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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Impressões de um ciclista pedalando por aí

Depois de deixá-la parada por um tempo dentro do meu quarto, finalmente sacudi a poeira da minha bicicleta e coloquei-a novamente no seu devido lugar: nas ruas de Porto Alegre. Este reencontro, além de me fazer entender a necessidade de ter um testamento atualizado por causa do nosso trânsito, trouxe à minha consciência uma série de memórias e percepções.

Eu sabia que minha bicicleta é um tanto quanto desengonçada, mas não lembrava o que isto significava na prática. Como o fuscão preto, ela é feita de aço, e por isso muito pesada. Para mim, pedalar fortalece também os braços, por que nosso prédio não tem elevador e preciso carregá-la escada abaixo e escada acima. Fortaleço minha a musculatura dos meus membros superiores também quando vou prendê-la em no corrimão de alguma escadaria ou em uma lomba, tarefa que exige, além de pegar a corrente e colocá-la de maneira segura ao redor do quadro e da roda dianteira, impedir que a bike saia rolando ladeira abaixo. Com apenas uma mão, por que a outra está ocupada demais se atrapalhando com as chaves.

Na hora de pedalar e pegar velocidade, ela também é problemática, por que além do seu peso descomunal, ela também possui um sistema de amortecimento que, se por um lado deixa a viagem muito mais confortável, também a deixa muito mais lenta, visto que absorve a energia de todos os impactos - inclusive das pedaladas, que precisam ser dobradas para manter um ritmo decente.

Se minha bicicleta fosse uma criança, certamente seria enquadrada na categoria de "aluno especial", dadas todas as suas peculiaridades e diferenças. Um amigo meu já me aconselhou a vendê-la ou trocá-la por outra, mais leve e fácil de manejar, e por um tempo, concordei que este era o melhor curso de ação. Hoje, porém, não vejo as dificuldades de pedalá-la como problemas - vejo como desafios a serem conquistados. Minha bicicleta não é "especial" por causa de suas limitações, mas especial por que preciso fazer por merecer para manejar seu guidão. Ela é uma bicicleta Shaolin, e estar com ela é estar em constante treinamento.

Para além das peculiaridades do meu veículo particular, pedalar pelo trânsito de uma cidade grande de modo geral é um constante treino mental. No trajeto de casa para um outro lugar, além de observar os carros que comigo dividiam a rua, observei como eu os observava. O processo cognitivo de um ciclista nesta hora é bastante complexo e cheio de tarefas. Para chegar vivo no final do dia, é preciso prestar atenção aos veículos, aos pedestres, aos outros ciclistas e aos motoqueiros; perceber quando é necessário freiar, trocar de marcha, acelerar ou desmontar e empurrar a bicicleta; os barulhos que vem dos carros, das pessoas e (muito importante) da própria bike. E eu, pelo menos, precisei dizer várias vezes para mim mesmo que devia focar mais na rua do que na minha própria mente. Na hora de subir os lances de escada que separam a rua do meu lar, preciso também tomar nota da melhor maneira de carregar a bike - quando tinha a recém adquirido, precisei desenvolver uma estratégia para melhor utilizar minha força braçal e não me cansar excessivamente. Até agora, o algoritmo "subir três lances usando a mão direita e então passar para a mão esquerda" parece ser o mais eficaz na conservação de energia, mas ainda estou tentando aprimorá-lo.

E em casa, no meu quarto, observei os meus músculos, tanto das pernas quanto dos braços, e percebi meu cansaço. "Estou fora de forma" penso eu "se essa pernadinha me deixou desse jeito". Ao mesmo tempo, é com certa alegria que percebo que mal posso esperar pela próxima oportunidade de fazer tudo de novo. Não sei por que diabos deixei minha bike tanto tempo parada, mas estou feliz por poder pedalar por Porto Alegre outra vez.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para o Infinito e Além

O trampolim estava logo ali, na minha frente, a uns dez ou vinte metros. Para vencer essa distância, apenas uma rápida corrida é necessária. No entanto, se tudo se resumisse à corrida, seria muito mais fácil. Precisava encontrar a velocidade certa - não muito rápido, para não perder o controle, nem muito devagar, para ter energia cinética o suficiente - fazer o tempo certo e a movimentação certa - como fazer para pular no trampolim sem perder o embalo, e como utilizá-lo adequadamente?

