Wonderwall
Oasis
Composição: Noel Gallagher
Today is gonna be the day
That they're gonna throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you gotta do
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now
Backbeat, the word was on the street
That the fire in your heart is out
I'm sure you've heard it all before
But you never really had a doubt
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now
And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how
Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall
Today was gonna be the day
But they'll never throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you're not to do
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now
And all the roads that lead you there were winding
And all the lights that light the way are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how
I said maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall
I said maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall
I said maybe
You're gonna be the one that saves me
You're gonna be the one that saves me
You're gonna be the one that saves me
------
Já fazia algum tempo que não postava algum clipe de uma música bonita. "Wonderwall" é uma maravilhosa maneira de quebrar esse jejum. Agradeço à Lady Hell, que colocou um pedaço da letra na mensagem pessoal do MSN e me inspirou a procurá-la no YouTube.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Melhores Músicas da História VII
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Filmes de Herói
Acabo de assistir o filme Batman Begins, depois de ter assistido quase em seqüência toda a trilogia cinematográfica Spider-Man. Filmes de herói são repetitivos, especialmente os feitos em Hollywood, mas talvez seja justamente algo que se repita neles que os tornam tão numinosos para mim. Um colega meu disse que filmes são como livros, e que depois de um tempo nos tornamos mais seletivos quanto ao que assistimos. Esse meu amigo, ao contrário de mim, acha filmes de herói uma pura perda de tempo.
Não sei ao certo por que fico tão fascinado por que fico tão fascinado por estas babaquices infantis. Os behavioristas diriam que meu comportamento de gostar de histórias de pessoas usando capas e máscaras foi reforçado de maneira consistente, e portanto se mantêm até hoje. É uma explicação bastante racional e plausível. Mas não é o bastante justamente por não ter um coração. Talvez o grande motivo para este tipo de filme fazer tanto sucesso apesar de usar uma fórmula tão gasta seja que sua mensagem faça eco no fundo de nossas almas, não só a minha, mas como a de milhares de outros que gastam seu suado dinheiro para ver filmes como Dark Knight no cinema. Batman e Spider-Man nos atraem e nos emocionam (eu chorei em muito filme de herói) e nos inspiram por serem modelos do que aspiramos nos tornar. Com a possível exceção do Batman, todos os super-heróis são caricaturas da realidade que, dotados de poderes além da imaginação humana, decidem por uma vida dedicada ao combate à injustiça e à busca pela verdade. Não é uma vida fácil - por ela, Peter Parker precisa renunciar ao amor de Mary Jane, aos estudos, ao trabalho remunerado, e Bruce Wayne, pelo menos o encarnado por Christian Bale, é levado a vestir a persona de um playboy irresponsável e decadente, para que ninguém desconfie de suas atividades como morcego. Existem heróis em nosso mundo, certamente menos exuberantes e poderosos, mas por isso mesmo muito mais impressionantes e inspiradores. Mohandas Gandhi, cuja vida foi levada às telas em 1982. Uma das cenas mais impressionantes que já vi em um filme foi a jornada até o mar, que Gandhi liderou para boicotar o sal vendido pelos britânicos e demonstrar que a independência da Índia não era sonho, mas fato consumado. Em cada cidade que ele passava, mais e mais pessoas se uniam a ele. Poder nenhum além da verdadeira vontade poderia ter feito isto.
Mas não importa quantos blockbusters cheios de efeitos especiais, heróis e mensagens bonitas saiam todos os anos dos estúdios de Los Angeles, a grande maioria das pessoas que vão assistí-los, seja no cinema ou em casa, não vão ir além do espanto mais superficial: a violência do filme, os gráficos, os carros usados no filme. Alguns, especialmente crianças, vão sentir-se inspiradas, e vão desejar ser o Batman, mas isso não vai durar, seja por que vão se encher o saco com o tempo ou por que os pais ou os amigos disseram que é pura fantasia. A parte grosseira, violenta e material sim, é apenas uma forma fantasiosa que a história tomou. Mas parece que a mensagem verdadeira e mais profunda (pelo menos na minha opinião) se perdeu entre a fumaça e os espelhos dos efeitos especiais: a de que não existem heróis da ação, apenas da renúncia. A força de Batman não reside no seu tanque de guerra, ou a do Homem-Aranha em suas teias, mas no fato de terem aberto mão de seu conforto para combater o crime. A ação é secundária.
Talvez algumas pessoas sejam capazes de ver esta mensagem, mas ficam apenas no plano cognitivo. Consideram-se virtuosas e heróicas, mas nada fazem de verdade. Elas podem até ter um enorme potencial para fazer o bem, mas como bem disseram em Batman Begins, "não é o que sou por dentro, mas o que faço que me define". Não adianta ser um grande guerreiro apenas em pensamento - é necessário agir no mundo real, ou coletivo, em que vivemos.
E, talvez, haja quem não fique apenas no plano cognitivo, e que vão além de ficar sentado olhando outro ser nobre. Para ser sincero, cada vez mais acho que existem cada vez menos este tipo de pessoa. E espero do fundo do meu coração ser uma delas.
Não sei ao certo por que fico tão fascinado por que fico tão fascinado por estas babaquices infantis. Os behavioristas diriam que meu comportamento de gostar de histórias de pessoas usando capas e máscaras foi reforçado de maneira consistente, e portanto se mantêm até hoje. É uma explicação bastante racional e plausível. Mas não é o bastante justamente por não ter um coração. Talvez o grande motivo para este tipo de filme fazer tanto sucesso apesar de usar uma fórmula tão gasta seja que sua mensagem faça eco no fundo de nossas almas, não só a minha, mas como a de milhares de outros que gastam seu suado dinheiro para ver filmes como Dark Knight no cinema. Batman e Spider-Man nos atraem e nos emocionam (eu chorei em muito filme de herói) e nos inspiram por serem modelos do que aspiramos nos tornar. Com a possível exceção do Batman, todos os super-heróis são caricaturas da realidade que, dotados de poderes além da imaginação humana, decidem por uma vida dedicada ao combate à injustiça e à busca pela verdade. Não é uma vida fácil - por ela, Peter Parker precisa renunciar ao amor de Mary Jane, aos estudos, ao trabalho remunerado, e Bruce Wayne, pelo menos o encarnado por Christian Bale, é levado a vestir a persona de um playboy irresponsável e decadente, para que ninguém desconfie de suas atividades como morcego. Existem heróis em nosso mundo, certamente menos exuberantes e poderosos, mas por isso mesmo muito mais impressionantes e inspiradores. Mohandas Gandhi, cuja vida foi levada às telas em 1982. Uma das cenas mais impressionantes que já vi em um filme foi a jornada até o mar, que Gandhi liderou para boicotar o sal vendido pelos britânicos e demonstrar que a independência da Índia não era sonho, mas fato consumado. Em cada cidade que ele passava, mais e mais pessoas se uniam a ele. Poder nenhum além da verdadeira vontade poderia ter feito isto.
Mas não importa quantos blockbusters cheios de efeitos especiais, heróis e mensagens bonitas saiam todos os anos dos estúdios de Los Angeles, a grande maioria das pessoas que vão assistí-los, seja no cinema ou em casa, não vão ir além do espanto mais superficial: a violência do filme, os gráficos, os carros usados no filme. Alguns, especialmente crianças, vão sentir-se inspiradas, e vão desejar ser o Batman, mas isso não vai durar, seja por que vão se encher o saco com o tempo ou por que os pais ou os amigos disseram que é pura fantasia. A parte grosseira, violenta e material sim, é apenas uma forma fantasiosa que a história tomou. Mas parece que a mensagem verdadeira e mais profunda (pelo menos na minha opinião) se perdeu entre a fumaça e os espelhos dos efeitos especiais: a de que não existem heróis da ação, apenas da renúncia. A força de Batman não reside no seu tanque de guerra, ou a do Homem-Aranha em suas teias, mas no fato de terem aberto mão de seu conforto para combater o crime. A ação é secundária.
Talvez algumas pessoas sejam capazes de ver esta mensagem, mas ficam apenas no plano cognitivo. Consideram-se virtuosas e heróicas, mas nada fazem de verdade. Elas podem até ter um enorme potencial para fazer o bem, mas como bem disseram em Batman Begins, "não é o que sou por dentro, mas o que faço que me define". Não adianta ser um grande guerreiro apenas em pensamento - é necessário agir no mundo real, ou coletivo, em que vivemos.
E, talvez, haja quem não fique apenas no plano cognitivo, e que vão além de ficar sentado olhando outro ser nobre. Para ser sincero, cada vez mais acho que existem cada vez menos este tipo de pessoa. E espero do fundo do meu coração ser uma delas.
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Uma Definição de Psicologia
A Psicologia é uma entidade difícil de definir ou conceituar. Fico reticente até em chamá-la de “ciência”, pois não há consenso sobre quase nada a seu respeito, nem se é ciência, nem sobre sua metodologia e muito menos suas bases metafísicas. Por isso, a definição que darei aqui é idiossincrática, baseada no que eu tenho aprendido e considerado mais apropriado. Por isso, o título deste post é “Uma Definição” e não “A Definição”. Não espero que minha definição seja definitiva, mas apenas um exercício intelectual, para pôr à prova meus conhecimentos de Psicologia e Neurociências. Colegas de curso que lerem este texto e acharem que falta explicar alguma coisa, sintam-se a vontade para comentar.
O único consenso que há em Psicologia é que seu objeto de estudo é o ser humano. O que é um ser humano é uma questão muito mais delicada, que evitarei no momento. É possível ser um pouco mais preciso, e dizer que em Psicologia se estuda o comportamento humano. Esta é a definição mais sucinta e clara que temos, mas é pouco abrangente, pois classifica como iguais coisas completamente distintas como atividade mental e atravessar a rua, sendo a única diferença entre as duas o caráter público e observável da segunda. Segundo minha própria opinião, uma definição mais precisa diria que a Psicologia estuda o pensamento, o sentimento, a motivação e o comportamento humanos, sejam eles conscientes ou inconscientes. Apesar de mais precisa, minha definição borra as fronteiras da Psicologia com outros campos e ciências, como a Sociologia, a Biologia e as Humanidades (Artes e Literatura) – o que, pessoalmente, acho muito positivo, considerando a grande interface existente entre estes e outras disciplinas.
