segunda-feira, 6 de julho de 2009

Pergunta do momento

Por que final de semestre sempre vem acompanhado por uma sensação de apocalipse iminente? É a privação de sono ou os trabalhos para entregar amanhã?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 2)

Mais um dia de estágio, mais um dia de exposição às ondas televisivas. Fui na casa de um morador, para ver como ele estava e conversar um pouco. Como era de praxe, a TV estava ligada. Se serve de consolo, pelo menos desta vez ele não estava sentado no sofá semi-morto, mas tomando seu café da tarde na mesa ao lado, onde se podia apenas escutar a TV. O programa que assistiamos hoje não era nem um filme ruim de doer, nem aquele programa de velhas fofoqueiras com sede de sangue que é o "Brasil Urgente" do Datena - era o show da Márcia. Para os abençoados que não lembram ou são jovens demais para lembrar, aqui vai a maldição do conhecimento - depois que vocês lerem este post, nunca mais esquecerão. Resumidamente, essa Márcia é uma apresentadora rampeira que trabalha como "cabeça" de shows vagabundos há um bom tempo, mas que estourou de verdade há uns 10 anos ou mais quando foi contrada para apresentar um programa de auditório (narcisisticamente chamado de "Márcia") cuja principal missão era a de ser um fórum para aqueles que, não satisfeitos em brigar com algum amigo ou parente por um motivo besta, queriam mostrar para todo o Brasil que estavam brigando com algum amigo ou parente por um motivo besta. Lembro de ter assistido alguns episódios, e a coisa era realmente besta - a atração principal de um era dois amigos brigando sobre qual era o melhor time, Grêmio ou Inter (falando nisso, como tem corinthiano aqui em Porto Alegre, hein?). Tenho a impressão que, por mais que eu me esforçasse, jamais poderia ter idéias tão idiotas. Em todo caso, depois de um tempo ela começou a perder credibilidade (que mesmo hoje não é exatamente muito grande), o programa saiu do ar e ela foi parar na geladeira do SBT. Maaaas, sendo a fênix que ela é, ressurgiu tempos depois, em outro canal, apresentando a mesma porcaria. No presente momento, ela apresenta um programa praticamente igual ao que lembro dela apresentar no SBT, inclusive com o mesmo nome (por que alguém que disse ao vivo que queria que todas as mulheres que assistiam o seu programa fossem fortes, firmes e decididas não deixaria seu narcisismo assim tão facilmente).

O programa é um lixo. Um grande, verdadeiro, completo e total lixo. Não paira nenhuma dúvida a respeito disso. Eu sei disso, o auditório sabe disso, os moradores do São Pedro sabem disso, a produção do programa sabe disso, a Márcia sabe disso! Ainda assim, não dá para tirar os olhos da droga da TV por que a maldita apresentadora enrola tanto, faz tanto doce que no fim qualquer que seja a merda que ela esteja apresentando parece a coisa mais interessante do universo! Veja o exemplo do programa de hoje. A atração principal era um quadro chamado "Espelho Meu" - nesse quadro, a produção do "Márcia" escolhe uma pessoa, geralmente mulher, pobre, favelada e com uma história de fazer a Joseph Klimber chorar, para passar por uma reforma geral no próprio corpo e sair praticamente uma deusa. Esta proposta é duplamente chamativa, por que atrai a atenção do público tanto pela caridade que a Márcia "faz", quanto pela curiosidade mórbida. Eu fui pego pela segunda, pois o que realmente me chamou a atenção foi o close que deram nos dentes completamente podres da pobre candidata à princesa encantada antes do "extreme make over". Mas, o fator que gera mais curiosidade é o mistério. Não se acompanha passo a passo a lenta transformação desta mulher, nunca se vê ela por inteiro, só em partes (os dentes podres, por exemplo). Quando ela tem que aparecer com todo o corpo, ela aparece usando uma roupa preta e uma máscara branca, cobrindo tudo.


Disfarce da participante do quadro "Espelho Meu". Creepy...


