sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Utopias (3)

Mais uma utopia a se comentar por aqui. Li, com muito esforço, "Horizonte Perdido", de James Hilton, que descreve o mítico monastério de Shangrí-La. Digo que foi difícil por que peguei uma cópia que, de tão velha, já se esfarelava e atiçava minhas alergias. Quanto à leitura em si, foi bastante agradável.

Sendo mais específico a respeito da história, ela é contada de uma maneira pouco costumeira. Não é um relato em primeira pessoa como "Walden II", onde o narrador visita a comunidade e descreve seus costumes, mas um relato de segunda mão. O narrador de "Horizonte Perdido" reencontra um velho amigo de escola, o escritor Rutherford, que lhe conta algumas coisas estranhas a respeito de um conhecido em comum, Hugh Conway. Por uma coincidência, os dois se encontram em uma pequena cidade chinesa e viajam juntos em um transatlântico, onde Conway conta, em uma noite, todos os fantásticos acontecimentos que o levaram de Baskal, na Índia, a Karakal, o Vale da Lua Azul escondido entre as impenetráveis montanhas da cordilheira de Kuen Lun (que, para minha surpresa, existem de verdade), que Rutherford prontamente transforma em um relato escrito e o entrega para o narrador.

Não vou estragar a história e contar os detalhes - se quiserem sabê-los, façam como eu e peguem uma rinite alérgica o livro e leiam - apenas a parte "sociológica", por assim dizer.

Como já deve ter dado para entender, Karakal era uma comunidade quase inacessível, pois ficava escondida entre altas montanhas, em uma região árida e desconhecida. Porém, por algum feliz acaso, ela se encontrava em um vale que, por motivos vários, era muito fértil e agradável de se viver, aos pés de uma magnífica montanha branca que emanava uma luz azul em noites de lua cheia. E esta confluência de fatores permitiu que seus aldeões, na maioria chineses e tibetanos, desenvolvessem uma cultura própria, sem maiores intromissões do resto da humanidade. Ainda assim, estas intromissões ocorriam. No início do século XVIII, um missionário cristão de Luxemburgo chamado Perrault chega em Karakal à beira da morte, e depois de se recuperar, põe-se a trabalhar na construção do monastério cristão de Shangri-Lá. Porém, o clima de Karakal não deu a seus moradores apenas a chance de criarem uma cultura pura, como também deu outro presente: longevidade. Os tibetanos e chineses criados naquele local não se tornavam especialmente mais longêvos em Karakal por já estarem acostumados desde a infância à sua atmosfera, mas estrangeiros que ali viessem a estabelecer residência poderiam atingir idades bastante avançadas. Quando a construção de Shangri-Lá terminou, Perrault contava 109 anos e estava bastante ativo. E ele prolongou ainda mais sua vida, através de exercícios de Ioga, alimentação controlada e sabe-se lá mais o quê.

Com o tempo, depois da construção do monastério, Perrault passou a estabelecer algumas políticas de contato com o mundo exterior, visando o bem de sua civilização, e também de engenharia cultural. Uma comunidade um pouco maior, como Porto Alegre, pode abrigar ondas relativamente grandes de imigrantes sem que sua cultura seja grandemente influenciada ou seus recursos todos utilizados, mas o mesmo não poderia ser dito de Karakal: se muitas pessoas aparecessem ao mesmo tempo para morar em Karakal, ela se autodestruiria por motivos econômicos. Ainda assim, para garantir a continuidade da comunidade e evitar os males das relações incestuosas, estrangeiros devem ser trazidos de fora de tempos em tempos. E, deste modo, foi se formando um pequeno grupo de europeus, que acabavam ficando por Lua Azul e tornando-se monges de Shangri-Lá e aprendendo os segredos da vida longa.

A cultura de Karakal é essencialmente chinesa e tibetana. Shangri-Lá, que foi concebida originalmente como um mosteiro cristão, ao longo do tempo tornou-se muito budista, por assim dizer. Esta religião, apesar de ser a dominante, não é a religião oficial do estado, e há liberdade de culto, com templos de outros credos no Vale, como taoísta. A cultura européia também deixou sua marca através de todos os imigrantes que de lá vieram, mas sua influência é mais sentida no monastério e em sua classe monástica do que na comunidade leiga. O mosteiro, apesar de ter sido construído no começo do século XVIII, dispõe de água encanada, uma vasta e ampla biblioteca de clássicos europeus e orientais e instrumentos musicais - como um piano de cauda. Karakal foi abençoada com um abundante suprimento de ouro, que é usado como moeda para os comerciantes dispostos a ir até lá para fazer negócio e trazer essas comodidades. No Vale da Lua Azul abaixo de Shangri-Lá, reina a paz, pois todos na vila seguem o princípio de ser moderado em tudo, inclusive na moderação: beber um pouco de álcool, fazer um pouco de sexo, ouvir um pouco de música, governar um pouco. Roubos não acontecem por que todos possuem o que necessitam, e crimes passionais são inexistentes por que todos possuem desejos também moderados. Os monges de Shangri-Lá são o principal exemplo desta filosofia de vida, passando seus dias sem pressa, apreciando as coisas com moderação ou "produzindo sabedoria" (meditando, imagino eu).