Todos estes cálculos passam pela minha cabeça muito rapidamente, em menos de cinco segundos. Claro, para ter pensamentos tão ágeis, ajuda o fato de eu já ter repetido esse processo várias e várias vezes, ainda que várias e várias vezes sem sucesso, em dois aparelhos diferentes. "Ginástica Artística envolve muita cognição, pessoal" disse o professor cinco minutos antes. Essa afirmação me tranquiliza, não sei bem por que. Talvez a palavra "cognição" torne tudo muito mais familiar, fácil de compreender. Tiro da minha memória de longo prazo uma de minhas estratégias metacognitivas e, enquanto espero minha vez para correr até o trampolim e pular no fosso acolchoado, ensaio mentalmente minha performance: me vejo correndo, em velocidade adequada, rumo ao trampolim. Num rápido e suave movimento, faço a transição do solo para o aparelho, e me projeto para o ar. Ainda em minha mente, insiro as correções que o monitor, o professor e os colegas me sugeriram: menos projeção para frente, mais projeção para cima, tomar cuidado com a posição das pernas, pois elas devem ir dobradas, e não estendidas. Por fim, caio nos colchões azuis, e em pé. Pelo menos na minha imaginação, fui bem sucedido. Agora, só restava fazer isso na vida real.

É chegada a hora. A pessoa que estava na minha frente na fila acabara de fazer sua tentativa. Não sei se ele ou ela conseguiu fazer um salto mortal e cair em pé, e naquele momento, pouco importava, pois toda minha energia tinha um único foco, o meu próprio salto mortal. Reviso rapidamente todo o processo - tantas coisas para fazer em menos de cinco segundos! Olho para o professor uma última vez, para ter certeza de que ele está prestando atenção em mim. Espero um sinal, algo que me diga "pode ir", enquanto pensamentos ricocheteiam dentro do meu crânio. Oliva, o professor, olha para mim e balança a cabeça. É a hora. Os pensamentos que antes me incomodavam desaparecem como num passe de mágica. Não há nada acontecendo em meu organismo que não seja o preparo para salto mortal. Minha mente e meu corpo tornaram-se um só através da ação.

Racionalmente, sei que tudo não passou de um breve momento, mas, relembrando todo o processo, parece uma eternidade. Antes de ir, digo "agora vai!", como que em desafio ao Deus do Fracasso que se intrometera em todas as minhas tentativas anteriores. Corro, salto com os dois pés para cima do trampolim e subitamente me vejo no ar. Nos poucos segundos que tenho ali em cima, sou tomado pela certeza de que eu estou voando, ou pelo menos "caindo com estilo". A gravidade faz seu trabalho, e logo começa a me trazer para o solo. Encolho as pernas e projeto meu quadril. Caio sobre os meus dois pés no colchão, e tão rapidamente quanto posso, olho para o professor e perguntou "fiz certo?" Dessa vez, ele diz que sim.

Saio do fosso, e a tarefa do dia está terminada. Acabou. Eu, porém, continuo pensando nela. Eu quero mais, eu quero voar outra vez, ainda mais alto. Para o Infinito e Além!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Copa do Mundo II

Brasil perdeu o jogo contra a Holanda. Por um lado, isso é triste, mas, por outro, isso faz com que meu time preferido de todos os tempos deste ano fique mais próximo de ganhar o copa.

