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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cemitério de Sonhos

Hoje me bateu uma tristeza. Quando eu entrei naquela sala, tão cheia de lembranças, tão prenhe de sonhos, tão contaminada de ideais, e vi tudo aquilo que morrera, percebi que uma parte de mim morreu também. Aquela sala não era só uma sala - era um ser vivo, dotado de vontade própria, que também sonhava e sentia, e que, de alguma maneira bizarra, servia como exemplo para todos nós. Que restou daquilo tudo? Onde antes havia uma anarquia criativa, hoje só resta um caos nihilista, egocêntrico, preocupado com o próprio umbigo. Por que tanta beleza tinha que morrer? Enquanto seco as lágrimas que não chorei, espero: espero pelo dia em que tudo se resolva, as flores nasçam outra vez e aquela sala deixe de ser um vaso de contemplação inútil e se encha de esperança de novo, como costumava ser. Mas antes que este dia chegue, deixo que a tristeza me consuma, e me limpe de toda essa sujeira que me rodeia nessa sala, nessa sala que já foi tudo, e que hoje não é nada. Que a tristeza me limpe e me transforme, e eu seja capaz de passar por isso sem sofrer novamente.


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Texto ruim talvez, incompreensível com certeza. Publico ele mesmo assim, por que me parece ser necessário, considerando o que eu vi hoje. Alguns aqui talvez entendam e compartilhem essa dor.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Vida Dura (Parte 27)

Notei que, quando se passa muito tempo viajando pelo exterior, especialmente mochilando, costuma-se perder a noção do que acontece em sua terra natal. Algum leitor mais sarcástico, ao ler esta última frase, provavelmente soltará um sonoro "Bazzinga!" por causa da obviedade de minha afirmação. Claro que, quando se esta viajando em um país estrangeiro, se perde a noção do que acontece em casa, por que, para começo de conversa, não se tem mais acesso aos mesmos meios de comunicação, e se tem, eles custam muito mais caro (tentem ler sua Veja toda semana dormindo todas as noites em uma cidade diferente e viajando por 15 horas em ônibus sem banheiro). Entretanto, quando digo isso, não estou pensando nos escândalos políticos que assolam Brasília, ou nos ensaios de escola de samba onde a Nana Gouveia mostra a calcinha, mas nas coisas mais sutis.

Estou pensando na música.

Pois, vejam bem, quando se viaja, você pode pensar "eu deveria ter trazido meu MP4" ou "eu preferia estar ouvindo Queen ao invés dessa música sobre cereais", mas nunca, NUNCA se pensa "qual será a música que está bombando no carnaval esse ano?" Há um motivo para as coisas serem assim: essas músicas são irrelevantes. Tudo nelas é repetitivo, retardado e fácil de lembrar, e é justamente por isso que elas "bombam" - não há como esquecê-las. Por sorte, quando chega acaba o carnaval e o verão, elas vão para o mesmo lugar que os mosquitos no inverno e somem de nossa memória, para, na próxima temporada de praia, quando pancadões dançantes são tão ou mais necessários do que caipirinha, serem substituídos por outra música igualmente irritante.

Enquanto eu estava na Bolívia, eu esqueci da existência desse fenômeno. Para mim, naqueles dias no altiplano andino, o Brasil era apenas uma terra distante, ainda que fosse a minha terra, e tudo que lembrava dela eram as pessoas que me eram caras. Isto é, até o dia em que eu voltei para Caxias do Sul, e meu pai fez questão de pegar seu celular, dizer "olha a música que tá fazendo o maior sucesso agora" e por Rebolation para tocar. Foi ali que me caiu a ficha e eu pensei: é, tô de volta ao Brasil. Passara os últimos dois meses ouvindo coisas que dificilmente classificaria como "boa música" (vocês sinceramente pensaram que eu inventei a história de "música sobre cereais"?), mas era uma coisa muito, muito diferente do que encontrei por aqui quando voltei. O "cancionário" boliviano e peruano está longe de ser algo de alta qualidade, porém tinha um ar mais honesto, como se realmente fizesse parte da cultura local. "Rebolation", por outro lado, é bem diferente. Primeiro, ela me parece ser o equivalente musical do crack - todo mundo sabe que ele destrói o cérebro e o corpo de quem usa, só que, depois que se provou (ou ouviu) uma vez, a gente já se perdeu no vício e precisa buscar logo a próxima dose. Só hoje, eu ouvi essa música do demo umas três ou quatro vezes.

E mais do que essa qualidade viciante, Rebolation tem algo mais. Eu não sei o que é, só que toda vez que eu ouço a música ou quando eu vejo o clipe, tenho uma estranha sensação de prazer. Não consigo descrevê-la muito bem, exceto que é o tipo de prazer que alguém sentiria de assistir um trem lotado de passageiros desacarrilhar, pegar fogo e explodir em câmera lenta: é algo horrível e que provavelmente vai te deixar traumatizado, mas tu quer perder um segundo sequer da ação. Olhando todas aquelas pessoas dançando no mesmo ritmo alucinado, gritando "rebolation é bom bom bom!" traz à minha consciência imagens ancestrais, dos bacanais e de todos rituais alucinados do passado, e a figura não tão ancestral do terceiro filme de "O Senhor dos Anéis", onde o Regente de Gondor grita para seus súditos que tudo está perdido, com a diferença que, na minha cabeça, ele grita "é a decadência, é a decadência, seus macacos sem livre arbítrio!", e que não há nenhum Gandalf para nocauteá-lo com um tacape branco e botar ordem no chiqueiro outra vez. Sim, é o prazer mórbido de ver tudo reverter à selvageria, querer fugir porém não conseguir, e rir ao invés de chorar por que é mais produtivo.

Algum cético, ao ler isso aqui, provavelmente pensará "meu Deus, tudo isso por causa de uma música ruim?". E ele provavelmente está certo. Eu vou dormir. Pensando que o Rebolation é bom bom bom.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Expedição Andina - O Retorno

Pois é, caros amigos, voltei. Neste momento, estou na sala da casa de meus pais, em Caxias do Sul, lendo um livro e ouvindo um pouco de música. E apesar de todo este conforto, a sensação de ter que sair daqui em cinco minutos para pegar um ônibus qualquer para outra cidade e o sotaque castelhano ainda não me abandonaram. De certa forma, continuo viajando, pois sinto ter voltado para um país completamente diferente. Algo mudou, e é muito provável que tenha sido eu.

Em todo caso, apesar de todas as mudanças e diferenças, voltei, não só para o Brasil como também para o blog. Por isso, dentro em breve, voltaremos à velha rotina de textos filosóficos, relatos cotidianos e reclamações incoerentes que tanto caracterizam este lugar. E, como vocês podem imaginar, pelo menos alguns destes textos serão sobre minha aventura pela América Latina.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

As Histórias da Expedição Austral - Nossas Idiossincrasias Lingüísticas

Apesar da linguagem ser um desenvolvimento evolutivo relativamente recente, é razoável dizer que o Homo sapiens é um animal verbal. Em outras palavras, isto quer dizer que o ser humano inventa palavra para tudo que é porcaria que ele conhece e/ou inventa. Para dar um exemplo disto, vamos imaginar que voltamos no tempo, e que agora somos Vikings, navegando em um navio com cabeça de dragão, procurando terras para pilhar e usando capacetes com chifres mesmo que os vikings de verdade nunca tenham feito isto. Agora, pensem que nosso navio atracou em uma praia desconhecida, porém muito bela do hemisfério sul. No melhor espírito aventureiro, nós descemos do navio e exploramos a terra, com a expectativa de enfrentar alguma horda bárbara e irmos para o Valhalla, quando, de repente, vemos diante dos nossos olhos uma linda, colorida e gigantesca ave, voando com graça e elegancia. O que fazemos? Matamos a ave, obviamente, por que nós somos Vikings e nós matamos coisas. Porém, depois que a matamos, vemos que ela é muito diferente de qualquer outro pássaro que conhecíamos. O que temos que fazer? Além de descobrir se dá pra comer a carne do bicho, precisamos inventar um nome para ele. Mas não se preocupe, estas duas coisas acontecerão naturalmente, e algum dos nossos companheiros criará uma palavra como "Arara", "Papagaio" ou "Parakittar" para designar a nossa futura janta.

Agora, voltemos para o tempo presente, por mais desinteressante que ele possa parecer agora por não sermos mais vikings e por não termos arara para o jantar. Este exemplo que eu dei, apesar de ser preciso o suficiente, não é amplo o bastante, por que não inventamos palavras só quando um troço colorido e cheio de penas voa em nossa direção, e sim o tempo todo. De fato, apesar de não poder provar nada do que vou afirmar agora (e, aliás, nem preciso, isso aqui não é um artigo pra Science), creio que passamos por um processo parecido quando aprendemos a falar nossa língua materna, e é através dessa "invenção contínua" de novas palavras que novas línguas nascem. Se os vikings do nosso exemplo, ao invés de voltarem para a Escandinávia, resolvessem estabelecer uma comunidade ali naquela terra cheia de Parakittars e não fossem todos devorados por criaturas selvagens e/ou populações auctóctones, dentro de algumas décadas desenvolveriam uma linguagem tão diferente da original que se transformaria em uma nova. Isso aconteceu pelo menos uma vez, com os holandeses que se mudaram para a África do Sul e "criaram" a língua afrikaans.

Mas não precisamos ir tão longe assim. É bem possível que exista algum agrupamento humano que, apesar de separado do resto de sua sociedade, não desenvolva uma língua própria, contudo esteja isolado o suficiente para criar toda uma vasta gama de termos novos para coisas que não existem no "resto do mundo" ou que lá teriam um outro nome, mais convencional. Um exemplo disto são as Forças Armadas que, por obrigarem seus membros a passarem quase todo seu tempo isolados do resto da sociedade, desenvolvendo tarefas pouco ortodoxas (pilotar helicópteros, por exemplo), muitas vezes acabam criando espontaneamente e ao longo do tempo uma forma muito própria de se comunicar. O melhor exemplo que tenho deste fenômeno é este longo e interessante glossário de termos utilizados informalmente pelos membros da Marinha dos Estados Unidos. É longo, porém extremamente divertido (eu me matei de rir com "Whistling Shitcan of Death" e PFM). É discutível se, durante nossa viagem, eu e Marcelo ficamos realmente isolados do resto da sociedade, mas como nos confrontamos com necessidades diferentes das nossas em Porto Alegre, acabamos por inventar palavras novas ou remodelar as antigas para que melhor descrevessem nossas condições (e também serem mais engraçadas).

