sábado, 29 de novembro de 2008

Uma conversa sobre a importância da Psicologia

O texto que segue é uma formatação mais bonitinha de uma conversa que tive com uma amiga e colega de curso, a Pri. Quisera eu ter tido essa conversa antes de entregar meu trabalho de Ética, pois nele são expressas idéias que há tempos tento formular. Agradeço à Pri por me deixar publicar nossa conversa e, obviamente, por tê-la construído comigo. Para os mentalmente lentos, Heart of Sword sou eu, Pri Zorzi é minha amiga, e colori as nossas falas de forma diferente para nos diferenciar. Lá vai:

Pri Zorzi diz:
Ah, essa fala-vômito...

Heart of Sword diz:
Tô fazendo uma fala-meio-vômito agora, no sentido que não paro de digitar. Tô elaborando o que diabos me irrita nele.

Pri Zorzi diz:
Eu to tentando pensar também. Mas falei fala-vômito no sentido de que fede, é nojento, e de onde veio essa sempre tem mais. E uma fala-vômito não raro incita outras...

Heart of Sword diz:
Ah sim, da mesma forma que uma fala inteligente estimula outras (Mas que pode também ser soterrada por vômito, como aconteceu com uma pergunta que eu fiz na aula de Ética e que foi sumamente ignorada, apesar de sua genialidade).

Pri Zorzi diz:
Huahuahua... Que pergunta era? (e não te esqueça que a aula era Ética, aonde falas-vômito ganham um bônus +4)

Heart of Sword diz:
Pra que servem os psicólogos, e por que não deixamos tudo na mão dos psiquiatras?

Pri Zorzi diz:
É uma boa pergunta, mas tu acha mesmo que psicólogos são desnecessários?

Heart of Sword diz:
Se eu achasse que a Psicologia é desnecessária, eu já teria largado o curso. Pra falar a verdade, acho que ela é muito útil, necessária, até, só que eu queria ver o que meus colegas iriam dizer. Não foi uma provocação, foi um chute na boca do estômago da turma pra fazer ela falar... Ou pelo menos deveria ter sido, considerando que a única resposta direta à pergunta foi uma colega minha choramingando que a gente é muito submisso aos médicos.

Pri Zorzi diz:
Eu sei, e eu acho que daria uma excelente discussão. O pessoal às vezes tem medo de pensar a utilidade do curso, talvez com medo de constatar que a Psicologia pode ser suplantada por outras coisas. Mas as pessoas da turma normalmente ignoram perguntas assim. Todas as turmas.

Heart of Sword diz:
Não tinha formulado dessa maneira. Eu pensei que era mais uma coisa de "naturalizar" a importância do psicólogo, como se a importância da Psicologia fosse como a importância do ar ou da água pra humanidade, pedantismo.

Pri Zorzi diz:
É que todo mundo sabe que a Psicologia esbarra em várias outras áreas do conhecimento. O que eu acho muito natural, visto que os possíveis "objetos de estudo" da Psicologia são abrangentes, mas acho que as pessoas tem muito medo disso. Eu acho Psicologia super importante. Mas eu prefiro um psiquiatra bom do que um psicólogo ruim. Pra qualquer função.

Heart of Sword diz:
A Psicologia não tem um objeto de estudo ou área que seja só dela.

Pri Zorzi diz:
Claro que não. E por que deveria? Pra assegurar mercado de trabalho, só se for.

Heart of Sword diz:
Não acho que deveria.

Pri Zorzi diz:
Eu sei que tu não acha. Se achasse não teria problematizado a questão, mas muita gente acha, creio eu.

Heart of Sword diz:
É que fica uma coisa meio... "se outros podem fazer, psicólogo não é necessário de verdade". O que, claro, não é verdade, mas a sensação fica.

Pri Zorzi diz:
Algum professor em algum momento comentou (lamento não lembrar mais) que basta a gente ser bom no que faz que sempre vai ter trabalho pra gente. Acho que Psicologia é antes de tudo um olhar diferenciado.

Heart of Sword diz:
Esses tempos eu pensei em um exercício filosófico interessante para identificar a importância da Psicologia. Imagina que cai um avião no meio da Amazônia com um engenheiro, um médico, um militar e um psicólogo (todos sobrevivem, só pra constar).