FORÇA PARAGUAI!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sociologia da Copa do Mundo

Neste exato momento, eu deveria estar borrando minhas calças de preocupação por  causa do meu trabalho de Introdução à Sociologia, que apresento hoje à noite e ainda não está totalmente pronto. Entretanto, como eu sou um indivíduo bastante tranqüilo, e como o trabalho vai bem, obrigado, decidi falar de Sociologia em outra área: Copa do Mundo.

Copa do Mundo é um prato cheio pra chamar o brasileiro de alienado, por que é só nessa época que ele se mostra patriota para alguma coisa, e ignora todas as notícias que não contenham a palavra "futebol". O Kibe Loco postou um comentário da notícia que o Judiciário está tentando passar um reajuste de salário para seus funcionários que de tão alto é inconstitucional. Eu poderia falar sobre isso, e sobre milhares de outras coisas que estão acontecendo de ruim no Brasil, mas prefiro falar sobre o esporte mesmo.

Este ano, não estou dando muita bola para a Copa, pelo menos se comparado com as copas anteriores. Em 1994, eu era pequeno demais para entender que diabos estava acontecendo, mas acompanhei os jogos mesmo assim por que todo mundo estava, inclusive as professoras da minha creche, que arranjaram uma TV e nos botaram para torcer pelo Brasil contra a Suécia (o que foi bem confuso, para ser sincero, por que o Brasil estava com o uniforme reserva, que é azul, e a Suécia estava com um uniforme amarelo - o que é demais para a cabeça de um menino de 5 anos compreender). Devo ter visto a final contra a Itália, porém não lembro nada a respeito dela.

Em 1998, a coisa foi bem diferente. Com dez anos, os neurônios responsáveis por jogar futebol já tinham atingido o zênite de seu desenvolvimento e eu era um perna de pau consumado. Ainda assim, acompanhei a Copa na França com paixão, assistindo todos os jogos do Brasil, preenchendo as tabelas de resultado num encarte da Veja e sendo 100% brasileiro em época de copa. Lembro até hoje que foi o Brasil quem abriu o evento, numa partida meio xexelenta contra a Escócia, que teve gol contra e frescurite generalizada. Eu fiquei esperando os escoceses entrassem em campo com os rostos pintados de azul, levantassem seus kilts e mostrassem suas partes púbicas para a torcida canarinho, e ganhassem a partida só na base da humilhação moral. Infelizmente, isto não aconteceu.

Ele deveria ter sido técnico da Escócia.

Lembro-me também da deprimente final contra a França, quando o time brasileiro tomou 3 gols de uma seleção que parecia ganhar os jogos só por que estava em casa (mas aposto que se eles tivessem encarado a Alemanha, teriam perdido por W.O.), do Ronaldo Fenômeno, ainda no auge da forma física, ficar fazendo merda em campo e todas as discussões que eu tive com a professora de português sobre como os resultados para a França ganhar serem tudo "cartas marcadas". Outra coisa que eu nunca esqueci foi a humilhação de ter que aguentar os franceses poderem tirar com a nossa cara por causa do 3X0, e desde então, sempre fiquei muito feliz quando a seleção da França perdia qualquer coisa, mesmo que fosse campeonato de cuspe à distância, e ficava ainda mais feliz quando eram derrotados por uma diferença de 3 ou mais pontos (múltiplos de 3 contam).

Em 2002, a coisa foi mais complicada. Não me lembro de ter assistido todos os jogos, por causa do fuso horário infeliz - afinal de contas, a Copa estava sendo realizada no Japão e na Coréia do Sul, que ficam do outro lado do mundo. Em algum momento, contudo, eu fiz parte da infame "Torcida Coruja" da RBS, e fiquei acordado até às 3 da manhã, empoleirado do lado da TV assistindo qualquer jogo que fosse. O mais marcante dessa copa foi o sentimento de que já tínhamos perdido, antes mesmo dela começar.

