sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Dias de Paz, Dias de Luta

Terça-feira fui de manhã para a faculdade para conversar com a professora de Psicologia Humanista, por causa de todos os perrengues burocráticos que tive que enfrentar para cursar uma eletiva. Chegando lá, entrei na sala onde a aula estava acontecendo, e descobri que, ao contrário do que imaginara, um número considerável de pessoas, alguns deles meus colegas, haviam se matriculado nela. Eu achava que ninguém iria se interessar pelo assunto. Mas se interessaram. A professora olhou para mim e disse "olha só, teu esforço deu frutos". Lembrei-me então que fizera grande esforço para que esta eletiva saísse. Senti um certo orgulho por isso, por ter feito algo bom para meus colegas.

Pensando nisto, lembrei de outras coisas que posso fazer e que são meu dever. Até semestre passado, eu era um participante ativo do Diretório Acadêmico, o DAP, mas por muitos motivos, acabei me desiludindo e deixando ele de lado. Mas eu ainda estou envolvido com ele, com o Psiu e com a comissão de estágios. Lembrei como, apesar de frustrantes, estas duas atividades com as quais me envolvi são importantes, não para mim, mas para todos os estudantes de Psicologia da UFRGS. Isso me deu um ânimo novo para continuar lutando por elas.

Numerologia

E hoje é dia 08/08/08! Sabem o que significa? Nada*. Mas é bonito para um obsessivo como eu.




*Talvez Jung discordasse de mim, dizendo que hoje é um dia especialmente simbólico, por ter um número pleno como o 8 repetido três vezes, significando que hoje seja um dia de especial poder, mas deixa para lá.

Algumas impressões do semestre letivo e da faculdade como um todo

Este semestre, por ser mais calmo que os anteriores, dá muita margem para reflexão despreocupada (além de vadiagem e delírios bizarros). Somos a primeira turma do currículo novo de Psicologia da UFRGS, e portanto, nosso destino está largamente indeterminado, pelo menos se comparado com nossos veteranos. Segundo eles, o currículo antigo é um lixo, com um excesso de carga horária e extremamente cansativo, além de ser extremamente influenciado pela politicagem interdepartamentos, que representam mais do que divisões burocráticas do Instituto, mas epistemologias e visões de mundo radicalmente diferentes e até mesmo antagônicas. Já falei um pouco a respeito deste assunto em um post anterior. No primeiro ano, as aulas eram todas dadas pelo departamento 01, mais cientificista, ao passo que o segundo e terceiro anos eram dados pelos departamento 02 e 03, respectivamente, ditos mais "humanistas" e respeitadores da subjetividade humana. Não vou entrar em detalhes aqui sobre este assunto, por ser complexo demais. Basta dizer que, quem gosta de ciência sofria bastante com este currículo.

Nosso currículo, ao contrário, não é divido em blocos, pois temos disciplinas de todos os departamentos ao mesmo tempo, e somos expostos simultaneamente a todas as linhas teóricas presentes no Instituto de Psicologia. Ao contrário de nossos veteranos, não somos conduzidos de forma tão determinista a seguir as ideologias dos departamentos 02 e 03, pois podemos julgar todas elas ao mesmo tempo, e decidir por nós mesmos o que mais nos agrada. De certa forma, é mais honesto. Contudo, não posso afirmar com certeza que será sempre assim. Somos a primeira turma, e portanto somos um caso atípico. Não será possível generalizar nossa experiência para as turmas ainda por vir. O mesmo vale para a turma dos nossos bixos, pois o currículo levará pelo menos mais três anos para se consolidar (às nossas custas, diga-se de passagem).

Quero, ainda assim, fazer uma análise global da nossa experiência na faculdade. É possível notar um padrão de desânimo em nós todo santo semestre, com a exceção do primeiro, quando ainda não conhecíamos nada da UFRGS e da Psicologia. Não sei se isto se deve mais às características de nossa turma do que do curso em si, mas a principal diferenciação que fazemos entre os semestres é o cansaço que nos causam. O primeiro semestre foi cansativo por sermos novos, o segundo semestre foi mais tranqüilo e o terceiro foi extremamente exaustivo. Mas todas as disciplinas obrigatórias a partir do segundo semestre foram muito criticadas por nós. Provavelmente estou exagerando e peço para que o eventual colega que ler isto aqui me corrija, mas ao reler por cima o que escrevi sobre os semestres anteriores, ficou claro que os elogios eram escassos. Por outro lado, as disciplinas eletivas foram extramente bem aproveitadas e elogiadas, pelo menos as que eu fiz. Claro, as eletivas são qualitativamente diferentes das obrigatórias por poderem ser escolhidas por nós mesmos, e terem um gostinho de liberdade.