A idéia é ir gerando tensão e curiosidade no público, para segurar ele até o final e ver o resultado. E, meu chapéu, como funciona! E como aquela desgraçada da Márcia se aproveitava de nossa paciência! A cada cinco minutos, mostrava na tela um pedaço do processo - no cabelereiro, no dentista, no dermatologista, no pai de santo - dizia que a mulher estava ali, conversava com ela, e então ameaçava mostrá-la ao público. Porém, no exato momento em que achávamos que ela ia mostrar, ela cortava para os comerciais ou para o jabá de algum produto remelento. Isso chegou a atrapalhar meu desempenho profissional. Estava lá eu, conversando com meu acompanhado terapêutico, fortalecendo nosso vínculo, quando de repente aparecia a Márcia e começava a falar no "Espelho Meu". Desconcentrava-me completamente e ficava prestando atenção na TV, pensando "É agora!". Não, nunca era. Depois da terceira vez que ela negou fogo, decidi que era hora de ir embora. Passei, contudo, na casa de outra moradora, e adivinhem o que ela estava fazendo? Sim, olhando a Márcia. Decidi que era meu destino ver como ficara a pobre mulher totalmente repaginada, e fiquei assistindo aquele lixo televisivo até o final. E, como era de se esperar, me decepcionei. Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que falei foi "colocaram uma cebola no lugar do cabelo dela?" OK, admito, ela estava bonita, mas não o suficiente para justificar toda a atenção que dei para ela. E esse programa é sempre assim: capturam tua atenção com uma chamada espalhafatosa, te enrolam até onde conseguem e então te decepcionam. Mas, não importa quantas vezes isso tenha acontecido, sempre que você ligar a TV naquele canal, naquele horário, vai acabar olhando o programa da Márcia de novo, por que com certeza alguma idiotice vai te atrair. O site do programa também é assim - "mulher noiva há 25 anos"? "Marido infiel jura ter mudado"? Que porra é essa? Não sei, mas quero ver! E é assim que programas ruins continuam no ar: atacando continuamente os nossos pontos mentais mais fracos.




Márcia: histericamente chamando nossa atenção em mais de um front.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXVI

Aparentemente, este desenho revela muitas coisas a respeito de minha personalidade.

Aparentemente, este aqui também.


Seguindo esta lógica impecável, o desenho abaixo também deveria.


Minha opinião a respeito de algumas cadeiras, pelo menos.

As Provações da Faculdade XXXV

Toda culpa que eu sentia por fazer o trabalho de Avaliação Psicológica II em cima da hora e com o mínimo de empenho desapareceu no momento em que li com mais atenção os critérios utilizados para a interpretação dos dados do teste projetivo H-T-P (House-Tree-Person).

domingo, 28 de junho de 2009

Postura Terapêutica em Situações Complicadas

Esse post é baseado em uma conversa que eu e meu colega Bruno tivemos no Google Talk. É curta, mas aborda assuntos que todos que trabalham na área da saúde eventualmente terão que confrontar, especialmente profissionais da saúde mental. Corrigi erros de português e coloquei umas palavras a mais para deixar o texto mais claro, mas não mudei sua essência. Aqui vai ele:

Eu: Cara, mudando de assunto, qual tua opinião a respeito de dizer o diagnóstico para o paciente? Por exemplo, dizer para uma paciente que ela é borderline? Tu acha que é terapêutico ou iatrogênico?

Bruno: depende de cada caso, e do teu plano sobre o que fazer ao informá-lo. No caso, digamos, de uma adolescente identificada como borderline, primeiro, é preciso testar rigorosamente essa hipótese. Também é preciso avaliar a gravidade. Se ela tem muitas tendências suicidas, e já tentou matar ex-namorados algumas vezes é bom informar a ela e aos seus familiares o que é isso e como proceder, e porque é importante ela se manter em tratamento. Por que a pergunta?

Eu: Interesse acadêmico. Meu supervisor local falou sobre isso esses tempos lá no Morada, e depois eu ouvi alguém no congresso falar exatamente o oposto.

Bruno: Hummmmm... teu supervisor local se posicionou contra a devolução do diagnostico?

Eu: Sim – disse que era iatrogênico dizer para alguém que ele era neurótico, por que ela se identificaria com isso. Ou algo assim.