O Brasil só se classificou à muito custo, enquanto a Argentina tinha detonado nas Classificatórias, e por isso, tudo referente à nossa seleção era alvo de críticas, principalmente as escolhas do técnico Felipão, que se recusara a chamar Romário para compor a equipe. Já nessa época eu comecei a desenvolver um certo asco daqueles quadros da Globo onde um repórter vai para a rua perguntar qual seria a seleção perfeita, e ver um monte de Zé Ninguém falar como se soubesse mais do assunto do que quem está envolvido com a preparação técnica dos jogadores. Ainda assim, esta foi uma copa muito, muito feliz. Depois de um começo duvidoso, enfrentando times de pouco brilho como China, Turquia e Costa Rica, o Brasil foi avançando, ganhando partidas e confiança, até chegar na final e ter sua vez de entufar uma seleção européia. Infelizmente, não foi a França, e sim a Alemanha, que naquela copa tinha o melhor goleiro de todos, Oliver Kahn.



Kahn, se me lembro bem, só tinha levado 1 gol, em toda a copa, e chegou a dizer que, "jogador boml é aquele que marca quando ELE está na goleira". Tubarão morre pela boca, e a Alemanha perdeu a final de 2002 por 2 a zero. Foi lindo, e tudo ficou mais lindo por que a França, que começou a Copa já se achando campeã, foi desclassificada ainda na primeira fase. Me senti vingado. BRASIL-SIL-SIL! Uma última coisa sobre a Copa do Japão e Coréia. Apesar da Turquia ser um time pouco representativo no futebol mundial, sua seleção jogou muito naquele ano. Na primeira fase, os turcos perderam para os brasileiros por questão de detalhe - aquele tipo de detalhe que vai parar na justiça esportiva por aqui. Porém, como bons inimigos valorosos que os turcos são, eles também se classificaram para as oitavas de final, e nos confrontaram outra vez nas semifinais. Eles foram com sangue nas ventas, querendo vingança pela injusta derrota sofrida. Perderam de novo, mas desta vez não houve dúvida: o Brasil mereceu ganhar.

Enfim, 2002 foi um ótimo ano para ser patriota: Brasil pentacampeão, derrotamos a Alemanha e a França tomou na bunda. 2006 na Alemanha ia ser lindo também, não é? Bem, não foi. Desta vez, foi o Brasil quem entrou de salto alto em campo, e fomos desclassificados nas quartas de final. E, injúria das injúrias, contra os franceses, outra vez! Lembro que tinha recém voltado dos EUA, e estava um pouco indiferente à copa, mas acompanhei pelo menos o jogo contra a França, e, quando ela ganhou, eu torci contra ela pelo resto do mundial. Só fiquei um pouco em dúvida em torcer contra ela na final contra a Itália por que, se a Itália ganhasse, ela seria tetracampeã, e ficaria mais próxima do Brasil em termos de conquistas. Felizmente, Zidane e Materazzi me fizeram esquecer esses detalhes, e nos deram este lindo meme da Cabeçada no Plexo Solar, e eu pude esquecer os detalhes irrelevantes como, quem ganhou a copa.

K.O.!

A derrota em 1998 foi triste, mas não vergonhosa. O mesmo não pode ser dito de 2006. Os jogadores do Brasil se portaram mal durante a copa, jogaram de salto alto e pareciam não se importar em terem perdido ou não. Parreira, então o técnico, que começou a copa com a bola toda, terminou demitido e desmoralizado. Aliás, todo mundo que integrou a seleção em 2006 saiu assim, e não sei de ninguém que conseguiu sair dessa fossa depois.

Exceto o Ronaldo.

