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segunda-feira, 2 de maio de 2011

As Dimensões da Personalidade

Podemos fazer piada a respeito dos psicólogos e como eles estão sempre analisando os outros e emitindo diagnósticos, mas o fato é que todas as pessoas fazem a mesma coisa - elas coletam informações, julgam e tiram uma conclusão a respeito dos outros. A diferença dos psicólogos é que eles ativamente procuram ferramentas de avaliação mais eficazes do que o senso comum normalmente utilizado. Isso é "teorização" - a criação de teorias. De certa forma, o senso comum é a teoria que surgiu da experiência das pessoas normais, e da compilação dos dados coletados por estas ao longo de várias e várias gerações. Até certo ponto, ele é útil e nos ajuda a nos guiarmos pela sociedade, e até mesmo a nos mantermos vivos. Porém, o senso comum perde grande parte de sua validade em questões mais finas, onde é necessário maior critério de observação do que a sua avó percebeu quando passou de ônibus no bairro pobre da cidade.

E é aqui que entram os psicólogos, sociólogos, antropólogos e outros cientistas envolvidos no estudo do comportamento humano: nós desenvolvemos modelos conceituais utilizando métodos bastante refinados, como a experimentação, a observação sistemática, a pesquisa-ação, a pesquisa genética e a comparação com outras espécies de mamíferos. Cruzando e analisando todos os dados assim coletados, podemos criar teorias muito mais refinadas e capazes de predizer comportamentos do que as nossas avós conseguiam (por mais sábias que fossem).

Uma das teorias que mais gosto é a utilizada pela Terapia Multimodal. Ela foi desenvolvida por Arnold Lazarus na metade do século passado, e postula que a personalidade humana é composta por sete dimensões: Comportamento, Afeto, Sensação Corporal, Imaginação, Cognição, Relações Interpessoais e Biologia. O que eu gosto nesta teoria é, além de sua simplicidade e abrangência, sua aplicabilidade: não só vários tratamentos adequados podem ser planejados com base nela, como também leigos podem utilizá-la para melhor compreender os outros seres humanos ao seu redor.

Partindo de uma perspectiva analítico-comportamental, onde tudo o que uma pessoa faz é considerada como comportamento, cada dimensão da Teoria Multimodal é uma classe comportamental. Em outras palavras, cada dimensão é um tipo de coisa que nós fazemos. Trocando em miúdos, a modalidade do comportamento engloba tudo o que nós fazemos com nosso corpo e os outros possam ver, como caminhar, falar, pular e escrever. O afeto são todas as emoções, sentimentos e humores que sentimos. A sensação corporal é o que sentimos dentro do nosso corpo. A imaginação e a cognição são aquilo que chamamos de "mente" - a primeira é responsável pela criação e manipulação de imagens que só nós vemos, como rever acontecimentos passados e ensaiar cenas futuras, e a segunda é responsável pelos nossos julgamentos, avaliações e crenças. Já as relações interpessoais são todos os comportamentos envolvidos no trato com outras pessoas, e, por fim, a biologia é todo nosso funcionamento corporal, bem como a maneira como cuidamos dele (alimentação, exercícios, uso de medicação e drogas). Como os leitores mais atentos devem ter percebido, existe muita sobreposição entre as modalidades, sendo às vezes impossível distinguir entre elas. Porém, segundo Lazarus, isso é tanto esperado como necessário. Apesar de dividirmos a personalidade em aspectos para melhor compreendê-la, ela é, em última análise, uma estrutura e um processo único e total, e mais importante do que classificar uma manifestação humana corretamente como sendo "Cognição" ou "Interpessoal" é menos importante do que levá-la em consideração na hora de realizar o diagnóstico.

Entretanto, mesmo sendo um processo único e total, nós percebemos fenômenos diferentes dentro dela, e nos são úteis estas diferenças. A principal delas, na minha opinião, é a Hierarquia das Modalidades. Todos nós temos em nossa personalidade as sete dimensões citadas acima. Contudo, algumas serão mais prevalentes do que as outras, e se manifestarão primeiro ou com mais força. Por exemplo, pessoas que vivem no "mundo da lua " teriam como principal modalidade a Imaginação, enquanto que a modalidade Comportamento ficaria bem abaixo na hierarquia. Outro exemplo, que Lazarus dá em um dos seus livros, é a ordem de ativação modal. Na Terapia Cognitiva elaborada por Aaron Beck, nós primeiros temos um pensamento, que elicia um sentimento, e então agimos. Para Lazarus, as coisas são mais variadas e complicadas que isto. Uma pessoa poderia ficar ansiosa ao assistir uma tragédia na TV por que imaginou algum familiar entre as vítimas, sentiu uma sensação de peso no estômago, julgou esse peso como um sinal de que alguém morreu, e então se entupiu de remédios para controlar o nervosismo, enquanto outra ficaria ansiosa por que primeiro sentiu o peso no estômago, fez um julgamento e então pensou na família toda morta. Apesar do processo ser parecido, o tratamento terá que ser completamente diferente para cada uma destas pessoas, levando em consideração como elas reagem ao mundo.

Este jeito de ser é historicamente determinado. Tomemos este excelente blogueiro que vos fala como exemplo. Penso que a minha modalidade primária é a Imaginação - hoje mesmo quase tive um treco ao imaginar uma perna necrosada (yuk). É razoável acreditar que eu nasci com essa predisposição, mas o fato de meu pai ter me levado para ver todos os filmes da saga Star Wars (além de alguns de Star Trek e toda a série Smallville), bem como me incentivado a ler livros de aventura e coisas parecidas me parece muito mais relevante, por que fortaleceu minha capacidade de criar imagens e ser afetado por elas. Ignorar isso em um tratamento comigo seria basicamente ignorar a maneira mais eficiente de lidar com meus problemas. Outras pessoas, obviamente, vão ter históricos diferentes do meu, e muito provavelmente terão modalidades primárias diferentes da minha, e não só o tratamento, como também viver com elas, será bastante diferente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Problemas de Metaética

Há muito tempo atrás, antes mesmo de eu fazer estágio, publiquei um texto sobre Metaética. Este conceito foi originalmente imaginado pelo mestre Marcelo, mas nós dois desenvolvemos idéias diferentes sobre o significado do termo: para ele, a Metaética seria a pergunta que fundamenta toda o campo filosófico da Ética - "por que ser bom?", enquanto que, para mim, ela seria "a prática de moldar a própria ética futura, escolhendo as experiências que vivemos e como as vivenciamos, tomando por base nossa ética atual." Ao reler o texto que escrevi a respeito deste interessante e pouco explorado assunto, percebo que ele continua atual. Contudo, depois de uma noite de insônia bastante produtiva deste final de semana, que trouxe a Metaética de volta à minha memória, percebi que a definição do conceito se beneficiaria de uma ampliação. Então, segundo minha nova maneira de ver, a Metaética é possui dois componentes - um aspecto filosófico e outro psicológico. A diferenciação entre os dois é meramente didática, para que nós, pensadores ocidentais, possamos compreender mais plenamente o que está por trás desta idéia.

O aspecto filosófico da Metaética é justamente aquela apontada por Marcelo - por que devemos realmente sermos bons? O que nos "obriga" a assim proceder? Considero esta questão como sendo a parte mais filosófica da questão por que está intimamente ligada à outras do campo da Filosofia Moral: o que é o Bem? Pode o ser humano ser bom? Como diferenciá-lo do Mal? De fato, poderia se dizer que todas elas são parte da mesma grande pergunta, sendo a diferença entre elas o sabor pessoal que a questão de "por que ser bom?" traz, e que a diferencia de todas as outras questões, que pretendem ser universais. Por ela ter esta característica, ela permite maior liberdade de movimentos. Segundo um filósofo moral ortodoxo, baseado nas antigas perguntas, todos os seres humanos necessariamente buscam o Bem, enquanto que, na nossa nova formulação, não podemos afirmar o mesmo. Teríamos que dizer que todos os seres humanos idealmente preferem o Bem, mas que a intensidade com que o procuram varia conforme as circunstâncias. Por exemplo, um homem pode acreditar num determinado conjunto de crenças morais e considerá-las como corretas, mas não aderir verdadeiramente a elas seja por acomodação, seja por desilusão.

Para os fins deste ensaio, não importa muito o conteúdo desta desmotivação, e sim o processo por trás dela. Se para o filósofo moral a Ética é algo eterno e universal, para o psicólogo interessado no assunto, ela é sempre dependente do contexto, e portanto, mutável. Conforme vamos nos desenvolvendo, também se desenvolvem e se alteram nossas crenças e comportamentos éticos. Há muitos estudos em Desenvolvimento Moral que descrevem estas mudanças, tendo especial destaque aqueles conduzidos por Lawrence Kohlberg. Este pensador chegou à conclusão de que nossa Ética passa, grosso modo, por seis níveis de desenvolvimento, do hedonismo mais simplório até o altruísmo mais desapegado. Estes níveis seriam estruturas universais, isto é, teoricamente estão presentes em todos os povos do planeta, ficando a diferença de que falei anteriormente dependendo do conteúdo ideacional que preenche estas estruturas, e do caminho que cada indivíduo leva para desenvolvê-las, que não é tão linear quanto a teoria pode fazer parecer. Não vou falar muito a respeito deste interessante teoria, por que, se assim o fizesse, acabaria me desviando do meu assunto principal, e me veria obrigado a estudar muito mais, por que não sei quase nada a respeito dela.

O que quero indicar com Kohlberg é que é consenso entre os teóricos que a Ética muda conforme o tempo passa, a pessoa interage com o ambiente e se modifica. Hoje isto parece óbvio, mas até nem tanto tempo atrás, isto não era lá muito claro. Uma pessoa que ajudou a clarificar isto foi o psicólogo do desenvolvimento Jean Piaget. Originalmente, seu projeto teórico era o de construir uma Teoria do Conhecimento Humano, isto é, como as pessoas percebem o mundo ao seu redor, como processam estes dados e como os utilizam. Para construir tal teoria, ele investigou o desenvolvimento intelectual de crianças, desde os primeiros meses de vida até os 13 ou 14 anos de idade. De novo, não vou falar muito da teoria de Piaget por aqui, pelos mesmos motivos de antes. Todavia, um de seus conceitos me parece central aqui - o de Esquema Cognitivo. Em suas pesquisas, Piaget descobriu que as crianças utilizavam "algorítmos mentais" para processar as informações vindas do exterior, que mudavam conforme a idade. Um dos mais famosos exemplos disto é o da conservação da matéria. Se pedirmos para uma criança de 3 ou 4 anos se 300ml de água em um copo comprido é a mesma quantidade que 300ml de água em um copo mais largo, ela dirá que o copo comprido possui mais água, mesmo se mostrarmos para ela que as quantidades eram iguais antes de as colocarmos nos respectivos copos. Porém, se fizermos esta mesma pergunta para a mesma criança aos 7 ou 8 anos, ela ela olhará incrédula para nós, e responderá com muita convicção "é claro que é a mesma coisa, sua besta!", demonstrando que as mudanças cognitivas acontecem, muitas vezes sem que percebamos.

