segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
Alterações
Adicionei, no fim da página, duas listas novas: minhas Leituras Atuais e minhas Leituras Futuras. Em outras palavras, livros que estou lendo e livros que quero ler.
Não estou bem satisfeito ainda com a maneira que o layout ficou, e é bem provável que eu mude as listas de lugar ou até mesmo as exclua e relate minhas leituras mais informalmente. Até lá, deixo como está.
Não estou bem satisfeito ainda com a maneira que o layout ficou, e é bem provável que eu mude as listas de lugar ou até mesmo as exclua e relate minhas leituras mais informalmente. Até lá, deixo como está.
Epifania
Acabo de perceber que este blog se transformou num blog de ciência. Nada mais natural, já que considero todo o processo científico de busca rigorosa da verdade mais do que importante, mas essencial até mesmo para a vida pessoal. E mesmo assim, sinto como se tivesse deixado algo de importante pelo caminho. Tento sempre ser coerente com o que digo, e no subtítulo deste site está escrito que o assunto do Espadachim Cego é, entre outras coisas que não quero abordar aqui, “Ciência, Filosofia e Transcendência”. As duas primeiras estão fartamente presentes aqui. Mas e a última, por onde anda?
Lembro-me de um sonho que tive, em que uma dama vestida de vermelho entregava-me uma rosa rubra e uma espada para matar o mal que habitava um velho casarão, cujos portões abriam-se diante de mim. Tinha uma missão, e os meios para cumpri-la. Entretanto, havia o risco de desvirtuar-me, encantar-me com coisas outras belamente irrelevantes, e assim abandonar meu caminho. Quando penso em meu futuro, não penso em fazer especialização, mestrado, doutorado, post-doc, pois que não é meu caminho fazer ciência até o fim. Mas quando vejo o histórico do blog, percebo que tenho feito isso, justamente e apenas isto – ciência. E novamente a sensação de ter deixado algo importante para trás me assola. Sei o que deixei para trás, ou pelo menos o que deixei ignorado e sem cuidados: minha transcendência, meu crescimento pessoal mais profundo. O saber que a ciência pode me dar é para a transcendência apenas um meio, e não um fim em si mesmo. Mas posso me iludir e confundir tudo. Temo não ser honesto comigo mesmo e colocar no centro da minha existência algo que deveria ser apenas secundário. E este é um risco permanente.
Eis minha mais recente epifania.
Lembro-me de um sonho que tive, em que uma dama vestida de vermelho entregava-me uma rosa rubra e uma espada para matar o mal que habitava um velho casarão, cujos portões abriam-se diante de mim. Tinha uma missão, e os meios para cumpri-la. Entretanto, havia o risco de desvirtuar-me, encantar-me com coisas outras belamente irrelevantes, e assim abandonar meu caminho. Quando penso em meu futuro, não penso em fazer especialização, mestrado, doutorado, post-doc, pois que não é meu caminho fazer ciência até o fim. Mas quando vejo o histórico do blog, percebo que tenho feito isso, justamente e apenas isto – ciência. E novamente a sensação de ter deixado algo importante para trás me assola. Sei o que deixei para trás, ou pelo menos o que deixei ignorado e sem cuidados: minha transcendência, meu crescimento pessoal mais profundo. O saber que a ciência pode me dar é para a transcendência apenas um meio, e não um fim em si mesmo. Mas posso me iludir e confundir tudo. Temo não ser honesto comigo mesmo e colocar no centro da minha existência algo que deveria ser apenas secundário. E este é um risco permanente.
Eis minha mais recente epifania.
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A Arte do Diagnóstico na Saúde Mental
No post anterior, citei um texto que tratava dos perigos de fazer diagnósticos em psiquiatria e psicologia utilizando-se apenas do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), de ignorar o “sujeito do sintoma” e tratar apenas o “sintoma do sujeito”. Além disso, criticou o modelo positivista de fazer diagnóstico, que deixa de lado três importantes tradições psicopatológicas – a fenomenologia, a psicanálise a daseinanálise. Um palestrante de nosso seminário criticou o DSM por ser frio, e não possuir a beleza artística que um guia como “Psicopatologia Geral” de Karl Jaspers possui.