Que estudamos o comportamento humano é óbvio – mas o que é o comportamento humano? Segundo a corrente behaviorista, é tudo o que um ser humano faz: comer, andar, chorar e pensar, e que é desnecessário, e até mesmo contraproducente, considerar a mente como sendo algo qualitativamente diferente do corpo. Isso é uma birra que vem desde o tempo de Descartes, que classificou a alma, origem do pensamento, como sendo feita de uma substância diferente da matéria grosseira que constitui o resto de nosso organismo, sendo imaterial e não-observável, em outras palavras, impossível de ser estudada empiricamente. Esta birra está sendo superada agora pelas Neurociências, que têm encontrado muitos correlatos cerebrais para atividades mentais, “materializando-a”. Não seria descabido, então, considerar a cognição como um mero comportamento. A cognição, segundo António Damásio, consiste em imagens (verbais ou não) que o cérebro humano aprendeu a “desenhar”, para auxiliar-nos a avaliar nosso ambiente, nosso estado corporal e, com base nestas informações, planejar nossas atitudes futuras, de forma a maximizar nossa sobrevivência. Entretanto, apesar de ter uma base física verificável, sua natureza ainda é muito diferente dos comportamentos expressos. Por exemplo, ao contrário do que acontece no “mundo real”, quanto mais eu tento ignorar um pensamento, mais eu penso nele. Apesar de possuírem base material, os nossos pensamentos ainda são “imateriais”, por assim dizer.
Os sentimentos, ou emoções, também tiveram problemas com nosso amigo Descartes, mas de uma natureza diferente. Cogito ergo sum, “penso, logo existo”, é uma das máximas filosóficas mais conhecidas no mundo ocidental. Um de seus sentidos é que, pode ser que nada do que vejo a minha volta exista, mas eu existo, pois sou capaz de pensar e averiguar a minha própria existência. Esta é a base de toda a filosofia cartesiana. Outro significado do cogito é a supremacia do pensamento racional sobre as paixões naturais – amor, ódio, desejo. Se sou capaz de suprimir minhas emoções, eu sou um ser humano pleno. Por muito tempo, no Ocidente, se acreditou firmemente que a única maneira confiável de tomar decisões era através da razão fria e pura, livre de todo e qualquer resquício de emotividade. Para ser sincero, esta crença ainda existe, mas não é mais possível considerá-la correta, nem mesmo cientificamente. Mais uma vez, as Neurociências descobriram que os processos mentais ditos superiores e racionais, que ocorrem primariamente no córtex pré-frontal, dependem pesadamente das atividades cerebrais que ocorrem no sistema límbico, mais especificamente o hipocampo. Esta estrutura, ao contrário do córtex pré-frontal, que é um desenvolvimento recente de nossa evolução, é muito antiga, podendo ser encontrada em animais mais simples (1), como os répteis, e está diretamente ligada com as emoções. Para ilustrar melhor isto, António Damásio, em seu livro “O Erro de Descartes” (2) relata um caso clínico. Um de seus pacientes, Elliot, tivera um tumor logo acima das cavidades nasais, e que pressionava ambos os lobos frontais (3). O tumor era benigno, mas por se localizar em lugar tão delicado, poderia ser tão ou mais fatal que um tumor maligno. Foi feita uma operação, e o câncer foi removido com sucesso. Como é de praxe neste tipo de procedimento, também foi retirada o tecido cerebral imediatamente em volta do tumor, só para prevenir. Como este tipo de câncer não tende a desenvolver-se novamente, o prognóstico de Elliot era excelente.
Contudo, qualquer um que conheça um pouco da complexidade cerebral pode dizer que haveria seqüelas, e o homem responsável, diligente e comercialmente afinado que Elliot uma vez era se tornou um completo relapso e propenso à aventuras impensadas. Depois de muitas empreitadas sem sucesso, Elliot veio procurar Damásio para conseguir um atestado médico, para se aposentar por invalidez. O curioso sobre sua situação é que, para qualquer pessoa que olhasse superficialmente para seu caso, ele pareceria um homem inteligente e robusto, pois nem suas capacidades intelectuais nem motoras foram prejudicadas, e nunca um inválido. Em exames neurológicos, foi identificado que o tumor danificara principalmente os setores orbital e mediano do córtex pré-frontal, além do cerne do lobo, a massa branca que se encontra abaixo do córtex, ter sido completamente destruído. Estes dois setores pré-frontais são responsáveis pela tomada de decisão. Já a massa branca é composta basicamente por axônios mielinizados. Os axônios são os “braços” mais longos dos neurônios, e são responsáveis em passar as sinapses adiante, e efetuar a comunicação entre neurônios distantes e células efetoras (músculos, por exemplo) e fazer com que o corpo emita um comportamento (como correr). A mielina é uma substância de coloração branca que faz com que as sinapses sejam muito mais rápidas – grosseiramente, são como um bom condutor elétrico (4), que melhora a passagem da corrente. Apesar dos meus conhecimentos em Neuroanatomia serem parcos (5), acho que é razoável dizer que, com o cerne destruído, muitas conexões importantes entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico foram perdidas. Ao falar de todas as desgraças que aconteceram em sua vida depois da operação (desemprego, divórcio, não ter dinheiro...), Elliot não demonstrava nenhum traço de emoção. Era como se ele estivesse falando de algo que lera no jornal, e não sua própria existência. Ele é provavelmente o ser mais racional sobre a face da terra, e ainda assim é incapaz de decidir o que fazer.
A motivação está intimamente ligada com a tomada de decisões. O córtex pré-frontal é conhecido como a sede das Funções Executivas. Em termos gerais, elas são responsáveis por administrar a maneira como investimos nossa energia psíquica: sobre o que pensar, o que fazer. Obviamente, fazem mais do que isto, mas não acho necessário explicar mais, e também não me sinto confiante o suficiente para fazê-lo. Mas basicamente, as Funções Executivas são a própria Vontade (6), que é voltada para as metas futuras. Sem ela, viveríamos eternamente no aqui e agora, satisfazendo nossos desejos imediatos. Ela é aquela força que te leva a treinar e correr 10 km ao invés de ficar sentado o dia inteiro assistindo TV e comendo porcaria. Por que fazemos isto? Por que temos uma meta, um motivo. Há um sentido maior para que abramos mão de nosso conforto e façamos coisas aparentemente absurdas. É o que chamo de liberdade, pois nos leva a transcendermos a nós mesmos.
Nos parágrafos acima, procurei definir e diferenciar pensamento, sentimento e motivação, e assim, justificar por que estes três conceitos deveriam ser pontos centrais a serem estudados pela Psicologia, e também pelas Neurociências. Contudo, esta diferenciação é meramente didática e para fins de pesquisa, pois os três processos estão por demais interligados para serem separados: emoções nos levam a eleger metas, que construímos utilizando imagens mentais, da mesma forma que pensar em nossas metas nos levam a sentir diferentes emoções. As combinações são muitas. Isto me leva, por fim, a voltar para o conceito final, comportamento. Como os behavioristas o definem, “comportamento” é tudo o que um ser humano faz, seja mentalmente ou fisicamente, de forma consciente ou não (7). E, de fato, pensar, sentir e perseguir metas são comportamentos, mesmo se acontecerem apenas no mundo platônico das idéias. Contudo, eles só se tornam verdadeiros quando expressados neste mundo, através de nossos organismos. Eu posso passar minha vida inteira sonhando em ser um grande lutador, pensar em milhares tipos de treinamentos para me tornar forte e ser tomado por fortes emoções toda vez que vejo um filme do Bruce Lee, mas continuar igual, preguiçoso e fraco. Levando o solipsismo ao extremo, poderia afirmar que dá tudo no mesmo no final das contas, já que todos iremos morrer. Será mesmo? Prefiro acreditar que não. Considero a missão da Psicologia entender os motivos e as maneiras pelas quais agimos e, com estes conhecimentos como base, ajudar todos os seres humanos a transformarem em ato seu mais alto potencial – em outras palavras, a Psicologia deve ajudar a humanidade a alcançar sua auto-realização e transcender a si mesma. É um processo demorado, difícil e até mesmo doloroso, pois nos obriga a confrontarmos nossas próprias fraquezas. Mas é o único caminho em direção a uma felicidade plena e duradoura.
--------
1. Quando digo “simples”, quero dizer exatamente isto – com cérebros menores e com menos estruturas. Não quero dizer que são inferiores ou menos evoluídos, bem pelo contrário. Na verdade, poderíamos considerar os próprios répteis como sendo mais evoluídos que nós, por serem capazes de sobreviver em ambientes muito mais inóspitos que os nossos com um sistema nervoso muito menos desenvolvido que o nosso.
2. Pobre Descartes. Assim parece que eu só critico o pobre coitado!
3. Esquerdo e direito, um para cada hemisfério cerebral, caso você tenha faltado as aulas de Biologia na escola.
4. As sinapses são sinais elétricos, mas apenas as sinapses mais simples são apenas elétricas. Ocorrem em nosso cérebro sinapses químicas também, que são mais lentas e mais complexas. Não quero ficar falando disso aqui, mas achei que era importante fazer esta ressalva.
5. Não sei como passei na disciplina de Neuroanatomia no 1º semestre. E também não sei por que cargas d’água resolvi me interessar por este assunto depois do 2º semestre. Deve ter dado tempo para extinguir meu comportamento de fuga à Neuroanatomia.
6. Que tem um outro nome bem bonito também, volição, que faz conjuntinho com cognição e emoção.
7. O que fazemos durante o sono é um ótimo exemplo de comportamentos inconscientes. Todos nós sonhamos enquanto dormimos, e muitos de nós se mexem de um lado para o outro da cama também.
O único consenso que há em Psicologia é que seu objeto de estudo é o ser humano. O que é um ser humano é uma questão muito mais delicada, que evitarei no momento. É possível ser um pouco mais preciso, e dizer que em Psicologia se estuda o comportamento humano. Esta é a definição mais sucinta e clara que temos, mas é pouco abrangente, pois classifica como iguais coisas completamente distintas como atividade mental e atravessar a rua, sendo a única diferença entre as duas o caráter público e observável da segunda. Segundo minha própria opinião, uma definição mais precisa diria que a Psicologia estuda o pensamento, o sentimento, a motivação e o comportamento humanos, sejam eles conscientes ou inconscientes. Apesar de mais precisa, minha definição borra as fronteiras da Psicologia com outros campos e ciências, como a Sociologia, a Biologia e as Humanidades (Artes e Literatura) – o que, pessoalmente, acho muito positivo, considerando a grande interface existente entre estes e outras disciplinas.
