Estou ficando preguiçoso. A última atualização foi mês passado. Esse post não merece nem um título decente.
domingo, 3 de agosto de 2008
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Por que Morpheu me atrapalha a vida
Em seu livro "O Atleta Interior", Dan Millman fala que, como treinador de ginastas universitários, ele percebeu que um sinal de progresso é ser mais auto-consciente dos próprios erros - vários dos jovens sob sua batuta vinham lhe falar que, desde que entraram para o time principal, seu desempenho decaíra muito desde o tempo de escola. Contudo, quando Millman comparava vídeos de competições escolares com vídeos atuais, ficava claro para ele que seus alunos estavam melhores do que nunca! O erro deixa de ser algo natural para se tornar algo a ser extirpado. Algo deste tipo está acontecendo comigo, e já relatei muitos dos meus vícios aqui: chocolates, sucos, carne e preguiça, principalmente. Poderia falar de muito mais coisas, mas no momento, quero falar do que considero meu pior e mais enraizado vício: o sono.
Por oito anos, estudei no período da tarde. Isso me permitia dormir até às 9 ou 10 horas da manhã todos os dias. Nos finais de semana, ia um pouco além, e dormia até às 11, ou mesmo até ao meio-dia. Este regime permissivo me tornou quase incapaz de acordar cedo. Quero dizer, acordar por acordar. Quando tenho um propósito claro em minha mente, é muito fácil sair da cama. Tanto é que nunca faltei um acampamento dos escoteiros por que queria dormir mais cinco minutinhos. Não vou dizer que nunca faltei aula por excesso de sono. No Ensino Médio, a coisa mudou de figura, e algumas vezes pedi para meus pais me deixarem matar o primeiro periodo e dormir mais seis vezes cinco minutinhos. E, na faculdade, já perdi duas aulas matinais por que, quando acordei, vi que estava atrasado, dei de ombros e voltei a dormir. Fiz isso no primeiro e no terceiro semestres.
Mas ir para a aula não significa prestar atenção nela. E qual melhor forma de ignorar um professor completamente que baixar a cabeça na mesa e dormir sem o menor pudor? Desenvolvi esta habilidade no Ensino Médio, graças à minha baixa tolerância ao periodo anterior às 9 da manhã, a chatice das aulas e meu fraco sentimento de pertença à minha turma, e por causa dela fui apelidado criativamente de Soneca e o prêmio Leda para Criaturas Inúteis na categoria "Melhor Seguidor do deus Morpheu". Mas foi no cursinho e na faculdade que elevei esta habilidade ao nível da arte. Tal como os iogues, que conseguem controlar seus batimentos cardíacos e pressão sangüínea, para entrar em sono profundo, basta apenas eu baixar minha cabeça, e esperar alguns minutos, "prestando atenção" ao hipnótico blá-blá-blá do professor. Mas este meu poder foi se apoderando de mim, ao ponto de ter dormido em todas as aulas que já tive até o momento. Uma professora minha (que dava aula de manhã) me fazia ficar sentado em cima da minha carteira, pois, desse jeito, ela sabia que eu não dormiria - e se dormisse, cairia no chão e acordaria.
Para piorar minha situação, eu durmo tarde. 23 horas é cedo segundo meus padrões. A faculdade certamente não colabora para mudar isto, pois cansei de ficar acordado até às 6 ou 7 da manhã fazendo relatórios. A pior cagada que já fiz num dia destes foi ter ido para a academia. Cheguei pensando em treinar dois ou três horários seguidos, e saí impressionado que tinha conseguido treinar um horário inteiro. Foi uma dissociação interessante, pois enquanto minha mente funcionava impecavelmente, meus músculos entraram em greve. Falei da minha situação para o professor, que ao término da aula disse explicitamente "vê se dorme". Quando um professor de Kung Fu diz isso, é sinal que, sim, você deve dormir.
As férias viraram meu relógio biológico do avesso, especialmente o ENEP, onde ir dormir às 4 da manhã era rotina. Agora, estou lutando para mudar este comportamento. Como já disse, não encontro problema algum em levantar, desde que tenha um bom motivo. Antes de viagens, sempre tenho medo de dormir demais e perder o ônibus. Foi assim nos dois ENEPs e no EREP que fui, e para o congresso em Buenos Aires. Mas em todos eu acordei muito antes do necessário, e sozinho. A questão é que, apesar de saber racionalmente os benefícios de acordar cedo, não vejo muito propósito. "Acordei às 7 da manhã. Viva para mim! Agora, eu vou... fazer o quê mesmo? Ah, então vou voltar pra cama que é mais lucro." Já fiz isso muitas vezes. Mas eu quero acordar mais cedo, então eu vou mudar este meu hábito ruim. Só não tenho muita idéia de como fazer isso.
Por oito anos, estudei no período da tarde. Isso me permitia dormir até às 9 ou 10 horas da manhã todos os dias. Nos finais de semana, ia um pouco além, e dormia até às 11, ou mesmo até ao meio-dia. Este regime permissivo me tornou quase incapaz de acordar cedo. Quero dizer, acordar por acordar. Quando tenho um propósito claro em minha mente, é muito fácil sair da cama. Tanto é que nunca faltei um acampamento dos escoteiros por que queria dormir mais cinco minutinhos. Não vou dizer que nunca faltei aula por excesso de sono. No Ensino Médio, a coisa mudou de figura, e algumas vezes pedi para meus pais me deixarem matar o primeiro periodo e dormir mais seis vezes cinco minutinhos. E, na faculdade, já perdi duas aulas matinais por que, quando acordei, vi que estava atrasado, dei de ombros e voltei a dormir. Fiz isso no primeiro e no terceiro semestres.