Graças à sincronia do universo, tive o prazer de ler para a cadeira de Psicologia Humanista um texto diagnóstico daseinanalítico, escrito pelo eminente psicanalista e analista existencial Medard Boss. Faz algum tempo que me interesso por Análise Existencial, mas nunca tive a oportunidade de entrar em contato com esta teoria. Enfim, o diagnóstico é parte de um estudo de caso conduzido por Boss, o caso Ellen:
Se tentarmos, então, sumarizar uma vez mais as características individuais e formas fenomenais do modo de (Ellen) ser-no-mundo dentro das várias regiões-do-mundo... será melhor começarmos pelo mundo da paisagem (Umwelt): o ser-limitado e o ser-oprimido expressam-se aqui no escurecimento, na escuridão, na noite, no frio, na maré-baixa; as fronteiras ou limites mostram-se como as paredes de névoa úmida, ou como as nuvens; o vazio, como o Mistério; o anseio de liberdade (libertar-se do mundo) como a elevação no ar; o eu como um pássaro emudecido. No mundo da vegetação, o ser-restrito e o ser-oprimido mostram-se no esmaecimento e as barreiras no ar sufocante; o vazio, nas sementes; o anseio de liberdade, na urgência de crescer; o eu, na planta seca. No mundo das coisas encontramos o ser-restrito no buraco, no sótão, no túmulo; as barreiras estão nas paredes, na alvenaria, nas correntes, nas redes; a ânsia de liberdade no vaso da fertilidade; o eu na casca jogada fora. No mundo animal o ser-restrito é visto como ser-esburacado por dentro; as barreiras, como a terra ou a noite escura; o eu como um verme incapaz de ainda ansiar por liberdade; o vazio como simples vegetar. No Mitwelt, o ser-restrito é visto como ser-subjugado, oprimido, prejudicado e perseguido; o vazio, como a falta de paz, a indiferença, a submissão infeliz, a reclusão, a solidão; as barreiras, como algemas ou as víboras de todo dia ou como o ar sufocante; o vazio em si mesmo como o pequeno mundo (dia-a-dia); o anseio por liberdade, como a necessidade de independência, de desafio, de insurreição, revolta; o eu como covarde, niilista e, mais tarde, covardemente comprometido. No Eigenwelt, o mundo-do-pensamento, reconhecemos o ser-restrito na covardia, na indlugência, no abandono dos planos a longo prazo; as barreiras, nos fantasmas ou espectros acusadores e zombeteiros que a rodeiam e invadem por todos os lados; o vazio, no ser-norteado por uma única idéia, como a do Nada; o eu, na minhoca tímida, no coração gelado; o anseio de liberdade, no desespero. Finalmente, no Eigenwelt, o mundo-corporal, encontramos o ser-restrito no ser gorda; as barreiras ou paredes, na camada de gordura em que a existência dá murros; o vazio, no ser tola, estúpida, velha, feia, e mesmo ser morta; o anseio de liberdade no desejo-de-emagrecer; o eu, como um mero tubo que se enche e se esvazia de matéria.
A primeira vez que li este texto pensei: “ou seja: bulimica, gravemente depressiva com tendências suicidas. Poderia ter me poupado trabalho.” Admito que o DSM é uma ferramenta bastante limitada para diagnosticar pacientes, já que apenas descreve os sintomas externos visíveis, e não dá uma etiologia (origem, causa) dos transtornos, e que estudos fenomenológicos de caso poderiam cobrir esta lacuna. Mas demora muito mais escrever um relato desses do que fazer um diagnóstico pelo DSM (só digitando demorou um monte, imagina inventando). Vale lembrar que Ellen se matou durante o tratamento. E por causa da depressão, que nem de longe é um bicho papão. Claro, na época do velho Boss a psicoterapia era muito rudimentar se comparada com as técnicas que temos atualmente, portanto dá para dar um desconto para o fracasso dele em tratar Ellen. Também temos de convir que, por mais que tenha escrito, Boss deve ter se dedicado ao caso, e que o que menos desejava era a morte de Ellen. E fico pensando como ele, um psiquiatra, teria reagido se um manual de diagnóstico tivesse sido criado em sua época. Prefiro imaginar que teria ficado feliz com a ajuda de mais uma ferramenta, e continuaria a daseinanalisar seus pacientes.