Que estudamos o comportamento humano é óbvio – mas o que é o comportamento humano? Segundo a corrente behaviorista, é tudo o que um ser humano faz: comer, andar, chorar e pensar, e que é desnecessário, e até mesmo contraproducente, considerar a mente como sendo algo qualitativamente diferente do corpo. Isso é uma birra que vem desde o tempo de Descartes, que classificou a alma, origem do pensamento, como sendo feita de uma substância diferente da matéria grosseira que constitui o resto de nosso organismo, sendo imaterial e não-observável, em outras palavras, impossível de ser estudada empiricamente. Esta birra está sendo superada agora pelas Neurociências, que têm encontrado muitos correlatos cerebrais para atividades mentais, “materializando-a”. Não seria descabido, então, considerar a cognição como um mero comportamento. A cognição, segundo António Damásio, consiste em imagens (verbais ou não) que o cérebro humano aprendeu a “desenhar”, para auxiliar-nos a avaliar nosso ambiente, nosso estado corporal e, com base nestas informações, planejar nossas atitudes futuras, de forma a maximizar nossa sobrevivência. Entretanto, apesar de ter uma base física verificável, sua natureza ainda é muito diferente dos comportamentos expressos. Por exemplo, ao contrário do que acontece no “mundo real”, quanto mais eu tento ignorar um pensamento, mais eu penso nele. Apesar de possuírem base material, os nossos pensamentos ainda são “imateriais”, por assim dizer.
Os sentimentos, ou emoções, também tiveram problemas com nosso amigo Descartes, mas de uma natureza diferente. Cogito ergo sum, “penso, logo existo”, é uma das máximas filosóficas mais conhecidas no mundo ocidental. Um de seus sentidos é que, pode ser que nada do que vejo a minha volta exista, mas eu existo, pois sou capaz de pensar e averiguar a minha própria existência. Esta é a base de toda a filosofia cartesiana. Outro significado do cogito é a supremacia do pensamento racional sobre as paixões naturais – amor, ódio, desejo. Se sou capaz de suprimir minhas emoções, eu sou um ser humano pleno. Por muito tempo, no Ocidente, se acreditou firmemente que a única maneira confiável de tomar decisões era através da razão fria e pura, livre de todo e qualquer resquício de emotividade. Para ser sincero, esta crença ainda existe, mas não é mais possível considerá-la correta, nem mesmo cientificamente. Mais uma vez, as Neurociências descobriram que os processos mentais ditos superiores e racionais, que ocorrem primariamente no córtex pré-frontal, dependem pesadamente das atividades cerebrais que ocorrem no sistema límbico, mais especificamente o hipocampo. Esta estrutura, ao contrário do córtex pré-frontal, que é um desenvolvimento recente de nossa evolução, é muito antiga, podendo ser encontrada em animais mais simples (1), como os répteis, e está diretamente ligada com as emoções. Para ilustrar melhor isto, António Damásio, em seu livro “O Erro de Descartes” (2) relata um caso clínico. Um de seus pacientes, Elliot, tivera um tumor logo acima das cavidades nasais, e que pressionava ambos os lobos frontais (3). O tumor era benigno, mas por se localizar em lugar tão delicado, poderia ser tão ou mais fatal que um tumor maligno. Foi feita uma operação, e o câncer foi removido com sucesso. Como é de praxe neste tipo de procedimento, também foi retirada o tecido cerebral imediatamente em volta do tumor, só para prevenir. Como este tipo de câncer não tende a desenvolver-se novamente, o prognóstico de Elliot era excelente.
Contudo, qualquer um que conheça um pouco da complexidade cerebral pode dizer que haveria seqüelas, e o homem responsável, diligente e comercialmente afinado que Elliot uma vez era se tornou um completo relapso e propenso à aventuras impensadas. Depois de muitas empreitadas sem sucesso, Elliot veio procurar Damásio para conseguir um atestado médico, para se aposentar por invalidez. O curioso sobre sua situação é que, para qualquer pessoa que olhasse superficialmente para seu caso, ele pareceria um homem inteligente e robusto, pois nem suas capacidades intelectuais nem motoras foram prejudicadas, e nunca um inválido. Em exames neurológicos, foi identificado que o tumor danificara principalmente os setores orbital e mediano do córtex pré-frontal, além do cerne do lobo, a massa branca que se encontra abaixo do córtex, ter sido completamente destruído. Estes dois setores pré-frontais são responsáveis pela tomada de decisão. Já a massa branca é composta basicamente por axônios mielinizados. Os axônios são os “braços” mais longos dos neurônios, e são responsáveis em passar as sinapses adiante, e efetuar a comunicação entre neurônios distantes e células efetoras (músculos, por exemplo) e fazer com que o corpo emita um comportamento (como correr). A mielina é uma substância de coloração branca que faz com que as sinapses sejam muito mais rápidas – grosseiramente, são como um bom condutor elétrico (4), que melhora a passagem da corrente. Apesar dos meus conhecimentos em Neuroanatomia serem parcos (5), acho que é razoável dizer que, com o cerne destruído, muitas conexões importantes entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico foram perdidas. Ao falar de todas as desgraças que aconteceram em sua vida depois da operação (desemprego, divórcio, não ter dinheiro...), Elliot não demonstrava nenhum traço de emoção. Era como se ele estivesse falando de algo que lera no jornal, e não sua própria existência. Ele é provavelmente o ser mais racional sobre a face da terra, e ainda assim é incapaz de decidir o que fazer.
A motivação está intimamente ligada com a tomada de decisões. O córtex pré-frontal é conhecido como a sede das Funções Executivas. Em termos gerais, elas são responsáveis por administrar a maneira como investimos nossa energia psíquica: sobre o que pensar, o que fazer. Obviamente, fazem mais do que isto, mas não acho necessário explicar mais, e também não me sinto confiante o suficiente para fazê-lo. Mas basicamente, as Funções Executivas são a própria Vontade (6), que é voltada para as metas futuras. Sem ela, viveríamos eternamente no aqui e agora, satisfazendo nossos desejos imediatos. Ela é aquela força que te leva a treinar e correr 10 km ao invés de ficar sentado o dia inteiro assistindo TV e comendo porcaria. Por que fazemos isto? Por que temos uma meta, um motivo. Há um sentido maior para que abramos mão de nosso conforto e façamos coisas aparentemente absurdas. É o que chamo de liberdade, pois nos leva a transcendermos a nós mesmos.
Nos parágrafos acima, procurei definir e diferenciar pensamento, sentimento e motivação, e assim, justificar por que estes três conceitos deveriam ser pontos centrais a serem estudados pela Psicologia, e também pelas Neurociências. Contudo, esta diferenciação é meramente didática e para fins de pesquisa, pois os três processos estão por demais interligados para serem separados: emoções nos levam a eleger metas, que construímos utilizando imagens mentais, da mesma forma que pensar em nossas metas nos levam a sentir diferentes emoções. As combinações são muitas. Isto me leva, por fim, a voltar para o conceito final, comportamento. Como os behavioristas o definem, “comportamento” é tudo o que um ser humano faz, seja mentalmente ou fisicamente, de forma consciente ou não (7). E, de fato, pensar, sentir e perseguir metas são comportamentos, mesmo se acontecerem apenas no mundo platônico das idéias. Contudo, eles só se tornam verdadeiros quando expressados neste mundo, através de nossos organismos. Eu posso passar minha vida inteira sonhando em ser um grande lutador, pensar em milhares tipos de treinamentos para me tornar forte e ser tomado por fortes emoções toda vez que vejo um filme do Bruce Lee, mas continuar igual, preguiçoso e fraco. Levando o solipsismo ao extremo, poderia afirmar que dá tudo no mesmo no final das contas, já que todos iremos morrer. Será mesmo? Prefiro acreditar que não. Considero a missão da Psicologia entender os motivos e as maneiras pelas quais agimos e, com estes conhecimentos como base, ajudar todos os seres humanos a transformarem em ato seu mais alto potencial – em outras palavras, a Psicologia deve ajudar a humanidade a alcançar sua auto-realização e transcender a si mesma. É um processo demorado, difícil e até mesmo doloroso, pois nos obriga a confrontarmos nossas próprias fraquezas. Mas é o único caminho em direção a uma felicidade plena e duradoura.
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1. Quando digo “simples”, quero dizer exatamente isto – com cérebros menores e com menos estruturas. Não quero dizer que são inferiores ou menos evoluídos, bem pelo contrário. Na verdade, poderíamos considerar os próprios répteis como sendo mais evoluídos que nós, por serem capazes de sobreviver em ambientes muito mais inóspitos que os nossos com um sistema nervoso muito menos desenvolvido que o nosso.
2. Pobre Descartes. Assim parece que eu só critico o pobre coitado!
3. Esquerdo e direito, um para cada hemisfério cerebral, caso você tenha faltado as aulas de Biologia na escola.
4. As sinapses são sinais elétricos, mas apenas as sinapses mais simples são apenas elétricas. Ocorrem em nosso cérebro sinapses químicas também, que são mais lentas e mais complexas. Não quero ficar falando disso aqui, mas achei que era importante fazer esta ressalva.
5. Não sei como passei na disciplina de Neuroanatomia no 1º semestre. E também não sei por que cargas d’água resolvi me interessar por este assunto depois do 2º semestre. Deve ter dado tempo para extinguir meu comportamento de fuga à Neuroanatomia.
6. Que tem um outro nome bem bonito também, volição, que faz conjuntinho com cognição e emoção.
7. O que fazemos durante o sono é um ótimo exemplo de comportamentos inconscientes. Todos nós sonhamos enquanto dormimos, e muitos de nós se mexem de um lado para o outro da cama também.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Relativismo e Verdade
Qualquer um que tenha entrado em um debate de qualquer nível já deve ter se deparado com o argumento relativista - minha opinião merece tanto respeito quanto a tua, portanto, não pode ser refutada. Na Filosofia da Ciência, isto é conhecido como "Tudo Vale", princípio idealizado por Paul Feyerabend. Segundo ele, todas as teorias científicas têm o mesmo valor, e pois todas sustentam-se sobre pressupostos radicalmente diferentes umas das outras. Em outras palavras, são incomensuráveis e por isso não podem ser comparadas. Como exemplo, ele citava a Mecânica Newtoniana e a Mecânica Copernicana.