OK, falei de todas as minhas copas. Falta a de agora. Bem, é a primeira copa do mundo que ocorre na África, e é a primeira que eu não vi um jogo sequer do Brasil. Sim, eu escutei as vuvuzelas (que pra mim nunca deixarão de ser cornetas), os foguetes, as comemorações dos vizinhos, as pessoas torcendo no Bar do Antônio por algum time obscuro, mas até agora, em nenhum momento eu me prestei a ligar a televisão e ver como a Esquadra Canarinho está se saíndo. O que eu me dei o trabalho de fazer, no entanto, foi o de olhar de tempos em tempos a tabela de resultados no Google. Estou muito feliz com os resultados, por que:

1) França foi desclassificada na primeira fase. De novo.
2) A Itália foi desclassificada na primeira fase. Também.
3) Muitos times sul-americanos se classificaram para as oitavas de final.
4) Muitos times que nunca ganharam copas do mundo se classificaram, como Portugal e Espanha.
5) França foi desclassificada na primeira fase. De novo.
6) Brasil se classificou antecipadamente para a próxima fase.
7) Dunga está mostrando para a Rede Globo quem é que manda. Ele vai se ferrar, mas o que conta é a intenção.
8) Já falei que a França foi desclassificada na primeira fase de novo?

A Alemanha se classificou, e pode ganhar outra copa do mundo e voltar a se igualar à Itália (que foi desclassificada, também, como a França), mas penso que nesta copa teremos resultados diferentes. Gostaria de ver uma seleção diferente ganhar a Copa, e parece que este ano temos uma alta probabilidade disto acontecer.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dando a Cara à Tapa

Hoje teve o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Na verdade, foi ontem, considerando que já são duas da manhã do dia 16, mas isso não importa. O jogo foi contra a Coréia do Norte. Considerando que este país está longe de ser uma potência do futebol como o nosso Brasilzão, era de se esperar que nós ganhássemos o jogo de hoje. De fato, nós ganhamos. Entretanto, por ser a Coréia um time ruim, deveríamos ter ganho de lavada. 4 a 0. 5 a 0. 6 a 0! Só que não foi assim, e o jogo terminou 2 a 1 - dois para o Brasil, um para a Coréia.

Não foi um resultado bom. Aliás, para muitos brasileiros, foi um resultado horrível. "Onde já se viu ganhar só de 2 a 1 da Coréia do Norte?" muitas vozes por todo o país perguntam, inconformadas. Estas vozes querem saber como a nação pentacampeã possa ter tido tantas dificuldades para vencer um time tão ruim, tão fraco, tão sem história e tradição. Elas querem saber tudo isto, mas estão mais preocupadas com uma coisa: chamar o Dunga de retardado.

Dunga, o técnico de nossa seleção, tem uma missão simples, porém importante: fazer o Brasil hexacampeão mundial de futebol. Para tanto, ele precisa escolher os jogadores e as táticas utilizadas durante as partidas, e comandar o time rumo à vitória. E, ao seu dispor, ele tem a nata do futebol internacional, os melhores jogadores, os que mais fazem gol - os brasileiros. Tendo isso à mão, ele deveria ganhar um joguinho contra um time de nada como a Coréia do Norte como o Michael Schumacher ganhava na Fórmula 1. Assim sendo, 2 a 1 é um resultado ridículo, e o fato do Brasil ter ganho desta maneira da Coréia do Norte sob a tutela de Dunga é prova irrefutável de seu retardo mental. E, para deixar ainda mais claro quão incapaz é Dunga de comandar a Esquadra Canarinho, os repórteres da Globo vão entrevistar quem realmente entende de futebol, quem sabe do assunto e que, se fosse técnico da seleção brasileira, certamente traria o caneco para casa: o torcedor mediano. Ninguém acompanhou mais copas que ele, ninguém analisou mais tabelas de campeonatos que ele, e ninguém conhece o estilo dos muitos e muitos times e jogadores do que ele.

Com base neste vasto e impecável conhecimento, ele destrincha com facilidade o assunto da copa, e através do microfone da TV do Plim-Plim, destila pequenas gotas de sabedoria boleira para Dunga, o Retardado: quem ele deveria escalar, qual esquema tático utilizar, como se preparar para a próxima partida e, é claro, quão imbecil ele (Dunga) realmente é, por não ter convocado Neymar e Ganso para irem para a África do Sul. O torcedor mediano deixa claro como cristal que, fosse ele o técnico, a Coréia teria tomado uma tunda, e que ele sairia carregado pela torcida por ser um indivíduo tão genial e visionário.

