segunda-feira, 6 de julho de 2009
Pergunta do momento
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Televisão, Estágio e Loucura (Parte 2)
O programa é um lixo. Um grande, verdadeiro, completo e total lixo. Não paira nenhuma dúvida a respeito disso. Eu sei disso, o auditório sabe disso, os moradores do São Pedro sabem disso, a produção do programa sabe disso, a Márcia sabe disso! Ainda assim, não dá para tirar os olhos da droga da TV por que a maldita apresentadora enrola tanto, faz tanto doce que no fim qualquer que seja a merda que ela esteja apresentando parece a coisa mais interessante do universo! Veja o exemplo do programa de hoje. A atração principal era um quadro chamado "Espelho Meu" - nesse quadro, a produção do "Márcia" escolhe uma pessoa, geralmente mulher, pobre, favelada e com uma história de fazer a Joseph Klimber chorar, para passar por uma reforma geral no próprio corpo e sair praticamente uma deusa. Esta proposta é duplamente chamativa, por que atrai a atenção do público tanto pela caridade que a Márcia "faz", quanto pela curiosidade mórbida. Eu fui pego pela segunda, pois o que realmente me chamou a atenção foi o close que deram nos dentes completamente podres da pobre candidata à princesa encantada antes do "extreme make over". Mas, o fator que gera mais curiosidade é o mistério. Não se acompanha passo a passo a lenta transformação desta mulher, nunca se vê ela por inteiro, só em partes (os dentes podres, por exemplo). Quando ela tem que aparecer com todo o corpo, ela aparece usando uma roupa preta e uma máscara branca, cobrindo tudo.
Disfarce da participante do quadro "Espelho Meu". Creepy...
A idéia é ir gerando tensão e curiosidade no público, para segurar ele até o final e ver o resultado. E, meu chapéu, como funciona! E como aquela desgraçada da Márcia se aproveitava de nossa paciência! A cada cinco minutos, mostrava na tela um pedaço do processo - no cabelereiro, no dentista, no dermatologista, no pai de santo - dizia que a mulher estava ali, conversava com ela, e então ameaçava mostrá-la ao público. Porém, no exato momento em que achávamos que ela ia mostrar, ela cortava para os comerciais ou para o jabá de algum produto remelento. Isso chegou a atrapalhar meu desempenho profissional. Estava lá eu, conversando com meu acompanhado terapêutico, fortalecendo nosso vínculo, quando de repente aparecia a Márcia e começava a falar no "Espelho Meu". Desconcentrava-me completamente e ficava prestando atenção na TV, pensando "É agora!". Não, nunca era. Depois da terceira vez que ela negou fogo, decidi que era hora de ir embora. Passei, contudo, na casa de outra moradora, e adivinhem o que ela estava fazendo? Sim, olhando a Márcia. Decidi que era meu destino ver como ficara a pobre mulher totalmente repaginada, e fiquei assistindo aquele lixo televisivo até o final. E, como era de se esperar, me decepcionei. Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que falei foi "colocaram uma cebola no lugar do cabelo dela?" OK, admito, ela estava bonita, mas não o suficiente para justificar toda a atenção que dei para ela. E esse programa é sempre assim: capturam tua atenção com uma chamada espalhafatosa, te enrolam até onde conseguem e então te decepcionam. Mas, não importa quantas vezes isso tenha acontecido, sempre que você ligar a TV naquele canal, naquele horário, vai acabar olhando o programa da Márcia de novo, por que com certeza alguma idiotice vai te atrair. O site do programa também é assim - "mulher noiva há 25 anos"? "Marido infiel jura ter mudado"? Que porra é essa? Não sei, mas quero ver! E é assim que programas ruins continuam no ar: atacando continuamente os nossos pontos mentais mais fracos.
Márcia: histericamente chamando nossa atenção em mais de um front.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
As Provações da Faculdade XXXVI
Aparentemente, este desenho revela muitas coisas a respeito de minha personalidade.
Aparentemente, este aqui também.
Minha opinião a respeito de algumas cadeiras, pelo menos.
