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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Lá e de Volta Outra Vez - Voltando do Sul e indo para o Norte

Faz um pouco menos de um mês desde que voltei da Argentina. Contudo, apesar de todo o sofrimento, toda a angústia e privação que passei na Patagônia Selvagem, a estrada chama novamente, e amanhã mesmo viajarei para Campo Grande - irei de avião, voltarei não sei como.

Viajar de verdade, conhecer pessoas e se envolver em mundos até então desconhecidos, é viciante. É diferente de apenas ir a um lugar famoso qualquer, como a Torre Eifel, tirar umas fotos e colocar no Orkut para todo mundo ver - é ter uma história para contar sobre aquela foto onde você aparece seis quilos mais magro e com cara de sono na frente de uma pizza de aspecto duvidoso. Esses dias, recebi um e-mail do Marcelo, com quem viajei pela Argentina. Quando ele tinha o enviado, estava em Aracaju, no Sergipe. Dias antes, ele estava acampado em Belém do Pará em uma tenda feita com troncos de madeira que ele próprio carregara da mata vizinha. Por alguns minutos, arrependi-me amargamente de não estar lá com ele, mesmo sabendo que ele (provavelmente) estava sendo devorado vivo por mosquitos do tamanho de baratas. Sendo um pouco pretensioso para afirmar tal coisa, digo que isto sim é viver. Não quero dizer com isto que deveríamos todos nos converter em sadhus e nos mortificarmos. Creio, contudo, que abandonar todo este conforto estupidificante e correr riscos, aceitar o desafio que a vida nos propõe, é algo que todos os seres humanos são chamados a fazer, mas poucos têm coragem para tanto.

Terminei de ler hoje "O Hobbit", de J.R.R. Tolkien, e, apesar de algumas pessoas acharem o livro infantil, identifiquei-me imensamente com Bilbo Bolseiro, o personagem principal que, um belo dia, conhece o mago Gandalf, e é arrastado para uma grande jornada junto com um bando de anões para matar um dragão do qual nunca antes ouvira falar, e recuperar um tesouro no qual pouco se interessava. Digo que identifiquei-me imensamente com este pequeno ser de pés peludos por que, apesar de sua tarefa ser muito mais dramática que a que enfrentei na Patagônia, vivi o mesmo processo que ele. Ele saiu de sua casa aos trancos e barrancos, preocupado por que não tinha nem sequer um lenço em seu bolso, e quando retornou ao lar, não precisava tanto assim de lenços; quando a viagem começara, nenhum dos anões acreditava que ele fosse capaz de chegar à Montanha Solitária onde dormitava Smaug, o dragão; mas, conforme progrediam, ele crescia em coragem, audácia e habilidade, até que enfim tornou-se o verdadeiro líder da expedição, um herói pequeno em estatura, mas grande em valor. A virada da maré, quando ele passou a acreditar em si mesmo, aconteceu quando ninguém havia para resgatá-lo, mas mesmo assim ele se salvou. Na grande Floresta Negra, ele fora atacado por uma aranha gigantesca e, sem a ajuda de nenhum dos anões, esquivou-se dela e a matou. Mais do que isso, ele ainda resgatou seus companheiros da morte certa, libertando-os das teias das aranhas restantes e liderando o contra-ataque. Lembrei-me do momento em que chegamos em Buenos Aires, depois de três dias buscando transporte para o norte desesperadamente, sem fogareiro, nem barraca. Como Bilbo, conseguimos.

Como Einstein disse uma vez, a mente que expande seus horizontes nunca mais poderá voltar ao seu tamanho original. Depois de uma aventura como esta, ninguém volta o mesmo, pois a insegurança, o comodismo e o medo do desconhecido, todos intimamente ligados, desaparecem, nunca completamente: apenas deixam espaço o suficiente para que possamos perceber que não precisamos deles. Pode-se voltar ao mesmo estilo de vida que se vivia antes de viajar verdadeiramente, mas não da mesma maneira. Sabe-se então que o mundo é muito maior, e que se tudo aquilo desaparecesse subitamente, o mundo não estaria perdido. É uma sensação deliciosa, ao mesmo tempo aterrorizante e prazerosa.

