aprendizagem.

Para aqueles que foram selecionados pelo HCPA: minha vingança será maligna. Not.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Regras da Internet aplicadas à Academia

Regra 34: Se você pensou, tem um artigo a respeito.
Regra 35: Se ainda não existe, logo, logo alguém receberá uma bolsa do CNPq para pesquisar a respeito.

domingo, 23 de novembro de 2008

Sorte Orkutiana do Dia (Parte 9)

Eu sei, Sorte do Orkut é chinelagem, mas agora que os vagabundos que administram esse site decidiram mexer seus traseiros gordos e colocar sortes novas no banco de dados, todos os dias vejo uma bobagem nova para comentar. Quando li a de hoje, logo vi que tinha sido traduzida do inglês, pois seu sentido estava levemente deturpado. Por isso, aqui vai ela na língua original:

Today's fortune: A good listener is not only popular everywhere, but after a while he knows something.

OK, por que eu me dei ao trabalho de configurar meu perfil no Orkut para a língua inglesa só para colocar essa fortune aqui? Sinceramente, foi por identificação. Durante meu envolvimento nestas eleições, eu basicamente afinei meus instrumentos de audição que, apesar de serem levemente ruins em determinadas situações, me permitem entender bastante coisa a respeito dos outros. Deve ter alguma coisa a ver com querer ser psicólogo essa viadagem.

Eleições - Epílogo

Continuando o assunto do post anterior, mas começando um texto novo, gostaria de fazer um balanço mais rápido do que aprendi com estas eleições, e como procederei com este novo saber. Não é um texto muito bem estruturado. Apenas escrevi alguns comentários sobre o que penso ser importante dizer a respeito do DCE, suas eleições e como encaro a situação (por que a minha opinião é a mais importante do universo).

Primeiro, concluí que é extremamente importante a união dos estudantes, e que é necessário algum órgão ou instituição política minimamente organizada para aglutiná-los. Porém, este órgão não precisa ser o DCE, nem a política nele feito deve emular o DCE. Com isso, quero dizer que processos eleitorais são desnecessários, pois consomem tempo, dinheiro e, mais importante ainda, energia humana, levantando os ânimos de todos e favorecendo confrontos inúteis e desgastantes. Seria ingenuidade minha acreditar que é possível criar tal órgão no mundo que vivemos, pois, gostando ou não, a maioria das pessoas de hoje vive em um nível de consciência que não permite a existência de uma verdadeira autogestão, e que, mesmo que eu criasse um Diretório Central Alternativo dos Estudantes e ele se tornasse importante, ele rapidamente degringolaria e cairia no jeito antigo de fazer política, com mentiras, jogos de poder e confrontos inúteis.

Segundo, apesar da chapa 1 ter vencido, pretendo trabalhar com eles no próximo ano na construção do Núcleo de Saúde, que integrará os estudantes da área da Saúde da UFRGS e possibilitará uma maior riqueza na formação de todos, mas apenas se tornar-se realidade. Considero este projeto importante demais para deixar de construí-lo, apesar de saber que, da mesma forma que os demais núcleos do DCE, ele também estará completamente infiltrado de politicagens.

Terceiro, por ter conhecido os bastidores das eleições para o DCE, aprendi muito mais sobre o comportamento humano do que se tivesse apenas observado à distância segura, como fiz ano passado. Contudo, considero minha carreira política encerrada, e nas próximas eleições, procurarei outra forma de envolvimento, mas não concorrerei por chapa alguma para vaga qualquer, nem apoiarei ninguém. Se me envolver de forma mais profunda, será na Comissão Eleitoral, abrindo urnas onde for necessário e enchendo o saco dos candidatos para na colarem cartazes onde não devem e não achacarem ninguém para votarem neles. Ainda assim, tenho a impressão de que serei muito mais uma babá zelosa das chapas do que um jogador ativo, pois a sensação de que é tudo uma grande brincadeira continua.

Quarto, para as valorosas pessoas que se interessam por política e querem participar das próximas eleições do DCE, deixo um conselho: vá em frente, pule de cabeça, distribua panfletos, passe em salas de aula, cole cartazes, mas não espere mudar a universidade com isso, pois continua sendo apenas um jogo*.



