domingo, 23 de março de 2008

Pequena ruptura

Credo, eu gosto de escrever!

Bio X Socio

Tendo em mente o que escrevi no meu post anterior, falarei um pouco sobre as pesquisas no campo das Ciências Humanas.

Apesar de existirem muitas forças atuando sobre nosso comportamento, e apesar de existir um certo consenso na comunidade científica de que, em ordem de melhor compreender a nós mesmos, precisamos estudar a todos estes determinantes, as duas forças que são realmente estudadas atualmente são as forças ambientais-sociais e biológicas. Os fatores físicos são um tanto quanto ignorados pelos cientistas humanos, e a parte psicológica só muito recentemente voltou ao centro das atenções (e mesmo assim, coberta por controvérsias, como por exemplo a existência do Livre-Arbítrio). E tradicionalmente, explicações biológicas tem sido feitas por cientistas e militantes de partidos e políticas de direita, graças à influência de Darwin, e devido à influência de Karl Marx, as explicações sociológicas tem sido feitas por simpatizantes de esquerda. Isto não se aplica a todos os pesquisadores, mas uma parcela muito significativa destes cai nesta divisão.

Ao longo da história, partidos e movimentos de direita, tais como o Partido Nacional-Socialista de Hitler, tentaram provar através da genética por que eles eram melhores e por que deveriam ser vitoriosos, ao passo que movimentos esquerdistas, como o Comunismo de Marx, enfatizaram os processos sociais, para ir contra o determinismo biológico. Entretanto, acabaram por cair em um determinismo social.

E, infelizmente, esta dicotomia persiste até hoje, especialmente quando se trata de marxistas, que disfarçam suas crenças de "defesa dos direitos humanos" e "antideterminismo", e associam toda e qualquer pesquisa biológica ao nazismo. Isso explica por que eu tomo tanta pedrada em um ambiente claramente esquerdista como a Psicologia.

A Ciência Humana

O comportamento humano é influenciado por muitas forças diferentes. Na verdade, não se pode precisar com certeza essas forças - a ciência apenas as dividiu da forma mais conveniente possível, para facilitar seus estudos.

De maneira geral, estas forças determinantes são os aspectos físicos, biológicos, ambientais, sociais e psicológicos do ser humano. Não é uma divisão cientificamente embasada, apesar de ser baseada em muitas pesquisas científicas, mas por mim feita de acordo com o que imagino determinar nossas ações.

O determinante físico é simplesmente o mundo em que vivemos: um mundo físico, em que não podemos voar como o Superman, ou ter um laço mágico como a Mulher-Maravilha. E também é neste mundo que nossos cérebros, estômagos e baços vêm a existir e funcionam. Pode parecer óbvio, mas o mundo físico e (aparentemente) material em que vivemos determina muito a maneira como nosso organismo trabalha.

A parte biológica envolve nossa herança genética de primatas superiores, e tudo o que implica nisto. Por exemplo, não temos liberdade para sermos seres humanos hoje e peixes amanhã; não podemos escolher entre defecar pelo ânus ou por uma cloaca; e não sei se podemos viver só a base de luz (controverso, eu sei). Em outras palavras, estamos fadados a sermos seres humanos, e a viver como tais.

O ambiente é o local em que vivemos - acredito que é um tanto quanto óbvio que um indivíduo que nasceu e foi criado em uma zona desértica terá comportamentos muito diferentes de um outro alguém que viveu toda sua vida ao lado do rio Amazonas.

A sociedade é o agrupamento de pessoas dentro do qual nos desenvolvemos e com quem interagimos. É impossível para um ser humano viver sua vida inteira só - somos uma das poucas espécies cujos filhotes recém-nascidos não são capazes de viverem por conta própria no momento em que saem do útero. Isso nos torna criaturas naturalmente sociáveis, ou pelo menos, nos é altamente vantajoso sermos sociáveis. E viver em sociedade, trocando experiências e entrando em contato com muitos outros indivíduos determina de forma bastante acentuada nossa forma de pensar e agir. São hábitos e crenças compartilhadas entre um certo grupo que constituem uma cultura.

E por fim, a parte psicológica do ser humano: como pensamos. É possível dividir o fator mental em inconsciente e consciente. A parte inconsciente, como deve ficar um tanto óbvio, fazemos "sem pensar" - por exemplo, não temos que ficar raciocinando para saber qual perna colocar depois da outra quando caminhamos. A parte consciente é a nossa "mente racional", que faz cálculos, planos e coisas assim. Também é possível fazer outra subdivisão, entre pensamentos racionais e emocionais, mas que na verdade estão ligados de forma muito estreita, como as últimas pesquisas neurocientíficas vêm demonstrando.