A utopia descrita em "Horizonte Perdida" é linda: há abundância de alimentos, seus habitantes vivem em harmonia em um paraíso natural e com uma cultura rica e florescente. Porém, há algo nela que rejeito, como se ela fosse falsa, ou pior, morta por dentro. William James certa feita visitou uma cidade universitária "experimental", onde tudo funcionava da maneira mais perfeita - nas escolas fundamentais as crianças aprendiam alegremente, nas faculdades os estudantes pensavam com ampla liberdade, festas aconteciam frequentemente e não havia menor sinal de miséria ou desigualdade social nas ruas. James obviamente achou tudo isto maravilhoso, mas logo que saiu de lá pensou "ainda bem que saí daquela pasmaceira pasteurizada! Precisava voltar para um mundo sujo e sangrento". Bem, tenho bastante certeza de que, apesar desta não ser a citação exata (que li em "A Filosofia de William James"), ter passado a sua mensagem. Ao longo de todo o livro, o autor consistentemente dá a entender que Karakal é um lugar de paz e tranquilidade, perfeito para Conway, de temperamento contemplativo. Porém, apesar das reiteradas afirmações de quão maravilhoso é este vale, não consigo sentir-me atraído por ele, por ser mais parecido com uma cemitério cheio de zumbis do que o berço de uma nascente civilização, e foi-me impossível não simpatizar com Mallinson, personagem que, apesar de ser irritante por causa de seu desejo de sair de Shangri-Lá o quanto antes, é o único que parece estar realmente vivo! Toda paixão de viver em Karakal é substituída por uma longa espera preguiçosa pela morte, sem objetivo ou sentido maiores. Talvez apenas eu seja incapaz de viver em tal lugar assim, por causa de meu temperamento, mas não acho que nenhum ser humano verdadeiramente saudável poderia considerar Karakal algo mais do que um local para passar as férias.

Próximas utopias: A Ilha, de Aldous Huxley e A República, de Platão.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Segundo Dia Que Me Caiu o Cu da Bunda

Resolvi olhar de novo o Recent Hits do contador do Bravenet. Se ontem eu achei "TESTE CEGO DA FRUKI COLA" de fazer cair os butiá do bolso, hoje a coisa veio em dose dupla:


Clique para aumentar e ver as aberrações em seu habitat natural

"trabalho de conclusao de curso sobre o filme 11 homens e um segredo" - O que possivelmente pode ser dito a respeito disso aqui? Será que ele estava procurando um trabalho de conclusão de curso cujo tema central era o filme "11 Homens e um Segredo"? Ou ele estava procurando subsídios para fazer o seu próprio TCC, que será sobre esse filme? Dúvidas, dúvidas, dúvidas! Quase me dá vontade de procurar a respeito disso (com palavras chave decentes) e ver se acho algo para esclarecer este enigma. Em todo caso, apesar de toda obscuridade envolvendo essa pesquisa, posso afirmar que esse TCC foi feito ou será feito em um curso de Psicologia, e terá um título do tipo "O Desejo perverso e a pulsão escópica em '11 Homens e Um Segredo' - Um Estudo de Caso".

"como Douglas Macgregor elaborou a teoria x y" - OK, com esse amigo aqui eu simpatizo, pois está pesquisando sobre um assunto interessante e com potencial para ser algo mais do que piada de bar. Porém, está me cheirando a trabalho sendo feito nas coxas: alguém não fez o que devia ter feito no tempo certo, e agora está apelando pra magia do Google. Boa sorte, garoto (por que garotas não fazem esse tipo de baianada), por que aqui eu não vou te dizer como ele elaborou. Procura uma médium pra falar com ele que é mais garantido.

"DANE-SE E PALAVRAO?" - Adoro caps lock. Me lembro da Xuxa e seu jeitinho. Quando começaram a sacanear a filha dela no Twitter, ela mandou todo mundo se danar ou ir à merda? Ah, dane-se. Deixando as digressões de lado, posso dizer que quem quer que estivesse com esta dúvida mordaz não a esclareceu aqui no Espadachim Cego, apesar de eu ser quase PhD em palavrão (teria me dado bem na Marinha Mercante). Porém, como eu sou um inútil indivíduo muito curioso, pequisei a mesma bobagem no Google, e descobri esse amável texto aqui. Segundo ele, "dane-se" é o "foda-se" dos menores de idade e pessoas politicamente corretas. Contudo, se pensarmos que "danar-se" é ir queimar no fogo dos infernos, deveria ser uma das ofensas mais pesadas em nossa sociedade judaico-cristã.

Acham que este post acabou? Não, ainda não. Depois de duas ou três horas, chequei de novo o Bravenet onde, para minha surpresa, descobri novas pesquisas bizarras que trouxeram internautas para esta perdida ilha no meio dos interblags:


"definiçao de cortex pré frontal" - Pô, custava pegar um livro de anatomia na biblioteca pública e ler?

"quanto tempo dura uma massa de pastel" - Se a pessoa que digitou esta pesquisa estava pensando em fritar pastéis, deve ter desistido depois de ler o meu post relatando a minha aventura no mundo das frituras.

Por hoje é só, pessoal. Prometo que este será o último post a respeito de pesquisas bizarras do Google que vem parar aqui. A não ser que apareça alguma coisa muito, muito, muito medonha. Até mais.


PS.: Daniela Cicarelli pelada fazendo sexo. Vamos ver quantos vão cair aqui por causa dessa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Dia Que Me Caiu o Cu da Bunda

Pensemos metaforicamente. Imaginem que a Internet é um planeta, e o Google seu oceano. Agora, imaginem que, neste oceano, encontram-se muitos continentes e ilhas. Os continentes são, naturalmente, sites grandes e com grande número de acessos, como o G1 e o Kibe Loco, enquanto que as ilhas são os blogs pequenos e não tão visitados.

Seguindo esta lógica, o "Espadachim Cego" é a ilha de Lost. Não por que meus posts sejam todos a respeito de fumaças assassinas, escotilhas misteriosas ou ursos polares em regiões tropicais, mas por que visitante novo só aparece aqui depois de acidentes bizarros.

Faz algum tempo, eu instalei o contador de visitantes da Bravenet, para ver quantas pessoas apareciam na minha humilde  ilha. Originalmente, eram só os números  que me interessavan mesmo, mas descobri outros aplicativos da Bravenet bem mais fascinantes. Entre eles, o que mais se destaca é o "Recent Hits", que mostra como os visitantes vieram até aqui. Por exemplo, se você digitou o endereço no seu navegador, vai aparecer ali "Direct Hit"; se você clicou num link em outro site ou blog, o dito site/blog irá aparecer; ou ainda, se você navegou pelo Google, as palavras que você utilizou como parâmetro de busca serão mostradas.

E hoje eu descobri que alguém visitou o Espadachim Cego procurando por "TESTE CEGO DA FRUKI COLA".