Penso que algo parecido acontece no desenvolvimento moral. Partindo das duas teorias citadas, acredito que a nossa Ética, e a maneira como a percebemos, também passa por fases diferentes de crescimento. Num primeiro momento, nós não possuímos nenhuma crença ética, por que não necessitamos. Porém, conforme crescemos, e nos vemos obrigados a conviver com outras pessoas, vamos as desenvolvendo, primeiro nos inspirando em nossos cuidadores, e depois de maneira mais autônoma. Entretanto, isto ocorre quase que totalmente fora da nossa consciência. E é aqui que penso estar minha contribuição original ao campo da Ética: da mesma maneira que desenvolvemos estratégias para monitorar nossos processos cognitivos, a Metacognição, desenvolvemos estratégias morais para monitorar o nosso crescimento ético, a Metaética. Poderia dizer que a Metaética é um processo metacognitivo mais refinado, e que define, utilizando os fundamentos éticos que possuímos aqui e agora, a ética que queremos ter no futuro, escolhendo de maneira consciente o que queremos ser no futuro. Como eu disse no começo desse texto, não há como fazer isso de maneira perfeita, por que, como mudam nossos preceitos éticos, mudam também os nosso preceitos metaéticos, fazendo da perfeição um ideal sempre distante. Dentro deste modelo teórico, Ética e Personalidade seriam dois conceitos pouco diferenciados, ou pelo menos muito dependentes um do outro.

Além dessas considerações teóricas, tenho algumas outras observações para fazer. A primeira delas é que, do mesmo modo que os níveis mais avançados da escala de Kohlberg são atingidos por poucos indivíduos, a Metaética é uma habilidade pouco difundida. Talvez, como a Metacognição, ela exista em forma potencial em todos, mas só alguns a atualizem e a transformem em algo digno de nota. Outra hipótese que tenho é que a Metaética, pelo menos da maneira como a defini aqui, só apareça em pessoas nos níveis morais mais elevados, posto que é nessas etapas de desenvolvimento que o indivíduo consegue se desapegar de suas crenças éticas, e vê-las como ferramentas, meios para um fim, que se modificam conforme as necessidades. Ou não. Em todo caso, continuarei elaborando novas idéias a respeito dessa teoria.

domingo, 31 de outubro de 2010

Utopias (5)

Como alguns dos meus leitores devem se lembrar, tempos atrás, comecei a escrever uma série de posts sobre utopias, isto é, sociedades humanas que funcionam de maneira perfeita e auto-sustentável. Como tais sociedades não existem de fato, pelo menos não ainda, tive que buscar meus exemplos em livros. A primeira utopia que comentei, em dois posts separados, foi "Walden II", imaginada pelo psicólogo B.F. Skinner e fundamentada pelos princípios das ciências do comportamento. O livro seguinte que eu comentei aqui foi "Horizonte Perdido", de James Hilton. Por fim, o último livro "utópico" que comentei não tratava de fato de uma utopia, mas de uma idéia que considerei muito próxima - "Sebastopol", de Tolstoi, e a idéia da paz atingida através da guerra. No final deste texto, disse que demoraria para ler outro livro sobre utopias, mas que não abandonaria a idéia de escrever mais a respeito do assunto por aqui.

Preciso dizer que menti. Na época em que este último post foi publicado, tinha recém começado a ler "A Ilha", de Aldous Huxley, e achei a história tão envolvente que terminei de lê-la em tempo recorde. Entretanto, não consegui escrever com o mesmo entusiasmo. Comecei dois rascunhos diferentes, mas em nenhum dos dois consegui passar do terceiro parágrafo. Consegui, isso sim, escrever uma monografia com o título de "O Trabalho nas Utopias e na Realidade", comparando as condições de trabalho em "A Ilha", "Walden II" e o mundo real, tentando encontrar pontos em comum. A proposta dessa monografia era bem distinta do que pretendo fazer aqui para o blog, mas utilizarei algumas partes dela para fundamentar meu texto (e me ajudar a lembrar da história de "A Ilha", já que faz um bom tempo desde que a li).

Tendo lido já alguma coisa sobre utopias, me sinto tranquilo o bastante para dizer que toda a literatura utópica busca responder às seguintes questões:

1) Quais foram as contingências geográficas e históricas que permitiram tal sociedade se desenvolver de maneira contínua e segura?
2) Qual modelo econômico foi por ela adotado, de que maneira os recursos naturais e humanos são utilizados e como ele garante o bem-estar da população?
3) Como são tratadas as questões comportamentais, individuais e coletivas, da população e suas principais instituições (vida em família, vida amorosa, amizades, vida em comunidade, trabalho, lazer, educação, saúde, religião)?
4) Qual o sistema político de tal sociedade, e como sua "administração central" (se esta existir) gerencia as questões anteriores, bem como as relações com outras sociedades e estados?

Estas perguntas, em última análise, são componentes de uma outra pergunta que o autor deve responder se deseja realmente descrever uma utopia: por que esta sociedade é perfeita, e por que deveríamos invejá-la? Cada livro da literatura utópica é, de certa forma, a vitrine das idéias de seu criador, que mostra aos demais como o mundo seria perfeito se todos resolvessem adotar os seus princípios e aplicá-los à realidade (ou, de maneira inversa, por que o mundo é a bagunça que é, e o que estamos fazendo de errado). Em outros termos: o autor é um vendedor, sua ideologia é seu produto e a utopia que ele descreve é sua vitrine. Alguns escritores são mais felizes do que outros nessa empreitada. Por exemplo, em "Horizonte Perdido", James Hilton parece estar mais interessado em contar uma história e estimular a imaginação dos seus leitores do que em convencê-los de que aquilo que acontece em Shangri-Lá fica em Shangri-Lá deveria acontecer no resto do planeta. Por outro lado, em "Walden II", Skinner só não escreveu um epílogo dizendo "acreditem em mim, gente, condicionamento operante é a coisa mais maravilhosa que existe" por que seria redundante, já que o livro inteiro é quase um infomercial de Walden II (é possível ler nas entrelinhas um "mas espere! Ainda tem mais!" entre um capítulo e outro). Tolstoi, que em "Sebastopol" não descreve uma utopia, também é bastante claro a respeito do que ele acredita ser certo ou errado.

Aldous Huxley em "A Ilha" é mais sutil que Skinner, e muito mais claro do que Hilton a respeito da mensagem que quer passar, por que, ao mesmo tempo que descreve os componentes de sua sociedade ideal, não descuida dos aspectos estéticos da história que conta. Ela começa com Will Farnaby, o personagem principal, naufragando no Oceano Índico, e indo parar na ilha de Pala, que era onde ele originalmente desejava chegar. Farnaby é jornalista, e um agente pago por uma grande empresa petrolífera para infiltrar-se em Pala, desestabilizar o governo local por dentro, e submetê-lo ao comando do ditador da ilha vizinha, Rendang. No princípio, apesar da hospitalidade da população local, que o recebe e cuida de seus ferimentos como se fosse filho de Pala, ele colabora com as forças que desejam destruir a harmonia da ilha para aumentar sua riqueza material e poder. Entretanto, conforme vai conhecendo o lugar, seu funcionamento, e vive experiências purificadoras, Farnaby abandona seu cinismo e, ainda que seja tarde demais para salvar Pala, ele consegue ver claramente a beleza daquela sociedade. Não vou dar mais detalhes da história, tanto por que não quero estragar a leitura de quem se interesse, quanto por que eu sinceramente não lembro de muitos detalhes. O que eu vou falar, e que ainda me lembro, é da maneira como Huxley tentou responder às quatro perguntas que formulei anteriormente.

A ilha de Pala, apesar de naturalmente cheia de recursos, é isolada do resto do mundo por sua geografia, contando com apenas um porto natural, sendo todo o resto da costa impossível de atracar, ou pelo menos muito perigoso de navegar. Era como qualquer outra monarquia pobre da Ásia, com um povo supersticioso e fisicamente pouco saudável até a chegada de um médico britânico. Este médico, cujo nome me escapa agora, fora contratado para tratar o Rajá de um câncer na mandíbula. Tal operação não era sua especialidade, mas a realizou assim mesmo, com a ajuda de técnicas de sugestão e hipnose. O Rajá, agora a salvo de doenças terminais, ficou impressionado com as capacidades cognitivas do médico, e pediu para que ele ficasse em Pala e o ajudasse a fazer o que se pode chamar de uma completa reforma cultural na ilha. Aqui, fica óbvio para o leitor de "A Ilha" o que Huxley imaginara como a sociedade perfeita: uma fusão harmoniosa entre o melhor da ciência ocidental e o melhor da ética e espiritualidade oriental.

Esta revolução cultural, diferente da realizada em "Walden II", levou pelo menos três gerações, e envolveu mudanças graduais, porém profundas, nas práticas dos habitantes de Pala. Primeiro, o médico britânico conquistou o apoio da população feminina introduzido técnicas de higiene que em muito diminuiram as mortes durante o parto, bem como a qualidade de vida em geral. Depois disso, já contando com a confiança pública, ele pode ser dar ao luxo de atacar hábitos supersticiosos daninhos e substituí-los por outros hábitos, mais racionais. Junto com o Velho Rajá, que também era um grande intelectual e reformador, ele instituiu políticas públicas de longa duração, e que depois de 100 anos, quando Will Farnaby naufrga em sua costa, ainda se encontravam em efeito.

Como já disse antes, faz tempo que li o livro, e a grande maioria das propostas de Huxley me escapam à memória agora. Entretanto, todas elas seguiam o mesmo princípio: como seria uma sociedade onde todas as suas partes servissem o bem maior, e estimulassem o desenvolvimento saudável e consciente de seus membros? Ao contrário do que acontece em "Admirável Mundo Novo", onde as pessoas trabalham para manter o sistema de consumo irrefreável funcionando às custas de sua própria individualidade, em "A Ilha", tudo trabalha para favorecer o crescimento espiritual das pessoas, e torná-las cada vez mais conscientes de si, de seu contorno, de seus deveres e de sua missão. Por exemplo, os papagaios da ilha foram treinados para falarem, de tempos em tempos, palavras como "atenção!" e "aqui e agora!" para que os palaneses fossem constantemente lembrados de que devem estar atentos, e viverem aqui e agora, e não se perderem em divagações inúteis sobre o passado ou o futuro. A família em Pala, apesar de ser constituída de forma tradicional, com pai, mãe e filhos, também é atravessada pelo CAM, Clube de Adoção Mútua. No CAM, as crianças adotam outros pais e outras mães, fora de sua família nuclear, tantas quanto quiser ou precisar. Deste modo, quando esta se cansasse de seu pai ou de sua mãe biológicas, ia para a casa de outro, onde seria acolhido como um filho. Deste modo, nenhuma criança seria obrigada a conviver o tempo todo com a neurose de seus cuidadores (ou, na melhor das hipóteses, poderia alternar entre neuroses diferentes conforme lhe convir).

A ciência em Pala também é vista de maneira diferenciada. O Velho Rajá e o médico, apesar de serem ambos entusiastas de inovações, eram também cautelosos em relação ao que deixavam entrar em Pala. Por isso, a industrialização era limitada: foram criadas plantas hidroelétricas para gerar energia para geladeiras e assim estocar a produção de alimentos por mais tempo, e plantas industriais e poços de mineração existiam em pontos específicos da ilha, mas de maneira limitada. Além disso, nenhum trabalhador era obrigado a trabalhar mais do que o necessário, para que ainda dispusesse de tempo livre para realizar suas atividades de lazer preferidas. Em nossa sociedade produtivista, que clama sempre por mais e mais coisas para comprar e logo jogar fora, isso parece absurdo, mas em Pala, o trabalho tem como principal propósito estimular o desenvolvimento pessoal, e não usar todas as energias do trabalhador para realizar uma tarefa que muito pouco o beneficia, como frequentemente ocorre em tantos empregos.

