segunda-feira, 14 de julho de 2008
Argonautas do Asfalto - Parte II
Acordei tarde e perdi os GDVs da parte da manhã. Nenhum me interessava mesmo, então não perdi nada. Almocei pela primeira vez no RU da UFMS. Achei o lugar pequeno para um restaurante universitário que em tese deveria atender milhares de mortos de fome por dia, mas depois fiquei sabendo que aquela parte do campus era meio marginal e isolada. Devem existir outros RUs espalhados pelo campus. Não sei por que estou relatando uma coisa tão sem graça.
Em um dado momento, fui até o mercado mais próximo, o Atacadão, junto com o William e um cara da UFPR, o Fernando, para comprar um chinelo e uma bermuda, já que o William trouxe apenas um coturno e calças jeans para sua estadia na calorenta capital do Mato Grosso do Sul. Lembro-me que, durante quase todo o caminho, fiquei calado. Não me entendam mal, tanto o William quanto o Fernando são pessoas legais, mas eu simplesmente não conseguia me interessar pelo o que diziam. Era como se falassem de coisas que já fizeram sentido anteriormente, mas que agora não passam de assuntos pueris e enfadonhos para mim.
Foi com certo alívio que voltei para o alojamento. Eram aproximadamente duas da tarde, e eu teria que me coçar para fazer algo apenas às quatro e meia, quando eu, Marcelo e Chico ministraríamos uma oficina de Artes Marciais e Estética. Pensei em pegar um livro e ficar lendo, mas acabei procrastinando. Neste ínterim, acabei encontrando as meninas da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), que foram conosco para o show do Nando Reis na noite anterior. Junto com elas, estava uma recém chegada. Não sabia naquele momento a importância de tal encontro.
Tivemos uma oficina fantástica. Começou devagar, apenas comigo, Chico e Carol, mas conforme os minutos se passavam, mais e mais gente veio se juntar a nós e dar sua contribuição, inclusive Marcelo, que estava até então participando de uma outra oficina: Biodança. Desde o Congresso de Direitos Humanos em Buenos Aires, eu jurei que evitaria a qualquer custo qualquer atividade que tivesse “Drama” ou qualquer termo relacionado. “Dança” estaria no topo da lista de coisas a serem evitadas. O Marcelo seguia esta filosofia muito antes de eu entrar para a faculdade, e fiquei surpreso com o fato dele ter gostado de Biodança. Era sinal de que algo estava acontecendo.
À noite, nos preparamos para o TransENEP, a festa mais tradicional do ENEP. Em todo encontro, uma noite é especialmente devotada para o autodeboche dos participantes, que se vestem como representantes do sexo oposto. Considerando que uma mulher pode usar calças compridas sem problemas, enquanto que um homem não pode usar uma saia sem atrair olhares tortos, posso dizer que é uma tarefa desigual, tanto na dificuldade quanto no entusiasmo: os meninos se divertem muito mais colocando vestido e passando batom do que as meninas vestindo bermudão e pagando de mano. Considero todo o ritual de colocar vestido, roupa colada e maquiagem parte essencial do ENEP, e não poderia ficar de fora de toda a baderna (fiquei com cara de china de barranco). Ainda assim, não me sentia disposto a ir para mais uma festa. A noite anterior cobrara um preço alto demais de minha alma, e não estava disposto a passar por tudo aquilo novamente. Fingi que queria ir, e como os demais, fiquei esperando os ônibus chegarem e nos levarem para o local da festa.
Fora estabelecido que três ônibus viriam nos buscar, em três horários diferentes. Mas o primeiro ônibus saiu cedo demais, e muitas pessoas ficaram para trás, esperando o segundo. Eu e Marcelo estávamos entre estas pessoas. Quando ele chegou, meu veterano correu e fez tudo o que pode para conseguir seu lugar. Eu não. Fiquei parado, apenas olhando. “Vou no próximo”, pensei comigo mesmo. Mas não fui. Entrei no alojamento e me deitei, enganando-me que acordaria na hora certa. Despertei muito mais tarde, quando alguns já começavam a voltar da festa e não havia mais motivos para iludir-me que de fato gostaria de ir. Fui deitar-me na minha barraca, mas logo tive que acordar novamente, para me trocar, tirar a maquiagem da cara e pegar meu colchonete (é, eu estava dormindo direto no chão. Pouco saudável, e muito menos confortável). Nessa hora, senti-me pleno. Fora honesto comigo mesmo, ainda que de forma estranha e inconsciente. Dormi pouco, mas em paz comigo mesmo.