Bruno: Hummmmm... No caso do diagnostico estrutural psicanalítico, eu acho que sim. E de transtornos de personalidade também... com exceção de borderline, talvez. Tipo, não me parece que ajuda dizer pro paciente que ele é histriônico ou narcisista, mas dizer que ele tem Transtorno de Humor Bipolar, personalidade borderline, epilepsia ou esquizofrenia parece muito benéfico, porque ajuda ele a se entender, e entender que aquilo vai continuar pra sempre mesmo, e vai ter que seguir em tratamento psicológico e farmacológico.

Eu: Então, na tua opinião, depende do transtorno?

Bruno: Depende do beneficio que for trazer. Tem transtornos que parecem não trazer beneficio nenhum, enquanto outros sim.

Eu: É contextual, então.

Bruno: Aham, e depende muito da conduta do terapeuta. Tipo, só mostrar o diagnostico vai deixar o paciente muito confuso. É importante explicar como funciona e, principalmente, o que fazer. Isso tem que ajudar ele a se entender, ser compreendido por familiares e colegas, e fornecer o instrumental para ele viver uma vida mais feliz

Eu: E, mais importante, o terapeuta deve deixar claro que tem tratamento, por que se não, daí sim é iatrogênico.

Bruno: Bah, muito boa. Isso se aplica pra diagnosticos psi. Lembra da Síndrome de Huntington? Ou da Síndrome de Hatch? São doenças neurodegenerativas muito graves e sem cura, e é um baita dilema sobre dizer ou não que a pessoa pode demenciar e morrer logo. Mas acho que aí que ta o tentar oferecer uma vida de menos sofrimento. Tipo, dizer isso pra um adulto, que ele vai demenciar e morrer dentro de dez anos, tem que ser acompanhado de um baita trabalho para estimulá-lo a aproveitar a sua vida plenamente, se não ele vai acreditar que não vale a pena viver. E dar a certeza de que, quando ele demenciar, sua família vai acolhe-lo com cobertores quentinhos, comida boa e deixá-lo vendo desenho e levando-o para a praça ou para ver o mar.

Eu: Essa certeza é meio complicada de dar, considerando que não depende da gente.

Bruno: Sim, sim. Mas a gente tem que fazer esse acordo com a família.

Eu: E torcer para que eles cumpram com a palavra deles (ou que o paciente demencie logo e não lembre nada a respeito disso).

Bruno: XDDDDDDDDD

Eu: Em todo caso, a gente cai na velha discussão de "quem cuida dos cuidadores?" - por que, por um lado, cuidar de um familiar demenciado não é fácil, mas por outro, cumprir a promessa de dar cuidado para ele pode dar uma sensação de sentido para os cuidadores.

Bruno: por isso a importância do acompanhamento. Os familiares também sofrem, e precisam desse amparo e de orientação.

Publicado originalmente nos Amoladores de Facas.

terça-feira, 23 de junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXIV

O número e qualidade de idéias de textos para o blog é diretamente proporcional à urgência dos trabalhos para a faculdade.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Vida Dura (Parte 24)

Ao contrário do que o senso comum poderia dizer, o centro de uma grande universidade não é a reitoria, mas o restaurante universitário. Para o diabo com o reitor e suas politicagens, pois o povo quer saber é de comida barata! É no RU onde todas as tribos se encontram pois, afinal de contas, desde o bicho-grilo cheirando à maconha mais chinelão das Ciências Sociais à patricinha mais rica e perfumada da Odontologia* querem poupar dinheiro (o primeiro para comprar livros do Marx e "erva doce da paz" e a segunda para comprar cremes da Avon e suas botas para cair na noite do Madras). Além disso, é o local onde estes tão diversos estereótipos convivem e ocupam as mesmas mesas, os mesmos talheres e, claro, comem o mesmo rango.