A primeira gíria surgiu ainda em Buenos Aires. No primeiro ou segundo dia de congresso, eu e Marcelo caminhávamos apressadamente para chegarmos à tempo de alguma palestra e, como estávamos com fome, paramos em um mercadinho, onde compramos algumas unidades de pão francês, que provavelmente deveriam ter pó de cimento na mistura, por que eram horríveis - secos, duros e sem gosto algum. Como bom estóico que é, Marcelo simplesmente passou a dar mordidas mais fortes, eu, como bom palhaço e nerd, me lembrei de um pedaço de "O Hobbit", e o compartilhei com meu amigo  no seguinte diálogo:

Eu- Marcelo, tu já leu "o Hobbit"?
Marcelo- Duas vezes.
Eu- Tu te lembra do "cram"?
Marcelo- Não.
Eu- Cram era o nome de um pão de viagem dos anões, parecido com o Lembas, que era duro, seco e sem gosto, e que servia mais para exercitar as mandíbulas do que para a alimentação.
Marcelo- Ah!

E assim, daquele momento em diante, cram virou sinônimo de "comida ruim, mas que supre nossas necessidades". Mais adiante na viagem, já na Patagônia, cram passou a ser o nome muito particular que demos para os mandolates da La Anonima, que descobrimos em uma promoção de Natal. Como os pães de Buenos Aires, eles eram secos, duros e com um gosto muito sutil (para não dizer inexistente), mas serviam para encher a barriga entre as refeições. Muitas vezes, durante as nossas caminhadas, ouvi Marcelo dizer "pega o cram, por favor", como se ele dissesse "hora de manter a glicemia". Curiosamente, mais para o final da viagem, compramos mandolates da Arcor, que além de mais macios, tinham sabor de alguma coisa, e a primeira coisa que dissemos quando descobrimos isso foi "bah, que merda, isso aqui tem gosto. A gente vai acabar com tudo logo, logo". Feliz ou infelizmente, não foi o que aconteceu, pois os tais mandolates provaram ser enjoativos.

A segunda palavra que desenvolvemos foi PDM. Sempre que iríamos fazer alguma coisa peculiarmente arriscada ou idiota, calculávamos seu PDM. E o que é PDM? É "Potencial pra Dar Merda". E nossa viagem era cheia de potencial! Como exemplo clássico do uso deste termo, lembro-me de "tchê, essa tua idéia tem um alto PDM", quando um de nós sugeria qualquer coisa perigosa ou imbecil. Foram tantas que nem vale a pena fazer uma lista. Considero esta sigla especialmente engraçada por ter, ao mesmo tempo, um ar altamente técnico e um significado particularmente vulgar.

A terceira palavra não é tanto uma gíria nossa, e sim mais um hábito nosso. Como nós estávamos bastante acostumados a comparar preços, nós fazíamos isto em qualquer lugar onde houvesse prateleiras e produtos à venda, mesmo que não quiséssemos comprar nada. Por que fazíamos isso? Por despeito, pois assim, podíamos nos sentir melhores do que o resto das pessoas que compravam, por que sabíamos que os preços ali eram absurdos e nós sabíamos onde era mais barato (no La Anonima, é claro!). E o nome que dávamos para esta sobra de preço era "achacação". Se, durante uma viagem de ônibus parássemos em um posto de conveniência (assim chamados por dois motivos: 1. são bem localizados, para a conveniência do viajante; 2. têm os preços absurdamente inflacionados, para a conveniência do dono do estabelecimento), um de nós certamente olharia o preço das coisas à venda e diria para o outro "a achacação aqui é violenta" e tentaria pegar discretamente a comida que o casal de idosos deixou sobrando no prato.

Também tínhamos uma relação especial com as palavras do espanhol que aprendíamos no caminho. Não pedíamos carona, "haciamos dedo" - ou "fazer dedo", depois de muitas horas na beira da estrada. Jurel, caballa e pelón (além de choclo, por parte do Marcelo), apesar de provavelmente terem algum equivalente em português, eram os únicos termos que tínhamos à nossa disposição para descrever três itens bastante importantes de nossa empreitada - para ser sincero, até hoje não sei bem que tipo de peixe são caballa e jurel (porém pelón eu sei que em português é nectarina). Copado, apesar de não ter se tornado parte integrante do nosso vocabulário, era um acessório interessante, que usávamos quando conversávamos com argentinos e queríamos dar a entender, ao mesmo tempo, que achávamos que algo era legal, e que entendíamos do dialeto argentino. Como diriam os norte-americanos exceto os mexicanos worked like a charm.

Por fim, dois dedos de prosa a respeito do nosso equipamento. Não, não inventamos nomes personalizados para nenhum item do nosso inventário (exceto a garrafinha, que sempre chamamos de "A Saudosa"), mas fomos, com o tempo, descobrindo seus nomes em espanhol e utilizando-os quando necessário. Barraca é carpa ou tienda; fogareiro, calentador; guardanapo (sim, sempre tínhamos pelo menos dois à nossa disposição), servilleta. Por causa do hábito que nosso calentador tinha de apagar quando mais precisávamos dele, tivemos que desenvolver um dispositivo que protegesse sua chama e mantivesse seu calor. Foi assim que nasceu o "forno". Se vocês pensaram em um invento altamente sofisticado, eu sinceramente duvido que vocês tenham entendido como foi nossa viagem. Basicamente, nós colocávamos um de nossos isolantes térmicos em volta do fogareiro aceso, e o cobríamos com uma jaqueta. O fogo continuava apagando, mas com muito menos freqüência. E, last but not least, passamos a viagem inteira chamando nossa panela de "panela", para depois descobrirmos que era uma leiteira. O que não muda nada, pois continuo chamando ela de panela.

A "leiteira" em ação. Sim, a situação é algo que saiu de um livro dadaísta.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

As Histórias da Expedição Austral - Diários da Cozinha

Prometi, há muito tempo atrás, escrever um relato completo de minha viagem pela Patagônia, que em minha cabeça, seria tão grande quanto um livro: seria dividido em vários capítulos, um para cada fase da jornada, além de um que outro comentário psicológico ou antropológico que achasse interessante. Apesar de não ter ido além de um rascunho do segundo capítulo, nunca abandonei este plano. Por isso, graças ao tempo livre que surgiu com o fim do semestre, e uma nova viagem pairando no horizonte, decidi retomá-lo. Porém, como não estou com meu diário de viagem comigo, e não me encontro em estado de espírito favorável para narrativas, escreverei sobre um assunto que não pretendia originalmente, mas que está intimamente ligado à nossa peregrinação através do deserto patagônico: Nutrição. Provavelmente falarei a respeito disto em outros e futuros posts, sendo um pouco repetitivo, mas não vejo problema nisso, pois em nenhum outro lugar serei tão detalhista quanto aqui. Além do mais, a redundância tem seu charme.

O problema da comida preocupou a mim e Marcelo desde antes de colocarmos os pés no ônibus para Buenos Aires, e, conforme fomos progredindo e aprendendo com a experiência em nossa viagem, fomos nos adaptando, desenvolvendo novas estratégias e truques, além de algumas obsessões com a nossa alimentação. Ainda em Porto Alegre, nos encontramos na casa de uma tia dele, antiga viajante e tão fã de indiadas quanto nós, com dois objetivos. O primeiro era para testarmos a nossa recém adquirida (e ainda intacta) barraca, e aprendermos a cozinhar em circunstâncias adversas com nosso fogareiro. Não vou estragar a história e contar nada antes do seu devido tempo, mas quero neste ponto apenas dizer que, algumas semanas mais tarde, descobrimos que este treinamento fora bastante incompleto. Ah, como foi!

Em todo caso, naquele dia, cozinharíamos pela primeira vez a comida que imaginávamos que iríamos comer ao longo da Expedição. Assim sendo, preparamos uma refeição com os mesmos ingredientes e ferramentas que esperávamos usar na Argentina: nosso fogareiro, nossa panelinha, uma colher e nada de condimentos. O que saiu foi uma massa sem sal com atum. Tudo correra tranquilamente, e a comida foi suficiente tanto para mim, quanto para Marcelo, além de não ser tão ruim quanto eu imaginava. Por isso, saímos de lá com uma sensação de vitória, e de que, pelo menos no que dizia respeito à comida, não teríamos problema algum. Já em território estrangeiro, mas ainda na civilização, fizemos mais um treino, cozinhando outra massa, desta vez com tomate e uma lata de jardineira (logo mais falarei de todos os ingredientes que usamos ao longo da viagem em nossas refeições. Não eram tantos assim, acredite). Naquela ocasião, disse que eu perdera toda minha dignidade tentando abrir esta lata usando minha bota (não, não vou explicar como). Outra vez, achei erroneamente que este seria o ponto mais baixo que atingiria ao longo da Expedição.

Os problemas de fato só começaram em Puerto Madryn, primeira cidade patagônica que visitamos. Porém, estes problemas não eram relacionados à comida em si, mas sim a um dos equipamentos mais importantes: o fogareiro. Para quem não sabe, na Patagônia venta muito, e para quem sabe menos ainda, fogueiras e chamas fracas podem ser apagadas com lufadas de vento muito fortes. Para quem não conseguiu ligar os pontos, eu explico: nosso fogareiro tinha a chama fraca, e como ventava o tempo todo, não tinha como cozinhar em campo aberto. É, não tínhamos previsto este contratempo em Porto Alegre, o que apenas nos deixou mais abobalhados na hora que percebemos isto. Como somos indivíduos muito capazes e inteligentes, demos um jeito naquela hora. Porém, este problema continuou ao longo de toda a Expedição, e em todos os lugares que cozinhávamos com o fogareiro, éramos obrigados a inventar soluções novas, e cada vez mais bizarras. Como este não é o assunto deste post, e não quero ser por demais repetitivo, deixo ao cargo da imaginação de vocês quais soluções eram estas, até que chegue o momento de relatá-las neste mesmo blog.