Estas são as forças conhecidas e reconhecidas universalmente como determinantes do nosso comportamento. É possível que existam outras forças atuantes, como forças espirituais, advindas das estrelas ou da reencarnação das almas, mas estas não foram satisfatoriamente estudadas e comprovadas. Como disse anteriormente, esta é uma divisão meramente didática, utilizada para melhor se estudar as influências do mundo sobre nós seres humanos. Se observarmos bem esta divisão que fiz, notaremos que uma influencia a outra: nossa constituição cerebral influencia nossa forma de pensar, as leis da física determinam como nosso cerébro pode funcionar, certas qualidades genéticas são preferíveis em certas sociedades, e nossos projetos, como hidroelétricas, alteram de forma significativa nosso ambiente.

De certa forma, todas estas forças são determinantes de nossas ações, em outras palavras, condicionam como sempre iremos fazer as coisas. Todas, exceto nossa Consciência. Não a consciência de termos que comprar pão para o café da manhã, mas a Consciência de que existimos, que sofremos e que um dia vamos morrer. Diria que esta força é um indeterminante, pois nos torna muito mais imprevisíveis. Por mais condicionados que somos física, ambiental, biológica e sociologicamente, sempre podemos fazer o oposto do que é esperado. Na Íliada, Heitor, quando desafiado por Aquiles nos portões de Tróia, poderia ter fugido, se escondido, negado-se a lutar, ou então poderia ter feito um trato com os gregos, entregando Tróia e metade de seus tesouros em troca de sua vida, mas como disse Homero, "por que pensa meu coração tais coisas?" Ele escolheu o caminho que considerou mais digno: sua própria morte. Nossa Consciência é o que os filósofos existencialistas chamam de Dasein - o Ser-Aqui, o Ser-Agora. Não pretendo transformar este post em uma explicação da filosofia existencial (até por que não a compreendo tão bem assim para ficar explicando), mas o Dasein é o que nos torna uma espécie única de animais.

Estes fatores não atuam em blocos, ou de forma separada, mas ao mesmo tempo e de forma sobreposta, sendo um único comportamento influenciado por vários determinantes. E esta é a grande dificuldade de uma Ciência Humana, pois no atual momento que vivemos, não é possível prever ações de forma precisa (uma professora minha costumava dizer que 30% de precisão em um instrumento psicológico é motivo pra soltar foguete). E frequentemente, para burlar este pequeno problema, os cientistas caem ou no reducionismo - considerando todos os comportamentos como sendo influenciados exclusivamente por um fator, ou no anticientificismo - atacando a ciência preditiva, e limitando-se apenas a descrever os acontecimentos. O representante nato do primeiro movimento é o Behaviorismo Radical, representado principalmente por B.F. Skinner, e do segundo a Psicologia Social que me ensinam na faculdade. Nenhuma das duas é eficiente e abrangente no longo prazo, apesar de terem feito contribuições significativas para o todo.

Todas as Ciências Humanas são complicadas. Mas se eu quisesse moleza, teria feito Engenharia.

Organização do blog

Criei um novo marcador essa semana: Teologia.

Teologia seria a ciência que estuda a existência, presença e comportamentos de Deus. Uma Psicologia Divina. Pelo menos foi isso que os escolásticos da Idade Média fizeram, discutindo de formas extremamente rebuscadas quantos anjos caberiam na ponta de um alfinete, ou o que aconteceria se um mosquito caísse na água benta.

Apesar de este tipo de discussão ser extremamente interessante de ser feita em estados alterados de consciência (vulgo bêbado ou chapado), não pretendo fazê-las aqui. Tem o blog dos Amoladores para esse tipo de coisa. Aqui, quando marcar algum post com o tag "Teologia", será por que trata de assuntos espirituais. Pode ser que a palavra Teologia não seja historicamente a mais apropriada para isto, mas acho que etimologicamente ela é bastante adequada, além de terminar em "logia", como Psicologia, Sociologia e Biologia, fazendo uma organização bem interessante de tags.

