quinta-feira, 20 de maio de 2010

Novos Links

Uma atualização rápida: coloquei uns blogs novos na guia "amiguinhos" aqui do lado, o que quer dizer que são blogs de amigos meus ou, pelo menos, blogs de pessoas que visitam o "Espadachim Cego" e deixam comentários de vez em quando. Considerando que eles me linkaram no blog deles, nada mais justo que eu link eles de volta.

O Play the Coin! já estava na lista, mas o link ainda era do Kit.net. Agora está certinho com o link do Wordpress.

Silenciosas Palavras, do meu bixo Willian. Admiro a sensibilidade dos textos dele.

Psicologia no Blog, da Lizandra, de Teresina, no Piauí. Espero que tu apareça em Belém do Pará esse ano para o ENEP, viu?

Juventude em Cena - Não exatamente uma pessoa, mas um projeto de extensão, do qual faço parte desde 20008. Deem uma conferida, por favor, que está muito legal.

Ensaios Evitativos - Microblogging

Eu sei que eu estou alguns meses atrasado para fazer este post, o que, em tempo de cachorro internet, equivale a anos, mas acho que ainda é válido escrever aqui sobre uma dúvida que vem me atormentando nos últimos dois dias:

Pra que serve o Twitter?

Eu tenho um Twitter, apropriadamente nomeado Blind_Swordsman, mas deixei ele inativo por quase dois meses, e voltei a usá-lo só ontem. E, entre uma tuitada e outra, eu me flagrava questionando a utilidade daquilo, ao mesmo tempo que percebia como ficar fazendo miniposts em cima de miniposts é gratificante.

Acho que o Twitter te dá uma sensação de poder: tu pensa "olha só, atualizei meu twitter 12 vezes hoje" e se sente um indivíduo produtivo. Só que, convenhamos, é a mesma sensação de poder de dar a descarga naqueles vasos sanitários com detecção de movimentos. Sabe quando eu consegui escrever doze atualizações para este blog aqui? Só uma vez, e precisei ficar acordado uma madrugada inteira para conseguir essa façanha. Com o twitter, este problema está resolvido, por que, se você fizer um tweet para cada necessidade fisiológica satisfeita, você consegue pelo menos umas 8 atualizações, e com muita facilidade pode aumentar este número com comentários a respeito da textura de suas fezes. Eu certamente consigo escrever um post inteiro para o blog falando sobre as diferentes texturas de excremento que existem por aí, mas isso dá muito mais trabalho. Com o Twitter, 140 dígitos é o máximo que você precisa para dizer "Ha! Atualizei!"

Ele também é um ótimo instrumento de evitação. Identifiquei um padrão nas minhas tuitadas: primeiro, aparece um trabalho da faculdade para fazer. Começo a fazê-lo, até que eu percebo que terminá-lo vai levar muito mais tempo, muito mais trabalho e vai ser muito mais chato do que eu calculara inicialmente. Então, eu procuro uma válvula de escape, algo que me permita fingir que não tenho nada para fazer - e é aí que eu vou pro Twitter, e faço milhares de atualizações. Depois disso, eu tomo vergonho na cara e vou fazer meu trabalho, geralmente passando uma madrugada inteira acordado, e deixo o twitter abandonado por mais alguns meses antes de aparecer outro trabalho chato para fazer. Agora que eu decidi atualizar o twitter com maior freqüência, descobri outro mecanismo de enrolação: acompanhar as atualizações alheias. Não surpreendentemente, mais gente usa o twitter da mesma maneira e na mesma hora que eu (I'm looking at you, Vane)! Então, um comenta o tweet do outro, que comenta de volta, que recebe uma tréplica, até o momento que a gente cansa de escrever frases tão curtas ou precisa trabalhar sério.

Eu imaginava que, com tão poucos dígitos para se expressar, não sairia nada de interessante, mas é justamente o contrário: eu leio coisas muito legais. Atualmente, a onda é fazer piadas com a frase "Misturei Activia", e o povo tem tiradas muito boas (ex.: "Misturei Activia com Falamansa e agora tô cagando à toa"). Ver o que teus amigos estão fazendo neste momento é realmente banal, porém não deixa de dar uma sensação de estar um pouco mais próximo deles. O Saramago disse uma vez que o Twitter é a prova de que estamos voltando à época dos grunhidos. Eu, porém, acho que o Saramago é um velho rancoroso que não gosta de nada que ele não entenda e/ou use ele próprio, característica que, junto com sua fama, lhe permite fazer declarações bombásticas que qualquer um de nós faz todos os dias, mas não tem os meios de divulgá-la por aí. Aliás, o Twitter serve para isto.

Concluíndo: o Twitter é inútil, só que é divertido. Se você é um utilitarista empedernido, fique longe dele, mas fique sabendo que diversão também tem seu uso.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

As Provações da Faculdade XXXVII

Dois meses para acabar com as aulas, e pela primeira vez em sete semestres eu tenho um medo verdadeiro de não conseguir terminar os meus trabalhos. Numa nota tangencialmente relacionada, preciso parar de dormir à tarde.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ensaios Evitativos - O Telefone e o Paciente

Em Psicologia, é considerado prática antiética falar sobre os seus pacientes para pessoas não envolvidas no caso. Por exemplo, vocês nunca vão me ver falando de um paciente específico aqui no blog, a não ser de uma maneira muito vaga e genérica, para que se torne impossível dele ser identificado por qualquer um que não seja o House. Assim sendo, podemos falar de nossa vida profissional, contanto que não envolvamos aqueles que atendemos.

Eu enrolei um parágrafo inteiro só pra dizer que eu detesto ter que ligar pra paciente que faltou atendimento.