Em todo caso, apesar de sermos novatos no ramo da mochilagem, sabíamos que passar fome é uma coisa ruim, e conhecíamos meios de evitar que isto acontecesse. Para ser justo, quem sabia mesmo esse tipo de coisa era o Marcelo, que lera algumas coisas sobre Nutrição antes de partirmos, e pedira algumas dicas para uma nutricionista, além de ser o cozinheiro efetivo da dupla (meses depois de nosso retorno, enquanto fazíamos uma jantinha lá em casa, Marcelo falou que minha maior habilidade culinária era lavar a louça com muita presteza. Lamento dizer que aquela bicha ele está corretíssimo). Por isso, apesar de contarmos com poucos recursos, tínhamos à nossa disposição um método eficaz de investi-los, que fazia com que comêssemos o máximo desperdiçando o mínimo (pelo menos assim acreditávamos). Este método é relativamente simples, e leva em conta dois grandes fatores: os nutrientes e o dinheiro. Quando íamos ao mercado, fazíamos um "cálculo subjetivo" (ugh, só um psicólogo pra largar uma dessas), cujas variáveis eram nossas necessidades nutricionais, a quantidade do produto e o preço. Se um dado produto contasse com mais nutrientes (segundo a Wikipédia, os principais são proteínas, carboidratos, gorduras e minerais - se bem que não éramos tão refinados a ponto de conhecermos a necessidade de ingerir minerais, ou pelo menos eu não lembro do Marcelo falar a respeito deles), maior peso líquido e menor preço, seria comprado. Claro, nem sempre encontrávamos um produto que suprisse tão perfeitamente nossas necessidades, e na maior parte das vezes, precisávamos escolher o produto "menos pior". Contudo, imagino que, para algum transeunte que passasse por nós dois, sentados no chão e olhando para várias latas diferentes, deveríamos parecer algum tipo de pegadinha do Faustão.

Os alimentos que comprávamos eram bastante simples e repetitivos, e como conseqüência disto, nossas refeições quentes também. Posso resumir tudo o que comíamos no almoço e no jantar em arroz, macarrão, peixe enlatado e latas de verduras e legumes em conserva, mais conhecidas como jardineiras. O modo de preparo era igualmente refinado: aquecer, misturar e comer. Esta fórmula de sucesso manteve-se inalterada por praticamente toda a viagem, salvo memoráveis exceções (que intencionalmente omitirei neste post), mas sofreu ligeiras modificações no que tange os ingredientes em si. No começo da viagem, era mais comum de nós fazermos macarrão - contudo, depois que percebemos que arroz rendia mais e enchia mais a barriga, meio que o deixamos de lado. Também fazíamos refeições mais ricas, que envolviam arroz, tomate, jardineira e atum, só que, de novo, largamos disso e passamos a usar só um acompanhamento de cada vez para nossa fonte de carboidrato (i.e. o arroz), alternando qual tipo de lata usávamos em cada refeição. Quando queríamos dar uma incrementada protéica no negócio, cozinhávamos um ovo no arroz. É isso mesmo: quebrávamos ele e deixávamos ele cozinhar por cima do arroz e, quando ele estava consistente o bastante, misturávamos tudo e engolíamos (em muitos momentos, "comer" tornou-se um verbo pouco acertado para nossa postura). Em certos dias, porém, lançávamos mão do recurso do "pão com qualquer coisa". Por exemplo, nos primeiros dias em Puerto Madryn, estávamos no centro da cidade, e compramos um pão do tamanho de uma cabeça humana e comemos com queijo, iogurte natural e cereais, e, dias mais tarde, no meio de um areal cheio de moscas monstruosas, comemos pão com jurel (e eu, um pouco de areia, por pura ogrice teimosia).

Com o dinheiro acabando e a fome continuando, fomos ficando menos seletivos quanto ao tipo de porcaria que comprávamos. Foi assim que deixamos de comprar atum enlatado, que é um peixe relativamente nobre (leia-se "caro"), e passamos a comprar outros peixes de segunda qualidade. Adotamos essa prática depois de percebermos que as latas de Jurel e Caballa, além de serem mais baratas, eram maiores e portanto continham mais comida. Sim, sim, elas também vinham com a coluna vertebral do peixe de brinde, mas isso é fato irrelevante. O que importava é que a gente comia mais, e tinha praticamente o mesmo gosto (dava gases, porém, segundo um Guilherme, um dos caras que conhecemos durante a viagem. Ele provou isto empiricamente - conosco por perto, no less). As jardineiras que comprávamos também sofreram modificações, todavia, não por vontade nossa, e sim por contingências econômicas. Basicamente, há dois tipos de jardineiras: com milho e sem milho. Por que só o milho caía fora da mistura e mais nada, eu não sei. Porém, sempre que tínhamos a escolha, comprávamos as que tinham milho, talvez por considerá-las mais nutritivas, por algum desejo reprimido de ver nossas fezes decoradas como escatológicas árvores de natal, ou simplesmente por que era mais gostoso. Uma curiosidade para vocês: quando eu e Marcelo discutíamos a questão de comprar jardineiras com ou sem milho (por que aquilo era Coisa Séria), ele sempre se referia ao milho como "choclo" (que é milho em argentino castelhano), enquanto que eu, por algum tipo de bairrismo, continuei falando "milho".

O café da manhã é um caso mais complexo, pois nele não seguíamos nenhuma fórmula bem estabelecida, exceto o da necessidade de comer pela manhã. Entre as coisas que comemos no desjejum que agora me vêm à memória, encontra-se uma lata gigantesca de abacaxi em calda (foi com ele que, pela primeira vez, percebemos quão ridículo era nosso "cálculo subjetivo"), frutas, bolinhos da Bauducco (que não eram da Bauducco), sucos de caixinha convenientemente coletados de um ônibus, pão com dulce de leche e, maravilha das maravilhas, leite de chocolate com granola. Neste dia, o Marcelo declarou sentir-se em casa, por ser o tipo de café que ele tomava em Porto Alegre, enquanto eu fiquei feliz simplesmente por que era quase como tomar Nescau - e não fora a primeira vez (uma viagem dessas mostra como somos simplórios).

As frutas constituem um caso interessante. Primeiro, por que eram difíceis de serem encontradas na Patagônia em boas condições e por um preço razoável. Quero dizer, conseguimos mais de uma vez encontrar frutas de boa qualidade, mas o preço geralmente era mais alto do que desejaríamos. No começo, buscávamos mais produtos tropicais ("eu sinto falta de banana" sendo uma frase que Marcelo disse algumas vezes e que eu posso ou não ter escrito aqui de maneira distorcida e descontextualizada só para fazer uma piada de duplo sentido). Com o tempo e a experiência, fomos procurando outros tipos. Nossa melhor descoberta foi o "pelón", um tipo de pêssego que não tem a casca aveludada e não é tão gosmento quanto. Segundo, por que elas servem como um interessante dispositivo literário, que me permite falar agora dos nossos "lanches da tarde". Estes lanches tinham por objetivo manter nossa glicemia - o nível de glicose no sangue. Fazíamos isto principalmente com frutas, bolinhos da Bauducco (que não eram da Bauducco), mandolates La Anonima, carinhosamente apelidados por nós de "cram" (explico por que em algum post futuro sobre as expressões altamente idiossincráticas que utilizávamos durante a Expedição) e castanhas do pará. Estes lanches, além de reporem nossas energias, serviam também como um momento para pormos as coisas da jornada em ordem - por onde ir, quanto gastar, que erros evitar... - ou para jogarmos conversa fora, principalmente com nerdices e observações antropológicas. As castanhas do pará, trazidas especialmente pelo Marcelo, eram a comida mais próxima que tínhamos da poção mágica do druida de Asterix: uma delas segurava nossa fome por um bom tempo. Infelizmente, tivemos que comer todas elas em Rio Gallegos, antes de passarmos pela fronteira com o Chile, país que não permite a entrada de nenhum organismo ou substância orgânica alienígena. Para substituir estas sementes, compramos amêndoas, mas não era a mesma coisa.

Por fim, gostaria de falar sobre água. Do jeito que escrevi até agora, dei a entender que nunca tomávamos água. Contudo, não há nada mais distante da realidade, pois água era o líquido que mais ingeríamos. Até El Calafate, nossa companhia era composta de três membros: eu, Marcelo e a garrafa de água mineral que compramos ainda em Buenos Aires, e enchíamos sempre que podíamos. Infelizmente, ela foi jogada fora por alguma pessoa bem intencionada, mas que nada sabia dos profundos laços de amizade que nos uniam àquela garrafa. Logo encontramos outra para desempenhar sua função, porém nenhuma que ocupasse o mesmo lugar em nossos corações. Ou algo assim. Em todo caso, a água é a substância mais importante em nossa nutrição, mais até do que a própria comida. Sabíamos disto, e por isso tínhamos especial cuidado para enchermos nossa garrafa. A Patagônia tem fama de ser fria. O que ninguém fala é que, durante o verão, ela é quente e seca, tornando a hidratação uma necessidade constante. Geralmente, tomávamos água de torneira - era o que normalmente tínhamos à nossa disposição. Claro, quando podíamos escolher entre água de torneira e água de algum bebedouro, sempre escolhíamos este último, pois tinha melhor gosto e melhor qualidade. Creio que a melhor água que bebemos foi em Torres del Paine, pois ela provinha do degelo de uma geleira próxima, fazendo dela gelada e muito pura. Lamentei muito o fato de não ter enchido nossa garrafa uma última vez em algum riacho antes de terminarmos o percurso.

Creio que poderia falar de muitos outros detalhes de nossa viagem, todavia, como creio que este texto já está grande o suficiente, contarei uma última história alimentar: depois de todas estas indiadas, voltei para casa, e a primeira coisa que consumi foi um grande caneco de leite com achocolatado. Tive diarréia por três dias seguidos depois disto. Traveling is not easy, folks.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A Expedição Andina - Uma Nova Aventura

Emerson disse certa vez que um homem nunca está só em sua casa, quando está perto de seus livros, apenas quando está no meio da natureza, com as estrelas como suas únicas companheiras. No momento em que escrevo este post, tenho um livro em minhas mãos, e estou confortavelmente sentado na sala de estudos do apartamento em Caxias do Sul, e, apesar de não haver mais ninguém aqui comigo, fazem-me companhia anos e anos de cultura ocidental e oriental, por muitos autores diversos, vários deles meus velhos amigos. Porém, encontro-me em um estado de expectativa, pois toma forma, em minha mente e na realidade, algo que mudará este estado de coisas, e me colocará a sós com as estrelas que Emerson tanto amava.

Ano passado, nesta mesma época do ano, me encontrava no meio da Patagônia, em Puerto Madryn ou Esquel, honrando o nome virtual que escolhi para mim mesmo. Eram os primeiros dias da Expedição Austral, longa viagem que me levou para o extremo sul do continente, até Ushuaia, por caminhos que cruzavam ora território argentino, ora chileno. Tal experiência foi extremamente marcante para mim, pois depois dela, descortinaram-me muitos horizontes que nunca imaginara. Foi pensando nela que escrevi este poema. Logo que voltei da Patagônia, apesar de ter levado algum tempo para formulá-la desta forma, tinha a nítida sensação de que poderia moldar e plasmar a mim mesmo da maneira que Eu bem entendesse. Play With Your Self - Brinque com o seu Self, altere-o, faça dele o que quiser! Por mais que a superfície mude, as profundezas continuaram imperturbáveis. Essa sensação, no princípio muito forte, foi se dissipando, como uma chama que vai se apagando ao longo da noite, mas uma brasa dela continua viva em mim.

