segunda-feira, 6 de julho de 2009

Experiência Subjetiva - Tomando Bebidas Energéticas

Fazer faculdade é tudo flores e doces (que mentira), até que o final do semestre se aproxima. Daí, meu filho, a água bate na bunda e você tem que correr contra o tempo para fazer teus trabalhos e entrega-los a tempo. Como muitas vezes as 12 horas de sol e luz de que dispomos não são suficientes para tanto, precisamos usar as 12 horas de noite e, isso mesmo que vocês estão pensando, deixar de dormir. Para algumas pessoas, isto é relativamente fácil. Como todos que já foram meus colegas de aula sabem, definitivamente não sou uma delas. Pelo o que aprendi com a observação de mim mesmo, preciso de uma quantidade consideravelmente grande de sono e, muitas vezes, mesmo depois de uma boa e longa noite atirado aos braços de Morpheu (olha a boiolagem), eu acabo apagando nos lugares mais impróprios, tais como salas de aula, auditórios lotados, campos de construção e zonas de bombardeio.

Então, quando o final do semestre chega, com sua cabeça feia e fedida, exigindo que eu fique acordado mais tempo do que posso ficar por conta própria, que faço para não dormir e terminar meus trabalhos? Uso drogas, é claro! Meu pai deve ter quase caído de sua confortável cadeira ao ler este parágrafo, então, para deixa-lo mais tranqüilo a respeito do tipo de substância que consumo, vamos definir o que são “drogas” para mim. Considero uma “droga” toda e qualquer coisa que eu possa consumir e alterar meus estados mentais – nesta definição, até Nutella pode ser considerada uma droga, pois quando eu como, eu fico feliz. Então, a droga que consumi para ficar acordado e fazer meus trabalhos foi uma bebida energética. Normalmente, bebo coisas mais leves, como chá preto, coca-cola ou café, que têm efeito similar e são menos duvidosas, apesar de certamente terem um efeito menor. Contudo, como eu estou com prazos bastante apertados, passei ontem no Zaffari e comprei duas latinhas de “Atomic”: uma para fazer meu último trabalho à noite, e a outra para ficar acordado em aula. Como vocês podem imaginar, eu acabei de tomar esse lixo, fiquei ligadão e, como eu gosto de compartilhar com vocês as demências mais bizarras que acontecem comigo, decidi escrever a respeito desta experiência desde seus primórdios, quando a terra era ainda jovem... e, porra, me perdi.

Já dá para saber, antes de tomar, que essas bebidas energéticas não prestam, a começar pelo nome que dão para esses lixos. O nome “atomic” me faz pensar que em coisas radioativas e potencialmente perigosas. Pegando a latinha e prestando mais atenção às letras miúdas, vê-se escrito “crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto. Não é recomendável o consumo com bebida alcoólica”. Viu? Falei que não presta. Que tipo de bebida precisa de prescrição médica para ser consumida? Eu sei que ninguém lê essas porras no meio de uma festa, mas imaginem a cena: um senhor de idade vai numa balada no Opinião e compra uma Red Bull. Cauteloso, ele lê as instruções de uso e vê que é recomendável falar com alguém que fez Medicina antes de consumir (por que quem fez Medicina sempre sabe de tudo). Ele pega o celular, liga para o médico de sua família e pergunta “doutor, será que eu posso tomar uma latinha de Red Bull”? O augusto herdeiro de Hipócrates diz que não, e nosso amigo obedece, devolvendo a latinha para o barman. Pois é, altamente improvável que isso venha a acontecer um dia. Muito mais provável é alguém tomar esse lixo e ter um piripaque (especialmente quando misturado com alguma bebida alcoólica de alta potência, como está na moda fazer agora, e como está escrito ali na embalagem que NÃO É PRA FAZER). E além de tudo isso, a latinha parece um pinto duro. Sério.

Bem, apesar de todas essas ressalvas, eu ainda preciso ficar acordado, e eu sei que bebidas energéticas deixam as pessoas ligadas e acordadas por experiência própria, pois não é a primeira vez que utilizo esta estratégia. Porém, na outra ocasião, meu objetivo era apenas manter-me desperto, e não produzir algum tipo de escrito, tornando os resultados deste experimento muito mais imprevisíveis. Mesmo assim, depois de perceber que se não tomasse uma providência logo, logo, capotaria de sono antes de terminar todos os meus trabalhos, dirijo-me à cozinha, abro a geladeira, e dou de cara com um portal para outra dimensão. OK, isso não é verdade. Eu só pego a latinha de “Atomic”, olho para ela e penso: como isso parece um pinto duro. Depois das devidas considerações psicanalíticas a respeito dos meus desejos homossexuais reprimidos e se deveria ou não colocar essa bomba química para dentro do meu sistema digestivo, abro-a e consumo o primeiro gole. E, preciso dizer, para um produto com tamanha demanda, essas bebidas energéticas tem um gosto horrivelmente parecido com Fruki Guaraná vencida e sem gás (o que me faz pensar, juntamente com o nome do negócio, se isso aí não é mijo de alguma vaca criada em Chernobyl).

