sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Dica de blog

Não costumo fazer muitos posts divulgando sites ou blogs alheios, apenas quando encontro um que mereça divulgação. Pois bem, encontrei essa semana um blog muito bom, o Contraditorium. Lendo os muitos excelentes textos lá publicados, descobri que sou um alienado da blogosfera, que não sei merda nenhuma do que acontece na internet por que não estou linkado a quase ninguém exceto o Play the Coin! e um que outro blog anti-social como o meu (estou olhando para vocês, Marcelo e Bruno). Mas estou fugindo assunto aqui, até por que não vou me coçar pra deixar meu blog popular (nem os outros dois anti-sociais supracitados).

O que quero dizer aqui é que o Contraditorium é muito bom e vale a pena ler. O autor tem opiniões que variam do divertido ao polêmico, sobre temas muito variados, mas especialmente sobre a cultura da internet. Ficadica.

Drugs

Algumas pessoas são viciadas em chocolate; outras, em álcool, drogas ilícitas, atenção, sexo, dormir. Se eu tenho um vício, algo que preciso pra viver, é treinar Kung Fu. E estou tendo uma crise de abstinência neste exato momento.

Post Obrigatório sobre Big Brother

Depois de escrever um post enquanto assistia a novela, escrevo agora um outro post, dessa vez assistindo "Big Brother Brasil". Sinceramente, acho que este programa é subvalorizado pela academia. Um estudo psicológico sobre os traços de personalidade das pessoas que participam dele deveria ser feito. Tenho a hipótese de que 90% deles seriam considerados patologicamente egocêntricos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A novela e minhas esquisitices

Várias vezes nesse blog eu afirmei que sou um anormal (isto é, fora da curva normal), embasado em observações empíricas. Mais uma vez, venho dizer aqui que sou um anormal. Neste exato momento, enquanto digito estas linhas, estou assistindo a novela das 8, "Caminho das Índias", por que aqui onde estou a TV e o computador ficam no mesmo cômodo. É a mesma história de "O Clone", só que ao invés dos muçulmanos dançando por qualquer peido e dizendo lugares-comuns culturais numa cidade do Marrocos, são hindus dançando como se fossem figurantes em um filme indiano e largando frases pseudoculturais altamente forçadas. Ah sim, até onde eu sei, não há nenhuma trama sobre algum assunto científico controverso (o que é uma pena. Seria do caralho ver uma história sobre a pesquisa neurocientífica com os meninos da FASE na novela). Resumidamente, é insuportável.

Contudo, tenho que dar o braço a torcer para a Glória Perez. Apesar dela não ser exatamente criativa em termos de enredo (a próxima novela dela vai ser na África, escrevam o que eu digo), ela sempre dá um jeitinho de colocar no meio de toda aquela baboseira dos diálogos um pedacinho de filosofia da cultura retratada. Não dura muito tempo, pro povão não ficar esperando demais pra saber o que a Juliana Paes vai fazer da vida e mudar de canal. E é aqui que eu sou anormal: pouco me importa se a Juliana Paes vai casar com o noivo que a família escolheu. Acho muito mais interessante ver o que o brâmane Lima Duarte tem para dizer sobre o Baghavat Gitah.

Numa nota apenas tangencialmente relacionada, os indianos dançando em cima das colunas na entrada da novela (0:32s de vídeo) me lembram de Tunak Tunak Tun. Uma verdadeira jóia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Lá e de Volta Outra Vez - Voltando do Sul e indo para o Norte

Faz um pouco menos de um mês desde que voltei da Argentina. Contudo, apesar de todo o sofrimento, toda a angústia e privação que passei na Patagônia Selvagem, a estrada chama novamente, e amanhã mesmo viajarei para Campo Grande - irei de avião, voltarei não sei como.