Este semestre não está sendo muito diferente: as aulas obrigatórias são chatas, apesar de leves, e as eletivas salvam o dia (especialmente no meu caso, que tive a felicidade de escolher as três mais fantásticas). Mais uma vez, digo que não sei se isto é uma característica do currículo, da nossa turma, do Instituto ou da Psicologia como um todo. Mas fico pensando se não seria melhor não ter currículo nenhum e deixar inteiramente por nossa conta as escolhas das disciplinas.

Minhas Aulas na Faculdade (Parte 10)

E finalmente, acabou minha primeira semana de aula! Como não tenho absolutamente aula nenhuma na sexta-feira, tenho um dia inteiro para ler os textos recomendados, treinar Kung Fu e escrever abobrinhas para o blog. Como prometido, farei um exercício de previsão do futuro, e dizer, baseado nas minhas impressões iniciais, o que acho que vai ser das disciplinas que estou cursando.

Quarto Semestre

Avaliação Psicológica - Obrigatória
Review:
Não teremos tantas aulas assim com o professor da prova de 10 anos atrás, já que outra professora titular e uma doutoranda irão dar aulas também. Minhas expectativas continuam baixas, e repito o que disse no outro post: o assunto é interessante, mas eu provavelmente não vou aprender muita coisa nas aulas, e sim nas minhas leituras.

Ética - Obrigatória
Review:
Não foi um bom começo. Parece que vamos ter mais um semestre de Psicologia Social II, apenas com um nome diferente. Mas preciso ser justo, os trabalhos propostos pela professora parecem ser interessantes.

Psicopatologia II - Obrigatória
Review:
Meus colegas entraram em desespero quando perceberam, pelos slides e pelo o que a professora falava, que teríamos outra cadeira repetida - Psicopatologia I. Eu, estóico que sou, não me mixei, e continuei a escrever letrinhas sem fim com a mão esquerda (e conversar com ela quando cansava, mas isso não vem ao caso). Pelo o que a professora falou, teremos, mais uma vez dois trabalhos, o primeiro sobre perversão, e o segundo sobre neurose e, como semestre passado, teremos liberdade para escolher tanto o assunto quanto a orientação teórica que nos agrade. Isso muito me agrada. Outra coisa que me agrada é que, apesar de ser uma cadeira de quatro créditos, temos apenas dois créditos de aula presencial. Os outros dois são para leitura. Em termos práticos, isto significa que ao invés de termos aula até às 17 horas, temos aula só até às 15h!

Psicologia e Educação - Obrigatória
Review:
Educação é um assunto interessante, mas nunca me cativou realmente. Ainda assim, apesar da minha indiferença inicial, acredito que esta será uma disciplina interessante, pois a professora é democrática e interessada no nosso aprendizado. Além disso, ela cobra presença, o que me obriga a gostar mais das aulas dela.

Neuropsicologia - Eletiva
Review:
Na primeira aula, descobri que, como a professora não esperava que muitas pessoas se matriculassem, ela decidiu que serviria como um fórum para seu grupo de pesquisa se reunir e discutir assuntos relacionados à suas pesquisas (as deles, não as suas, leitor), no momento mais focadas sobre memória. Mas como 16 pessoas decidiram cursar esta disciplina, e como quase nenhuma destas 16 entende tanto assim de Neuropsicologia, a professora decidiu dar uma geralzona na matéria antes de se aprofundar em memória. Ao longo da disciplina, vamos realizar uma pesquisa sobre memória (dã!) em idosos, e todos vão ser envolvidos na coleta de dados e, provavelmente, na interpretação deles. Acredito que venha a ser uma excelente experiência fazer isto, apesar de provavelmente cansativo.

Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos - Eletiva
Review:
A professora, uma mestranda orientada pela mesma regente de Neuropsicologia, trabalha na clínica de atendimento neuropsicológico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o único serviço público da cidade deste caráter, e entende bastante do assunto. As aulas serão em formato de seminário: leremos muitos artigos em casa sobre algumas doenças específicas e discutiremos em aula (a primeira aula deste tipo será sobre esquizofrenia). Já estou com os artigos em mãos, e devo confessar que não consegui nem ao menos entender o título de alguns deles. Contudo, gosto de um desafio, coisa que esta cadeira parece ser.