Também a vida amorosa e sexual dos palaneses é bem distinta, tanto da nossa, quanto dos habitantes de Rendang, quanto mais dos cidadãos do "Admirável Mundo Novo". Ao invés de serem forçados a engolirem diversos tabus referentes à sexualidade, os palaneses são, desde muito cedo, educados a respeito da sexualidade e, a partir de uma certa idade, estas aulas se tornam práticas, quando aprendem a arte do Maithuana, a Yoga do Amor. Aqui, o sexo não é encarado como uma prática de dominação, uma conquista de um homem sobre uma mulher ou vice e versa. É, na verdade, uma expressão de amor entre duas pessoas (qualquer que seja o gênero delas, diga-se de passagem). Existe um apego entre os amantes, mas um apego bem diferente daquele que experienciamos na sociedade ocidental, que não amarra um ao outro irremediavelmente.

Mais notável ainda é o destaque dado para a espiritualidade propriamente dita, e os ritos a ela ligados. No final de sua vida, Huxley estava muito interessado com os possíveis usos de substâncias psicodélicas, que, se bem empregadas, poderiam servir para acelerar o progresso espiritual da humanidade. Tanto Pala quanto a sociedade distópica de "Admirável Mundo Novo" possuem drogas que alteram a percepção consciente da realidade e que estão ao alcance de toda a população. O uso dado a elas, porém, é completamente diferente. Se em "Admirável Mundo Novo" o soma é usado para fugir das dores do mundo e viver em um estado artificial e patológico de felicidade, em "A Ilha" o chá feito com a planta Moksha ("libertação" em sânscrito) é empregada para o exato oposto: expansão da consciência. Também não é utilizada de maneira indiscriminada, como quem toma aspirina, e sim apenas em momentos solenes. A primeira vez é no rito de passagem da adolescência para o mundo adulto, onde os jovens passam por um teste. Tanto meninos quanto meninas precisam realizar uma escalada perigosa, do topo de um penhasco até o Templo Central da ilha, onde eles tomarão Moksha e serão instruídos sobre os deuses, o universo e seu papel nele. Depois deste episódio marcante, o Moksha é tomado apenas em situações especiais, com o intuito de levar aquele que o bebe mais próximo da Iluminação.

Talvez o que mais tenha me chamado a atenção na sociedade palanesa é a verossimilhança com que Huxley a pinta. Ao contrário de Walden II e Shangri-Lá, que parecem ter surgido do éter e funcionando de maneira impecável por passes de mágica (mesmo que seja a "Mágica Comportamental" do Dr. Skinner), Pala impõe-se ao leitor como um lugar que realmente poderia existir. Mesmo sendo uma comunidade muito avançada, especialmente em termos psicológicos, ela é composta por pessoas de verdade, e não "exemplos didáticos" como Walden II. Esta foi a parte que mais me encantou em "A Ilha" - eu posso realmente acreditar na existência de Pala, bem como de seus moradores, por que o seu sofrimento existe e é palpável. O que muda na sociedade palanesa, quando comparada com a sociedade em que vivemos, é a maneira como este sofrimento é vivenciado: não há uma luta para livrar-se da dor, de viver permanentemente em um estado forçado de alegria. Aceita-se o presente, seja o presente como for. Susie McPhail, a segunda personagem mais importante do livro, perdera o marido em um acidente de montanhismo, e frequentemente passa seus momentos solitários pensando nele, e como sente sua falta. Porém, não há nenhuma nota de autopiedade em suas reflexões, nem uma negação da realidade, e em nenhum momento ela relega sua obrigação como mãe para chafurdar na própria dor. Talvez para Skinner, o que importa na construção de uma sociedade ideal é o reforço positivo externo, o ambiente, mas será que isto não seria muito, muito mais relevante?

Pala é uma fantasia, mas pode ser tornada real. Pode ser que para que desenvolvamos uma sociedade tão avançada levemos 100 anos. Contudo, as sementes para esta utopia podem começar a serem semeadas aqui e agora, e já estão sendo. Nos meus próximos dois posts sobre Utopias, pretendo falar sobre isso. Aguardem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sombras e Médicos

Acabo de assistir mais um episódio do fantástico seriado americano House MD, mais conhecida como "aquela do médico escroto que sempre acerta o diagnóstico". Já assisto este seriado há bons três anos, mas nunca antes na história deste país eu senti vontade de fazer uma análise psicológica a respeito de nenhuma das histórias. Contudo, o episódio de hoje, intitulado "Wilson", foi tão bom que seria um desrespeito à equipe da série não fazer uma desta vez.

Como todos que não moram de baixo de uma pedra sabem, House MD acompanha a vida do genial dr. Gregory House, gênio da Medicina, mestre em diagnósticos, agudo observador do comportamento humano e praticamente psicopata, que, junto de sua equipe, resolve os casos mais absurdos que os consultores científicos do programa conseguem descobrir. No começo do programa, os episódios giravam em torno das doenças, e do processo médico de descobrir o que está matando o paciente e como curá-lo. Porém, com o passar do tempo, os casos, apesar de continuarem bizarros e envolventes, tornaram-se secundários ao desenvolvimento da vida pessoal de House, sua equipe e os outros personagens relevantes, sendo muitas vezes usados como alavancas para fazer esta história ir adiante e os personagens se desenvolverem. Foi o que aconteceu no capítulo que assisti hoje, mas de uma maneira muito peculiar.

Geralmente, os episódios são "mostrados" do ponto de vista de House, e acompanham o desenrolar de seus casos, e como as relações pessoais do programa se desenvolvem. Em cada um destes episódios, temos dezenas, senão centenas, de exemplos tanto da genialidade do personagem principal quanto de seu comportamento sociopático (que, por incrível que pareça, é na maioria das vezes hilário), e, menos freqüente porém igualmente importante, vemos como estas duas coisas estão intimamente relacionadas. Hoje, entretanto, a história toda foi mostrada do ponto de vista de James Wilson, médico chefe do Departamento de Oncologia e melhor, se não único, amigo de House.

A relação deles é, na minha opinião, o aspecto mais intrigante do show, pois com alguma facilidade te faz pensar "como justamente ELES DOIS serem melhores amigos?". House, como já disse antes, é um sociopata genial. Por um lado, estes dois termos parecem se anular, mas, dependendo do ângulo em que são encarados, podemos ver que se reforçam um ao outro. Sociopatia, também conhecida como Psicopatia ou Transtorno de Personalidade Antissocial, é uma síndrome psiquiátrica que consiste em um padrão constante e global de falta de empatia, egoísmo, manipulação, mentiras e conflito com a lei e outras pessoas, e olha que eu resumi bastante. Em outras palavras, um psicopata é o tipo de pessoa que você não quer por perto, por que ele em algum momento vai te usar em benefício próprio. Wilson, por sua vez, é o exato oposto: gentil, atencioso, prestativo e dedicado à sua profissão, ele sempre se esforça ao máximo para conseguir que seus pacientes sintam-se em paz, tanto física quanto psicológicamente, mesmo que isto signifique sacrificar a si mesmo para isto (por favor, gravem esta última frase na memória - ela é importante para esta análise). Em suma, um é o oposto do outro. House é egoísta, Wilson é altruísta; House é sarcástico e ácido com todos, Wilson é gentil e delicado; House rouba a lanchonete, por que sabe que Wilson pagará sua conta. Em outras palavras, estes dois personagens têm tudo para se odiarem da maneira mais visceral possível - como eles são melhores amigos? Bem, vou tentar dar a minha resposta, baseado na inspiração que o capítulo de hoje me deu. Este começa com ele indo caçar com Tucker, um ex-paciente que se tornou seu amigo após ter sua leucemia curada pelo bom oncologista. Obviamente (para quem acompanha a série), Tucker tem um treco piripaque nó nas tripa passa extremamente mal durante esta caçada e volta para o hospital onde fora curado 5 anos atrás. E enquanto sua doença progride, vemos como Wilson cuida dele, bem como a outros pacientes ali internados.

Isto é muito interessante, pois pela primeira vez em seis temporadas, ao invés de acompanharmos House conjurar geniais hipóteses diagnósticas de seu rabo para os casos mais absurdos enquanto insulta todos os seres humanos capazes de ouvi-lo num raio de 100m, tivemos a rara oportunidade de ver Wilson atendendo os seus pacientes. Ao contrário de House, que vive num constante fluxo de adrenalina induzido pelas mais surpreendentes reviravoltas, Wilson tem uma rotina muito mais calma e estável (e este contraste foi brilhantemente abordado neste episódio, com as rápidas e estrambóticas* aparições da equipe de House, vista trabalhando por alguém de fora). Não quero dizer com isto que o seu trabalho seja mais fácil, apenas que a dificuldade dele não reside nas rápidas mudanças, e sim na dolorosa constância. Não sei muita coisa a respeito de Oncologia, mas imagino que este é um retrato bastante acurado da realidade. E nesta rotina, descobrimos que Wilson também é um excelente médico, pois vemos que ele, apesar de não ser tão afiado quanto House, também é capaz de detectar mudanças importantes na condição de seus pacientes baseado em sinais muito sutis, o que poucos outros profissionais da saúde seriam capazes de fazer (eu poderia atribuir isso à sua convivência com House, mas não quero tirar seu mérito). Também testemunhamos sua "ética de trabalho" em ação, na maneira como ele se relaciona com seus pacientes, com seus colegas e com seus amigos, e como sua maior preocupação é sempre o bem-estar de todos.

Apesar deste seu traço de personalidade já ser velho conhecido da audiência, ele é se torna muito importante para a trama que hoje se desenvolve. Conforme o episódio avança, e a doença de Tucker piora, deixando-o a beira da morte, até que descobrimos que sua leucemia voltara ainda mais forte (e fazendo com que Wilson perdesse 100 dólares numa aposta contra House, que deu este diagnóstico nos primeiros cinco minutos do episódio**). Numa manobra médica bastante ousada, Wilson sugere à Tucker uma nova quimioterapia. Os riscos envolvidos são altos, mas Tucker concorda. O câncer é extirpado, mas o fígado dele também, o que o coloca na lista de espera para doação de órgãos. Neste processo, Tucker percebe que fora um erro abandonar sua família para "viver uma vida de aventuras" e ficar com uma mulher 20 anos mais nova, e reaproxima-se de sua ex-esposa e filha. Como no fim nenhum doador adequado é encontrado, Tucker pressiona Wilson para que ELE doe um pedaço do seu fígado, já que cinco anos antes, Wilson doara seu próprio sangue para Tucker em uma transfusão, dizendo que ele aceitara a nova quimioterapia só por que era Wilson quem a propôs. Wilson, depois de se debater se deveria fazer isso ou não, acaba concordando, um pouco por culpa, mas principalmente por que não queria deixar que a família reunificada se quebrasse novamente. A operação é realizada com estrondoso sucesso, Tucker é curado e Wilson não enfrenta nenhuma seqüela. Porém, quando tudo termina, Tucker abandona sua família mais uma vez para ficar com a namorada, deixando Wilson com a impressão de que fora tudo em vão. House, por sua vez, enquanto não está ocupado fazendo algum malabarismo profissional (como mentir que seu paciente está sangrando pelos olhos para ter prioridade na sala de cirurgia), passa o resto do episódio sendo ele mesmo, parasitando Wilson, ocupando espaço na geladeira e dizendo com todas as letras para seu amigo que não desse parte de seu fígado para um "imbecil auto-centrado" como Tucker.

