sábado, 30 de agosto de 2008

Humildade e Verdade

Acredito que foi Descartes que disse pela primeira vez, no Discurso do Método, que o “bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos estão convencidos de terem o suficiente”. Não sei qual foi sua intenção original ao escrever isto, mas atualmente soa como uma fina ironia – pois mesmo os psicóticos se crêem as criaturas mais sãs do universo.

Acredito que esta fé absoluta na razão, esta crença de que somos plenamente capazes de entender e resolver qualquer coisa é uma das maiores fontes de miséria humana. Esta quinta-feira fui surpreendido por uma afirmação de um colega meu. Durante nosso percurso entre a parada de ônibus e o RU, ele disse que “quem faz filosofia não tem senso crítico, mas quem faz ciência tem”. Obviamente, ele se intitula um cientista. Alguns segundos depois ele reviu sua posição, já que eu e outro colega meu despejamos argumentos contrários, e ele fora forçado a ver que toda a ciência repousa sobre a base de uma metateórica filosófica. Ainda assim, esta afirmação evidencia o que acredito ser justamente a falta de senso crítico de meu colega. É tão garantido para ele estar certo que todos os outros sempre estarão errados, por mais absurdas que sejam suas próprias opiniões (do meu colega, entenda-se). Fiquei um tanto quanto indignado com isto, pois me é inconcebível ter tamanha certeza. Mas isto também me levou a pensar: até que ponto eu não faço o mesmo?

Ontem tive uma prova incontestável da minha prepotência. Já afirmei várias vezes que sou arrogante, mas nunca antes experienciei isto como tão verdadeiro e profundo. Em outras palavras, nunca me senti tão humilde, e tão necessitado de humildade quanto ontem. Trouxe-me à consciência, mais uma vez, a necessidade da honestidade, pois é impossível ser humilde sem ser absolutamente honesto. Muitas vezes nos enredamos em filosofias solipsitas e radicalmente relativistas não por que realmente acreditamos nelas, mas por que elas nos tornam invulneráveis a críticas e a erros. Torna-nos “perfeitos”. Mas que perfeição é esta? A verdadeira honestidade, como eu a vivencio, não é complacente nem justificadora: é absoluta. Desconfie de alguém que tem sempre respostas e justificativas para tudo, pois em algum momento ele estará errado, mas não terá coragem de admitir e mentirá. Para ele, é preferível manter a imagem idealizada de si mesmo do que buscá-la – a busca envolve dor, ao passo que a idealização consiste meramente em ficar sentado sonhando. Uma pessoa honesta, por outro lado, admitirá antes de mais nada que ela mesma não é honesta, que em algum momento ela invariavelmente cairá na fraqueza de justificar-se, e que é necessário estar sempre atento para não sustentar uma ilusão egoísta.

Não sei definir ao certo se a honestidade é decorrente de um profundo desejo de conhecer a verdade, ou se desejamos conhecer a verdade por que somos honestos. Muito provavelmente sejam as duas coisas. Posso, contudo, dizer que quanto mais ilusões abandonamos, mais capazes de identificar erros nos tornamos, e mais próximos da verdade chegamos.

Um comentário:

Bruno Graebin de Farias disse...

Também me identifico com essa arrogância =)
Esses dias eu tava pensando justamente nisso. Eu sou bastante violento nas minhas críticas em relação à política, e tenho uma tendência a achar as idéias mais senso-comum ou 'reacionários' algo muito estúpido, e lamento pelas pessoas que não conseguem refletir e ir mais além. Só qeu um dia desses eu me peguei pensando "como é que ele pensa uma coisa dessas? É tão óbvio que..."...daí eu parei. Como assim é 'tão óbvio'? Dá pra dizer qeu é uma conclusão fácil de se chegar com base em determinados pressupostos, mas não que é óbvio. O método de conhecimento da obviedade não é tão confiável, e é fundamentando suas idéias em obviedades que as pessaos ficam tacanhas e sem espírito crítico. No mesmo instante comecei a questionar minhas mais profundas convicções, principalmente as minhas bandeiras políticas que eu empunho pra comprar briga com todo mundo. Daí eu me dei conta que eu tenho que refletir sobre elas como se eu recém estivesse chegando a essas conclusões, e não como se fossem óbvias para mim. E é isso o que farei. Imagina se eu mudo de idéia, que máximo?