Nem vou comentar o "kung fu cego"


Eu achava que já estava acostumado com as bizarrices. Sempre que eu verificava as últimas visitas, encontrava coisas do naipe de "como escrever um depoimento para mim mesmo" por pessoas que queriam afagar o próprio ego e acabavam caíndo em um texto meu que fora concebido originalmente para ficar no meu perfil do Orkut (sabendo que este post de agora em diante também será chamariz para estas pessoas, já aviso: não, não tem como escrever depoimentos para si próprio no Orkut, a não ser que você crie outro perfil e se adicione. Mas fazer isso é o fim da picada e de qualquer autoestima). Igualmente numerosos eram as pesquisas sobre Psicologia e livros obscuros, que para cá eram atraídas pelo meu gosto por estes dois assuntos e minha prolixa prolífica escrita.

Mas "TESTE CEGO DA FRUKI COLA" me fez cair o cu da bunda.

O que diabos este cidadão queria encontrar para usar estas palavras chave? Informações a respeito do rito de passagem de um clã de ninjas, onde o iniciado é obrigado a descobrir, com uma venda nos olhos, qual das Fruki Colas está envenenada? Ou o que ele procurava era um teste duplo cego entre o refrigerante de cola da Fruki e de outras marcas? Nunca saberemos ao certo. Mas, caso o indivíduo que empreende tão arrojada busca aqui voltar, deixo a seguinte dica: tem uma dissertação de mestrado em Administração na UNISINOS intitulada "Efeitos da sensibilidade ao preço sobre o valor de marca e na intenção de compra do consumidor", defendida em 2007. São uma 150 páginas, escritas de uma maneira muito, muito, muito chata, então vou te poupar o trabalho de ler tudo e resumir em uma frase: as pessoas compram a marca, e não o produto.

Pronto, fiz do mundo um lugar melhor, duas vezes até. Porém, fiquei agora com vontade de e

domingo, 20 de setembro de 2009

Revolução Farroupilha


Feliz 20 de setembro, dia que o Rio Grande do Sul inventou uma guerra contra o resto do Brasil, perdeu e disse que se rendeu pela paz! Aproveitem o feriado no domingo!

sábado, 19 de setembro de 2009

Vida Dura (Parte 26)

Há outra coisa no transporte público portoalegrense além da superlotação do D43 que me serve de pretexo pra fazer tempestade em copo d'água enche de horror: a BusTV. Se este ridículo nome, criado a partir da fusão das palavras "bus" e "TV", não foi óbvio o suficiente para você entender do que se trata, eu explico: são televisões dentro dos ônibus.

Praticamente todos os meus colegas de faculdade reclamam da programação da Rede Globo (e os que não fazem isso não assistem TV). No começo, eu pensava que era só empolamento de acadêmico, que acha que tudo no Brasil vai mal por que ele não é contatado pra arrumar as coisas, mas quando eu assisti "Fantástico" e "Caminho das Índias" depois de um jejum televisivo de quase um ano, fui obrigado a concordar. Os programas são feitos para retardados assistirem: superficiais, carnavalescamente coloridos e explicando até as vírgulas do que era dito, por que brasileiro é burro, e vai continuar burro com esse tratamento. Porém, meus amigos, quem critica a Globo certamente não anda de ônibus (o que não é uma má idéia), e não conhece a BusTV.

A programação da BusTV é ruim, muito ruim, tanto que me faz pensar que ela é montada por macacos com paralisia cerebral, por que só desta maneira seria possível escolher programas tão deploráveis. OK, talvez eu esteja sendo exagerado, mas só posso definir esse negócio como podre - são tomadas curtas que tentam imitar programas mais longos e atingir os mesmos resultados. Sem o menor sucesso, é claro. Poderia citar vários exemplos disto, mas minha memória é fraca e só lembro de dois. Esses dois, contudo, são para mim as cerejas do bolo: "Toque do Guru" e o Horóscopo. Que merdas fantásticas. O primeiro deve ser a realização do desejo reprimido de algum roteirista de escrever livros de auto-ajuda, dando conselhos profundos como um pires e cobertos de senso comum. O segundo é ainda melhor, por que, apesar de também dar conselhos profundos como um pires e cobertos de senso comum, ele faz de acordo com o signo das pessoas. Isto não significa que pessoas de Touro recebam conselhos diferentes das pessoas de Escorpião - a única diferença real é que se Peixes recebe o conselho de "Não faça nada que você possa se arrepender mais tarde" na terça, Aquário recebe na quarta. Só. E os conselhos são assim mesmo, puro senso comum. Se eu fosse um funcionário descontente da BusTV, eu certamente sabotaria esse quadro, e colocaria entre as pílulas diárias de sabedoria coisas como "pegue na minha e balance" ou "você é corno. Procure um terapeuta". Deixaria algumas senhoras de respeito escandalizadas e me tornaria simplesmente incapaz de arranjar qualquer emprego em Porto Alegre, mas valeria a pena. Há outros quadros que não são fixos (ou eu nunca vejo), mas que sempre me pegam num espírito de porco tal que, sempre que os vejo, preciso compartilhá-los com meus amigos por mensagem de celular. Se eu gostar de você e tiver seu telefone, você certamente receberá uma porcaria dessas (e vai me odiar por isso). Um deles é o "Recordes do Rio Grande do Sul", que compartilha com os passageiros do ônibus as coisas que o nosso amado estado tem de mais notável, como a maior cuia do mundo (4 metros de altura) e o maior arroz de leite do mundo (uma tonelada). É tão boboca e absurdo que eu quase tenho um surto psicótico de pensar nisso. Igualmente enlouquecedor é a sessão de piadas. Para sua decepção, não é o Ari  Toledo falando barbaridades a respeito das loiras ou dos papagaios, mas piadinhas família, que por serem limpas e comportadinhas, são completamente sem graça. Uma dessas ("O que o minhoco disse pra minhoca? Você minhoquece!") era tão ruim que o Marcelo me mandou tocar fogo no ônibus (é, eu tenho o celular dele, coitado). Por fim, digno de nota, foi no BusTV que eu descobri a existência de uma música chamada "Ur so Gay" (cujo clipe feito com barbies e uma letra bizarra é tão mesmerizante que eu deveria escrever um post só sobre como é a experiência de assisti-lo).