É irreconciliável a prática de um diagnóstico rápido e preciso com uma descrição qualitativa detalhada? Acredito que não. Apesar de não ser capaz de ver como um relato como o de Boss pode ser útil para o progresso da Psicologia e da Psiquiatria (prefiro o estilo do neurologista Oliver Sacks, que trata mais diretamente dos sentimentos e impressões dos pacientes e de todos em volta, inclusive o próprio médico), acredito que é uma prática salutar, pois leva o psicoterapeuta a pensar melhor a respeito da vida de seus pacientes, seus sentimentos e sua relação interpessoal. Mas negar-se a usar o DSM-IV ou o CID-10 por que “subjetivam” os pacientes é coisa de ideólogo ignorante.
Graças à sincronia do universo, tive o prazer de ler para a cadeira de Psicologia Humanista um texto diagnóstico daseinanalítico, escrito pelo eminente psicanalista e analista existencial Medard Boss. Faz algum tempo que me interesso por Análise Existencial, mas nunca tive a oportunidade de entrar em contato com esta teoria. Enfim, o diagnóstico é parte de um estudo de caso conduzido por Boss, o caso Ellen:
Se tentarmos, então, sumarizar uma vez mais as características individuais e formas fenomenais do modo de (Ellen) ser-no-mundo dentro das várias regiões-do-mundo... será melhor começarmos pelo mundo da paisagem (Umwelt): o ser-limitado e o ser-oprimido expressam-se aqui no escurecimento, na escuridão, na noite, no frio, na maré-baixa; as fronteiras ou limites mostram-se como as paredes de névoa úmida, ou como as nuvens; o vazio, como o Mistério; o anseio de liberdade (libertar-se do mundo) como a elevação no ar; o eu como um pássaro emudecido. No mundo da vegetação, o ser-restrito e o ser-oprimido mostram-se no esmaecimento e as barreiras no ar sufocante; o vazio, nas sementes; o anseio de liberdade, na urgência de crescer; o eu, na planta seca. No mundo das coisas encontramos o ser-restrito no buraco, no sótão, no túmulo; as barreiras estão nas paredes, na alvenaria, nas correntes, nas redes; a ânsia de liberdade no vaso da fertilidade; o eu na casca jogada fora. No mundo animal o ser-restrito é visto como ser-esburacado por dentro; as barreiras, como a terra ou a noite escura; o eu como um verme incapaz de ainda ansiar por liberdade; o vazio como simples vegetar. No Mitwelt, o ser-restrito é visto como ser-subjugado, oprimido, prejudicado e perseguido; o vazio, como a falta de paz, a indiferença, a submissão infeliz, a reclusão, a solidão; as barreiras, como algemas ou as víboras de todo dia ou como o ar sufocante; o vazio em si mesmo como o pequeno mundo (dia-a-dia); o anseio por liberdade, como a necessidade de independência, de desafio, de insurreição, revolta; o eu como covarde, niilista e, mais tarde, covardemente comprometido. No Eigenwelt, o mundo-do-pensamento, reconhecemos o ser-restrito na covardia, na indlugência, no abandono dos planos a longo prazo; as barreiras, nos fantasmas ou espectros acusadores e zombeteiros que a rodeiam e invadem por todos os lados; o vazio, no ser-norteado por uma única idéia, como a do Nada; o eu, na minhoca tímida, no coração gelado; o anseio de liberdade, no desespero. Finalmente, no Eigenwelt, o mundo-corporal, encontramos o ser-restrito no ser gorda; as barreiras ou paredes, na camada de gordura em que a existência dá murros; o vazio, no ser tola, estúpida, velha, feia, e mesmo ser morta; o anseio de liberdade no desejo-de-emagrecer; o eu, como um mero tubo que se enche e se esvazia de matéria.