Viajar de verdade, conhecer pessoas e se envolver em mundos até então desconhecidos, é viciante. É diferente de apenas ir a um lugar famoso qualquer, como a Torre Eifel, tirar umas fotos e colocar no Orkut para todo mundo ver - é ter uma história para contar sobre aquela foto onde você aparece seis quilos mais magro e com cara de sono na frente de uma pizza de aspecto duvidoso. Esses dias, recebi um e-mail do Marcelo, com quem viajei pela Argentina. Quando ele tinha o enviado, estava em Aracaju, no Sergipe. Dias antes, ele estava acampado em Belém do Pará em uma tenda feita com troncos de madeira que ele próprio carregara da mata vizinha. Por alguns minutos, arrependi-me amargamente de não estar lá com ele, mesmo sabendo que ele (provavelmente) estava sendo devorado vivo por mosquitos do tamanho de baratas. Sendo um pouco pretensioso para afirmar tal coisa, digo que isto sim é viver. Não quero dizer com isto que deveríamos todos nos converter em sadhus e nos mortificarmos. Creio, contudo, que abandonar todo este conforto estupidificante e correr riscos, aceitar o desafio que a vida nos propõe, é algo que todos os seres humanos são chamados a fazer, mas poucos têm coragem para tanto.

Terminei de ler hoje "O Hobbit", de J.R.R. Tolkien, e, apesar de algumas pessoas acharem o livro infantil, identifiquei-me imensamente com Bilbo Bolseiro, o personagem principal que, um belo dia, conhece o mago Gandalf, e é arrastado para uma grande jornada junto com um bando de anões para matar um dragão do qual nunca antes ouvira falar, e recuperar um tesouro no qual pouco se interessava. Digo que identifiquei-me imensamente com este pequeno ser de pés peludos por que, apesar de sua tarefa ser muito mais dramática que a que enfrentei na Patagônia, vivi o mesmo processo que ele. Ele saiu de sua casa aos trancos e barrancos, preocupado por que não tinha nem sequer um lenço em seu bolso, e quando retornou ao lar, não precisava tanto assim de lenços; quando a viagem começara, nenhum dos anões acreditava que ele fosse capaz de chegar à Montanha Solitária onde dormitava Smaug, o dragão; mas, conforme progrediam, ele crescia em coragem, audácia e habilidade, até que enfim tornou-se o verdadeiro líder da expedição, um herói pequeno em estatura, mas grande em valor. A virada da maré, quando ele passou a acreditar em si mesmo, aconteceu quando ninguém havia para resgatá-lo, mas mesmo assim ele se salvou. Na grande Floresta Negra, ele fora atacado por uma aranha gigantesca e, sem a ajuda de nenhum dos anões, esquivou-se dela e a matou. Mais do que isso, ele ainda resgatou seus companheiros da morte certa, libertando-os das teias das aranhas restantes e liderando o contra-ataque. Lembrei-me do momento em que chegamos em Buenos Aires, depois de três dias buscando transporte para o norte desesperadamente, sem fogareiro, nem barraca. Como Bilbo, conseguimos.

Como Einstein disse uma vez, a mente que expande seus horizontes nunca mais poderá voltar ao seu tamanho original. Depois de uma aventura como esta, ninguém volta o mesmo, pois a insegurança, o comodismo e o medo do desconhecido, todos intimamente ligados, desaparecem, nunca completamente: apenas deixam espaço o suficiente para que possamos perceber que não precisamos deles. Pode-se voltar ao mesmo estilo de vida que se vivia antes de viajar verdadeiramente, mas não da mesma maneira. Sabe-se então que o mundo é muito maior, e que se tudo aquilo desaparecesse subitamente, o mundo não estaria perdido. É uma sensação deliciosa, ao mesmo tempo aterrorizante e prazerosa.

Tendo vivido tudo isto, visto minha Montanha Solitária e morto meu próprio dragão, não posso mais ficar em casa, como se aposentado estivesse de viajar. Como diria o próprio Bilbo, "é um negócio perigoso, sair pela própria porta. Você pisa na estrada, e se não controlar seus pés, ninguém sabe onde eles irão levá-lo".

Um Ano de Jornada

Ontem este blog fez um ano. Queria ter feito um post comemorativo, mas acabei indo comemorar outras coisas com meus colegas de estágio em um bar no Centro e acabei esquecendo completamente de escrevê-lo. Como prova de que superei, ainda que só um pouco, minhas obsessões de exatidão e simetria, faço o post agora, com um dia de atraso.