E tudo isso em câmera lenta. Sim, por que não basta fazer uma grade de programação só com lixo - ela tem que ser excruciantemente demorada, para te fazer sofrer todos os instantes dentro do coletivo. Aparentemente, os gorilas com paralisia cerebral além de tapados são lentos, então as legendas passam muito devagar. Assim sendo, para passar três horóscopos é necessário três paradas. E nesse tempo, meu cérebro morre um pouquinho, alguns milhões de neurônios de cada vez. Coloque-se no meu lugar, indo quase todas as manhãs de ônibus para o estágio, e quase todas as vezes sendo obrigado a assistir lavagens cerebrais em forma de dicas de guru e conselhos astrológicos. Até o final do curso eu vou estar no São Pedro, não como psicólogo, mas como um daqueles caras que anda pelado e carrega troncos de árvore de um lado para o outro! E isto não é um efeito colateral indesejável da BusTV: é tudo uma grande conspiração! Pesquisando no Google, encontrei um site listando todas as vantagens de anunciar pela BusTV. E não tenham dúvidas, meus amigos - eles querem conquistar o mundo. Vejam com seus próprios olhos:

Por que anunciar na BusTV?

* A 
BusTV conta com o apoio integral de instituições públicas e governamentais.

* A mensagem chegará de forma completa, sem interferência, sem efeito zapping.

* Atua em momento de pouca dispersão do usuário, o que permitirá maior fixação de seu produto na mente de seu consumidor.

* Entretenimento durante o tempo do percurso tornando a viagem mais agradável causando a sensação de menor tempo gasto.

* Fonte de informações úteis sobre assuntos de interesse público.

* Melhoria de visão que o usuário tem do transporte coletivo.

* Fidelização do usuário a uma programação atrativa procurando o seu bem estar psicológico.
 


Estão vendo? E o pior de tudo, meus amigos, é que isto não está acontecendo apenas em Porto Alegre, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza, além de Caxias do Sul e seus Visatões tocando funk sem parar! Estamos perdidos, resistence is futile! E além do mais, eu preciso ir pro estágio, então o que me resta fazer é pegar um livro e tentar (bastante) ignorar essas porcarias.

Esta quinta-feira, porém, no ônibus para o Campus do Vale, a programação foi um pouco diferente: uma tela preta, com palavras em vermelho dizendo "Signal Loss". E a paz esteve conosco.

sábado, 5 de setembro de 2009

Utopias (2)

Terminei ontem de ler "Walden II", de B.F. Skinner. Já fiz um extenso comentário a respeito do livro no post anterior, mas, tendo lido os capítulos que faltavam, sinto que preciso comentá-los também. Infelizmente, como não dá pra falar de uma parte de um livro sem falar dele todo, serei um pouco repetitivo em alguns momentos, porém, prometo reduzir isto a um mínimo.

Como expliquei anteriormente, Walden II é uma comunidade utópica imaginada pelo personagem Frazier, onde toda o sofrimento humano fora abolido através do reforço positivo. Esta técnica consiste, muito brevemente, em estabelecer condições ambientais que aumentam a probabilidade de um comportamento desejável através de uma consequencia agradável. Por exemplo, ao invés de ameaçar uma criança com algum castigo se não fizer os trabalhos escolars, é mais eficaz oferecer uma recompensa para tanto. Este seria o "segredo" de Walden II - assim, através de contingências onde o comportamento adequado é recompensado, e o comportamento inadequado é corrigido, nenhum integrante da comunidade teria motivos para se rebelar e agir de maneira contrária aos interesses coletivos, por que eles não são contrários aos seus. Estas contingências seriam determinadas inicialmente por um Conselho de Planejamento, que escreveu o "Código de Walden". Este código seria algo como as Tábuas da Lei de Walden, com a diferença que elas não estariam escritas na pedra como os Dez Mandamentos, mas abertos a revisões. Isto seria o maior diferencial da vila idealizada por Frazier das tentativas utópicas anteriores: abertura para mudança, que permitiria corrigir o que está errado e melhorar o que já está bom. Estas revisões poderiam ser feitas a partir da reclamação de qualquer membro da comunidade que achasse algo ruim e reclamasse, e a partir de experimentos científicos. Por exemplo: os membros de Walden II tomam café e chá em xícaras com "alças de balde", pois foi constatado que dessa maneira menos líquidos eram derrubados durante o transporte até a mesa. Além disso, toda a estrutura de tomada de decisões de Walden II fora montada de maneira que nenhum indivíduo sozinho pudesse subverter o Código geral em proveito próprio. Não que isto fosse necessário, por que nenhuma pessoa desejaria fazer algo assim, pois as contingências desta sociedade utópica seriam tais que ninguém que morasse ali conceberia isto como possível.

Explicado assim, tanto o reforço positivo quanto o "Código de Walden" parecem muito eficientes. E de fato são. Mas há um porém nisso tudo. Este livro, escrito em forma de romance, foi uma tentativa de Skinner de mostrar ao mundo o potencial que a sua linha teórica oferecia. Contudo, Skinner é famoso por ter sido um homem com muitas certezas. Entre elas, figurava a certeza de que a Análise do Comportamento era não só a melhor alternativa entre todas as linhas teóricas da Psicologia, como a única que poderia ser considerada como científica e portanto verdadeira, e isso o fazia defendê-la com um zelo quase fanático. O livro não escapa disto. Em Walden II, o reforço positivo e a ciência não só conseguiram fazer com que os trabalhadores se tornassem mais produtivos, como também aboliu a inveja, a raiva, a competitividade, a tristeza e a ambição e as substituiu por uma perene satisfação e altruísmo autênticos. Soa maravilhoso, não? Pois é, soa mesmo, mas alguma coisa parece estar fora de lugar ainda assim.