Mas ir para a aula não significa prestar atenção nela. E qual melhor forma de ignorar um professor completamente que baixar a cabeça na mesa e dormir sem o menor pudor? Desenvolvi esta habilidade no Ensino Médio, graças à minha baixa tolerância ao periodo anterior às 9 da manhã, a chatice das aulas e meu fraco sentimento de pertença à minha turma, e por causa dela fui apelidado criativamente de Soneca e o prêmio Leda para Criaturas Inúteis na categoria "Melhor Seguidor do deus Morpheu". Mas foi no cursinho e na faculdade que elevei esta habilidade ao nível da arte. Tal como os iogues, que conseguem controlar seus batimentos cardíacos e pressão sangüínea, para entrar em sono profundo, basta apenas eu baixar minha cabeça, e esperar alguns minutos, "prestando atenção" ao hipnótico blá-blá-blá do professor. Mas este meu poder foi se apoderando de mim, ao ponto de ter dormido em todas as aulas que já tive até o momento. Uma professora minha (que dava aula de manhã) me fazia ficar sentado em cima da minha carteira, pois, desse jeito, ela sabia que eu não dormiria - e se dormisse, cairia no chão e acordaria.
Para piorar minha situação, eu durmo tarde. 23 horas é cedo segundo meus padrões. A faculdade certamente não colabora para mudar isto, pois cansei de ficar acordado até às 6 ou 7 da manhã fazendo relatórios. A pior cagada que já fiz num dia destes foi ter ido para a academia. Cheguei pensando em treinar dois ou três horários seguidos, e saí impressionado que tinha conseguido treinar um horário inteiro. Foi uma dissociação interessante, pois enquanto minha mente funcionava impecavelmente, meus músculos entraram em greve. Falei da minha situação para o professor, que ao término da aula disse explicitamente "vê se dorme". Quando um professor de Kung Fu diz isso, é sinal que, sim, você deve dormir.
As férias viraram meu relógio biológico do avesso, especialmente o ENEP, onde ir dormir às 4 da manhã era rotina. Agora, estou lutando para mudar este comportamento. Como já disse, não encontro problema algum em levantar, desde que tenha um bom motivo. Antes de viagens, sempre tenho medo de dormir demais e perder o ônibus. Foi assim nos dois ENEPs e no EREP que fui, e para o congresso em Buenos Aires. Mas em todos eu acordei muito antes do necessário, e sozinho. A questão é que, apesar de saber racionalmente os benefícios de acordar cedo, não vejo muito propósito. "Acordei às 7 da manhã. Viva para mim! Agora, eu vou... fazer o quê mesmo? Ah, então vou voltar pra cama que é mais lucro." Já fiz isso muitas vezes. Mas eu quero acordar mais cedo, então eu vou mudar este meu hábito ruim. Só não tenho muita idéia de como fazer isso.
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Olim-piada
Copa do Mundo e Olimpíadas. O que estes dois eventos têm em comum, com a exceção de serem eventos esportivos mundiais muito importantes? Antes de começarem e durante seus jogos, não pára de passar propagandas na TV com atletas popstars. Eu me lembro que na Copa de 2006, o queridinho era o Ronaldinho Gaúcho, que só não fez propaganda de absorvente interno por que achou que o cachê pra colocar o OB era muito pequeno, se bem que o Ronaldo Fenômeno também não ficava muito para trás. Agora, o bola da vez é o Giba da seleção de vôlei - em menos de 5 minutos olhando os comerciais do "Globo Esporte" ele apareceu duas vezes, fazendo propaganda de duas porcarias diferentes. Não que haja uma relação causal, mas em 2006 os dois Ronaldos fizeram fiasco e saíram com fama de capitalistas-vagabundos-vendidos-sem-amor-pela-camiseta. Depois que a Copa do Mundo acabou, com o Brasil eliminado nas quartas-de-final e a Itália tetracampeã, não vi mais a fuça feia do Ronaldinho Gaúcho na TV emprestando seu prestígio para alguma marca grandona de... alguma coisa. Bem, até por que ninguém queria o prestígio dele.
Mas eu não quero ficar fazendo críticas ao modelo capitalista - para isso temos os professores de Ciências Humanas das universidades federais. É problema desses atletas se eles emprestam a própria cara para ganhar uma banana vendendo celular ou o que quer que seja. Isso faz parte das regras do jogo e é problema deles se eles querem fazer isso ou não. O que me incomoda mesmo é a maneira como usam o "espírito olímpico" (ou "espírito do futebol" no caso da Copa do Mundo) como motte destas propagandas. Fazem parecer que a Olimpíada é uma grande confraternização de esportistas, que se reúnem pelo prazer de competir e pela paz mundial, e que esta é a coisa mais nobre do mundo. Nada mais distante da realidade. Olimpíada é um evento que reúne um número extremamente elevado de atletas de alto nível, tanto em desempenho físico quanto em egolatria, onde um toma mais anabolizante pra cavalo que o outro pra ver quem ganha a medalha de ouro e o direito de cantar vantagem de ser campeão olímpico, e quem é eliminado cedo na competição passa o resto do tempo bebendo e fodendo. Hmmm, pensando bem, essa segunda parte não é tão ruim assim... Em todo caso, não é nobre ou elevado como passam a imagem por aí.
Sem falar em toda a política por trás das olimpíadas. Todo ano de olimpíada tem algum tipo de protesto contra alguma coisa. Esse ano foi "Free Tibet!", o que levou muita gente a querer boicotar o evento. Quando o evento foi sediado na União Soviética, a delegação dos EUA não foi. Ou algo assim. A escolha da sede também é uma escrotice.
Mas o mais importante de tudo, é que a grande maioria dos eventos são chatos de assistir. Tipo, qual a graça de assistir uma corrida de revezamento, ou qualquer outra prova de atletismo? Não que eu gostasse de ter torcida quando eu mesmo corria os meus 3200 metros nos EUA, mas o fato das pessoas irem assistir um bando de malucos correr em círculos sempre me intrigou. É pra ver quem chega primeiro? Ou por último (nesse caso eu era um cara popular, já que com alguma freqüência eu chegava em último nas corridas)? O mesmo vale pra Fórmula 1 e esses outros "esportes" pra gordo ficar assistindo no domingo de manhã, com a diferença que, nesse caso, o maior esforço empreendido pelos "atletas" é pisar no freio (mas eles devem ter reflexos absurdos para dirigir à 300km/h). Ainda assim, é só ficar assistindo. Quase como filme pornô, ou televisão de cachorro. É sem graça. Vá ler um livro ou caminhar no parque. Eu vou fazer isso enquanto as olimpíadas não acabam. E depois que elas acabarem também.
* Andarilho tem 19 anos, é estudante de Psicologia, gosta de cookies e de xingar psicanalistas, e estava levemente fora de órbita quando escreveu este artigo.