Estou pensando se não divido o bloco com os links para os marcadores aqui do lado direito do blog de forma mais sistemática do que mera ordem alfabética.

sábado, 22 de março de 2008

A Verdade ainda me confunde

Em um post antigo, disse que existem basicamente dois tipos de pessoas envolvidas com a ciência: aqueles que buscam ativamente pela Verdade, e aqueles que aceitam uma verdade pronta do guru que mais os agrada. Cada dia que passa na faculdade, cresce mais e mais minha convicção de que isto é verdadeiro. Mas sinto que o que disse neste antigo post, apesar de verdadeiro, está incompleto, e que preciso expandir minhas idéias a respeito.

O grupo das pessoas que aceitam verdades prontas não é um bloco monolítico, que segue as mesmas idéias e ora no mesmo altar. Pelo contrário, são tão numerosos os gurus com centenas e milhares de seguidores que é impossível fazer uma lista abrangente e compreensiva. E apesar das muitas semelhanças entre estes seguidores, a quem Nietzsche chamaria de camêlos, eles não poderiam estar mais distantes entre si, pois ou se segue Fulano até a morte, ou se segue Sicrano até a morte. Qualquer fulanista detestará e criticará todo sicranista sempre que puder, e todo sicranista detestará e criticará todo fulanista sempre que puder. E qualquer um entre os dois cultos será alvejado por ambos.

Dentro deste mundo de seguidores, não é possível, ou melhor dizendo, não é permitido ser eclético - isso é uma heresia. Afinal, para que ler algo de um outro autor, quando o MEU já escreveu algo sobre este assunto, de maneira muito superior que a do outro? Trabalhando com números, só é permitido para um camêlo ser 100% comprometido com as idéias e filosofia de uma causa, e menos do que isso é falta de fé. Mas um camêlo não usa este termo. Na verdade, o mais comum é "espírito crítico" - apenas quem segue o MEU guru tem espírito crítico, pois escolheu o mesmo mestre que EU escolhi, o que prova sua inteligência e principalmente a MINHA, por ter feito a mesma escolha. Mais do que rezar pelo seu guru, o dever de todo camêlo é converter o máximo possível de seguidores para seu guru, pois isto confirmará com ainda mais força a sua sabedoria e a MINHA inteligência. O mais importante de tudo isso, é que camêlos não mudam de opinião nunca. Nunca.

Óbvio, mas não desnecessário dizer, que qualquer um que negue a conversão será tratado com desprezo. Sim, desprezo é a palavra mais precisa para este fenômeno. Talvez, se estivesse escrevendo este texto em agosto de 2007, eu não tivesse nem sequer cogitado seu uso, mas depois de muito tomar pedrada por discordar da opinião dos gurus dos outros, não hesito em dizer que é desprezo. Desprezo por que, quando vêem uma opinião alheia que discorda de sua própria, sentem-se atacados, como se uma leve brisa ameaçasse o lindo altar de palha em que colocaram seu coração, pois alguém não concorda com ele. Por isso, não se dignam a considerar as idéias expostas: atacam diretamente a pessoa que as propôs. Chamam-na de "ignorante", "reacionária", "fascista", o que for melhor para a ocasião. Vale dizer que só citei palavras que já foram atiradas em minha cara por causa de minhas opiniões.

Mas isto, segundo os seguidores, é para nosso próprio bem. "É para tu veres a verdade", dizem. "Quando fores mais velho, estudares mais, vais pensar como nós", falam. Lacan é o caminho, a Luz e a verdade, e tudo e todos que não concordarem com ele estão condenados ao positivismo e à imbecilidade, e são merecedores de todo meu ódio!

Em gritante contraste com estas pessoas, aqueles que buscam a Verdade, não apenas uma verdade conveniente, dificilmente se atêm à um mestre. Na realidade, eles têm muitos mestres ao longo de sua vida: conhecem-no, aprendem, e quando não há mais nada para se aprender, partem em busca de seu próximo professor. Não há um guru superior aos outros; todos são respeitados igualmente pelo que ensinaram e atingiram. Estes que buscam a Verdade, a quem Nietzsche chamaria "crianças", não querem se tornar meros seguidores - querem se tornar mestres em seu próprio direito, e ensinar o que aprenderam com outros mestres, e principalmente aquilo que descobriram por conta própria. Não há dogmas para uma criança: se uma idéia até então considerada imbatível for substituída por uma superior, ela abandona o passado e abraça o futuro. Não há apegos desnecessários ao que já não é mais. De fato, este é o caminho para a grandeza.