Tenho grande simpatia pela idéia de Skinner de "sociedade ideal", e até certo ponto, acredito que suas conclusões são muito acertadas - em especial, a necessidade de um método de regulação social baseado mais na recompensa do que no castigo, o uso da ciência para determinar as melhores condutas e a ausência de competitividade, que é apenas outra maneira de dizer "massagem no ego". Contudo, também acredito que, na exposição de suas idéias, Skinner caiu no erro que os filósofos chamam de "Declive Acentuado" - baseado em premissas corretas, atingir conclusões errôneas. Frazier, ao longo do livro, não cansa dizer que as técnicas que ele emprega não são nada inovadoras, mas que sempre estiveram nas mãos das pessoas erradas, como políticos, mercadores, governantes e grupos religiosos, que as usavam para fins próprios, e tudo que ele fez foi reuni-las e utilizá-las em nome do "bem comum". Mas o que realmente impede que Walden caia nas mãos de um tirano inteligente e disfarçado? Com a mesma facilidade que estas estruturas "anti-ditadura" foram montadas, uma pessoa má intencionada pode revertê-las. O emocionalmente instável mas amoroso e simpático Frazier nunca faria isto. Porém, podemos dizer o mesmo do resto da humanidade?Para alguém que defende a natureza neutra do ser humano (nem intrinsecamente bom ou ruim), ele depende demais da bondade humana.

E se estas técnicas estão disponíveis há tanto tempo, por que não foram usadas antes? Como as técnicas de "engenharia cultural" são a razão do sucesso de Walden II, é difícil de engolir que, com tantas pessoas brilhantes organizando utopias ao longo de toda a história, nenhuma delas teve sucesso. Parece arrogância de Skinner afirmar isto tantas vezes ao longo do livro.

Além de tudo isso, oss sentimentos negativos, como raiva e inveja, são parte integrante do ser humano há milênios, e alguns anos de condicionamento aboliram eles por completo? É difícil de engolir essa. Claro, um behaviorista diria que esta é uma "hipótese experimental", e que está aberta ao teste científico, o que, na língua deles, é apenas outro jeito de dizer "nós estamos certos, você errado", mesmo quando os dados experimentais provam o contrário.

Bem, acho que vou parando por aqui, antes que meus argumentos fiquem ainda mais bagunçados. Fiquei inspirado, contudo, a ler mais sobre utopias. A próxima vai ser "Horizonte Perdido", que fala de Shangri-lá.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Utopias


Apesar de ser algo tão distante quanto o horizonte, a perfeição sempre foi um dos maiores objetivos do ser humano. Realizar uma obra perfeita, e portanto eterna, é a meta de artistas, religiosos, cientistas, filósofos e pessoas comuns desde o mítico momento em que passamos a ver o universo através dos olhos de nosso pensamento. Desde então, estas cinco classes "ideais" de pessoas conceituam a perfeição de maneiras muito diversas. Porém, a todas elas de certa forma convergem no que poderia ser chamada de a mais antiga busca humana: a Utopia.

O termo "utopia" foi usado originalmente por Thomas More, em seu livro de mesmo nome, para descrever a sociedade ideal, onde a vida seria livre de problemas e seus cidadãos pudessem desabrochar e desenvolver seus potenciais até o mais elevado patamar. Apesar de ter sido o primeiro a usar a palavra "Utopia" neste sentido, ele não foi o primeiro a pensar neste conceito. Milênios antes dele, Platão escrevera "A República", que descreve como seria o governo perfeito, e mesmo antes dele, Pitágoras já estabelecera uma comunidade deste tipo. Depois deles e mesmo de More, poderia citar diversos outros casos reais, como Brook Farm, nos Estados Unidos, que reuniu vários escritores e intelectuais importantes da época, ou mesmo Canudos, aqui no Brasil, liderada por Antônio Conselheiro. Poderia citar muitas outras aqui, mas o que realmente importa é que, apesar de todas elas serem muito diferentes entre si, tanto em método quanto em população, todas elas buscavam constituir-se como modelo definitivo de agrupamento humano, onde o sofrimento seria abolido. Outra coisa que todas estas comunidades têm em comum é que nenhuma durou muito tempo. Não é para menos que More tenha usado a palavra "Utopia" como título de seu livro, pois significa "Lugar Nenhum".

A leitura de "Walden II" de B. F. Skinner me deixou particularmente motivado a escrever sobre utopias. No livro, que ainda  não terminei de ler, o autor descreve, por vezes de maneira excruciantemente detalhista, a também utópica comunidade de Walden II, liderada pelo psicólogo T.E. Frazier, que afirma que todas as tentativas anteriores de estabelecer sociedades perfeitas fracassaram por terem sido baseadas em idéias dogmáticas, sem comprovação científica e, assim sendo, incapazes de mudar quando necessário. Sua pequena vila, nomeada em homenagem à Henry David Thoreau e sua utopia solitária, estaria livre deste defeito, pois era um grande experimento de engenharia cultural em andamento, baseado nas mais modernas descobertas das ciências do comportamento e aberta à possibilidade de mudar seus princípios, se os dados empíricos confirmassem a vantagem de assim proceder. Além deste pressuposto central, Skinner expõe outras práticas interessantes para maximizar a produtividade humana sem pôr em risco a qualidade de vida, como a jornada de trabalho semanal de 24 horas (dá 4 por dia), a potencialização da produção artística e algumas idéias realmente curiosas em arquitetura e design de interiores.

Estou gostando bastante do livro, apesar de ter expectativas bastante negativas a respeito dele antes de começar a lê-lo. Ele não conta nenhuma história de fato, pois tudo o que os personagens fazem ou pensam a respeito é sobre Walden II e seu modus operandi, tornando-os bastante desinteressantes - se algum deles morresse e fosse substituído por qualquer outra pessoa, não faria diferença - e às vezes parece que estamos lendo algo mais parecido com um roteiro de programa educativo do que um romance. Mas, ei, é um livro do Skinner! Se você pegou para ler, já sabia desde o princípio que ele não ia ser um cara exatamente criativo, ou, em termos comportamentais, que seu repertório de escrita não é muito variado, e já devia esperar que seria um panfleto ideológico defendendo seu paradigma teórico, o Behaviorismo Radical. Feitas essas ressalvas mais "estruturais", vamos adiante.