E é aqui que eu começo a ficar com raiva.

Talvez Dunga seja retardado, talvez tenha sido um erro não convocar Neymar e Ganso, e talvez colocar quem ele colocou no ataque fosse a pior coisa que ele poderia ter feito. Talvez. O que nenhuma dessas pessoas entrevistadas pela Globo, que escrevem nos seus blogs e nos seus twitters sobre a incompetência do nosso técnico percebem é que elas não estão lá na África do Sul, tentando levar o Brasil à vitória. Quem está fazendo isso é o Dunga. Eu preciso dizer o óbvio aqui, por que talvez isso não seja tão óbvio assim, mas isto quer dizer que ninguém pode entender de fato o que está acontecendo com a seleção brasileira nesta copa, a não ser o próprio Dunga.

Sim, caio em mais um talvez: talvez ele não seja o cara mais preparado para desempenhar esta função, e talvez haja alguém mais capacitado para isto. Lembro-me de ter visto, pouco tempo depois da copa de 2006, alguma previsão do professor Jucelino da Luz, que dizia que o Brasil perderia a Copa do Mundo para a Alemanha se o técnico não fosse o Felipão. Não sei onde vi isso, nem quero saber, por que não importa. Uma vez mais, talvez Felipão devesse ser o comandante em chefe este ano. Entretanto, ele não é, por que esta missão coube a Dunga levar a bom termo.

Depois de despejar sua sabedoria no mundo, o torcedor mediano volta para a sua rotina, esquece do grande drama por trás da não-convocação daquele cara com apelido de bicho e só volta a se incomodar com a Copa do Mundo no próximo jogo, quando ele mais uma vez fica indignado com o desempenho da seleção. Dunga não pode ser dar esse luxo. Cada minuto de seu dia é devotado a resolver um só problema: como ganhar o próximo jogo. E não só ele deve resolver este problema, como ele deve fazer isto enquanto se justifica para todo o Brasil - explicando por que fez isso em vez daquilo, assim em vez de assado - através de um bando de repórteres ansiosos por um erro seu.

Contudo, a maior diferença entre Dunga e aqueles que reclamam dele reside no fato que, independente do Brasil vencer ou não a Copa, quem reclamou continuará vivendo como sempre viveu (além de poder continuar reclamando de Dunga muito tempo depois da Copa ter acabado). Dunga não: toda sua vida futura depende do seu desempenho na África do Sul. Se o Brasil perder, ele será para sempre lembrado como "aquele técnico meia-boca que perdeu em 2010". Não haverá justificativas, paliativos ou argumentos que modificarão isso. Entretanto, se nós ganharmos, ele será para sempre lembrado como alguém glorioso, visionário e obstinado, e que sem sua liderança, a seleção seria incapaz de ganhar qualquer partida que fosse.

Quem entre os críticos, os difamadores e comentaristas possui a coragem de dar tamanho salto no escuro, e de apostar toda sua vida em um fugídio momento de glória? Nenhum, eu diria, por que criticar é fácil, seguro, conveniente. Depois de chamar Dunga de retardado em cinco línguas, eles podem voltar a viver como sempre viveram, tranquilamente. Porém, eles não criaram nada de novo, nada de bom, por que se mantiveram naquela zona cinza de conforto onde se encontram os pobres de espírito, que nunca fracassaram por que nunca tentaram nada glorioso. Pode ser que o futebol não seja realmente importante, e que Dunga esteja perdendo seu tempo dirigindo um bando de homens para correr atrás de uma bola de couro. Ainda assim, ele aceitou enfrentar uma tarefa grandiosa. Sim, ele pode terminar esta copa completamente desgraçado, sendo desclassificado ainda na primeira etapa. Ainda assim, eu o consideraria mais digno de respeito que todos aqueles que levantaram sua voz para chamá-lo de incompetente, por que ele escolheu correr todos os riscos, e mesmo a sua mais retumbante derrota será mais gloriosa que todas as críticas reunidas.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Olim-piada