*Esse parágrafo poderia virar um bom texto para o PSIU! do ano que vem.

sábado, 22 de novembro de 2008

Dias de Eleição, Jogos de Poder

Já se passaram alguns dias desde o fechamento de todas as urnas, o fim das eleições para o DCE e a apuração dos votos - que indicaram a vitória da Chapa 1, seguida pela chapa 2, por nossa chapa, a 3 e, em último lugar, a chapa 4. Apesar de ainda haver um forte cheiro de pólvora no ar, e escaramuças entre facções rivais ainda acontecerem aqui e ali, tudo está decidido, e o próximo ano será o quinto do grupo que atualmente gere a instituição estudantil mais forte da UFRGS. Ainda assim, sinto que há algumas coisas para dizer sobre os dois últimos dias de votação, da apuração e do "sábado de cinzas", onde todos os envolvidos ainda estão curando sua ressaca eleitoral (seja por derrota ou vitória).

De longe, o segundo dia de pleito foi o mais agitado de todos. Enquanto eu estava no modorrento Campus Saúde, e no politicamente periférico Instituto de Psicologia, assistindo as pessoas votarem, no Campus do Vale, o mais importante em termos políticos dentro da UFRGS (tanto para movimento estudantil quanto para a política em geral), militantes da chapa 1 brigaram e agrediram partidários da chapa 2, por causa de alguns cartazes. Há grande discordância sobre os detalhes desta briga: alguns dizemque os caras da chapa 2 colavam cartazes difamando um dos principais membros da chapa 1 (adivinhem quem?), outros dizem que eles estavam arrancando cartazes da chapa 1 e colando os deles próprios, partidários da chapa 1 alegam que quem foi acusado de agressão nunca teria chance de bater na pessoa agredida, graças a diferença de tamanhos (algo como Davi e Golias), e que, na verdade, ele tropeçou nas escadarias onde estavam discutindo e caiu de costas, enquanto os membros da chapa 2 acusam a chapa 1 de truculenta e terceiros ficam se perguntando o que diabos está acontecendo. Mas algo aconteceu, e alguém da chapa 2 se machucou no Vale por causa de alguém da chapa 1, que ou cometeu um ato violento ou omitiu ajuda no momento. E isso foi o suficiente para jogar merda no ventilador.

Fiquei sabendo disso enquanto fiscalizava a urna da Psicologia, conversando com colegas de chapa e de curso. Enquanto algumas pessoas expressavam sua indignação com a falta de civilidade no processo eleitoral, eu apenas me divertia - um prazer mórbido de ver o circo pegando fogo. Mas como tinha mais o que fazer do que discutir as implicações políticas deste acontecimento, fui para casa pegar alguns equipamentos necessários para meu trabalho de Avaliação Psicológica, que seria feito naquela tarde ainda. No caminho, passei do lado da entrada para a infame FABICO - quartel-general da Chapa 1 e da Comissão Eleitoral, por alguns motivos mui suspeitos. Olhando para o prédio, vi o poderoso chefão da chapa 1, andando de um lado para o outro, falando no celular com a cara preocupada e agitada. Na hora que eu o vi, pensei "ai ai ai, eu vou acabar envolvido nisso", mas como já estava envolvido mesmo, continuei meu caminho como se nada tivesse visto de anormal. Nisso, quando passo na frente dos portões de ferro daquela faculdade, encontro um outro colega de chapa, que me intera das novidades, e explica a agitação do nosso amigo-rival. Cinco minutos antes, o poderoso chefão da chapa 2, junto com alguns capangas, apareceram na FABICO e ameaçaram os membros da chapa 1, em retaliação ao que acontecera no Campus do Vale. Também aqui os detalhes estão confusos, pois alguns dizem que isso nunca aconteceu, enquanto outros afirmam a procedência dos capangas (ora do DCE/PUCRS, ora moradores da vila Santa Maria, ora um grupo de extrema direita da Universidade Federal de Santa Maria, mostrando com clareza o famoso "efeito telefone sem-fio"), enumeram as barbaridades por eles cometidas (ameaças de agressão e estupro, bater nas janelas da sala onde a Comissão Eleitoral estava reunida, pressionar pela abertura da urna da Medicina) e a maneira como foram expulsos da FABICO (ou uma união de forças entre Brigada Militar, Polícia Federal, Segurança da UFRGS e corajosos membros do DCE e Comissão Eleitoral os expulsaram, ou que eles simplesmente sairam andando). Bem, todos estes boatos não são importantes, mas não tenho dúvidas de que algum tipo de invasão aconteceu ali do lado de casa. Depois de conversar com esse meu colega e antes de ir embora, a menina que participou da mesa durante o debate na Psicologia, aquela dos belos e assustadores olhos azuis, me chamou, me contou a mesma história e pediu para que eu avisasse meus colegas e tomasse cuidado. Achei doce da parte dela fazer isso, mesmo não me sentindo ameaçado por ninguém. Na verdade, apesar de preocupado com a segurança dela e de seu namorado, quase não consegui conter o riso por ver o fogo virar um incêndio de grandes proporções, e queimar não só o circo, mas tudo o que estava ao seu redor. Talvez se tivesse presenciado tudo não achasse tão engraçado, mas um pouco de ação durante aquela votação morna vinha bem.