Isto não é um argumento, mas uma defesa detestável, utilizada apenas para defender o próprio ego de ser humilhado por estar errado. É covarde. Há, na história das ciências e da filosofia, pelo menos dois exemplos de "movimentos" relativistas: os sofistas da Grégia Antiga e os pós-modernos atuais. Segundo eles, não existe uma Verdade absoluta, apenas verdades relativas, que podem ser verdadeiras em um lugar, mas falsas em outro. Não sei se existe uma Verdade absoluta - como eu poderia deter a solução para uma pergunta que há séculos atormenta a humanidade? Contudo, acredito que é nossa missão buscá-la sempre, mesmo que ela não exista. No debate na TVCOM entre o Renato Flores e a representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP), a doutoranda Martha Narvaz, o que mais me deixou indignado não foram as idéias (estapafúrdias, diga-se de passagem) que ela expressou, mas a atitude relativista politicista dela. Para ela, basicamente, não existe uma verdade absoluta, e sendo assim, ela pode definir qual verdade é melhor, no caso, a que ela gosta mais. Ela não busca uma verdade absoluta, mas uma verdade "estratégica", que sirva aos seus próprios propósitos, ao invés de servir toda a humanidade.
Ainda assim, apesar do relativismo ser abominado pela maior parte dos cientistas, e talvez das pessoas no mundo, ele ainda assim é indispensável. Não este relativismo absurdo, mas um relativismo tolerante: saber que tudo que se acredita pode estar errado, e ao mesmo tempo saber que tudo o que o outro sabe também pode estar errado. Tente viver em qualquer lugar do mundo, com qualquer tipo de pessoa, sempre partindo do pressuposto que você está sempre certo. Se você não for exilado, preso ou linchado será um grande sucesso. É preciso ser relativista, mas de uma forma humilde, que assume o próprio erro, e não arrogantemente considerando-se acima de erros.
Mas é preciso ir além. Tanto na vida cotidiana quanto na ciência, é preciso saber que sua verdade é relativa, imperfeita e limitada, da mesma forma como a verdade das pessoas ao seu redor, mas usá-las, falhas como são, como ponto de partida para buscar uma Verdade maior, mais perfeita e ilimitada. Outro filósofo da ciência, Karl Popper, dizia que precisamos buscar falsear nossos conhecimentos - testá-los de todas as formas possíveis, buscando provar não que são verdadeiros, mas falsos, e, caso eles "sobrevivam", possam ser considerados verdadeiros, até que um conhecimento melhor seja encontrado. Obviamente, não somos capazes de fazer isto o tempo todo, pelos mais diversos motivos, sendo o principal deles que nos apegamos demais à nossa visão de mundo para buscar sua refutação. Mesmo assim, só por que é um ideal não devemos abandoná-lo.
Isto não é um argumento, mas uma defesa detestável, utilizada apenas para defender o próprio ego de ser humilhado por estar errado. É covarde. Há, na história das ciências e da filosofia, pelo menos dois exemplos de "movimentos" relativistas: os sofistas da Grégia Antiga e os pós-modernos atuais. Segundo eles, não existe uma Verdade absoluta, apenas verdades relativas, que podem ser verdadeiras em um lugar, mas falsas em outro. Não sei se existe uma Verdade absoluta - como eu poderia deter a solução para uma pergunta que há séculos atormenta a humanidade? Contudo, acredito que é nossa missão buscá-la sempre, mesmo que ela não exista. No debate na TVCOM entre o Renato Flores e a representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP), a doutoranda Martha Narvaz, o que mais me deixou indignado não foram as idéias (estapafúrdias, diga-se de passagem) que ela expressou, mas a atitude relativista politicista dela. Para ela, basicamente, não existe uma verdade absoluta, e sendo assim, ela pode definir qual verdade é melhor, no caso, a que ela gosta mais. Ela não busca uma verdade absoluta, mas uma verdade "estratégica", que sirva aos seus próprios propósitos, ao invés de servir toda a humanidade.
Ainda assim, apesar do relativismo ser abominado pela maior parte dos cientistas, e talvez das pessoas no mundo, ele ainda assim é indispensável. Não este relativismo absurdo, mas um relativismo tolerante: saber que tudo que se acredita pode estar errado, e ao mesmo tempo saber que tudo o que o outro sabe também pode estar errado. Tente viver em qualquer lugar do mundo, com qualquer tipo de pessoa, sempre partindo do pressuposto que você está sempre certo. Se você não for exilado, preso ou linchado será um grande sucesso. É preciso ser relativista, mas de uma forma humilde, que assume o próprio erro, e não arrogantemente considerando-se acima de erros.
Mas é preciso ir além. Tanto na vida cotidiana quanto na ciência, é preciso saber que sua verdade é relativa, imperfeita e limitada, da mesma forma como a verdade das pessoas ao seu redor, mas usá-las, falhas como são, como ponto de partida para buscar uma Verdade maior, mais perfeita e ilimitada. Outro filósofo da ciência, Karl Popper, dizia que precisamos buscar falsear nossos conhecimentos - testá-los de todas as formas possíveis, buscando provar não que são verdadeiros, mas falsos, e, caso eles "sobrevivam", possam ser considerados verdadeiros, até que um conhecimento melhor seja encontrado. Obviamente, não somos capazes de fazer isto o tempo todo, pelos mais diversos motivos, sendo o principal deles que nos apegamos demais à nossa visão de mundo para buscar sua refutação. Mesmo assim, só por que é um ideal não devemos abandoná-lo.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Ser doutor sem ser médico?
A educação formal no Brasil começa cedo - aos 7 anos os pais são obrigados por lei a colocar seus pimpolhos na escola. Muito antes disso já se começa a perguntar para as crianças o que elas querem ser quando crescerem, mas a partir da primeira série esta questão se torna gradativamente mais importante e presente.
No Ensino Fundamental, ela é feita com alguma freqüência, mas pouca seriedade. Geralmente, quando o professor ou algum outro chato intrometido pergunta para as crianças mais novas com o que elas querem trabalhar, tem como resposta coisas como bombeiro, astronauta, médico (1) ou qualquer outra profissão vistosa - dificilmente as crianças respondem que querem ser psicólogos, nutricionistas ou garis. No Ensino Médio a coisa muda de figura, pois os estudantes estão quase em idade de trabalhar, e esta escolha deverá ser feita muito em breve - na melhor das hipóteses, em 3 anos. Considerando que se espera que os jovens escolham a profissão que praticarão pelo resto de suas vidas, é pouco tempo.
Diante desta escolha, alguns decidem fazer um curso técnico e entrar direto no mercado de trabalho, enquanto outros preferem encarar uma faculdade de 5 anos, aprender um ofício em profundidade, para só então, com um diploma em mãos, procurar emprego. Mas, mesmo entre os que cursam faculdade, há os que preferem continuar estudando por mais tempo ainda, fazendo especializações, mestrados e doutorados. Não sei se dá para dizer que estudantes de graduação em universidades federais são mais propensos a cursarem pós-graduações, mas posso dizer que com certeza eles são muito mais expostos à pesquisa e "produção de conhecimento" do que estudantes de universidades particulares. Também a motivação é diferente para ambos - quem busca estudar em uma federal sabe que, muito provavelmente, vai ter que se dedicar exclusivamente aos estudos antes de começar a trabalhar, ao passo que quem entra em uma particular muitas vezes vai dar prioridade ao trabalho, e cursar só duas ou três disciplinas por semestre e (com sorte) usar o que aprender para melhor seu desempenho profissional. Claro, nem sempre é assim, mas é bem freqüente.
E foi assim comigo. No Ensino Fundamental, não pensava no que queria ser (e se pensava, não era muito sério); no Ensino Médio, eu era obrigado a pensar, por que os professores não paravam de falar no vestibular e como era importante para nossas vidas estudar e entrar para a faculdade para estudar ainda mais. Às vezes, parecia que eles tinham uma visão muito estreita da realidade, pois davam a entender que o único caminho disponível para nós era o Ensino Superior, quando na verdade não é (2). Cheguei no fim do Terceiro Ano querendo cursar Direito. Ainda bem que adiei meu vestibular e fui para os EUA fazer intercâmbio. Isso me deu mais tempo para pensar e chegar à conclusão de que queria fazer Psicologia. Agora, estou no segundo ano da faculdade. Por enquanto, posso me afundar nos livros e estudar feito um condenado sem ter que pagar minhas contas, mas depois que me formar, as coisas mudam de figura. Entre as minhas opções, está fazer mestrado e depois doutorado, além de começar a trabalhar assim que for possível. Sinceramente, por mais que ache que eventualmente engatarei um mestrado, não quero fazer isto logo após terminar a graduação, e muito menos na UFRGS. Adoro este lugar, mas por favor, depois de 5 anos (ou mais) eu quero conhecer outras universidades. Além disso, eu já tive as aulas da pós-graduação, pois a grande maioria dos professores só dá uma aula - o mesmo conteúdo, a mesma entonação de voz e as mesmas piadas (se existirem) foram contadas para todos os seus alunos, tanto de graduação quanto de pós.
Mais do que isso, não quero passar o resto da minha vida dentro da academia, e me tornar como alguns de meus professores, que parecem não saber como as coisas funcionam fora de seu mundo encantado. Talvez um dia eu vire doutor sem fazer Medicina, mas no momento, não consta na minha lista de desejos passar mais 6 anos estudando.
-------
1. "médico da cabeça" é algo perfeitamente plausível de uma criança dizer, mas pode significar tanto psiquiatra quanto psicólogo ou neurologista.
2. Digo isso por experiência própria. Um dia, no colégio, estavam nos oferencendo a oportunidade de fazermos uma prova simulada da Unisinos. Por mais achacados que fossemos para fazer esta porcaria, não era obrigatório, e eu preferi usar minha manhã para correr atrás da papelada para meu intercâmbio (naquela altura do campeonato eu estava alucinado para juntar tudo que precisava em uma semana). Fui no colégio lá pelas 9 horas para pegar a assinatura da diretora, mas acabei sendo levado pela coordenadora pedagógica, Rita, para a sala de aula para fazer o simulado. Pensando nisto agora, me dei conta de como fui tratado como pirralho mesmo tendo 17 anos, mas na época estava tão acostumado com isto que nem me dei conta. O tempo necessário para decidir que não iria fazer a tal prova foi o tempo que levei para sentar na minha carteira e descobrir que o tamanho mínimo da redação eram 60 linhas. Saí da sala quase imediatamente, encontrei a coordenadora pedagógica e a tia do SOE, Leda (vulgarmente conhecida como "Cotonetão" ou "Beavis"), e num arroubo de assertividade, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Tive que ouvir como resposta da Rita que eu deveria estar fazendo o simulado, e não correndo atrás de coisas irrelevantes como "intercâmbios", e da Leda que, se ela fosse minha mãe ela estaria muito preocupada com minhas atitudes (o que não deixa de ser engraçado, já que ela tem seus 60 anos, é solteira, não tem filhos, é provavelmente virgem e provavelmente assim morrerá).