Como disse antes, estou gostando de "Walden II", talvez não tanto por causa de suas teorias, mas por causa da atitude pragmática que envolve a gênese dessa utópica comunidade, de não ficar apenas no falatório academicista e pôr as coisas em prática. Quando Castle, filósofo da história cuja principal função é questionar Frazier, põe em dúvida alguma prática de Walden II, Frazier frequentemente responde com um "já testamos isso e dá certo" ou "ei, é um experimento! Se der errado a gente muda!", e isso me faz pensar, em alguns momentos, que um experimento desses poderia realmente dar certo na vida real (aliás, sei de algumas tentativas de criar Walden II na vida real que ainda perduram, mas não tenho muitas informações a respeito).

Contudo, tenho algumas críticas teóricas para fazer também. A primeira delas é que, se Skinner incluiu no livro um personagem que oferece um contraponto à Frazier e critica seu experimento em engenharia cultura, ele incluiu o personagem mais incapaz possível de fazer isto! Castle como filósofo incorpora o que há de mais dogmático e idealista em toda a Filosofia, e tudo que consegue fazer é dizer que "se não é ideal, não serve" e ter ataques de frescura. Até parece que Skinner desenhou sua personalidade no livro para mostrar que o Behaviorismo Radical está acima de críticas. Apesar de Castle ser peça crucial na história, acredito que teria sido muito melhor se, no seu lugar, tivesse ido para Walden II um mendigo psicótico, como o Dr. Hobo de VG Cats. A segunda é que Skinner, ao afirmar que todos os problemas da humanidade podem ser solucionados através de um ambiente controlado e reforçamento positivo, demonstra um profundo desconhecimento da própria espécie. Claro, quando questionado diretamente sobre a importância da genética e da hereditariedade no comportamento humano, ele nunca negou sua importância. O mesmo acontece no livro. Porém, parece que a importância destes fatores é apenas simbólica - em outras palavras, é como se Skinner dissesse "É elas são importantes, mas não importam".

Por fim, uma crítica derivada da segunda. Se todo o comportamento humano é definido de acordo com as contingências externas, as questões internas, como pensamentos, sentimentos e vontades humanas, são irrelevantes. Questiono se, para uma comunidade como Walden II dar certo, não seria necessário ter não só tecnologia comportamental de ponta, mas também seres humanos capazes de viver em tamanha harmonia.

E a busca pela Utopia continua para a humanidade.

domingo, 30 de agosto de 2009

O Poder da Vontade - Um Exemplo Prático

"Em verdades dependentes de nossa ação pessoal, portanto, a fé baseada na vontade é, certamente, algo lícito e possivelmente indispensável."
-William James, A Vontade de Crer



O pensamento é um elemento central da vida humana. Foi através do desenvolvimento de nossa capacidade de estabelecer relações simbólicas entre objetos, pessoas e eventos que nos tornamos capazes de desafiar nossos próprios limites, e através de navios, carros e aviões conquistar água, terra e ar. Sem dúvida, a mente é um instrumento poderoso, capaz de transformar a face da terra. Existem, porém, controvérsias a respeito do alcance deste poder, especialmente do pensamento deliberado, a vontade.

Não muito tempo atrás, foram lançados dois filmes, defendendo a posição de que o pensamento apenas é capaz de influenciar o mundo ao nosso redor, alterando a própria matéria que o constitui. Estes dois filmes foram severamente criticados pelos defensores da opinião oposta, de que a mente é uma função cerebral, e portanto incapaz de alterar a matéria sozinha, por ser derivada desta última. Os dois filmes são "Quem Somos Nós?" e "O Segredo", e seus detratores, parte considerável da comunidade científica. Não pretendo aqui julgar os méritos destes filmes ou dos seus críticos, mas relatar uma experiência pessoal cujo impacto me levou a pensar sobre o poder do pensamento.

Na última sexta-feira, como faço com regularidade, fui treinar Kung Fu na academia. Estava com o espírito leve, como se algum fardo muito grande tivesse sido tirado de mim, e eu pudesse andar livre pelo mundo novamente. Os motivos para sentir-me assim tão contente foram desaparecendo de minha consciência conforme o professor nos passava as instruções de aquecimento e alongamento, mas meu ânimo continuou elevado, se não ainda mais elevado pelo prazer de praticar artes marciais. A experiência que quero aqui relatar aconteceu durante a parte mais específica de nosso treino, quando nos separamos conforme as cores das faixas para treinarmos técnicas apropriadas ao nosso preparo físico, mental e espiritual. 

De vez em quando, os professores inventam exercícios novos, ou reformulam ou velhos de forma a deixá-los ainda mais desafiadores do que costumam ser. Geralmente, eles fazem isso com aspectos mais simplórios do treinamento, como flexões ou abdominais, deixando a prática dos aspectos mais complexos (e cansativos) inalterados. Não foi o que aconteceu naquele treino. Geralmente, na faixa verde, começamos a treinar uma técnica chamada Tan Tui. Esta técnica é dividida em seis partes de três repetições e, como as imagens do link devem ter dado a entender, tem por objetivo fortalecer as pernas, pois ficamos parados naquelas posições o suficiente para forçar os músculos inferiores. Naquele treino, o professor decidiu que não faríamos apenas três repetições em cada parte, mas quantas fossem necessárias para cruzarmos toda a extensão da sala, para só então voltarmos correndo para o outro lado da sala e começarmos outra parte. Dentro destas condições, éramos forçados a efetuar muito mais repetições do que de costume, forçando nossos limites.