Claro, a relação que os estudantes de universidades particulares têm com seus RUs é um tanto quanto diversa da dos estudantes de universidades públicas (especialmente federais). Nas particulares, como todas as outras coisas, ela é definida pelo preço da refeição - sempre caro, entre 5 ou 6 reais. Já nas públicas, a questão do preço surge apenas esporadicamente, geralmente quando a reitoria decide aumentar o preço e o DCE organiza passeatas e protestos e os estudantes ficam gritando até o reitor mudar de idéia e deixar tudo como está, sendo o mais importante a natureza duvidosa da comida servida. Tá, eu sei que as estagiárias de Nutrição estão lá, zelando pela nossa saúde e cuidando para que não ocorra uma intoxicação alimentar em massa, mas a impressão corrente é que elas não têm muito sucesso nesta empreitada, e comer no RU da UFRGS é sempre uma aventura. Já ouvi relatos de já terem servido feijão peludo e da nutricionista responsável vir a publico dizer que aquilo na bandeja de todo mundo não era cabelo, mas carne desfiada (eu gostaria de estar inventando isto). Estes são apenas os casos saídos da Twilight Zone, que acontecem de vez em quando. São realmente bizarros, mas não dá para construir uma sólida reputação apenas com um ou dois grandes eventos, mas nas coisas pequenas e constantes de nosso dia a dia, como o feijão com pedrinhas, o arroz cru, a salada radioativa, as bandejas pré-servidas, o suco sabor caneta marca-texto, a carne que deveria ser estudada pelos geólogos e não por nutricionistas... enfim, todas as miudezas que fazem do RU ser tão nosso!

Diante desta situação, como reagem os estudantes? Continuam comendo lá, mas nem por isso deixam de reclamar. É fato que reclamar do RU é um esporte extremamente popular na UFRGS (e este deve ser meu enésimo post nesta categoria). Contudo, todavia, porém, dentre os muitos dias de comida esquisita (e que pode morder em retaliação), aparecem alguns dias que fazem valer a pena gastar R$1,30 para almoçar: os dias que servem delícias como banana com calda de chocolate.




Claro, a banana deve estar verde e tem pouca calda de chocolate, mas ainda é banana com calda de chocolate! E notem que o feijão com arroz também vem acompanhado com batata palha.

*Só pra constar: aqui na UFRGS esse encontro de titãs é difícil, mas pode acontecer em pelo menos um RU - o do Campus do Vale, onde o curso de Odontologia tem pelo menos algumas disciplinas.

Viva a Sociedade Alternativa!

Sentei-me hoje na biblioteca com duas colegas minhas para estudar. Não foi nada extraordinário - para ser franco, para um observador externo seria uma cena um tanto quanto monótona, pois quase nem conversamos. Ainda assim, senti como se algo fantástico estivesse acontecendo naquele exato momento, naquela mesa onde estavamos sentados fazendo algo tão comum.

Senti algo parecido semana passada, e na outra, durante a reunião do nosso diretório. Mais uma vez, não estavamos fazendo nada que não se faz em qualquer reunião de qualquer coisa, seja de diretório ou de clube de biriba: discutimos pautas, tomamos decisões práticas, ouvimos informes, fizemos piada a respeito de algumas bobagens. No meio de toda a algazarra, deixei-me levar e apenas observar, sentir e ouvir o que acontecia ali, e senti-me profundamente contente, pois foi-me permitido ver um coletivo estudantil decidindo seus próprios rumos, mesmo durante o inferno do final de semestre, e tudo isto sem conflitos partidários e brigas mesquinhas! Pode ser que dure pouco e que esta semana o DAP morra novamente, mas durante os últimos seis meses, como ele viveu! Fiquei ainda mais contente quando um outro colega meu, também presente nesta reunião, falou que sentiu algo muito parecido com o que eu mesmo senti.

Que sensação é essa? A resposta surgiu antes mesmo que conseguisse formular a pergunta - é a sensação de pertencer a um grupo, a algo maior que si mesmo e mesmo assim continuar um indivíduo único - de poder depender dos outros mas continuar independente. Se todo movimento estudantil fosse assim, viveriamos uma verdadeira revolução.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Segredo da Flor de Ouro

Pois é gente, eu sei que a última atualização deste blog foi em 18 de maio, 20 dias atrás. Considerando meu estilo de produção alucinado, isto é um tanto quanto incomum. Bem, talvez não seja. Tenho a teoria de que nossas maneiras de enfrentar a vida variam com o tempo, e que oscilamos entre extremos. Que quero dizer com isto? Que sou preguiçoso estou em uma fase em que não preciso escrever para elaborar meus enigmas existenciais. Talvez o verbo "precisar" não seja o mais adequado, pois ainda gosto de escrever, tanto que preciso disto tanto quanto eu preciso comer ou dormir (por isso estou aqui). Contudo, não estou em um momento produtivo, mas em um momento reflexivo, cujo foco maior está em absorver o que acontece comigo e transformar isto em algo dentro de mim. Talvez, quando este ciclo estiver superado, eu mostre aqui o que fiz com a flor da minha alma.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Experiências subjetivas de um treino incomum