O que esse episódio tem de especial que me deixou com tanta vontade de escrever uma análise psicológica? Para começo de conversa, ele contrasta, de uma maneira nunca antes feita, a personalidade de House e Wilson. Creio que esta diferença fica mais clara se utilizamos os termos criados Carl Gustav Jung, discípulo renegado de Freud e criador da Psicologia Analítica. Para Jung, a Psiquê humana possui dois pares de funções opostas: Intuição e Sensação, Pensamento e Sentimento.  As duas primeiras são irracionais, por serem duas vias pelas quais "percebemos" o mundo ao nosso redor, enquanto que as duas últimas são racionais, por estarem envolvidas nos processos de tomada de decisão, que depende de nossas capacidades verbais. Todos nós possuímos todas estas funções, porém, geralmente utilizamos apenas uma de forma consciente. Ela é chamada de "função dominante", por ser a mais desenvolvida, e seu funcionamento é auxiliado pela segunda mais desenvolvida, chamada (muito apropriadamente) de "função auxiliar", e se a função dominante for racional, a auxiliar será irracional. Para entender como as funções trabalham, pensem que elas são sistemas operacionais - a Intuição é o Linux, a Sensação é o Windows, o Pensamento é o Mac OS e o Sentimento o MS-DOS. Cada sistema tem seu ponto forte e seu ponto fraco, e é melhor para cumprir algumas tarefas do que os demais. No mundo real, podemos usar apenas um sistema operacional de cada vez em nossos computadores. Todavia, no computador que é nossa psiquê, temos todos estes programas instalados e funcionando em diferentes níveis: o sistema dominante é o que aparece na tela e é quem "manda", mas ele não trabalha sozinho, por que o sistema auxiliar está logo ali atrás dele, checando suas decisões a partir de um ponto de vista diferenciado. As outras duas funções continuam ali, só que são basicamente inconscientes, e só aparecem "na tela do PC" quando as duas principais "dão pau", como a infame "Tela Azul", sendo que a última função em nível de desenvolvimento foi definida por alguns teóricos como sendo nossa "Sombra", que explicarei melhor o que é mais adiante.

Como disse, cada função tem um jeito de agir e uma especialidade. A Sensação percebe o mundo através de seus sentidos físicos, e foca-se no mundo físico e no momento presente. Já a Intuição capta o mundo através de esquemas mais abstratos, que possibilitam fazer associações entre dados e informações aparentemente desconexas, e foca-se muito mais nas possibilidades futuras do que no aqui-e-agora. O Pensamento toma decisões baseado na lógica e pensa no todo, enquanto o Sentimento foca-se nas emoções, preocupando-se mais com questões específicas. Além destas funções, também temos que considerar a direção que damos para nossas energias psíquicas: se focamos nossa energia no mundo exterior, somos extrovertidos; se nos preocupamos mais com o mundo interior, somos introvertidos. Agora que já expomos toda a informação necessária, podemos continuar.

Como já disse, House e Wilson possuem personalidades opostas. Baseado em sua longa carreira de brilhantes deduções e curas milagrosas, sua teoria altamente elaborada e pessimista sobre a natureza humana, e de sua abordagem estritamente lógica para o mundo, podemos dizer com muita segurança que as funções mais bem desenvolvidas de House são a Intuição e o Pensamento. Não podemos, porém, dizer com tanta certeza qual delas é a dominante e qual é a auxiliar. Eu diria, pela sua postura ativa e sua posição como chefe de um departamento médico encarregado de muitas decisões difíceis e rápidas, que, além de ser extrovertido, o Pensamento é sua função dominante. Wilson, por sua vez, também é extrovertido e chefe de departamento, mas sempre leva em consideração os aspectos únicos de cada paciente, que ele sente de forma muito profunda, o que me faz concluir que ele tem como função dominante o Sentimento e auxiliar a Sensação. Acredito que o que cria tamanha afinidade entre os dois personagens é esta oposição que um faz ao outro - não por que "os opostos se atraem", e sim pela relação dos dois er o que Jung chamaria de "arquetípica". Como disse alguns parágrafos acima, a nossa função menos desenvolvida é a Sombra de nós mesmos. Para Jung, a Sombra é um dos quatro arquétipos principais que compõe nossa personalidade, que acumula todas as características opostas ao nosso Ego Consciente. Se acreditamos que somos bondosos, nossa Sombra é maldosa; se pensamos que somos vermes desprezíveis, nossa Sombra é um deus; se pensamos que somos tímidos, nossa Sombra não é. Poderíamos dizer, em outras palavras, que a Sombra contém todas as nossas potencialidades não desenvolvidas, tanto para o bem, quanto para o mal. E é isto que House e Wilson são - Sombras um do outro.

Depois dessa pequena teorização, é possível que alguém pergunte "OK, eles são a Sombra um do outro, mas o que impede que eles simplesmente deixem de ser amigos?" É uma pergunta bastante razoável. Segundo a teoria de Jung, nascemos com um determinado temperamento, e que com ele nos orientamos pelo mundo. Porém, segundo esta mesma teoria, não devemos morrer com o mesmo jeito de ver as coisas, porque dentro de nós existe o impulso para a Individuação. Jung falou bastante a respeito da Individuação e como ela se dá, e não tenho o conhecimento nem o tempo necessários para explicá-la aqui de forma completa. Por isso, me limitarei a dizer que a Individuação é o processo através do qual os seres humanos se desenvolvem e tornam-se plenos, perfeitos até. Como vocês podem imaginar, ninguém nunca chegou a ser "100% individuado", por que a psiquê está sempre se modificando, e sempre há algo em nós mesmos que pode melhorar. Porém, a principal característica da Individuação é sua função transcendente, que nos leva a desenvolver as nossas funções que estão "na sombra". House desperta em Wilson seu lado menos submisso e mais assertivo, enquanto que Wilson lembra House de seu lado mais compassivo. Ambos negariam isto, mas ambos precisam desta lembrança constante do que eles podem vir a ser. 

Uma última consideração psicológica relevante destes dois personagens vem de uma teoria mais recente, e mais cientificamente embasada: a Terapia do Esquema. De acordo com ela, nossa visão de mundo se dá através de nossos esquemas cognitivos, que são criados e refinados ao longo dos anos, e a maneira como enxergamos o mundo depende largamente da qualidade de nossas experiências. O criador deste modelo, Jeffrey Young, identificou 18 Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs), isto é, esquemas que predispõe seus portadores à sofrimento psíquico. Curiosamente, um destes esquemas é o Autossacrifício***, que é muito comum entre profissionais da área da saúde. Ele é relativamente bem visto em nossa sociedade, e talvez não se considerasse um esquema desadaptativo, se ele não levasse as pessoas a descuidarem de si mesmas e voltarem todas as suas forças para os outros, machucando-se no final. Acredito que tanto Wilson quanto House possuem este esquema, mas desenvolveram estratégias de enfrentamento (isto é, como encarar os sentimentos, pensamentos e memórias trazidas à tona por ele) diferentes. A Terapia do Esquema propõe três estratégias de enfrentamento diferentes: rendição, evitação e hipercompensação. Wilson adota primariamente a primeira estratégia, rendendo-se à sua crença de ser necessário sacrificar-se pelos demais, e age de forma cuidadora e atenta o tempo todo. House, por outro lado, é um hipercompensador, e na maior parte do tempo se comporta como um cretino narcisista. Porém, é comum em situações estressantes estas estratégias mudarem, e quando Wilson chega a seu limite e House vê que seu paciente ou alguém que lhe importa está sob risco, as coisas se invertem. Também é importante notar que sabemos mais do passado de House, e podemos inferir outros esquemas resultantes de seu relacionamento com os pais, como Desconfiança/Abuso e Privação Emocional, além de Isolamento Social/Alienação por causa de sua genialidade.








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* Um dos pacientes dele fora internado por que comeu pipoca demais. Sério.
** Wilson é bom, mas House é sempre melhor.
*** Jung criou o conceito de "complexo", que, apesar de mais complexo, é muito similar aos esquemas cognitivos. E, levando esta semelhança em consideração, poderíamos dizer que um outro nome adequado para o esquema de Autossacrifício na teoria junguiana poderia ser "Complexo do Curador Ferido".

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Utopias (3)

Mais uma utopia a se comentar por aqui. Li, com muito esforço, "Horizonte Perdido", de James Hilton, que descreve o mítico monastério de Shangrí-La. Digo que foi difícil por que peguei uma cópia que, de tão velha, já se esfarelava e atiçava minhas alergias. Quanto à leitura em si, foi bastante agradável.

Sendo mais específico a respeito da história, ela é contada de uma maneira pouco costumeira. Não é um relato em primeira pessoa como "Walden II", onde o narrador visita a comunidade e descreve seus costumes, mas um relato de segunda mão. O narrador de "Horizonte Perdido" reencontra um velho amigo de escola, o escritor Rutherford, que lhe conta algumas coisas estranhas a respeito de um conhecido em comum, Hugh Conway. Por uma coincidência, os dois se encontram em uma pequena cidade chinesa e viajam juntos em um transatlântico, onde Conway conta, em uma noite, todos os fantásticos acontecimentos que o levaram de Baskal, na Índia, a Karakal, o Vale da Lua Azul escondido entre as impenetráveis montanhas da cordilheira de Kuen Lun (que, para minha surpresa, existem de verdade), que Rutherford prontamente transforma em um relato escrito e o entrega para o narrador.

Não vou estragar a história e contar os detalhes - se quiserem sabê-los, façam como eu e peguem uma rinite alérgica o livro e leiam - apenas a parte "sociológica", por assim dizer.

Como já deve ter dado para entender, Karakal era uma comunidade quase inacessível, pois ficava escondida entre altas montanhas, em uma região árida e desconhecida. Porém, por algum feliz acaso, ela se encontrava em um vale que, por motivos vários, era muito fértil e agradável de se viver, aos pés de uma magnífica montanha branca que emanava uma luz azul em noites de lua cheia. E esta confluência de fatores permitiu que seus aldeões, na maioria chineses e tibetanos, desenvolvessem uma cultura própria, sem maiores intromissões do resto da humanidade. Ainda assim, estas intromissões ocorriam. No início do século XVIII, um missionário cristão de Luxemburgo chamado Perrault chega em Karakal à beira da morte, e depois de se recuperar, põe-se a trabalhar na construção do monastério cristão de Shangri-Lá. Porém, o clima de Karakal não deu a seus moradores apenas a chance de criarem uma cultura pura, como também deu outro presente: longevidade. Os tibetanos e chineses criados naquele local não se tornavam especialmente mais longêvos em Karakal por já estarem acostumados desde a infância à sua atmosfera, mas estrangeiros que ali viessem a estabelecer residência poderiam atingir idades bastante avançadas. Quando a construção de Shangri-Lá terminou, Perrault contava 109 anos e estava bastante ativo. E ele prolongou ainda mais sua vida, através de exercícios de Ioga, alimentação controlada e sabe-se lá mais o quê.

Com o tempo, depois da construção do monastério, Perrault passou a estabelecer algumas políticas de contato com o mundo exterior, visando o bem de sua civilização, e também de engenharia cultural. Uma comunidade um pouco maior, como Porto Alegre, pode abrigar ondas relativamente grandes de imigrantes sem que sua cultura seja grandemente influenciada ou seus recursos todos utilizados, mas o mesmo não poderia ser dito de Karakal: se muitas pessoas aparecessem ao mesmo tempo para morar em Karakal, ela se autodestruiria por motivos econômicos. Ainda assim, para garantir a continuidade da comunidade e evitar os males das relações incestuosas, estrangeiros devem ser trazidos de fora de tempos em tempos. E, deste modo, foi se formando um pequeno grupo de europeus, que acabavam ficando por Lua Azul e tornando-se monges de Shangri-Lá e aprendendo os segredos da vida longa.