Mas eu não quero ficar fazendo críticas ao modelo capitalista - para isso temos os professores de Ciências Humanas das universidades federais. É problema desses atletas se eles emprestam a própria cara para ganhar uma banana vendendo celular ou o que quer que seja. Isso faz parte das regras do jogo e é problema deles se eles querem fazer isso ou não. O que me incomoda mesmo é a maneira como usam o "espírito olímpico" (ou "espírito do futebol" no caso da Copa do Mundo) como motte destas propagandas. Fazem parecer que a Olimpíada é uma grande confraternização de esportistas, que se reúnem pelo prazer de competir e pela paz mundial, e que esta é a coisa mais nobre do mundo. Nada mais distante da realidade. Olimpíada é um evento que reúne um número extremamente elevado de atletas de alto nível, tanto em desempenho físico quanto em egolatria, onde um toma mais anabolizante pra cavalo que o outro pra ver quem ganha a medalha de ouro e o direito de cantar vantagem de ser campeão olímpico, e quem é eliminado cedo na competição passa o resto do tempo bebendo e fodendo. Hmmm, pensando bem, essa segunda parte não é tão ruim assim... Em todo caso, não é nobre ou elevado como passam a imagem por aí.
Sem falar em toda a política por trás das olimpíadas. Todo ano de olimpíada tem algum tipo de protesto contra alguma coisa. Esse ano foi "Free Tibet!", o que levou muita gente a querer boicotar o evento. Quando o evento foi sediado na União Soviética, a delegação dos EUA não foi. Ou algo assim. A escolha da sede também é uma escrotice.
Mas o mais importante de tudo, é que a grande maioria dos eventos são chatos de assistir. Tipo, qual a graça de assistir uma corrida de revezamento, ou qualquer outra prova de atletismo? Não que eu gostasse de ter torcida quando eu mesmo corria os meus 3200 metros nos EUA, mas o fato das pessoas irem assistir um bando de malucos correr em círculos sempre me intrigou. É pra ver quem chega primeiro? Ou por último (nesse caso eu era um cara popular, já que com alguma freqüência eu chegava em último nas corridas)? O mesmo vale pra Fórmula 1 e esses outros "esportes" pra gordo ficar assistindo no domingo de manhã, com a diferença que, nesse caso, o maior esforço empreendido pelos "atletas" é pisar no freio (mas eles devem ter reflexos absurdos para dirigir à 300km/h). Ainda assim, é só ficar assistindo. Quase como filme pornô, ou televisão de cachorro. É sem graça. Vá ler um livro ou caminhar no parque. Eu vou fazer isso enquanto as olimpíadas não acabam. E depois que elas acabarem também.
* Andarilho tem 19 anos, é estudante de Psicologia, gosta de cookies e de xingar psicanalistas, e estava levemente fora de órbita quando escreveu este artigo.
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terça-feira, 29 de julho de 2008
Dias Dietéticos (Parte 6) - Epílogo
Já não estou mais de dieta fazem dois dias, mas as considerações continuam. Demorei quase a manhã inteira de ontem para pegar um alfajor e comer, mas depois que abri o pacote e dei a primeira dentada, foi difícil parar e não abrir mais um, e mais um, e mais um, indefinidamente. Para ser franco, só parei de comer por que acabaram-se os alfajores. Há de se diferenciar entre necessidades verdadeiras e desejos puros e simples. Chocolate é gostoso, mas não é necessário. E o drive para sempre comer o próximo é assustador.
Quanto às outras restrições, demorei um pouco mais para quebrá-las: suco, só tomei à noite, e carne vermelha nem pretendo comer.
Regras alimentares mostraram-se necessárias, para restringir meu consumo de porcaria - eu só não sei que regras formular. Ainda não, pelo menos. Acabei de abrir um pacote de língua de gato (chocolate muito gostoso), e sei que vou acabar com seu conteúdo em muito pouco tempo. Que benefícios isso vai me trazer, exceto a efêmera satisfação de ter consumido em 15 minutos mais gordura do que muita gente consegue em um ano?
Espero que, quando eu escrever o meu próximo post, eu já tenha chegado em algum lugar. O pacote de chocolate continua ali.
Quanto às outras restrições, demorei um pouco mais para quebrá-las: suco, só tomei à noite, e carne vermelha nem pretendo comer.
Regras alimentares mostraram-se necessárias, para restringir meu consumo de porcaria - eu só não sei que regras formular. Ainda não, pelo menos. Acabei de abrir um pacote de língua de gato (chocolate muito gostoso), e sei que vou acabar com seu conteúdo em muito pouco tempo. Que benefícios isso vai me trazer, exceto a efêmera satisfação de ter consumido em 15 minutos mais gordura do que muita gente consegue em um ano?
Espero que, quando eu escrever o meu próximo post, eu já tenha chegado em algum lugar. O pacote de chocolate continua ali.
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segunda-feira, 28 de julho de 2008
Responsabilidade e Liberdade
No post "A Sempre Condicional Liberdade", expus algumas de minhas idéias referentes à liberdade humana, resultado de muito ler e pensar sobre o assunto. Nos comentários, o Marcelo deixou algumas perguntas importantes, que merecem um post inteiramente novo para serem respondidas. Transcrevo-as aqui:
Como ficam as questões de responsabiliade, mérito e culpa a partir dessa tua concepção de liberdade? E fazes alguma diferenciação entre liberdade e livre-arbítrio, ou estás tratando como sinônimos?
Bem, como disse anteriormente, considero que a liberdade reside no vácuo entre nossas escolhas - em outras palavras, somos seres livres justamente por tomarmos decisões, e por sermos capazes de auto-reforçarmos nossos comportamentos mais desejáveis, ou, melhor dizendo, mais corretos, pois muitas vezes, temos que escolher entre uma opção agradável, porém eticamente duvidosa, e outra, de conseqüências fisicamente desagradáveis, mas congruente com nosso sistema de valores. Toda tomada de decisão envolve conseqüências futuras: eu posso preferir abandonar os estudos e viverna boêmia às custas dos meus pais, mas chegar nos 40 anos sem saber fazer nada além de beber e fazer festa, ou escolher afundar-me completamente nos livros, negligenciando minha vida social por completo, e ser bem-sucedido profissionalmente mas um fracasso em minha vida pessoal aos 40 anos, como também posso tentar buscar um equilíbrio entre estes dois extremos. Seja qual for minha escolha, as conseqüências serão inevitáveis, e eu terei de confrontá-las, cedo ou tarde. Não há escapatória, pois, por mais variáveis externas que possam ter interferido na minha vida, eu ainda sou o único e último responsável pelo meu sucesso ou pelo meu fracasso. Responsabilidade é inseparável da Liberdade, tanto que Viktor Frankl costumava dizer que deveria ser construída uma Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste dos Estados Unidos para completar a Estátua da Liberdade na Costa Leste.