Convenhamos, é um saco. Primeiro, por que eu atendo de graça, já que meu estágio é uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Hoje eu sou bolsista e ganho 360 reais para trabalhar aqui (apesar da UFRGS só ter depositado 204 reais na minha conta esse mês), mas eu trabalhei um ano aqui inteiramente no amor à camiseta. É uma sacanagem ter consulta grátis e não aparecer. Segundo, eu não gosto de telefones. Toda a situação de telefonar para alguém é bastante desconfortável, e esse desconforto só piora quando o telefonema envolve algum tipo de cobrança. A tudo isto, adicione o fato que, no meu caso, muitas vezes o número telefônico que eu tenho para chamar meus pacientes não é dos pacientes propriamente ditos, e sim de alguém que por acaso mora ou trabalha num raio de 4km da casa do dito paciente. Então, conversas do seguinte tipo são bastante comuns:

Eu- Oi, bom dia, meu nome é Andarilho, eu sou estagiário aqui do Ambulatório da UFRGS, e eu gostaria de falar com a Josmarie*.
Outro- Quem? Não tem ninguém aqui com esse nome. O senhor se enganou!
Eu- O telefone aí por acaso é XYZW-XXYW?
Outro- Sim, é esse mesmo, mas o senhor se enganou!
Eu- Não, eu não me enganei. Não tem ninguém que more aí perto que se chame Josmarie?
Outro- Aaah! Tem a Josita, que trabalha comigo aqui na loja, mas ela mora na outra rua e hoje ela não tá em casa.
Eu- Ai que orgásmico.
Outro- O senhor falou alguma coisa, moço?
Eu- Não, nada. Quando que eu posso ligar de novo?

Em suma, bastante complicado. Para ser sincero, este tipo de diálogo saído de uma esquete do Monty Python é relativamente rara. O que é mais comum, contudo, são as conversas altamente desconfortáveis, daquelas que algum personagem de "Friends" chamaria de "Awkward", como esta:

Eu- Oi, é da casa do Robertvaldson*?
Outro- Aqui é a mãe dele, quem gostaria?
Eu- Bom, meu nome é Andarilho, e eu sou estagiário lá na UFRGS. Eu estou atendendo o Robertvaldson, mas ele faltou a última consulta. O que aconteceu?
Outro- Ah doutor, é que a gente decidiu não ir mais.
Eu- (levemente irritado e surpreso) Como é que é?
Outro- Assim doutor, ele não gostou muito de falar sobre as notas dele no colégio com o senhor, daí a gente achou que era melhor ele não ir mais.
Eu- (tentando manter a civilidade) Ele, não, gostou... de falar das notas dele no colégio, é isso mesmo que eu ouvi?
Outro- É doutor.
Eu- Ele está quase rodando na escola, correto?
Outro- Sim doutor, mas...
Eu- (psicopata) E nós mal estamos na metade de maio, certo?
Outro- Sim, só que...
Eu- (com sede de sangue) E ele não quer mais vir para os atendimentos por isso, e a SENHORA deixa, não?
Outro- Sim, mas tem que ver doutor que...
Eu- O que que o Conselho Tutelar acha disso?
Outro- Não sei.
Eu- Pois eu vou descobrir pessoalmente. Bom dia.
*tuu tuu tuu tuu*

Nunca aconteceu nada exatamente assim comigo, porém eu já fui confrontado com questão parecida. E isto me leva ao terceiro ponto que me irrita em fazer telefonemas para pacientes: eu detesto confrontamento, e em muitos casos, não tenho coragem de dar a cara à tapa por que "vai ficar chato". Não vou dar mais detalhes a respeito do caso, mas eu já tive (pai de) paciente que decidiu interromper tratamento por que não gostou de algo que eu disse, e eu só não acionei o Conselho Tutelar por que a coisa não ia ser nada bonita para ninguém. Isso, e por que ia ficar chato.

Escrevi este texto inteiro pra dizer que eu não gosto de ligar pra paciente, por que aqui do meu lado tenho uma folha com nome e telefone de alguns casos que precisam ser retomados, e eu não estou nem um pouco a fim de fazer isto. Porém, eu preciso, e talvez escrever aqui me ajude a parar de enrolar e encarar este fato da vida.




* Nome fictício mas muito verossímil.

domingo, 16 de maio de 2010

Comendo na UFRGS - Um guia para os Restaurantes Universitários

Esta semana, eu realizei um antigo sonho meu. Depois de anos tentando realizá-lo, eu finalmente consegui: eu comi em todos os RUs da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não só eu comi em todos, como eu já comi todas as refeições possíveis (exceto lanche da tarde, se ignorarmos o fato da janta ser das 17h30 às 19 horas). E o que isto mudou em minha vida? Absolutamente nada! Ainda assim, é algo muito legal, conhecer todos os restaurantes universitários e poder falar com propriedade de como é a comida em cada um deles. Assim sendo, vou aproveitar o embalo e fazer algo que quero fazer já faz algum tempo, e escrever mais um texto falando da experiência de comer no RU, só que desta vez comparando os 5 restaurantes atualmente em funcionamento na UFRGS e seus aspectos menos gastronômicos.

Vou começar pelo RU da Saúde, que, por ter sido o primeiro RU onde eu almocei e jantei, e por ficar aqui do lado de casa e do Instituto de Psicologia, é o restaurante que melhor conheço. Muitos estudantes da UFRGS dizem que este é o melhor restaurante de todos, por ser o mais bonito (sendo chamado de McRU por alguns - eu, inclusive), o mais organizado e ter a comida mais gostosa. Bonito ele realmente é, tanto que é possível comer ali e nem perceber que você está num bandejão, isto é, até você perceber que está de pé, no meio de um monte de gente, segurando uma bandeja de metal cheia de feijão com arroz procurando um lugar para sentar, por que ou todos os assentos estão ocupados, ou foram reservados por algum indivíduo sem a menor consideração pelas regras da casa. Isso, o fato das cadeiras serem desconfortáveis para quem tem perna comprida (em outras palavras, a maioria dos homens). A organização do espaço é notavelmente ergonômica, tanto que é possível pagar no caixa, pegar toda a comida (eu explico depois por que "toda") e o suco antes de ir bater em uma loira oxigenada da Odontologia para pegar o lugar que ela reservou com a bolsa da Daslu sem ter que fazer nenhum desvio. Acreditem em mim, isso é realmente importante. Quanto a comida, eu tenho as minhas ressalvas. Vejam bem, de um ponto de vista científico, é bem fácil de comparar a comida de um RU com a do outro, por que é sempre a mesma coisa para todos: feijão com arroz! Claro, algumas coisas variam conforme o dia e o local, especialmente a sobremesa e o extra (que não sei por que eu chamo de "guarnição"), porém o resto é todo igual. Então, se você almoçou no Centro, e jantou no Vale, saberá explicar com grande precisão qual foi a melhor refeição, por que só vai precisar dizer qual feijão com arroz era melhor. Por isso, digo que não gosto muito da comida do RU da Saúde por que lá é o lugar onde eu mais frequentemente como arroz cru. Não sei se as estagiárias de Nutrição fazem isso de propósito para fortalecer nossa dentição, mas eu não sou exatamente fã. Além disso, as tias do RU da Saúde são as mais mal humoradas. Não gaste seu lindo sorriso com elas, por que elas não vão te dar uma porção a mais de pudim de doce de leite por sua simpatia.