A cultura de Karakal é essencialmente chinesa e tibetana. Shangri-Lá, que foi concebida originalmente como um mosteiro cristão, ao longo do tempo tornou-se muito budista, por assim dizer. Esta religião, apesar de ser a dominante, não é a religião oficial do estado, e há liberdade de culto, com templos de outros credos no Vale, como taoísta. A cultura européia também deixou sua marca através de todos os imigrantes que de lá vieram, mas sua influência é mais sentida no monastério e em sua classe monástica do que na comunidade leiga. O mosteiro, apesar de ter sido construído no começo do século XVIII, dispõe de água encanada, uma vasta e ampla biblioteca de clássicos europeus e orientais e instrumentos musicais - como um piano de cauda. Karakal foi abençoada com um abundante suprimento de ouro, que é usado como moeda para os comerciantes dispostos a ir até lá para fazer negócio e trazer essas comodidades. No Vale da Lua Azul abaixo de Shangri-Lá, reina a paz, pois todos na vila seguem o princípio de ser moderado em tudo, inclusive na moderação: beber um pouco de álcool, fazer um pouco de sexo, ouvir um pouco de música, governar um pouco. Roubos não acontecem por que todos possuem o que necessitam, e crimes passionais são inexistentes por que todos possuem desejos também moderados. Os monges de Shangri-Lá são o principal exemplo desta filosofia de vida, passando seus dias sem pressa, apreciando as coisas com moderação ou "produzindo sabedoria" (meditando, imagino eu).

A utopia descrita em "Horizonte Perdida" é linda: há abundância de alimentos, seus habitantes vivem em harmonia em um paraíso natural e com uma cultura rica e florescente. Porém, há algo nela que rejeito, como se ela fosse falsa, ou pior, morta por dentro. William James certa feita visitou uma cidade universitária "experimental", onde tudo funcionava da maneira mais perfeita - nas escolas fundamentais as crianças aprendiam alegremente, nas faculdades os estudantes pensavam com ampla liberdade, festas aconteciam frequentemente e não havia menor sinal de miséria ou desigualdade social nas ruas. James obviamente achou tudo isto maravilhoso, mas logo que saiu de lá pensou "ainda bem que saí daquela pasmaceira pasteurizada! Precisava voltar para um mundo sujo e sangrento". Bem, tenho bastante certeza de que, apesar desta não ser a citação exata (que li em "A Filosofia de William James"), ter passado a sua mensagem. Ao longo de todo o livro, o autor consistentemente dá a entender que Karakal é um lugar de paz e tranquilidade, perfeito para Conway, de temperamento contemplativo. Porém, apesar das reiteradas afirmações de quão maravilhoso é este vale, não consigo sentir-me atraído por ele, por ser mais parecido com uma cemitério cheio de zumbis do que o berço de uma nascente civilização, e foi-me impossível não simpatizar com Mallinson, personagem que, apesar de ser irritante por causa de seu desejo de sair de Shangri-Lá o quanto antes, é o único que parece estar realmente vivo! Toda paixão de viver em Karakal é substituída por uma longa espera preguiçosa pela morte, sem objetivo ou sentido maiores. Talvez apenas eu seja incapaz de viver em tal lugar assim, por causa de meu temperamento, mas não acho que nenhum ser humano verdadeiramente saudável poderia considerar Karakal algo mais do que um local para passar as férias.

Próximas utopias: A Ilha, de Aldous Huxley e A República, de Platão.

sábado, 5 de setembro de 2009

Utopias (2)

Terminei ontem de ler "Walden II", de B.F. Skinner. Já fiz um extenso comentário a respeito do livro no post anterior, mas, tendo lido os capítulos que faltavam, sinto que preciso comentá-los também. Infelizmente, como não dá pra falar de uma parte de um livro sem falar dele todo, serei um pouco repetitivo em alguns momentos, porém, prometo reduzir isto a um mínimo.

Como expliquei anteriormente, Walden II é uma comunidade utópica imaginada pelo personagem Frazier, onde toda o sofrimento humano fora abolido através do reforço positivo. Esta técnica consiste, muito brevemente, em estabelecer condições ambientais que aumentam a probabilidade de um comportamento desejável através de uma consequencia agradável. Por exemplo, ao invés de ameaçar uma criança com algum castigo se não fizer os trabalhos escolars, é mais eficaz oferecer uma recompensa para tanto. Este seria o "segredo" de Walden II - assim, através de contingências onde o comportamento adequado é recompensado, e o comportamento inadequado é corrigido, nenhum integrante da comunidade teria motivos para se rebelar e agir de maneira contrária aos interesses coletivos, por que eles não são contrários aos seus. Estas contingências seriam determinadas inicialmente por um Conselho de Planejamento, que escreveu o "Código de Walden". Este código seria algo como as Tábuas da Lei de Walden, com a diferença que elas não estariam escritas na pedra como os Dez Mandamentos, mas abertos a revisões. Isto seria o maior diferencial da vila idealizada por Frazier das tentativas utópicas anteriores: abertura para mudança, que permitiria corrigir o que está errado e melhorar o que já está bom. Estas revisões poderiam ser feitas a partir da reclamação de qualquer membro da comunidade que achasse algo ruim e reclamasse, e a partir de experimentos científicos. Por exemplo: os membros de Walden II tomam café e chá em xícaras com "alças de balde", pois foi constatado que dessa maneira menos líquidos eram derrubados durante o transporte até a mesa. Além disso, toda a estrutura de tomada de decisões de Walden II fora montada de maneira que nenhum indivíduo sozinho pudesse subverter o Código geral em proveito próprio. Não que isto fosse necessário, por que nenhuma pessoa desejaria fazer algo assim, pois as contingências desta sociedade utópica seriam tais que ninguém que morasse ali conceberia isto como possível.

Explicado assim, tanto o reforço positivo quanto o "Código de Walden" parecem muito eficientes. E de fato são. Mas há um porém nisso tudo. Este livro, escrito em forma de romance, foi uma tentativa de Skinner de mostrar ao mundo o potencial que a sua linha teórica oferecia. Contudo, Skinner é famoso por ter sido um homem com muitas certezas. Entre elas, figurava a certeza de que a Análise do Comportamento era não só a melhor alternativa entre todas as linhas teóricas da Psicologia, como a única que poderia ser considerada como científica e portanto verdadeira, e isso o fazia defendê-la com um zelo quase fanático. O livro não escapa disto. Em Walden II, o reforço positivo e a ciência não só conseguiram fazer com que os trabalhadores se tornassem mais produtivos, como também aboliu a inveja, a raiva, a competitividade, a tristeza e a ambição e as substituiu por uma perene satisfação e altruísmo autênticos. Soa maravilhoso, não? Pois é, soa mesmo, mas alguma coisa parece estar fora de lugar ainda assim.

Tenho grande simpatia pela idéia de Skinner de "sociedade ideal", e até certo ponto, acredito que suas conclusões são muito acertadas - em especial, a necessidade de um método de regulação social baseado mais na recompensa do que no castigo, o uso da ciência para determinar as melhores condutas e a ausência de competitividade, que é apenas outra maneira de dizer "massagem no ego". Contudo, também acredito que, na exposição de suas idéias, Skinner caiu no erro que os filósofos chamam de "Declive Acentuado" - baseado em premissas corretas, atingir conclusões errôneas. Frazier, ao longo do livro, não cansa dizer que as técnicas que ele emprega não são nada inovadoras, mas que sempre estiveram nas mãos das pessoas erradas, como políticos, mercadores, governantes e grupos religiosos, que as usavam para fins próprios, e tudo que ele fez foi reuni-las e utilizá-las em nome do "bem comum". Mas o que realmente impede que Walden caia nas mãos de um tirano inteligente e disfarçado? Com a mesma facilidade que estas estruturas "anti-ditadura" foram montadas, uma pessoa má intencionada pode revertê-las. O emocionalmente instável mas amoroso e simpático Frazier nunca faria isto. Porém, podemos dizer o mesmo do resto da humanidade?Para alguém que defende a natureza neutra do ser humano (nem intrinsecamente bom ou ruim), ele depende demais da bondade humana.

E se estas técnicas estão disponíveis há tanto tempo, por que não foram usadas antes? Como as técnicas de "engenharia cultural" são a razão do sucesso de Walden II, é difícil de engolir que, com tantas pessoas brilhantes organizando utopias ao longo de toda a história, nenhuma delas teve sucesso. Parece arrogância de Skinner afirmar isto tantas vezes ao longo do livro.

Além de tudo isso, oss sentimentos negativos, como raiva e inveja, são parte integrante do ser humano há milênios, e alguns anos de condicionamento aboliram eles por completo? É difícil de engolir essa. Claro, um behaviorista diria que esta é uma "hipótese experimental", e que está aberta ao teste científico, o que, na língua deles, é apenas outro jeito de dizer "nós estamos certos, você errado", mesmo quando os dados experimentais provam o contrário.

Bem, acho que vou parando por aqui, antes que meus argumentos fiquem ainda mais bagunçados. Fiquei inspirado, contudo, a ler mais sobre utopias. A próxima vai ser "Horizonte Perdido", que fala de Shangri-lá.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Utopias


Apesar de ser algo tão distante quanto o horizonte, a perfeição sempre foi um dos maiores objetivos do ser humano. Realizar uma obra perfeita, e portanto eterna, é a meta de artistas, religiosos, cientistas, filósofos e pessoas comuns desde o mítico momento em que passamos a ver o universo através dos olhos de nosso pensamento. Desde então, estas cinco classes "ideais" de pessoas conceituam a perfeição de maneiras muito diversas. Porém, a todas elas de certa forma convergem no que poderia ser chamada de a mais antiga busca humana: a Utopia.

O termo "utopia" foi usado originalmente por Thomas More, em seu livro de mesmo nome, para descrever a sociedade ideal, onde a vida seria livre de problemas e seus cidadãos pudessem desabrochar e desenvolver seus potenciais até o mais elevado patamar. Apesar de ter sido o primeiro a usar a palavra "Utopia" neste sentido, ele não foi o primeiro a pensar neste conceito. Milênios antes dele, Platão escrevera "A República", que descreve como seria o governo perfeito, e mesmo antes dele, Pitágoras já estabelecera uma comunidade deste tipo. Depois deles e mesmo de More, poderia citar diversos outros casos reais, como Brook Farm, nos Estados Unidos, que reuniu vários escritores e intelectuais importantes da época, ou mesmo Canudos, aqui no Brasil, liderada por Antônio Conselheiro. Poderia citar muitas outras aqui, mas o que realmente importa é que, apesar de todas elas serem muito diferentes entre si, tanto em método quanto em população, todas elas buscavam constituir-se como modelo definitivo de agrupamento humano, onde o sofrimento seria abolido. Outra coisa que todas estas comunidades têm em comum é que nenhuma durou muito tempo. Não é para menos que More tenha usado a palavra "Utopia" como título de seu livro, pois significa "Lugar Nenhum".

A leitura de "Walden II" de B. F. Skinner me deixou particularmente motivado a escrever sobre utopias. No livro, que ainda  não terminei de ler, o autor descreve, por vezes de maneira excruciantemente detalhista, a também utópica comunidade de Walden II, liderada pelo psicólogo T.E. Frazier, que afirma que todas as tentativas anteriores de estabelecer sociedades perfeitas fracassaram por terem sido baseadas em idéias dogmáticas, sem comprovação científica e, assim sendo, incapazes de mudar quando necessário. Sua pequena vila, nomeada em homenagem à Henry David Thoreau e sua utopia solitária, estaria livre deste defeito, pois era um grande experimento de engenharia cultural em andamento, baseado nas mais modernas descobertas das ciências do comportamento e aberta à possibilidade de mudar seus princípios, se os dados empíricos confirmassem a vantagem de assim proceder. Além deste pressuposto central, Skinner expõe outras práticas interessantes para maximizar a produtividade humana sem pôr em risco a qualidade de vida, como a jornada de trabalho semanal de 24 horas (dá 4 por dia), a potencialização da produção artística e algumas idéias realmente curiosas em arquitetura e design de interiores.