Apesar de todo este meu drama, não acho que haja muito o que falar a respeito deste um ano de blog. Um colega meu, no início do ano passado, quando este blog estava em seus princípios, me disse que, apesar de não gostar de tudo que escrevo, sempre gostou de como eu escrevo, e que meu estilo melhorou com a faculdade, assim como minhas capacidades de escrita. Não me lembro se ele disse por que isto ocorria, mas imagino que todo o processo de estudar Psicologia, lendo, discutindo em aula e escrevendo trabalhos poliu minhas habilidades literárias e argumentativas. Um ano depois, estas influências continuam me moldando ainda mais, com a diferença que, ao longo do ano de 2008 tive mais este espaço aqui para fazer minhas perguntas ao mundo. Não é uma tarefa simples, pois elaborar uma boa questão envolve discernimento do que não se sabe e do que se quer saber, além da capacidade de colocar tudo isto em palavras. Nem sempre tive sucesso nesta empreitada, e escrevi muita bobagem, mas, se comparado com onde estava há um ano, acho que progredi bastante.

Fez diferença eu criar um blog meu, com um nome e um foco mais idiossincráticos. No Roqueiro & Alcoólatra, agora falecido (apesar de ainda dar alguns suspiros eventuais) eu já fazia tudo isto, mas meus questionamentos mais elevados, espirituais, acabavam se perdendo no meio das bobagens que eu e os outros postadores escrevíamos. Fazendo uma comparação, era mais ou menos como escrever poesia para o Diário Gaúcho - completamente fora de lugar. Hesitei bastante, mas criei o Espadachim Cego. E foi uma boa idéia. Aqui, todos as perguntas que me fiz, mesmo as mais bobocas, puderam ser feitas com maior liberdade, e tentei respondê-las da melhor forma que pude. Para ser franco, não creio que tenha atingido nenhuma resposta satisfatória para nenhuma delas, mas talvez isto seja parte da natureza destes enigmas da vida.

Ouroboros II - Nasce uma turma

Sempre achei fascinante a maneira como grupos se formam e se transformam. Hoje ocorreu a matrícula presencial dos bixos, e eu pude observar como nasce uma turma.

Oficialmente, uma turma de faculdade surge quando o listão de aprovados do vestibular é liberada, mas só nasce verdadeiramente no dia da matrícula, quando os colegas se encontram de fato. Demora um pouco para eles se conhecerem bem, criarem amizades sólidas e desavenças amargas, mas a base de todas as relações são criadas ali, esperando para ser chamado pela COMGRAD. Naquelas poucas horas de convivência em um ambiente "desnatural" ninguém se comporta normalmente, ou como se comportaria em uma sala de aula, ambiente onde todos ficarão mais tempo na companhia uns dos outros. Contudo, dicas importantes são deixadas no ar. Baseado em como alguém se portou durante a matrícula, já dá pra dizer se ele ou ela são animados ou apáticos, agradáveis ou chatos, sério ou brincalhão, um possível bom amigo ou alguém para evitar puxar papo. Por exemplo, no dia da minha matrícula, naquele distante mês de janeiro de 2007, fiquei uma hora a mais do lado do Instituto de Psicologia conversando com outros três colegas meus. Destes, dois são grandes amigos meus hoje, em quem confio quase cegamente. Ali pudemos ver que se mantivéssemos relações amistosas nos sentiriamos bem. Obviamente a coisa não é tão direta ou simples, nem tão perfeita quanto posso ter dado a parecer (a terceira pessoa que participou da nossa conversa não se tornou tão amiga minha assim, apesar de estimá-la).

Claro, estou partindo do exemplo da Psicologia, onde é feita uma calorosa recepção aos calouros por parte dos veteranos (este ano, com direito a confete e balãozinho), e há uma sala de espera grande o suficiente para muitas pessoas ficarem ao mesmo tempo conversando. Não sei se isto ocorre, por exemplo, nas engenharias ou na matemática. Contudo, se houver, o processo por trás da formação da dinâmica do grupo é o mesmo.