As Provações da Faculdade XXXV
domingo, 28 de junho de 2009
Postura Terapêutica em Situações Complicadas
Eu: Cara, mudando de assunto, qual tua opinião a respeito de dizer o diagnóstico para o paciente? Por exemplo, dizer para uma paciente que ela é borderline? Tu acha que é terapêutico ou iatrogênico?
Bruno: depende de cada caso, e do teu plano sobre o que fazer ao informá-lo. No caso, digamos, de uma adolescente identificada como borderline, primeiro, é preciso testar rigorosamente essa hipótese. Também é preciso avaliar a gravidade. Se ela tem muitas tendências suicidas, e já tentou matar ex-namorados algumas vezes é bom informar a ela e aos seus familiares o que é isso e como proceder, e porque é importante ela se manter em tratamento. Por que a pergunta?
Eu: Interesse acadêmico. Meu supervisor local falou sobre isso esses tempos lá no Morada, e depois eu ouvi alguém no congresso falar exatamente o oposto.
Bruno: Hummmmm... teu supervisor local se posicionou contra a devolução do diagnostico?
Eu: Sim – disse que era iatrogênico dizer para alguém que ele era neurótico, por que ela se identificaria com isso. Ou algo assim.
Bruno: Hummmmm... No caso do diagnostico estrutural psicanalítico, eu acho que sim. E de transtornos de personalidade também... com exceção de borderline, talvez. Tipo, não me parece que ajuda dizer pro paciente que ele é histriônico ou narcisista, mas dizer que ele tem Transtorno de Humor Bipolar, personalidade borderline, epilepsia ou esquizofrenia parece muito benéfico, porque ajuda ele a se entender, e entender que aquilo vai continuar pra sempre mesmo, e vai ter que seguir em tratamento psicológico e farmacológico.
Eu: Então, na tua opinião, depende do transtorno?
Bruno: Depende do beneficio que for trazer. Tem transtornos que parecem não trazer beneficio nenhum, enquanto outros sim.
Eu: É contextual, então.
Bruno: Aham, e depende muito da conduta do terapeuta. Tipo, só mostrar o diagnostico vai deixar o paciente muito confuso. É importante explicar como funciona e, principalmente, o que fazer. Isso tem que ajudar ele a se entender, ser compreendido por familiares e colegas, e fornecer o instrumental para ele viver uma vida mais feliz
Eu: E, mais importante, o terapeuta deve deixar claro que tem tratamento, por que se não, daí sim é iatrogênico.
Bruno: Bah, muito boa. Isso se aplica pra diagnosticos psi. Lembra da Síndrome de Huntington? Ou da Síndrome de Hatch? São doenças neurodegenerativas muito graves e sem cura, e é um baita dilema sobre dizer ou não que a pessoa pode demenciar e morrer logo. Mas acho que aí que ta o tentar oferecer uma vida de menos sofrimento. Tipo, dizer isso pra um adulto, que ele vai demenciar e morrer dentro de dez anos, tem que ser acompanhado de um baita trabalho para estimulá-lo a aproveitar a sua vida plenamente, se não ele vai acreditar que não vale a pena viver. E dar a certeza de que, quando ele demenciar, sua família vai acolhe-lo com cobertores quentinhos, comida boa e deixá-lo vendo desenho e levando-o para a praça ou para ver o mar.
Eu: Essa certeza é meio complicada de dar, considerando que não depende da gente.
Bruno: Sim, sim. Mas a gente tem que fazer esse acordo com a família.
Eu: E torcer para que eles cumpram com a palavra deles (ou que o paciente demencie logo e não lembre nada a respeito disso).
Bruno: XDDDDDDDDD
Eu: Em todo caso, a gente cai na velha discussão de "quem cuida dos cuidadores?" - por que, por um lado, cuidar de um familiar demenciado não é fácil, mas por outro, cumprir a promessa de dar cuidado para ele pode dar uma sensação de sentido para os cuidadores.
Bruno: por isso a importância do acompanhamento. Os familiares também sofrem, e precisam desse amparo e de orientação.