Quero reavivá-la, transformar a brasa em vibrantes labaredas, e por isso, planejo uma nova viagem. Desta vez, viajarei para a Bolívia e para o Peru. Este trajeto, o mais conhecido da América do Sul, não apresentará os mesmos desafios que o patagônico. Porém, desta vez, não viajarei com a companhia de algum companheiro mais experiente que eu nas estradas desta parte do mundo - serei só eu e minha mochila. Ainda assim, peço que ninguém se desespere por causa de minha condição. Primeiro por que ela é necessária, segundo, por que ela é temporária. Sei que, no fim das contas, ninguém nunca viajou realmente sozinho - sempre há outro alguém por perto para fazer-lhe companhia, sendo necessário apenas estar disposto a percebê-lo.

Não me despeço ainda, caros leitores, pois resta muito o que fazer antes de embarcar de fato para os Andes. Até este dia continuarei escrevendo o que puder (e quiser) por aqui. Contudo, já deixo-lhes o aviso de que este Andarilho que agora vos fala nunca mais voltará das montanhas. Outro voltará em seu lugar, só não sei ainda quem ele será.

domingo, 2 de agosto de 2009

Olá mundo

É engraçado como as leituras podem influenciar alguém. No meu caso, noto que, depois de ler certos livros, textos ou poemas, além da óbvia vontade de agir conforme os ideiais neles contidos, sinto-me também compelido a escrever da mesma forma em que eles foram escritos. Preciso admitir que nunca consegui emular completamente o estilo de algum outro autor - até por que isto é praticamente impossível - mas consegui incluir alguns elementos de seu estilo no meu próprio e torná-lo mais rico e agradável.

Pensando nestas questões, lembrei-me deste blog, que é o melhor meio que possuo para dar vazão às minhas idéias, e que anda um tanto quanto negligenciado. Talvez esteja na hora de varrer a poeira deste lugar e voltar a escrever aqui.

Olá mundo, o Espadachim Cego voltou.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Segredo da Flor de Ouro

Pois é gente, eu sei que a última atualização deste blog foi em 18 de maio, 20 dias atrás. Considerando meu estilo de produção alucinado, isto é um tanto quanto incomum. Bem, talvez não seja. Tenho a teoria de que nossas maneiras de enfrentar a vida variam com o tempo, e que oscilamos entre extremos. Que quero dizer com isto? Que sou preguiçoso estou em uma fase em que não preciso escrever para elaborar meus enigmas existenciais. Talvez o verbo "precisar" não seja o mais adequado, pois ainda gosto de escrever, tanto que preciso disto tanto quanto eu preciso comer ou dormir (por isso estou aqui). Contudo, não estou em um momento produtivo, mas em um momento reflexivo, cujo foco maior está em absorver o que acontece comigo e transformar isto em algo dentro de mim. Talvez, quando este ciclo estiver superado, eu mostre aqui o que fiz com a flor da minha alma.

terça-feira, 31 de março de 2009

As Histórias da Expedição Austral (Parte I)

I. O Chamado da Estrada


O ser humano é uma criatura nômade. Mesmo que durante gerações tenhamos vivido vidas sedentárias, e mesmo que a esmagadora maioria de nossa raça viva assim até o fim dos tempos, sempre teremos em nossos corações o desejo de jogar tudo para o alto e ir para onde o vento soprar ou o sol brilhar. Pode ser que este desejo tenha embotado e quase desaparecido na maioria dos homens e mulheres de hoje, e que pareça muito mais razoável viver confortavelmente toda sua existência em um apartamento bem mobiliado e com uma despensa cheia. Talvez realmente seja. Contudo, não foi com confortos e facilidades que o Homo sapiens tornou-se o mamífero mais bem sucedido do planeta* – foi através do frio cortante, do calor infernal, da fome e da sede que nossa habilidade de sobrevivência tornou-se forte o suficiente para transformarmos o ambiente em nosso favor. Nós, representantes da orgulhosa classe média, podemos até fingir que é assim que sempre se viveu, em meio a preocupações com o mercado de trabalho e a bolsa de valores, com a importância de salários gordos e aposentadorias bem planejadas. Sim, podemos, mas qualquer um que seja honesto o suficiente precisa admitir que, no fundo, isso é tudo ilusão, e que somos animais da estepe, sempre errantes, e sempre haverá alguns poucos viventes que, impulsionados por este desejo, vivem pelos caminhos, livres de quaisquer raízes que os prendam a um pedaço de chão por muito tempo, lembrando-nos, muitas vezes horrorizados, de nossas origens andantes.

Não quero com esta descrição idealizá-los, dando a entender que são todos a fina flor de nossa cultura, elevados em pensamentos e nobres em atos, pois isso seria ingênuo da minha parte. Muitos deles são como o capitão Rodrigo Severo Cambará, personagem da imortal obra “O Tempo e o Vento” de Érico Verissimo. Rodrigo Cambará era um homem que viveu sua vida com uma forte labareda de fogo, brilhando forte porém brevemente, apaixonando-se por muitas terras, muitas mulheres, amando-as com intensidade mas abandonando-as, de uma forma outra, no final, pois a vontade de desbravar o mundo era forte demais para um ser tão inconseqüente e dominado pelos próprios instintos selvagens controlar. Alguns poucos talvez sejam como o gentil monge shaolin Kwai Chang Caine, personagem do seriado “Kung Fu” e encarnado por David Carradine, que caminhava só pelas vastas terras do Oeste americano, protegendo os fracos, consolando os desamparados e espalhando o infinito amor de quem dominou a si mesmo e segue o Tao – o Caminho, ou como Chris McCandless, um jovem norteamericano que abandonou casa, família, amigos e foi realizar seu sonho de viver errante pelo país e de morar no meio da natureza no gelado Alaska, onde acabou morrendo. Eles podem ser muito diferentes uns do outros, mas ainda compartilham muitas características que me fazem admirá-los.

Por que os admiro? Faz muito tempo que admiro viajantes sem saber explicar por que. Por mais que cite exemplos de nômades que estimo e enumere suas qualidades, sou incapaz de dar um motivo racional para achá-los tão impressionantes, pois simplesmente os admiro. Talvez eu os entenda, saiba intuitivamente o que se passou em seus corações diante dos desafios que a estrada os impôs e as glórias com que os recompensou, e quisesse ardentemente viver como eles viveram. Porém, sendo fraco demais para tirar os sapatos, jogar tudo para o alto e sentir o chão, restava-me esta admiração por seus feitos. Pode parecer um débil paliativo, satisfazer este desejo de correr pelo mundo através de relatos alheios, mas foi a distante luz na escuridão que me motivou a preparar-me para, um dia, fazer isto de verdade. Treinei meu corpo e minha mente, tornando-me cada vez mais forte e confiante, e me aproximando gradativamente desta vida aventureira. Comecei aos poucos, com os pequenos passos que podia dar. O primeiro de maior significância foi minha Jornada Escoteira de 1ª Classe, aos 14 anos. Claro, pensando retrospectivamente, eu não corri nenhum risco sério, pois havia toda uma equipe oculta de chefes cuidando de nossos passos, porém não sabíamos disso naqueles belos dias de caminhada, e todas as decisões que tomamos foram feitas por nós, como se estivéssemos absolutamente sozinhos naqueles caminhos entre Vila Seca e Fazenda Souza. Lembro-me até hoje de como foi voltar para a minha tropa, para junto dos demais companheiros. Sentia-me distante daqueles que não tinham feito a jornada, como se fosse capaz de enxergar algo que eram incapazes de ver, e mais próximo de todos aqueles que trilharam o mesmo caminho que eu em tempos passados, mesmo os desconhecidos. Como disse meu pai na carta que ele me escreveu para aquela ocasião, saí de casa um menino, mas voltei um homem. Estava transformado.

O segundo passo significativo foi ter mudado de escola, do pequeno e aconchegante Raio de Luz (é, nome de creche), onde conheci quase todos os meus amigos de infância para o colossal e hostil São José, onde não passava de mais um pivete potencialmente problemático. Os três solitários anos que passei lá foram talvez os mais sombrios de toda minha vida, mas nenhuma outra prova de fogo me preparou tão bem para os desafios que o universo me imporia. Encarei a solidão, provei de sua força e tornei-me um com ela. Depois de me formar no Ensino Médio pelo São José, dei não um passo, mas um grande salto: viajei para os Estados Unidos como intercambista, e lá morei por cinco meses, longe de tudo aquilo que chamava de casa, e tornei-me ainda mais forte. Ainda antes de retornar ao lar, tornou-se óbvio que Caxias do Sul tornara-se uma cidade por demais estreita para mim, e que precisava de um novo horizonte. Assim sendo, fiz vestibular para Psicologia na UFRGS, passei e me mudei para Porto Alegre. A vida da capital e da faculdade me permitiram mais e mais pequenos passos – encontros estudantis em São Lourenço do Sul, Curitiba, Passo Fundo, Campo Grande, Buenos Aires e várias outras oportunidades que, se não me levaram longe, pelo menos me trouxeram experiência e confiança. Contudo, em todos estes vôos que dei, por mais corajosos que fossem, eu ainda estava acompanhado por muitas pessoas. Não acho isso ruim, mas, se algo desse muito errado, eu sempre poderia apelar para elas. Restava uma última prova: viajar não em um grande grupo, mas por conta própria, e depender apenas dos meus próprios recursos.

E a hora de responder a este desafio um dia chegou numa conversa pelo MSN. Falava com o Marcelo sobre alguma coisa qualquer, quando ele me perguntou, naquele seu jeito extremamente objetivo: “cara, quero viajar para a Patagônia nessas férias, mas preciso de alguém para ir comigo. Quer vir junto?” Eis que a estrada me chamava! Aceitei, e daquele momento em diante, todas as vezes que nos encontrávamos na faculdade ou na internet, nosso assunto principal era essa viagem, por ele batizada de “Expedição Austral”. Precisávamos nos preparar, mesmo sem saber exatamente como ou para o quê. Marcelo, outro aventureiro, já tinha alguma experiência em viagens, pois já tinha ido atravessado a Bolívia e o Peru e conhecido as ruínas de Machu Picchu, e tinha alguma noção do que nos esperava naquelas terras do extremo sul do continente, mas, como eu, nunca antes tinha empreendido aventura tão audaciosa. Viajaríamos sem veículo próprio e com pouco dinheiro. Estas contingências afetariam toda a expedição, e precisávamos nos preparar de acordo: procuramos rotas para seguir, lugares para visitar, lugares para dormir, quais equipamentos levar, cuidados para se tomar. Chegamos à conclusão que viajaríamos bastante de ônibus entre cidades, dormiríamos em campings, cozinharíamos nossa própria comida e que um excelente preparo físico era um imperativo categórico se quiséssemos aproveitar a viagem. Como descobrimos ao longo do caminho, estávamos relativamente certos em nossos pressupostos, mas terrivelmente ignorantes da magnitude dos problemas à nossa frente.