Tendo vivido tudo isto, visto minha Montanha Solitária e morto meu próprio dragão, não posso mais ficar em casa, como se aposentado estivesse de viajar. Como diria o próprio Bilbo, "é um negócio perigoso, sair pela própria porta. Você pisa na estrada, e se não controlar seus pés, ninguém sabe onde eles irão levá-lo".

sábado, 19 de julho de 2008

Argonautas do Asfalto - Parte IV

Antes de começar o relato propriamente dito, gostaria de abrir um parênteses, e dizer que, talvez não tenha sido a melhor das escolhas falar sobre o ENEP cronologicamente, pois, de certa forma, ele está além do tempo. O Marcelo bem disse que cada um viveu seu próprio ENEP. Eu acrescentaria que cada um o viveu em seu próprio tempo.

O quinto e último dia oficial de encontro chegou, e com ele, um ar cheio de alegria e tristeza. Alegria pelo o que vivemos, e tristeza pela despedida, precoce na opinião da grande maioria dos participantes. A plenária final tomou lugar no centro do alojamento. Bem diferente da do ano anterior, foi apenas um círculo informal, sem frescuras burocráticas para falar ou votar: bastava chegar ali e dar sua opinião. Apesar deste clima mais livre, evitei tanto quanto pude participar dela: não estava lá para aquilo.

Nossa sociedade se dividia e dissipava pelo Brasil: Karol ficaria em Campo Grande, para ir num show; Lucas e Natanael decidiram ir para Belo Horizonte com o pessoal de Minas Gerais que estava por ali; Roger voltaria mais cedo de avião, enquanto que eu, Marcelo, Chico, Dani e William pegaríamos o primeiro ônibus que pudéssemos; os porto-alegrenses voltariam para Porto Alegre, e o William voltaria para aquela cidade dele cujo nome não me recordo. Mas é uma cidade amável, tenho certeza.

Para nossa insatisfação, não conseguimos passagem alguma para aquele dia, e teríamos que ficar mais uma noite no alojamento, quando o evento já tivesse acabado e os seguranças ido embora. Mas nossa insatisfação não foi tão grande, pois ninguém estava tão interessado assim em encarar mais 20 e tantas horas de viagem para voltar a fazer o que sempre fazemos em casa.

As despedidas tomaram conta do ENEP – tínhamos que dar adeus não só as pessoas que conhecemos ou reencontramos, mas do alojamento, das capivaras, de Campo Grande e de toda a experiência transformadora que foi este encontro. Para onde quer que olhássemos, víamos aspirantes à psicólogos fazendo isso. Dei meu adeus para tudo aos poucos: primeiro dos amigos, depois do alojamento e, por fim, da cidade. Da menina do vestido amarelo, despedi-me pelo menos quatro vezes. Não me despedi, porém, do próprio ENEP, pois ele continua a acontecer dentro de mim, pois as marcas que em mim deixou são indeléveis.

Pouco a pouco, aquele espaço vibrante e cheio de vida que era o Moreninho foi esvaindo-se, esvaziando-se, e onde havia anteriormente um grande acampamento colorido foi transformando-se novamente em um grande piso de madeira, frio e vazio. Pouco a pouco, as pessoas foram indo embora, mergulhando aquele ginásio cada vez mais no silêncio. Houve, contudo, um movimento de resistência contra isto – nos unimos e cantamos juntos, por uma última vez em Campo Grande, todas as besteiras que aprendemos nesse tempo de faculdade, fizemos aquelas dancinhas ridículas e humilhantes e afastamos, ainda que por um breve instante, o pensamento que logo iríamos embora, e por um breve instante, vivemos uma vez mais o ENEP em toda sua força.