Gostaria de, neste post, relatar uma experiência subjetiva que, apesar de relativamente banal e pouco interessante de um ponto de vista externo, impressionou-me profundamente este final de semana, a ponto de achar essencial descrevê-lo fenomenologicamente aqui.

Todos os sábados à noite, na academia de Kung Fu, ocorrem treinos extras, para aqueles que querem participar de competições e demonstrações públicas. Eles são estruturados de maneira bastante diversa dos treinos regulares, pois o treino físico é grandemente reduzido, deixando muito mais tempo para a prática de formas a serem apresentadas em eventos externos. Outro ponto em que eles diferem da norma é que nem sempre o professor está presente - quando, por um motivo ou outro ele não está, as atividades feitas em conjunto, como o aquecimento e o alongamento, são ditadas pelo aluno mais antigo. Depois que elas são concluídas, cada um vai para seu canto (tanto quanto isso é possível) e treina as formas que decidiu apresentar em eventos externos individualmente. Quando o professor está na academia, ele impõe maior ordem no treino e acaba funcionando como um fator de "coesão social" entre nós e os outros colegas. Porém, isto não muda o fato de que cada um dos presentes tem que praticar suas técnicas independentemente dos demais. Ao final de cada treino, apresentamos as formas que praticamos para os outros, simulando uma competição. Pessoalmente, acredito que este momento final é o mais interessante, por que nele posso ver como os outros se comportam diante de uma situação potencialmente estressante e, principalmente, como eu me comporto nestas mesmas condições - se minha técnica está boa, se esqueço das coisas, se me mantenho calmo e concentrado.

Até então, meus "resultados" nesta apresentação final tinham sido de certo modo desapontadores. Uso este termo por não existirem outros mais adequados, já que, na verdade, não me senti verdadeiramente desapontado ou chateado em nenhuma das vezes, apenas notei que cometi muitos erros e segui adiante. Meu erro mais comum, de longe, é esquecer partes das formas durante as apresentações. Ficava preocupado demais em fazer tudo corretamente, e deixava de prestar atenção ao que estava fazendo naquele instante.

Neste último treino, entretanto, notei uma grande diferença em mim mesmo. Depois de termos aquecido e alongado, nos separamos e começamos a treinar separadamente, como sempre. Só que, desta vez, em quanto fazia minhas formas, senti uma mudança radical: não tinha nenhuma opinião sobre se o que eu estava fazendo estava certo, errado, bom ou ruim, mas me sentia extremamente satisfeito apenas em fazer. Quando parei e tentei observar esta sensação de forma mais atenta e entender o que a causava, ela sumiu, e voltou apenas quando deixei de procurá-la. Mais tarde, na hora das apresentações, ficou decidido que cada um mostraria apenas uma forma, para a coisa toda não levar muito tempo. Tinha treinado duas formas diferentes - uma de mãos livres, e outra de bastão. Enquanto a primeira eu sentia dominar relativamente bem, a segunda eu sentia certa insegurança, pois costumo esquecer ou confundir vários pedaços dela. Quando falaram que apresentariamos apenas uma forma, pensei que seria mais fácil apresentar aquela que dominava mais. Porém, logo em seguida pensei "por que eu não me desafio e apresento a forma mais ansiogênica?" e decidi demonstrar a forma de bastão. Para minha surpresa, pela primeira vez não esqueci nem errei nada. Relembrando a experiência e a colocando em palavras, parece tudo muito engraçado e paradoxal, pois durante minha apresentação eu não pensava, pelo menos não do mesmo jeito que estamos acostumados, pois mesmo assim eu estava plenamente consciente que não estava pensando! Os únicos pensamentos que quebravam este padrão de absorção ocorriam quando eu percebia algum erro na minha movimentação - e assim que o movimento errado fosse corrigido, eu voltava ao estado anterior. Não havia nenhum sentimento ou emoção, mas eu ainda assim (paradoxalmente), me sentia extremamente bem.