Voltando para a faculdade, contei a novidade para meus colegas que trabalhavam como mesários (bebendo café), que ou ficaram mais indignados ainda, ou acharam toda a situação ainda mais cômica. Deve ser o mal daqueles que vivem em locais onde a animação depende do que acontece fora.

Ao contrário do que eu imaginava, o terceiro dia foi o mais parado de todos. Apesar da briga e das ameaças de agressão, nada de mais grave aconteceu. Talvez as pessoas envolvidas tiveram súbito insight e pararam de brigar, ou parou de ser vantajoso fazer aquilo tudo. Acho a segunda alternativa a mais provável. E enquanto esperava pelo fim das votações, conversei um pouco com alguns militantes de outras chapas. Apenas no último dia apareceu alguém da chapa 2 ali na nossa humilde e pouco importante urna. Não me pareceram monstros, nem nada do que era dito sobre eles pela chapa 1. Achei eles um tanto quanto fracos em metodologia de pesquisa e particularmente suscetíveis a preconceitos (segundo uma das gurias da chapa 2 que estava lá, as duas vizinhas que fumavam maconha eram as duas pessoas mais seqüeladas que ela conhecia, e isto parecia ser prova suficiente de que todas as drogas são ruins e fazem mal), mas nada mostruoso. Conversamos amenidades - sobre urnas, votos, drogas, seqüelas (quando chegou aqui eu dei um jeito de ir embora). Também havia militantes da chapa 1 fiscalizando nossa urna. Não há nada de extraordinário para se dizer a seu respeito, exceto que carregavam alguns walkie-talkies consigo. Achei estranho, pois, afinal de contas, para que(m) eles seriam usados? Fiquei sabendo mais tarde, através do Lorenzo, que, perdendo seu tempo tentando fazer mais racional um dos tópicos na comunidade da UFRGS no Orkut, falou que viu o pessoal da chapa 1 chamando reforços pelos walkie-talkies toda vez que uma urna era aberta na engenharia, tradicional reduto do Movimento Estudantil Liberdade, para fazer de tudo para fechá-la.

Por fim, na sexta-feira, foi feita a contagem dos votos, dando a vitória para a chapa 1 com 2300 votos, seguida pela chapa 2 com 1600 votos, nós com 505 votos e a chapa 4 com 411 votos. Demorei um pouco para acreditar nestes números, por terem sido divulgados através do Orkut, um meio de comunicação muito confiável, mas depois de pesquisar um pouco, conclui que são estes os números mesmo (estou curioso para saber da votação na Psicologia). Ao contrário das nossas expectativas, não ficamos em segundo lugar. Aliás, longe disso. Talvez nunca tivéssemos chance, exceto em nossas mentes orgulhosas e imaginativas. Meus colegas de chapa consideram a campanha uma vitória, por termos sido capazes de fazê-la de forma coerente, democrática e aberta, e que no próximo ano teremos mais força ainda para concorrer ao DCE. Tenho minhas dúvidas quanto a isso.