Na outra noite, após as vivências na comunidade de Campo Grande e a segunda parte de nossa oficina, aconteceria a terceira festa, o luau. Sabia como seria, e minha decisão já estava tomada: eu ficaria no alojamento lendo. Mas quando uma certa menina de saia amarela passou pelo meu lado, pensei “tenho que ir pra festa”. Não houve dúvida ou hesitação quando fui atrás dela, apenas uma sensação de estar cumprindo meu destino. Essa sensação persiste ainda agora, junto com a certeza de ter feito o que devia ter feito.
A Ergonomia do RU
Hoje, almocei no RU do Centro. Passei primeiro no RU da Saúde, aqui do lado de casa, para descobrir que ele não abrirá até o começo do segundo semestre letivo. Isso não chega a ser um problema - é apenas um incômodo menor, pois terei que caminhar só mais cinco minutos até o Centro para comer por 1,30.
Mas, como já devo ter
No Centro, a coisa é muito mais caótica. Até a parte de pegar a sobremesa, é tudo igual. Mas o lugar onde se pega o suco fica do lado dos caixas, na entrada do RU, completamente na contramão do fluxo de esfomeados. Então , se você quer tomar o famoso suquinho de amarelo que servem ali, você precisa largar a bandeja, ir até o caixa, pegar seu copinho, e só então voltar para a mesa e comer. Finda a refeição, não dá para deixar sua bandeja suja atrapalhando quem está chegando depois de você. Há um lugar aqui, também, para despejá-la, com a diferença que as latas de lixo para os copos de suco ficam em um outro lugar, te obrigando a gastar mais energia para jogá-lo fora.
Qual o objetivo deste post? Nenhum. Eu só queria reclamar do RU, mas não encontrei motivo melhor. Mas a ergonomia do RU do Centro é realmente ruim, e espero ansiosamente o dia que o RU da Saúde abra novamente, e com ele, seus pudins, seus bifes de frango e sua arquitetura bem planejada.
Minhas Aulas na Faculdade (Parte 7)
Agora que o semestre letivo finalmente acabou, posso fazer minha avaliação pessoal das diversas aulas que tive.
Terceiro Semestre
Estatística Aplicada à Psicologia – Obrigatória
Review:
Provavelmente a cadeira mais sofrida de todo o semestre, e só passei por um milagre na última prova (e por que estudei feito um condenado à morte). Admito que meu interesse não foi dos maiores, e que poderia ter feito um trabalho muito melhor, mas a didática do primeiro professor foi fraquíssima, e tudo que aprendi foi como interpretar tabelas estatísticas em artigos científicos. É realmente útil, mas não precisava ter feito uma disciplina inteira só para isso.
Método de Avaliação:
Duas provas, duas recuperações. Não tinha motivo para ser diferente, já que o conteúdo é bem objetivo, apesar de alienígena à Psicologia (falei certa vez que, se fossemos fazer uma avaliação “psi”, teríamos que escrever uma redação falando sobre nossos sentimentos em relação à Estatística). Foi justo, apesar de pouco agradável.
Processos Grupais I – Obrigatória
Review:
Eis uma disciplina ambígua: foi ao mesmo tempo extremamente estimulante e frustrante. Explico. Todo o processo de observar por cinco semanas consecutivas um grupo externo à faculdade e de discutir a teoria e nossa própria turma nos encontros que tínhamos toda sexta-feira na faculdade foi muito instrutivo e interessante, além de possibilitar que criássemos vínculos ainda mais fortes entre nós. Contudo, o professor muitas vezes foi arrogante, jogando todo seu “saber” em cima de nós, estudantes. Os monitores da cadeira não ficavam para trás, e toda vez que o professor humilhava alguém publicamente sem nenhum motivo aparente, eles não hesitavam em justificar o porquê. Não posso generalizar e dizer isso sobre todos os monitores, mas alguns são tão fiéis que dá para chamá-los de “coroinhas de Pichon-Riviere” e dizer que aquilo não é um grupo acadêmico, mas um culto. Foi uma experiência interessante, mas estou realmente feliz que tenha acabado e que não vou precisar repeti-la ano que vem.