Depois, temos o RU do Centro. Na minha opinião, este RU não é lá muito relevante. Entretanto, a Reitoria deve discordar da minha muito validada opinião, por que frequentemente durante as férias este é o único RU que abre para satisfazer a fome dos estudantes. É o RU que mais tem história, considerando que fica do lado do campus mais antigo, bem na avenida João Pessoa, junto ao DCE e à Casa do Estudante, e até onde eu sei é o único RU que serve café, almoço e janta. Se eu reclamei de maneira velada a respeito da sobrelotação do RU da Saúde, aqui eu vou chorar as pitangas, por que o espaço aqui é uma piada de tão apertado. Entretanto, se por um lado isso é desagradável, por outro é um importante fator de socialização, por que você é forçado a comer lado a lado de pessoas que você nunca viu na vida (e que provavelmente são bem estranhas, considerando que estamos na UFRGS), e pode ter conversas bem interessantes. Além disso, recentemente (a quase dois anos), este RU foi reformado, e ficou um pouquinho mais espaçoso. O que a reforma não resolveu foi a marcada confusão que é comer ali - na minha opinião, só piorou. Você, muito intuitivamente, entra por uma porta lateral, se serve, daí volta até a porta (não a que você entrou, a outra!), pega o suco e daí você vai se espremer entre os caras da engenharia elétrica. Faz algum tempo desde a última vez que eu comi feijão com arroz lá (minha última refeição no Centro foi pão com manteiga e geléia de gosto aleatório), mas, se me lembro de maneira adequada, não era ruim. Ou, se era ruim, o arroz não era tão cru quanto o da Saúde.

Agora crianças, peguem seus cartões TRI, suas merendeiras, seus facões, seu estoque de maconha e se preparem para ficar um bom tempo em um ônibus por que nós vamos para o Campus do Vale! Eeeeeeeeeeeeeeeee! OK, exageros à parte, eu realmente gosto do Campus do Vale. Atualmente, é o lugar onde eu mais tenho passado meu tempo, por causa do estágio e da cadeira de Antropologia que eu peguei ali, e é o campus da UFRGS com o melhor RU de todos. Para quem estuda na mesma universidade que eu, isto vai soar estranho, por que o RU do Vale é o mais criticado de todos, tanto que é o único a ter uma comunidade no Orkut especialmente devotada a criticar os alimentos ali servidos. Isso, e o Campus do Vale é o único entre todos os campi da UFRGS a ter uma comunidade dedicada a dizer que ele fede, mas isso não vem ao caso agora. O que importa dizer agora é que o RU do Vale é polêmico. Eu vou defender ele, por que, apesar da ergonomia do lugar parecer algo tirado da Idade Média (aliás, quando você come lá, se sente como se tivesse entrado em buraco no tempo), todo o lugar ser bastante escuro e mal iluminado, a paisagem é boa e a comida é ótima. Sim, o feijão com arroz deles é o melhor de toda a universidade, e sempre que eu como lá eu sou agradavelmente surpreendido.

Falemos agora do RU da Agronomia. Tenho a impressão de que, para os demais estudantes da UFRGS, este RU é algo como o continente da Oceania: todo mundo sabe onde fica, mas ninguém vai lá por que é longe demais. E, de fato, ir até a Agronomia para quem não faz, bem, Agronomia é bastante complicado. Porém, sendo eu o idiota que eu sou, já fui até lá. À pé, desde o Campus do Vale, o que dá em torno de 30 minutos pela avenida Bento Gonçalves. Reza a lenda que há um atalho de 15 minutos pelo meio do mato entre a Agronomia e o Vale, só que eu nunca descobri onde fica isso, e tenho medo de tentar fazer sozinho (ou sóbrio). Em todo caso, a idéia de ir à pé até a Agronomia foi ruim, mas comer lá, nem tanto. Este RU, ao contrário dos que descrevi anteriormente, não tem o objetivo de servir muita gente, pois, na realidade, só quem cursa Agronomia come lá (SURPRESA!). Portanto, a sensação que se tem ao comer lá é bem diferente da de comer no Campus do Vale ou mesmo na Saúde. Há poucas mesas, e o problema de organização é irrelevante, pois se pode ir do bufê à mesa e da mesa ao balcão do suco sem esbarrar em trinta pessoas diferentes no caminho. As janelas altas e largas deixam o ambiente bem iluminado e aconchegante e a comida... bem, a comida é OK. De maneira similar ao RU da Saúde, o Agronomia é conhecido entre a massa dos estudantes como sendo muito bom, justamente por ser pequeno e servir poucas refeições. Contudo, eu acho que essa fama só existe por que ninguém nunca come lá, com as notáveis exceções dos futuros agrônomos e idiotas presentes (suspeito que estes dois grupos não sejam lá tão distintos). Não que a comida seja ruim, mas não é tão boa quanto a do Vale.

O mesmo eu posso dizer do RU da ESEF. Este foi o último dos restaurantes universitários a ser construído, e o último onde eu consegui comer. Eu o descreveria como sendo mais parecido com um restaurante de família do interior do que um RU, por que... sério, não parece em nada com os demais: ele é pequeno, com mesas bonitinhas e pouca gente. Para ser sincero, ele é o RU mais parecido que há com o da Agronomia, com a diferença que este último ainda me faz lembrar que estou na UFRGS. De novo, organização é uma coisa irrelevante para um restaurante tão pequeno, e a comida é OK. Entratanto, gostaria de reclamar do RU da ESEF por que eu tenho a séria impressão de ter comido feijão feito com carne ou salame, e por não terem avisado que a sopa da guarnição tinha frango.

Creio que era isto tudo o que eu tinha para dizer sobre os restaurantes universitários da UFRGS. Claro, eu poderia começar uma série de posts falando sobre os outros RUs, de outras universidades, onde já comi, mas considerando quão ridículo é ficar fazendo análises críticas de refeições que custam R$ 1,30, eu vou parando por aqui. Todavia, se eu ainda estiver na UFRGS quando o RU da Computação for inaugurado, esperem um comentário meu sobre como é comer lá. Por que eu não tenho mais nada de útil para fazer.