Isto é só o nascimento da turma, sua concepção, o embrião do grupo. Ao longo dos semestres muitas coisas mudarão - o mais óbvio são colegas que desistem ou colegas que surgem do nada (como tanto aconteceu conosco). Um fator mais sutil é a mudança das relações entre as pessoas por causa da convivência. Grosso modo, as hipóteses que criamos no dia da matrícula são testadas no dia a dia de aulas, as pessoas revelam-se verdadeiramente e, por isso, passamos a gostar mais ou menos delas. Passamos a conhecer suas manias, seus medos, seus gostos, seus sonhos. Isto, tanto ano passado quando neste, também ficou evidenciado no dia da matrícula. Meus bixos, atuais veteranos, inspirados em algo que fizemos ano passado, criaram um perfil de sua turma, para que os novos bixos pudessem conhecê-los melhor. É uma lista bem simples, mas que destila a essência da dinâmica de grupo que rola entre eles (inclusive com aqueles colegas que ninguém sabia o que escrever a respeito). Talvez, daqui a um ano, a turma de 2009 faça o mesmo na recepção da turma de 2010. Provavelmente estarei observando de fora como as coisas vão acontecendo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Elevation

O êxtase espiritual é um fenômeno descrito em milhares de fontes diferentes - antigas ou novas, místicas ou científicas, poéticas ou explícitas - mas todas estas descrições concordam em pelo menos um ponto: o sublime sentimento de elevação e plenitude que invade o ser que transcende a si mesmo.

Estas experiências culminantes, como as nomeou Maslow, vêm sem sabermos por que, mas podem ir a qualquer momento. Sinto-me um tanto quanto elevado neste momento, acima das negras nuvens do sofrimento, da ganância e do apego. Parece que esta sensação que me domina agora perdurará eternamente, mas sei que, cedo ou tarde, ela passará. Na maioria dos casos, elas passam por culpa nossa, de nosso desejo de que elas durem para sempre.

Contudo, neste exato momento, me sinto bem, como se dispusesse de um estoque praticamente ilimitado de energia, e que posso (e devo) distribuí-la para todos ao meu redor. Tentei fazer um pouco disto pelo MSN agora. Espero acordar assim amanhã de manhã, para continuar fazendo isto.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Star Wars e a Filosofia Perene

Uma lição surpreendentemente profunda de Yoda.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um dia qualquer no RU

Se há uma lição que a UFRGS nos ensina, é que nada é garantido, especialmente o cardápio do RU. No final do ano retrasado, uma época particularmente ruim nos subsídios para o RU, ficamos sem sobremesa e sem guardanapos por pelo menos dois meses. E hoje mesmo, quando fui almoçar, dei uma olhada rápida no cardápio de toda a semana. Na sexta-feira, junto com os clássicos feijão e arroz, aparecia um prato que nunca um estudante da UFRGS imagina ser servido no RU: pizza. Surpreso com esta descoberta, subi as escadas para o restaurante e, no meio do caminho, passei por dois amigos olhando outro cardápio e comentando a respeito. Eis o diálogo (tal como o lembro):

A - Olha só, aqui diz que vai ter pizza sexta-feira no RU.
B - Aposto que amanhã vão riscar isso aí e escrever "purê" por cima.

Quando se depende do RU para comer, aprende-se rápido que isto acontece muitas vezes ao longo do ano, e que nunca se sabe quando aquela pizza ou bolinho de arroz virará purê ou repolho refogado. Hoje mesmo tive que provar o amargo gosto da decepção: a sobremesa, que era para ser melancia, virou melão.

E assim a vida segue aqui em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Dramas de Estágio (Parte 11) - Jedi Academy

Já fazem duas semanas desde que comecei a atender no Ambulatório do Departamento de Genética, e dentro de um mês iniciarei meu estágio básico oficial no Morada São Pedro. Posso dizer que, apesar de ainda ter um ano inteiro como estagiário pela frente, este assunto está encerrado, ou melhor dizendo, o barco já está em alto-mar, e não há mais nada que eu possa fazer a respeito (exceto sair do estágio no São Pedro, o que seria o equivalente a pular na água e ir nadando até o mar, mas vou deixar essa metáfora para lá). Restam-me ainda os dois estágios de ênfase obrigatórios, e um possível terceiro estágio opcional, caso eu decida cursar as três ênfases (depois de comer muito cocô).