Método de Avaliação:
Tivemos que entregar 5 relatórios e um trabalho final que resumisse tudo e se aprofundasse em um ponto específico, além de sermos avaliados por nossa participação em aula. Quanto a minha participação em aula, não posso reclamar da avaliação, pois os critérios foram claros e não deixaram espaço para ambigüidades. Contudo, acho que fui prejudicado na avaliação dos relatórios e dos trabalhos por ser mais criativo que os macaquinhos que os corrigiram, e não ficar citando Bion ou Lapassade para cada vírgula digitada. Tirei C, mas acho que não tirei A por que não tentei agradar ninguém – fui sincero sempre. E antes que comece a falar das outras disciplinas, tenho que dizer que os monitores e o professor são péssimos psicólogos (apesar do professor ser assistente social). A análise que fizeram da minha implicação na cadeira foi simplesmente imbecil.
Processos Institucionais – Obrigatória
Review:
Retiro (quase) tudo o que disse sobre esta disciplina anteriormente. Ao contrário do que esperava, não foi meramente Psicologia Social III, mas algo maior, melhor e mais interessante, e o assunto é realmente fascinante. Infelizmente, por causa de outras cadeiras, acabei negligenciando Processos Institucionais, mas estou realmente interessado em aprender mais sobre certos aspectos da Análise Institucional, o assunto abordado.
Método de Avaliação:
Duas provas e dois trabalhos. Fiquei realmente irritado com as provas. É patético ler um monte de textos falando sobre o caráter opressivo das escolas e faculdades, que forçam os estudantes a estudarem demais para provas e a se “sobreimplicarem” no sistema e ter que fazer uma prova a respeito disso! A coerência foi para o ralo em detrimento da conveniência.
Psicopatologia I – Obrigatória
Review:
Sabe, não tenho do que reclamar de Psicopatologia I – tínhamos dois créditos semanais reservados exclusivamente para leitura, e os outros dois créditos também! A professora nos deu total liberdade para fazermos o que queríamos com nosso tempo, e eu realmente gostei disso. No geral, foi uma disciplina sem conteúdo. Parecia que a professora ia escolhendo o que ia falar em aula de acordo com clima da semana. Desnecessário dizer que não prestei atenção em nada. Uma disciplina legal por ser um recreio de leitura.
Método de Avaliação:
Dois trabalhos, um curtinho no início e um maior para o final, e ambos foram mandados pela internet, postados num fórum e numa Wiki. Gostei desta metodologia por que, de novo, nos dá maior liberdade de movimentação e escolha. Só tenho uma reclamação por fazer, que é o pouco caso feito com os prazos de entrega. Admito que me beneficiei disto quando entreguei o trabalho final com dois dias de atraso, mas avisei a professora e justifiquei meus motivos.
Seminário de Pesquisa em Psicologia – Obrigatória
Review:
Sem rodeios: a porra mais inútil do semestre. O sistema de ter palestras com pessoas diferentes sobre assuntos que normalmente não veríamos em aula é muito interessante e enriquecedor, mas os relatórios foram um balde de água fria no nosso interesse, e logo que começava a aula, estávamos fazendo perguntas imbecis para que nossos relatórios ficassem bonitinhos.
Método de Avaliação:
Tivemos que entregar nove relatórios, das doze palestras que assistimos, além de fazer uma breve apresentação da linha de pesquisa em que estamos inseridos (ou que nos interesse). Isto foi um verdadeiro estupro. Não melhorou em nada a situação um dos professores dizer com todas as letras no meio do semestre que não lera nenhum dos relatórios entregues, e pedir para que escrevêssemos apenas uma página por relatório. Mas posso garantir que alguém leu os relatórios e os corrigiu de forma decente.
Teorias da Personalidade – Obrigatória
Review:
Assunto interessante, aulas mal dadas. Simples assim. O mais notável foram as complicações que tivemos com as avaliações.
Método de Avaliação:
Dois trabalhos e quatro provas. No meu caso, apenas três provas, considerando que tirei mais de 9 na terceira, mas ainda assim provas demais. As provas eram fáceis, mas cansa ter que direcionar os estudos tantas vezes para a mesma disciplina. Isso aqui não é engenharia pra gente ficar se ferrando com prova em cima de prova. Além disso, uma das provas foi dada com um descaso que não imaginava ser possível. Os trabalhos foram só apresentações power point, primeiro sobre os teóricos da psicanálise e depois sobre transtornos de personalidade. Aprendi mais lendo os livros do que olhando as apresentações.
Psicologia Humanista – Eletiva
Review:
Melhor disciplina do semestre, empatada com Terapia Cognitivo-Comportamental. Como a turma era pequena, foi possível fazer discussões legais sem monopolizar e excluir os demais. Tá certo que eu era o que mais corria o risco de fazer isso, mas eu me policiei para não falar demais em aula. Apesar da professora ter achado uma experiência frustrante convidar palestrantes por causa dos atrasos e cancelamentos em cima da hora, tivemos excelentes aulas com professores convidados.