Limpando a casa

Pois é. Mais de um mês sem atualizações. Se este blog fosse uma casa de verdade, os móveis estariam cheios de pó e a comida na geladeira toda estragada (o que me lembra do meu primeiro ano de faculdade). Ainda assim, voltei para arrumar as coisas um pouco, como aquelas donas-de-casa obsessivas fazem de tempos em tempos com suas residências na praia.

Tenho uma hipótese para explicar por que tenho escrito tão pouco ultimamente. Segundo esta minha hipótese, todos nós temos uma quantidade pré-determinada de energia criativa que, se não for investida de alguma maneira para criar algo, é perdida, e quando isto acontece,  ficamos insatisfeitos, por que somos dominados por uma vaga e penetrante sensação de que algo se perdeu. Por outro lado, se utilizamos toda ou quase toda nossa energia para um fim que sentimos nos completar, os outros meios de liberação de energia são esquecidos ou deixados para o segundo plano.

Meus colegas de Psicologia perceberão que eu acabei de reeditar a teoria da sublimação do Freud, mas acho que, até certo ponto, ele estava certo. Se observarmos com atenção, perceberemos que a época em que mais escrevi aqui no blog foi durante meu segundo ano de faculdade, indiscutivelmente o mais inútil de todos até agora. Porém, no terceiro ano, quando começaram meus estágios, minha atividade literária diminuiu bastante, por que estava investindo minha libido em outras atividades, que considero muito satisfatórias. Este ano, que tenho escrito ainda menos, eu tenho tido experiências ainda mais positivas nos meus estágios, e, apesar de ainda ter muitas idéias para textos e ensaios, eu acabo esquecendo deles, sem sentir a "falta" que sentia quando isso acontecia no meu segundo ano. Dito de outra forma, eu estou criando outras coisas este ano: relações com pessoas, conceituações teóricas e principalmente uma identidade mais forte. Pessoalmente, considero impressionante que eu consiga fazer tudo isto.

Porém, penso que isto não se manterá assim para sempre. Gosto muito de escrever, e não quero abandonar meu lado literário, que hoje é representado pelo EC. Entretanto, não posso prometer muitos textos para este ano, a não ser que alguma coisa mude no meu "equilíbrio dinâmico": a satisfação diminuir ou a energia aumentar. Esperemos que a última coisa se realize.

domingo, 11 de abril de 2010

Dinâmica de Grupo no Kung Fu

Quem lê meu blog há algum tempo sabe o que eu penso da disciplina obrigatória de Processos Grupais: eu não gosto muito. Entretanto, gostaria de deixar claro neste post que, enquanto eu tenho um certo horror à dita cadeira, eu realmente gosto do assunto, e lamento muito o fato de só ter acesso à uma perspectiva teórica nesse campo. Também gostaria de dizer que, apesar de todas as minhas reclamações, eu consegui aprender alguma coisa com todas as observações de campo que fiz e relatórios que escrevi. Claro, possivelmente eu aprendi o que eu sei de Dinâmica de Grupo não por causa da cadeira, e sim apesar dela, mas vou deixar essa discussão para quando eu estiver bêbado na frente do nosso diretório chamando o professor de fascista na cara de um monitor de Dinâmica outra ocasião. Então, por que eu resolvi escrever um texto sobre Dinâmica de Grupo para meu blog? Simples, por que eu observei um curioso caso ontem à noite, e não tinha ninguém com quem compartilhar minhas hipóteses.

O caso em questão é a Equipe de Competição de Kung Fu da qual faço parte. Basicamente, este grupo é composto por alunos de Kung Fu que, além de comparecerem aos treinos durante a semana, também participam de um treino especial no sábado, mais focado em aspectos técnicos e em condicionamento físico. Para participar desta equipe, não é necessário pagar nenhuma taxa a mais (além da mensalidade da academia). Entretanto, é preciso comprometer-se de maneira inequívoca: deve-se comparecer a todos os treinos marcados e justificar as eventuais faltas, que mesmo assim devem ser relativamente raras. Além disso, é preciso uma boa dose de "amor à camiseta", pois estes treinos, além de ocorrerem durante o final de semana e serem bem puxados, duram em média duas horas, e com certa freqüência, tem durado mais do que isso. Aqui eu poderia dar vários exemplos de como os membros da equipe já demonstraram sua dedicação, mas para isso eu precisaria escrever um post inteiro. Nosso professor durante a semana é também o nosso técnico e, portanto, quem coordena os treinos. Contudo, como ele está ausente em muitos finais de semana por motivos de viagem, alternamos entre sábados em que ele coordena as atividades e em que o aluno mais velho o substitui.

Como se pode imaginar, estas duas classes de treino são bastante distintas uma da outra, por que, apesar de respeitável, o aluno mais velho não é um professor, e por isso não consegue centralizar o funcionamento geral do grupo da mesma maneira que ele (e, por motivos de respeito, nem mesmo quer que isso aconteça). Em ambos os casos, o treino é sempre exigente fisicamente e bastante técnico, sendo que a diferença entre os dois é bastante sutil. Essa diferença repousa basicamente na uniformidade do treinamento: quando é o professor quem comanda, a equipe parece mais uma equipe, enquanto que, nos dias em que ele é representado pelo seu aluno mais velho, ela parece mais um grupo de pessoas com um interesse comum, treinando no mesmo lugar, na mesma hora algumas coisas parecidas. Não posso dizer que sem o professor deixamos de ser uma equipe. Posso, entretanto, dizer que quando ele está presente, nós certamente sentimos muito mais como uma.