Esse instante acabou, e cada um foi para seu lugar. Tentei ir dormir mais cedo, mas acabei indo parar no churrasquinho atrás do ginásio, e conversando com um colega de artes marciais de Porto Velho, RO. Após a conversa acabar, esbocei uma tentativa de leitura, mas ela soçobrou diante meu sono.

Na manhã que se seguiu a última noite de festa, fomos de carona para a rodoviária. Eram nossos últimos momentos na capital do Mato Grosso do Sul. Nos despedimos de William, que iria em outro ônibus, e embarcamos para nossa viagem de volta. Nas trinta horas que se seguiram, em todas as paradas e durante o caminho, o silêncio foi nosso mais constante companheiro. Mas este silêncio já não era o mesmo da ida, pois nós também não éramos os mesmos. Não havia constrangimento ou vergonha no fato de permanecermos quietos – talvez o cansaço tenha contribuído para esta situação, mas havia algo maior por trás de tudo. Este silêncio era fruto e símbolo da profunda amizade que brotou entre nós, argonautas do asfalto, que decidimos, juntos, buscar a riqueza, a aventura e a loucura em Campo Grande, no Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia. Nós tivemos a coragem e o desapego para viajarmos mil quilômetros, e sofremos e sorrimos juntos. Se tivéssemos viajado em um grande grupo, nossa jornada não teria o mesmo significado que teve e tem até agora. Nenhum de nós é o mesmo agora.

E assim, concluo minha breve narrativa sobre o ENEP. Ano que vem tem mais: EREP Maringá e ENEP Belo Horizonte. Até lá, quando desbravaremos mais rodovias do Brasil.

Argonautas do Asfalto - Parte III

Mais uma vez, poucas lembranças vêm a minha mente sobre o quarto dia de ENEP. Posso dizer que foi um dia agradável, que passei bem aninhado nos braços da menina de saia amarela, mas com poucos acontecimentos marcantes. Porém, os poucos eventos de que me recordo foram verdadeiramente extraordinários.

Uma hora da noite, resolvi sair e caminhar pelo campus, isolar-me um pouco dos demais e refletir sobre o que estava vivendo ali. Sentei-me do lado da piscina olímpica, onde um aglomerado de capivaras pastava. Pensei sobre o ENEP, sobre tudo que aconteceu antes dele e o que seria de mim depois dele. Não seria o mesmo, já sabia. No caminho de volta, encontro mais uma vez William e outro ser, desta vez carioca, indo até o Atacadão. Como Will já tinha uma bermuda (apertada) e chinelos, desta vez iriam comprar bebidas. Mais uma vez, aceitei o convite de ir junto com eles até lá, e mais uma vez, pus-me a imaginar por que fiz isto. O motivo da caminhada já evidenciava que me sentiria outra vez como um peixe fora d’água com os assuntos da conversa. Lembrei de Jung. Em sua autobiografia “Memórias, Sonhos e Reflexões”, ele fala que, por causa de seus interesses em filosofia, teologia e ciência, sentiu-se muitas vezes solitário e sem nenhum semelhante com quem poderia agir de igual para igual. Muitas vezes me senti assim, talvez por arrogância, talvez não, e lamentei a falta de um amigo para conversar verdadeiramente, e não repetir o que todos repetem.