Mas um arguto debatedor como o Marcelo não aceitaria minha resposta como satisfatória, e me perguntaria sobre a responsabilidade que um psicótico teria sobre os crimes cometeu. Seria de um terrível mau gosto culpar um esquizofrênico por ouvir vozes assassinas em sua cabeça, e não acho que seja possível responsabilizá-lo por matar alguém. Simples que este pequeno esclarecimento pode parecer, ele abre um precedente filosófico muito importante para este debate: até que ponto não somos, nós mesmos, psicóticos, e portanto livres de qualquer responsabilidade por nossos atos? Até que ponto não somos meramente controlados como bonecos por nossos instintos, arcos reflexos e tendências hereditárias, e até que ponto esta chamada vontade não está sufocada debaixo de todos os nossos desejos primários? É uma questão tão complexa quanto antiga e polêmica, tendo muitos teóricos concluído que não somos livres, enquanto outros concluíram que possuímos livre arbítrio. Pessoalmente, acredito que é infantil discutir este assunto de forma tão dicotômica, pois penso existir não apenas dois pólos distintos, mas um continuum, partindo do bebê que nada pode decidir, até o adulto que pode tomar decisões muito complexas em sua vida. A completa liberdade seria, segundo as filosofias orientais, a iluminação, ou a auto-atualização para Maslow e a individuação para Jung. Não pretendo discutir o que é a iluminação ou como alcançá-la, mas entendo por que tão facilmente se conclui que o ser humano não é livre, pois poucos alcançam tão elevado grau de desenvolvimento pessoal, ficando a grande maioria das pessoas inconscientes, envoltas em ilusão. Ainda assim, por mais inconsciente que uma pessoa seja de si mesma e de seu mundo, por mais afundada que esteja em delírios psicóticos, ela ainda terá que enfrentar as conseqüências de seus atos. Podemos debater se filosoficamente ela mereceria tal tratamento, mas o universo não alimenta tais dúvidas, e é implacável na aplicação da lei do efeito. Como Sartre disse, "estamos fadados à liberdade", por que estamos fadados À responsabilidade de todos os nossos atos.
Entre aqueles que acreditam que o ser humano não é livre, existe uma crença muito comum de que a melhor forma de governo seria a tecnocracia, onde alguns poucos cientistas tomariam as decisões governamentais baseados em pesquisas empíricas e educação rigorosa. É o que defende Skinner em seu livro "Walden II" e Platão em "A República", e a sociedade distópica que Aldous Huxley pinta em "Admirável Mundo Novo". Este modelo de governo está, na minha humilde opinião, destinado ao fracasso, pois além repousar em bases pouco sólidas (por exemplo, como seriam escolhidos os governantes e quem escolheria a educação a eles dada?), falha justamente em delegar responsabilidades reais aos seus cidadãos. É através da responsabilidade que uma maior liberdade torna-se possível, através da expansão da consciência que seus conflitos causam em nós. Poderíamos simplesmente viver como a sociedade que Huxley descreveu, e simplesmente nos drogarmos para alcançar um estado de estupidez mental tão grande que esqueçamos de nossos problemas, conforme aquele adágio que diz que "a ignorância é uma benção", mas viveríamos, creio eu, vidas sem sentido, indignas de serem vividas.
Nesta concepção de liberdade, mérito e culpa são termos perfeitamente utilizáveis, mas secundários. Poderia dizer que quanto mais consciente uma pessoa é, mais responsável pelos seus atos se torna, e talvez seja cabível culpá-la por um erro grosseiro mais do que uma pessoa ignorante, da mesma forma que é mais louvável uma pessoa não iluminada agir de maneira mais elevada. Mas no fim, o que importa verdadeiramente é a responsabilidade pessoal, e enfrentar as conseqüências, boas ou más.
Por fim, sinto que não sou capaz de responder a segunda pergunta do Marcelo a contento, por não compreender a possível diferença entre liberdade e livre arbítrio, mas acredito que os utilizei como sinônimos intercambiáveis neste post e no anterior.
Como ficam as questões de responsabiliade, mérito e culpa a partir dessa tua concepção de liberdade? E fazes alguma diferenciação entre liberdade e livre-arbítrio, ou estás tratando como sinônimos?
Bem, como disse anteriormente, considero que a liberdade reside no vácuo entre nossas escolhas - em outras palavras, somos seres livres justamente por tomarmos decisões, e por sermos capazes de auto-reforçarmos nossos comportamentos mais desejáveis, ou, melhor dizendo, mais corretos, pois muitas vezes, temos que escolher entre uma opção agradável, porém eticamente duvidosa, e outra, de conseqüências fisicamente desagradáveis, mas congruente com nosso sistema de valores. Toda tomada de decisão envolve conseqüências futuras: eu posso preferir abandonar os estudos e viverna boêmia às custas dos meus pais, mas chegar nos 40 anos sem saber fazer nada além de beber e fazer festa, ou escolher afundar-me completamente nos livros, negligenciando minha vida social por completo, e ser bem-sucedido profissionalmente mas um fracasso em minha vida pessoal aos 40 anos, como também posso tentar buscar um equilíbrio entre estes dois extremos. Seja qual for minha escolha, as conseqüências serão inevitáveis, e eu terei de confrontá-las, cedo ou tarde. Não há escapatória, pois, por mais variáveis externas que possam ter interferido na minha vida, eu ainda sou o único e último responsável pelo meu sucesso ou pelo meu fracasso. Responsabilidade é inseparável da Liberdade, tanto que Viktor Frankl costumava dizer que deveria ser construída uma Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste dos Estados Unidos para completar a Estátua da Liberdade na Costa Leste.