Um dos fatores que mais influenciaram minha decisão sobre quais em locais estagiar foi o tipo de experiência que eles me proporcionariam, e que quanto mais variadas elas fossem, melhor. Decidi trabalhar tanto no São Pedro quanto no Ambulatório de Genética por que são dois ambientes muito diferentes, tanto no público que atendem quanto na metodologia que empregam, e por que acredito que este "choque de culturas" me será benéfico por estimular uma maior flexibilidade cognitiva e enriquecer meu repetório como psicólogo. Só estou trabalhando no Ambulatório até agora e não tive oportunidade de comprovar isso na prática, mas estou bastante seguro de que minha hipótese está correta.

Quando pensei pela primeira vez onde fazer meus estágios de ênfase, cheguei em três locais ideais: o Instituto Psiquiátrico Forense, o Estação Psi e a Clínica São José. Contudo, analisando friamente e comparando estes locais com os que trabalharei por todo este ano, eles são parecidos demais. Tanto o Insituto Psiquiátrico Forense, quanto o Estação Psi e o Ambulatório atendem pessoas em conflito com com a lei - a única diferença entre eles é que, no primeiro, o público consiste de pessoas com sofrimento mental severo, que torna a internação necessária, enquanto que nos dois últimos são menores em conflito com a lei. E a Clínica São José, da mesma forma que o São Pedro e o IPF, atende pacientes psicóticos. Seria mais do mesmo para mim.

Tendo isto em vista, comecei a pensar em outros locais para aprender outras coisas, e passei a cogitar locais que antes não me atraiam tanto. Para a ênfase em Psicologia Social, eu poderia fazer estágio em alguma secretaria municipal, como a Secretaria Municipal de Educação (SMED), que já tem uma parceria forte com a UFRGS, e para a ênfase em Desenvolvimento Humano, em uma clínica particular. Interesso-me especialmente pela WP. Falarei a respeito disto mais para a frente.

Cinema e Ação

Esse final de semana, assisti dois filmes seguidos de Star Wars. O primeiro foi "Clone Wars", longa de animação digital e o segundo foi "Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança" da antiga trilogia. Além de poder ver a história em dois momentos muito diferentes, também há outra diferença intrigante: a velocidade dos dois filmes. "Clone Wars" é ação do começo ao fim: duelos de sabre de luz, explosões grandes e barulhentas, milhares de dróides e clones confrontando-se na tela ao mesmo tempo, muitas cores extremamente brilhantes e chamativas, e uma trilha sonora que aumenta ainda mais o impacto visual, tudo feito com a mais moderna tecnologia disponível para os diretores de cinema. "Uma Nova Esperança", por outro lado, apesar de ser claramente um filme aventuresco, é muito mais parado, leva muito mais tempo para explicar sua história, introduzir seus personagens e apresentar seu universo ao espectador. Mesmo suas cenas de batalha são muito mais lentas - basta comparar o assalto à Estrela da Morte pela Aliança Rebelde com qualquer outra cena de batalha espacial de qualquer um dos filmes da nova trilogia, ou, fazendo uma comparação ainda mais dramática, o duelo entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi em "Uma Nova Esperança" e "A Vingança dos Sith".

Apesar de não tratar estritamente do mesmo assunto, este post tem muito em comum com um texto que o Marcelo escreveu sobre doce de figo. Neste artigo, ele comenta que, ao contrário de sua avó e sua tia, ele geralmente dispensa os doces mais tradicionais, como ambrosia ou pessegada, pois, tendo sido criado em uma época tão cheia de comidas fortemente doces e estimulantes (quando não coloridas), os doces que os mais antigos comiam já não são suficientemente "potentes" para atingir seu limiar de doçura e satisfazê-lo. Tanto Marcelo quanto eu pertencemos à uma geração superestimulada, não só em termos gustativos, mas também em termos cinematográficos.