No alojamento, aconteceria uma festa. Minha atitude perante ela não foi muito diferente das demais – ler era mais interessante. Porém, mais uma vez o destino guiou-me para outros lugares e conversas, ao invés de me deixar só com meus livros. Chico, deitado e com apenas a cabeça para fora de sua barraca, pediu uma opinião sincera, minha e de Roger, o oitavo gaúcho do ENEP, e nono membro de nossa sociedade, sobre questões de movimento estudantil, trabalho e motivação. Para ser sincero, nada poderia acrescentar de extraordinário à conversa. Por isso, fiquei apenas escutando. Nesse ínterim, Marcelo se aproximou, sentou e fez o mesmo que eu, escutou. Tenho a impressão que o Chico apenas queria alguém para conversar e expor o que pensava, pois foi o que mais falou, apesar de ter pedido opinião alheia. Foi Roger quem fechou com chave de ouro a pequena assembléia. Citando o Bhagavad Gita, livro sagrado do hinduísmo, disse “é melhor fazer mal os próprios deveres do que realizar bem os deveres dos outros”. Naquele momento, achei a frase bonita, mas ela pouco ocupou minha mente consciente. Minha mente inconsciente, percebo agora, foi muito afetada.

Finda a conversa, preparava-me para cair de cabeça no mundo da leitura e do esquecimento, quando o Marcelo se aproxima de mim e pergunta “Qual a tua opinião sobre a Astrologia?”. Foi uma pergunta inusitada, vinda do meu veterano, positivista até os ossos. Antigamente, para ele coisas como Astrologia eram simplesmente pseudocientíficas, e portanto descartáveis. Mas, ao longo do ENEP, ele dera sinais de que algo mudara. A Biodança o atingira de forma muito mais profunda do que poderia então supor. Elaborei a melhor resposta que podia dar, a mais adequada teoricamente e a mais sincera e congruente possível. A conversa que se seguiu foi uma das mais inspiradoras, desafiadoras e instigantes que tive desde que entrei para a faculdade. Não lembro de tudo o que foi discutido, nem cabe aqui relatar. Digo apenas que foi uma longa e produtiva conversa, e que, depois dela, nem eu, nem o Marcelo éramos os mesmos.

Não lembro em que dia ocorreu a segunda oficina de Biodança. Pouco importa também. Participei dela, e pude constatar o que causara tamanha comoção em meu veterano. É uma experiência para poucos, pois exige muito desprendimento emocional. Lembro de ter visto pelo menos duas pessoas chorando ao final da oficina, graças a grande carga afetiva produzida pelos participantes. Como disse o próprio Marcelo, não dá para explicar: só vivenciando para entender.

Tão breve quanto possível, publicarei a quarta e última parte parte desta série.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Argonautas do Asfalto - Parte II

Lembro-me de pouca coisa significativa do segundo dia. Talvez seja a memória me deixando na mão, apesar do pouco tempo decorrido entre os acontecimentos, ou pode ser que não haja muito que se relatar.

Acordei tarde e perdi os GDVs da parte da manhã. Nenhum me interessava mesmo, então não perdi nada. Almocei pela primeira vez no RU da UFMS. Achei o lugar pequeno para um restaurante universitário que em tese deveria atender milhares de mortos de fome por dia, mas depois fiquei sabendo que aquela parte do campus era meio marginal e isolada. Devem existir outros RUs espalhados pelo campus. Não sei por que estou relatando uma coisa tão sem graça.

Em um dado momento, fui até o mercado mais próximo, o Atacadão, junto com o William e um cara da UFPR, o Fernando, para comprar um chinelo e uma bermuda, já que o William trouxe apenas um coturno e calças jeans para sua estadia na calorenta capital do Mato Grosso do Sul. Lembro-me que, durante quase todo o caminho, fiquei calado. Não me entendam mal, tanto o William quanto o Fernando são pessoas legais, mas eu simplesmente não conseguia me interessar pelo o que diziam. Era como se falassem de coisas que já fizeram sentido anteriormente, mas que agora não passam de assuntos pueris e enfadonhos para mim.

Foi com certo alívio que voltei para o alojamento. Eram aproximadamente duas da tarde, e eu teria que me coçar para fazer algo apenas às quatro e meia, quando eu, Marcelo e Chico ministraríamos uma oficina de Artes Marciais e Estética. Pensei em pegar um livro e ficar lendo, mas acabei procrastinando. Neste ínterim, acabei encontrando as meninas da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), que foram conosco para o show do Nando Reis na noite anterior. Junto com elas, estava uma recém chegada. Não sabia naquele momento a importância de tal encontro.