Mas um arguto debatedor como o Marcelo não aceitaria minha resposta como satisfatória, e me perguntaria sobre a responsabilidade que um psicótico teria sobre os crimes cometeu. Seria de um terrível mau gosto culpar um esquizofrênico por ouvir vozes assassinas em sua cabeça, e não acho que seja possível responsabilizá-lo por matar alguém. Simples que este pequeno esclarecimento pode parecer, ele abre um precedente filosófico muito importante para este debate: até que ponto não somos, nós mesmos, psicóticos, e portanto livres de qualquer responsabilidade por nossos atos? Até que ponto não somos meramente controlados como bonecos por nossos instintos, arcos reflexos e tendências hereditárias, e até que ponto esta chamada vontade não está sufocada debaixo de todos os nossos desejos primários? É uma questão tão complexa quanto antiga e polêmica, tendo muitos teóricos concluído que não somos livres, enquanto outros concluíram que possuímos livre arbítrio. Pessoalmente, acredito que é infantil discutir este assunto de forma tão dicotômica, pois penso existir não apenas dois pólos distintos, mas um continuum, partindo do bebê que nada pode decidir, até o adulto que pode tomar decisões muito complexas em sua vida. A completa liberdade seria, segundo as filosofias orientais, a iluminação, ou a auto-atualização para Maslow e a individuação para Jung. Não pretendo discutir o que é a iluminação ou como alcançá-la, mas entendo por que tão facilmente se conclui que o ser humano não é livre, pois poucos alcançam tão elevado grau de desenvolvimento pessoal, ficando a grande maioria das pessoas inconscientes, envoltas em ilusão. Ainda assim, por mais inconsciente que uma pessoa seja de si mesma e de seu mundo, por mais afundada que esteja em delírios psicóticos, ela ainda terá que enfrentar as conseqüências de seus atos. Podemos debater se filosoficamente ela mereceria tal tratamento, mas o universo não alimenta tais dúvidas, e é implacável na aplicação da lei do efeito. Como Sartre disse, "estamos fadados à liberdade", por que estamos fadados À responsabilidade de todos os nossos atos.
Entre aqueles que acreditam que o ser humano não é livre, existe uma crença muito comum de que a melhor forma de governo seria a tecnocracia, onde alguns poucos cientistas tomariam as decisões governamentais baseados em pesquisas empíricas e educação rigorosa. É o que defende Skinner em seu livro "Walden II" e Platão em "A República", e a sociedade distópica que Aldous Huxley pinta em "Admirável Mundo Novo". Este modelo de governo está, na minha humilde opinião, destinado ao fracasso, pois além repousar em bases pouco sólidas (por exemplo, como seriam escolhidos os governantes e quem escolheria a educação a eles dada?), falha justamente em delegar responsabilidades reais aos seus cidadãos. É através da responsabilidade que uma maior liberdade torna-se possível, através da expansão da consciência que seus conflitos causam em nós. Poderíamos simplesmente viver como a sociedade que Huxley descreveu, e simplesmente nos drogarmos para alcançar um estado de estupidez mental tão grande que esqueçamos de nossos problemas, conforme aquele adágio que diz que "a ignorância é uma benção", mas viveríamos, creio eu, vidas sem sentido, indignas de serem vividas.
Nesta concepção de liberdade, mérito e culpa são termos perfeitamente utilizáveis, mas secundários. Poderia dizer que quanto mais consciente uma pessoa é, mais responsável pelos seus atos se torna, e talvez seja cabível culpá-la por um erro grosseiro mais do que uma pessoa ignorante, da mesma forma que é mais louvável uma pessoa não iluminada agir de maneira mais elevada. Mas no fim, o que importa verdadeiramente é a responsabilidade pessoal, e enfrentar as conseqüências, boas ou más.
Por fim, sinto que não sou capaz de responder a segunda pergunta do Marcelo a contento, por não compreender a possível diferença entre liberdade e livre arbítrio, mas acredito que os utilizei como sinônimos intercambiáveis neste post e no anterior.
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Dias Dietéticos (Parte 5)
E está oficialmente encerrada minha semana sem doces, sucos e carne vermelha. Antes da apresentação das conclusões as quais cheguei através desta "pesquisa fenomenológica" de delineamento de estudo de caso único, quero fazer um pequeno apanhado do que aconteceu ontem e hoje.
Ontem aconteceu o terceiro encontro do "Juventude em Cena", um projeto de extensão do CEP-Rua em parceria com escolas da região metropolitana de Porto Alegre, no qual participo como monitor (é, cuspi pra cima quando disse que nunca mais iria fazer nada do CEP-Rua depois do curso de extensão). Como as atividades durariam quase o dia inteiro, almoçaríamos por ali mesmo. Para variar, o almoço, pago pelo projeto, era massa com guisado com Tang. Carne vermelha e suco: só faltou chocolate de sobremesa. Cheguei atrasado no RU, onde estavam sendo servidas as viandas, vi que era guisado mesmo e decidi jejuar. Na verdade, eu sabia de antemão o cardápio do dia, mas nem me cocei para conseguir um rango alternativo. Já pensava em jejuar de qualquer forma. Pensei em me render aos meus impulsos mais baixos, aos meus nafs, como chamam os sufistas, mas não foi um pensamento muito sério e foi logo descontinuado. Mais difícil foi explicar para o grupo que monitorava por que cargas d'água eu não comeria coisa tão gostosa como guisado. Pensei em falar sobre meu experimento alimentar, meus objetivos e minha metodologia para alcançá-los, mas achei mais simples dizer "por que eu não quero" e dar o assunto por encerrado.
Pensei em fazer jejum pelo resto do dia, mas a fome e as pizzas de frango do lanche mudaram meus planos. Frango eu não cortei da minha dieta. Pelo menos ainda.
Sábado de noite eu estava em Caxias, e passei o domingo inteiro aqui. Passei o dia dando olhadas furtivas para a geladeira e para os armários da despensa, cheios de coisas gostosamente proibidas, mas não cedi à tentação. Na verdade, se fosse um pouco mais frouxo comigo mesmo, eu poderia já ter começado a comer chocolate e a tomar suco desde ás 18 horas, quando os 7 dias de dieta se encerraram. Até o presente momento, não comi nada disso. E olha que tem sorvete no freezer.