A primeira vez que li este texto pensei: “ou seja: bulimica, gravemente depressiva com tendências suicidas. Poderia ter me poupado trabalho.” Admito que o DSM é uma ferramenta bastante limitada para diagnosticar pacientes, já que apenas descreve os sintomas externos visíveis, e não dá uma etiologia (origem, causa) dos transtornos, e que estudos fenomenológicos de caso poderiam cobrir esta lacuna. Mas demora muito mais escrever um relato desses do que fazer um diagnóstico pelo DSM (só digitando demorou um monte, imagina inventando). Vale lembrar que Ellen se matou durante o tratamento. E por causa da depressão, que nem de longe é um bicho papão. Claro, na época do velho Boss a psicoterapia era muito rudimentar se comparada com as técnicas que temos atualmente, portanto dá para dar um desconto para o fracasso dele em tratar Ellen. Também temos de convir que, por mais que tenha escrito, Boss deve ter se dedicado ao caso, e que o que menos desejava era a morte de Ellen. E fico pensando como ele, um psiquiatra, teria reagido se um manual de diagnóstico tivesse sido criado em sua época. Prefiro imaginar que teria ficado feliz com a ajuda de mais uma ferramenta, e continuaria a daseinanalisar seus pacientes.
É irreconciliável a prática de um diagnóstico rápido e preciso com uma descrição qualitativa detalhada? Acredito que não. Apesar de não ser capaz de ver como um relato como o de Boss pode ser útil para o progresso da Psicologia e da Psiquiatria (prefiro o estilo do neurologista Oliver Sacks, que trata mais diretamente dos sentimentos e impressões dos pacientes e de todos em volta, inclusive o próprio médico), acredito que é uma prática salutar, pois leva o psicoterapeuta a pensar melhor a respeito da vida de seus pacientes, seus sentimentos e sua relação interpessoal. Mas negar-se a usar o DSM-IV ou o CID-10 por que “subjetivam” os pacientes é coisa de ideólogo ignorante.
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sábado, 5 de abril de 2008
Neurociências e Ciência Humana
Nos últimos dez ou vinte anos, as Ciências Humanas e as Ciências Biológicas tem se unido cada vez mais, e esta união, as Neurociências, possibilitou muitos progressos científicos, que beneficiam tanto pesquisadores básicos, que fazem ciência por ciência, quanto pessoas trabalhando em áreas mais próximas da vida cotidiana, como psiquiatras, psicólogos e neurologistas. Entre os principais desenvolvimentos, cito a organização do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), o catálogo de transtornos mentais e comportamentais que permitiu uma unificação na linguagem do campo do psicodiagnóstico (um verdadeiro feito), a possibilidade de tratamento ou até mesmo cura de muitas doenças, e uma maior compreensão do ser humano como um todo.
Entretanto, apesar de todos estes progressos, parece existir medo por parte dos geisteswissenschaften, os cientistas humanos, a respeito disso tudo. Há a freqüente pergunta – para onde a ciência nos levará? – feita por muitos destes indivíduos, que temem que este conhecimento nos levará invariavelmente para uma ditadura eugenista, onde os “geneticamente ruins”, ou “neurologicamente ruins”, ou “bioquimicamente ruins”, serão excluídos da sociedade e tratados como sub-humanos. Sinceramente, acredito que os fatores que tornaram o Holocausto nazista possível não foram os avanços científicos, mas uma ideologia elitista e enviesada, e principalmente, falta de conhecimento empírico sólido. Sendo um pouco cínico, se Hitler soubesse que eliminar todas as pessoas com distúrbios mentais ou síndromes graves não faria a menor diferença, já que na próxima geração outros tomariam os lugares dos eliminados, ele teria poupado dinheiro com munição e câmaras de gás (com alguns pelo menos). Mas, se os cientistas sociais humanos da Alemanha nazista tivessem pesquisado com mais empenho (ou menos discurso), teriam chegado à conclusão que as diferenças de desempenho cognitivo entre raças era basicamente cultural (incluindo aqui o viés do examinador sobre o examinado), e que não há justificativa básica para extermínio sistemático destes indivíduos.
Outro exemplo de medo esdrúxulo que já ouvi a respeito dos perigos das Neurociências, é a possibilidade de no futuro, policiais levarem máquinas portáteis de PET scan, Eletroencefalograma e ressonância magnética funcional em suas viaturas para poderem identificar “possíveis criminosos” de acordo com seus padrões cerebrais e prendê-los preventivamente. Quem teve esta idéia absurda meus caros, não foi o Dr. Hobo, mendigo tchuco e teórico da conspiração, mas uma professora de ensino superior, graduada e pós-graduada em universidades bem conceituadas no mundo acadêmico. Pena que ela esqueceu das aulas de neurologia, onde ela aprenderia um pouco a respeito do conceito de “plasticidade neural”, que define que o cérebro está em constante mudança, sendo então impossível, ou no mínimo indesejável tentar identificar lombrosianamente possíveis criminosos.