Mas os camêlos, estes seguidores inveterados de qualquer um que se diga mestre, abominam a grandeza, e buscam tornar a todos aqueles que a buscam em medíocres. De todos aqueles que eles poderiam detestar, as crianças são seus maiores inimigos. A ironia disto tudo é que muitos dos gurus que hoje são incensados por milhares de camêlos sofreram os mesmos preconceitos, e foram atacados pelos camêlos seguidores dos gurus de antigamente. Muitos dos gurus de hoje foram as crianças de ontem. Claro, seus seguidores fazem questão de dizer como seu mestre foi atacado por suas idéias, mas que triunfaram no final, graças à sua grandeza inata, por buscar a Verdade (que, segundo dizem, ele atingiu). Mas são os primeiros a atacar aqueles que buscam a Verdade hoje, por caminhos diversos dos seus, sem considerar argumentos ou idéias. Elas não são válidas a priori. É como ser fã de um grande corredor da década de 1960, e quebrar as pernas de um menino ou uma menina que queira ser atleta, por medo de ela superar o seu ídolo.

Tenho sentido na pele este preconceito. Ele não é constante, mas é real. Não quero interpretem o que disse como sendo uma auto-vitimização, apesar das idéias aqui expostas serem fruto de ataques a minha pessoa por causa de minhas idéias, nem que me considero superior a ninguém - de fato, nem sei bem se estou no caminho certo. Estou apenas tentando, e vendo qual me trás mais alegria e satisfação. Apenas busco essa grandeza, sem saber muito bem o que é. Só sei que é difícil de alcançar, e talvez por isso valha a pena buscá-la.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Desabafo

Um dos temas mais antigos e mais controversos da Psicologia é a questão de sua cientificidade: a Psicologia pode ser considerada uma ciência? Basicamente, há três posições argumentativas para esta questão: uns dizem que "não", a Psicologia não é uma ciência e nem nunca será, pois seu objeto de estudo é intangível e por demais subjetivo para ser estudado de forma empírica rigorosa, e deve limitar-se a descrever os fenômenos psicológicos; outros dizem que "sim", a Psicologia é uma ciência, pois utiliza o método científico para fazer inferências eficientes sobre o que não é observável, e pode atingir um grau bastante elevado de previsão de comportamentos, indo além da mera descrição; e têm os que dizem "ainda não" - para esses, a Psicologia é uma "Protociência", uma ciência séria ainda em estado de gestação, e portanto cheia de conceitos inúteis.

Meu objetivo com este post não é defender uma destas posições - deixo estas pendengas para os epistemólogos que são pagos para isto. Pretendo fazer uma breve descrição do que tenho observado nos meios que convivo por causa da faculdade. Escrevi o primeiro parágrafo com a intenção de deixar claro que o contexto da Psicologia é uma bagunça, fato fundamental para entender o que vou dizer a seguir.

Dentro da Psicologia, as pessoas tomam posições antagônicas sobre o que uma ciência é, qual sua função e importância para a sociedade e para a humanidade como um todo. Tenho visto um espectro bem amplo de opiniões, tão variadas quanto a própria Psicologia é - em uma ponta deste continuum, estão aqueles que abominam o empirismo, e que colocam a subjetividade humana acima de tudo; na outra ponta estão aqueles que consideram a ciência não só o bem maior da civilização, mas nossa deusa e objetivo supremo, que deve guiar todos os nossos passos. No meio dessa linha contínua, caem todos os outros sabores de opinião sobre ciência. Obviamente, os dois extremos são irracionais, mas se tivesse que detestar um mais do que o outro, seria a ponta Anticientífica, cujos representantes chamarei de "Hippies Abobados". Sua posição é de que a ciência é um demônio que escraviza a todos nós, que todo o mal já criado veio dela, e que seremos livres somente quando abandonarmos os experimentos e vivermos em paz com a natureza, como bons selvagens.

Caricato, eu sei. Mas não foram poucas as vezes que vi estudantes de Psicologia expressarem opiniões muito semelhantes - não apenas remotamente, mas muito semelhantes - as que descrevi aqui. Por exemplo, uma das críticas mas usadas (não necessariamente a mais forte ou inteligente) contra a pesquisa a ser realizada por pesquisadores da UFRGS e da PUCRS com meninos da FASE utilizando técnicas neurocientíficas é "qual o limite da ciência?", ou "devemos colocar a ciência acima do bem estar destes meninos?", e as experiências conduzidas pelo regime nazista com judeus e outros povos oprimidos para comprovar cientificamente que a raça ariana era superior. Também adoram dizer que este tipo de avaliação ignora a subjetividade pessoal, e transforma a todos em meros "robôs". Estes argumentos apenas mostram que estes Hippies Abobados deveriam ter lido outras coisas além de "Mil Platôs" e "O Capital", e visto outros filmes além dos do Michael Moore (não que sejam ruins, mas são bem parciais). Primeiro por que, pelo menos neste exemplo específico, não vão furar a cabeça dos meninos com para ver se a massa cinzenta é diferente - vão fazer PET Scan e Ressonância Magnética, o que não machuca até onde eu sei. Segundo, eles são incapazes de perceber que Hitler e seus amigos não fizeram ciência: fizeram ideologia, o mesmo que os Hippies fazem. Terceiro, o relato em primeira pessoa é fundamental em muitas pesquisas neurocientíficas, o que faz do "avaliado" um co-pesquisador, tão importante quanto quem interpreta os dados.