Método de Avaliação:
Participação em aula, um trabalho final e uma auto-avaliação. O trabalho foi entrevistar um psicólogo humanista e perguntar sobre seu trabalho, sua vida e essas coisas. Pode parecer bobo, mas é realmente instrutivo fazer isso. Pensei até mesmo em entrevistar profissionais de outras linhas teóricas, mas considerando o trabalho que dá transcrever as gravações, vou deixar isso para quando eu tiver um bolsista sendo pago pra fazer esse tipo de trabalho pra mim. A auto-avaliação é uma coisa extremamente “psi”, e quando falo “psi”, é com certo sarcasmo e desprezo, mas foi extremamente congruente com a proposta da disciplina.
Terapia Cognitivo-Comportamental
Review:
Como disse acima, melhor disciplina do semestre. O assunto é muito do meu interesse, e as aulas foram bem dadas. Creio que aprendi muito com as aulas e com as leituras. Não há muito o que dizer, exceto que foi uma excelente experiência.
Método de avaliação:
Costumo dizer que TCC não é Psicologia, justamente por que é interessante e bom. E por não ser Psicologia, não me importei em fazer duas provas. Tivemos que fazer dois trabalhos também, mas de caráter secundário e vinculados diretamente à prova. Foi justo.
Avaliação global
De maneira geral, o terceiro semestre foi o pior de todos os semestres até agora. Obviamente não cursei tantos semestres assim para poder ser verdadeiramente categórico, mas posso dizer que o segundo semestre, quando cursei 9 cadeiras, foi mais fácil que o terceiro semestre, em que cursei apenas 8. Desde o tempo da escola existe uma diferenciação entre um certo período do outro, um certo consenso sobre qual época é mais difícil. Não sei como serão os próximos semestres, mas no momento, o título de “semestre mais ferrado da faculdade de psicologia” vai para o terceiro.
E no sexto post da série “Minhas Aulas na Faculdade”, disse que faria um post sobre três disciplinas que não estava cursando, mas que me interessavam. Não escrevi este post por ter muitas outras coisas mais importantes para fazer, e por não ter tantas informações disponíveis para falar com propriedade delas. Para ser franco, ainda não tenho, pois sei apenas o que me falaram e o que pude inferir. Ainda assim, aqui vai:
Introdução à Esquizoanálise
View:
Tinha muito interesse em fazer esta disciplina, mas por causa dos horários e principalmente por causa de uma professora, desisti. E pelo o que ouvi dizer, foi uma decisão acertada, já que as aulas foram ruins.
Bioquímica Aplicada à Psicologia
View:
Cheguei a me matricular para esta disciplina, e meu nome apareceu na lista de presenças nas duas primeiras aulas, mas por causa de um conflito de horários, fiz um reajuste de matrícula e troquei por Psicologia Humanista. Foi uma decisão acertada, considerando quanto eu gostei de Humanismo, mas não foi sem uma ponta de remorso que fiz isto. Bioquímica é uma disciplina neurocientífica, área que muito me atrai. No final do semestre, vi o pessoal indo na biblioteca pegar livros de Neurociências para o trabalho final da cadeira. Além disso, quem fez elogiou horrores. Infelizmente, vou ter que esperar o primeiro semestre do ano que vem para poder cursá-la. Mas certamente irei.
Sistemas de Classificação dos Transtornos Mentais
View:
Segundo o Marcelo, é uma “aula sobre o DSM e a CID”, e dá para aprender tudo o que se precisa saber sobre estes dois sistemas meramente lendo-os. Já li o DSM-IV-TR, e me vejo obrigado a concordar com o meu veterano. Ainda assim, pelo o que pude inferir desta cadeira, ela também apresenta uma alternativa à Psicopatologia psicanalítica ensinada no Instituto. Da mesma forma que Bioquímica, vou ter esperar um ano antes de cursá-la.
