segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Em Busca da Liberdade

Biologicamente, não somos livres. É uma frase impactante, que choca quase todos os que a lêem. Entretanto, qualquer neurocientista ou pessoa que entenda um pouco mais sobre o assunto a encararia como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. E de fato, somos biologicamente determinados - temos sobre nossos ombros o peso de milhões de anos de evolução, passados em mundo material com leis físicas invariáveis e constantes, que determinaram nossos polegares, nossos neurônios, nossos instintos e nossos comportamentos reflexos. Nesses milhões de anos, nossos ancestrais passaram a maior parte de seu tempo em ambientes selvagens, como florestas e estepes, e fazem apenas 3 ou 4 mil anos que nos estabelecemos em cidades. Podemos ter deixado o mundo selvagem, mas o mundo selvagem não nos deixou: ainda somos animais, macacos pelados com mania de grandeza. Além disso, mesmo na dita "civilização", nossas atitudes são fortemente influenciadas por nosso ambiente, tanto físico e social, ou, como Skinner chamou, pelas contingências e metacontingências de reforçamento.

Entre todos estes determinantes físicos, biológicos e sociais, sobra pouco espaço para fazermos algo realmente espontâneo, verdadeiramente nosso. Quase não somos livres, e há quem diga que não somos livres em absoluto. A Ciência já nos deu muitas provas de que vivemos presos em nossos corpos, mas não é preciso abrir uma revista especializada em Neurobiologia para chegarmos a esta conclusão. Basta olharmos em nossa volta, para todos os que nos cercam e para nós mesmos. Quantas vezes não pensamos apenas em nós mesmos e ignoramos todo o resto? Quantas vezes agimos egoisticamente, mesmo sabendo que poderíamos ter sido nobres? Um psicólogo evolucionista diria que isto é absolutamente normal, pois a mãe natureza nos ensinou a lutarmos primeiro por nossas vidas e depois pela dos outros - mesmo a vida social é um reflexo disto, pois a chance de sobrevivência é muito maior em grupos grandes. Por que, então, ainda insistimos nesse mito que é a liberdade? Por que, mesmo golpe após golpe da Física, da Biologia, da Sociologia e da Psicologia, ela ainda se sustenta em seus leves fios metafísicos?

Paradoxalmente, mesmo com todas estas evidências contrárias, ainda nos apegamos ferrenhamente ao nosso ideal de liberdade, ou melhor dizendo, parece que, a cada artigo de neurociência que sai reforçando nosso determinismo, mais nos aferramos ao ideal de liberdade. E, mais paradoxalmente ainda, é esse ideal, talvez miragem, que nos faz melhores. Pesquisas científicas mostraram que é justamente quando não se acredita em livre arbítrio que mais se trapaceia e mente. Quando somos levados a crer que não há escolha, agimos da forma que somos esperados - em benefício próprio, mesmo que em detrimento dos demais. Mas ao contrário, se nos é dada a opção, se nos é mostrado que podemos ser diferentes, escolhemos por sermos o melhor que podemos ser. E se os neurocientistas têm descoberto cada vez mais evidências de nossa escravidão, os clínicos - médicos, psicólogos, enfermeiros e todo e qualquer profissional que trabalhe diretamente com seres humanos - têm feito justamente o contrário, estimulando que seus pacientes e clientes busquem cada vez mais sua própria autonomia. Surpreendentemente, tem dado certo!

Seria isso uma ilusão? Um condicionamento operante mui sofisticado que a natureza desenvolveu? Não sei. Apenas acredito que é muito mais do que isso. Podemos ter toda a história em nossas costas, tanto da humanidade inteira quanto nossa própria, guiando nossos passos e os determinando, mas sempre podemos agir de uma forma completamente diferente, indo contra tudo que nossos genes e nossas famílias dizem. O passado é imutável, e deixa uma marca indelével em nós, e o futuro existe apenas em sonhos. Mas o presente, o aqui e agora existe - é a folha em branco do livro de nossas vidas que encaramos agora, e que espera para ser preenchida. É nesse vazio, onde nenhuma escolha foi feita ainda, que reside nossa fugidia liberdade.

Talvez isto que chamo de liberdade não seja liberdade verdadeira, apenas o começo da trilha que nos leva até ela. Talvez não estejamos prontos para saber o que realmente é ser livre, e devemos primeiro caminhar uma longa jornada presos em nossos corpos, instintos e preconceitos, e gradativamente nos libertamos de seus grilhões - não digo abandoná-los, mas nos tornarmos capazes de fazer o que queremos e o que devemos com sua ajuda, e não apesar deles como ocorre agora. Há na internet um vídeo curta-metragem bem famoso, chamado Dance, Monkeys, Dance. Em poucas palavras, é um documentário sobre a raça humana, feito nos mesmos moldes dos tantos documentários que fizemos sobre outros animais - com um ar de superioridade e prepotência, pois, afinal, somos só macacos. Foi isso que o professor de Genética disse em nossa primeira aula: não passamos de macacos. E, realmente, como esquecemos que somos animais e fingimos que somos superiores, apenas para cometer crimes que chimpanzés não cometeriam? Mas não posso concordar com o professor. Não em tudo, pelo menos.

A maioria das pessoas que assistem ao vídeo prestam atenção apenas no fato que o narrador nos chama repetidamente de macacos (posso apostar que muitos que assistiram a este vídeo devem ter se sentido profundamente ofendidos e/ou humilhados), e como agimos de forma imbecil e mesquinha ao longo de nossa história, e deixam passar uma pequena frase, que considero a mais importante de todas: "os macacos têm tanto potencial, se apenas eles se aplicassem". Este é um dos motivos mais fortes que me mantém cursando Psicologia - por que eu sinceramente acredito que podemos ser mais do que somos. Por este motivo, não acho que sejamos só macacos. Considero um erro acreditar que somos superiores aos outros animais, mas ao invés de dizer que somos "só macacos", prefiro dizer que os demais animais não são "só bichos". Cachorros são mais do que criaturas de 4 patas que babam no carpete e correm atrás de carros, assim como gatos não são só auto-lambedores eficientes. Somos todos seres vivos, dignos de respeito e capazes de crescer, aqui e agora, neste mundo, bastando apenas nos dedicarmos.

5 comentários:

Equipe disse...

Ótimo texto, realmente muito bem escrito. Seu blog também entrou para os meus favoritos lá no Play The Coin!, porque realmente é muito bom.

E concordo com você. Nosso maior livre-arbítrio está, na verdade, em querermos ser melhores pessoas ou não. O resto é consequência, ao meu ver.

Lady Hell disse...

O comentário de antes foi meu, só errei o login, hehehe

Luiza Vanset disse...

"esses macacos sao ao mesmo tempo as mais feias e mais belas criaturas do planeta, e os macacos nao querem ser macacos, eles querem ser outra coisa, mas nao sao" (dance monkeys dance)
eeh estah na hora dos macacos se aceitarem. hehe

muito bom post
=)

marceloduarte disse...

"Pesquisas científicas mostraram que é justamente quando não se acredita em livre arbítrio (...)"
Citation needed.

Andarilho disse...

Fuck. Fair enough. Vou ter que catar aquele artigo de novo (era divulgação científica).