Mas estou sendo injusto aqui. Esta professora deve saber o que plasticidade neural é: ela só preferiria dizer que “ela é limitada”. Já ouvi argumento assim em uma discussão epistemológica sobre neurociências – argumento este que ignora toda a variedade de personalidades e talentos, devida pelo menos em parte da capacidade do cérebro modificar-se de acordo com o contexto e a necessidade.
Mas, sendo um pouco psicanalítico agora, acredito que haja algo por trás desta defesa dos direitos humanos que ainda não foram violados. Em um texto que li para a aula de Psicopatologia, um psicanalista e psiquiatra questiona a importância atribuída aos manuais diagnósticos (DSM-IV e CID-10). Em sua maioria, as críticas são válidas, pois muitos psicólogos e psiquiatras tratam apenas do “sintoma do sujeito”, e esquecem que existe um “sujeito do sintoma” – um sujeito que sofre, que vibra, que ri e que chora, e que exibe um sintoma que atrapalha sua vida e as vidas dos outros. Mas, em certo ponto do artigo, ele levanta a “inquietante suspeita de que a própria psiquiatria, impulsionada em sua vertente naturalizante pelos progressos experimentais propiciados pelos sistemas operacionais, possa estar-se transformando em uma neurologia híbrida e de segunda mão”. Em outras palavras, o autor deste texto teme que, um dia, avaliem-se apenas os fatores biológicos e deixe-se de lado o relacionamento clínico, e que os psiquiatras sejam substituídos pelos neurologistas. É o mesmo medo que descrevi anteriormente, mas dito de uma forma que deixa escapar “a verdade inconsciente”: de perder o emprego.
Como ele bem disse, teme-se que a Psiquiatria e a Psicologia sejam engolidas e substituídas pelas Neurociências. Pessoalmente, não acho que isto acontecerá, já que as relações interpessoais, a cultura e a transcendência humana não podem ter suas atividades reduzidas ao funcionamento neuronal. O que acho mais provável de acontecer é que de agora em diante, e mais do que nunca, estas duas ciências vão se beneficiar cada vez mais das pesquisas neurocientíficas, e psiquiatras (que já tem um treinamento muito similar ao dos neurologistas) e psicólogos serão mais neuropsiquiátras e neuropsicólogos, mas nunca neurologistas pura e simplesmente. Repito, não há como compreender o comportamento humano em sua totalidade apenas com PET scan e MRI.
Não vou ser ingênuo e dizer que todo o rebuliço em torno das pesquisas neurocientíficas por parte de cientistas humanos seja puro medo de ir para o olho da rua com um diploma obsoleto, mas questiono até que ponto existe um verdadeiro interesse em defender os coitadinhos.
Entretanto, apesar de todos estes progressos, parece existir medo por parte dos geisteswissenschaften, os cientistas humanos, a respeito disso tudo. Há a freqüente pergunta – para onde a ciência nos levará? – feita por muitos destes indivíduos, que temem que este conhecimento nos levará invariavelmente para uma ditadura eugenista, onde os “geneticamente ruins”, ou “neurologicamente ruins”, ou “bioquimicamente ruins”, serão excluídos da sociedade e tratados como sub-humanos. Sinceramente, acredito que os fatores que tornaram o Holocausto nazista possível não foram os avanços científicos, mas uma ideologia elitista e enviesada, e principalmente, falta de conhecimento empírico sólido. Sendo um pouco cínico, se Hitler soubesse que eliminar todas as pessoas com distúrbios mentais ou síndromes graves não faria a menor diferença, já que na próxima geração outros tomariam os lugares dos eliminados, ele teria poupado dinheiro com munição e câmaras de gás (com alguns pelo menos). Mas, se os cientistas sociais humanos da Alemanha nazista tivessem pesquisado com mais empenho (ou menos discurso), teriam chegado à conclusão que as diferenças de desempenho cognitivo entre raças era basicamente cultural (incluindo aqui o viés do examinador sobre o examinado), e que não há justificativa básica para extermínio sistemático destes indivíduos.