Tivemos uma oficina fantástica. Começou devagar, apenas comigo, Chico e Carol, mas conforme os minutos se passavam, mais e mais gente veio se juntar a nós e dar sua contribuição, inclusive Marcelo, que estava até então participando de uma outra oficina: Biodança. Desde o Congresso de Direitos Humanos em Buenos Aires, eu jurei que evitaria a qualquer custo qualquer atividade que tivesse “Drama” ou qualquer termo relacionado. “Dança” estaria no topo da lista de coisas a serem evitadas. O Marcelo seguia esta filosofia muito antes de eu entrar para a faculdade, e fiquei surpreso com o fato dele ter gostado de Biodança. Era sinal de que algo estava acontecendo.

À noite, nos preparamos para o TransENEP, a festa mais tradicional do ENEP. Em todo encontro, uma noite é especialmente devotada para o autodeboche dos participantes, que se vestem como representantes do sexo oposto. Considerando que uma mulher pode usar calças compridas sem problemas, enquanto que um homem não pode usar uma saia sem atrair olhares tortos, posso dizer que é uma tarefa desigual, tanto na dificuldade quanto no entusiasmo: os meninos se divertem muito mais colocando vestido e passando batom do que as meninas vestindo bermudão e pagando de mano. Considero todo o ritual de colocar vestido, roupa colada e maquiagem parte essencial do ENEP, e não poderia ficar de fora de toda a baderna (fiquei com cara de china de barranco). Ainda assim, não me sentia disposto a ir para mais uma festa. A noite anterior cobrara um preço alto demais de minha alma, e não estava disposto a passar por tudo aquilo novamente. Fingi que queria ir, e como os demais, fiquei esperando os ônibus chegarem e nos levarem para o local da festa.

Fora estabelecido que três ônibus viriam nos buscar, em três horários diferentes. Mas o primeiro ônibus saiu cedo demais, e muitas pessoas ficaram para trás, esperando o segundo. Eu e Marcelo estávamos entre estas pessoas. Quando ele chegou, meu veterano correu e fez tudo o que pode para conseguir seu lugar. Eu não. Fiquei parado, apenas olhando. “Vou no próximo”, pensei comigo mesmo. Mas não fui. Entrei no alojamento e me deitei, enganando-me que acordaria na hora certa. Despertei muito mais tarde, quando alguns já começavam a voltar da festa e não havia mais motivos para iludir-me que de fato gostaria de ir. Fui deitar-me na minha barraca, mas logo tive que acordar novamente, para me trocar, tirar a maquiagem da cara e pegar meu colchonete (é, eu estava dormindo direto no chão. Pouco saudável, e muito menos confortável). Nessa hora, senti-me pleno. Fora honesto comigo mesmo, ainda que de forma estranha e inconsciente. Dormi pouco, mas em paz comigo mesmo.

Na outra noite, após as vivências na comunidade de Campo Grande e a segunda parte de nossa oficina, aconteceria a terceira festa, o luau. Sabia como seria, e minha decisão já estava tomada: eu ficaria no alojamento lendo. Mas quando uma certa menina de saia amarela passou pelo meu lado, pensei “tenho que ir pra festa”. Não houve dúvida ou hesitação quando fui atrás dela, apenas uma sensação de estar cumprindo meu destino. Essa sensação persiste ainda agora, junto com a certeza de ter feito o que devia ter feito.

domingo, 13 de julho de 2008

Argonautas do Asfalto - Parte I

Cheguei ontem de Campo Grande, depois de cinco dias de Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia – ENEP. Estou cansado depois de 30 horas dentro de um ônibus, mas a vontade de escrever sobre o que vivi no Mato Grosso do Sul é maior do que o cansaço.