Não posso dizer se este estado de consciência que experimentei se tornará cada vez mais freqüente ou se foi apenas um caso isolado. Tomara que seja o primeiro. Se não for, paciência.

domingo, 10 de maio de 2009

Vida Dura (Parte 23)

Decidi pegar nas panelas e cozinhar minha própria janta. Esperem pelo pior.

Televisão, Estágio e Loucura

Fazer estágio nos leva a experienciar coisas que, em nossas vidas "normais", dificilmente o faríamos. Eu, como todo guri criado na década de 1990, cresci assistindo TV, e todas as porcarias que a Globo, o SBT ou a Record resolvessem passar. Não sei se é razoável dizer que fui um perfeito viciado em TV, mas posso seguramente dizer que eu assistia muitos programas, alguns deles bons, muitos deles ruins. Contudo, depois de uma certa época, acho que a partir do meu tempo fazendo cursinho, isso mudou completamente, e este comportamento cessou quase que completamente. Atualmente, só olho TV em quando minha mãe a liga para assistir o jornal e eu passo pela sala para ir até a cozinha. Poderia argumentar que troquei um vício por outro, pois passo boa parte de meu tempo na internet (coisa que rende muitas piadas entre meus colegas de faculdade), mas não creio que seja uma comparação completamente válida, pois o conteúdo veiculado na TV é mais homogêneo, pobre e restrito do que o que aparece na internet.


Resumindo tudo em poucas palavras: não tenho o hábito de assistir TV, e estou feliz com isto. Porém, nem todas as pessoas do mundo se comportam da mesma maneira que eu. Como exemplo disto, gostaria de citar os moradores do Residencial Terapêutico Morada São Pedro, onde atualmente faço estágio básico. Todos eles passaram muito tempo internados em instituições psiquiátricas totais, como clínicas e hospitais psiquiátricos, que são locais onde frequentemente a única opção de lazer é assistir TV (ou, pelo menos, escutar a estática quando o aparelho estraga). Além disso, apesar de agora morarem em casas próprias, onde eles próprios decidem o que farão (salvo alguns detalhes), eles passam muito tempo sem sair, e fazem o que sabem fazer: sentar no sofá e assistir o que for que estiver passando.


Nesta semana que passou tive uma experiência curiosa quanto a isso. Faltando menos de uma hora para ir embora, resolvi passar em uma das casas para conversar um pouco e tomar um café. Quando cheguei lá, como sempre, estavam assistindo a Globo. Eram quase 18 horas, hora da clássica "Sessão da Tarde". Digo "clássica" por que é um daqueles horários podres que ninguém assiste, mas que precisam ser preenchidos com alguma coisa, que acaba sendo um filminho de 10 ou 20 anos atrás. Às vezes passam coisas legais, como "Os Goonies" ou "Conta Comigo" neste programa, mas na maioria das vezes são filmes ruins. Como desta vez que passei lá naquela casa do Morada - era "Velocidade Máxima 2".


O "Velocidade Máxima" original era um filme de ação com uma premissa inovadora - um psicopata instalou uma bomba ao motor de um ônibus cheio de gente, e a programou para explodir caso a velocidade caísse para 20 km/h, colocando motorista, passageiros e autoridades responsáveis em apuros, por vários motivos que tenho preguiça de enumerar. Sendo criativo, empolgante e contar com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves como personagem principal, foi um estrondoso sucesso. Foi aí que os empresários mercenários de Hollywood pensaram em fazer uma seqüência. O psicopata foderia complicaria imensamente a vida de outros 47 clientes (sentados) da companhia municipal de transportes? Não, isso era café pequeno para eles. Por que não sonhar alto, e pôr em risco a vida de centenas de pessoas ao mesmo tempo? Dois ônibus ao mesmo tempo? Não. Um prédio inteiro? A velocidade média de um prédio é Zero km/h, o que iria contra o título da série. Então... por que não um iate transatlântico? Sim, um psicopata ameaçaria explodir um barco inteiro, junto com todos seus passageiros e tripulação por algum motivo pouco convincente. O tamanho do navio emularia o tamanho do ego do cidadão que teve essa idéia e pegaria embalo na comoção de "Titanic", ainda por ser lançado nos cinemas. Idéia genial, não?