No próximo post, minhas expectativas sobre o quarto semestre.
domingo, 13 de julho de 2008
Argonautas do Asfalto - Parte I
Minha viagem começou muito antes do dia cinco, quando estávamos procurando uma compania de turismo que fretasse um ônibus para irmos de forma mais coletiva e econômica. Se tivesse que resumir todo este trabalho em uma só palavra, esta palavra seria “frustração” – por não acharmos um preço bom, por meus colegas nunca se decidirem e por desistirem de ir na última hora. Por causa de tudo isto (e muitas outras coisas), cogitei a possibilidade de não viajar, ficar em Porto Alegre fazendo o que sempre faço. Mas, o bom Destino tinha outros planos para mim, pois convencido pelo meu pai e pelo Marcelo, decidi que iria para Campo Grande, custasse o que custar. A idéia de ir para o ENEP num ônibus de linha me soava desconfortável, mas ao mesmo tempo extremamente poética, pois apenas os mais determinados dentre nós decidiram enfrentar tamanha jornada, sem esperar por facilidades e mimos. Fomos para Campo Grande não como turistas, mas argonautas modernos, que audaciosamente desbravaram o asfalto entre o Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Talvez esteja exagerando um pouco, mas entre nós que viajamos, não há dúvidas de que somos teimosos.
Saímos de Porto Alegre dia 5 de julho de manhã. Levantei, peguei minhas coisas e fui de táxi para a rodoviária. Lá, encontrei Carol, Marcelo e Chico da UFRGS, e Dani, Lucas e Natanael da UFCSPA. “Sete viajantes? Número curioso” pensei “mas aposto que encontraremos um oitavo companheiro durante o caminho”. E lá pelo Paraná, encontramos William, da UNOESC, que viajava sozinho para o ENEP. Estava completo, enfim, nosso pequeno grupo.
A viagem em si foi sem grandes acontecimentos, apenas longa demais. Durante quase todo o trajeto, conversamos bastante, especialmente sobre o que faríamos quando chegássemos em Campo Grande, principalmente por que ninguém de nós fora inteligente o suficiente para anotar o endereço onde o evento ocorreria, e por que já tínhamos que pensar como faríamos para voltar. Entre uma parada e outra, li “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, um livro estranhamente apropriado para a ocasião. Finda a viagem, nos informamos bem onde ficava o estádio Morenão (no campus da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS), e fomos de táxi até lá.
Não há muito que dizer sobre o primeiro dia de ENEP: nos credenciamos, pegamos nossas pulseirinhas de participantes que diziam “Se joga na água CAPIVARA!”, reencontramos velhos amigos, montamos nossas barracas dentro de um ginásio, o Moreninho, e ficamos conversando. Arrumar nossas coisas para dormir fora de casa, seja em um encontro desse tipo, seja num acampamento, é sempre algo fascinante: as pessoas vão se ajeitando, encaixando as barracas e colchões de forma natural, simples, sem conflitos, e dentro de pouco tempo uma colorida cidade nômade se ergue onde antes existia apenas o chão de madeira.
Em encontros de estudante, no primeiro dia geralmente as refeições são por conta dos participantes, e por isso fomos procurar um restaurante ou barzinho legal que servisse alguma coisa comível. Campo Grande, como uma verdadeira cidade do interior (dizer isso para um campo-grandense é pedir para apanhar. Fiz isso várias vezes ao longo do encontro, just for fun), tem o comércio praticamente parado no domingo, e demoramos quase uma hora para encontrar um lugar para comer. Não é algo agradável de se fazer depois de um dia viajando de ônibus.
Geralmente, no primeiro dia de ENEP se faz uma espécie de plenária para decidir o regimento interno do encontro. Em termos práticos, isso quer dizer que se define quanto uma pessoa precisa participar de mesas redondas, oficinas e coisas do gênero para ganhar certificado – algo mui importante, considerando que nos cobram horas complementares em congressos e eventos externos para nos formarmos. Quando participei do XX ENEP, eu era bixo, guri verde, e não sabia que buraco negro de libido são essas plenárias, e participei tanto da primeira quanto da última. Para meu mais profundo sofrimento e desgosto. Está bem, é exagero da minha parte fazer tamanho drama por causa de um negócio tão chato quanto plenárias, mas fui para Campo Grande com a certeza de que só participaria disto se fosse extremamente necessário (e meu conceito de “necessário” é claro e limitado o bastante para que eu participe apenas se um cometa se aproxima da Terra e nossa decisão poderá salvar a humanidade). Mas, como sou uma pessoa tolerante, apareci no local onde se decidiria o regimento interno do encontro. Antes que se decidisse qualquer coisa, aconteceu uma apresentação de Maracatu bastante empolgante. O ritmo e a batida do tambor despertam em mim meu lado mais selvagem, e fiquei imaginando que quando nos levantamos e fomos dançar estávamos preparando nossos espíritos para uma batalha de tribos. E, bem, provavelmente eu não era o melhor guerreiro da tribo, se isto for medido pela ferocidade e ânimo que dançava, pois estava muito travado. Foi divertido mesmo assim.