Mas os Hippies Abobados têm um talento especial para verem apenas o que querem ver. Não tentam argumentar racionalmente, pois é mais fácil acusar a pessoa. Se alguém defendesse esta tal pesquisa, ele seria rapidamente tachado de "fascista" ou "ignorante" - acreditem, isso aconteceu comigo mais vezes do que esperava ou achava possível. E estas criaturas (que não chegam ser indivíduos, mas meros membros de uma manada) também não vêem o óbvio: que a se não fosse a ciência, ainda estaríamos nas cavernas. Mas é mais fácil imaginar que temos computadores com internet banda larga desde o princípio do universo. É, eu convivo com gente assim.

Não escrevi isso por que quero denegrir a imagem dos hippies - para falar a verdade, sou amigo de muitos deles. Mas fico impressionado com a facilidade com que estas pessoas descambam da racionalidade para a estupidez, abandonam a discussão de idéias para partir para ataques pessoais. Não entendo como alguém possa achar que é assim que se vai para a frente. Esse post foi apenas um desabafo de um cara que tomou pedrada demais por causa de suas opiniões, baseadas na pouca coisa que leu sobre Ciências Humanas, e portanto falhas e incompletas, e que vai continuar tomando pedrada por que vai continuar abrindo a boca.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Um panorama da minha faculdade

O Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é uma entidade política e burocrática extremamente complexa por si mesma - isso enche o saco com freqüência, mas tem seus pontos altos.

Primeiro, acho que devo fazer uma breve explicação sobre como o Instituto se estrutura legalmente.

Nossa amada unidade orgânica é composta por três departamentos: o Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e Personalidade, o Departamento de Psicologia Social e Institucional e o Departamento de Psicanálise e Psicopatologia. Cada departamento é estruturado de forma independente, mas estão todos subordinados à diretoria e ao Conselho da Unidade, o famoso CU, entidade deliberativa máxima dentro do Instituto. Tão ou mais importantes que os os departamentos são as Comissões de Graduação (COMGRAD), que deliberam sobre nosso currículo e cuidam da nossa matrícula. Digo comissões no plural por que temos duas COMGRADs em nossa unidade: a COMGRAD da Psicologia, e a COMGRAD da Fonoaudiologia, tendo esta última sido criada no final do ano passado para organizar o novo curso.

Além destas 6 entidades, temos comissões e núcleos de menor importância que compõem o aparato burocrático da unidade, como a Comissão de Estágios e o Núcleo de Avaliação de Unidade (NAU). Pelo lado dos estudantes, temos o Diretório Acadêmico de Psicologia (DAP) e o Projeto de Ensino Tutorial (PET). Futuramente, teremos o Centro Acadêmico da Fonoaudiologia (CAF), mas isso já é pro futuro.

Também são vultos importantes os cursos dentro do Instituto. O curso de graduação em Psicologia está sob responsabilidade da COMGRAD-Psico e dos três departamentos, e o curso de graduação em Fonoaudiologia também está vinculado à Faculdade de Odontologia.

Muito importantes também são os cursos de pós-graduação. Há dois destes dentro da unidade: o Programa de Pós-Graduação em Psicologia, vinculado diretamente ao Departamento de Desenvolvimento, e o Programa de Pós-Graduação em Psicologia, vinculado ao Departamento de Psicologia Social, mas com participação dos professores do Departamento de Psicanálise.

Os cursos de pós-graduação são subdivididos ainda: há neles os cursos de especialização, de mestrado, doutorado e pós-doutorado (em hierarquia crescente). Os cursos de especialização são cursos rápidos e leves, por assim dizer. Seus alunos são geralmente profissionais trabalhando no mercado de trabalho (leia-se "mundo real"), e buscam um aprimoramento em suas técnicas, e estudam e trabalham ao mesmo tempo. Em cada PPG há muitos e muitos cursos de especialização diferentes (pós-graduações latu sensu), desde de Terapias Cognitivas Comportamentais à Psicologia Hospitalar. E quando digo que são leves, digo por que em um semestre eu estudo tudo o que um boçal da especialização estuda em dois anos.