Copa do Mundo e Olimpíadas. O que estes dois eventos têm em comum, com a exceção de serem eventos esportivos mundiais muito importantes? Antes de começarem e durante seus jogos, não pára de passar propagandas na TV com atletas popstars. Eu me lembro que na Copa de 2006, o queridinho era o Ronaldinho Gaúcho, que só não fez propaganda de absorvente interno por que achou que o cachê pra colocar o OB era muito pequeno, se bem que o Ronaldo Fenômeno também não ficava muito para trás. Agora, o bola da vez é o Giba da seleção de vôlei - em menos de 5 minutos olhando os comerciais do "Globo Esporte" ele apareceu duas vezes, fazendo propaganda de duas porcarias diferentes. Não que haja uma relação causal, mas em 2006 os dois Ronaldos fizeram fiasco e saíram com fama de capitalistas-vagabundos-vendidos-sem-amor-pela-camiseta. Depois que a Copa do Mundo acabou, com o Brasil eliminado nas quartas-de-final e a Itália tetracampeã, não vi mais a fuça feia do Ronaldinho Gaúcho na TV emprestando seu prestígio para alguma marca grandona de... alguma coisa. Bem, até por que ninguém queria o prestígio dele.

Mas eu não quero ficar fazendo críticas ao modelo capitalista - para isso temos os professores de Ciências Humanas das universidades federais. É problema desses atletas se eles emprestam a própria cara para ganhar uma banana vendendo celular ou o que quer que seja. Isso faz parte das regras do jogo e é problema deles se eles querem fazer isso ou não. O que me incomoda mesmo é a maneira como usam o "espírito olímpico" (ou "espírito do futebol" no caso da Copa do Mundo) como motte destas propagandas. Fazem parecer que a Olimpíada é uma grande confraternização de esportistas, que se reúnem pelo prazer de competir e pela paz mundial, e que esta é a coisa mais nobre do mundo. Nada mais distante da realidade. Olimpíada é um evento que reúne um número extremamente elevado de atletas de alto nível, tanto em desempenho físico quanto em egolatria, onde um toma mais anabolizante pra cavalo que o outro pra ver quem ganha a medalha de ouro e o direito de cantar vantagem de ser campeão olímpico, e quem é eliminado cedo na competição passa o resto do tempo bebendo e fodendo. Hmmm, pensando bem, essa segunda parte não é tão ruim assim... Em todo caso, não é nobre ou elevado como passam a imagem por aí.

Sem falar em toda a política por trás das olimpíadas. Todo ano de olimpíada tem algum tipo de protesto contra alguma coisa. Esse ano foi "Free Tibet!", o que levou muita gente a querer boicotar o evento. Quando o evento foi sediado na União Soviética, a delegação dos EUA não foi. Ou algo assim. A escolha da sede também é uma escrotice.

Mas o mais importante de tudo, é que a grande maioria dos eventos são chatos de assistir. Tipo, qual a graça de assistir uma corrida de revezamento, ou qualquer outra prova de atletismo? Não que eu gostasse de ter torcida quando eu mesmo corria os meus 3200 metros nos EUA, mas o fato das pessoas irem assistir um bando de malucos correr em círculos sempre me intrigou. É pra ver quem chega primeiro? Ou por último (nesse caso eu era um cara popular, já que com alguma freqüência eu chegava em último nas corridas)? O mesmo vale pra Fórmula 1 e esses outros "esportes" pra gordo ficar assistindo no domingo de manhã, com a diferença que, nesse caso, o maior esforço empreendido pelos "atletas" é pisar no freio (mas eles devem ter reflexos absurdos para dirigir à 300km/h). Ainda assim, é só ficar assistindo. Quase como filme pornô, ou televisão de cachorro. É sem graça. Vá ler um livro ou caminhar no parque. Eu vou fazer isso enquanto as olimpíadas não acabam. E depois que elas acabarem também.