Montamos nosso equipamento da melhor maneira possível com base nas informações coletadas pela internet, especialmente no fórum Mochileiros: encomendamos uma barraca especial pensando nos fortes ventos patagônicos, separamos nossas roupas e ferramentas mais adequadas, compramos uma pequena panela pequena, arranjamos um fogareiro emprestado e até mesmo fizemos um “blitzkurs” (curso relâmpago) de culinária guerrilheira com uma tia do Marcelo, que em sua juventude também desbravou o mundo, para que soubéssemos como fazer comida em condições adversas. Todas estas providências, por mais importantes que tenham sido, em algum momento da viagem provaram-se inúteis ou mesmo pegadinhas de Deus ou algum espírito primordial com nossa inocência. Mas, no momento, estou falando dos dias antes da Expedição começar de fato, e por isso deixarei a descrição destes acontecimentos mais para a frente.

Há outra parte do equipamento que levamos para a Expedição que, mesmo não sendo diretamente ligado à nossa sobrevivência, provou ser de extrema importância em nossas andanças: nossos livros e diários. Como intelectuais que somos, parecia-nos inconcebível nos metermos em uma viagem cuja duração estava estimada em no mínimo três semanas sem ter absolutamente nada para lermos, e muito menos deixar de registrar os fatos e sentimentos de tamanha empreitada. Por isso, antes de partirmos dedicamos especial atenção as coisas que leríamos e onde escreveríamos. Marcelo, mais focado e decidido, levou um só, porém gigantesco livro, enquanto eu, mais impulsivo e indeciso, levei quatro livros menores, mas que no final das contas acabavam pesando tanto quanto a escolha de Marcelo. Nós dois acreditávamos que seria estúpido lermos algo que em nada acrescentassem à Expedição, e por isso, escolhemos cuidadosamente estes livros. Marcelo levou a edição completa de “Dom Quixote”, de Cervantes a história do cavaleiro da triste figura, enquanto eu levei “A Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi, “Get Out of Your Mind and Into Your Life” de Steven Hayes, “O Caminho da Egoência” de Ramon Muñoz Soller e “A Filosofia Perene” de Aldous Huxley. Não posso dizer ao certo o que levou Marcelo a escolher aquele livro e não qualquer outro (apesar de ter boas hipóteses a respeito). Posso, porém, explicar o que motivou as minhas escolhas. Sentia que esta viagem seria uma grande revolução espiritual para mim, e que o que quer eu lesse influenciaria como ela se daria. Desde o início sabia que queria ter comigo “O Caminho da Egoência”, por causa do forte impacto que causara em mim. O mesmo se passou com “A Filosofia Perene”, cuja ilustração da capa (uma serpente mordendo a própria cauda) impressionou-me ainda criança. “A Morte de Ivan Ilitch” decidi levar um pouco por acaso, depois de tê-lo encontrado jogado às traças num armário em Caxias do Sul, e “Get Out...” levei mais por insistência paterna do que qualquer outra coisa. Foram escolhidos de forma aleatória e discrepante, mas nunca poderia ter conscientemente pego livros que se complementassem de forma tão harmoniosa. Quanto às nossas ferramentas de escrita, também diferimos, Marcelo e eu: ele levou um diário com capa de couro com seu nome gravado, encomendado à muito tempo, enquanto eu fui com um caderno de capa dura da “Lazy Town”, comprado na semana antes de partirmos.

Assim foram indo as coisas até que chegou o dia da viagem. Em 9 de dezembro de 2008, sairíamos de Porto Alegre em direção à Buenos Aires, em um ônibus da empresa Flechabus. Participaríamos do 7º Congresso Internacional de Saúde Mental e Direitos Humanos da Universidade Popular das Madres da Praça de Maio, junto com cerca de 80 colegas nossos, que viajavam em excursão organizada pelo Diretório Acadêmico de nosso curso. Viajávamos em separado principalmente por motivos burocráticos, pois, caso fossemos com eles, teríamos que voltar com eles, o que não estava em nossos planos, mas também por um desejo de individualidade, de não nos perdermos naquela multidão que estava mais interessada em beber Quilmes do que ir ao congresso ou mesmo conhecer a capital argentina.

Com cuidado, revisei minha mochila pela última vez em casa, e pus-me a caminhar rumo à rodoviária. Poderia ter ido de ônibus, mas dispunha de tempo de sobra e queria saber na prática como seria carregar minha vida nas costas junto com o peso de nossa barraca. Fiz questão, como última despedida, de passar em minha academia de Kung Fu, pois se não o fizesse, ficaria com a sensação de ter deixado algo muito importante para trás. Respirei o ar tranqüilo daquele santuário, observei o treino como se fosse nunca mais fosse ver algo parecido em minha vida, abracei os professores e pus-me novamente a andar. Meus ombros doíam por causa do peso excessivo em minha mochila, mas sabia que precisava me acostumar com esta dor. Depois de chegar na rodoviária e encontrar o Marcelo, esperamos ainda uma hora antes que nosso ônibus, atrasado, aparecesse. Talvez esse atraso tenha sido uma mensagem do universo – ainda era tempo de ir embora, pegar um táxi e voltar para casa, desistir daquela loucura toda, pois a partir do momento que entrássemos no ônibus, seguiríamos invariavelmente rumo a desafios que nunca antes tínhamos enfrentado. Talvez aquele fosse o momento perfeito para colocar o rabo entre as pernas e fugir, mas nenhum de nós dois sequer pensou nisso.

Colocamos nossas mochilas no bagageiro e ocupamos nossos lugares. Não havia mais retorno. Já estávamos na estrada.





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* Junto com os pequenos roedores que comem as porcarias que deixamos por aí e os animais de estimação e de fazenda, mas esse não é um post sobre biologia ou teoria da evolução.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre o tempo e relógios esquisitos

Morei e cresci em Caxias do Sul por quase toda minha vida, mas desde que comecei a faculdade em Porto Alegre, há dois anos, não tenho sido muito diferente de um turista, vindo para a cidade natal em alguns finais de semana e logo voltando para a capital para continuar os estudos. Dá para perceber que minha relação com a cidade mudou de morador para visitante só pela organização sintática do meu texto - eu volto para Porto Alegre de Caxias do Sul, e não o contrário.

Esse distanciamento me faz ver Caxias de outros ângulos que antes me eram inacessíveis. Quando se vive em um lugar, não se nota suas mudanças, apenas paulatinamente. Devargazinho, um detalhe que outro muda, até que, 10 anos depois, já não se vive mais na mesma cidade, apenas no mesmo local. Agora, quando apenas se visita um lugar, todas as mudanças são - ou parecem - bruscas. Não por que sua presença mágica faz com que as coisas se transformem de repente, mas como você não estava por aqui acompanhando os detalhes mudando a passo de formiga, vê apenas o resultado, e não o processo. Hoje tive esse impacto pelo menos duas ou três vezes.

Caxias do Sul é o pólo industrial mais importante do estado, mais do que a própria capital, arrisco dizer, atrái muitos investimentos e pessoas, e por isso muda muito rapidamente. A última vez que estive aqui e pude ver o centro da cidade com mais calma foi a quase um mês. Dá tempo para muita coisa mudar, ou, pelo menos, parecer muito diferente. Logo na rodoviária, quando desci do ônibus, percebi que as coisas por lá estão mais arrumadas, bonitas. Não gosto de rodoviárias e acho todas elas feias e sujas (por que são mesmo), e a daqui de Caxias parecia mais limpa do que de costume. Claro, fizeram uma rampinha bonitinha ao lado do desembarque, colocaram uns vidros bonitos e pintaram as paredes de branco com detalhes em azul e amarelo. Da última vez que desci lá, só havia poeira e cimento para todos os lados. Eu poderia ligar os pontos e pensar "olha, terminaram a reforma", e de fato fiz isso, mas só depois que o impacto do local estar tão diferente ter passado.

Depois, já fora da rodoviária e no centro da cidade, atravessando a Sinumbu, do lado da praça Dante Alighieri, vejo uma coisa estranha naquele pedaço de calçada no meio da rua. À primeira vista, parecia um daqueles relógios que também dão a temperatura, só que mais afrescalhado. Numa inspeção mais atenta, percebi que era quase isso - era uma bomba-relógio um marcador contando quantos dias faltam para a Festa da Uva de 2010. 364 dias até o grande festival de terra, pão e vinho com o qual eu não poderia me importar menos. Da última vez que passei por ali, ao contrário do que aconteceu no caso da rodoviária, não havia nada que indicasse a futura aparição do Inri Cristo e seus anjos do Apocalipse daquele trambolho prateado. Eu sei que para ele aparecer ali ocorreu todo um processo, desde a liberação da prefeitura até a construção do mecanismo e sua eventual fixação anal ao solo, mas para eu que só vi ele hoje, parece que ele caiu de alguma nuvem no céu. Foi ali, naquele momento quando todas estas coisas fervilharam em minha cabeça, que este post nasceu.

E, ainda impressionado com como as coisas mudam, quase chegando ao lar, vi que pintaram uma das casas aqui da rua de um verde bem chamativo, ao contrário da cor antiga, apagada demais até para eu lembrar. Ficou bonito. Sábado estarei indo gerundicamente para Paraíso, a praia onde passei todos os verões de minha infância. Faz pelo menos um ano desde a última vez que estive lá, quando tive o choque de descobrir muitas coisas mudadas. Provavelmente há mais novidades que caíram do céu me aguardando por lá para me surpreenderem.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Um Ano de Jornada

Ontem este blog fez um ano. Queria ter feito um post comemorativo, mas acabei indo comemorar outras coisas com meus colegas de estágio em um bar no Centro e acabei esquecendo completamente de escrevê-lo. Como prova de que superei, ainda que só um pouco, minhas obsessões de exatidão e simetria, faço o post agora, com um dia de atraso.

Apesar de todo este meu drama, não acho que haja muito o que falar a respeito deste um ano de blog. Um colega meu, no início do ano passado, quando este blog estava em seus princípios, me disse que, apesar de não gostar de tudo que escrevo, sempre gostou de como eu escrevo, e que meu estilo melhorou com a faculdade, assim como minhas capacidades de escrita. Não me lembro se ele disse por que isto ocorria, mas imagino que todo o processo de estudar Psicologia, lendo, discutindo em aula e escrevendo trabalhos poliu minhas habilidades literárias e argumentativas. Um ano depois, estas influências continuam me moldando ainda mais, com a diferença que, ao longo do ano de 2008 tive mais este espaço aqui para fazer minhas perguntas ao mundo. Não é uma tarefa simples, pois elaborar uma boa questão envolve discernimento do que não se sabe e do que se quer saber, além da capacidade de colocar tudo isto em palavras. Nem sempre tive sucesso nesta empreitada, e escrevi muita bobagem, mas, se comparado com onde estava há um ano, acho que progredi bastante.