Genética Aplicada à Psicologia - Eletiva
Review:
Candidata à melhor disciplina do semestre, e talvez do curso inteiro. Apesar de eu ter xingado ostensivamente quase todas as disciplinas que tive até o momento, isto não tira nenhum dos méritos de Genética. Primeiro, as aulas são no Campus do Vale, e eu adoro o Vale por ser um lugar distante do feudo intelectual do Instituto de Psicologia, e muito mais diversificado que este. Segundo, ao contrário do que o nome indica, as aulas não serão apenas sobre genética, mas sobre Neurociências em geral - eu tenho procurado uma disciplina deste tipo há algum tempo. E, terceiro, o professor Renato Flores é o cara. Ele sabe o que fala, e apesar de discordar de muitas de suas opiniões, simpatizei com ele por sua sinceridade e entusiasmo ao dar aula. Comecei a gostar dele logo nos primeiros minutos de aula, quando ele disse que não fazia chamada, pois "se tu ficares lendo 4 horas em casa, tu aprendes muito mais do que aprenderia em uma aula". Passar nesta cadeira não vai ser bolinho, pois além da prova, teremos que acompanhar um caso clínico de um paciente com algum tipo de doença genética (preferencialmente sem transtorno mental). O professor nos deixou livres para escolhermos algum paciente de estágio ou conhecido nosso, e, caso não conhecessemos ninguém que se enquadre nestes parâmetros, ele escolheria um dos pacientes do ambulatório dele. E, como ele mesmo disse, se ele tiver que escolher, vai ser do "horrível ao muito complicado", desde crianças em estado terminal, passando por deformações corporais tenebrosas até casos tantalizantemente insolúveis. E nós não vamos só ficar descrevendo o caso, mas vamos ter participação ativa na anamnese, diagnóstico e até tratamento! Como disse meu colega João "tô vendo que ele vai escolher uma criancinha terminal pra eu acompanhar, e eu vou ficar chorando pelos cantos por isso". Em suma, a disciplina de Genética vai ser a coisa mais próxima de um episódio de "House M.D." que vamos viver, por que, além de tudo isso, o Flores é médico, é pirado ("precisa de um exame neurológico? A gente consegue!") e tem uma deformidade corporal que chama a atenção, no caso, paralisia de metade da face. Em suma, a cadeira mais desafiadora e estimulante que tive até agora. Vou me dedicar de corpo e alma para tirar um A.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Paciência

Este semestre letivo será muito tranqüilo em termos de carga horária, pois além de estar cursando apenas 7 disciplinas, algumas delas terminarão mais cedo do que consta na grade de horários. Contudo, há um problema: tirando as eletivas, todas as cadeiras obrigatórias que tive até agora foram profundamente chatas. Em outros tempos, eu simplesmente sairia de aula, dormiria ou tentaria prestar atenção, para só então cair em sono profundo. Agora, estou desenvolvendo novas estratégias de coping... coping with fucking boring classes.

Não quero sair de aula nem dormir pois são estratégias ineficientes, pois posso perder informações importantes, e ainda queimar meu filme com o professor. Oh sim, já aconteceu anteriormente. Mas prestar atenção, pegar meu caderno e ficar escrevendo o que o PhD fica dizendo na frente do quadro negro não é uma opção digna. Tive que optar por um meio termo.

Já aprendi que, se não ficar fazendo alguma coisa, eu lentamente curvarei minhas costas, até que minha cabeça alcance a carteira e eu caia em sono profundo. Na primeira aula da semana, Ética, eu fiquei desenhando. Rabiscos aleatórios. Na segunda aula, Avaliação Psicológica, não tinha nada em mãos para me distrair, então fiquei balançando meu corpo para a frente e para trás, como um bom autista faria. Hoje, fiquei fazendo caligrafia com a mão esquerda. Escrevi todas as letras do alfabeto ad nauseam e alguns números. Sinceramente, acredito que até o final do semestre serei um exímio desenhista ambidestro.