Estou gostando bastante do livro, apesar de ter expectativas bastante negativas a respeito dele antes de começar a lê-lo. Ele não conta nenhuma história de fato, pois tudo o que os personagens fazem ou pensam a respeito é sobre Walden II e seu modus operandi, tornando-os bastante desinteressantes - se algum deles morresse e fosse substituído por qualquer outra pessoa, não faria diferença - e às vezes parece que estamos lendo algo mais parecido com um roteiro de programa educativo do que um romance. Mas, ei, é um livro do Skinner! Se você pegou para ler, já sabia desde o princípio que ele não ia ser um cara exatamente criativo, ou, em termos comportamentais, que seu repertório de escrita não é muito variado, e já devia esperar que seria um panfleto ideológico defendendo seu paradigma teórico, o Behaviorismo Radical. Feitas essas ressalvas mais "estruturais", vamos adiante.

Como disse antes, estou gostando de "Walden II", talvez não tanto por causa de suas teorias, mas por causa da atitude pragmática que envolve a gênese dessa utópica comunidade, de não ficar apenas no falatório academicista e pôr as coisas em prática. Quando Castle, filósofo da história cuja principal função é questionar Frazier, põe em dúvida alguma prática de Walden II, Frazier frequentemente responde com um "já testamos isso e dá certo" ou "ei, é um experimento! Se der errado a gente muda!", e isso me faz pensar, em alguns momentos, que um experimento desses poderia realmente dar certo na vida real (aliás, sei de algumas tentativas de criar Walden II na vida real que ainda perduram, mas não tenho muitas informações a respeito).

Contudo, tenho algumas críticas teóricas para fazer também. A primeira delas é que, se Skinner incluiu no livro um personagem que oferece um contraponto à Frazier e critica seu experimento em engenharia cultura, ele incluiu o personagem mais incapaz possível de fazer isto! Castle como filósofo incorpora o que há de mais dogmático e idealista em toda a Filosofia, e tudo que consegue fazer é dizer que "se não é ideal, não serve" e ter ataques de frescura. Até parece que Skinner desenhou sua personalidade no livro para mostrar que o Behaviorismo Radical está acima de críticas. Apesar de Castle ser peça crucial na história, acredito que teria sido muito melhor se, no seu lugar, tivesse ido para Walden II um mendigo psicótico, como o Dr. Hobo de VG Cats. A segunda é que Skinner, ao afirmar que todos os problemas da humanidade podem ser solucionados através de um ambiente controlado e reforçamento positivo, demonstra um profundo desconhecimento da própria espécie. Claro, quando questionado diretamente sobre a importância da genética e da hereditariedade no comportamento humano, ele nunca negou sua importância. O mesmo acontece no livro. Porém, parece que a importância destes fatores é apenas simbólica - em outras palavras, é como se Skinner dissesse "É elas são importantes, mas não importam".

Por fim, uma crítica derivada da segunda. Se todo o comportamento humano é definido de acordo com as contingências externas, as questões internas, como pensamentos, sentimentos e vontades humanas, são irrelevantes. Questiono se, para uma comunidade como Walden II dar certo, não seria necessário ter não só tecnologia comportamental de ponta, mas também seres humanos capazes de viver em tamanha harmonia.

E a busca pela Utopia continua para a humanidade.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Ponto Focal do Caráter

"... Tenho pensado muitas vezes que a melhor maneira de de definir o caráter dum homem seria investigar a atitude particular mental ou moral com a qual, quando ela lhe ocorra, ele se sinta mais profunda e intensamente desperto e ativo. Em tais momentos, há uma voz dentro que fala e diz: "Este é o meu Eu real!" E ao depois, considerando as circunstâncias em que o homem está colocado e notando como algumas delas se ajustam para evocar esta atitude, ao passo que outras não a evocam, um observador de fora poderia profetizar quando o homem fracassaria, quando teria êxito, quando seria feliz ou desgraçado. Tanto, porém, como eu a posso descrever, esta característica atitude em mim envolve sempre um elemento de tensão ativa, de sustentação própria, por assim dizer, e de confiança em que as coisas exteriores desempenhem o seu papel de modo a fazer disso uma inteira harmonia, mas sem nenhuma garantia de que a farão. Ponham-le a garantia - e a atitude se torna imediatamente estagnante e inestimulante para a minha consciência. Tirem-lhe a garantia, e eu sinto (contanto que esteja überhaupt, em condição vigorosa) uma espécie de profundo entusiasmo, de vontade acre para fazer sofrer qualquer coisa, que se traduz fisicamente por uma espécie de dor picante dentro da armadura óssea do meu peito (não se riam disto - é, para mim, um elemento essencial de tudo isso!) a qual, apesar de ser um mero humor ou emoção que não posso exprimir por palavras, torna-se autêntica para mim como princípio mais profundo de toda a determinação ativa e teorética que eu possuo..."

Adaptado de A Filosofia de William James

terça-feira, 21 de abril de 2009

Heróis da Força

O Brunão escreveu recentemente um post muito inspirado intitulado "Arte, Quadrinhos e Revolução". Neste texto, ele relata sua experiência com HQs e mangás, que o inspiraram a viver a vida como uma grande aventura, cheia de desafios heróicos para vencermos. Ele também faz uma breve reflexão sobre qual o propósito das histórias em quadrinhos, especialmente na civilização ocidental, que tem sido até então quase que exclusivamente mercadológico, e o que elas poderiam inspirar de superior em nós.

Como meu amigo, posso relatar uma experiência similar de elevação moral com o legendarium de Star Wars. Esta história, que começou na década de 1970 com um filme, não pode atualmente ser mais chamada de "série", pois cresceu de tal maneira, envolvendo desde produções cinematográficas, programas de TV, histórias em quadrinhos e jogos, que fazê-lo seria mutilar sua beleza. Também não é mais possível chamá-la de "franquia": apesar dos direitos autorais sobre os personagens e lugares criados por George Lucas ainda estarem firmes e fortes em suas mãos (fazendo-o lucrar milhões), eles próprios já não os pertencem mais - por que, apesar de terem sido inspirados em várias outras figuras históricas ou lendárias, tornaram-se parte de uma mitologia plena e viva, que inspira milhões de pessoas ao redor do mundo, por verem ali, naquela tela de cinema ou naquela revista em quadrinhos, no sofrimento de Anakin Skywalker ou na sabedoria de Obi-Wan Kenobi, alguma coisa extremamente importante e bela, e que também faz parte de suas vidas. Estes símbolos universais, arquétipos, não pertencem a ninguém, pois estão no domínio daquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. Pouco me importa se a Psicologia Analítica por ele criada seja empiricamente válida ou não - tudo que me importa é que, a maneira romântica e poética como ele definiu a natureza humana ressoa profundamente dentro de mim, e de algum jeito faz sentido, mesmo que eu não a entenda perfeitamente.

Desta mitologia moderna, o fragmento que mais teve impacto, seja em mim ou no resto do mundo, foi a Sagrada Ordem dos Cavaleiros Jedi. Apesar de ser uma tarefa homérica numa história fantástica como Star Wars alguma coisa chamar mais atenção do que o resto, é um tanto quanto fácil entender por que os Jedi recebem tanta atenção, com seus poderes de levitar objetos com o poder da mente, antever o futuro, lutar com seus sabres de luz com velocidade e potência sobrehumanas e muitas, muitas outras coisas - tudo com o auxílio da misteriosa Força. Na minha infância, nas primeiras vezes que assisti a Antiga Trilogia, foi exatamente isso que mais me impressionava. Quem não gostaria de ser um Jedi, e fazer tudo isto também? Porém, com o tempo, fui gradativamente percebendo que o grande poder dos Jedi, como seu aspecto assombroso, não eram suas habilidades incríveis, mas alguma coisa além delas. No começo, não era muito bem capaz de descrever o que seria este "algo além", mas cada vez mais aprendendo sobre ele, senão com a mente, com o coração. Fui percebendo que, aqui, nesse nosso mundinho tão sem poderes e tão sem graça, existiam pessoas com este "algo além" - que agem com compaixão, bondade, coragem, justiça, altruísmo e amor, e cuja simples presença pode acalmar o espírito mais inquieto. O "algo além" que caracteriza a essência Jedi não é um poder mágico inalcançável, e sim um poder mais do que moral, mais do que ético: é um poder espiritual. A mais poderosa e bela cena dos filmes da Antiga Trilogia, pelo menos na minha opinião, é a de Yoda descrevendo a natureza da Força para Luke Skywalker, em "O Império Contra-Ataca". O que ela tem de especial? Visualmente, não há muitos efeitos especiais, exceto o tosco boneco verde que representa o pequeno grande mestre. Mas eis que o poder dela não reside no que se vê, mas no que se sente! Ali, Yoda não faz apenas uma descrição da Força como um botânico descreveria uma flor, mas deixa brotar do fundo de seu ser como ele vive e sente a Força, e como através dela ele sente-se conectado com todo o universo. Extrapolando desta cena para a série de cinema como um todo, é isto que faz a Antiga Trilogia ser tão melhor do que a Nova Trilogia - o quanto os filmes falam diretamente com o que há de mais profundo e divino em nós. As duas contam a jornada de um herói da família Skywalker, suas provações e seu destino final. Ambas, de certa forma, tratam do destino de todos nós, seres humanos, mas os últimos filmes são por demais materialistas e politiqueiros, pondo de lado o espírito que fez os filmes antigos tão emocionantes. Claro, precisamos levar em conta o Zeitgeist (espírito do tempo, em alemão) em que cada Trilogia foi concebida - a Antiga, durante o auge do movimento Hippie e de seitas religiosas, e a Nova, durante a II Guerra do Golfo e o muito criticado Governo George W. Bush.

Contudo, apesar de acreditar que é o apelo espiritual que fez e faz de Star Wars um enorme sucesso, tenho visto com mais frequencia que o que mais chama a atenção das pessoas que vão aos cinemas ou baixam da internet assistem às séries são os efeitos especiais, e, mesmo quando a filosofia dos guerreios da Força as comove, elas não parecem acreditar que também podem pautar sua vida por ela e, assim, também serem Jedi. Como bem disse o Brunão, é mais fácil encontrar um admirador do Seiya do que alguém que sustente o sonho de realizar todo seu potencial humano. Apesar dele não ter falado em nenhum momento de seu texto em "potencial humano", mas sim em "super-herói", não faço distinção entre essas duas coisas. Talvez, por trás desta fixação material ou apatia espiritual, haja mais do que desinteresse pessoal, mas uma questão cultural de nossa época. Como disse Maslow, em 1968:

"Todas as idades, exceto a nossa, tiveram seu modelo, seu ideal. Todos eles foram abandonados pela nossa cultura: o santo, o herói, o cavalheiro, o místico. Quase tudo que nos resta é o homem bem ajustado, sem problemas, um substituto muito pálido e duvidoso"

É preciso admitir que, nos 41 anos que nos separam da época em que este parágrafo foi escrito, muitas coisas mudaram, especialmente no que diz respeito ao estudo científico dos aspectos positivos da natureza humana, com o movimento da Psicologia Positiva e suas pesquisas em Bem-Estar Subjetivo e Florescimento, e, talvez, como Maslow diz imediatamente após a parte que citei,

"estejamos aptos em breve a usar como nosso guia e modelo o ser humano plenamente desenvolvido e realizado, aquele em que todas as suas possibilidades estão atingindo o pleno desenvolvimento, aquele cuja natureza íntima se expressa livremente, em vez de ser pervertida, desvirtuada, suprimida ou negada."