Depois do Maracatu é que a “plenária” começou. Vi que a coisa não iria prestar quando um cidadão foi reclamar que o local onde ela estava sendo realizada era acadêmica e burguesa demais, e que uma discussão sobre sair para o gramado ou não começou. Depois que eu acordei decidi voltar para o alojamento. Não havia muito o que fazer por lá. Não me lembro como e quando, mas não demorou muito e decidi que iria junto com o Marcelo e a Carol para o show do Nando Reis que aconteceria em outra parte da cidade, no Parque das Nações Indígenas e que seria de graça. Não sou muito fã de shows e grandes aglomerados demográficos, mas senti que deveria ir. No ônibus, guiados pelas berrantes pulseirinhas laranjas, encontramos mais uns “Enepianos” indo para o show. Conversamos com eles e acabamos indo juntos para o show.
O tal Parque das Nações Indígenas, apesar deste nome muito bonito, não é nada indígena: a grama é artificial, as árvores foram plantadas em linha reta e o laguinho do meio provavelmente também não é natural. É bonito, contudo. O palco ficava defronte à um pequeno vale, que estava quase transbordando de gente. Apontei com a mão e disse para meus amigos que aquilo era um abismo de perdição. Falei um pouco por deboche, mas parte de mim falava muito sério.
Gostei do show. Apesar de geralmente preferir músicas gravadas em estúdio, entendo por que tantas pessoas vão ver seus ídolos ao vivo. Há uma energia muito forte no ar que contagia e nos faz pensar e agir de forma diferente. Ainda assim, não consegui deixar de comparar com o ritual “Espadão-Orgião” que Huxley relata em seu livro. Fiquei introspectivo a maior parte do tempo, apenas ouvindo a música e deixando que ela ressoasse dentro de mim. Minhas novas amigas, achando que eu estava simplesmente apático, várias vezes me sacudiram e me fizeram balançar os braços. Depois que me expliquei, elas sentiram-se um pouco culpadas, mas me senti valorizado. Na volta para o alojamento, eu, Marcelo, Dani e William disparamos na frente para pegar o ônibus antes que ele lotasse de gente saindo do show. Conseguimos, mas pegamos o ônibus errado, pois nos deram uma informação equivocada. Faz parte: não poderia visitar Campo Grande sem me perder nela em algum momento.
Em ENEPs, toda noite acontece uma festa. Naquele dia, seria a Festa Junina. Devo abrir um parênteses aqui, e explicar a dinâmica festiva dos encontros estudantis. Todas as festas são temáticas e têm nomes diferentes, mas são todas iguais. Festa à Fantasia? O pessoal põe umas roupas ridículas para dançar funk. TransENEP? Dançar funk travestido. Essa Festa Junina não fugiria à regra. Fui, não sei por que. Logo no ônibus me incomodei. Estava sonolento, e a bêbada mais ruidosa de todo o encontro, conhecida como Chiquinha devido à sua indumentária e penteado, sentou-se justamente no assento na nossa frente. Ela encarrapitou-se no encosto e ficou berrando o tempo todo. Eu não conseguia parar de pensar em como ela era murrinha, mas meus pensamentos ganharam um tom mais homicida depois que ela esfregou a mão na minha cara para me acordar. Se não fosse o Marcelo do meu lado dizendo “olha o social, cara” eu teria tentado jogar ela pela janela, ou pelo menos dado uns tapas nela. Chegando na chácara onde aconteceria a festa, essa mesma cachaceira me agarra e me puxa para dançar. Tudo devidamente documentado em imagens pelo meu mui amigo Marcelo. Desvencilhei-me dela assim que foi possível. Descobri que danço melhor do que lembrava, tanto que nem parecia que eu não fazia menor idéia do que estava fazendo.
Foi agradável por um tempo, mas chegou um ponto que tornou-se impossível para mim até mesmo ficar ali onde todas as pessoas estavam. Numa mímica perversa do show do Nando Reis, a música fustigava e feria meus ouvidos, e cada segundo debaixo daquele teto era uma tortura. Várias vezes corri para longe, para logo em seguida voltar e correr novamente, até que chegou o momento em que nenhum lugar ela longe o suficiente daquele barulho infernal. Quando o DJ baixou o volume levemente e um homem gritou “pô DJ!” percebi que aquilo não era para mim. Mais do que isso: toda minha existência é incompatível com este estilo de vida, este tipo de festa. Fiquei mais do que feliz em voltar para o alojamento.