Publicado originalmente nos Amoladores de Facas.
terça-feira, 23 de junho de 2009
As Provações da Faculdade XXXIV
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Vida Dura (Parte 24)
Claro, a relação que os estudantes de universidades particulares têm com seus RUs é um tanto quanto diversa da dos estudantes de universidades públicas (especialmente federais). Nas particulares, como todas as outras coisas, ela é definida pelo preço da refeição - sempre caro, entre 5 ou 6 reais. Já nas públicas, a questão do preço surge apenas esporadicamente, geralmente quando a reitoria decide aumentar o preço e o DCE organiza passeatas e protestos e os estudantes ficam gritando até o reitor mudar de idéia e deixar tudo como está, sendo o mais importante a natureza duvidosa da comida servida. Tá, eu sei que as estagiárias de Nutrição estão lá, zelando pela nossa saúde e cuidando para que não ocorra uma intoxicação alimentar em massa, mas a impressão corrente é que elas não têm muito sucesso nesta empreitada, e comer no RU da UFRGS é sempre uma aventura. Já ouvi relatos de já terem servido feijão peludo e da nutricionista responsável vir a publico dizer que aquilo na bandeja de todo mundo não era cabelo, mas carne desfiada (eu gostaria de estar inventando isto). Estes são apenas os casos saídos da Twilight Zone, que acontecem de vez em quando. São realmente bizarros, mas não dá para construir uma sólida reputação apenas com um ou dois grandes eventos, mas nas coisas pequenas e constantes de nosso dia a dia, como o feijão com pedrinhas, o arroz cru, a salada radioativa, as bandejas pré-servidas, o suco sabor caneta marca-texto, a carne que deveria ser estudada pelos geólogos e não por nutricionistas... enfim, todas as miudezas que fazem do RU ser tão nosso!
Diante desta situação, como reagem os estudantes? Continuam comendo lá, mas nem por isso deixam de reclamar. É fato que reclamar do RU é um esporte extremamente popular na UFRGS (e este deve ser meu enésimo post nesta categoria). Contudo, todavia, porém, dentre os muitos dias de comida esquisita (e que pode morder em retaliação), aparecem alguns dias que fazem valer a pena gastar R$1,30 para almoçar: os dias que servem delícias como banana com calda de chocolate.

Claro, a banana deve estar verde e tem pouca calda de chocolate, mas ainda é banana com calda de chocolate! E notem que o feijão com arroz também vem acompanhado com batata palha.
*Só pra constar: aqui na UFRGS esse encontro de titãs é difícil, mas pode acontecer em pelo menos um RU - o do Campus do Vale, onde o curso de Odontologia tem pelo menos algumas disciplinas.
Viva a Sociedade Alternativa!
Senti algo parecido semana passada, e na outra, durante a reunião do nosso diretório. Mais uma vez, não estavamos fazendo nada que não se faz em qualquer reunião de qualquer coisa, seja de diretório ou de clube de biriba: discutimos pautas, tomamos decisões práticas, ouvimos informes, fizemos piada a respeito de algumas bobagens. No meio de toda a algazarra, deixei-me levar e apenas observar, sentir e ouvir o que acontecia ali, e senti-me profundamente contente, pois foi-me permitido ver um coletivo estudantil decidindo seus próprios rumos, mesmo durante o inferno do final de semestre, e tudo isto sem conflitos partidários e brigas mesquinhas! Pode ser que dure pouco e que esta semana o DAP morra novamente, mas durante os últimos seis meses, como ele viveu! Fiquei ainda mais contente quando um outro colega meu, também presente nesta reunião, falou que sentiu algo muito parecido com o que eu mesmo senti.