Provavelmente serei abusado verbalmente por causa deste post, e serei chamado de "desrespeitoso", "inconseqüente" e "vagabundo". Mas em minha defesa, digo que estou em aula e ouvindo o que a professora diz. Apenas não dou a menor importância. De agora em diante, aulas obrigatórias são exercícios de paciência onde escuto recados.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Minhas Aulas na Faculdade (Parte 9)

E começaram minhas aulas hoje. Não posso dizer que sempre amei as salas de aula, mas hoje fiquei entediado em tempo recorde - menos de 5 minutos e já queria explodir alguma coisa. Só via três alternativas: sair da sala, dormir ou prestar atenção. A primeira alternativa era desrespeitosa demais para ser usada tão cedo no semestre, não estava com sono para usar a segunda e a aula não era digna o suficiente do meu interesse. Fiquei rabiscando uma folha para me manter acordado e ouvindo a professora, mesmo que de leve e, no intervalo, peguei um livro em casa.

Em todo caso, será um semestre leve, já que vou cursar apenas 7 cadeiras, sendo 3 dessas eletivas. Vou ter bastante tempo para ler e para treinar. No final desta semana, pretendo fazer um post sobre minhas expectativas para este semestre, baseado nas primeiras aulas. Até o momento, ele promete ser um excelente exercício de paciência.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Mais sobre leitura

Como já deve ter ficado claro para quem lê este blog (ou é meu colega de faculdade, ou os dois), eu sou um leitor compulsivo. Mais do que isso, eu leio rápido - quase sempre um capítulo toda vez que pego um livro. Contudo, fico pensando se eu realmente aproveito minhas leituras.

Estou lendo atualmente "The Psychology of Science", do velho Abe Maslow, que vem a ser uma avaliação psicológica da ciência e dos cientistas, e uma proposta para uma nova epistemologia da Psicologia e das Ciências como um todo. Mas quando eu paro e tento lembrar de um ponto específico do livro, ou quando tento fazer um "resumão", ou não consigo ou fico profundamente insatisfeito com o resultado. Claro, não dá para lembrar de tudo que li em um livro, e mesmo que desse, a utilidade de tamanha informação seria bastante questionável. Além do mais, é uma característica obsessiva achar que aprender é meramente acumular informações. Já li outras coisas do Maslow, e apesar de não poder enumerá-las todas aqui, quando precisei ou quis debater sobre questões mais específicas, fui capaz de dar um bom uso para minhas leituras. Está tudo lá, no meu inconsciente.

Ainda assim, fico pensando. Existe um nível saudável mínimo de horas de leitura por dia, mas será que existe um nível saudável máximo?

Regras Pessoais de um Blogueiro

Como bom obsessivo-compulsivo, tenho muitas regras, para este blog especialmente. A primeira delas é "pelo menos um post por dia". Não precisa necessariamente ser UM post todo dia, mas 30 posts por mês. Outra regra, muito importante, é "escreva coisas originais, e só copie um trabalho alheio se for muito relevante (dando os devidos créditos)". Quando estou inspirado, é fácil seguir estas duas regras, mas quando me falta sobre o que falar, eu vou ficando meio preocupado, achando que eu não vou alcançar a minha cota - tipo vendedor de loja que precisa vender 50 mil reais por mês, com a diferença que eu não sou pago pra fazer bosta nenhuma. Claro, sinto-me satisfeito comigo mesmo, mas isso dura só um mês. Quando muito. Até o momento, nenhuma dessas duas regras foi violada.

Necessidades

Já fazem alguns dias que não escrevo nada relevante, ou que considere relevante. Energeticamente falando, isso seria positivo, já que não fico me exaurindo e escrendo coisas novas e elaboradas. O Marcelo fala que eu escrevo como tarado. Bem, a questão é que não tenho muita escolha - eu preciso escrever. Isto não é uma figura de linguagem, pois eu realmente sinto como se algo estivesse faltando, como água ou ar, mas muito mais sutil e poderoso. "Uma habilidade não usada é uma necessidade não satisfeita". Malditas Metamotivações, Maslow! No fim das contas, este blog é um auto-reforçador pessoal: não por causa dos comentários, das visitas e das conversas engatilhadas pelo que publico. Gosto muito de tudo isto, mas mesmo que ninguém além de mim lesse o Espadachim Cego, eu ainda me sentiria muito satisfeito, por estar sendo honesto comigo mesmo.

E por causa desta metanecessidade, eu às vezes acabo me forçando demais. Fico achando que não publico o suficiente, penso em mil e um assuntos para um post novo e acabo bloqueando a mim mesmo. Hiperintenção fede, pelo menos quando acaba boicotando a gente. Enfrentei um pouco disto nestes dias parado, mas já tive crises piores. Elas estão diminuíndo com o tempo, junto com minhas frescuras, que ainda são muitas e precisam de muito trabalho.