I'm Back in Black
sábado, 5 de julho de 2008
Escola do Destino
Todo meu Ensino Fundamental estudei em um colégio - o Raio de Luz, por nós chamado de "RdL", "Nominho Vergonhoso" ou pelo amável apelido de "Rego de Pus". Pelo menos no meu tempo, era uma escola pequena, onde todos conheciam todos. Era impossível que fosse de outra maneira, já que só havia uma turma por série e o pátio era pequeno demais para não esbarrar com a escola inteira. Minha turma foi praticamente sempre a mesma; claro, muita gente saiu, foi para outros colégios, mas as pessoas com quem mais me relacionava se mantiveram estáveis até o fim, na oitava série. Nos conhecíamos muito bem, sabíamos como cada um reagiria e, principalmente, nos víamos todos os dias. Quando nos formamos do Ensino Fundamental, tivemos que trocar de escola, e consequentemente nos separar. Meus amigos foram para uma escola técnica vinculada à Universidade de Caxias do Sul, o CETEC, e eu fui para o Colégio São José, por ser mais perto de casa e ser famoso pela qualidade de seu ensino.
Foi uma mudança tremenda. No Raio de Luz, estava sempre acompanhado pelos meus amigos, em solo firme. O momento de maior tensão de minha semana escolar eram as aulas de Educação Física - nem sempre fui o atleta que sou, especialmente quando era mais novo, e sentia vergonha das minhas parcas habilidades esportivas. Além disso, tínhamos aulas com outra turma. Exceto na oitava e última série, essa turma era sempre mais velha, e eu tinha um medo tremendo de que eles avacalhassem comigo e me envergonhassem perante os outros. Mas tínhamos menos de três horas semanais de Educação Física, e no resto do tempo eu podia muito bem me esconder na sala ou atrás dos meus amigos e estava tudo bem.
No São José esta segurança desapareceu. Não tinha ninguém comigo em quem me apoiar, e a vergonha que sentia apenas duas vezes por semana no RdL tornou-se diária. Como passei 8 anos com as mesmas pessoas, convivendo com as manias delas e elas convivendo com as minhas, não tinha muita noção do que poderia ser considerado estranho, ridículo ou absurdo pelos meus novos colegas. Por exemplo, eu realmente não me importava com o estado dos meus cabelos: se estavam penteados, limpos ou apresentáveis. No Ensino Fundamental isso era irrelevante, mas no Ensino Médio, a porta para o mundo adulto, isso contava muito. Até a oitava série eu fui criança, mas depois disto, tive que conviver com pessoas que não o eram desde muito tempo antes do Primeiro Ano do Ensino Médio.
As diferenças não ficavam apenas nos colegas, mas abarcava a própria escola. Enquanto que no Raio de Luz até mesmo a diretora conhecia todos os alunos pelo primeiro nome, no São José a diretora só era chamada nas mais urgentes situações, e mesmo a coordenadora do Serviço de Orientação Escolar (SOE, por mim chamado carinhosamente de GESTAPO das Freiras) só sabia os nomes dos que ela mais via - isto é, os "vidas-tortas" que incomodavam em aula e eram mandados para a temida salinha da Leda Cotonete. A diferença é nítida também se compararmos os prédios. O Raio de Luz, por ser pequeno, não precisava de muito espaço, tendo só três andares de arquitetura muito simples. O São José, por outro lado, era enorme, tendo quase 1500 alunos, 100 anos de história, três andares completos diferentes entre si, um quarto andar dividido entre várias "torres" e câmaras subterrâneas (nunca as invadi, mas já vi o varal que as freiras mantinham em uma destas câmaras). Vagava solitário pelos corredores desta imensidão que ameaçava devorar minha sanidade, e foi ali que forjei de forma definitiva minha alma de Andarilho. A solidão e o deboche alheio foram dolorosos, mas temperaram meu caráter.
Olhando aquelas fotos dos meus colegas, fiquei pensando como teria sido se tivesse ido para o CETEC também. Certamente, teria sido bem mais fácil, socialmente falando, pois já conhecia alguém que confiasse ali. Teria matado mais aulas para ficar conversando, ido em mais festinhas, enchido mais a cara, ficado com mais meninas, seria parte da turma; enfim, todas estas coisas que tanto desejava na época. Mas adolescente é uma criatura idiota, e que só faz o que acha que quer. Pode desejar ser um grande atleta, poeta ou cientista, mas dificilmente faz algo para que isto se torne realidade. O mesmo é válido para mim com 15 anos. Eu teria me perdido no mundo dos prazeres e da frivolidade se tivesse ido para o CETEC ao invés do São José. De nós quatro que saímos do RdL, só eu não repeti de ano, e só eu estudo em uma Universidade Federal - não que isto signifique grandes capacidades intelectuais ou volitivas, mas é sinal de que estudei mais do que os outros.