Na mesma comunidade da UFRGS, reações diversas. Alguns, ligados à chapa 1, exaltavam a sua vitória, enquanto membros de outras chapas lambiam suas feridas e criticavam o processo eleitoral ("Quem ganhou a eleição? A Comissão Eleitoral" dizia uma mensagem bastante irônica). Mais algumas acusações de golpismo, agressão e ditatorialismo foram trocadas, mas nada que seja digno de nota, ou mesmo divertido. Um outro tópico levantava a possibilidade de criar um DCE alternativo, enquanto uma cidadão perdido perguntava se era possível desativar o DCE. Da minha parte, fiquei elaborando as experiências vividas neste estágio intensivo em Psicologia Política. Pergunto a mim mesmo se o DCE é realmente importante para os estudantes, para a UFRGS, para a sociedade. Se pergunto para qualquer uma das pessoas que participaram de alguma chapa, terei como resposta que sim, com certeza não há nenhum órgão estudantil mais importante que o DCE. Se tivesse feito a mesma pergunta para mim mesmo três semanas atrás, responderia a mesma coisa, ainda que menos veementemente. Agora, depois de tudo encerrado, urnas fechadas, votos contados, vitórias celebradas, lutos elaborados e cartazes e panfletos ainda espalhados pelos campi, duvido que daria a mesma resposta.

Por um acaso engraçado, passei a maior parte das eleições lendo um livro do Tolstoi intitulado "The Kingdom of God is Within You". Digo que foi engraçado por que, apesar do título aparentemente teológico, ele trata das mesmas questões que vivi enquanto concorri para coordenador do Campus Saúde pela chapa 3. E as respostas que ele dá não são apenas verdadeiramente revolucionárias, como soam verdadeiras em meu coração. Para Tolstoi, os governos e Estados foram úteis em épocas passadas, quando era necessário para a sobrevivência submeter-se à vontade de um governante, que defenderia seu povo contra os inimigos e protegeria os fracos dos agressivos, mas que agora são um mal, pois fazem exatamente aquilo que deveriam evitar - entram em guerras desnecessárias e oprimem os fracos. Este livro foi escrito no final do século XIX, e muito dos motivos que o levaram a escrevê-lo deixaram de existir. Ainda assim, continua um livro atual e comovente, que nos leva a refletir. Tolstoi fala também que as pessoas atraídas pelo poder são do pior tipo que há, pois estão dispostos a tudo para conseguirem o que querem: títulos de imperador, rei, presidente, coordenador geral, coordenador de campus, ao invés de todos os valores cristão de bondade, pureza e não-resistência ao mal. Pelo jeito, ele não está tão enganado assim, se levarmos em conta toda a corrupção que envolve os Três Poderes em Brasília, e mesmo nos governos estaduais e municipais.

Mas há uma tese de Tolstoi que me parece mais importante e revolucionária. Para ele, o que sustenta o sistema político e impede o surgimento de uma ordem mais honesta e pura é a opinião pública, que, apesar de sofrer, mantêm o sistema como está por medo do que pode acontecer sem ele e que, no momento que a opinião pública perceber o malefício dos governos, eles cairão, pois não haverá quem os sustente, pois nem os governantes, nem os governados acharão ético fazê-lo. Não sei se Tolstoi está certo, mas durante a minha participação nesta eleição, tive a forte impressão de que estava apenas participando de um jogo, extremamente envolvente e elaborado, mas um jogo ainda assim, sem nenhuma conseqüência, exceto aquelas que os jogadores desejam. Sim, todas as conversas de cara séria, as trapaças, as rasteiras, as estratégias geográficas, as considerações sociológicas, foi tudo muito interessante, intelectualmente estimulante e até mesmo emocionante, mas é um jogo, e para mim, ele acabou. Talvez se tivéssemos ganho a corrida eleitoral poderíamos jogar a próxima fase desse Massive Multiplayer Real Time Strategy Game (MMRTSG), "Administrando o DCE", e eu poderia cumprir missões como "ocupar a reitoria", "fazer marcha até [digite lugar] para protestar contra [digite causa]" e "concorrer à reeleição", mas, mais uma vez, não sei se gostaria de fazer isto.