Foi na terceira parte que minha experiência começou. Sentia-me cansado, e me parecia que dentro em breve minhas pernas não aguentariam mais o peso de meu corpo. Pensei em dizer isto para o professor e desistir do resto do exercício. Mas ali, naquele instante, afastei este pensamento com outro: "não, eu consigo." E a partir deste ponto, uma grande mudança ocorreu. Meus sentimentos transformaram-se: não havia mais tristeza, dor ou expectativa, apenas uma vontade inabalável de treinar, e uma grande satisfação por estar ali, naquele momento. É muito difícil descrever agora a sensação de então, pois parece-me agora que uma força além das palavras apoderou-se de mim, e deixou-me mais próximo de um deus, cuja força apenas se intensifica com as dificuldades que o desafiam, e para quem nada mais importava do que o movimento sendo feito. Esse poder continuou em mim pelo resto do treino, e com tal intensidade que em alguns momentos tive que me controlar, para não ferir algum colega. Poderia dizer que este episódio foi algum tipo de surto maníaco, se não fosse a incrível sensação de paz que o acompanhou.

Agora que o relato foi feito, gostaria de fazer algumas observações. A primeira e mais óbvia de todas é que não tenho a pretensão de abordar aqui o poder da vontade sobre o mundo material, pois me contento em relatar um caso em que ela exerceu uma grande influência sobre a minha própria fisiologia. Segundo, gostaria de destacar as condições prévias para que tal experiência se efetuasse, pois tenho a impressão de que algo além do meu desejo ou vontade estava em ação naquela noite. Acredito que, se não estivesse em um estado de espírito mais elevado, como estava então, não teria tido esta experiência culminante. Todavia, não dou esta explicação como final, pois ainda faltam muitas peças deste quebra-cabeça. Talvez na próxima vez que me sentir assim eu consiga coletar mais dados que elucidem esta dúvida.

Vida Dura (Parte 25)

Quando escrevi o primeiro post da série "Vida Dura", ainda no saudoso Roqueiro e Alcoólatra, foi depois de um impulso de escrever alguma coisa muito babaca, mas nunca parei para pensar qual seu verdadeiro intuito. Depois de vários posts no mesmo estilo, isto ficou claro: é fazer tempestade em copo d'água, pegando situações inócuas e transformando-as nos acontecimentos mais catastróficos que já se abateram sobre toda a humanidade. É muito divertido, tanto pra vocês, quanto para mim.

Seguindo essa lógica, hoje eu vou falar para vocês sobre um ônibus: o D43 Universitária, mais conhecido como o "Dê". Em Porto Alegre, existem várias instituições de ensino superior, em diversos pontos geográficos da cidade, o que traz como conseqüência que, todos os dias, milhares de estudantes universitários fiquem andando de lá para cá, pois precisam ir de casa para a faculdade, e da faculdade para casa (quando não precisam trabalhar entre um percurso e outro). Alguns destes estudantes têm carro próprio; outros, pegam carona com amigos ou pais; há também aqueles que vão naquelas vans fretadas, e aqueles felizardos que moram perto o suficiente para irem à pé para as aulas. Porém, há um último grupo, que não mora perto da faculdade, não têm carro, não tem como pedir carona, nem dinheiro para contratar os serviços de uma profissional do sexo van. Para estes, resta um último recurso: o sistema público de transporte. E esses sim, estão fodidos.

Eu moro do lado da faculdade. Não precisaria de ônibus, pois mesmo que eu fosse todos os dias pulando em um pé só e cantando as músicas do RBD, além de ser considerado psicótico, sempre chegaria a tempo para as aulas (pois essas sim, sempre começam com pelo menos 20 minutos de atraso). Se eu fosse mais humilde, e me contentasse em ter aulas só ali na Psicologia, eu me pouparia das muitas incomodações que empresas que a Carris e a Unibus me causam. Mas não! Eu não seria eu mesmo se eu não aranjasse sarna para me coçar, e não arranjasse alguma porra pra fazer no Campus do Vale, o campus mais isolado de toda a UFRGS. Reza a lenda que este campus foi originalmente construído durante a ditadura em cima de um antigo cemitério indígena, em parte para atender a crescente necessidade de espaço da portentosa universidade, em parte para arranjar um lugar onde os cientistas humanos e baderneiros em geral não pudessem encher o saco do governo militar. Ambos os objetivos foram atingidos com honras, por que sobra espaço nesse campus, e organizar passeata daqui até a frente da prefeitura para protestar contra a globalização é simplesmente inviável. OK, é verdade que, com a tecnologia moderna dos tempos contemporâneos de hoje em dia, o Vale não é mais tão inacessível quanto era na década de 1970, quando a atual Avenida Bento Gonçalves era só uma estrada de chão toda esburacada, mas muitos colegas meus se recusam a pegar aulas aqui* pelo campus ficar onde o Judas perdeu as botas.

Eu não sou assim. Sempre fui bastante aventureiro, e a idéia de ter aula no meio do mato me foi bastante atraente desde o primeiro ano de faculdade. Então, desde então, tradicionalmente no segundo semestre (não sei por que nunca no primeiro), me matriculo para alguma aula aqui. Em 2007/02, foi Alemão Instrumental. Em 2008/02, foi Genética para a Psicologia. E agora, em 2009/02, é Introdução ao Pensamento Filosófico. Além disso, desde o início deste ano, eu faço estágio aqui no Ambulatório Proteger, que atende casos de Saúde Mental, comportamento violento e casos casca-grossa em geral. Assim sendo, atualmente, eu tenho que vir para o Vale duas vezes na semana - uma na quinta de noite, e outra na sexta de manhã. Para poupar trabalho, eu já pensei em dormir aqui e poupar duas passagens, mas como eu acho que minha mãe ia ficar preocupada comigo (além de eu ficar sem jantar), acho melhor fazer a viagem duas vezes.