Ainda assim, mesmo nos atuais modelos teóricos do desenvolvimento humano superior, sinto que falta algo de muito importante - o mesmo que sinto faltar na Nova Trilogia de Star Wars. De maneira um tanto quanto romântica, digo que prefiro ser um cavaleiro Jedi à um indivíduo florescente.

Dignidade humana?

De um certo ponto de vista, a Psicoterapia é uma profissão um tanto quanto engraçada. Não por que a existência humana seja uma comédia sem sentido como querem os nihilistas ou o sofrimento e angústia de nossos pacientes seja ridícula, mas por que os motivos que trazem as pessoas aos consultórios de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, que os fazem sofrer, geralmente são tão insignificantes que é possível rir deles, se podemos nos colocar a uma certa distância.

Eu vejo isso com meus pacientes adolescentes, entre 15 e 17 anos. Não sou tão mais velho do que eles - poderia até dizer que acabei de me formar na escola da adolescência - e as memórias do que me causava angústia três ou quatro anos atrás ainda estão vivas o suficientes para serem fortes, mas longínquas o bastante para serem vistas por outro ponto de vista, mais maduro (espero eu). É bem comum esses pacientes, especialmente durante uma entrevista inicial, ao falarem das brigas em que se meteram em casa, na rua ou em alguma festa, dizerem "eu não me importo com o que os outros pensam: a vida é minha e eu faço o que quero" como se fossem absolutos senhores de si. E, então, quando eu pergunto por que então eles brigaram, me respondem que a mãe o chamou de idiota, o cara na parada questionou a dignidade de sua irmã e sua mãe ou que aquele outro passou a mão na guria dele. Para quem "faz o que quer" e "não se importa com o que os outros pensam" é uma atitude um tanto quanto preocupada com a opinião alheia.

Psicoterapia também é um trabalho delicado. Pode ser óbvio para mim que se eles se importassem menos com o que os outros acham eles estariam sofrendo muito menos, mas para eles, o sofrimento é sinônimo de ter fama de bicha, frouxo ou qualquer coisa assim. Sei disso por que até não muito tempo atrás também eram estas as coisas que mais me assustavam. Também pode ser óbvio para mim que é muito engraçado alguém dar como justificativa para quebrar o nariz de alguém "eu tô pouco me lixando para o que os outros pensam. Além do mais, ele tava olhando torto pra mim", mas para eles, é perfeitamente normal e absolutamente sério. De que adiantaria simplesmente dizer essas coisas para quem não está preparado para ouví-las? Dizer as coisas mastigadas todo mundo faz, e não adianta nada, como aqueles programas para elevar a auto-estima das crianças bem comprovam. Estes adolescentes precisam passar por todo um processo de expansão da consciência, e perceberem por si próprios, como num estalo, o ridículo da situação. É esta expansão da consciência que todo modelo de psicoterapia busca causar em seus pacientes. Claro, muda-se o enfoque de acordo com o psicoterapeuta e sua linha teórica, mas o resultado acaba sendo muito parecido. O método socrático, usado principalmente nas terapias cognitivo-comportamentais, busca, através de perguntas, fazer com que a outra pessoa pense de formas não-convencionais sobre um assunto normal para ela, e o veja de outro ângulo, mais distante, menos sofrido e mais engraçado. Se este objetivo for atingido, pronto! Posso considerar meu trabalho como feito, por que, pode ser que meu paciente sofra novamente no futuro por causa da mesma coisa, mas será então capaz de perceber que aquilo ali é bastante engraçado se se prestar atenção, e parará de sofrer ali mesmo.

Não sei se esta é uma generalização correta, mas creio que todos os sofrimentos psicológicos decorrem disto que poderia se chamar de uma "ultradignificação de si próprio": nos cremos tão importantes para o universo que nos achamos superiores ao ridículo e ao sofrimento. Mas passamos vergonha e sofremos, e sofremos ainda mais por que achamos que não deveria ser assim. Somos, como dizem os nihilistas pós-modernos, insignificantes como poeira para o universo, ou animais com estratégias de sobrevivência que permitem construir foguetes como diria um biólogo, e poderíamos facilmente nos sentirmos mal por causa dessas afirmações. Mas e daí que somos? É indigno sermos o que somos? Nenhum outro animal se preocupa com isso. As lesmas são lesmas, mas nem por isso elas sofrem de depressão! Viver com um pouco menos "dignidade" e um pouco mais de humor certamente nos faria muito bem.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Notas sobre Psicologia Positiva

A Psicologia está mudando muito, e rápido. Quem quer que esteja interessado nos aspectos positivos da natureza humana encontrará uma vasta literatura, desde livros publicados até artigos indexados em sites como o Scielo ou o Portal de Periódicos da CAPES, cujo assunto principal é a Psicologia Positiva, o estudo das virtudes e forças de caráter dos seres humanos. Trinta anos atrás, isto seria na melhor das hipóteses um sonho distante.

Contudo, apesar disso, não significa que não fosse possível já naquela época encontrar alguma coisa a respeito deste assunto, pois autores como Erich Fromm, Carl Rogers e Abraham Maslow estavam no auge de suas carreiras, desbravando estas áreas que hoje vemos florescer. Gosto muito destes três autores que citei, mas o que mais me impressionou e cativa é o terceiro, o velho Maslow, que em suas obras deu vôos filosóficos ousados e inovadores. Na Psicologia acadêmica e nas faculdades de Administração, ele é mais conhecido por sua Teoria da Motivação Humana, frequentemente representada por uma pirâmide de necessidades. Contudo, se posso fazer isto, digo que sua maior contribuição para a ciência foram seus apontamentos sobre Auto-Atualização: a necessidade humana de transcender a si mesmo e crescer.

A Auto-Atualização, tal como muitos outros conceitos desenvolvidos nos anos 1960 pelos teóricos humanistas, passou por uma revitalização nos anos 1990 e 2000 e voltou a ser pesquisado pelos psicólogos positivos, mas com o nome de “Flourishing”, que poderia ser traduzido para português como “Florescer” ou “Desabrochar”. Um nome muito bem escolhido, diga-se de passagem.

Há uma semelhança em particular entre estas duas teorias que gostaria de ressaltar: a maneira como saúde e doença são encaradas por ambas. Maslow acreditava que a clássica divisão cartesiana entre o que é saudável e o que é patológico muito ineficiente, por depender demais em definições arbitrárias do que é bom e o que é ruim para uma pessoa, além de todo o histórico destas duas palavras. Para substituí-las, Maslow propôs o conceito de “Humanness”, um termo cunhado por ele próprio, que poderia ser entendido como “Nível de Humanidade”: quanto mais “humano” for alguém, mais feliz, desenvolvido e, enfim, saudável será uma pessoa, e quanto menos “humano”, mais infeliz, atrofiado e patológico. Ele defendia que a principal vantagem deste modelo era a possibilidade da criação de escalas psicológicas, capazes de medir objetivamente quão “humano” uma pessoa é.

Isto foi feito de fato pela moderna Psicologia Positiva, com o “Continuum de Saúde Mental”, cujos extremos são o Desabrochar (Saúde Mental) e o “Languish” – Fenecer, Decair (Psicopatologia). Esta escala leva em conta dois grandes fatores: a presença de aspectos positivos na vida de uma pessoa, tal como afeto positivo, rede social efetiva, sentimento de autoeficácia e sentido na vida, e ausência de aspectos negativos. Estes dois fatores, ao contrário do que poderia se imaginar, são completamente diferentes e não são extremos de um mesmo continuum. Claro, eles se correlacionam de forma negativa, mas é possível estar feliz e triste ao mesmo tempo.

Segundo uma pesquisa realizada recentemente, cujos resultados foram publicados no artigo “The Mental Health Continuum - From Languishing to Flourishing”, cerca de 17% da população dos EUA enquadra-se nos critérios de Florescimento, 56% como moderadamente saudáveis e não apresentando doença mental, e 18% como fenecendo (sendo que cerca de 4% apresentam comorbidade de Depressão Maior). Em outras palavras, quase 20% da população dos EUA está em franco processo de “tornar-se pessoa”, para citar o livro mais famoso de Carl Rogers, enquanto 17% segue o caminho contrário, de encolhimento existencial, e mais da metade da população fica no meio-termo: não está doente, mas está só um pouco saudável. Indiferentemente se estes são números positivos ou negativos para a nação estadunidense, fica a pergunta: quem são as pessoas que se enquadram nestes 20%?

Maslow fazia uma diferenciação entre dois tipos de pessoas auto-atualizantes: os comuns e os transcendentes. A diferença entre estes dois tipos reside na quantidade e na qualidade das experiências culminantes, sentimentos de plenitude e estados de consciência mais elevados e êxtases místicos, por eles vivenciadas. Os primeiros são pessoas boas, que cultivam boas relações e progridem em termos humanos, mas não vão muito além disso. Os segundos, por outro lado, muitas vezes foram considerados como sobre-humanos, seres tão desenvolvidos que parecem pertencer a outra espécie que não a Homo sapiens. Em outras palavras, são os santos, os heróis e os gênios; os Gandhis, os Lincolns e Einsteins. Como eles se tornam o que são, e como diferenciá-los dos 20%? Maslow acreditava que só 3% de toda a população do mundo atingia este patamar de Auto-Atualização. Identificá-los e estudá-los talvez não seja tarefa da Psicologia Positiva, mas de uma Teologia Empírica, tal como descrita por Aldous Huxley no prefácio de “A Filosofia Perene” – a Ciência da Iluminação Humana.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Alquimia do Estágio

Na sociedade ocidental contemporânea (ai, que clichê essa introdução!), os jovens geralmente passam boa parte de suas vidas estudando, e ao longo deste percurso, enfrentam muitas mudanças e crises de identidade, como diria o velho Erik Erikson. Em relação à escola, a primeira crise é quando começamos a freqüentar o jardim-de-infância ou a creche, e pela primeira vez conhecemos pessoas que não são nossos parentes. Depois, vem a 1ª série, o ensino médio, o vestibular, o começo da faculdade e o começo dos estágios. Pois é, caros amigos, como vocês bem sabem, estou enfrentando esta última crise.

Considero a “crise de estagiário” qualitativamente muito diferente de todas as outras crises que a antecederam. Quando se entra no ensino médio, faz o vestibular ou começa a faculdade, apesar da mudança de contextos e cobranças, você continua fazendo a mesma coisa – estudar. Pode ser que o 1º ano do ensino médio seja mais difícil que a 8ª série do ensino fundamental, que o vestibular exija que você decore muita coisa irrelevante (por exemplo, que Frederico Westphalen é uma cidade produtora de jóias semipreciosas) e que na faculdade você tenha que estudar assuntos muito mais específicos do que história, matemática ou geografia, mas, em essência, para superar todas estas crises a estratégia é a mesma: ler livros, fazer anotações em aula, tirar dúvidas com os professores e colegas. Quando você começa a estagiar, isso tudo, apesar de continuar importante, torna-se insuficiente, pois sua competência e aprendizado não serão medidos por provas e testes, mas na prática, atendendo pacientes, melhorando a vida deles, fazendo o que é necessário. E isso é muito mais complicado do que dissertar sobre a natureza do Self, ou discutir os aspectos teóricos das crenças centrais. De certa forma, é um pouco como ir para a escolinha pela primeira vez, com a diferença que, agora, seus erros influenciam muito mais pessoas do que seus coleguinhas, seus pais e as “tias”.