Fazendo um balanço geral de toda a semana, posso dizer que o experimento foi proveitoso. Concluí que comer mais frutas, beber mais água mineral e comer menos doces e coisas industrializadas (chocolates e sucos em especial) é benéfico. Algum cretino pode deixar um comentário dizendo "os cientistas já provaram isso muito tempo antes de você!" ou apontar erros metodológicos no meu delineamento que impedem que qualquer generalização seja feita. Pra você que pensou em fazer isso, vá pro inferno. Essa foi uma experiência pessoal vivencial, que é existencialmente muito mais marcante que todos os artigos científicos do mundo.
Num plano mais etéreo de descobertas, também cheguei à que ainda estou muito apegado aos meus desejos. Minha experiência no corredor de porcarias do Zaffari na sexta demonstrou claramente isto, e meus constantes pensamentos achocolatados também. Tenho muito o que treinar ainda.
Amanhã não vou me privar de tomar um sorvete bem servido, mas vou pensar bem no que fazer daqui em diante. De forma bem superficial, já considerei algumas estratégias para diminuir meu consumo dos ditos alimentos: comer chocolate só dois dias por semana, tomar só um copo de suco e somente durante refeições, cozinhar mais por conta própria e deixar os congelados congelados por mais tempo... mas nenhuma delas é definitiva. Provavelmente este não é meu último post sobre minhas indiadas alimentares. Até o próximo, vou ter concluído pelo menos alguma coisa (e tomado algum sorvete, só espero que não muito).
Ontem aconteceu o terceiro encontro do "Juventude em Cena", um projeto de extensão do CEP-Rua em parceria com escolas da região metropolitana de Porto Alegre, no qual participo como monitor (é, cuspi pra cima quando disse que nunca mais iria fazer nada do CEP-Rua depois do curso de extensão). Como as atividades durariam quase o dia inteiro, almoçaríamos por ali mesmo. Para variar, o almoço, pago pelo projeto, era massa com guisado com Tang. Carne vermelha e suco: só faltou chocolate de sobremesa. Cheguei atrasado no RU, onde estavam sendo servidas as viandas, vi que era guisado mesmo e decidi jejuar. Na verdade, eu sabia de antemão o cardápio do dia, mas nem me cocei para conseguir um rango alternativo. Já pensava em jejuar de qualquer forma. Pensei em me render aos meus impulsos mais baixos, aos meus nafs, como chamam os sufistas, mas não foi um pensamento muito sério e foi logo descontinuado. Mais difícil foi explicar para o grupo que monitorava por que cargas d'água eu não comeria coisa tão gostosa como guisado. Pensei em falar sobre meu experimento alimentar, meus objetivos e minha metodologia para alcançá-los, mas achei mais simples dizer "por que eu não quero" e dar o assunto por encerrado.
Pensei em fazer jejum pelo resto do dia, mas a fome e as pizzas de frango do lanche mudaram meus planos. Frango eu não cortei da minha dieta. Pelo menos ainda.
Sábado de noite eu estava em Caxias, e passei o domingo inteiro aqui. Passei o dia dando olhadas furtivas para a geladeira e para os armários da despensa, cheios de coisas gostosamente proibidas, mas não cedi à tentação. Na verdade, se fosse um pouco mais frouxo comigo mesmo, eu poderia já ter começado a comer chocolate e a tomar suco desde ás 18 horas, quando os 7 dias de dieta se encerraram. Até o presente momento, não comi nada disso. E olha que tem sorvete no freezer.
Fazendo um balanço geral de toda a semana, posso dizer que o experimento foi proveitoso. Concluí que comer mais frutas, beber mais água mineral e comer menos doces e coisas industrializadas (chocolates e sucos em especial) é benéfico. Algum cretino pode deixar um comentário dizendo "os cientistas já provaram isso muito tempo antes de você!" ou apontar erros metodológicos no meu delineamento que impedem que qualquer generalização seja feita. Pra você que pensou em fazer isso, vá pro inferno. Essa foi uma experiência pessoal vivencial, que é existencialmente muito mais marcante que todos os artigos científicos do mundo.
Num plano mais etéreo de descobertas, também cheguei à que ainda estou muito apegado aos meus desejos. Minha experiência no corredor de porcarias do Zaffari na sexta demonstrou claramente isto, e meus constantes pensamentos achocolatados também. Tenho muito o que treinar ainda.
Amanhã não vou me privar de tomar um sorvete bem servido, mas vou pensar bem no que fazer daqui em diante. De forma bem superficial, já considerei algumas estratégias para diminuir meu consumo dos ditos alimentos: comer chocolate só dois dias por semana, tomar só um copo de suco e somente durante refeições, cozinhar mais por conta própria e deixar os congelados congelados por mais tempo... mas nenhuma delas é definitiva. Provavelmente este não é meu último post sobre minhas indiadas alimentares. Até o próximo, vou ter concluído pelo menos alguma coisa (e tomado algum sorvete, só espero que não muito).
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sábado, 26 de julho de 2008
Vida Dura (Parte 17)
No caminho para academia, passo sempre na frente de um restaurante chamado "Boteco Dona Neusa". Ao contrário do que o sufixo "boteco" possa indicar, o estabelecimento é relativamente chique. Talvez seja melhor dizer que é justamente o "boteco" o melhor indicador que o tal lugar é chique - por que tá na moda ser chinelo, ou pelo menos parecer chinelo até certo ponto.
Boteco que é boteco não tem boteco no nome: é bar, lanchonete ou, no pior dos casos, restaurante. Quem coloca "boteco" no nome do lugar é por que quer dar um ar de chinelagem. Ou fingir que dá um ar de chinelagem. Imagine uma conversa entre um casal de classe média alta, sobre onde eles vão comer:
- Amor, hoje é sexta-feira. Vamos ficar em casa assistindo o DVD de Friends pela quinta vez ou vamos sair?
- Também não agüento mais essa porra. Ouvi dizer que abriu um restaurante novo na Lima e Silva, boteco Dona Neusa. Quer ir lá?