Os mestrados, doutorados e "postdocs", por outro lado, são mais demorados, e mais voltados para o lado acadêmico. Não tem como trabalhar e fazer uma pós-graduação strictu sensu ao mesmo tempo: o trabalho de um pós-graduando é sua tese. Com freqüência, estes pós-graduandos dão aula para nós, chinelões da graduação, e quase sempre sem orientação de um professor titular. Fato muito criticado por 75% dos frequentadores da casa, mas deliberadamente ignorada por todos os professores preguiçosos.

Teoricamente, os departamentos deveriam ser apenas um aspecto secundário da organização interna das unidades orgânicas, mas o fato de eles terem que competir por verbas e atenção da reitoria, do CNPq e da CAPES torna isso muito mais difícil. E para piorar a situação na Psicologia, os departamentos não diferem apenas em assuntos abordados, mas também em linhas teóricas adotadas. Em poucas palavras, é um puta barril de pólvora, e qualquer estudante de graduação sabe disso (os de pós não sei se importam com coisas outras que não sua tese).

Com a promoção do Departamento de Psicologia da UFRGS para Instituto em 1996, os três atuais departamentos foram criados de acordo com as afiliações ideológicas dos professores: os psicanalistas lacanianos foram para o Departamento de Psicanálise, os analistas institucionais e psicólogos sociais foram para o Departamento de Psicologia Social e o resto foi para o Desenvolvimento. Historicamente, o departamento mais forte destes três em termos de verba e pesquisa foi sempre o Desenvolvimento. Isto talvez ocorra por causa da personalidade mais agressiva e "caçadora de tesouro" de seus professores, por suas linhas de pesquisa serem mais alinhadas com o que o resto do mundo e o mercado de trabalho queiram, ou por serem mais diversas e preencherem mais nichos. E apesar disso, ocorre (ou ocorria) um fenômeno social bastante paradoxal com a filiação ideológica dos formandos do curso de graduação. Por causa da antiga estrutura curricular, os graduandos levavam um bombardeio de Psicanálise e Psicologia Social no final do curso, Psicanálise principalmente, e todos (salvo raras e nobres exceções) viravam psicanalistas, ou psicólogos sociais com viés psicanalítico. Como o currículo mudou, e começamos a ver Psicanálise desde o começo do curso, a coisa vai ser bem diferente, mas não dá prever agora.

No CU e na COMGRAD-Psico os professores de todos os departamentos se reunem para discutir questões relevantes para o Instituto e para o curso de graduação. Em outras palavras, são campos de batalha onde se decide quem tem mais poder sobre os estudantes e sobre o Instituto. Não tive muitas oportunidades de ver o pau comendo na COMGRAD, mas já vi - e como! - isso acontecendo no CU (o que torna a coisa muito mais engraçada). A batalha mais violenta que já presenciei foi uma discussão sobre as aulas ministradas para a Fonoaudiologia. Vou passar um breve formulário que os capacitará a entender o porquê da discussão:

Aulas ministradas para a Graduação = Dinheiro
Aulas ministradas para um curso de graduação novo = Mais Dinheiro Ainda
Poder dizer que dá aula para mais de um curso de graduação = Prestígio
Poder dizer que ajudou a fundar um curso novo = Mais Prestígio Ainda

Tendo estas informações em mente, é perfeitamente compreensível o Departamento de Psicanálise ficar fulo da vida por que teve quase todas as cadeiras que tinha planejado para a Fono. Mas a coisa não para por aí, por que um professor do Desenvolvimento perguntou na cara dura "o que vocês tem para oferecer para os alunos da Fono? Só tem lacaniano no departamento de vocês! Que diversidade de idéias vocês podem dar?" (não vou nem apoiar nem contrariar a opinião deste indivíduo. Deixo para vocês deduzirem minhas opiniões). A vice-diretora do instituto e psicanalista ficou louca da vida com essa afirmação, levou tudo para o lado pessoal e ficou falando coisas do tipo "a gente vai embora se não precisam da gente então... eu sei quando sou desprezada". O professor que fez as primeiras reclamações não parou por aí, e escancarou a situação de conchavo entre o Social e a Psicanálise quando ocorriam votações importantes no CU. Os professores destes departamentos mostraram-se indignados, e alguns deles acredito que de forma sincera. Mas é óbvio para qualquer chinelão que participe das reuniões do CU como Representante Discente pode atestar isto como um fato, e não mera teoria da constipação conspiração. Foi necessário que um outro professor trouxesse o bom senso de volta para o recinto, ressaltando que o importante do curso de Fonoaudiologia não era a dominância de uma ou outra teoria da Psicologia, mas que seus conteúdos devem ser sobre Fonoaudiologia!