Fez diferença eu criar um blog meu, com um nome e um foco mais idiossincráticos. No Roqueiro & Alcoólatra, agora falecido (apesar de ainda dar alguns suspiros eventuais) eu já fazia tudo isto, mas meus questionamentos mais elevados, espirituais, acabavam se perdendo no meio das bobagens que eu e os outros postadores escrevíamos. Fazendo uma comparação, era mais ou menos como escrever poesia para o Diário Gaúcho - completamente fora de lugar. Hesitei bastante, mas criei o Espadachim Cego. E foi uma boa idéia. Aqui, todos as perguntas que me fiz, mesmo as mais bobocas, puderam ser feitas com maior liberdade, e tentei respondê-las da melhor forma que pude. Para ser franco, não creio que tenha atingido nenhuma resposta satisfatória para nenhuma delas, mas talvez isto seja parte da natureza destes enigmas da vida.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Expedição Austral - O Retorno II

Estou de volta da Argentina, fazem quase dois dias. As coisas aqui em Porto Alegre não parecem ter mudado muito, mas, para mim, parecem radicalmente diferentes. No final das contas, fui eu quem mudou. De certa forma, sabia que isto aconteceria depois desta viagem, mas não era capaz de imaginar a magnitude desta mudança. Talvez nunca serei capaz.

Diferente de muitas pessoas, acredito que a vida tem um sentido, e que cada um de nós tem uma missão para cumprir em vida. Antes da Expedição, tal como Jonas, eu sabia disto, mas me recusava a aceitá-la. Precisei eu também trilhar um longo caminho para perceber que não quero fazer outra coisa. Talvez isto soe enigmático ou enrolado demais para muitas pessoas, mas para mim, nunca algo fez tanto sentido. Minha vida recomeça aqui e agora, e prometo vivê-la da melhor maneira possível, e cumprir aquilo que me foi designado, mesmo que eu seja incapaz de entender o porquê.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

A Expedição Austral - O Retorno

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Expedição Austral, ou, De Porto Alegre à Ushuaia num Del Rey na Banguela

Caros amigos, quando vocês estiverem lendo este texto, já estarei longe em terras estrangeiras. Hoje à tarde viajo para Buenos Aires, onde ficarei três dias antes de dirigir-me para o extremo sul do continente, a cidade de Ushuaia, no fim do mundo.

Como a viagem para o ENEP em Campo Grande, sinto que esta será mais uma jornada da minha alma, e que não voltarei o mesmo. Há semanas tenho sonhos agitados e confusos, porém estranhamente desafiadores e cheios de esperança, que sinto indicarem aglo no horizonte de minha vida, e que esta expedição às terras austrais não acontece por acaso.

Por pelo menos três semanas, viverei a minha "existência desnuda", sem todas estas parafernalhas modernas que me enfraquecem e me tornam um escravo de meus sentidos. Será difícil. Comerei apenas o que preciso, dormirei apenas o necessário e minha vida será apenas aquilo que consigo carregar em minhas costas. Poderia apenas ficar em casa e aproveitar os confortos que a tecnologia me proporciona, mas esta opção parece destituída de sentido. Eu quero domar o touro pelas aspas, por mais insano que possa parecer. Como Thoreau fez em Walden, quero conhecer a vida em si mesma, para que, quando eu morrer, não descubra que não vivi. Pode parecer um desejo audacioso ou pedante, mesmo para esta dura viagem que empreenderei, mas ela é só um passo nesta descoberta.

Receio não ter muito mais o que falar neste momento. Despeço-me de todos e de todas, desejando um feliz Natal e um feliz Ano Novo, e deixando a promessa de voltar com muitas fotos e com um espírito fortalecido.

sábado, 29 de novembro de 2008

Time after Time

Com as férias se aproximando, começo a pensar um pouco na experiência de fazer faculdade. Sempre tive a impressão que cada mudança de semestre acarreta não só uma alteração na organização do tempo, mas também do espaço. Sempre volto para o mesmo prédio, mas nunca para a mesma faculdade, ou, melhor dizendo, descubro alguma coisa nova sobre ela e passo a enxergá-la sob outro prisma. Creio que isto ocorre graças ao fato de nunca termos aula na mesma sala por dois semestres seguidos, mas também pelos conteúdos, professores e mesmo colegas que sempre mudam.

A passagem do primeiro para o segundo semestre foi estranha - ainda era bixo, verde na UFRGS, mas tinha adquirido um saber que me deixava quase em pé de igualdade com muitos de meus veteranos.

A passagem do segundo para o terceiro semestre foi ainda mais estranha, pois, finalmente, deixava de ser calouro e tornava-me eu mesmo um veterano de pleno direito, e junto com meus colegas adotava os recém-chegados como protegidos.

A passagem que se aproxima transformará os meus bixos, aquelas criaturinhas ingênuas, bobocas e perdidas que acolhi um ano atrás em também veteranos, enquanto eu caminho a passadas largas em direção à antigüidade de um "vôterano" (o Marcelo e o Brunão, por sua vez, vão virar bisavôteranos). Na verdade, dizer que mudar a folhinha do calendário e o fim das aulas nos transforma em algo é incorreto, pois passamos o ano inteiro nos metamorfoseando, nos tornando algo diferente e (esperamos) melhor, e o fim do semestre apenas oficializa nossa chegada a um ponto de referência desse nosso crescimento fluido, por onde todos os que fizeram faculdade antes passaram, mas que no final das contas não quer dizer muito.

Dito isso, mal posso esperar para ver as caras novas que irão habitar o nosso prédio conosco no próximo ano.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Dia de Campanha

Este foi um dia de muitas novidades, pois foi o primeiro dia que panfleteei na entrada do RU. Vesti minha camiseta verde da chapa, peguei minhas coisas, fui para a aula e, quando chegou a hora, fui para a frente do meu Templo de Comida Barata.

Confesso que nunca simpatizei muito com os panfleteiros que rotineiramente infestam as entradas dos restaurantes universitários, pois, além de serem muitos e insistentes, são inescapáveis, pois há apenas uma forma de entrar e sair dos RUs. Então, geralmente só existem duas maneiras de lidar com eles: pegando o que quer que eles estão distribuindo ou não. Claro que também existem diversas variações destes dois comportamentos.

Hoje tive uma oportunidade de ver o outro lado da história: a preparação dos materiais, a divisão das equipes para ir aos locais, a fome e o calor que o pessoal trabalhando passa e, principalmente, a relação com as pessoas da fila. Se é chato para quem tem que ficar esperando na fila recebendo papeizinhos, também o é para quem os distribui. Como eu disse antes, há várias maneiras de receber ou recusar um panfleto: há, sim, aqueles que pegam o panfleto e o lêem em algum momento, mas suspeito que eles sejam poucos se comparados com a maioria que pega a papelada para não se incomodar e a joga fora na primeira oportunidade. O lugar de despejo de panfleto preferido do pessoal que almoça no RU da Saúde é o parapeito da janela do lado das escadarias. Em dias de campanha, ele sempre fica cheio. Deveria ter tirado uma foto para ilustrar este post, mas duvido que falte oportunidades para tanto, com mais três chapas na disputa. Aliás, um dos meus maiores divertimentos esta manhã foi tentar adivinhar quem guardaria o panfleto e quem o deixaria do lado da janela. E entre os que recusam, há os educados, que dizem “não, obrigado”, aqueles um pouco mais ríspidos e aqueles que fingem a sua não-existência, e passam direto por você. Considero estes os “piores”, por assim dizer, pois são os que mais deixam evidente a tua inconveniência, de que tu estás atrapalhando o almoço deles. Não os julgo por isso.

Fiquei um pouco sobrecarregado com a nova tarefa, e em alguns momentos, caí em pensamentos sobre tudo aquilo. Observando meus colegas e eu mesmo na abordagem das pessoas, pensei que estávamos sendo desrespeitosos, invadindo o espaço pessoal alheio e empurrando-lhes papel colorido, da mesma forma que algumas mães empurram comida goela abaixo de seus filhos. Tentei desenvolver uma forma de “panfletagem não-invasiva”, onde, ao invés de pegar o panfleto e colocá-lo na frente do transeunte, eu apenas mostrava ele, e pedia se estava interessado em lê-lo, ou coisa parecida. Creio que tive algum sucesso nisso, pois as pessoas pareciam mais dispostas a aceitá-lo, e mesmo as que recusavam talvez não se sentissem desrespeitadas. Mas isso é apenas uma hipótese feliz, e não tenho como prová-la.

Em um dado momento, quando o movimento estava mais fraco, dei uma lida no nosso material, no que tínhamos escrito, e fui tomado por uma onda de angústia, pois ali estavam escritas coisas que, se dependessem diretamente de mim, não teriam sido impressas, especialmente as críticas contra a outra chapa, a 1. Senti-me angustiado por que, apesar dos pesares, eu concordara com aquilo quando assinei meu nome para a nominata, e quando não fui contrário à proposta de atacar diretamente os seus líderes. Eu fiquei quieto. Eu consenti. E eu associara-me com isto, e estou sujeito aos mesmos riscos que estas pessoas que criticaremos. Até o final da campanha, e, se formos eleitos, durante o próximo ano inteiro, serei taxado como um “cara do PSTU”, “esquerdista do DCE” ou qualquer outra alcunha que nos descreva de alguma forma. Eu sabia disto, mas só hoje ao ler o panfleto senti com toda a força que podia. Mas não vou desistir.

Entre discussões e ações, minhas dúvidas quanto a minha chapa ser a correta crescem. Uma boa amiga minha depois da aula me disse que, apesar de todo nosso discurso de que todos podem chegar, ainda passávamos um ar de superioridade, como se nós fossemos os escolhidos de Marx Deus para coordenar o DCE e guiar os estudantes rumo à luz. Afirmamos que são as mesmas pessoas há quatro anos dirigindo o Diretório Central, e que estão quase criando raízes lá dentro, mas queremos algo mais do que a chance de nós criarmos as nossas raízes por lá também? Não duvido da nossa consciência, mas da nossa congruência, de nossa capacidade de colocar em prática aquilo que dizemos. Em algum momento, uma menina com um adesivo da chapa 1 entrou na fila, sozinha. No que talvez tenha sido uma má idéia minha, ofereci um panfleto para ela, brinquei um pouco, e disse que seria legal ela ler nossas propostas para poder criticar depois. Um dos meus colegas, provavelmente por ter visto o adesivo amarelo e vermelho, chegou perto de nós e começou a resmungar algo que não consegui escutar, mas que pela sua postura não era algo que eu gostaria de ouvir se estivesse sozinho junto com muitos adversários políticos. Mandei-o parar de provocar. Assustamos ela, provavelmente, apesar do meu desejo ser justamente o oposto.