- NOOOOOOSSA! Eu sempre quis comer em um boteco de verdade! Vamos agora!
Na frente do tal "boteco", havia uma placa dizendo "venha comer a verdadeira comida de boteco!", escrita com giz numa lousa verde, para dar mais autenticidade para a coisa toda. Mas o que seria a "verdadeira comida de boteco"? PF de feijão com arroz? Batatinha frita? Calabresinha frita? Não. A verdadeira comida de boteco é definida por uma só palavra: sujeira. Aliás, toda a experiência boteco é definida por um monte de sujeira, em todos os cantos, inclusive e especialmente na SUA comida.
O botecão true é aquele mal iluminado, fedendo a cigarro, com mesas tortas de sinuca, com um bêbado de lei que bate ponto todo dia às duas da tarde pra beber até às duas da manhã. Ali, você vê baratas dançando e copulando na frente de todos, e ratos competindo por espaço com elas. Seu Jucão, ex-pedreiro e amasiado com um travesti, é o dono do recinto e o único que anota os pedidos. Ele anda sempre com um palito de dentes na boca, e se não vai com sua cara, manda Pedrinho, o moleque que quebra galho na cozinha, esfregar o pão do seu sanduíche nos próprios testículos.
O boteco de verdade não é aquele da Dona Neusa, com piso branco e limpo, garçons uniformizados esperando para anotar seu pedido. Não. Botecos são a quintessência da sordidez humana. Um lugar onde nosso querido casal nunca se atreveria a entrar.
Boteco que é boteco não tem boteco no nome: é bar, lanchonete ou, no pior dos casos, restaurante. Quem coloca "boteco" no nome do lugar é por que quer dar um ar de chinelagem. Ou fingir que dá um ar de chinelagem. Imagine uma conversa entre um casal de classe média alta, sobre onde eles vão comer:
- Amor, hoje é sexta-feira. Vamos ficar em casa assistindo o DVD de Friends pela quinta vez ou vamos sair?
- Também não agüento mais essa porra. Ouvi dizer que abriu um restaurante novo na Lima e Silva, boteco Dona Neusa. Quer ir lá?
- NOOOOOOSSA! Eu sempre quis comer em um boteco de verdade! Vamos agora!
Na frente do tal "boteco", havia uma placa dizendo "venha comer a verdadeira comida de boteco!", escrita com giz numa lousa verde, para dar mais autenticidade para a coisa toda. Mas o que seria a "verdadeira comida de boteco"? PF de feijão com arroz? Batatinha frita? Calabresinha frita? Não. A verdadeira comida de boteco é definida por uma só palavra: sujeira. Aliás, toda a experiência boteco é definida por um monte de sujeira, em todos os cantos, inclusive e especialmente na SUA comida.
O botecão true é aquele mal iluminado, fedendo a cigarro, com mesas tortas de sinuca, com um bêbado de lei que bate ponto todo dia às duas da tarde pra beber até às duas da manhã. Ali, você vê baratas dançando e copulando na frente de todos, e ratos competindo por espaço com elas. Seu Jucão, ex-pedreiro e amasiado com um travesti, é o dono do recinto e o único que anota os pedidos. Ele anda sempre com um palito de dentes na boca, e se não vai com sua cara, manda Pedrinho, o moleque que quebra galho na cozinha, esfregar o pão do seu sanduíche nos próprios testículos.
O boteco de verdade não é aquele da Dona Neusa, com piso branco e limpo, garçons uniformizados esperando para anotar seu pedido. Não. Botecos são a quintessência da sordidez humana. Um lugar onde nosso querido casal nunca se atreveria a entrar.
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sexta-feira, 25 de julho de 2008
Dias Dietéticos (Parte 4)
Dois dias se passaram desde o último post sobre minha semana de dieta (ou dieta da semana, tanto faz). Amanhã será sábado, e domingo acaba o experimento.
Uma coisa que ficou muito clara para mim é a importância de nossos desejos. Fui no mercado hoje depois do treino para comprar maçã, bergamota e pão, e enquanto caminhava até o corredor das frutas, fui olhando para os balcões e pensando em todas as coisas gostosas que eu me proibira de comer por uma semana. Uma semana, e já é demais.
Depois que já estava com tudo em mãos e pronto para pagar, decidi que iria passar na frente de todos os iogurtes, doces e bebidas que encontrasse pelo caminho até o caixa, e olharia bem para eles - pois não iria comprá-los de jeito nenhum. Foi aí que tive o estalo: quem manda no meu corpo: minha razão ou meus desejos? Lamento ter que dizer isso, mas até o momento, meus desejos provaram ser muito mais fortes que minha razão. Mesmo que mil pesquisas e mil anos de experiência com comida provassem que chocolate é veneno e frutas são a panacéia, eu ainda levaria uma barra de Alpino para casa ao invés de um cáqui. OK, estou exagerando um pouco - talvez, eventualmente eu comprasse fruta ao invés de chocolate, mas seriam poucas vezes, e no fim irrelevantes.
Buddha estava correto quando disse que a fonte de todo o sofrimento são nossos desejos. Até eu ter meu estalo, eu passava pelas prateleiras do Zaffari um tanto quanto triste, pois eu queria comer tudo aquilo (não, não tudo, mas uma boa parte pelo menos). E se eu deixo minha razão, que teoricamente é minha guia na vida, ser mera serva dos meus volúveis desejos, o que vai ser da minha vida?
É nessa hora que nossa capacidade de auto-regulação, mais conhecida por vontade, entra em cena, e usa as informações que a razão trás, pesa com os desejos, e decide o que é melhor. Bem, não é uma teoria psicológica muito bem fundamentada, apenas na minha experiência pessoal, mas faz muito sentido para mim.
Domingo pensarei melhor a respeito, mas estou considerando manter minha dieta pelo menos parcialmente daqui para frente, comendo chocolate e doces apenas uma ou duas vezes por semana. Quanto aos sucos, não sei bem o que fazer. Como já disse, vou pensar melhor no domingo.
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Sorte Orkutiana do Dia (Parte 4)
Sorte de hoje: Confiamos só em Deus; quanto aos outros, paguem à vista.
É. O que o Orkut disse.
É. O que o Orkut disse.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Livros, livros, livros...