Se pudesse voltar para o passado e influenciar meus pais quando escolheram me colocar no São José, não mudaria a decisão deles. E minha, pois eu também quis ir para lá, ao invés do CETEC, e foi me dado voto de Minerva nesta questão. Não poderia dizer com certeza por que escolhi o que escolhi. Posso, contudo, imaginar que inconscientemente eu sabia o que fazer, e que queria um desafio à minha altura. Eu venci esse desafio. Se realmente voltasse no tempo, viveria muitas coisas diferentemente, mas nunca mudaria o fato de ter feito meu Ensino Médio no São José, pois foi lá que a pessoa que está aqui agora nasceu.
Argonautas do Asfalto - Prólogo
O XX ENEP não foi minha única experiência em encontros em congressos: além dele, já fui em pelo menos outros quatro eventos fora desta zona de conforto que chamo de lar, seja em Porto Alegre ou em Caxias do Sul. Sei o que esperar deste encontro, mas há algo diferente no ar que antecede esta jornada. Nas outras vezes, viajei acompanhado de muitas pessoas - sempre um ônibus cheio de gente barulhenta querendo fazer festa. Amanhã, irei em um ônibus de linha por que nossa valorosa tentativa de fretar um veículo próprio sossobrou por falta de interesse da grande maioria de meus colegas. Apenas eu e mais seis companheiros, tanto da UFRGS quanto da UFCSPA, vão amanhã, contra todas as probabilidades e dificuldades, movidos apenas pelo desejo de participar do ENEP. Apenas nós, argonautas do asfalto, aceitamos o desafio de desbravar estas estradas e rodovias até a capital do Mato Grosso do Sul. Por quê? Não sei.
Meu Orkut diz que "o melhor profeta do futuro é o passado", mas pressinto que, mais uma vez, a página de relacionamentos está errada. Acostumei-me ao conforto de viajar em companhia ruidosa porém presente. Amanhã, enfrentarei um silêncio talvez desconhecido, na viagem mais longa que já empreendi (não a mais distante, entretanto). Posso estar enganado, mas acho que a viagem para Campo Grande será outra Jornada da Alma, onde conhecerei outras pessoas, mas encontrarei a mim mesmo no final.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Rotting mind
O Ataque do Grammar Nazi
Já disse anteriormente que sou um Grammar Nazi. Essa afirmação continua verdadeira. Neste post mais antigo, critiquei mais a falta de cuidado com a pontuação por parte de blogueiros e internautas em geral. Desta vez, quero reclamar de outra atrocidade: a falta de clareza.
Quando escrevo um texto, faço o possível que seja compreensível. Se não quero ser compreendido, faço um flog onde coloco minhas fotos chorando e me cortando com gilette, uso dos serviços de um gerador de lero-lero ou simplesmente não escrevo nada. O silêncio escrito não é tão fácil de interpretar quanto o silêncio falado. Então, se seu propósito é escrever o maior amontoado de gobbledygooks, corte seus dedos antes.
É possível ser incompreensível (o que é bem diferente de incompreendido) de muitas formas diferentes na internet. Uma muito comum é eScReVeR aSsIm, seja lá com qual propósito. Economia de energia não conta, já que dá um trabalho do cão ficar apertando e soltando a tecla shift ou Caps Lock o tempo todo. Estética também não, já que esses textos são mais feios que pechada de Opala. Outra formatação bisonha cujo único intuito aparente é machucar os olhos é o famoso "Carnaval das Letras": escrever textinhos naquela cor verde neon berrante, contra um fundo lilás igualmente reluzente. Claro, tUdO aSsIm TaMbÉm. Isso quando não resolvem fazer um carnaval ainda maior, e EsCrEvEm CaDa PaLaVrA cOm UmA cOr DiFeReNtE. No MSN, também ocorre o fenômeno "Pinheirinho de Natal", quando a pessoa não sabe criar atalhos decentes para seus emoticons, e eles aparecem nos lugares mais improváveis e irritantes possíveis - especialmente no meio de palavras.
Deveriam considerar seriamente a possibilidade de aplicar um teste psicométrico nas pessoas antes de dar acesso à internet, para evitar que este tipo de atrocidade aconteça.