Minha viagem começou muito antes do dia cinco, quando estávamos procurando uma compania de turismo que fretasse um ônibus para irmos de forma mais coletiva e econômica. Se tivesse que resumir todo este trabalho em uma só palavra, esta palavra seria “frustração” – por não acharmos um preço bom, por meus colegas nunca se decidirem e por desistirem de ir na última hora. Por causa de tudo isto (e muitas outras coisas), cogitei a possibilidade de não viajar, ficar em Porto Alegre fazendo o que sempre faço. Mas, o bom Destino tinha outros planos para mim, pois convencido pelo meu pai e pelo Marcelo, decidi que iria para Campo Grande, custasse o que custar. A idéia de ir para o ENEP num ônibus de linha me soava desconfortável, mas ao mesmo tempo extremamente poética, pois apenas os mais determinados dentre nós decidiram enfrentar tamanha jornada, sem esperar por facilidades e mimos. Fomos para Campo Grande não como turistas, mas argonautas modernos, que audaciosamente desbravaram o asfalto entre o Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Talvez esteja exagerando um pouco, mas entre nós que viajamos, não há dúvidas de que somos teimosos.

Saímos de Porto Alegre dia 5 de julho de manhã. Levantei, peguei minhas coisas e fui de táxi para a rodoviária. Lá, encontrei Carol, Marcelo e Chico da UFRGS, e Dani, Lucas e Natanael da UFCSPA. “Sete viajantes? Número curioso” pensei “mas aposto que encontraremos um oitavo companheiro durante o caminho”. E lá pelo Paraná, encontramos William, da UNOESC, que viajava sozinho para o ENEP. Estava completo, enfim, nosso pequeno grupo.

A viagem em si foi sem grandes acontecimentos, apenas longa demais. Durante quase todo o trajeto, conversamos bastante, especialmente sobre o que faríamos quando chegássemos em Campo Grande, principalmente por que ninguém de nós fora inteligente o suficiente para anotar o endereço onde o evento ocorreria, e por que já tínhamos que pensar como faríamos para voltar. Entre uma parada e outra, li “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, um livro estranhamente apropriado para a ocasião. Finda a viagem, nos informamos bem onde ficava o estádio Morenão (no campus da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS), e fomos de táxi até lá.

Não há muito que dizer sobre o primeiro dia de ENEP: nos credenciamos, pegamos nossas pulseirinhas de participantes que diziam “Se joga na água CAPIVARA!”, reencontramos velhos amigos, montamos nossas barracas dentro de um ginásio, o Moreninho, e ficamos conversando. Arrumar nossas coisas para dormir fora de casa, seja em um encontro desse tipo, seja num acampamento, é sempre algo fascinante: as pessoas vão se ajeitando, encaixando as barracas e colchões de forma natural, simples, sem conflitos, e dentro de pouco tempo uma colorida cidade nômade se ergue onde antes existia apenas o chão de madeira.

Em encontros de estudante, no primeiro dia geralmente as refeições são por conta dos participantes, e por isso fomos procurar um restaurante ou barzinho legal que servisse alguma coisa comível. Campo Grande, como uma verdadeira cidade do interior (dizer isso para um campo-grandense é pedir para apanhar. Fiz isso várias vezes ao longo do encontro, just for fun), tem o comércio praticamente parado no domingo, e demoramos quase uma hora para encontrar um lugar para comer. Não é algo agradável de se fazer depois de um dia viajando de ônibus.

