sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Arte de usar palavrões

Quando se escreve um texto, há vários recursos disponíveis, mas que cujo uso precisa ser bem pensado para não estragar com tudo. O melhor exemplo disto são os palavrões.

Palavrão é uma coisa complicada, por que ao mesmo tempo que pode dar uma ênfase poderosa à mensagem que se pretende passar, também pode desmoralizá-la por ser vulgar. É como lítio - na quantidade certa, impede as violentas variações de humor do Transtorno de Humor Bipolar, mas se passar um pouco da dose terapêutica, mata. OK, lítio também pode levar a obesidade e depois do décimo surto não medicado não adianta nada, mas isso não vem ao caso aqui.

Descobri hoje um blog muito legal e que exemplifica bem o que quero dizer neste texto aqui - o Substativolátil. A autora e gatinha Mirian Bottan (tem a foto dela no blog) escreve crônicas (eu acho) sobre coisas corriqueiras como o fato dela odiar telefones, considerações filósoficas sobre gramática e o agora e outros assuntos legais mas que ainda não tive tempo de ler. De vez em quando, aparece um "bosta" ou "cu" nos textos dela, mas é com tanto jeitinho, tanto charme, que parece natural que estas palavras ditas feias apareçam onde aparecem. Claro, ela escreve bem (ou eu não teria usado ela como exemplo), e sabe como dosar os "termos tabu", mas aposto que ela demorou um pouco para dominar esta arte, errando bastante, que muitas pessoas de talento ainda não a dominaram, e escrevem textos cheios de potencial, mas que perdem apelo ou força por que colocaram palavrões demais ou fora de lugar. Textos sobre política na blogosfera são os mais afetados por este problema (e por serem bobagens pura, mas não vem ao caso, novamente).

Isso tudo, creio eu, se aplica também à língua falada, essa que a gente usa todos os dias com as outras pessoas. Lembro de uma reunião do Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre particularmente agitada que assisti, onde um médico particularmente indignado com a rapidez com que os gestores mudavam falou que "tem muito motel que inveja nossa rotatividade" (OK, não é palavrão, mas é potencialmente muito ofensivo), ou todas aquelas discussões onde alguém encerrou magistralmente sua argumentação bem estruturada e ponderada com um "pô, se é pra ser assim, vai tomar no cu!" ou coisa parecida. Mas aqui está o pulo do gato: colocar palavrões em um texto ou fala só fica bom se o texto ou fala for bom por conta própria, e o palavrão servir apenas como um recurso, e não ser o argumento principal (como é o caso deste post aqui). Se isso não for respeitado, teremos um texto bagaceiro. Tipo aqueles fimes como "Todo Mundo em Pânico" ou "Superhero Movie", só que em palavras.

Outro problema com os palavrões pode ser cultural. Pensando neste assunto, me lembrei da época que morei nos Estados Unidos como intercambista. Uma das primeiras coisas que aprendi na escola foi sobre o uso correto dos palavrões. Em sala de aula é tabu dizer qualquer coisa mais "feia", e não me refiro apenas aos clássicos "fuck", "shit", "ass" e variantes divertidas, mas também "hell" e "damn". Pô, aqui no Brasil um professor pôr pra fora da sala alguém que diz "foda-se" durante a aula é compreensível, mas por dizer "dane-se", alguém já viu? E inferno? Pra mim inferno é para onde psicanalistas as pessoas más vão quando morrem, e não um termo a ser evitado! Aliás, "vai pro inferno" é uma exclamação extramemente sonora de indignação, e muito triste ficaria se tivesse que parar de usá-la.

Então, quando na escola lá nos EUA, eu precisava ter cuidado pra não escorregar a língua e dizer bobagem na hora errada pra não parar no SOE ou qualquer que seja o nome que dão para a "sala de tomar esporro" por lá, por que os professores não toleram este comportamento (exceto o de história mundial, que sabia o gênio que eu sou e que também escorregava na etiqueta de vez em quando), mas não quer dizer que o povo abria a mão totalmente do poderoso efeito moral que dizer "fucking" antes de qualquer coisa tem. Para fazer isto, se lança mão de um mecanismo meio psicanalítico de defesa, mudando só um pouquinho a frase para torná-la aceitável. "Fucking" se torna "frigging", "freaking" ou "flipping"; "shit" vira "shoot" e "holy shit" se transforma nos divertidos "holy schinakees" ou "holy schomoligans". Como nem o santo nome de Jesus pode ser usado em vão, ele vira "Gee" ou "Jeez" ou "Jebas".

Fora da escola, contudo, algumas pessoas de meu círculo de amizades usavam tantos palavrões que eu ficava envergonhado. Não sei se o inglês (a língua, não aquele cidadão que mora no Reino Unido) tem essa característica de ser mais ofensivo, ou eu não estava acostumado a ouvir alguém falar tantos "fucks" consecutivamente, ou se eu fiquei dessensibilizado de ouvir palavrões em português e não sou mais capaz de perceber que xingar nas duas línguas é igualmente ofensivo ou impactante. Como eu não fazia todas estas considerações quando ouvia aquele gringo menor de idade mascando tabaco (proibido por lei) xingando todo o universo, eu ficava vermelho.

Por isso amiguinhos que chegaram até aqui, para concluir este texto, gostaria de dar uma dica, caso você queira escrever um texto ou fazer um discurso com palavrões no meio: vá em frente, só saiba dosar a coisa toda, ou vai ficar com a mesma cara de panaca que eu estou agora, tentando concluir este post.

Um comentário:

Bruno Graebin de Farias disse...

http://www.youtube.com/watch?v=a0gq9fzi6M0

http://www.youtube.com/watch?v=A1kq0eL-ly8

Estes vídeos mostram o que é usar palavrões com classe, transmitindo a sua mensagem de forma clara, profunda e articulada.

Eu sempre fui disciplinado a jamais falar palavrões, a menos que seja para transmitir algum conteúdo do qual eu sejo o detentor do saber ( ou seja, eu só falo palavrão quando eus ei do qeu estou falando e sei que ninguém mais sabe disso tanto quanto eu ). Isso me deixa em situações engraçadas, como quando eu mudo subitamente da estrutura formal e sofisticada da minha fala para a revolta desbocad e agressiva, que rende mutias risadas e caras de espanto, se não aplausos. Mas eu fiquei muito surpreso de não se poder falr nem mesmo 'what a crap', que para mim é tão automático quanto escalar uma árvore.