Outro exemplo de medo esdrúxulo que já ouvi a respeito dos perigos das Neurociências, é a possibilidade de no futuro, policiais levarem máquinas portáteis de PET scan, Eletroencefalograma e ressonância magnética funcional em suas viaturas para poderem identificar “possíveis criminosos” de acordo com seus padrões cerebrais e prendê-los preventivamente. Quem teve esta idéia absurda meus caros, não foi o Dr. Hobo, mendigo tchuco e teórico da conspiração, mas uma professora de ensino superior, graduada e pós-graduada em universidades bem conceituadas no mundo acadêmico. Pena que ela esqueceu das aulas de neurologia, onde ela aprenderia um pouco a respeito do conceito de “plasticidade neural”, que define que o cérebro está em constante mudança, sendo então impossível, ou no mínimo indesejável tentar identificar lombrosianamente possíveis criminosos.
Mas estou sendo injusto aqui. Esta professora deve saber o que plasticidade neural é: ela só preferiria dizer que “ela é limitada”. Já ouvi argumento assim em uma discussão epistemológica sobre neurociências – argumento este que ignora toda a variedade de personalidades e talentos, devida pelo menos em parte da capacidade do cérebro modificar-se de acordo com o contexto e a necessidade.
Mas, sendo um pouco psicanalítico agora, acredito que haja algo por trás desta defesa dos direitos humanos que ainda não foram violados. Em um texto que li para a aula de Psicopatologia, um psicanalista e psiquiatra questiona a importância atribuída aos manuais diagnósticos (DSM-IV e CID-10). Em sua maioria, as críticas são válidas, pois muitos psicólogos e psiquiatras tratam apenas do “sintoma do sujeito”, e esquecem que existe um “sujeito do sintoma” – um sujeito que sofre, que vibra, que ri e que chora, e que exibe um sintoma que atrapalha sua vida e as vidas dos outros. Mas, em certo ponto do artigo, ele levanta a “inquietante suspeita de que a própria psiquiatria, impulsionada em sua vertente naturalizante pelos progressos experimentais propiciados pelos sistemas operacionais, possa estar-se transformando em uma neurologia híbrida e de segunda mão”. Em outras palavras, o autor deste texto teme que, um dia, avaliem-se apenas os fatores biológicos e deixe-se de lado o relacionamento clínico, e que os psiquiatras sejam substituídos pelos neurologistas. É o mesmo medo que descrevi anteriormente, mas dito de uma forma que deixa escapar “a verdade inconsciente”: de perder o emprego.
Como ele bem disse, teme-se que a Psiquiatria e a Psicologia sejam engolidas e substituídas pelas Neurociências. Pessoalmente, não acho que isto acontecerá, já que as relações interpessoais, a cultura e a transcendência humana não podem ter suas atividades reduzidas ao funcionamento neuronal. O que acho mais provável de acontecer é que de agora em diante, e mais do que nunca, estas duas ciências vão se beneficiar cada vez mais das pesquisas neurocientíficas, e psiquiatras (que já tem um treinamento muito similar ao dos neurologistas) e psicólogos serão mais neuropsiquiátras e neuropsicólogos, mas nunca neurologistas pura e simplesmente. Repito, não há como compreender o comportamento humano em sua totalidade apenas com PET scan e MRI.
Não vou ser ingênuo e dizer que todo o rebuliço em torno das pesquisas neurocientíficas por parte de cientistas humanos seja puro medo de ir para o olho da rua com um diploma obsoleto, mas questiono até que ponto existe um verdadeiro interesse em defender os coitadinhos.
Comunidades no Orkut que me fazem doer os rins
Achei a seguinte comunidade no Orkut hoje:
"Positivismo é saúde!"
Vou perguntar isso para meus professores e ver o que eles respondem.
Curiosamente, este é um post filosófico por tratar justamente da falta de filosofia em si próprio.
"Positivismo é saúde!"
Vou perguntar isso para meus professores e ver o que eles respondem.
Curiosamente, este é um post filosófico por tratar justamente da falta de filosofia em si próprio.