Geralmente, no primeiro dia de ENEP se faz uma espécie de plenária para decidir o regimento interno do encontro. Em termos práticos, isso quer dizer que se define quanto uma pessoa precisa participar de mesas redondas, oficinas e coisas do gênero para ganhar certificado – algo mui importante, considerando que nos cobram horas complementares em congressos e eventos externos para nos formarmos. Quando participei do XX ENEP, eu era bixo, guri verde, e não sabia que buraco negro de libido são essas plenárias, e participei tanto da primeira quanto da última. Para meu mais profundo sofrimento e desgosto. Está bem, é exagero da minha parte fazer tamanho drama por causa de um negócio tão chato quanto plenárias, mas fui para Campo Grande com a certeza de que só participaria disto se fosse extremamente necessário (e meu conceito de “necessário” é claro e limitado o bastante para que eu participe apenas se um cometa se aproxima da Terra e nossa decisão poderá salvar a humanidade). Mas, como sou uma pessoa tolerante, apareci no local onde se decidiria o regimento interno do encontro. Antes que se decidisse qualquer coisa, aconteceu uma apresentação de Maracatu bastante empolgante. O ritmo e a batida do tambor despertam em mim meu lado mais selvagem, e fiquei imaginando que quando nos levantamos e fomos dançar estávamos preparando nossos espíritos para uma batalha de tribos. E, bem, provavelmente eu não era o melhor guerreiro da tribo, se isto for medido pela ferocidade e ânimo que dançava, pois estava muito travado. Foi divertido mesmo assim.

Depois do Maracatu é que a “plenária” começou. Vi que a coisa não iria prestar quando um cidadão foi reclamar que o local onde ela estava sendo realizada era acadêmica e burguesa demais, e que uma discussão sobre sair para o gramado ou não começou. Depois que eu acordei decidi voltar para o alojamento. Não havia muito o que fazer por lá. Não me lembro como e quando, mas não demorou muito e decidi que iria junto com o Marcelo e a Carol para o show do Nando Reis que aconteceria em outra parte da cidade, no Parque das Nações Indígenas e que seria de graça. Não sou muito fã de shows e grandes aglomerados demográficos, mas senti que deveria ir. No ônibus, guiados pelas berrantes pulseirinhas laranjas, encontramos mais uns “Enepianos” indo para o show. Conversamos com eles e acabamos indo juntos para o show.

O tal Parque das Nações Indígenas, apesar deste nome muito bonito, não é nada indígena: a grama é artificial, as árvores foram plantadas em linha reta e o laguinho do meio provavelmente também não é natural. É bonito, contudo. O palco ficava defronte à um pequeno vale, que estava quase transbordando de gente. Apontei com a mão e disse para meus amigos que aquilo era um abismo de perdição. Falei um pouco por deboche, mas parte de mim falava muito sério.

Gostei do show. Apesar de geralmente preferir músicas gravadas em estúdio, entendo por que tantas pessoas vão ver seus ídolos ao vivo. Há uma energia muito forte no ar que contagia e nos faz pensar e agir de forma diferente. Ainda assim, não consegui deixar de comparar com o ritual “Espadão-Orgião” que Huxley relata em seu livro. Fiquei introspectivo a maior parte do tempo, apenas ouvindo a música e deixando que ela ressoasse dentro de mim. Minhas novas amigas, achando que eu estava simplesmente apático, várias vezes me sacudiram e me fizeram balançar os braços. Depois que me expliquei, elas sentiram-se um pouco culpadas, mas me senti valorizado. Na volta para o alojamento, eu, Marcelo, Dani e William disparamos na frente para pegar o ônibus antes que ele lotasse de gente saindo do show. Conseguimos, mas pegamos o ônibus errado, pois nos deram uma informação equivocada. Faz parte: não poderia visitar Campo Grande sem me perder nela em algum momento.