Dizem por aí que eu leio demais. Não é mito - é realidade. Para confirmá-lo, aqui vai mais uma série de fotos, dos livros que tenho espalhados pelo meu quarto:






De baixo do prato com cascas de bergamota, livros que peguei de bibliotecas.
Minha cama, que atualmente não passa de um depósito de livros.
Pilha dos livros que estão sendo lidos agora. Faltam dois.
Alguns livros que pretendo ler no futuro próximo, e uns polígrafos da faculdade, que estou lentamente desbravando.
Pilha suprema de livros ainda por ler. Como podem ver, tão alta quanto a cômoda.
Salci fufu! Tinha mais livro escondido do lado da pilha grande! Há!
E é isso. Esse é meu quarto.
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A Sempre Condicional Liberdade
Tal como muitos filósofos e cientistas antes de mim, preocupo-me com a questão da liberdade humana. Este debate divide-se basicamente em duas posições, aparentemente irreconciliáveis e antagônicas: ou o ser humano é livre, ou não o é.
De fato, o ser humano é largamente determinado por causas sob as quais ele não exerce o menor poder – sua carga genética de Homo sapiens e membro de sua família, e o meio ambiente em que vive – físico, natural e social. O argumento de que o ser humano é livre para ser o que bem deseja é na maioria das vezes falho, pois parte do pressuposto de que há dentro de nós um ser autônomo, que nos faz agir de acordo com seus desejos, deus ex machina. Diria que isto é absurdo, se não fosse tão ingênuo. A diferenciação geralmente feita entre organismo e ambiente é meramente didática, pois não temos como viver sem um ambiente. Mesmo que me retirasse para o meio do nada, eu ainda viveria num ambiente composto por nada (e ainda teria o problema filosófico de definir o nada absoluto para resolver, o que não é nada legal). E também não tenho como fugir dos meus genes, muito menos dos milhares de anos de seleção natural e evolução que formaram a raça humana, que continua a modificar-se.
Ainda assim, acredito que somos livres, não de forma total e plena, mas circunstancialmente. Em nossas vidas, somos obrigados a tomar muitas decisões. Algumas são praticamente inconseqüentes, como que tipo de pão comprar, outras são mais graves, como que profissão seguir. É neste vácuo de escolhas que nossa liberdade reside. Claro, mesmo quando tomamos decisões somos influenciados pelo nosso passado, mas sempre podemos escolher algo completamente diferente de tudo que já vivemos ou conhecemos. Pode não parecer ser uma grande liberdade, mas é ela, e essencialmente ela que pode nos levar a sermos heróis ou vilões, santos ou pecadores, auto-realizados ou perdidos no abismo hedonista do mundo material.
Como disse, são nossas experiências com nosso ambiente que nos determinam. Assim sendo, quanto mais eu sei e conheço do mundo, mais livre sou, pois meu repertório comportamental é maior e mais variado. Uma pessoa que nunca saiu de sua cidade natal muito provavelmente é mais apegada aos seus hábitos e costumes que uma pessoa que viajou pelo mundo todo e conheceu estilos de vida diferentes do seu. Não quero dizer que pessoas viajadas são mais livres que pessoas que nunca saíram de casa, mas é mais provável que o sejam. Mas não se conhece o mundo apenas através de viagens, mas também de livros, jornais, filmes e qualquer outro meio de comunicação. Talvez seja melhor dizer que pelo menos um poderoso veículo de nossa libertação é a informação, ou o conhecimento, pois com ela, somos capazes de agir de formas mais variadas. Com o conhecimento, podemos nos libertar do nosso passado e criar um novo futuro, diferente de tudo que viera antes de nós.
De fato, o ser humano não é livre, enredado que está em seus genes e condicionamentos. Os primeiros, não podemos mudar tão facilmente. Os segundos, contudo, estão sob nosso poder, apesar de na maior parte do tempo os deixarmos comandar. Liberdade é nossa capacidade de auto-reforçarmos nossos comportamentos mais desejáveis. Assim sendo, o ser humano pode não ser livre, mas caminhar paulatinamente para uma maior liberdade.
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Não fiquei muito satisfeito com o texto em si - achei que ele ficou um pouco confuso e desconexo - mas achei que seria interessante compartilhá-lo no blog, e ver se alguém aqui tem algo a dizer a respeito.
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Missão Matrícula
É... estou, neste exato momento, às 3:15 da madrugada, acordado e fazendo minha matrícula para o semestre letivo de 2008/2. A largada foi dada à meia-noite de hoje, 24 de julho, para todos os estudantes interessados em continuar estudando de graça na UFRGS efetuarem suas matrículas. Como eu conheço o ser humano, esperei o fervo das primeiras horas passar, o Portal do Aluno se descongestionar, para que só então eu me coçasse pra fazer qualquer coisa da matrícula.
Acho que já falei isso anteriormente, mas repito agora: é impossível estudar na UFRGS sem se incomodar pelo menos uma vez com a matrícula. No Instituto de Psicologia, os departamentos costumam oferecer disciplinas eletivas aleatórias, que dependem do interesse momentâneo dos estudantes e professores e do Espírito Santo, e tendo caráter provisório, não podem ser marcados à ferro quente na grade curricular. São, então colocados dentro de uma disciplina guarda-chuva, de nome genérico, para que estas disciplinas sejam cursadas de forma legal perante o DECORDI. E a sociedade. E a Justiça. E a Verdade. E as drogas.
Cada departamento chama essas disciplinas do jeito que bem entende. No Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e Personalidade, ela se chama "Tópicos em Psicologia" - I, II e, mais recentemente, III. Semestre passado, as duas eletivas que cursei estavam registradas como Tópicos I e II. No próximo semestre, quero cursar outra eletiva - que também está registrada como Tópicos em Psicologia II. Caso você tenha lido tudo e não tenha entendido nada, eu explico a parte essencial: vou ter que ir na Comissão de Graduação (COMGRAD) e pedir por escrito para que eu seja matriculado manualmente em Tópicos em Psicologia II, abrir processo no DECORDI e esperar que eles gostem de mim, e aprovem meu pedido logo de uma vez.
Isso é tudo culpa da globalização. Sempre é. E do aquecimento global. Eu deveria parar de escrever tanta bobagem quando eu tô com sono.
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