Quando "Star Wars" saiu nos cinemas pela primeira vez, lá na década de 1970, fez estrondoso sucesso por causa de seus efeitos especiais, cenas de ação e história envolvente. Meu pai, por exemplo, esperou ansiosamente pelo lançamento do Episódio VI no Brasil, por longos dois ou três anos. E, mais uma vez, aqui é que está: que seqüência de filme popular levaria tanto tempo para entrar em cartaz hoje em dia? Mais importante ainda, quais as chances de um filme como os da antiga trilogia de "Star Wars" fazer sucesso hoje em dia? Não quero ser apressado e dizer de cara que suas chances são zero, mas é forçoso acreditar que, competindo com megaproduções como "Piratas do Caribe", "Homens de Preto" e, por que não?, os últimos três filmes da saga de "Star Wars", elas seriam bem pequenas.

Somos uma geração acelerada. Uma professora minha, cuja linha de pesquisa é "psicanálise, cinema e cadeias associativas", em todas as suas pachorrentas aulas falou que, nos princípios da Sétima Arte, os cineastas lançavam mão de recursos de linguagem como mostrar um galo cantando ou a mensagem "E na manhã seguinte..." para explicitar a passagem do tempo. Hoje em dia não se faz mais isso por que simplesmente não é necessário. Apenas assistindo o filme, sabemos que é outro dia a partir de sinais muito mais sutis, como a mudança de roupa, de cenário ou através do diálogo. Se trouxéssemos para os dias de hoje um dos irmãos Lumière, ele seria incapaz de entender um filme como "Batman Begins". Não precisamos ir tão longe: minha avó não consegue assistir "Forrest Gump" sem ficar perguntando onde está o guri do começo do filme, por que ela não consegue entender que ele cresceu e é o Tom Hanks (e por que ela sempre dorme a metade dos filmes que assiste), e mesmo meu pai se perde com a história de alguns filmes! Isto não acontece por burrice ou algo parecido: eles simplesmente não estão acostumados. Nós, por outro lado, crescemos neste mundo acelerado, superestimulante, louco, somos neurologicamente preparados para absorver informação "de alta velocidade" e estes filmes "vibram na mesma freqüência" que nós. Para os amantes da tecnologia e do futurismo, isto é fantástico, a própria evolução acontecendo diante de nossos olhos, mas ela não necessariamente é uma coisa boa.

No final de seu post, Marcelo lança uma pergunta: estará o doce de figo com os dias contados? Tenho, eu também, uma pergunta para fazer: chegará o dia meus pais não conseguirão mais entender os lançamentos do cinema, por não terem a velocidade mental necessária para tanto, e que clássicos como "Casablanca", os antigos "Star Wars" e "O Poderoso Chefão" serão escanteados e esquecidos pelas gerações mais recentes por serem parados demais? Francamente, eu não sei. Contudo, eu tenho um palpite.

Mesmo sendo lentos (pelo menos se comparados com os filmes de hoje em dia), os episódios antigos de Star Wars ainda me divertem, me inspiram, me emocionam, não por que seus efeitos especiais de explosões sejam fantásticos, ou por que suas cenas de ação sejam estimulantes ao extremo, mas por que sua história me toca. Luke Skywalker não tem a mesma pinta de herói implacável que seu pai Anakin, mas consegue ser muito mais próximo de nós. Eles têm aquilo que faz de nós humanos, e não qualquer outra coisa por aí. Talvez nossa geração consiga processar muito mais informação do que nossos pais ou nossos avôs, mas estejamos perdendo gradativamente a capacidade se contentar com pouco, de achar doce de figo gostoso apesar de não ser uma explosão de sabor como o leite condensado, ou de apreciar a beleza lenta de um pôr do sol e, talvez, estejamos deixando de ser cada vez menos humanos para nos tornarmos cada vez mais máquinas. Mas são só "talvezes", que podem ou não tornar-se realidade. Não creio que isto acontecerá, pois acredito que, sempre que estivermos ali, quase caíndo no abismo da desumanização, haverá quem nos lembre de apreciar um filme pelo que há de humano nele.