Pri Zorzi diz:
(sim, imagino)

Heart of Sword diz:
Os três primeiros tem funções óbvias no grupo: descobrir um jeito de voltar pra casa, cuidar da saúde do grupo, caça e proteção. E o psicólogo, o que faz? (Um podia ser um zumbi, mas isso não vem ao caso).

Pri Zorzi diz:
Cuida da alimentação, oferecendo seu corpo para ser devorado pelos demais (Subitamente imaginei uma tese de mestrado: "Um psicólogo zumbi seria melhor que um psicólogo comum? Um paradigma ético-estético do mundo capitalístico contemporâneo").

Heart of Sword diz:
Pôr todo mundo sentado em círculo para analisar a dinâmica do grupo? (A professora de Ética e sua dietética poderia cuidar da alimentação. Exceto se ela fosse um zumbi. Daí ela comeria cérebros e deu).

Pri Zorzi diz:
Acho que isso bate um pouco no estereótipo de psicólogo como uma pessoa com cérebro de ameba que faz todo mundo dar as mãozinhas e se sentir melhor. Sério, pra algumas pessoas psicólogo é a mesma coisa que padre. Isso me dá nos nervos.

Heart of Sword diz:
Acho que, nessa situação, o psicólogo poderia trabalhar para manter o grupo coeso. A experiência como um todo é estressante: no meio do mato, com fome, longe de casa, com gente estranha... E, se ele for bem sucedido, pode garantir a cooperação do grupo e, consequentemente, sua sobrevivência.

Pri Zorzi diz:
Sim, foi o que eu pensei... Parece o tipo da situação aonde seria necessário um psicólogo...

Heart of Sword diz:
Isso é tri importante. Qualquer pessoa poderia tomar esse papel para si, mas ter uma pessoa que trabalha exclusivamente com isso é muito melhor (eu imagino). Só que, ao mesmo tempo que é importante, também é ignorado, por que psicólogo "é coisa de puto" ou "charlatão".

Pri Zorzi diz:
Acho que é ignorado por que todo mundo pensa que sabe fazer... Sabe, no estágio de escolar agora eu aprendi bastante coisa sobre a função de um psicólogo. É impressionante como numa escola todo mundo demanda uma escuta: direção, professores, alunos, pais... Todo mundo tem problema pra cacete. Claro, qualquer um poderia oferecer essa escuta, mas eu acho que a gente é treinado pra oferecer uma escuta mais qualificada. É isso o que a maioria das pessoas esquece. Parece que todo mundo nasce meio psicólogo e que a gente passa cinco anos na faculdade catando coquinho.

Heart of Sword diz:
Acho que algumas pessoas leigas poderiam se sair tão bem quanto um psicólogo nesse papel, mas são poucas.

Pri Zorzi diz:
Sim, concordo, tem gente que tem uma sensibilidade natural, sei lá... Mas são poucos. Acho que isso é desvalorizar o saber do psicólogo: achar que qualquer um pode fazer isso. E é muito engraçado que as pessoas acham que tu sabe horrores só por ser psicólogo... Tipo, elas pensam que é só dizer o nome e o psicólogo já pode dar o perfil completo (bom, alguns psicanalistas fazem isso, mas...).

Heart of Sword diz:
Olha, pra ser franco, acho que isso tem seu fundo de verdade - a gente é treinado pra prestar atenção em coisas aparentemente irrelevantes e desconexas e a ligar os pontos entre elas... Daí parece meio mágico. Mas é um troço complicado, e muitos erros acontecem nesse processo.

Pri Zorzi diz:
Pois é, o problema é que as vezes as pessoas esperam muito desse processo. Tipo um professor que te encaminha um aluno e espera que depois de uma ou duas consultas já se note a diferença.

Heart of Sword diz:
Ou o clássico caso da pessoa que tu conhece na festa que, quando fica sabendo que tu é estudante de psicologia diz "tu não tá me analisando?" ou "interpreta esse meu sonho? [segue relato de como ele sonhou que um bisão estuprava sua vó]".

Pri Zorzi diz:
Hahahahahahaha... É, por aí.

6 comentários:

Pri Zorzi disse...

Em geral, eu me abstenho de comentar, mas na posição de co-autora achei que seria válido dizer algo.