Que sensação é essa? A resposta surgiu antes mesmo que conseguisse formular a pergunta - é a sensação de pertencer a um grupo, a algo maior que si mesmo e mesmo assim continuar um indivíduo único - de poder depender dos outros mas continuar independente. Se todo movimento estudantil fosse assim, viveriamos uma verdadeira revolução.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
O Segredo da Flor de Ouro
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Experiências subjetivas de um treino incomum
Todos os sábados à noite, na academia de Kung Fu, ocorrem treinos extras, para aqueles que querem participar de competições e demonstrações públicas. Eles são estruturados de maneira bastante diversa dos treinos regulares, pois o treino físico é grandemente reduzido, deixando muito mais tempo para a prática de formas a serem apresentadas em eventos externos. Outro ponto em que eles diferem da norma é que nem sempre o professor está presente - quando, por um motivo ou outro ele não está, as atividades feitas em conjunto, como o aquecimento e o alongamento, são ditadas pelo aluno mais antigo. Depois que elas são concluídas, cada um vai para seu canto (tanto quanto isso é possível) e treina as formas que decidiu apresentar em eventos externos individualmente. Quando o professor está na academia, ele impõe maior ordem no treino e acaba funcionando como um fator de "coesão social" entre nós e os outros colegas. Porém, isto não muda o fato de que cada um dos presentes tem que praticar suas técnicas independentemente dos demais. Ao final de cada treino, apresentamos as formas que praticamos para os outros, simulando uma competição. Pessoalmente, acredito que este momento final é o mais interessante, por que nele posso ver como os outros se comportam diante de uma situação potencialmente estressante e, principalmente, como eu me comporto nestas mesmas condições - se minha técnica está boa, se esqueço das coisas, se me mantenho calmo e concentrado.
Até então, meus "resultados" nesta apresentação final tinham sido de certo modo desapontadores. Uso este termo por não existirem outros mais adequados, já que, na verdade, não me senti verdadeiramente desapontado ou chateado em nenhuma das vezes, apenas notei que cometi muitos erros e segui adiante. Meu erro mais comum, de longe, é esquecer partes das formas durante as apresentações. Ficava preocupado demais em fazer tudo corretamente, e deixava de prestar atenção ao que estava fazendo naquele instante.
Neste último treino, entretanto, notei uma grande diferença em mim mesmo. Depois de termos aquecido e alongado, nos separamos e começamos a treinar separadamente, como sempre. Só que, desta vez, em quanto fazia minhas formas, senti uma mudança radical: não tinha nenhuma opinião sobre se o que eu estava fazendo estava certo, errado, bom ou ruim, mas me sentia extremamente satisfeito apenas em fazer. Quando parei e tentei observar esta sensação de forma mais atenta e entender o que a causava, ela sumiu, e voltou apenas quando deixei de procurá-la. Mais tarde, na hora das apresentações, ficou decidido que cada um mostraria apenas uma forma, para a coisa toda não levar muito tempo. Tinha treinado duas formas diferentes - uma de mãos livres, e outra de bastão. Enquanto a primeira eu sentia dominar relativamente bem, a segunda eu sentia certa insegurança, pois costumo esquecer ou confundir vários pedaços dela. Quando falaram que apresentariamos apenas uma forma, pensei que seria mais fácil apresentar aquela que dominava mais. Porém, logo em seguida pensei "por que eu não me desafio e apresento a forma mais ansiogênica?" e decidi demonstrar a forma de bastão. Para minha surpresa, pela primeira vez não esqueci nem errei nada. Relembrando a experiência e a colocando em palavras, parece tudo muito engraçado e paradoxal, pois durante minha apresentação eu não pensava, pelo menos não do mesmo jeito que estamos acostumados, pois mesmo assim eu estava plenamente consciente que não estava pensando! Os únicos pensamentos que quebravam este padrão de absorção ocorriam quando eu percebia algum erro na minha movimentação - e assim que o movimento errado fosse corrigido, eu voltava ao estado anterior. Não havia nenhum sentimento ou emoção, mas eu ainda assim (paradoxalmente), me sentia extremamente bem.
Não posso dizer se este estado de consciência que experimentei se tornará cada vez mais freqüente ou se foi apenas um caso isolado. Tomara que seja o primeiro. Se não for, paciência.
domingo, 10 de maio de 2009
Vida Dura (Parte 23)
Televisão, Estágio e Loucura
Não pretendo, com este post, desmerecer meus amigos do Morada por terem mau gosto televisivo - primeiro por que seria presunção minha dizer que o que eles gostam é "ruim" ou "inferior", e o que eu gosto é "bom" e "superior" - levei (e levo) uma vida diferente da deles, e aprendi a gostar de programas menos barulhentos e mais sutis. O que me levou a escrever este post foi o sentimento de estranhamento que tive, tanto entre meus gostos e dos moradores, quanto das minhas reações passadas e presentes a filmes que me desagradavam. Parece-me um bom sinal que eu seja mais capaz de rir deles do que sentir-me injuriado.