De cara, sinto-me mais alerta. Obviamente, isso é o efeito placebo dando suas caras, pois só o tempo de tomar um golinho não é suficiente para as substâncias energizantes se espalharem por todo o meu organismo. Mas isso é positivo, pois mostra que acredito no poder de Jesus Cristo o Salvador da tal de “Atomic” e seu principio ativo de extrato de guaraná me manter desperto e atento. E acreditar é poder! Volto para a frente do computador, junto com a fiel latinha em formato fálico, ainda bebericando seu conteúdo, e sentindo lentamente seus efeitos verdadeiros chegarem chutando. O primeiro deles é uma maior agitação corporal, que me faz mexer com violência minha perna direita. Depois disso, percebo um déficit na minha capacidade de concentrar-me nas tarefas dadas e de manter as idéias tempo o suficiente em minha memória para desenvolve-las. Percebi este sintoma enquanto tentava escrever meu trabalho de Método Clínico e Diagnóstico, mas ficou ainda mais óbvio quando comecei a escrever este post aqui – por que eu sei que estou num nível hardcore de procrastinação quando começo a escrever qualquer coisa para meu blog quando tenho pilhas de coisas por fazer. Logo após perceber a diminuição de minha atenção, percebo que estou mais propenso a cometer erros de digitação, não por que eu tenha ficado mais descuidado (a neurose obsessiva me impede), mas por que minha coordenação motora fina, a que move os dedinhos e faz com que eles batam as teclinhas com letrinhas do laptop, ficara prejudicada por um certo descontrole e um leve tremor – leve, mas nem por isso desprezível. Há também sintomas psicológicos positivos. Especialmente notável é o aumento na minha capacidade criativa, pois, além de começar este texto aqui, consegui resolver um problema filosófico que atravancava o pleno desenvolvimento de minha argumentação.

Em outras palavras, talvez seja possível dizer que esse mijo de vaca radioativa chamado “Atomic” instalou em mim um estado muito semelhante em alguns aspectos à hipomania. Para os leigos, hipomania é o estado de humor extremamente positivo que acomete os pacientes com Transtorno do Humor Bipolar do Tipo II. Contudo, não notei em mim nenhum sentimento de euforia aumentada ou irritabilidade, mas é um tanto quanto complicado de identificar estes sintomas sem ninguém por perto. Também não lembro se tremores nas mãos e menor coordenação motora fina são também sinais de hipomania. Numa ida ao banheiro para urinar e escovar os dentes, percebo que não é só minha coordenação motora fina que ficara um tanto quanto abobalhada, mas também meu senso de equilíbrio. Durante minha rotina de higiene bucal, fechei por um instante os olhos e senti meu corpo inteiro pender para um lado, não o suficiente para me fazer cair como uma tábua, mas o bastante para me fazer perceber meu estadinho.

Com o tempo, os efeitos do “Atomic” vão se esvanecendo e tornando-se mais sutis, mas ainda presentes em sua maior parte. Começo a ficar um pouco menos alerta, minha perna pára de sacudir alucinadamente e cometo menos erros ortográficos. A minha concentração aumenta consideravelmente, e minha criatividade começa a tornar-se mais cinzenta e menos florida (apesar de ainda ser bastante escandalosa). Mais uma porção de tempo passa, e mais uma vez noto a paulatina mudança nos sintomas da bebida energética. Encontro-me agora na situação ideal para produção de textos e trabalhos que requerem concentração e esforço, pois o cansaço não me aflige, os tremores desapareceram quase que inteiramente, sinto-me alerta e perceptivelmente inspirado, como se algum espírito estivesse aqui ao meu lado, sussurrando as palavras por dizer.

Creio que, de agora em diante, as mudanças na minha fisiologia e comportamento serão mais quantitativas do que qualitativas. Por isso, me dou ao luxo de escrever uma conclusão a respeito do meu pequeno experimento de tomar energético para ficar acordado e fazer trabalhos: só repito essa indiada no final do próximo semestre, com a diferença que, nessa hipotética próxima vez, eu vou beber essa porcaria com duas horas de antecedência e ficar saltitando feito um pogobol chapado até eu sentir-me concentrado o suficiente para escrever páginas e mais páginas de trabalhos.

E a latinha ainda parece um pinto. E tenho dito.

2 comentários:

marceloduarte disse...

Bastante interessante. Eu sempre gostei de fenomenologia.

Por outro lado, neste semestre eu adotei a política de simplesmente não entregar os trabalhos quando não ia dar tempo ou eu não estava afim. Fiz isso inclusive com Técnicas Projetivas I e II (Avaliação Psicológica II).

Resultados favoráveis.

Lady Hell disse...

Eu ri alto com o teu texto! O mijo de vaca radioativa fez meu dia, uhauhauhauha.

Já fiz o experimento de tomar energético pra fazer trabalhos e me manter acordada nas aulas. Posso dizer que 60pct é placebo, e o resto é efeito da bebida.

E claro, o gosto de remédio que essa bebida tem é muito mais tolerável com whisky, mas infelizmente não posso fazer isso no meu trabalho.

Abração!