De maneira resumida, posso dizer que a presença do professor no treino faz muita diferença. OK, não disse nada de novo até aqui - qualquer estudo ou teoria de Dinâmica de Grupo leva em conta a influência que um líder ou presença carismática exerce sobre um grupo. Porém, o que me impressionou, e me levou a escrever um ensaio a respeito desse fenômeno é o fato de eu nunca ter visto de maneira tão clara e óbvia este fenômeno. E não foi durante o treino que eu o percebi (até por que eu estava mais ocupado em suar e grunhir), mas depois. Para quem quer fazer parte da equipe de competição, participar dos treinos é obrigatório. Depois do treino, porém, cada um pode fazer o que bem entende de sua própria vida, e, costumeiramente, muitos de nós escolhemos irmos, todos juntos, até um restaurante na Lima e Silva, o Cavanhas, para comer, beber (nada alcoólico, devo dizer), jogar conversa fora e rir alto. Até ontem, todas as vezes que fomos para lá, fomos só os alunos, e nos comportávamos de maneira muito parecida com quaisquer outros grupos de amigos: sentávamos em uma mesa comprida, fazíamos nossos pedidos, comíamos, ríamos alto e conversávamos, sempre em pequenos grupos localizados ao longo da comprida mesa. Com o professor, contudo, foi bem diferente. Não que nós não comemos, não bebemos nem conversamos ou rimos um pouco mais alto do que o normalmente aceitável. Fizemos tudo isso, porém, com a presença do professor, tudo pareceu muito mais ordenado: os pedidos, a distribuição dos pratos, a conversa foi menos caótica e no final, até empilhamos a louça suja para que o garçom a recolhesse toda de uma vez. E nunca antes isso tinha sido feito. Quando só os alunos vão para o Cavanhas, não somos muito diferentes dos demais grupos lá reunidos. Porém, quando o professor vai junto, nós continuamos a nos comportar como se estivessemos em aula, por que a presença dele evoca um respeito que vai além da academia.

Bem, esses são os meus pensamentos a respeito do assunto por hoje. Não é nada muito profundo, mas certamente é curioso e interessante a diferença que faz uma figura de autoridade em um grupo. Para finalizar este texto, gostaria apenas de dizer que lamento o fato de minhas observações serem tão superficiais, porém, quero dizer que na cadeira de Introdução à Antropologia, terei que fazer observações parecidas com esta, e provavelmente poderei exercitar minhas habilidades de observação de Dinâmica de Grupo. A propósito, preciso de uma idéia de situação social para observar. Alguém tem alguma sugestão para me dar até essa terça-feira?

terça-feira, 30 de março de 2010

It never gets easy

A maioria das profissões por aí ficam mais fáceis com o tempo. Com a prática, nos acostumamos com as dificuldades, e o que antes nos causava grande impacto começa a passar despercebido. Psicoterapia, entretanto, não é uma dessas profissões, por que o paciente deprimido desta semana te afeta tanto quanto o primeiro que você atendeu. E, francamente, não há como as coisas serem de outro modo: ou você se afeta, ou vira policial. Mais uma vez percebi essa dolorosa necessidade de sentir a dor dos outros, e penso que vou sentir muitas vezes mais. E se quero ser um bom psicólogo, é isso mesmo que tenho que fazer.

sábado, 20 de março de 2010

Um pouco de epistemologia

Ainda inspirado pela última aula de Introdução à Sociologia, venho escrever mais um post. Além de tudo que escrevi no texto anterior, o professor também fez um rápido comentário sobre o que eu poderia chamar aqui de "a natureza filosófica da ciência". Ele não utilizou estes termos, e apenas falou superficialmente a respeito disso, pois estava mais interessado em seguir com seu programa de ensino (o que é muito compreensível). Eu, por outro lado, acho esse assunto fascinante, e como não tenho que seguir programa nenhum (exceto o de atualizar isso aqui de tempos em tempos), vou expandir um pouco a discussão a respeito deste assunto.

Por "natureza filosófica da ciência", refiro-me à sua essência - o que é mais central e importante no processo científico? Em outras palavras, qual seria a melhor maneira de descrevê-lo? Segundo o meu professor, a ciência é, mais do que qualquer outra coisa, a procura e correção dos erros em nossas formulações científicas, e não a "busca pela Verdade", como pessoas mais idealistas poderiam imaginar. Essa definição de ciência é velha conhecida minha, que conheço desde meu segundo semestre de faculdade, e é tão familiar que achei graça em pensar que provavelmente eu era o único naquela sala que sabia de onde ela saiu. Essa definição foi dada por Karl Popper, considerado por muitos o maior filósofo da ciência do século XX, e pai do falsificacionismo. Segundo esta escola de pensamento, para que uma teoria seja verdadeiramente científica, ela deve ser passível de ser "falseada". Com isso, Popper queria dizer que ela poderia ser provada falsa através da experiência. Por exemplo, a afirmação "todos os cisnes são brancos" é científica, por que podemos testá-la empiricamente (na prática), buscando por todo mundo cisnes que não são brancos. Se eu encontrar um só cisne cuja plumagem seja de outra cor, como preto, cinza ou vermelho, a teoria de que todos os cisnes são brancos terá sido derrubada, e necessariamente terá que ser substituída por outra, mais adequada, como "a maioria dos cisnes são brancos"*.

Assim sendo, a ciência não estaria buscando a verdade, mas sim corrigindo os erros em suas hipóteses. O professor sentiu-se muito tranquilo em dizer na aula que "se vocês ouvirem alguém dizer que a ciência busca a Verdade, podem dizer que isso é bobagem". Obviamente, eu não concordo com isso, por que, se concordasse, não estaria escrevendo outro texto a respeito disso no meu blog**. O que me leva a discordar são os pressupostos por trás de tal afirmação. Popper, por mais importante que tenha sido para a Filosofia da Ciência, e por mais inovador que tenha sido neste campo, sempre foi um racionalista, isto é, alguém que acredita que todos os problemas da humanidade (sejam eles abstratos ou concretos, relevantes ou irrelevantes) podem ser resolvidos através do pensamento racional apenas. Talvez os racionalistas de hoje pensem diferente, mas, na época de Popper, isto significa que todas as outras manifestações humanas, como sentimentos, intuições e pensamentos irracionais deveriam ser mantidos de fora do processo de descoberta científica, por não serem estritamente lógicos. Entretanto, toda busca humana, não importa qual seja ela, é fundada em um princípio absolutamente não racional: a fé. Muitos cientistas e teóricos importantes no passado fizeram afirmações negativas a respeito da fé, dizendo desde que ela é uma incomodação até que ela é uma praga da qual a humanidade deverá se livrar um dia, e muitos outros agiram nesse sentido, entre os quais se incluem Popper. 