Reza a lenda que, quando Buda nasceu, um sábio profetizou que ele se tornaria ou um grande rei, e moveria as rodas do mundo, ou um grande iluminado, e moveria as rodas da verdade. Fico pensando quanto tempo perdemos nos preocupando com estas rodas superficiais que acreditamos ser a mais profunda realidade, e que caem ante qualquer brisa, e ignoramos nossa verdadeira missão neste mundo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dia de Eleições I

Foram abertas as urnas para a votação que decidirá qual chapa comandará o DCE no ano de 2009! Vou tentar ser menos egocêntrico do que estas pessoas que ficam lendo blogs alheios às 3 da manhã dizem por aí, e falar mais dos fatos em si (apesar da minha subjetividade ser muito mais interessante).

Mas, considerando que são só urnas de pano, não há muito o que dizer sobre elas, exceto que são as mesmas usadas nas eleições de antigamente, antes do advento da urna eletrônica (aquela onde a gente aperta botõezinhos coloridos e que no fim faz um barulhinho engraçadinho). Sinto-me parte da história, usando tecnologia retrógrada e facilmente manipulável para a decisão de algo supostamente tão importante quanto a eleição para o DCE! E, coisa suspeita, não é tão mais difícil pegar as urnas eletrônicas emprestadas com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). É algo que vale a pena perguntar para a comissão eleitoral.

A boca de urna foi liberada esse ano, o que significa que é legal membros de chapas ficarem perto dos locais de votação, abordando todas as pessoas com cara de estudante de graduação, tentando convencê-los de que sua chapa é a melhor e, em caso de resistência, "levá-los pela mão" até a urna. Fiquei usando a camiseta da chapa 3 o dia inteiro, mas me recuso a interferir de forma tão invasiva no processo de tomada de decisão de outras pessoas.

Enquanto a comissão eleitoral é a responsável por trazer as urnas para os locais de votação, são os Diretórios e Centros Acadêmicos os encarregados de supervisioná-las e de indicar mesários. No caso do DAP, isso significa que fica de mesário quem está disposto a passar a tarde inteira sentado fazendo nada, até que apareça alguém interessado em votar. Veja bem: ficar sem fazer nada na frente do DAP é prática comum entre estudantes de Psicologia da UFRGS, mas geralmente isso acontece perto da geladeira cheia de cerveja, e com um monte de gente para conversar, esparramados nos nossos sofás ou na frente do computador, e não do lado de um pedaço poeirento de pano. Não que o dito pedaço de pano interfira de tal maneira na rotina dos "DAPianos" a ponto deles alterarem sua rotina de vagabundagem. Bem pelo contrário, a coisa se manteve mais ou menos a mesma de sempre, só que um pouco mais longe da porta do DAP, de baixo da sombra de uma outra árvore, com uma mesa com cédulas em branco e uma urna de pano ao lado. E conversa fiada e cerveja.

Como participo de uma chapa e tinha aula essa tarde, não fiquei o tempo todo com a equipe de mesários. Mas, em um dado momento, depois da urna já ter sido fechada por hoje, cheguei perto da porta do diretório, e ouvi um de meus colegas exclamando "que coisa ridícula!" Esta exclamação poderia ter sido causada por uma ou mais das milhares de coisas que acontecem ao nosso redor e que só chamam nossa atenção quando algo dá errado, mas, considerando que estamos em uma época de maré alta em política, e mesmo becos sem saída como o Instituto de Psicologia tornam-se campos de batalhas importantíssimos para a conquista do DCE, supus que a indignação do meu amigo era causada por alguma coisa relacionada à urna e a uma certa pessoa importante da chapa 1, que estava ali por perto até pouco tempo. E minha hipótese é corroborada quando pergunto o que aconteceu.