Deve ter parecido quando foi concebida, mas quando apareceu nas telas de cinema, ficou óbvio que quem a pariu foi um executivo sanguessuga, e que arte e dinheiro deveriam ser discutidos separadamente, pois o filme é um completo lixo. Keanu Reeves teve insight o suficiente para não estrelar esta porcaria, mas mesma qualidade salutar não pode ser atribuída à Sandra Bullock, que aparentemente estava pensando só na bufunfa (especialmente durante as gravações). Surpreendentemente, justamente por ser tão ruim o filme fica tão bom. A cena do iate descontrolado invadindo uma cidade portuária foi tão malfeita que uma criança de 10 anos poderia dizer que era falso, e precisei me conter muito para não gritar "OLHA A MAQUETEEEE!" e bater os pés no chão para não matar minhas anfitriãs do coração. Contudo, não consegui segurar o riso quando, no clímax, o avião anfíbio do vilão, voando sem um dos flutuadores (como não ficou todo desestabilizado eu não sei), bate numa torre de metal de um petroleiro, cessa imediatamente de mover e EXPLODE TODO O MALDITO BARCO! Como? Não sei. Sei que tive que dizer "que filme fantástico" para explicar aquela risada.


Depois desse final apoteótico, me despedi e fui visitar outra casa. E o que estavam fazendo lá? Assistindo TV, ora bolas! Mas não era um filme a atração principal, mas um programa jornalístico. Bem, o termo "jornalístico" é aqui empregado de forma bastante ampla, de maneira tal que possamos considerar jornalismo profissional programas sensacionalistas e sem o menor rigor investigativo, pois era o "Brasil Hoje" do José Luis Datena. Eu achava que conhecia o Datena, e achava que conhecia programas "pinga-sangue" baratos que passam à tarde na TV aberta, mas Zé Luis é mais do que um âncora de em algum canal bagaceiro - ele é um artista e um revolucionário, que quebra todos os paradigmas. Quando comecei a assistir o programa, a reportagem era sobre um assalto a um posto de gasolina onde uma atendente tinha sido assassinada pelo assaltante após ele ter limpado o caixa. O Datena começou um discurso estupendamente moralista sobre o bandido, mas parou para falar com o Comandante Airton que, com seu helicóptero, sobrevoava a cidade de São Paulo procurando notícias fresquinhas. Sim, você entendeu corretamente: o Datena tem helicóptero só pra ele, procurando desgraça todo dia para dar ibope para o programa dele. E, cacete, é eficiente o tal Airton! Quando o Datena parou de falar sobre tiros desnecessários, o Comandante começou a contar a última morte ou acidente grave: "É Datena, um cidadão aqui caiu de 6 metros de altura quando concertava o telhado" - no que o Datena respondia "6 metros é alto, ele deve ter se machucado bastante". Sabe aquilo que as velhas do grupo de estudos bíblicos faz na hora do chá? Se chama fofoca. Agora, imagine se essas velhas tivessem um HELICÓPTERO para procurar assunto para elas? Essa é a essência do "Brasil Agora". E é essa a beleza do programa: ele é para o jornalismo o que a Nouvelle vague foi para o teatro! Convenhamos, é um feito e tanto, não? Também é digno de nota que, foi durante minhas horas de estágio, fiquei sabendo que Bruna Surfistinha já pensou em dizer para um de seus clientes que ele transava mal e que já gostou tanto de alguns programas que não cobrou pelo serviço.


Não pretendo, com este post, desmerecer meus amigos do Morada por terem mau gosto televisivo - primeiro por que seria presunção minha dizer que o que eles gostam é "ruim" ou "inferior", e o que eu gosto é "bom" e "superior" - levei (e levo) uma vida diferente da deles, e aprendi a gostar de programas menos barulhentos e mais sutis. O que me levou a escrever este post foi o sentimento de estranhamento que tive, tanto entre meus gostos e dos moradores, quanto das minhas reações passadas e presentes a filmes que me desagradavam. Parece-me um bom sinal que eu seja mais capaz de rir deles do que sentir-me injuriado.