Só que, no fim das contas, não há como fugir da fé. Como eu mesmo disse antes, os racionalistas acreditam no pensamento racional. Como eles justificam essa crença? Por que é racional? Sinto muito, mas não é possível fundamentar toda a ciência e seus frutos em uma falácia como este argumento circular (ou petição de princípio, como os filósofos preferem chamar). Assim sendo, por mais que a desprezemos ou ignoremos, sempre voltamos à fé - uma crença absoluta, que não precisa nem pode ser justificada racionalmente, e na qual só nos resta acreditar. Os ateus modernos como Richard Dawkins entraram em uma campanha para derrubar a fé e substituí-la pela ciência racional, porém tudo que conseguiram fazer é criar uma nova fé, em volta de um novo ídolo. Por isso, mesmo que o processo científico consista na procura e na correção de erros, isto é apenas parte dela, por que, para envolver-se em tal empreitada, é necessário que tenhamos, no mínimo, o ideal de aproximarmos cada vez mais da Verdade. Talvez, poderia se argumentar, que tal Verdade, com V maiúsculo e absoluta, não exista, ou que esteja além do alcance dos seres humanos, e talvez tal argumento seja correto. Mesmo assim, não fazemos ciência por que concluímos racionalmente que é o melhor curso de ação a se tomar, e sim por que buscamos algo mais sólido e profundo no universo.














* Há muitas outras implicações e corolários da escola popperiana de pensamento, como a força das teorias, mas não acho que este seja o post para falar delas.

** Eu poderia ter discordado do professor no mesmo momento que ele falou isso, porém, como eu não queria criar uma discussão epistemológica de proporções épicas e jogar o cronograma dele pela privada, preferi ficar quietinho no meu canto e vir chorar aqui na minha própria "cuddle box".

sexta-feira, 19 de março de 2010

Histórias que entretêm - Atestado de Insanidade

"Doutor, eu tenho um sério problema. Acho que é alguma coisa de sistema nervoso, o médico lá do postinho até me mandou fazer um elétrico da cabeça, mas não mostrou nada. É assim, doutor, toda vez que eu volto pra casa, quando eu passo pela porta da garage, eu penso que ela vai cair na minha cabeça. É que é assim, doutor. Quando a minha mulher engravidou do meu primeiro filho, eu quis comprar uma casinha e me mudar, mas minha mãe não deixou. Sabe como é, ficou preocupada, me disse que era perigoso, que iam me assaltar, que iam me matar, e de tanto que ela me incomodou, eu fiquei por lá mesmo. Só que não tinha espaço na casa, doutor, então a gente construiu um segundo andar pra casa, pra gente ter um lugarzinho nosso e ainda ficar perto da mãe, que ficou toda babona por causa do neto. Era o primeiro da família, né doutor? Todo mundo fica todo dengoso. Quando o Maicou nasceu, ela até parou de fazer faxina pra poder cuidar dele, ficar fazendo sopinha pra ele, mingau, negrinho... coisa que ela nunca fez pra mim, e olha que eu adoro negrinho, tô sempre pedindo pra ela, mas ela sempre me diz 'onde já se viu homem feito como tu ficar pedindo doce pra mãe?'. Eu fico todo envergonhado, por que ela até que tem razão, só que, bah, quando eu era piá eu pedia pra ela e ela também não fazia! Então, doutor, como eu tava te dizendo, a gente construiu um segundo andar. Fui eu quem fiz quase toda a obra sozinho: comprei os material, misturei o cimento, assentei os tijolo, e, não querendo me gabar, ficou muito bom. Só que teve um probleminha, e a parede do lado da garage ficou meio torta. É a única que ficou assim, doutor, mas ficou assim. Na hora que eu botei os tijolo eu nem notei, só que depois que já tava pronto eu vi. Ah, eu pensei 'nem dá nada', e até agora não deu nada mesmo. Só que, bah doutor! Agora toda vez que eu volto do serviço, eu entro na garage com minha moto, que eu sou motoboy, eu olho de revesgueio praquela parede e fico pensando se ela não desaba em cima de mim quando bem na hora que eu tô entrando, ou em cima dos meus filhos quando eles brincam ali no pátio. Eles tão quase indo pra escola, a mãe deles já leva eles pra uma creche e eles ficam lá o dia todo, por que minha mulher tem que trabalhar também, né? Ela tá trabalhando numa firma de advocacia no centro como secretária, tá ganhando bem, tanto que é ela quem paga a creche das criança. Só a minha mãe que não gosta muito disso, por que sabe como é velha, doutor, ela quer cuidar dos netos, fica dizendo que cuidam mal dos netos dela lá, fica xingando a gente por não confiar nela e tal... Eu até preferia deixar os piá com ela, ia ser mais barato, minha mulher não ia ter que gastar duas passagem de ônibus a mais pra levar e buscar eles, só que, doutor, a gente tá meio ressabiado com a minha mãe. É que é assim, ela diz que quer cuidar dos guris, mas quando a gente deixa eles com ela, eles ficam muito estranho, doutor. O Maicou é tri falador, se ele tivesse aqui ia ficar puxando papo sobre qualquer coisa contigo, e olha que ele nunca te viu na vida! Só que, é só ele ficar um dia com a vó dele que ele fica quieto, se escondendo pelos canto, fazendo cara de desconfiado. Eu pergunto pra ele 'ô Maicou, que tu tem guri? O gato comeu tua língua?', e ele não fala nada. E outra vez, eu vi um roxo no braço da Sara Diésica, a minha do meio, perguntei pra ela de onde saiu aquele machucadão, era enorme, doutor, o senhor tinha que ver pra acreditar, e ela disse que caiu da escada. Fui perguntar pra minha mãe que que tinha acontecido, e ela me disse que ela e o Jonson se pegaram no sopapo e ela ficou com aquele roxão por causa dum suco dele, só que o Jonson é menor que ela! Como que ele ia fazer um negócio daqueles? Não tem como, doutor, não tem como. Mas o pior é esse negócio da parede. Doutor, me fala a verdade, eu tô ficando louco?"

Vida Dura (Parte 27)

Notei que, quando se passa muito tempo viajando pelo exterior, especialmente mochilando, costuma-se perder a noção do que acontece em sua terra natal. Algum leitor mais sarcástico, ao ler esta última frase, provavelmente soltará um sonoro "Bazzinga!" por causa da obviedade de minha afirmação. Claro que, quando se esta viajando em um país estrangeiro, se perde a noção do que acontece em casa, por que, para começo de conversa, não se tem mais acesso aos mesmos meios de comunicação, e se tem, eles custam muito mais caro (tentem ler sua Veja toda semana dormindo todas as noites em uma cidade diferente e viajando por 15 horas em ônibus sem banheiro). Entretanto, quando digo isso, não estou pensando nos escândalos políticos que assolam Brasília, ou nos ensaios de escola de samba onde a Nana Gouveia mostra a calcinha, mas nas coisas mais sutis.