No Ensino Fundamental, ela é feita com alguma freqüência, mas pouca seriedade. Geralmente, quando o professor ou algum outro chato intrometido pergunta para as crianças mais novas com o que elas querem trabalhar, tem como resposta coisas como bombeiro, astronauta, médico (1) ou qualquer outra profissão vistosa - dificilmente as crianças respondem que querem ser psicólogos, nutricionistas ou garis. No Ensino Médio a coisa muda de figura, pois os estudantes estão quase em idade de trabalhar, e esta escolha deverá ser feita muito em breve - na melhor das hipóteses, em 3 anos. Considerando que se espera que os jovens escolham a profissão que praticarão pelo resto de suas vidas, é pouco tempo.
Diante desta escolha, alguns decidem fazer um curso técnico e entrar direto no mercado de trabalho, enquanto outros preferem encarar uma faculdade de 5 anos, aprender um ofício em profundidade, para só então, com um diploma em mãos, procurar emprego. Mas, mesmo entre os que cursam faculdade, há os que preferem continuar estudando por mais tempo ainda, fazendo especializações, mestrados e doutorados. Não sei se dá para dizer que estudantes de graduação em universidades federais são mais propensos a cursarem pós-graduações, mas posso dizer que com certeza eles são muito mais expostos à pesquisa e "produção de conhecimento" do que estudantes de universidades particulares. Também a motivação é diferente para ambos - quem busca estudar em uma federal sabe que, muito provavelmente, vai ter que se dedicar exclusivamente aos estudos antes de começar a trabalhar, ao passo que quem entra em uma particular muitas vezes vai dar prioridade ao trabalho, e cursar só duas ou três disciplinas por semestre e (com sorte) usar o que aprender para melhor seu desempenho profissional. Claro, nem sempre é assim, mas é bem freqüente.
E foi assim comigo. No Ensino Fundamental, não pensava no que queria ser (e se pensava, não era muito sério); no Ensino Médio, eu era obrigado a pensar, por que os professores não paravam de falar no vestibular e como era importante para nossas vidas estudar e entrar para a faculdade para estudar ainda mais. Às vezes, parecia que eles tinham uma visão muito estreita da realidade, pois davam a entender que o único caminho disponível para nós era o Ensino Superior, quando na verdade não é (2). Cheguei no fim do Terceiro Ano querendo cursar Direito. Ainda bem que adiei meu vestibular e fui para os EUA fazer intercâmbio. Isso me deu mais tempo para pensar e chegar à conclusão de que queria fazer Psicologia. Agora, estou no segundo ano da faculdade. Por enquanto, posso me afundar nos livros e estudar feito um condenado sem ter que pagar minhas contas, mas depois que me formar, as coisas mudam de figura. Entre as minhas opções, está fazer mestrado e depois doutorado, além de começar a trabalhar assim que for possível. Sinceramente, por mais que ache que eventualmente engatarei um mestrado, não quero fazer isto logo após terminar a graduação, e muito menos na UFRGS. Adoro este lugar, mas por favor, depois de 5 anos (ou mais) eu quero conhecer outras universidades. Além disso, eu já tive as aulas da pós-graduação, pois a grande maioria dos professores só dá uma aula - o mesmo conteúdo, a mesma entonação de voz e as mesmas piadas (se existirem) foram contadas para todos os seus alunos, tanto de graduação quanto de pós.
Mais do que isso, não quero passar o resto da minha vida dentro da academia, e me tornar como alguns de meus professores, que parecem não saber como as coisas funcionam fora de seu mundo encantado. Talvez um dia eu vire doutor sem fazer Medicina, mas no momento, não consta na minha lista de desejos passar mais 6 anos estudando.
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1. "médico da cabeça" é algo perfeitamente plausível de uma criança dizer, mas pode significar tanto psiquiatra quanto psicólogo ou neurologista.
2. Digo isso por experiência própria. Um dia, no colégio, estavam nos oferencendo a oportunidade de fazermos uma prova simulada da Unisinos. Por mais achacados que fossemos para fazer esta porcaria, não era obrigatório, e eu preferi usar minha manhã para correr atrás da papelada para meu intercâmbio (naquela altura do campeonato eu estava alucinado para juntar tudo que precisava em uma semana). Fui no colégio lá pelas 9 horas para pegar a assinatura da diretora, mas acabei sendo levado pela coordenadora pedagógica, Rita, para a sala de aula para fazer o simulado. Pensando nisto agora, me dei conta de como fui tratado como pirralho mesmo tendo 17 anos, mas na época estava tão acostumado com isto que nem me dei conta. O tempo necessário para decidir que não iria fazer a tal prova foi o tempo que levei para sentar na minha carteira e descobrir que o tamanho mínimo da redação eram 60 linhas. Saí da sala quase imediatamente, encontrei a coordenadora pedagógica e a tia do SOE, Leda (vulgarmente conhecida como "Cotonetão" ou "Beavis"), e num arroubo de assertividade, pedi mais uma vez para falar com a diretora. Tive que ouvir como resposta da Rita que eu deveria estar fazendo o simulado, e não correndo atrás de coisas irrelevantes como "intercâmbios", e da Leda que, se ela fosse minha mãe ela estaria muito preocupada com minhas atitudes (o que não deixa de ser engraçado, já que ela tem seus 60 anos, é solteira, não tem filhos, é provavelmente virgem e provavelmente assim morrerá).
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Em Busca da Liberdade
Biologicamente, não somos livres. É uma frase impactante, que choca quase todos os que a lêem. Entretanto, qualquer neurocientista ou pessoa que entenda um pouco mais sobre o assunto a encararia como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. E de fato, somos biologicamente determinados - temos sobre nossos ombros o peso de milhões de anos de evolução, passados em mundo material com leis físicas invariáveis e constantes, que determinaram nossos polegares, nossos neurônios, nossos instintos e nossos comportamentos reflexos. Nesses milhões de anos, nossos ancestrais passaram a maior parte de seu tempo em ambientes selvagens, como florestas e estepes, e fazem apenas 3 ou 4 mil anos que nos estabelecemos em cidades. Podemos ter deixado o mundo selvagem, mas o mundo selvagem não nos deixou: ainda somos animais, macacos pelados com mania de grandeza. Além disso, mesmo na dita "civilização", nossas atitudes são fortemente influenciadas por nosso ambiente, tanto físico e social, ou, como Skinner chamou, pelas contingências e metacontingências de reforçamento.
Entre todos estes determinantes físicos, biológicos e sociais, sobra pouco espaço para fazermos algo realmente espontâneo, verdadeiramente nosso. Quase não somos livres, e há quem diga que não somos livres em absoluto. A Ciência já nos deu muitas provas de que vivemos presos em nossos corpos, mas não é preciso abrir uma revista especializada em Neurobiologia para chegarmos a esta conclusão. Basta olharmos em nossa volta, para todos os que nos cercam e para nós mesmos. Quantas vezes não pensamos apenas em nós mesmos e ignoramos todo o resto? Quantas vezes agimos egoisticamente, mesmo sabendo que poderíamos ter sido nobres? Um psicólogo evolucionista diria que isto é absolutamente normal, pois a mãe natureza nos ensinou a lutarmos primeiro por nossas vidas e depois pela dos outros - mesmo a vida social é um reflexo disto, pois a chance de sobrevivência é muito maior em grupos grandes. Por que, então, ainda insistimos nesse mito que é a liberdade? Por que, mesmo golpe após golpe da Física, da Biologia, da Sociologia e da Psicologia, ela ainda se sustenta em seus leves fios metafísicos?
Paradoxalmente, mesmo com todas estas evidências contrárias, ainda nos apegamos ferrenhamente ao nosso ideal de liberdade, ou melhor dizendo, parece que, a cada artigo de neurociência que sai reforçando nosso determinismo, mais nos aferramos ao ideal de liberdade. E, mais paradoxalmente ainda, é esse ideal, talvez miragem, que nos faz melhores. Pesquisas científicas mostraram que é justamente quando não se acredita em livre arbítrio que mais se trapaceia e mente. Quando somos levados a crer que não há escolha, agimos da forma que somos esperados - em benefício próprio, mesmo que em detrimento dos demais. Mas ao contrário, se nos é dada a opção, se nos é mostrado que podemos ser diferentes, escolhemos por sermos o melhor que podemos ser. E se os neurocientistas têm descoberto cada vez mais evidências de nossa escravidão, os clínicos - médicos, psicólogos, enfermeiros e todo e qualquer profissional que trabalhe diretamente com seres humanos - têm feito justamente o contrário, estimulando que seus pacientes e clientes busquem cada vez mais sua própria autonomia. Surpreendentemente, tem dado certo!
Seria isso uma ilusão? Um condicionamento operante mui sofisticado que a natureza desenvolveu? Não sei. Apenas acredito que é muito mais do que isso. Podemos ter toda a história em nossas costas, tanto da humanidade inteira quanto nossa própria, guiando nossos passos e os determinando, mas sempre podemos agir de uma forma completamente diferente, indo contra tudo que nossos genes e nossas famílias dizem. O passado é imutável, e deixa uma marca indelével em nós, e o futuro existe apenas em sonhos. Mas o presente, o aqui e agora existe - é a folha em branco do livro de nossas vidas que encaramos agora, e que espera para ser preenchida. É nesse vazio, onde nenhuma escolha foi feita ainda, que reside nossa fugidia liberdade.