Ao meio-dia e meia, aproximadamente, fui almoçar. Quando cheguei no parapeito da janela, apesar de já saber que ele estaria cheio de papel, distribuído por nós, e vi que minhas suspeitas se confirmavam, fui invadido por uma sensação de inutilidade, que todos os panfletos, cartazes e jornaizinhos eram apenas sujeira irrelevante no processo eleitoral e que não ajudavam ninguém a decidir voto nenhum. Boa parte do meu almoço foi tomada por estes pensamentos.

Após comer e descansar brevemente no DAP (com a nova edição do PSIU! pronta), passei nas salas de aula da Psicologia para anunciar nossa chapa. Outra nova experiência, que, apesar da ânsia que sinto em falar em salas de aula (é, uma mini-fobia bem específica minha), me saí bem.

Também descobri que, na próxima semana, última de campanha antes das votações, ocorrerá um debate entre as chapas no Bar da Psico, ali do lado do DAP. Adoro debates, mesmo os ruins onde sou apedrejado verbalmente, pois são o tipo de desafio intelectual que me deixa empolgado. Pessoalmente, acho que foi uma boa escolha da parte da Comissão Eleitoral, de fazer o debate ali. Não por que eu me sinta mais em casa ou qualquer coisa, mas por que o pessoal da Psicologia, por não ser partidário, não ficará em volta como uma claque, aplaudindo seus candidatos e vaiando os demais. Vai ser divertido. Hohoho.

Numa nota paralela ao assunto, estou bastante receoso de publicar estes textos sobre as eleições no meu blog, pois não sei como meus colegas de chapa reagiriam se os lessem. Claro, escrevi eles de maneira tal que não sejam ofensivos, mas ainda não tive coragem de falar em uma reunião sobre estas questões, que considero fundamentais. Farei isto na próxima reunião, se puder comparecer. Afinal de contas, foi para isso que entrei nessa história.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Volta do Filho Pródigo

Este final de semana, dei uma passada no meu antigo grupo de escoteiros. Tinha falado com um amigo meu que ainda participa, e resolvi aparecer para a atividade deste sábado.

Depois do almoço, peguei o ônibus linha Pioneiro, que vai até os Pavilhões da Festa da Uva, e ao chegar à sede, entrei direto na sala do Clã Pioneiro. Passei quase a tarde inteira sentado escutando os outros falarem. Mas, depois que a atividade acabou, fui junto com os outros para a chácara de um amigo, onde a tropa sênior estava acampando. Neste mesmo local passei muitos finais de semana divertidos, comendo porcarias, dizendo besteiras, nadando na piscina e construindo pioneirias. A partir do momento que me disseram que iríamos para lá, sabia que a minha pequena visita se tornaria uma viagem ao meu selvagem passado sênior.

Para ser sincero, não esperava que fosse uma experiência prazerosa. Achava que tanto tempo distante de todo aquela atmosfera me mudara demais para poder apreciá-la da mesma forma, e que eu não teria o que falar com meus amigos, que estão envolvidos com coisas muito diferentes do que eu. Em parte, estava certo: com certeza, não tive a mesma sensação que costumava ter ao ver aquela piscina suja e entrar naquele mato embarrado, e meus amigos achavam mais interessante falar sobre futebol e carros do que política e genética. Mas, ainda assim, foi muito bom ter ido.

Obviamente, o cheiro de fumaça ainda é o mesmo, mas eu o sinto de forma diferente agora, depois de quase dois anos morando e estudando em Porto Alegre, numa instituição de ensino superior considerada de excelência. Geralmente eu evitaria esta definição, mas o fato é que minha vida de dedicação exclusiva aos estudos me diferenciou bastante dos meus amigos, que estão mais preocupados em trabalhar e ganhar dinheiro. Não que eles não estudem nada, mas isto é meramente secundário para eles, enquanto que para mim isto é central.

Mesmo assim, senti-me em casa. Todo ex-escoteiro acaba um dia voltando para seu grupo, por um dia que seja. Fiz isto esse sábado. Visitei os cantos das patrulhas, elogiei sua organização e suas pioneirias. Acredito que fui o primeiro ex-sênior em muito tempo (se não o primeiro de todos) que, ao invés de criticar e reclamar da deterioração da tropa depois que saiu, elogiou e disse que eles estavam mais bem preparados do que eu estava na minha época. Acho que isto os animou (se algum veterano de tropa meu dissesse isso, eu certamente ficaria animado).

Mas apesar de achar que eles estão muito bem, ainda fiquei surpreso de vê-los por lá, sendo seniores. Cacete, quando eu era sênior aquela gurizada só ficava tirando ranho do nariz e brincando! Como podem agora estar montando torres de sinalização e trabalhando noites inteiras? Acho que só posso dizer que o tempo não pára, e as coisas sempre estão mudando. Eu, por exemplo, durante meus tempos de escoteiro nunca me imaginara largando o grupo para estudar em Porto Alegre. Aliás, eu achava que continuaria no movimento ad eternum, e seria pioneiro e chefe. Doce ilusão. Mal cheguei aos pioneiros e saí. Olhando para trás agora, posso dizer que foi uma decisão acertada. Contudo, durante a levemente chata reunião da tarde, ouvindo o que meus amigos fazem agora como pioneiros, pude ver que não teria sido uma má idéia continuar no movimento, pois são atividades realmente enriquecedoras. Isto me entristeceu um pouco, pois deixei para trás um pedaço importante da minha vida quando saí em definitivo, e fiquei com a sensação de ter perdido muita coisa. Claro, quem diz isto sou eu, Andarilho, depois de passar por muitas outras experiências fantásticas que me deram uma visão mais ampla da vida, visão que, talvez, eu não teria agora caso tivesse escolhido ficar em Caxias. Mas isto é pura especulação, e nunca saberei ao certo.

Mesmo as situações quem mais deixaram claro o meu distanciamento foram divertidas. As mais marcantes ocorreram quase em seqüência. Comecei a discutir sobre implicações éticas e filosóficas das pesquisas em genética e ser interrompido pelos demais, que se sentiam perdidos, para depois dar vexame por não conseguir rachar um pedaço de lenha a machadadas. Tornei-me um intelectual. Por um lado isto me agrada, e por outro me irrita. Não quero passar o resto da minha vida apenas discutindo: eu quero fazer! E para isto o escotismo me proporcionava grande número de oportunidades.

Pensando um pouco na minha carreira escoteira, posso dizer que fui esforçado. Não era particularmente brilhante ou adepto em fazer as coisas, mas minha persistência e força de vontade me colocavam de igual para igual com meus colegas mais fortes e habilidosos. Nunca fui o melhor em fazer amarras, nem em cozinhar ou em qualquer outra habilidade campeira (exceto em pagar flexões e competir em aventuras, que eram meu motivo de maior alegria e são agora motivo de maior nostalgia). Fui, contudo, suficientemente bom em todas elas.

Bem, acabei escrevendo um texto um tanto quanto desconexo e piegas, mas bastante honesto. Para concluí-lo, devo dizer que não voltarei para o meu grupo, não neste meu momento existencial atual. Porém, certamente aparecerei mais vezes na sede do velho Grupo Escoteiro Moacara, e me encontrarei mais com aquelas pessoas que tanto fizeram por mim, sejam meus ex-colegas, sejam meus chefes. De uma forma ou de outra, eles fazem parte do que sou hoje.

domingo, 28 de setembro de 2008

Eu e a Psicanálise

É bem comum, entre pessoas leigas, confundir Psicologia com Psicanálise. A primeira é a ciência ampla que estuda todo o espectro de fenômenos humanos, e a segunda uma abordagem teórica-clínica que, apesar de ser uma parte muito importante da Psicologia, não é sua totalidade. Ainda assim posso garantir, com possibilidade máxima de erro em 1%, que todos os estudantes de Psicologia do Brasil, estejam formados ou não, ao falarem de seu campo de atuação para alguém que acabaram de conhecer (num barzinho, por exemplo), já tiveram que responder a comentários sobre análise e Freud (os mais comuns sendo “tu está me analisando?” e “o que Freud diria sobre meu hábito de [insira bizarrice aqui]?"). E posso garantir também que todos foram capazes de responder de forma mais ou menos satisfatória, sendo fãs de Freud and buddies ou não.

Creio que seja necessário um pouco de história para explicar por que isto acontece. Como vocês podem imaginar, o mundo era um lugar muito diferente em 1895 do que é hoje. A diferença que acredito ser mais significativa para este texto é na Psicologia, tanto como ciência quanto como fenômeno.

No final do século XIX e início do XX, a ciência dominava porções cada vez mais amplas da natureza, através da adoção de metodologias mais rigorosas, que consistiam em estudar essencialmente apenas aquilo que podia ser visto e quantificado de alguma maneira. Reinava o pensamento no mundo ocidental que, através da ciência e da racionalidade, nada seria impossível. E é neste ambiente que nasce a Psicologia. Tomando como modelo as ciências mais velhas, os psicólogos da época buscam estudar a consciência e descobrir suas partes utilizando a mesma metodologia que fizeram o sucesso da Física e da Biologia. Mas como estudar um objeto tão complicado como o ser humano desta maneira? Por causa disto, a Psicologia tornou-se uma ciência humana um tanto quanto distante dos seres humanos que se propunha a estudar. Esta fé na racionalidade não se restringia apenas à ciência, e estendia-se a praticamente toda a sociedade ocidental. Falava-se muito em virtudes, e escondia-se todo o tipo de pecado e sujeira, especialmente a sexualidade, que era reprimida de forma muito dura.