Basicamente, o problema foi que, esta pessoa, ao ver meus colegas bebendo cerveja enquanto cuidavam da urna, teve o que meu professor de genética chamaria de "ataque de bichice", e disse que teria de registrar isto em ata, que a urna poderia ser impugnada por isso, mas que na verdade, ele estava fazendo aquilo por que a chapa 2, de direita, estaria tentando impugnar várias das urnas espalhadas pela universidade. Acho louvável que ele seja tão dedicado no cumprimento do regulamento eleitoral, apesar de não entender muito bem por que ele cita a chapa 2 como responsável por isso. Bom, acho que as coisas ficam mais claras ao estudarmos a história das eleições para o DCE, e não precisamos ir tão longe assim - basta apenas lembrar algumas coisas que aconteceram ano passado. Por exemplo, no auge da crise das cotas, o pessoal da Medicina, ferrenhos opositores desta ação afirmativa, e das Engenharias, famoso bastião de "direitismo" dentro da UFRGS, iriam votar em peso na chapa DCE Livre, organizada pelo Movimento Estudantil Liberdade (MEL). Só que, curiosamente, nos locais onde os Famedianos e Projetos de Engenheiros votavam, ou as urnas sumiam, ou não abriam na hora que deviam, ou corriam o risco de serem impugnadas por alguma irregularidade qualquer. Na comunidade do Orkut, a chapa 1 comemorava toda vez que surgia alguma notícia do tipo "Urna na Medicina impugnada!!!!!!". E pelo o que os mais velhos falam, é hábito comum da parte das chapas de situação que concorrem ao DCE fazerem de tudo para minimizar as chances das concorrentes se saírem bem. E, pelo o que meus colegas falam, a chapa 3 lidera as votações na Psicologia (eles acreditam que, dos 21 votos feitos ali até agora, 19 foram para a chapa 3). Como nessas eleições as bobagens que eu digo podem vir a ser muito mais importantes, prefiro não dizer nada de forma clara. Se vocês chegaram até aqui, devem ser inteligentes e capazes de ligar os pontos finais (inclusive essas pessoas venenosas que me chamam de egocêntrico). Não vou deixar nada explícito demais, para obrigar qualquer desocupado interessado em botar mais lenha na fogueira da comunidade da UFRGS no Orkut com o que digo a pelo menos ler o texto inteiro, ao invés de dar uma frase mastigadinha e pronta para ser deturpada.

E esse foi o parágrafo mais cheio de quês já escrito neste blog. Deixo na mão de vocês, vagabundos online, a tarefa de contá-los, por que eu não vou corrigir porra nenhuma.

sábado, 15 de novembro de 2008

Engenharias

Faço Psicologia, e estou feliz com meu curso. Mas, se fosse cursar outra faculdade mais tarde, acho que faria engenharia. Em muitos aspectos, meu raciocínio é mais parecido com o dos engenheiros do que com o dos psicólogos e demais cientistas sociais.

Engenheiros fazem coisas legais. Eles constroem prédios, fazem estradas, computadores, robôs, máquinas... um bazilhão de coisas! Engenheiros são os oompa-loompas da ciência, tornando os sonhos dos demais em realidade, e a Engenharia está em todo lugar onde há um agrupamento humano. Mas, mais do que isso, a Engenharia é do caralho.

Há diversos sabores de engenharia, para todos os gostos possíveis, desde a clássica e sóbria Engenharia Civil, passando pelas inovadoras Engenharias Genética e Biomédica, a hippie Engenharia Florestal, até a festeira Engenharia do Entretenimento. Na UFRGS, há vários destes cursos, mas geralmente são só os mais tradicionais.

Se eu fosse fazer uma engenharia, não faria nem Civil, nem Mecânica, nem Elétrica. Eu faria Engenharia Nuclear. Por que? Para que um dia eu pudesse dizer "I'm a nuclear engineer. I blow shit up." Eu sei que isso não corresponde à realidade, e que dificilmente eu vou me envolver na construção de uma bomba nuclear brasileira, mas só a possibilidade de um dia eu poder fazer isso me permite ser tão abusado. Aposto que se a chapa 2 do DCE, ao invés de ficar falando em incentivar o empreendedorismo entre os estudantes, prometesse construir a bomba atômica da UFRGS, conseguiria muito mais votos. O meu inclusive.