Talvez isto que chamo de liberdade não seja liberdade verdadeira, apenas o começo da trilha que nos leva até ela. Talvez não estejamos prontos para saber o que realmente é ser livre, e devemos primeiro caminhar uma longa jornada presos em nossos corpos, instintos e preconceitos, e gradativamente nos libertamos de seus grilhões - não digo abandoná-los, mas nos tornarmos capazes de fazer o que queremos e o que devemos com sua ajuda, e não apesar deles como ocorre agora. Há na internet um vídeo curta-metragem bem famoso, chamado Dance, Monkeys, Dance. Em poucas palavras, é um documentário sobre a raça humana, feito nos mesmos moldes dos tantos documentários que fizemos sobre outros animais - com um ar de superioridade e prepotência, pois, afinal, somos só macacos. Foi isso que o professor de Genética disse em nossa primeira aula: não passamos de macacos. E, realmente, como esquecemos que somos animais e fingimos que somos superiores, apenas para cometer crimes que chimpanzés não cometeriam? Mas não posso concordar com o professor. Não em tudo, pelo menos.
A maioria das pessoas que assistem ao vídeo prestam atenção apenas no fato que o narrador nos chama repetidamente de macacos (posso apostar que muitos que assistiram a este vídeo devem ter se sentido profundamente ofendidos e/ou humilhados), e como agimos de forma imbecil e mesquinha ao longo de nossa história, e deixam passar uma pequena frase, que considero a mais importante de todas: "os macacos têm tanto potencial, se apenas eles se aplicassem". Este é um dos motivos mais fortes que me mantém cursando Psicologia - por que eu sinceramente acredito que podemos ser mais do que somos. Por este motivo, não acho que sejamos só macacos. Considero um erro acreditar que somos superiores aos outros animais, mas ao invés de dizer que somos "só macacos", prefiro dizer que os demais animais não são "só bichos". Cachorros são mais do que criaturas de 4 patas que babam no carpete e correm atrás de carros, assim como gatos não são só auto-lambedores eficientes. Somos todos seres vivos, dignos de respeito e capazes de crescer, aqui e agora, neste mundo, bastando apenas nos dedicarmos.
Entre todos estes determinantes físicos, biológicos e sociais, sobra pouco espaço para fazermos algo realmente espontâneo, verdadeiramente nosso. Quase não somos livres, e há quem diga que não somos livres em absoluto. A Ciência já nos deu muitas provas de que vivemos presos em nossos corpos, mas não é preciso abrir uma revista especializada em Neurobiologia para chegarmos a esta conclusão. Basta olharmos em nossa volta, para todos os que nos cercam e para nós mesmos. Quantas vezes não pensamos apenas em nós mesmos e ignoramos todo o resto? Quantas vezes agimos egoisticamente, mesmo sabendo que poderíamos ter sido nobres? Um psicólogo evolucionista diria que isto é absolutamente normal, pois a mãe natureza nos ensinou a lutarmos primeiro por nossas vidas e depois pela dos outros - mesmo a vida social é um reflexo disto, pois a chance de sobrevivência é muito maior em grupos grandes. Por que, então, ainda insistimos nesse mito que é a liberdade? Por que, mesmo golpe após golpe da Física, da Biologia, da Sociologia e da Psicologia, ela ainda se sustenta em seus leves fios metafísicos?
Paradoxalmente, mesmo com todas estas evidências contrárias, ainda nos apegamos ferrenhamente ao nosso ideal de liberdade, ou melhor dizendo, parece que, a cada artigo de neurociência que sai reforçando nosso determinismo, mais nos aferramos ao ideal de liberdade. E, mais paradoxalmente ainda, é esse ideal, talvez miragem, que nos faz melhores. Pesquisas científicas mostraram que é justamente quando não se acredita em livre arbítrio que mais se trapaceia e mente. Quando somos levados a crer que não há escolha, agimos da forma que somos esperados - em benefício próprio, mesmo que em detrimento dos demais. Mas ao contrário, se nos é dada a opção, se nos é mostrado que podemos ser diferentes, escolhemos por sermos o melhor que podemos ser. E se os neurocientistas têm descoberto cada vez mais evidências de nossa escravidão, os clínicos - médicos, psicólogos, enfermeiros e todo e qualquer profissional que trabalhe diretamente com seres humanos - têm feito justamente o contrário, estimulando que seus pacientes e clientes busquem cada vez mais sua própria autonomia. Surpreendentemente, tem dado certo!
Seria isso uma ilusão? Um condicionamento operante mui sofisticado que a natureza desenvolveu? Não sei. Apenas acredito que é muito mais do que isso. Podemos ter toda a história em nossas costas, tanto da humanidade inteira quanto nossa própria, guiando nossos passos e os determinando, mas sempre podemos agir de uma forma completamente diferente, indo contra tudo que nossos genes e nossas famílias dizem. O passado é imutável, e deixa uma marca indelével em nós, e o futuro existe apenas em sonhos. Mas o presente, o aqui e agora existe - é a folha em branco do livro de nossas vidas que encaramos agora, e que espera para ser preenchida. É nesse vazio, onde nenhuma escolha foi feita ainda, que reside nossa fugidia liberdade.
Talvez isto que chamo de liberdade não seja liberdade verdadeira, apenas o começo da trilha que nos leva até ela. Talvez não estejamos prontos para saber o que realmente é ser livre, e devemos primeiro caminhar uma longa jornada presos em nossos corpos, instintos e preconceitos, e gradativamente nos libertamos de seus grilhões - não digo abandoná-los, mas nos tornarmos capazes de fazer o que queremos e o que devemos com sua ajuda, e não apesar deles como ocorre agora. Há na internet um vídeo curta-metragem bem famoso, chamado Dance, Monkeys, Dance. Em poucas palavras, é um documentário sobre a raça humana, feito nos mesmos moldes dos tantos documentários que fizemos sobre outros animais - com um ar de superioridade e prepotência, pois, afinal, somos só macacos. Foi isso que o professor de Genética disse em nossa primeira aula: não passamos de macacos. E, realmente, como esquecemos que somos animais e fingimos que somos superiores, apenas para cometer crimes que chimpanzés não cometeriam? Mas não posso concordar com o professor. Não em tudo, pelo menos.
A maioria das pessoas que assistem ao vídeo prestam atenção apenas no fato que o narrador nos chama repetidamente de macacos (posso apostar que muitos que assistiram a este vídeo devem ter se sentido profundamente ofendidos e/ou humilhados), e como agimos de forma imbecil e mesquinha ao longo de nossa história, e deixam passar uma pequena frase, que considero a mais importante de todas: "os macacos têm tanto potencial, se apenas eles se aplicassem". Este é um dos motivos mais fortes que me mantém cursando Psicologia - por que eu sinceramente acredito que podemos ser mais do que somos. Por este motivo, não acho que sejamos só macacos. Considero um erro acreditar que somos superiores aos outros animais, mas ao invés de dizer que somos "só macacos", prefiro dizer que os demais animais não são "só bichos". Cachorros são mais do que criaturas de 4 patas que babam no carpete e correm atrás de carros, assim como gatos não são só auto-lambedores eficientes. Somos todos seres vivos, dignos de respeito e capazes de crescer, aqui e agora, neste mundo, bastando apenas nos dedicarmos.
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Dias de Paz, Dias de Luta
Terça-feira fui de manhã para a faculdade para conversar com a professora de Psicologia Humanista, por causa de todos os perrengues burocráticos que tive que enfrentar para cursar uma eletiva. Chegando lá, entrei na sala onde a aula estava acontecendo, e descobri que, ao contrário do que imaginara, um número considerável de pessoas, alguns deles meus colegas, haviam se matriculado nela. Eu achava que ninguém iria se interessar pelo assunto. Mas se interessaram. A professora olhou para mim e disse "olha só, teu esforço deu frutos". Lembrei-me então que fizera grande esforço para que esta eletiva saísse. Senti um certo orgulho por isso, por ter feito algo bom para meus colegas.
Pensando nisto, lembrei de outras coisas que posso fazer e que são meu dever. Até semestre passado, eu era um participante ativo do Diretório Acadêmico, o DAP, mas por muitos motivos, acabei me desiludindo e deixando ele de lado. Mas eu ainda estou envolvido com ele, com o Psiu e com a comissão de estágios. Lembrei como, apesar de frustrantes, estas duas atividades com as quais me envolvi são importantes, não para mim, mas para todos os estudantes de Psicologia da UFRGS. Isso me deu um ânimo novo para continuar lutando por elas.
Pensando nisto, lembrei de outras coisas que posso fazer e que são meu dever. Até semestre passado, eu era um participante ativo do Diretório Acadêmico, o DAP, mas por muitos motivos, acabei me desiludindo e deixando ele de lado. Mas eu ainda estou envolvido com ele, com o Psiu e com a comissão de estágios. Lembrei como, apesar de frustrantes, estas duas atividades com as quais me envolvi são importantes, não para mim, mas para todos os estudantes de Psicologia da UFRGS. Isso me deu um ânimo novo para continuar lutando por elas.
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E hoje é dia 08/08/08! Sabem o que significa? Nada*. Mas é bonito para um obsessivo como eu.
*Talvez Jung discordasse de mim, dizendo que hoje é um dia especialmente simbólico, por ter um número pleno como o 8 repetido três vezes, significando que hoje seja um dia de especial poder, mas deixa para lá.
*Talvez Jung discordasse de mim, dizendo que hoje é um dia especialmente simbólico, por ter um número pleno como o 8 repetido três vezes, significando que hoje seja um dia de especial poder, mas deixa para lá.
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Algumas impressões do semestre letivo e da faculdade como um todo
Este semestre, por ser mais calmo que os anteriores, dá muita margem para reflexão despreocupada (além de vadiagem e delírios bizarros). Somos a primeira turma do currículo novo de Psicologia da UFRGS, e portanto, nosso destino está largamente indeterminado, pelo menos se comparado com nossos veteranos. Segundo eles, o currículo antigo é um lixo, com um excesso de carga horária e extremamente cansativo, além de ser extremamente influenciado pela politicagem interdepartamentos, que representam mais do que divisões burocráticas do Instituto, mas epistemologias e visões de mundo radicalmente diferentes e até mesmo antagônicas. Já falei um pouco a respeito deste assunto em um post anterior. No primeiro ano, as aulas eram todas dadas pelo departamento 01, mais cientificista, ao passo que o segundo e terceiro anos eram dados pelos departamento 02 e 03, respectivamente, ditos mais "humanistas" e respeitadores da subjetividade humana. Não vou entrar em detalhes aqui sobre este assunto, por ser complexo demais. Basta dizer que, quem gosta de ciência sofria bastante com este currículo.