Em ENEPs, toda noite acontece uma festa. Naquele dia, seria a Festa Junina. Devo abrir um parênteses aqui, e explicar a dinâmica festiva dos encontros estudantis. Todas as festas são temáticas e têm nomes diferentes, mas são todas iguais. Festa à Fantasia? O pessoal põe umas roupas ridículas para dançar funk. TransENEP? Dançar funk travestido. Essa Festa Junina não fugiria à regra. Fui, não sei por que. Logo no ônibus me incomodei. Estava sonolento, e a bêbada mais ruidosa de todo o encontro, conhecida como Chiquinha devido à sua indumentária e penteado, sentou-se justamente no assento na nossa frente. Ela encarrapitou-se no encosto e ficou berrando o tempo todo. Eu não conseguia parar de pensar em como ela era murrinha, mas meus pensamentos ganharam um tom mais homicida depois que ela esfregou a mão na minha cara para me acordar. Se não fosse o Marcelo do meu lado dizendo “olha o social, cara” eu teria tentado jogar ela pela janela, ou pelo menos dado uns tapas nela. Chegando na chácara onde aconteceria a festa, essa mesma cachaceira me agarra e me puxa para dançar. Tudo devidamente documentado em imagens pelo meu mui amigo Marcelo. Desvencilhei-me dela assim que foi possível. Descobri que danço melhor do que lembrava, tanto que nem parecia que eu não fazia menor idéia do que estava fazendo.

Foi agradável por um tempo, mas chegou um ponto que tornou-se impossível para mim até mesmo ficar ali onde todas as pessoas estavam. Numa mímica perversa do show do Nando Reis, a música fustigava e feria meus ouvidos, e cada segundo debaixo daquele teto era uma tortura. Várias vezes corri para longe, para logo em seguida voltar e correr novamente, até que chegou o momento em que nenhum lugar ela longe o suficiente daquele barulho infernal. Quando o DJ baixou o volume levemente e um homem gritou “pô DJ!” percebi que aquilo não era para mim. Mais do que isso: toda minha existência é incompatível com este estilo de vida, este tipo de festa. Fiquei mais do que feliz em voltar para o alojamento.

sábado, 5 de julho de 2008

Argonautas do Asfalto - Prólogo

É tarde, mas não consigo dormir ainda. Ainda faltam muitos preparativos para minha viagem, mesmo que sejam preparativos imaginários. Amanhã de manhã, às 7 horas, embarco em um ônibus de linha para uma viagem de mais de 20 horas para Campo Grande, onde acontecerá o XXI Encontro Nacional dos Estudantes de Psicologia (ENEP). O ENEP foi o primeiro grande encontro de Psicologia de que participei, há quase um ano atrás. Cronologicamente, não faz tanto tempo assim, mas em meu coração parece ter se passado uma vida desde então. Com certeza o Andarilho que vagou para longe da segurança do lar então não é o mesmo que repete o feito agora.

O XX ENEP não foi minha única experiência em encontros em congressos: além dele, já fui em pelo menos outros quatro eventos fora desta zona de conforto que chamo de lar, seja em Porto Alegre ou em Caxias do Sul. Sei o que esperar deste encontro, mas há algo diferente no ar que antecede esta jornada. Nas outras vezes, viajei acompanhado de muitas pessoas - sempre um ônibus cheio de gente barulhenta querendo fazer festa. Amanhã, irei em um ônibus de linha por que nossa valorosa tentativa de fretar um veículo próprio sossobrou por falta de interesse da grande maioria de meus colegas. Apenas eu e mais seis companheiros, tanto da UFRGS quanto da UFCSPA, vão amanhã, contra todas as probabilidades e dificuldades, movidos apenas pelo desejo de participar do ENEP. Apenas nós, argonautas do asfalto, aceitamos o desafio de desbravar estas estradas e rodovias até a capital do Mato Grosso do Sul. Por quê? Não sei.

Meu Orkut diz que "o melhor profeta do futuro é o passado", mas pressinto que, mais uma vez, a página de relacionamentos está errada. Acostumei-me ao conforto de viajar em companhia ruidosa porém presente. Amanhã, enfrentarei um silêncio talvez desconhecido, na viagem mais longa que já empreendi (não a mais distante, entretanto). Posso estar enganado, mas acho que a viagem para Campo Grande será outra Jornada da Alma, onde conhecerei outras pessoas, mas encontrarei a mim mesmo no final.