Os Programas de Pós-Graduação refletem ainda mais o ridículo de nossa situação. Se você se lembra do que eu escrevi sobre eles alguns parágrafos acima, vai lembrar que ambos tem o mesmo nome: PPG Psicologia. Os dois programas têm o mesmo objetivo, de formar profissionais para a área de pesquisa e ensino superior em Psicologia. Apesar das diferenças metodológicas que aparecem em alguns pontos, não é muito diferente. Então por que raio que os parta há dois programas separados? Minha resposta preferida é "frescura", mas a mais acurada é "conflitos pessoais internos". Por causa de brigas internas, um PPG a mais foi criado, e muita verba foi jogada fora. OK, muitas faculdades de sucesso têm vários PPGs com assuntos diferentes. Mas isto acontece por causa dos assuntos diferentes. Não é o caso aqui. Só isso deveria ser motivo o suficiente para reavaliar como os PPGs estão estruturados.

E existe uma outra diferença entre os cursos de graduação e de pós-graduação: a avaliação. Enquanto que nós somos avaliados por uma prova específica do MEC, a pós é avaliada pela CAPES, que adota uma metodologia bem diferente. Não vou ficar especificando quais diferenças existem entre as duas avaliações (por que isso é chato pra caralho), o que importa é que é extremamente difícil uma pós-graduação tirar a nota máxima pelo CAPES (nota 7). O PPG do Desenvolvimento tirou nota 7 na última avaliação. Furaram a parede do lado da entrada do Instituto e penduraram um cartaz dizendo isso com letras enormes, para todo mundo ver. O PPG do Social tirou nota 4 - o que não é uma nota ruim para uma pós que vai só até mestrado, mas não dá pra propagandear por aí também.

Essa história de notas do CAPES tem seu valor, mas não tanto quanto os professores do pós gostam de dizer. Se assim fosse, não teriamos tido aulas tão capengas com doutorandos do Desenvolvimento (e momentos como "Os Soldadinhos da Libido" e "A Foto da Mente" teriam ficado apenas no plano platônico das idéias). E os professores dão a bunda para dar aula para a pós - e nem são aulas tão especiais assim, pois muitos professores passam os mesmos textos para nós e para os pós-graduandos. Por essas e outras, se algum dia eu fizer pós-graduação, não vou fazer na UFRGS.

E no meio dessa bagunça toda, estamos nós, valentes graduandos em Psicologia, representados pelo DAP. Curiosamente, o DAP é a entidade que representa TODOS os estudantes de Psicologia do Instituto, graduandos e pós-graduandos. Só que a última vez que eu vi um mestrando ou doutorando entrar no DAP foi para arranjar mão-de-obra escrava barata para coletar dados pra pesquisa dele. Na prática, os únicos envolvidos no DAP são graduandos. Não posso me esquecer do PET, que é uma fonte de renda para estudantes de graduação dispostos a se prostituírem para a Pró-Reitoria de Graduação por 300 reais todo mês (eu quero vender minha dignidade para a Pró-Reitoria de Extensão). Politicamente, o PET não é grande coisa, mas organiza eventos legais de vez em quando.

Faltou xingar o DAP. Fica meio difícil para um participante desta baderna como eu criticar o DAP, mas acho um tanto quanto óbvio que muitas vezes ficamos só "problematizando" as coisas e não vamos para a parte prática de mudar as coisas. Algumas de nossas reuniões parecem a reunião da Frente Popular da Judéia, no filme "A Vida de Brian", em que eles discutem animadamente que irão fazer tudo o que dizem - tudo devidamente anotado na ata. Por sermos anarquistas, somos também levemente desorganizados, e cada um faz o que quer ou acha importante. Em algumas coisas fomos capazes de nos unir, mas devo dizer que foram situações de exceção.