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Estilos Arquitetônicos de Universidades Contemporâneas

Faltou ainda um estilo arquitetônico:

O Bloco de Lego Gigante.
Imagens gentilmente copiadas do webcomic PhD e da página do Instituto de Psicologia UFRGS.
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Inane Banter
sexta-feira, 4 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
Dúvidas Existenciais
Enquanto digito estas palavras, aqui no laboratório de informática da faculdade, fico me perguntando sobre a importância das aulas presenciais. Quantas precisamos ir para aprender algo relevante? Ou aprender é algo secundário, o que importa é ir para a aula sofrer?
Dei uma saída rápida da aula de Processos Institucionais, uma das mais inúteis que já tive até agora. A professora iria discutir o conceito de "Implicação". O que é implicação? Li uns três textos a respeito, e até agora não entendi o que é. Ou eu sou tapado ou ninguém que use esse conceito sabe explicá-lo. Se ninguém sabe explicá-lo, pra que serve?
Pergunto-me, qual o valor de ir para uma aula em que falam muito mas não dizem nada? Para fortalecer o caráter? Não seria melhor ir para casa e ler os textos? Cacete.
Vou voltar para a aula agora, pois deixei um livro na sala. Falta uma hora e dez minutos para ela acabar. Que tortura. Fazia tempos que não achava estar disperdiçando meu tempo de maneira tão inútil.
Dei uma saída rápida da aula de Processos Institucionais, uma das mais inúteis que já tive até agora. A professora iria discutir o conceito de "Implicação". O que é implicação? Li uns três textos a respeito, e até agora não entendi o que é. Ou eu sou tapado ou ninguém que use esse conceito sabe explicá-lo. Se ninguém sabe explicá-lo, pra que serve?
Pergunto-me, qual o valor de ir para uma aula em que falam muito mas não dizem nada? Para fortalecer o caráter? Não seria melhor ir para casa e ler os textos? Cacete.
Vou voltar para a aula agora, pois deixei um livro na sala. Falta uma hora e dez minutos para ela acabar. Que tortura. Fazia tempos que não achava estar disperdiçando meu tempo de maneira tão inútil.
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Teoria da Personalidade
Um de meus nobres vícios

É. Frequentemente faço isso. Devo admitir que não é um hábito saudável. Daria a fonte do webcomic também, mas o site loqueou e aparece outro no lugar.
Fonte: o site loqueou por causa do Primeiro de Abril. A fonte é o webcomic xkcd.
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Meus Erros
domingo, 30 de março de 2008
Um Sentido Transcendente de Ciência
Ultimamente, tenho estado intelectualmente ocupado com questões epistemológicas – será a ciência um fim em si mesmo, ou apenas um movimento político?
Os defensores da primeira posição defendem, de forma semelhante ao que os parnasianos diziam da arte, que a ciência a si se basta, e vão além, dizendo que tudo pelo bem da ciência é aceitável. São os chamados positivistas e cartesianos, que acreditam em um mundo externo real, objetivo e material, passível de mensuração e controle, onde a opinião própria e subjetiva dos indivíduos nada conta diante dos fatos concretos da experiência.
Do outro lado do front, posicionam-se os ditos pós-modernistas. Eles questionam o valor absoluto da ciência, ressaltando seus processos políticos, frequentemente ignorados ou até mesmo desmentidos pelos positivistas. Para os pós-modernistas, não existe uma realidade externa tangível, realmente material ou mesmo real, e a subjetividade exerce um papel extremamente, se não o mais, importante em nossa realidade.
Enquanto a posição positivista pode defender a tortura de animais e seres vivos para “o bem da ciência”, os pós-modernistas frequentemente atacam a validade e a necessidade de experimentos, defendendo que a ciência deva se tornar uma hermenêutica, ou seja, limitar-se apenas a descrever os fenômenos, sem buscar relações causais.
São duas posições problemáticas, pois com o positivismo, corremos o risco de colocar a ciência em um pedestal e fazer sacrifícios em seu nome, enquanto que com o pós-modernismo corremos o risco de passar os dias apenas descrevendo as coisas, imersos em um oceano de intelectualismos, cheio de palavras bonitas e complicadas, porém nenhuma atitude, nada que faça nossa vida realmente melhor.
