terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Diários de Bicicleta - contemplações sobre o trânsito, a vida e tudo o que se move sobre o asfalto

Foi hoje. Depois de muito tempo me enrolando, protelando minha decisão, fui numa oficina comprar uma bicicleta, acompanhado pelo meu valoroso amigo Brunão. Não saí de lá andando na minha bike nova, mas deixei tudo mais ou menos encaminhado para fazer isso até semana que vem.

Tenho a impressão de que tanto o fato de eu ter procrastinado todo esse tempo, tanto quanto o fato de eu tomar atitudes concretas para adquirir uma bicicleta nesta época não são aleatórios. Hoje, ao contrário de um ano atrás, quando comecei a pensar a respeito, eu realmente quero e preciso de uma "magrela". Primeiro, por que ao longo deste ano, eu acompanhei as discussões em torno das discussões sobre políticas de transporte público. Conversando com amigos que participam da Massa Crítica, lendo notícias de jornais - tanto da grande mídia como a Zero Hora, quanto meios mais digitais, como o Sul21 e o eventual link interessante que encontro no Facebook - e observando o trânsito de Porto Alegre, concluí que o atual modelo é insustentável. Toda a cidade é construída para facilitar o acesso de motoristas de automóveis, em detrimento de pedestres e ciclistas - não existem ciclovias, as sinaleiras claramente beneficiam os carros e atravessar na faixa às vezes é mais um desafio moral do que uma obrigação civil, considerando a falta de consideração dos motoristas. Eu, que estou em boa forma física, consigo correr com relativa facilidade e evitar o eventual atropelamento, mas não posso dizer isso de todos os habitantes de Porto Alegre.