Bem, me despeço, depois de tão longo post destruíndo todo o Instituto. Talvez algum dia desses eu critique os departamentos individualmente. Até lá, olhem para o lado bom da vida, como cantou Jesus Cristo.

domingo, 16 de março de 2008

Barras pra que te quero

Nesses meses de treino, correndo no parque dos macaquinhos em Caxias, notei enquanto alongava que a barra fixa é um chamariz para grupos de jovens adultos do sexo masculino, que se aglomeram em torno deste aparelho de exercícios para competir e ver quem é o mais forte. Frequentemente, o campeão é alguém recém saído do quartel, e frequentemente, é este quem incita os outros a entrarem na competição contra ele, com a certeza de que vai ganhar.

"Andarilho, VOCÊ TAMBÉM é um jovem adulto do sexo masculino".

Eu sei. Mas eu tenho padrões de comportamento diferentes, talvez por fazer Psicologia, ou por que decidi fazer Psicologia, não sei. Só sei que, sempre que vejo estas matilhas de homens se aproximando da barra fixa para ver quem é o melhor eu me mantenho a distância. Não é por medo de perder de forma humilhante. Na verdade, há poucos na minha idade que conseguiriam me derrotar num campeonato de barras. Prefiro passar incógnito, apenas observando.

Fico poderando o motivo de tais campeonatos entre amigos. Raramente eles descambam para violência, até por serem entre amigos, mas demonstram claramente a tendência masculina de competir e demarcar território. A exclamação "eu sou o Rei da Barra Fixa" não deixa de ter suas semelhanças com o comportamento dos lobos machos de urinarem em árvores para demarcar seu local de caça e afugentar machos rivais.

Também é interessante notar que este comportamento é mais comum no Parque dos Macaquinhos, em Caxias do Sul, do que no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Até agora, não vi nenhuma matilha de rapazes se aproximando de uma barra fixa para ver quem é seu rei. Há muitas explicações diversas para esta diferença: as barras fixas no Parque dos Macaquinhos são muito mais visíveis do que na Redenção - no Macaquinhos elas estão do lado da pista de corrida, enquanto que na Redenção elas estão no meio do mato. Uma maior visibilidade permite que os competidores possam vê-las mais facilmente, e principalmente, se exibirem com maior facilidade ("Olha como eu sou forte, mulherada!"). Pode ser também que, devido ao tamanho muito menor do Parque dos Macaquinhos, se comparado com o Parque da Redenção, este fenômeno social seja mais visível em Caxias do que em Porto Alegre. Ou eu nunca fui pra Redenção numa hora que os homens jovens se reunam pra cantar de galo.

Vídeos e criatividade

Finalmente aprendi como se posta vídeos em blogs. Isso permite que eu faça posts com mais freqüência, mas também pode me fazer ir por um caminho que não quero trilhar.

É legal postar vídeos e coisas catadas da internet. Mas eu sou um blogueiro com um código de conduta bem restrito: esforce-se para publicar coisas criativas e não saia copiando e colando feito um abobado é meu primeiro mandamento. Quebrei ele a marretadas no mês de janeiro no R&A. E mesmo naquela época sombria (2 meses atrás), eu ainda tentava dar um toque pessoal para todas as porcarias que eu pegava no 4chan. E colocar vídeos que outras pessoas criaram no meu blog pessoal não é criativo (fazer os próprios vídeos e postá-los, por outro lado, é).

Mas enfim, agora que eu posso colocar vídeos aqui, o blog vai ficar mais variado, o que é sempre uma coisa boa. Desde que eu não erre a mão e exagere.

Signal Fire - Snow Patrol

Primeiro vídeo postado com sucesso aqui no Espadachim Cego (eu espero). Música muito bonita, com um vídeo muito bem montado.

Doce quimera

Por alguns instantes, acreditei que consegui postar vídeos no blog, para logo depois ter meu coração despedaçado pela realidade. Não dá pra editar a droga do post sem foder com o vídeo.

Mais um link interessante

Ballastexistenz

Coloquei na guia de links interessantes hoje. É o blog pessoal de Amanda Baggs, adulta autista que defende que sua condição não é uma doença, apenas uma forma diferente de funcionar no mundo. Ela ficou mais conhecida depois que postou um vídeo no YouTube chamado "In My Language", gravado, editado e postado sem ajuda de ninguém. Nele, ela mostra sua forma pessoal de comunicação com o mundo, e reclama que, apesar de ser considerado um déficit grave não falar a língua normal (ela é "muda"), não é considerado um problema não entender a língua autista. Aqui está ele:

http://www.youtube.com/watch?v=JnylM1hI2jc

Eu ainda aprendo como colocar o vídeo no blog, mas até lá, contentem-se com um mero link.