Estou pensando na música.

Pois, vejam bem, quando se viaja, você pode pensar "eu deveria ter trazido meu MP4" ou "eu preferia estar ouvindo Queen ao invés dessa música sobre cereais", mas nunca, NUNCA se pensa "qual será a música que está bombando no carnaval esse ano?" Há um motivo para as coisas serem assim: essas músicas são irrelevantes. Tudo nelas é repetitivo, retardado e fácil de lembrar, e é justamente por isso que elas "bombam" - não há como esquecê-las. Por sorte, quando chega acaba o carnaval e o verão, elas vão para o mesmo lugar que os mosquitos no inverno e somem de nossa memória, para, na próxima temporada de praia, quando pancadões dançantes são tão ou mais necessários do que caipirinha, serem substituídos por outra música igualmente irritante.

Enquanto eu estava na Bolívia, eu esqueci da existência desse fenômeno. Para mim, naqueles dias no altiplano andino, o Brasil era apenas uma terra distante, ainda que fosse a minha terra, e tudo que lembrava dela eram as pessoas que me eram caras. Isto é, até o dia em que eu voltei para Caxias do Sul, e meu pai fez questão de pegar seu celular, dizer "olha a música que tá fazendo o maior sucesso agora" e por Rebolation para tocar. Foi ali que me caiu a ficha e eu pensei: é, tô de volta ao Brasil. Passara os últimos dois meses ouvindo coisas que dificilmente classificaria como "boa música" (vocês sinceramente pensaram que eu inventei a história de "música sobre cereais"?), mas era uma coisa muito, muito diferente do que encontrei por aqui quando voltei. O "cancionário" boliviano e peruano está longe de ser algo de alta qualidade, porém tinha um ar mais honesto, como se realmente fizesse parte da cultura local. "Rebolation", por outro lado, é bem diferente. Primeiro, ela me parece ser o equivalente musical do crack - todo mundo sabe que ele destrói o cérebro e o corpo de quem usa, só que, depois que se provou (ou ouviu) uma vez, a gente já se perdeu no vício e precisa buscar logo a próxima dose. Só hoje, eu ouvi essa música do demo umas três ou quatro vezes.

E mais do que essa qualidade viciante, Rebolation tem algo mais. Eu não sei o que é, só que toda vez que eu ouço a música ou quando eu vejo o clipe, tenho uma estranha sensação de prazer. Não consigo descrevê-la muito bem, exceto que é o tipo de prazer que alguém sentiria de assistir um trem lotado de passageiros desacarrilhar, pegar fogo e explodir em câmera lenta: é algo horrível e que provavelmente vai te deixar traumatizado, mas tu quer perder um segundo sequer da ação. Olhando todas aquelas pessoas dançando no mesmo ritmo alucinado, gritando "rebolation é bom bom bom!" traz à minha consciência imagens ancestrais, dos bacanais e de todos rituais alucinados do passado, e a figura não tão ancestral do terceiro filme de "O Senhor dos Anéis", onde o Regente de Gondor grita para seus súditos que tudo está perdido, com a diferença que, na minha cabeça, ele grita "é a decadência, é a decadência, seus macacos sem livre arbítrio!", e que não há nenhum Gandalf para nocauteá-lo com um tacape branco e botar ordem no chiqueiro outra vez. Sim, é o prazer mórbido de ver tudo reverter à selvageria, querer fugir porém não conseguir, e rir ao invés de chorar por que é mais produtivo.

Algum cético, ao ler isso aqui, provavelmente pensará "meu Deus, tudo isso por causa de uma música ruim?". E ele provavelmente está certo. Eu vou dormir. Pensando que o Rebolation é bom bom bom.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Umas idéias sociológicas

Para todas as pessoas que não sabem meu cronograma (o que significa todo mundo menos eu), decidi dedicar o meu sétimo semestre de faculdade ao estudo das Ciências Sociais. Por isso, ao invés de pegar apenas eletivas do meu curso, decidi cursar Introdução à Sociologia e Introdução à Antropologia*, ambas fora do Instituto de Psicologia. E como era de se esperar, esta oxigenação intelectual está sendo bastante benéfica, especialmente no que diz respeito à circulação de novas idéias na minha mente.

Acabo de voltar da minha segunda aula de Sociologia, na qual o professor explicou o conceito de "organismo" na obra de Émile Durkheim. Segundo este autor, que usou a Medicina Experimental como fonte de inspiração, a sociedade é um organismo - não de maneira metafórica, mas de maneira literal. Isso quer dizer que o organismo social é composto por diferentes órgãos, que desempenham diferentes tarefas, porém, visam a um mesmo fim. Numa sociedade menor e menos desenvolvida, estes órgãos seriam mais simples, e condensariam mais tarefas essenciais, enquanto que em sociedades maiores e mais complexas, estas tarefas tenderiam a ser realizadas por instituições diferentes. Para usar um exemplo bastante ilustrativo, pensemos na figura do xamã. Em uma sociedade tribal, o xamã é o responsável por curar os doentes, guiar os fiéis, dar aconselhamento para o cacique e prever as chuvas e secas em sua região. Em nossa sociedade, esses papéis se sofisticaram e foram delegados a diferentes profissões: o médico cura os doentes, o padre guia os fiéis, os cientistas políticos orientam os governantes e os metereologistas fazem a previsão do tempo (ou pelo menos tentam).

Essa diferenciação de trabalhos gera outras coisas além da especialização profissional. É relativamente fácil manter uma sociedade tribal coesa e unida, pois todos se identificam com os demais, por que, afinal de contas, todos são fisicamente parecidos, pensam parecido e fazem coisas parecidas. É uma identificação mecânica, para usar os termos do próprio Durkheim. Já numa sociedade mais avançada tecnologicamente, esses laços de identificação encontram-se enfraquecidos, justamente por causa da grande diferenciação existente. Portanto, a identificação mecânica não é mais suficiente para manter a unidade social, e precisa desenvolver uma identificação orgânica, e é nesse ponto que o conceito de "organismo social" começa realmente a fazer sentido. Como eu disse anteriormente, para Durkheim, a sociedade é um organismo composto por vários órgãos distintos, que realizam diversas tarefas diferentes, e que servem a um propósito único. Porém, para impedir que eles não se separem e se tornem sociedades à parte, é necessário que se mantenha sempre, em todos os órgãos, uma consciência da importância de seu papel para a sociedade. Para ilustrar como isso funcionaria, uso o mesmo exemplo que o professor usou: para manter a sociedade unida, seria necessário fazer com que o cara que cola os rótulos de cervejas em suas respectivas garrafas perceba quão importante é sua tarefa, pois assim ele impede que as pessoas bebam Nova Schin pensando que é Bohemia, ao mesmo tempo em que o resto da sociedade reconheça o valor disso (por que, convenhamos, Nova Schin é muito ruim!). Para Durkheim, que foi pintado pelo professor como o "anti-Marx", por causa de suas tendências conservadoras, isso seria suficiente para manter uma sociedade relativamente complexa unida e sem perturbações.