* Andarilho tem 19 anos, é estudante de Psicologia, gosta de cookies e de xingar psicanalistas, e estava levemente fora de órbita quando escreveu este artigo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Um pouco de futebol

Geralmente, futebol não é um assunto que me interesse realmente - no máximo, tiro flauta de quem perdeu. Dificilmente alguém vai me ouvir comentando a nova escalação do Grêmio ou por que o time do Flamengo deveria ter ganho a copa de mil novecentos-e-guaraná-com-rolha. Ainda assim, às vezes o esporte bretão ganha minha atenção, mas não por causa de jogadores ou resultados, mas por motivos outros.

Estamos em plena época de classificatórias para a Copa do Mundo de 2010, e o Brasil tem sofrido uma série de reveses, como ser derrotado para a Venezuela e para o Paraguai (!) e ficar no 0x0 com a Argentina. Deve ter mais por aí, mas como estou desinformado, só sei dessas. E por causa destes resultados, a torcida brasileira tem pedido a cabeça do técnico Dunga. Essa semana foi o jogo contra a Argentina, e acabei assistindo um pedaço. O que me chamou a atenção não foi nenhum grito afetado de "GOOOOL!" do Galvão, mas o clamor popular "Ei, Dunga, vai tomar no cu!" e "Burro! Burro! Burro!" que subia do estádio. Torcidas são coisas tristes. Elas são uma aglomeração cruel de gente boa, um monstro de mil cabeças sem cérebro nenhum. Alguém que vai em estádios torcer pelo time do coração pode reclamar "pô Andarilho, eu não sou assim!"e vai ser perfeitamente compreensível, porque, realmente, nem todo mundo que vai em torcidas age dessa maneira. Mas a maioria sim.

O Dunga está sendo muito criticado por ter tirado o Pato da escalação (ou algo assim), e sendo chamado de todo o sortilégio de ofensas. Lembro-me de ter ouvido que no Brasil, todo mundo é técnico de futebol. Foi lá pela copa de 2002, quando o Felipão estava amargando o mesmo que o Dunga neste momento, e uma equipe de reportagem da Globo foi às ruas pedir a opinião das pessoas sobre o que ele devia fazer. Nunca me esqueci de um cidadão gordo, baixinho, com bigode mal feito e cara de fruteiro dizendo toda a escalação e posicionamento tático dos jogadores: "põe o romário no ataque, Biro-Biro como centroavante, o Taffarel de goleiro e faz esquema 4-4-3" Inventei umas bobagens aí por que me lembro que, na época, o clamor popular era "Felipão burro! Chama o Romário que ele faz gol! Sem ele o Brasil não se classifica!"

Bem, minha opinião não é definitiva, mas acho que há um bom motivo para terem contratado o Felipão e o Dunga para serem técnicos da Seleção Brasileira ao invés do Zé das Hortifruti: eles sabem o que fazem. Ao contrário do que muita gente pensa, treinar um time e levá-lo à vitória envolve mais do que escalação e preparo físico - a grande maioria destas variáveis não está sob o controle direto do treinador, e mesmo as que estão não envolvem apenas decisões fáceis e diretas. Querendo ou não, em algum momento vai acontecer um erro bem ruim. E o Monstro das Mil Cabeças e Nenhum Cérebro estará lá para criticar, sempre.

Caso ninguém aqui lembre, o time do Felipão ganhou a Copa do Mundo de 2002 sem o Romário, depois de uma classificatória terrível, e hoje é lembrado como um dos melhores técnicos que o Brasil já teve. Talvez o mesmo aconteça com o Dunga, por que não? Não confio muito em gente que critica alguma coisa sem saber do que está falando, e a torcida brasileira em sua quase totalidade me parece se enquadrar nesta definição.