Foi uma boa conversa, pena que não teria como publicá-la na íntegra - acho que ninguém teria saco de ler. É uma pena, às vezes saem coisas muito legais nessas conversas de MSN mas elas acabam se perdendo. Publicar essas coisas acaba sendo um bom jeito de continuar a discussão e abrir pra quem quiser acrescentar algo. Ainda mais isso, que é um assunto que nunca se esgota...

Ah, e eu acho que tu deveria ter publicado a frase-nick. Ou ter escrito teu post em forma de fábula. =D

Beijooo

Andarilho disse...

Acabei nem copiando a frase nick (mudando alguns detalhes seria plenamente publicável). E não se preocupe, ainda escreverei um post em forma de fábula, com direito a criaturas antropomórficas e nomes trocadillo (não, isso não foi um erro de digitação) =D

Bjo!

marceloduarte disse...

Já que isso me oferece um motivo suficientemente bom para enrolar o trabalho de Trabalho, darei a minha contribuição:
Se o psicólogo em questão no caso dos perdidos na selva fosse um psicanalista, nada teria a fazer, pois o mato prejudicaria a transferência...
Se fosse um analista institucional, nem me fale.
Se fosse um pesquisador Nível I do CNPq, seja qual for a linha de pesquisa dele, morreria em três horas e meia.
Eu acho que prestaria um psicólogo que trabalhasse com psicologia positiva, motivação, potencialidades humanas, resiliência. Esse tipo de coisa faria diferença na selva. Um psicólogo do esporte também talvez soubesse o que fazer.

Mas isso não desmerece a Psicologia tanto assim. Um advogado tampouco prestaria para alguma coisa no referido cenário. Muito menos um jornalista ou um músico. E eu questiono a real pertinência do engenheiro para a situação em questão. Selva é foda.

Mas o psicólogo seria muito útil para receber os sobreviventes depois de eles terem sido resgatados, trabalhando possíveis traumas da queda e do período de privações.

E, de resto, sempre teremos as "entrevistas de desligamento" e os HTPs de auto-escolas para justificar nossa existência e pagar nossos salários.

barbara disse...

bem... samuca, acho q relacionar a importancia de um psicologo com a de um psiquiatra é semelhante à comparar engenheiros com arquitetos... Acredito que o desenvolvimento de pessoas com sensibilidade - às artes, as pessoas, aos gestos e olhares - trata de um mundo que não se contenta apenas com remédios que ligam ou desligam atitudes e comportamentos, tampouco conformam-se em viver em meio à prédios e casas quadradas e cinzas... O ser humano é complexo, e precisa de pessoas que saibam lidar com essas singularidades com tato... Sensibilidade... essa é a diferença.
Babita

Anônimo disse...

Penso que a psicologia vai bem além da terapia. A pesquisa do comportamento e do funcionamento cognitivo do ser humano são extremamente importantes para o nosso autoconhecimento. A psiquiatria, embora tenha lá sua importância, é muito restrita e, porque não dizer, muitas vezes é um reles serviçal dos grandes laboratórios farmacêuticos. Se dependêssemos da psiquiatria para expandirmos nossas habilidades de viver de forma mais criativa e saudável, estaríamos num mato sem cachorro. Tenho dito.

Lady Hell disse...

Pois é, essa coisa de confundir focinho de porco com tomada é bem comum. E achar que psicólogos são milagreiros, idem.

Eu exponho isso do meu ponto de vista, como estudante de Sistemas de Informação. Dizer que eu estudo 'informática' também serve, hehehe. Tu não faz idéia de quanta gente vem choramingando: "Ah, meu computador tá lento, travando e eu não sei mais o que fazer. Ele tem dificuldade pra ligar e não consegue imprimir nada. Já cansei de socar essa máquina e ela não me obedece!!!"
Né? Primeiro que é uma máquina, e portanto, socar não vai fazer ela sentir pena ou raiva do pobre usuário. Depois vem aquela chorada final do "Mas tem certeza que tu não sabe o que é?!?". Nem vou listar a gama de problemas que poderiam ser, pra não me estender demais.
Enfim, a semelhança que eu quis ressaltar é que máquinas complexas e seres humanos não possuem soluções mágicas pra tudo. E vale lembrar que nem tudo TEM uma solução, obrigatoriamente.

Abraço!!!