Pronto, postei algo novo e significativo =)

domingo, 3 de agosto de 2008

Título eternamente provisório

Estou ficando preguiçoso. A última atualização foi mês passado. Esse post não merece nem um título decente.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Por que Morpheu me atrapalha a vida

Em seu livro "O Atleta Interior", Dan Millman fala que, como treinador de ginastas universitários, ele percebeu que um sinal de progresso é ser mais auto-consciente dos próprios erros - vários dos jovens sob sua batuta vinham lhe falar que, desde que entraram para o time principal, seu desempenho decaíra muito desde o tempo de escola. Contudo, quando Millman comparava vídeos de competições escolares com vídeos atuais, ficava claro para ele que seus alunos estavam melhores do que nunca! O erro deixa de ser algo natural para se tornar algo a ser extirpado. Algo deste tipo está acontecendo comigo, e já relatei muitos dos meus vícios aqui: chocolates, sucos, carne e preguiça, principalmente. Poderia falar de muito mais coisas, mas no momento, quero falar do que considero meu pior e mais enraizado vício: o sono.

Por oito anos, estudei no período da tarde. Isso me permitia dormir até às 9 ou 10 horas da manhã todos os dias. Nos finais de semana, ia um pouco além, e dormia até às 11, ou mesmo até ao meio-dia. Este regime permissivo me tornou quase incapaz de acordar cedo. Quero dizer, acordar por acordar. Quando tenho um propósito claro em minha mente, é muito fácil sair da cama. Tanto é que nunca faltei um acampamento dos escoteiros por que queria dormir mais cinco minutinhos. Não vou dizer que nunca faltei aula por excesso de sono. No Ensino Médio, a coisa mudou de figura, e algumas vezes pedi para meus pais me deixarem matar o primeiro periodo e dormir mais seis vezes cinco minutinhos. E, na faculdade, já perdi duas aulas matinais por que, quando acordei, vi que estava atrasado, dei de ombros e voltei a dormir. Fiz isso no primeiro e no terceiro semestres.

Mas ir para a aula não significa prestar atenção nela. E qual melhor forma de ignorar um professor completamente que baixar a cabeça na mesa e dormir sem o menor pudor? Desenvolvi esta habilidade no Ensino Médio, graças à minha baixa tolerância ao periodo anterior às 9 da manhã, a chatice das aulas e meu fraco sentimento de pertença à minha turma, e por causa dela fui apelidado criativamente de Soneca e o prêmio Leda para Criaturas Inúteis na categoria "Melhor Seguidor do deus Morpheu". Mas foi no cursinho e na faculdade que elevei esta habilidade ao nível da arte. Tal como os iogues, que conseguem controlar seus batimentos cardíacos e pressão sangüínea, para entrar em sono profundo, basta apenas eu baixar minha cabeça, e esperar alguns minutos, "prestando atenção" ao hipnótico blá-blá-blá do professor. Mas este meu poder foi se apoderando de mim, ao ponto de ter dormido em todas as aulas que já tive até o momento. Uma professora minha (que dava aula de manhã) me fazia ficar sentado em cima da minha carteira, pois, desse jeito, ela sabia que eu não dormiria - e se dormisse, cairia no chão e acordaria.

Para piorar minha situação, eu durmo tarde. 23 horas é cedo segundo meus padrões. A faculdade certamente não colabora para mudar isto, pois cansei de ficar acordado até às 6 ou 7 da manhã fazendo relatórios. A pior cagada que já fiz num dia destes foi ter ido para a academia. Cheguei pensando em treinar dois ou três horários seguidos, e saí impressionado que tinha conseguido treinar um horário inteiro. Foi uma dissociação interessante, pois enquanto minha mente funcionava impecavelmente, meus músculos entraram em greve. Falei da minha situação para o professor, que ao término da aula disse explicitamente "vê se dorme". Quando um professor de Kung Fu diz isso, é sinal que, sim, você deve dormir.

As férias viraram meu relógio biológico do avesso, especialmente o ENEP, onde ir dormir às 4 da manhã era rotina. Agora, estou lutando para mudar este comportamento. Como já disse, não encontro problema algum em levantar, desde que tenha um bom motivo. Antes de viagens, sempre tenho medo de dormir demais e perder o ônibus. Foi assim nos dois ENEPs e no EREP que fui, e para o congresso em Buenos Aires. Mas em todos eu acordei muito antes do necessário, e sozinho. A questão é que, apesar de saber racionalmente os benefícios de acordar cedo, não vejo muito propósito. "Acordei às 7 da manhã. Viva para mim! Agora, eu vou... fazer o quê mesmo? Ah, então vou voltar pra cama que é mais lucro." Já fiz isso muitas vezes. Mas eu quero acordar mais cedo, então eu vou mudar este meu hábito ruim. Só não tenho muita idéia de como fazer isso.