Nosso currículo, ao contrário, não é divido em blocos, pois temos disciplinas de todos os departamentos ao mesmo tempo, e somos expostos simultaneamente a todas as linhas teóricas presentes no Instituto de Psicologia. Ao contrário de nossos veteranos, não somos conduzidos de forma tão determinista a seguir as ideologias dos departamentos 02 e 03, pois podemos julgar todas elas ao mesmo tempo, e decidir por nós mesmos o que mais nos agrada. De certa forma, é mais honesto. Contudo, não posso afirmar com certeza que será sempre assim. Somos a primeira turma, e portanto somos um caso atípico. Não será possível generalizar nossa experiência para as turmas ainda por vir. O mesmo vale para a turma dos nossos bixos, pois o currículo levará pelo menos mais três anos para se consolidar (às nossas custas, diga-se de passagem).
Quero, ainda assim, fazer uma análise global da nossa experiência na faculdade. É possível notar um padrão de desânimo em nós todo santo semestre, com a exceção do primeiro, quando ainda não conhecíamos nada da UFRGS e da Psicologia. Não sei se isto se deve mais às características de nossa turma do que do curso em si, mas a principal diferenciação que fazemos entre os semestres é o cansaço que nos causam. O primeiro semestre foi cansativo por sermos novos, o segundo semestre foi mais tranqüilo e o terceiro foi extremamente exaustivo. Mas todas as disciplinas obrigatórias a partir do segundo semestre foram muito criticadas por nós. Provavelmente estou exagerando e peço para que o eventual colega que ler isto aqui me corrija, mas ao reler por cima o que escrevi sobre os semestres anteriores, ficou claro que os elogios eram escassos. Por outro lado, as disciplinas eletivas foram extramente bem aproveitadas e elogiadas, pelo menos as que eu fiz. Claro, as eletivas são qualitativamente diferentes das obrigatórias por poderem ser escolhidas por nós mesmos, e terem um gostinho de liberdade.
Este semestre não está sendo muito diferente: as aulas obrigatórias são chatas, apesar de leves, e as eletivas salvam o dia (especialmente no meu caso, que tive a felicidade de escolher as três mais fantásticas). Mais uma vez, digo que não sei se isto é uma característica do currículo, da nossa turma, do Instituto ou da Psicologia como um todo. Mas fico pensando se não seria melhor não ter currículo nenhum e deixar inteiramente por nossa conta as escolhas das disciplinas.
Nosso currículo, ao contrário, não é divido em blocos, pois temos disciplinas de todos os departamentos ao mesmo tempo, e somos expostos simultaneamente a todas as linhas teóricas presentes no Instituto de Psicologia. Ao contrário de nossos veteranos, não somos conduzidos de forma tão determinista a seguir as ideologias dos departamentos 02 e 03, pois podemos julgar todas elas ao mesmo tempo, e decidir por nós mesmos o que mais nos agrada. De certa forma, é mais honesto. Contudo, não posso afirmar com certeza que será sempre assim. Somos a primeira turma, e portanto somos um caso atípico. Não será possível generalizar nossa experiência para as turmas ainda por vir. O mesmo vale para a turma dos nossos bixos, pois o currículo levará pelo menos mais três anos para se consolidar (às nossas custas, diga-se de passagem).
Quero, ainda assim, fazer uma análise global da nossa experiência na faculdade. É possível notar um padrão de desânimo em nós todo santo semestre, com a exceção do primeiro, quando ainda não conhecíamos nada da UFRGS e da Psicologia. Não sei se isto se deve mais às características de nossa turma do que do curso em si, mas a principal diferenciação que fazemos entre os semestres é o cansaço que nos causam. O primeiro semestre foi cansativo por sermos novos, o segundo semestre foi mais tranqüilo e o terceiro foi extremamente exaustivo. Mas todas as disciplinas obrigatórias a partir do segundo semestre foram muito criticadas por nós. Provavelmente estou exagerando e peço para que o eventual colega que ler isto aqui me corrija, mas ao reler por cima o que escrevi sobre os semestres anteriores, ficou claro que os elogios eram escassos. Por outro lado, as disciplinas eletivas foram extramente bem aproveitadas e elogiadas, pelo menos as que eu fiz. Claro, as eletivas são qualitativamente diferentes das obrigatórias por poderem ser escolhidas por nós mesmos, e terem um gostinho de liberdade.
Este semestre não está sendo muito diferente: as aulas obrigatórias são chatas, apesar de leves, e as eletivas salvam o dia (especialmente no meu caso, que tive a felicidade de escolher as três mais fantásticas). Mais uma vez, digo que não sei se isto é uma característica do currículo, da nossa turma, do Instituto ou da Psicologia como um todo. Mas fico pensando se não seria melhor não ter currículo nenhum e deixar inteiramente por nossa conta as escolhas das disciplinas.
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Minhas Aulas na Faculdade (Parte 10)
E finalmente, acabou minha primeira semana de aula! Como não tenho absolutamente aula nenhuma na sexta-feira, tenho um dia inteiro para ler os textos recomendados, treinar Kung Fu e escrever abobrinhas para o blog. Como prometido, farei um exercício de previsão do futuro, e dizer, baseado nas minhas impressões iniciais, o que acho que vai ser das disciplinas que estou cursando.
Quarto Semestre
Avaliação Psicológica - Obrigatória
Review:
Não teremos tantas aulas assim com o professor da prova de 10 anos atrás, já que outra professora titular e uma doutoranda irão dar aulas também. Minhas expectativas continuam baixas, e repito o que disse no outro post: o assunto é interessante, mas eu provavelmente não vou aprender muita coisa nas aulas, e sim nas minhas leituras.
Ética - Obrigatória
Review:
Não foi um bom começo. Parece que vamos ter mais um semestre de Psicologia Social II, apenas com um nome diferente. Mas preciso ser justo, os trabalhos propostos pela professora parecem ser interessantes.
Psicopatologia II - Obrigatória
Review:
Meus colegas entraram em desespero quando perceberam, pelos slides e pelo o que a professora falava, que teríamos outra cadeira repetida - Psicopatologia I. Eu, estóico que sou, não me mixei, e continuei a escrever letrinhas sem fim com a mão esquerda (e conversar com ela quando cansava, mas isso não vem ao caso). Pelo o que a professora falou, teremos, mais uma vez dois trabalhos, o primeiro sobre perversão, e o segundo sobre neurose e, como semestre passado, teremos liberdade para escolher tanto o assunto quanto a orientação teórica que nos agrade. Isso muito me agrada. Outra coisa que me agrada é que, apesar de ser uma cadeira de quatro créditos, temos apenas dois créditos de aula presencial. Os outros dois são para leitura. Em termos práticos, isto significa que ao invés de termos aula até às 17 horas, temos aula só até às 15h!
Psicologia e Educação - Obrigatória
Review:
Educação é um assunto interessante, mas nunca me cativou realmente. Ainda assim, apesar da minha indiferença inicial, acredito que esta será uma disciplina interessante, pois a professora é democrática e interessada no nosso aprendizado. Além disso, ela cobra presença, o que me obriga a gostar mais das aulas dela.
Neuropsicologia - Eletiva
Review:
Na primeira aula, descobri que, como a professora não esperava que muitas pessoas se matriculassem, ela decidiu que serviria como um fórum para seu grupo de pesquisa se reunir e discutir assuntos relacionados à suas pesquisas (as deles, não as suas, leitor), no momento mais focadas sobre memória. Mas como 16 pessoas decidiram cursar esta disciplina, e como quase nenhuma destas 16 entende tanto assim de Neuropsicologia, a professora decidiu dar uma geralzona na matéria antes de se aprofundar em memória. Ao longo da disciplina, vamos realizar uma pesquisa sobre memória (dã!) em idosos, e todos vão ser envolvidos na coleta de dados e, provavelmente, na interpretação deles. Acredito que venha a ser uma excelente experiência fazer isto, apesar de provavelmente cansativo.
Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos - Eletiva
Review:
A professora, uma mestranda orientada pela mesma regente de Neuropsicologia, trabalha na clínica de atendimento neuropsicológico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o único serviço público da cidade deste caráter, e entende bastante do assunto. As aulas serão em formato de seminário: leremos muitos artigos em casa sobre algumas doenças específicas e discutiremos em aula (a primeira aula deste tipo será sobre esquizofrenia). Já estou com os artigos em mãos, e devo confessar que não consegui nem ao menos entender o título de alguns deles. Contudo, gosto de um desafio, coisa que esta cadeira parece ser.
Genética Aplicada à Psicologia - Eletiva
Review:
Candidata à melhor disciplina do semestre, e talvez do curso inteiro. Apesar de eu ter xingado ostensivamente quase todas as disciplinas que tive até o momento, isto não tira nenhum dos méritos de Genética. Primeiro, as aulas são no Campus do Vale, e eu adoro o Vale por ser um lugar distante do feudo intelectual do Instituto de Psicologia, e muito mais diversificado que este. Segundo, ao contrário do que o nome indica, as aulas não serão apenas sobre genética, mas sobre Neurociências em geral - eu tenho procurado uma disciplina deste tipo há algum tempo. E, terceiro, o professor Renato Flores é o cara. Ele sabe o que fala, e apesar de discordar de muitas de suas opiniões, simpatizei com ele por sua sinceridade e entusiasmo ao dar aula. Comecei a gostar dele logo nos primeiros minutos de aula, quando ele disse que não fazia chamada, pois "se tu ficares lendo 4 horas em casa, tu aprendes muito mais do que aprenderia em uma aula". Passar nesta cadeira não vai ser bolinho, pois além da prova, teremos que acompanhar um caso clínico de um paciente com algum tipo de doença genética (preferencialmente sem transtorno mental). O professor nos deixou livres para escolhermos algum paciente de estágio ou conhecido nosso, e, caso não conhecessemos ninguém que se enquadre nestes parâmetros, ele escolheria um dos pacientes do ambulatório dele. E, como ele mesmo disse, se ele tiver que escolher, vai ser do "horrível ao muito complicado", desde crianças em estado terminal, passando por deformações corporais tenebrosas até casos tantalizantemente insolúveis. E nós não vamos só ficar descrevendo o caso, mas vamos ter participação ativa na anamnese, diagnóstico e até tratamento! Como disse meu colega João "tô vendo que ele vai escolher uma criancinha terminal pra eu acompanhar, e eu vou ficar chorando pelos cantos por isso". Em suma, a disciplina de Genética vai ser a coisa mais próxima de um episódio de "House M.D." que vamos viver, por que, além de tudo isso, o Flores é médico, é pirado ("precisa de um exame neurológico? A gente consegue!") e tem uma deformidade corporal que chama a atenção, no caso, paralisia de metade da face. Em suma, a cadeira mais desafiadora e estimulante que tive até agora. Vou me dedicar de corpo e alma para tirar um A.