Como já disse por aqui, esta sensação de desamparo é tão grande, que quando confrontei meu primeiro paciente, pensei “tudo que estudei foi para nada!”, pois senti-me absolutamente despreparado para fazer qualquer coisa. Naquele momento, pareceu extremamente verdadeiro dizer que ler não adiantava para nada, mas esta afirmação não se sustenta diante de uma análise cuidadosa e honesta, como percebi alguns minutos mais tarde. Os estudos não me prepararam para trabalhar, mas onde e como eu estaria se não tivesse lido absolutamente nada, exceto o básico para passar nas disciplinas da faculdade (e que não é tanto assim)? Acho que é razoável dizer que eu estaria ainda mais perdido e fazendo estágio num lugar cagado como a Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS ou no CAP-SOP.

Não, para quem enfrenta os estágios, as leituras são ainda mais fundamentais. Eu poderia cair na falácia de dizer que quem começa a trabalhar deve descobrir o que funciona e o que não funciona tudo por conta própria, que a teoria não funciona na prática e que estudar é perda de tempo. Mas não vou fazer isso. Teorias são sínteses das experiências de outras pessoas, e não ler a respeito delas é jogar fora o conhecimento acumulado por outras pessoas muito boas que se dignaram a dividi-lo. Mas o problema todo não é ter conhecimento sobre o que fazer no estágio (se fosse, os filósofos teriam emprego garantido), mas saber o que fazer. Essa diferenciação entre “saber” e “conhecimento”, e a relação entre “saber” e “poder” foi descrita por Michel Foucault, pensador francês e careca. Só agora percebo o valor do que ele diz (aliás, teria esquecido completamente dele, se não fosse o Brunão me lembrar dele ontem, conversando entre um paciente e outro).

Tenho visto, nestes dias como estagiário, que conhecimento e saber são duas coisas distintas, mas intimamente ligadas – lendo eu tenho idéias sobre que intervenções fazer em uma consulta, e aplicando-as, vejo quais idéias são boas, quais não são e com quais eu trabalho melhor. Outra conversa com outra pessoa, a Mariza, psicóloga (já formada) do ambulatório pode ilustrar melhor o que quero dizer. Em um dado momento, quando ia pegar uma folha de papel para escrever alguma coisa durante uma consulta, nos esbarramos no corredor, e ela me pergunta “precisa de alguma coisa?” – perguntei se ela não teria um pouco de experiência para vender (tipo o Tome of Experience do Warcraft III, que seria realmente útil na vida real). Ela me respondeu citando um psicanalista cujo nome já esqueci que disse que, com o tempo, as nossas leituras iriam se amalgamando em nós mesmos. Achei essa uma metáfora muito bonita, e que resume bem a maneira como penso a relação entre teoria e prática.

Transformar o conhecimento em saber, aplicar a teoria à prática, especialmente em uma profissão como a Psicologia, é um processo extremamente pessoal, ao mesmo tempo simples e difícil. De forma poética, poderia dizer que é um processo alquímico, onde precisamos transformar o chumbo de nossos estudos no ouro de nossa prácita. É bom poder conversar com professores e outros psicólogos com experiência clínica (mesmo psicanalistas), pois eles podem dar idéias interessantes e nos ensinar novas maneiras de encarar um problema. Mesmo assim, eles não vão estar lá conosco quando atendemos um paciente particularmente complicado, e como vamos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo em saber ainda é problema nosso. E eu tenho pilhas de chumbo aqui para transformar em ouro.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Post Obrigatório sobre Big Brother

Depois de escrever um post enquanto assistia a novela, escrevo agora um outro post, dessa vez assistindo "Big Brother Brasil". Sinceramente, acho que este programa é subvalorizado pela academia. Um estudo psicológico sobre os traços de personalidade das pessoas que participam dele deveria ser feito. Tenho a hipótese de que 90% deles seriam considerados patologicamente egocêntricos.

sábado, 29 de novembro de 2008

Uma conversa sobre a importância da Psicologia

O texto que segue é uma formatação mais bonitinha de uma conversa que tive com uma amiga e colega de curso, a Pri. Quisera eu ter tido essa conversa antes de entregar meu trabalho de Ética, pois nele são expressas idéias que há tempos tento formular. Agradeço à Pri por me deixar publicar nossa conversa e, obviamente, por tê-la construído comigo. Para os mentalmente lentos, Heart of Sword sou eu, Pri Zorzi é minha amiga, e colori as nossas falas de forma diferente para nos diferenciar. Lá vai:

Pri Zorzi diz:
Ah, essa fala-vômito...

Heart of Sword diz:
Tô fazendo uma fala-meio-vômito agora, no sentido que não paro de digitar. Tô elaborando o que diabos me irrita nele.

Pri Zorzi diz:
Eu to tentando pensar também. Mas falei fala-vômito no sentido de que fede, é nojento, e de onde veio essa sempre tem mais. E uma fala-vômito não raro incita outras...

Heart of Sword diz:
Ah sim, da mesma forma que uma fala inteligente estimula outras (Mas que pode também ser soterrada por vômito, como aconteceu com uma pergunta que eu fiz na aula de Ética e que foi sumamente ignorada, apesar de sua genialidade).

Pri Zorzi diz:
Huahuahua... Que pergunta era? (e não te esqueça que a aula era Ética, aonde falas-vômito ganham um bônus +4)

Heart of Sword diz:
Pra que servem os psicólogos, e por que não deixamos tudo na mão dos psiquiatras?

Pri Zorzi diz:
É uma boa pergunta, mas tu acha mesmo que psicólogos são desnecessários?

Heart of Sword diz:
Se eu achasse que a Psicologia é desnecessária, eu já teria largado o curso. Pra falar a verdade, acho que ela é muito útil, necessária, até, só que eu queria ver o que meus colegas iriam dizer. Não foi uma provocação, foi um chute na boca do estômago da turma pra fazer ela falar... Ou pelo menos deveria ter sido, considerando que a única resposta direta à pergunta foi uma colega minha choramingando que a gente é muito submisso aos médicos.

Pri Zorzi diz:
Eu sei, e eu acho que daria uma excelente discussão. O pessoal às vezes tem medo de pensar a utilidade do curso, talvez com medo de constatar que a Psicologia pode ser suplantada por outras coisas. Mas as pessoas da turma normalmente ignoram perguntas assim. Todas as turmas.

Heart of Sword diz:
Não tinha formulado dessa maneira. Eu pensei que era mais uma coisa de "naturalizar" a importância do psicólogo, como se a importância da Psicologia fosse como a importância do ar ou da água pra humanidade, pedantismo.

Pri Zorzi diz:
É que todo mundo sabe que a Psicologia esbarra em várias outras áreas do conhecimento. O que eu acho muito natural, visto que os possíveis "objetos de estudo" da Psicologia são abrangentes, mas acho que as pessoas tem muito medo disso. Eu acho Psicologia super importante. Mas eu prefiro um psiquiatra bom do que um psicólogo ruim. Pra qualquer função.

Heart of Sword diz:
A Psicologia não tem um objeto de estudo ou área que seja só dela.

Pri Zorzi diz:
Claro que não. E por que deveria? Pra assegurar mercado de trabalho, só se for.

Heart of Sword diz:
Não acho que deveria.

Pri Zorzi diz:
Eu sei que tu não acha. Se achasse não teria problematizado a questão, mas muita gente acha, creio eu.

Heart of Sword diz:
É que fica uma coisa meio... "se outros podem fazer, psicólogo não é necessário de verdade". O que, claro, não é verdade, mas a sensação fica.

Pri Zorzi diz:
Algum professor em algum momento comentou (lamento não lembrar mais) que basta a gente ser bom no que faz que sempre vai ter trabalho pra gente. Acho que Psicologia é antes de tudo um olhar diferenciado.

Heart of Sword diz:
Esses tempos eu pensei em um exercício filosófico interessante para identificar a importância da Psicologia. Imagina que cai um avião no meio da Amazônia com um engenheiro, um médico, um militar e um psicólogo (todos sobrevivem, só pra constar).

Pri Zorzi diz:
(sim, imagino)

Heart of Sword diz:
Os três primeiros tem funções óbvias no grupo: descobrir um jeito de voltar pra casa, cuidar da saúde do grupo, caça e proteção. E o psicólogo, o que faz? (Um podia ser um zumbi, mas isso não vem ao caso).

Pri Zorzi diz:
Cuida da alimentação, oferecendo seu corpo para ser devorado pelos demais (Subitamente imaginei uma tese de mestrado: "Um psicólogo zumbi seria melhor que um psicólogo comum? Um paradigma ético-estético do mundo capitalístico contemporâneo").

Heart of Sword diz:
Pôr todo mundo sentado em círculo para analisar a dinâmica do grupo? (A professora de Ética e sua dietética poderia cuidar da alimentação. Exceto se ela fosse um zumbi. Daí ela comeria cérebros e deu).

Pri Zorzi diz:
Acho que isso bate um pouco no estereótipo de psicólogo como uma pessoa com cérebro de ameba que faz todo mundo dar as mãozinhas e se sentir melhor. Sério, pra algumas pessoas psicólogo é a mesma coisa que padre. Isso me dá nos nervos.

Heart of Sword diz:
Acho que, nessa situação, o psicólogo poderia trabalhar para manter o grupo coeso. A experiência como um todo é estressante: no meio do mato, com fome, longe de casa, com gente estranha... E, se ele for bem sucedido, pode garantir a cooperação do grupo e, consequentemente, sua sobrevivência.

Pri Zorzi diz:
Sim, foi o que eu pensei... Parece o tipo da situação aonde seria necessário um psicólogo...

Heart of Sword diz:
Isso é tri importante. Qualquer pessoa poderia tomar esse papel para si, mas ter uma pessoa que trabalha exclusivamente com isso é muito melhor (eu imagino). Só que, ao mesmo tempo que é importante, também é ignorado, por que psicólogo "é coisa de puto" ou "charlatão".

Pri Zorzi diz:
Acho que é ignorado por que todo mundo pensa que sabe fazer... Sabe, no estágio de escolar agora eu aprendi bastante coisa sobre a função de um psicólogo. É impressionante como numa escola todo mundo demanda uma escuta: direção, professores, alunos, pais... Todo mundo tem problema pra cacete. Claro, qualquer um poderia oferecer essa escuta, mas eu acho que a gente é treinado pra oferecer uma escuta mais qualificada. É isso o que a maioria das pessoas esquece. Parece que todo mundo nasce meio psicólogo e que a gente passa cinco anos na faculdade catando coquinho.

Heart of Sword diz:
Acho que algumas pessoas leigas poderiam se sair tão bem quanto um psicólogo nesse papel, mas são poucas.

Pri Zorzi diz:
Sim, concordo, tem gente que tem uma sensibilidade natural, sei lá... Mas são poucos. Acho que isso é desvalorizar o saber do psicólogo: achar que qualquer um pode fazer isso. E é muito engraçado que as pessoas acham que tu sabe horrores só por ser psicólogo... Tipo, elas pensam que é só dizer o nome e o psicólogo já pode dar o perfil completo (bom, alguns psicanalistas fazem isso, mas...).

Heart of Sword diz:
Olha, pra ser franco, acho que isso tem seu fundo de verdade - a gente é treinado pra prestar atenção em coisas aparentemente irrelevantes e desconexas e a ligar os pontos entre elas... Daí parece meio mágico. Mas é um troço complicado, e muitos erros acontecem nesse processo.

Pri Zorzi diz:
Pois é, o problema é que as vezes as pessoas esperam muito desse processo. Tipo um professor que te encaminha um aluno e espera que depois de uma ou duas consultas já se note a diferença.

Heart of Sword diz:
Ou o clássico caso da pessoa que tu conhece na festa que, quando fica sabendo que tu é estudante de psicologia diz "tu não tá me analisando?" ou "interpreta esse meu sonho? [segue relato de como ele sonhou que um bisão estuprava sua vó]".

Pri Zorzi diz:
Hahahahahahaha... É, por aí.