Olim-piada

Copa do Mundo e Olimpíadas. O que estes dois eventos têm em comum, com a exceção de serem eventos esportivos mundiais muito importantes? Antes de começarem e durante seus jogos, não pára de passar propagandas na TV com atletas popstars. Eu me lembro que na Copa de 2006, o queridinho era o Ronaldinho Gaúcho, que só não fez propaganda de absorvente interno por que achou que o cachê pra colocar o OB era muito pequeno, se bem que o Ronaldo Fenômeno também não ficava muito para trás. Agora, o bola da vez é o Giba da seleção de vôlei - em menos de 5 minutos olhando os comerciais do "Globo Esporte" ele apareceu duas vezes, fazendo propaganda de duas porcarias diferentes. Não que haja uma relação causal, mas em 2006 os dois Ronaldos fizeram fiasco e saíram com fama de capitalistas-vagabundos-vendidos-sem-amor-pela-camiseta. Depois que a Copa do Mundo acabou, com o Brasil eliminado nas quartas-de-final e a Itália tetracampeã, não vi mais a fuça feia do Ronaldinho Gaúcho na TV emprestando seu prestígio para alguma marca grandona de... alguma coisa. Bem, até por que ninguém queria o prestígio dele.

Mas eu não quero ficar fazendo críticas ao modelo capitalista - para isso temos os professores de Ciências Humanas das universidades federais. É problema desses atletas se eles emprestam a própria cara para ganhar uma banana vendendo celular ou o que quer que seja. Isso faz parte das regras do jogo e é problema deles se eles querem fazer isso ou não. O que me incomoda mesmo é a maneira como usam o "espírito olímpico" (ou "espírito do futebol" no caso da Copa do Mundo) como motte destas propagandas. Fazem parecer que a Olimpíada é uma grande confraternização de esportistas, que se reúnem pelo prazer de competir e pela paz mundial, e que esta é a coisa mais nobre do mundo. Nada mais distante da realidade. Olimpíada é um evento que reúne um número extremamente elevado de atletas de alto nível, tanto em desempenho físico quanto em egolatria, onde um toma mais anabolizante pra cavalo que o outro pra ver quem ganha a medalha de ouro e o direito de cantar vantagem de ser campeão olímpico, e quem é eliminado cedo na competição passa o resto do tempo bebendo e fodendo. Hmmm, pensando bem, essa segunda parte não é tão ruim assim... Em todo caso, não é nobre ou elevado como passam a imagem por aí.

Sem falar em toda a política por trás das olimpíadas. Todo ano de olimpíada tem algum tipo de protesto contra alguma coisa. Esse ano foi "Free Tibet!", o que levou muita gente a querer boicotar o evento. Quando o evento foi sediado na União Soviética, a delegação dos EUA não foi. Ou algo assim. A escolha da sede também é uma escrotice.

Mas o mais importante de tudo, é que a grande maioria dos eventos são chatos de assistir. Tipo, qual a graça de assistir uma corrida de revezamento, ou qualquer outra prova de atletismo? Não que eu gostasse de ter torcida quando eu mesmo corria os meus 3200 metros nos EUA, mas o fato das pessoas irem assistir um bando de malucos correr em círculos sempre me intrigou. É pra ver quem chega primeiro? Ou por último (nesse caso eu era um cara popular, já que com alguma freqüência eu chegava em último nas corridas)? O mesmo vale pra Fórmula 1 e esses outros "esportes" pra gordo ficar assistindo no domingo de manhã, com a diferença que, nesse caso, o maior esforço empreendido pelos "atletas" é pisar no freio (mas eles devem ter reflexos absurdos para dirigir à 300km/h). Ainda assim, é só ficar assistindo. Quase como filme pornô, ou televisão de cachorro. É sem graça. Vá ler um livro ou caminhar no parque. Eu vou fazer isso enquanto as olimpíadas não acabam. E depois que elas acabarem também.

* Andarilho tem 19 anos, é estudante de Psicologia, gosta de cookies e de xingar psicanalistas, e estava levemente fora de órbita quando escreveu este artigo.