Quarto Semestre
Avaliação Psicológica - Obrigatória
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Não teremos tantas aulas assim com o professor da prova de 10 anos atrás, já que outra professora titular e uma doutoranda irão dar aulas também. Minhas expectativas continuam baixas, e repito o que disse no outro post: o assunto é interessante, mas eu provavelmente não vou aprender muita coisa nas aulas, e sim nas minhas leituras.
Ética - Obrigatória
Review:
Não foi um bom começo. Parece que vamos ter mais um semestre de Psicologia Social II, apenas com um nome diferente. Mas preciso ser justo, os trabalhos propostos pela professora parecem ser interessantes.
Psicopatologia II - Obrigatória
Review:
Meus colegas entraram em desespero quando perceberam, pelos slides e pelo o que a professora falava, que teríamos outra cadeira repetida - Psicopatologia I. Eu, estóico que sou, não me mixei, e continuei a escrever letrinhas sem fim com a mão esquerda (e conversar com ela quando cansava, mas isso não vem ao caso). Pelo o que a professora falou, teremos, mais uma vez dois trabalhos, o primeiro sobre perversão, e o segundo sobre neurose e, como semestre passado, teremos liberdade para escolher tanto o assunto quanto a orientação teórica que nos agrade. Isso muito me agrada. Outra coisa que me agrada é que, apesar de ser uma cadeira de quatro créditos, temos apenas dois créditos de aula presencial. Os outros dois são para leitura. Em termos práticos, isto significa que ao invés de termos aula até às 17 horas, temos aula só até às 15h!
Psicologia e Educação - Obrigatória
Review:
Educação é um assunto interessante, mas nunca me cativou realmente. Ainda assim, apesar da minha indiferença inicial, acredito que esta será uma disciplina interessante, pois a professora é democrática e interessada no nosso aprendizado. Além disso, ela cobra presença, o que me obriga a gostar mais das aulas dela.
Neuropsicologia - Eletiva
Review:
Na primeira aula, descobri que, como a professora não esperava que muitas pessoas se matriculassem, ela decidiu que serviria como um fórum para seu grupo de pesquisa se reunir e discutir assuntos relacionados à suas pesquisas (as deles, não as suas, leitor), no momento mais focadas sobre memória. Mas como 16 pessoas decidiram cursar esta disciplina, e como quase nenhuma destas 16 entende tanto assim de Neuropsicologia, a professora decidiu dar uma geralzona na matéria antes de se aprofundar em memória. Ao longo da disciplina, vamos realizar uma pesquisa sobre memória (dã!) em idosos, e todos vão ser envolvidos na coleta de dados e, provavelmente, na interpretação deles. Acredito que venha a ser uma excelente experiência fazer isto, apesar de provavelmente cansativo.
Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos - Eletiva
Review:
A professora, uma mestranda orientada pela mesma regente de Neuropsicologia, trabalha na clínica de atendimento neuropsicológico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o único serviço público da cidade deste caráter, e entende bastante do assunto. As aulas serão em formato de seminário: leremos muitos artigos em casa sobre algumas doenças específicas e discutiremos em aula (a primeira aula deste tipo será sobre esquizofrenia). Já estou com os artigos em mãos, e devo confessar que não consegui nem ao menos entender o título de alguns deles. Contudo, gosto de um desafio, coisa que esta cadeira parece ser.
Genética Aplicada à Psicologia - Eletiva
Review:
Candidata à melhor disciplina do semestre, e talvez do curso inteiro. Apesar de eu ter xingado ostensivamente quase todas as disciplinas que tive até o momento, isto não tira nenhum dos méritos de Genética. Primeiro, as aulas são no Campus do Vale, e eu adoro o Vale por ser um lugar distante do feudo intelectual do Instituto de Psicologia, e muito mais diversificado que este. Segundo, ao contrário do que o nome indica, as aulas não serão apenas sobre genética, mas sobre Neurociências em geral - eu tenho procurado uma disciplina deste tipo há algum tempo. E, terceiro, o professor Renato Flores é o cara. Ele sabe o que fala, e apesar de discordar de muitas de suas opiniões, simpatizei com ele por sua sinceridade e entusiasmo ao dar aula. Comecei a gostar dele logo nos primeiros minutos de aula, quando ele disse que não fazia chamada, pois "se tu ficares lendo 4 horas em casa, tu aprendes muito mais do que aprenderia em uma aula". Passar nesta cadeira não vai ser bolinho, pois além da prova, teremos que acompanhar um caso clínico de um paciente com algum tipo de doença genética (preferencialmente sem transtorno mental). O professor nos deixou livres para escolhermos algum paciente de estágio ou conhecido nosso, e, caso não conhecessemos ninguém que se enquadre nestes parâmetros, ele escolheria um dos pacientes do ambulatório dele. E, como ele mesmo disse, se ele tiver que escolher, vai ser do "horrível ao muito complicado", desde crianças em estado terminal, passando por deformações corporais tenebrosas até casos tantalizantemente insolúveis. E nós não vamos só ficar descrevendo o caso, mas vamos ter participação ativa na anamnese, diagnóstico e até tratamento! Como disse meu colega João "tô vendo que ele vai escolher uma criancinha terminal pra eu acompanhar, e eu vou ficar chorando pelos cantos por isso". Em suma, a disciplina de Genética vai ser a coisa mais próxima de um episódio de "House M.D." que vamos viver, por que, além de tudo isso, o Flores é médico, é pirado ("precisa de um exame neurológico? A gente consegue!") e tem uma deformidade corporal que chama a atenção, no caso, paralisia de metade da face. Em suma, a cadeira mais desafiadora e estimulante que tive até agora. Vou me dedicar de corpo e alma para tirar um A.
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Paciência
Este semestre letivo será muito tranqüilo em termos de carga horária, pois além de estar cursando apenas 7 disciplinas, algumas delas terminarão mais cedo do que consta na grade de horários. Contudo, há um problema: tirando as eletivas, todas as cadeiras obrigatórias que tive até agora foram profundamente chatas. Em outros tempos, eu simplesmente sairia de aula, dormiria ou tentaria prestar atenção, para só então cair em sono profundo. Agora, estou desenvolvendo novas estratégias de coping... coping with fucking boring classes.
Não quero sair de aula nem dormir pois são estratégias ineficientes, pois posso perder informações importantes, e ainda queimar meu filme com o professor. Oh sim, já aconteceu anteriormente. Mas prestar atenção, pegar meu caderno e ficar escrevendo o que o PhD fica dizendo na frente do quadro negro não é uma opção digna. Tive que optar por um meio termo.
Já aprendi que, se não ficar fazendo alguma coisa, eu lentamente curvarei minhas costas, até que minha cabeça alcance a carteira e eu caia em sono profundo. Na primeira aula da semana, Ética, eu fiquei desenhando. Rabiscos aleatórios. Na segunda aula, Avaliação Psicológica, não tinha nada em mãos para me distrair, então fiquei balançando meu corpo para a frente e para trás, como um bom autista faria. Hoje, fiquei fazendo caligrafia com a mão esquerda. Escrevi todas as letras do alfabeto ad nauseam e alguns números. Sinceramente, acredito que até o final do semestre serei um exímio desenhista ambidestro.
Provavelmente serei abusado verbalmente por causa deste post, e serei chamado de "desrespeitoso", "inconseqüente" e "vagabundo". Mas em minha defesa, digo que estou em aula e ouvindo o que a professora diz. Apenas não dou a menor importância. De agora em diante, aulas obrigatórias são exercícios de paciência onde escuto recados.
Não quero sair de aula nem dormir pois são estratégias ineficientes, pois posso perder informações importantes, e ainda queimar meu filme com o professor. Oh sim, já aconteceu anteriormente. Mas prestar atenção, pegar meu caderno e ficar escrevendo o que o PhD fica dizendo na frente do quadro negro não é uma opção digna. Tive que optar por um meio termo.
Já aprendi que, se não ficar fazendo alguma coisa, eu lentamente curvarei minhas costas, até que minha cabeça alcance a carteira e eu caia em sono profundo. Na primeira aula da semana, Ética, eu fiquei desenhando. Rabiscos aleatórios. Na segunda aula, Avaliação Psicológica, não tinha nada em mãos para me distrair, então fiquei balançando meu corpo para a frente e para trás, como um bom autista faria. Hoje, fiquei fazendo caligrafia com a mão esquerda. Escrevi todas as letras do alfabeto ad nauseam e alguns números. Sinceramente, acredito que até o final do semestre serei um exímio desenhista ambidestro.
Provavelmente serei abusado verbalmente por causa deste post, e serei chamado de "desrespeitoso", "inconseqüente" e "vagabundo". Mas em minha defesa, digo que estou em aula e ouvindo o que a professora diz. Apenas não dou a menor importância. De agora em diante, aulas obrigatórias são exercícios de paciência onde escuto recados.
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terça-feira, 5 de agosto de 2008
Minhas Aulas na Faculdade (Parte 9)
E começaram minhas aulas hoje. Não posso dizer que sempre amei as salas de aula, mas hoje fiquei entediado em tempo recorde - menos de 5 minutos e já queria explodir alguma coisa. Só via três alternativas: sair da sala, dormir ou prestar atenção. A primeira alternativa era desrespeitosa demais para ser usada tão cedo no semestre, não estava com sono para usar a segunda e a aula não era digna o suficiente do meu interesse. Fiquei rabiscando uma folha para me manter acordado e ouvindo a professora, mesmo que de leve e, no intervalo, peguei um livro em casa.
Em todo caso, será um semestre leve, já que vou cursar apenas 7 cadeiras, sendo 3 dessas eletivas. Vou ter bastante tempo para ler e para treinar. No final desta semana, pretendo fazer um post sobre minhas expectativas para este semestre, baseado nas primeiras aulas. Até o momento, ele promete ser um excelente exercício de paciência.
Em todo caso, será um semestre leve, já que vou cursar apenas 7 cadeiras, sendo 3 dessas eletivas. Vou ter bastante tempo para ler e para treinar. No final desta semana, pretendo fazer um post sobre minhas expectativas para este semestre, baseado nas primeiras aulas. Até o momento, ele promete ser um excelente exercício de paciência.
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