LinkTalvez essa situação não fosse tão problemática se o carro não fosse uma maneira tão ineficaz de deslocamento: exige o uso de combustíveis fósseis caros e poluentes e é bom apenas para alguns poucos sortudos que têm dinheiro o bastante para comprar (e manter) um carro na garagem. Além disso, o carro é necessariamente espaçoso e individualista - pra não jogar a discrição pro alto e dizer egocêntrico logo de uma vez. Não precisa ser engenheiro civil com PhD em transportes públicos pra perceber isso. Basta observar por cinco minutos o tráfego numa rua importante, como a avenida Ipiranga ou a rua Lima e Silva: enquanto que numa calçada com 3 ou 4m de largura circulam dezenas ou talvez centenas de pedestres, no mesmo espaço na rua, trafegam apenas alguns carros que, não bastasse serem grandes, raramente transportam mais do que duas pessoas. Junte-se a isso o fato de que, quanto mais expandem as ruas, as avenidas e as estradas para comportar o grande volume de carros individuais, maior este volume se torna, por que os motoristas que, para evitar congestionamentos, antes pegavam carona ou iam de ônibus, agora pensam que podem se dar ao luxo de ir de carro para o trabalho, tornando a expansão inútil.
Outro problema que me levou a pensar em andar de bicicleta é o sistema de transporte público de Porto Alegre, que utilizo para ir para meu estágio no longínquo reino do Campus do Vale, quase em Viamão. Os ônibus que normalmente pego não são ruins. Pra falar a verdade, são bastante confortáveis para meus padrões não tão altos. Porém, esse aparente conforto se limita aos horários de menor movimento, antes ou depois do povo largar para o trabalho, quando os ônibus não estão tão lotados que tu corres o risco de perder o ponto se não te levantar duas ou três paradas antes para te espremer por entre os teus companheiros de jornada, até chegar à porta. Novamente, isso talvez não fosse um problema para mim, e eu poderia muito bem me organizar de forma a sempre pegar ônibus em horários de menor movimento de passageiros, se "menor movimento de passageiros" não significasse também "menor movimento de ônibus." Essa é uma situação meio "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" - ou tu te atrasa, ou tu te espreme.
Talvez estes defeitos seriam escusáveis, se o transporte público fosse barato e eficiente. Mas ele não é nenhuma dessas duas coisas: a frota de ônibus não supre a demanda atual, e a passagem vai aumentar esse ano para R$2,90. Esse é o prego do caixão: desde que eu me mudei para Porto Alegre, em 2007, o preço da passagem aumentou de R$2,00 para R$2,90, sem nenhuma melhoria ou mudança significativa no serviço. A única explicação razoável e satisfatória para este aumento é que alguém na Prefeitura lucra com isso. Todos os anos, durante as férias escolares, é anunciado um aumento acima da taxa de inflação, jogando a culpa em algum fator irrelevante, como o aumento dos salários dos motoristas e cobradores, ou o "prejuízo" que as isenções para estudantes e idosos causa para as empresas de ônibus. É feito então algum tipo de manifestação, normalmente na Esquina Democrática, ou o uso de adesivos dizendo que o novo aumento é um assalto, que mobiliza a indignação pública, mas no fim das contas, não muda coisa nenhuma em relação ao aumento. No fim, depois de termos gasto toda nossa saliva reclamando e gritando que "3 pila é um abuso!", nos resignamos, e pagamos, sim, os três reais pelo serviço medíocre que nós é oferecido. Na minha fértil imaginação, eu vejo os donos da Carris, Unibus, Conorte e STS, gordos, bem vestidos e endinheirados, em algum restaurante chique bebendo champanhe, cheirando cocaína e rindo das nossas caras, dizendo enquanto se dão tapinhas nas costas "eles reclamam, reclamam e reclamam, mas sempre engolem o aumento, por que eles dependem da gente. Otários!" Talvez eu não tivesse o direito de reclamar do preço da passagem: estudo na UFRGS, ganho bolsa de extensão e tenho pais que me sustentam enquanto não me formo. Sou um playboy, um mauricinho, um pseudorevolucionário que fica reclamando de barriga cheia no seu blog, e que deveria usar meu tempo pra coisas mais produtivas, como estudar e ser um cidadão de bem. Talvez essa opinião conservadora esteja correta, mas não é tanto por mim, que posso tranquilamente pagar R$2,90 por viagem de ônibus, que eu reclamo: é por pessoas, homens e mulheres simples, que trabalham em condições precárias e ganham salários baixos, que não tem dinheiro para comprar um carro ou mudar de cidade, e para quem o aumento na passagem pode fazer a diferença entre poder ter uma refeição quente à noite ou não.
Há um último motivo que me levou a comprar uma bicicleta em 2012: a filosofia anarquista. Provavelmente, se você está lendo meu blog, já deve saber alguma coisa sobre essa escola de pensamento político. Porém, considerando que a vida é uma caixinha de surpresas, e sempre aparece alguém novo por aqui (especialmente pessoas pesquisando bolsas carteiro femininas e o futuro do cantor Leo Santana), acho que vale a pena explicar que anarquismo, ao contrário do que o senso comum nos ensina, não é a justificação da desordem ou da bagunça gratuita, mas uma filosofia que defende o poder pessoal e a ação direta. De uma perspectiva anarquista, protestar por melhores condições de transporte público é "militantemente mendigar" por aquilo que é meu por direito - poder ir e vir para onde eu quero. Esperar que o governador, o prefeito ou a presidente melhore minha vida é renunciar à minha própria capacidade de resolver aqui e agora meus problemas de forma criativa e guiada por meus ideais. Nós não sabemos, mas não dependemos de nenhum Estado ou governo para vivermos felizes, mas só estamos descobrindo isso aos poucos. Como disse meu amigo Marcelo um dia desses, "as coisas parecem que não vão pra frente, só que elas vão, bem devagar, como um musgo que vai lentamente se espalhando." É bem assim mesmo, penso eu.
Percebi isso enquanto eu observava o bicicleteiro Nativo mexer na sofrida bicicleta do Bruno. Com o cuidado e carinho que só quem entende do assunto consegue demonstrar, ele mexeu os pedais, apertou uns parafusos e declarou que estava tudo certo, e que só ia precisar trocar o quadro de marchas eventualmente. Foi um processo que durou, no máximo, dez minutos, mas que foi suficiente para me mostrar que a tecnologia da bicicleta é muito superior a do carro, não apenas por ser menos poluente, mas por que faz com que os indivíduos se envolvam e reflitam muito mais sobre a maneira como vivem suas vidas. Quando o nosso carro quebra, vamos até a oficina mais próxima, largamos ele na mão do mecânico e só voltamos na hora de pagar pelo reparo realizado. Não sabemos de nada do que foi feito (e quando o mecânico tenta descrever o que foi feito, fingimos entender para não ficarmos com cara de bobo). Com a bicicleta, como eu pude ver hoje no comportamento do Bruno, é diferente. Ele sabia o nome das peças, a importância de cada uma, e o que estava errado com a bicicleta (bem diferente do clássico "meu carro tá fazendo um barulho estranho"). Ficou ao lado do Nativo enquanto ele futricava e fuçava na magrela, e discutiu com ele o que deveria ser feito a seguir. Até o momento, todas as pessoas que eu conheço que fundamentam filosófica e politicamente o uso da bicicleta como meio de transporte alternativo ao carro fazem isso.
Outra coisa interessante sobre bikes: o grande reaproveitamento das peças já disponíveis no mercado. Mais do que encomendar bicicletas inteiras novas, se dá preferência a pegar uma peça aqui e outra lá para montar uma bike que é ao mesmo tempo nova e usada. Pode parecer uma maneira muito primitiva de produção, mas, misturando componentes que antes estavam separados, acumula-se experiência e cria-se conhecimento. Isso é ciência. Mais do que isso, é uma ciência sustentável, por que não pressupõe o descarte dos modelos tecnológicos anteriores, e sim seu aprimoramento. Por estes motivos, penso que andar de bicicleta é uma decisão eminentemente prática. Não apenas por facilitar minha vida e me poupar do incômodo de pagar quase três reais por viagem de ônibus, mas também por que, acredito eu, mudar o próprio comportamento é a melhor maneira de mudar o mundo a nossa volta. Ingênuo? Possivelmente. Porém, estou disposto a ver isso por mim mesmo, ao invés de acreditar em opiniões alheias.

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