Depois de muito pensar a respeito destes dois posicionamentos epistemológicos, percebi que em ambos, falta algo fundamental. Não em seus discursos, mas em suas práticas e em sua filosofia mais profunda: um sentido. Para os cartesianos, a ciência é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, e tudo que for para ela e por ela vale a pena ser feito, ao passo que para os pós-modernistas tudo o que importa é a subjetividade, e a ciência e seus “fatos” mutilam a subjetividade, e portanto deve ser abolida, ou pelo menos grandemente limitada. Mas e a humanidade?
Ah sei, parece retórica barata clamar pela humanidade (Oh the humanity!) em um texto sobre ciência, mas tanto o positivismo quanto o pós-modernismo esqueceram-se de que sua função fazer do mundo um lugar melhor, para nós que hoje vivemos, e para as futuras gerações ainda por vir, seres humanos e outras espécies de seres vivos também. Focamo-nos demais nas políticas mesquinhas de agora, e deixamos de lado este sentido transcendente da ciência, de preocupar-se com todos os que vivem sobre este pequeno planeta azul, de fazer suas vidas melhores materialmente, mas também mais significativas espiritualmente.
A política influencia a ciência, mas esta não deve nunca abandonar a busca de uma Verdade apenas por que ela parece inatingível.
"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!"
Mário Quintana
Os defensores da primeira posição defendem, de forma semelhante ao que os parnasianos diziam da arte, que a ciência a si se basta, e vão além, dizendo que tudo pelo bem da ciência é aceitável. São os chamados positivistas e cartesianos, que acreditam em um mundo externo real, objetivo e material, passível de mensuração e controle, onde a opinião própria e subjetiva dos indivíduos nada conta diante dos fatos concretos da experiência.
Do outro lado do front, posicionam-se os ditos pós-modernistas. Eles questionam o valor absoluto da ciência, ressaltando seus processos políticos, frequentemente ignorados ou até mesmo desmentidos pelos positivistas. Para os pós-modernistas, não existe uma realidade externa tangível, realmente material ou mesmo real, e a subjetividade exerce um papel extremamente, se não o mais, importante em nossa realidade.
Enquanto a posição positivista pode defender a tortura de animais e seres vivos para “o bem da ciência”, os pós-modernistas frequentemente atacam a validade e a necessidade de experimentos, defendendo que a ciência deva se tornar uma hermenêutica, ou seja, limitar-se apenas a descrever os fenômenos, sem buscar relações causais.
São duas posições problemáticas, pois com o positivismo, corremos o risco de colocar a ciência em um pedestal e fazer sacrifícios em seu nome, enquanto que com o pós-modernismo corremos o risco de passar os dias apenas descrevendo as coisas, imersos em um oceano de intelectualismos, cheio de palavras bonitas e complicadas, porém nenhuma atitude, nada que faça nossa vida realmente melhor.
Depois de muito pensar a respeito destes dois posicionamentos epistemológicos, percebi que em ambos, falta algo fundamental. Não em seus discursos, mas em suas práticas e em sua filosofia mais profunda: um sentido. Para os cartesianos, a ciência é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, e tudo que for para ela e por ela vale a pena ser feito, ao passo que para os pós-modernistas tudo o que importa é a subjetividade, e a ciência e seus “fatos” mutilam a subjetividade, e portanto deve ser abolida, ou pelo menos grandemente limitada. Mas e a humanidade?
Ah sei, parece retórica barata clamar pela humanidade (Oh the humanity!) em um texto sobre ciência, mas tanto o positivismo quanto o pós-modernismo esqueceram-se de que sua função fazer do mundo um lugar melhor, para nós que hoje vivemos, e para as futuras gerações ainda por vir, seres humanos e outras espécies de seres vivos também. Focamo-nos demais nas políticas mesquinhas de agora, e deixamos de lado este sentido transcendente da ciência, de preocupar-se com todos os que vivem sobre este pequeno planeta azul, de fazer suas vidas melhores materialmente, mas também mais significativas espiritualmente.
A política influencia a ciência, mas esta não deve nunca abandonar a busca de uma Verdade apenas por que ela parece inatingível.
"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!"
Mário Quintana
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