Certamente é uma idéia interessante, e com uma lógica interna razoável. Contudo, saí da aula pensando na seguinte hipótese: não seria possível fazer com que um dos órgãos inflasse em importância, e mesmo assim manter a sociedade unida? Explico. Da maneira como eu vejo, na teoria de Durkheim, a unidade de uma sociedade não depende de todas as suas instituições terem tarefas igualmente divididas, e sim em todas terem uma opinião parecida a respeito de si e das demais. Portanto, é plausível pensar que, em uma socidade X, uma determinada classe desenvolva uma opinião um tanto quanto narcisista de si própria, e convença as classes restantes de que ela está certa. Diante de seu sucesso dentro de sua própria nação, esta classe poderia tornar-se ainda mais megalomaníaca, e decidir impor seu autoconceito para as sociedades vizinhas, começando uma guerra. Como exemplo disto, estou pensando no sempre presente exemplo da Alemanha Nazista, mas também no da França Napoleonica e de outras ditaduras expansionistas. Claro, nesses casos, a classe dominante se deu ao trabalho de convencer as demais classes de que elas também eram superiores, e que seus esforços são parte de uma grande tarefa. Eric Hoffer, sociólogo** americano que escreveu sobre movimentos de massa e mudança social, diz em seu livro "The True Believer", que, para que um movimento religioso, nacionalista ou revolucionário deslanche, é necessário que seus seguidores encontrem nele uma causa para viver e morrer, e que essa causa não seja apenas um acontecimento terreno, pontual e limitado, e sim algo divino, eterno e ilimitado, que os tire de sua vida presente, miserável e triste, e os leve para uma vida futura cheia de glórias.

Alguém poderia me perguntar agora "mas Andarilho, esta classe dirigente e megalomaníaca não encontraria oposição?" Eu respondo, baseado na História e nos escritos do Eric Hoffer, que sim. Entretanto, só por encontrar oposição não significa que eles não vencerão esta oposição. Além disso, para levar a bom termo uma revolução, não é necessário convencer toda a sociedade: basta apenas converter as partes mais estratégicas dela. Segundo Hoffer, as duas mais importantes, em ordem cronológica (já me explico) são os intelectuais e as massas. Disse que a importância dessas duas classes é cronológica por que, para revoltar as massas, que são efetivamente a força bruta de qualquer movimento social, é preciso que um grupo de intelectuais dê a elas um motivo para sentirem-se indignadas com sua situação atual. Depois que isto é feito, pode-se relegar os intelectuais a um segundo plano, pois sua função de liderança é tomada por indivíduos que Hoffer denomina de "fanáticos", e depois, pelos "homens de ação". O que não se pode fazer é deixar de afagar o ego dos intelectuais nunca, pois, se descontentes, eles podem fomentar outra revolução, mais favorável a eles. Agora, se eles forem mantidos em um estado de contentamento, onde a opinião deles é ouvida, mesmo que só nas aparências, tudo está tranquilo, por que para eles, é só isso que importa: afagar o ego. Segundo Hoffer, que não tinha uma opinião muito elevada da natureza humana em geral, o que importa para a classe intelectual é estar bem de vida, e é por isso que eles incitam rebeliões - não por amor ao povo simples e sofredor, mas por que eles ressentem o fato de não serem respeitados o suficiente pelas classes governantes.

Ter lido "The True Believer" me fez escutar a aula de Sociologia hoje com outros olhos ouvidos. De um lado, temos a teoria de Durkheim, que prega uma sociedade estável, onde todos sabem o seu lugar e creem na importância de seu trabalho. Do outro, temos Marx, que defende a tese de que as classes trabalhadoras são exploradas, e por isso, devem tomar o poder da classe burguesa através da força de uma revolução. Por muito pouco não atrapalhei a aula e perguntei qual era a situação financeira destes dois sociólogos quando escreveram suas teorias. Será que Marx não era um homem inteligente, mas com raiva do fato de ser pobre e pouco valorizado por seus pares? E Durkheim - será que a vida dele não era confortável demais? Bom, não sei, mas fico pensando mesmo assim.

Para finalizar este post um tanto quanto confuso na minha opinião, gostaria de refutar pelo menos parte da teoria de Durkheim***. Para ele, uma sociedade ideal seria uma que se mantém estável e sem mudanças significativas por muito, muito tempo - idealmente para sempre. E, ao contrário do que poderia se pensar a respeito, é possível estruturar uma sociedade desta maneira, comprando a lealdade dos intelectuais através de cargos no governo e outros mimos. Foi assim, segundo Hoffer, que o Império Romano e o Império Chinês se mantiveram quase imutáveis por milênios. Só que, com a falta de mudança, vem a estagnação, e com ela, vem a longa e lenta decadência, que não só acaba matando a civilização anteriormente estável, como também destrói muito de seu legado, de uma maneira que poderia ter sido evitada se se tivesse dado a chance de alguns movimentos de massa remodelarem a sociedade. Como diria Thomas Jefferson, "a árvore da liberdade deve ser regada de quando em quando com o sangue de tiranos e patriotas". Talvez ele estivesse mais certo do que ele mesmo imaginava.










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* Na verdade, o nome correto seria "Antropologia - Fundamentos", mas eu acho esse nome muito feio, e chamo a cadeira do jeito que eu quiser no meu blog.

** Ele não é um sociólogo no sentido estrito do termo, já que nunca fez faculdade de Ciências Sociais nem nada (ele era estivador, na verdade), mas como ele escreveu vários livros este assunto, acho que é bem tranquilo atribuir este título para ele, por mérito individual.

*** Refutando a teoria de um dos Pais da Sociologia - se isso não é narcisismo desmedido, eu não sei o que é.