E, no meio de tudo isto, longe da academia e cuidando de sua clínica particular, se encontrava o jovem neurologista Sigmund Freud. Ele estudara junto com alguns dos mais renomados psicopatologistas e psiquiatras da época, especialmente Josef Breuer, com quem escreveu o agora clássico “Estudos sobre a Histeria”. Com base neste livro, Freud desenvolveu uma teoria revolucionária do comportamento humano: não somos criaturas completamente racionais, nem virtuosas. Somos, na maioria dos casos, determinados por variáveis inconscientes e pouco louváveis, e que somos criaturas essencialmente sexuais. Se dissermos isto hoje em alguma palestra por aí, poderemos causar certo mal-estar entre os presentes, mas nada digno de nota, pois isto se tornou parte do senso comum. Na hipócrita sociedade do começo do século XX, onde todos os homens de respeito tinham uma amante e falavam de castidade, isto foi um verdadeiro choque. Freud iniciara uma verdadeira revolução paradigmática, injetando sangue novo na Psicologia e na Psiquiatria, e até hoje seus escritos cheios de insights inspirados causam polêmica, e é impossível estudar Psicologia sem ler nenhum de seus textos.

Se ela ler este texto aqui, minha professora de História da Psicologia vai ter uma crise de consciência por ter me dado aula, pois resumi grosseiramente mais de um século de muitas reviravoltas, mas isto explica porque todos os estudantes de Psicologia são capazes de falar de Freud. Além de impossível, é indesejável para qualquer estudante de Psicologia não ler nenhuma de suas obras. Curiosamente, entre os psicanalistas que me dão aula não há nenhum freudiano. Nosso amigo Sigmund era um homem muito inteligente, e atraiu muitos discípulos, mas ele também era dogmático e tirânico, proibindo seus seguidores de alterarem sua teoria. Isto gerou muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, que por sua vez também geraram muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, tornando a psicanálise muito fragmentada. No nosso Instituto de Psicologia, os psicanalistas seguem os ensinamentos de Jacques Lacan, que pregou um “Retorno à Freud”, e reinterpretou toda a teoria psicanalítica original de forma muito... original. E é entre os lacanianos que devo situar minha relação com a psicanálise.

Já entrei na faculdade detestando a psicanálise. Meu pai, já formado em Psicologia, muito criticou os psicanalistas, e até me mostrou um livro absolutamente incompreensível (original, portanto) escrito por um. Era, no primeiro semestre, um ferrenho defensor das Terapias Cognitivo-Comportamentais e de sua adoção. Mas eu era bem dogmático também, e sem muitos argumentos. As conversas com meus colegas, as leituras e as aulas me levaram a um gradual afrouxamento de minhas convicções. Tive várias fases: a cognitiva, a comportamental, a humanista e também a psicanalítica. A cada leitura, a firmeza de minha fé era abalada, pois era levado a considerar todos estes pontos de vista, por absurdos que possam ter soado aos meus ouvidos, poderiam estar corretos. Tive a obrigatória crise existencial teórica pela qual todo bom estudante de Psicologia passa um dia. Convenci-me da veracidade de muitos deles, inclusive de muitos psicanalistas. Porém, por mais tolerante que me tornara, nunca ficara completamente satisfeito com a psicanálise que me é ensinada. Sim, eles podem estar certos apesar de serem incompreensíveis, herméticos e empolados, e posso no futuro tornar-me um lacaniano. Só que duvido muito.

Contudo, muito recentemente, cheguei à definitiva conclusão de que nunca serei um psicanalista. Em nome da diversidade teórica, inscrevi-me em dois cursos de extensão diferentes: o primeiro, era sobre “A Interpretação de Sonhos” de Freud, e foi dada por um dos maiores expoentes brasileiros em psicanálise lacaniana; o segundo, apesar de intitulado “Os Conceitos Fundamentais da Psicanálise Freudiana” também é dado por uma seguidora de Lacan. No minicurso sobre sonhos, o professor falou que a força de vontade é importante e nos trouxe muitos progressos, mas que no fim, somos sujeitos do desejo – ele manda em nós. E na última aula de “Conceitos Fundamentais...”, a professora falou que o amor não existe. Ele é uma mera ilusão, mas que podemos encontrar uma boa parceria e viver uma vida relativamente confortável. É a filosofia do status quo: vivemos nossa vida miserável fingindo que estamos no melhor dos mundos, pagamos o analista para ele ficar nos escutando e confirmando nossa mentira diária, mantemos tudo como está por que não há esperança e todos ficam felizes com isto. Nenhuma discussão epistemológica, nenhum texto absurdo falando sobre as gônadas das pombas e nenhum professor profundamente prepotente me convenceram de forma tão contundente que a psicanálise lacaniana é um absurdo e uma perda de tempo quanto estas duas afirmações, ditas de forma tão sóbria e com ares de tamanha sabedoria. Foi assim que descobri que não quero ser mais um destes acomodados.

É interessante notar que, pelo menos na UFRGS, existe uma dicotomia que meus bixos muito apropriadamente chamaram de “A Psicanálise versus o Resto do Mundo”. Neste conflito, a psicanálise coloca-se como defensora de toda subjetividade e liberdade humanas, contra todas as outras forças positivistas da ciência, que busca esmagar a tudo e a todos com sua objetividade controladora. Ó, a ironia!

sábado, 30 de agosto de 2008

Humildade e Verdade

Acredito que foi Descartes que disse pela primeira vez, no Discurso do Método, que o “bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos estão convencidos de terem o suficiente”. Não sei qual foi sua intenção original ao escrever isto, mas atualmente soa como uma fina ironia – pois mesmo os psicóticos se crêem as criaturas mais sãs do universo.

Acredito que esta fé absoluta na razão, esta crença de que somos plenamente capazes de entender e resolver qualquer coisa é uma das maiores fontes de miséria humana. Esta quinta-feira fui surpreendido por uma afirmação de um colega meu. Durante nosso percurso entre a parada de ônibus e o RU, ele disse que “quem faz filosofia não tem senso crítico, mas quem faz ciência tem”. Obviamente, ele se intitula um cientista. Alguns segundos depois ele reviu sua posição, já que eu e outro colega meu despejamos argumentos contrários, e ele fora forçado a ver que toda a ciência repousa sobre a base de uma metateórica filosófica. Ainda assim, esta afirmação evidencia o que acredito ser justamente a falta de senso crítico de meu colega. É tão garantido para ele estar certo que todos os outros sempre estarão errados, por mais absurdas que sejam suas próprias opiniões (do meu colega, entenda-se). Fiquei um tanto quanto indignado com isto, pois me é inconcebível ter tamanha certeza. Mas isto também me levou a pensar: até que ponto eu não faço o mesmo?

Ontem tive uma prova incontestável da minha prepotência. Já afirmei várias vezes que sou arrogante, mas nunca antes experienciei isto como tão verdadeiro e profundo. Em outras palavras, nunca me senti tão humilde, e tão necessitado de humildade quanto ontem. Trouxe-me à consciência, mais uma vez, a necessidade da honestidade, pois é impossível ser humilde sem ser absolutamente honesto. Muitas vezes nos enredamos em filosofias solipsitas e radicalmente relativistas não por que realmente acreditamos nelas, mas por que elas nos tornam invulneráveis a críticas e a erros. Torna-nos “perfeitos”. Mas que perfeição é esta? A verdadeira honestidade, como eu a vivencio, não é complacente nem justificadora: é absoluta. Desconfie de alguém que tem sempre respostas e justificativas para tudo, pois em algum momento ele estará errado, mas não terá coragem de admitir e mentirá. Para ele, é preferível manter a imagem idealizada de si mesmo do que buscá-la – a busca envolve dor, ao passo que a idealização consiste meramente em ficar sentado sonhando. Uma pessoa honesta, por outro lado, admitirá antes de mais nada que ela mesma não é honesta, que em algum momento ela invariavelmente cairá na fraqueza de justificar-se, e que é necessário estar sempre atento para não sustentar uma ilusão egoísta.

Não sei definir ao certo se a honestidade é decorrente de um profundo desejo de conhecer a verdade, ou se desejamos conhecer a verdade por que somos honestos. Muito provavelmente sejam as duas coisas. Posso, contudo, dizer que quanto mais ilusões abandonamos, mais capazes de identificar erros nos tornamos, e mais próximos da verdade chegamos.

sábado, 23 de agosto de 2008

Norte

Neste momento solitário que vivo em meu apartamento, acompanhado apenas da música e da chuva caíndo lá fora, as memórias brotam em minha consciência, e o som das gotas tamborilando no chão da rua e no vidro de meu quarto levam-me diretamente à uma tarde de 2005 - acabara de almoçar, e recebera uma mensagem de uma certa menina, pedindo para que fosse até onde ela estava. Apesar da chuva que fustigava minha face, atendi seu pedido, e peguei o ônibus que passasse perto do colégio dela. Lá chegando, fui quase que imediatamente mandado de volta, como se eu fosse qualquer um e não tivesse a menor importância. Na verdade, para ela, eu era qualquer um e não tinha a menor importância. Apenas estive no lugar certo na hora certa com ela algumas semanas antes. Lembro-me muito vivamente da chuva escorrendo por meus cabelos, e da minha raiva de fazer tanto por tão pouco.

E esta mesma memória me joga de volta para o ano de 2008, há apenas alguns meses, quando planejei e executei uma viagem para Novo Hamburgo no Dia dos Namorados - uma hora e meia dentro de um ônibus apenas para entregar uma rosa para uma outra menina e ir embora. E, mais uma vez, todo meu esforço foi debalde, pois esta outra menina também não estava disposta a abrir mão de muita coisa por minha causa.

Nestas duas vezes, senti grande revolta e raiva por dar tudo e não receber nada em troca, de ir além de mim mesmo por outro que, não exagero, mal notava minha existência. Mas hoje, percebo que toda chuva e poeira que encarei me purificou, me tornou mais forte, confiante e decidido, e que, por mais que naqueles momentos eu senti-me desprezado, eu era verdadeiramente livre, pois nenhuma distância ou barreira me impediram de ir onde quisesse para ficar com quem eu queria, mesmo que o desejo não fosse recíproco! Junto com a liberdade veio o amargo gosto da solidão, mas também a autêntica felicidade que apenas os que buscam a Verdade sentem. Sim! Em cada jornada que andei, não buscava apenas os beijos e abraços desta ou daquela menina, mas a minha própria Verdade, que dá sentido para minha vida! Não posso culpar estas meninas por não perceberem o valor da minha renúncia, por que estão demais presas na teia que condiciona seu pensar, seu agir e seu sentir. Não posso esperar que entendam por que um homem age. Eu também ainda estou muito preso nesta mesma teia - percebo isto todo dia e cada vez mais - mas não há nada que eu deseje mais do que libertar-me, mesmo que para isto eu precise me ferir, me magoar e me humilhar, como aconteceu nestas minhas duas jornadas. Percebo, neste momento solitário que vivo em meu apartamento, acompanhado apenas pela música e pela chuva, que não posso esperar que mais ninguém além de mim tenha tal norte, que não posso culpar ninguém por buscar algo que não a Verdade, mas que devo ser tolerante e compassivo. A liberdade é para os poucos que amam a solidão.