E para a viagem, conto com a ajuda dessa maravilhosa tecnologia moderna que nos ajuda em nossa rotina do dia-a-dia. Eu poderia citar as várias porcarias que fazem da nossa vida mais fácil, como meu chuveiro onde mantenho a higiene, a geladeira que conserva meu Nescau gelado, o próprio Nescau, meus sapatos e o guarda-chuva para os momentos que São Pedro abre as comportas do Céu quando o vapor atmosférico condensa-se em gotas d'água pesadas o suficiente cai o mundo e eu não quero me molhar. Mas a parte mais importante da minha ida e vinda do Campus do Vale é meio de transporte - o ônibus.

Ao contrário do que acontecia durante a ditadura, há hoje em dia diversas linhas de ônibus que fazem o trajeto "Campus do Vale - Civilização", sendo que pelo menos duas dessas atendem a demanda específica da população universitária, o Campus Ipiranga e o já mencionado D43. Ambos seguem um caminho muito similar, passando pelos três campi da UFRGS (menos na ESEF - o pessoal da Educação Física que vá correndo pra casa) e pela PUCRS. A diferença entre esses dois está apenas no tempo - enquanto o Campus Ipiranga para em quase todas as paradas do caminho, o D43 é bem mais direto e leva bem menos tempo. Isso, e o número de pessoas que pegam ele.

Eu sou um cidadão importante, com pouco tempo livre e com muita coisa por fazer (ou pelo menos essa é mentira que espalho por aí). Por isso, tenho pressa de chegar nos lugares onde sou necessário, e quanto mais rápido, melhor. Seguindo está lógica, não há nada mais racional, na minha situação, do que, tendo que atravessar a cidade para chegar no Campus do Cale, pegar o ônibus mais veloz e que faz menos paradas. Genial, não?

Genial, de fato, mas acreditem em mim, existem muito mais pessoas que têm essa mesma idéia diariamente. Muito mais. O suficiente para, toda vez que tenho que pegar o maldito D43, seja o carro do tamanho normal, ou seja um daqueles biarticulados, ele está sempre lotado. E quando digo "lotado", não quero dizer que todos os assentos estão ocupados e eu preciso ficar em pé. Quero dizer quer que até os lugares para ficar em pé estão ocupados, e que vou ter que passar um bom tempo da viagem me esfregando com criaturas desconhecidas e cujo status higiênico me é desconhecido! Todo dia de pegar Dê é mais ou menos igual: saio de casa, vou para a parada da Silva Só, e fico esperando. Quando vejo ele à distância, tento divisar quão atolado de gente ele está, para descobrir apenas no momento que ele passa do meu lado que tem gente se equilibrando no degrau da porta. Fantástico. Subo, tomando o cuidado para não ser atingido na bunda pela porta na hora em que ela se fecha, nem para cair na rua quando ela se abre. E, quando a oportunidade aparece, eu avanço um passo em direção à catraca (geralmente depois do cobrador dar o já tradicional grito de "um passinho pra frente, fazfavor, tem espaço no fundo do ônibus! Vamo liberá a catraca aqui, fazvafor!"). Repito esse processo várias vezes, até conseguir pagar a passagem e passar para o outro lado, com a única diferença que posso sendo encoxado por ainda mais pessoas. E se uma pessoa desde do ônibus, outras quatro vêm tomar o seu lugar.

Se a viagem inteira fosse assim, ela seria francamente insuportável e eu provavelmente teria desenvolvido alguma estratégia para evitar esta situação, como pegar outro ônibus, conseguir carona ou deixar de ser idiota e parar de me matricular em cadeiras no Vale. Contudo, há um ponto no meio do caminho em que as coisas mudam: a parada da PUCRS. Como o nome da linha implica, o D43 Universitária atende a demanda de transporte da população universitária, e as duas maiores universidades de Porto Alegre são UFRGS e PUCRS. De fato, quando o ônibus pára ali, ele magicamente esvazia, liberando metade dos assentos ou mais. Nos piores dias, ninguém que está sentado se levanta, e quem se levanta está longe demais para eu poder sentar, mas pelo menos eu consigo mexer minha bunda até chegarmos no Vale, e só isso me faz rezar o tempo todo para que cheguemos na PUCRS o mais rápido possível, e abençoá-la quando quase todo mundo desce. Claro, no caminho de volta acontece o oposto, e passo a xingar mentalmente todos os estudantes da PUCRS que jamais andaram de D43. Pelo menos daí eu estou bem sentado.





* Pois é gente, parte deste texto foi escrito durante um momento de vadiagem no estágio, durante o tempo ocioso que ordinariamente seria ocupado atendendo pacientes.

sábado, 22 de agosto de 2009

Minha Terça-Feira

Chove em Porto Alegre. É uma chuva fininha, mas persistente, que de tempos em tempos pára e dá lugar à uma neblina igualmente fina e constante, fazendo do clima na capital gaúcha um tanto quanto nojento.

Acordo mais tarde do que planejara, e, sentindo no frio que fazia fora das cobertas, postergo o inevitável momento de levantar e sair da cama. Já o segundo dia de aula do segundo semestre - o segundo depois das "férias gripais" que tanto queria que fossem estendidas. Deixo o confortável refúgio do colchão, e começo o ritual diário do despertar: tomar café, tomar banho, colocar roupas limpas para finalmente sair e ir para o campus, onde conseguirei alimento a baixo custo.

Dirijo-me ao Restaurante Universitário. Como é de praxe em todo início de semestre, a fila está duas vezes maior do que deveria, pois as novas turmas de calouros invadem todos os espaços da UFRGS como uma boiada descontrolada. Ao lado da mesa onde estão as bandejas, colocaram um porta álcool gel, para higienizarmos nossas mãos e não espalharmos a temida e afrescalhada Gripe A, e percebo como esta porcaria fede.

Em fim, este é um dia com tudo para ser ruim, mas nada disso importa, por que hoje, na sobremesa do RU, tem pavê. E todo dia de pavê no RU é um dia feliz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Metade do Caminho

Apesar de ter ganho duas semanas a maos de féries de presentes, já efetuei minha matrícula nas cadeiras obrigatórias da sexta etapa do curso de Psicologia. Este é o marco oficial de que ultrapassei a metade da faculdade. Considero este fato como especialmente significativo, pois daqui por diante, tenho menos para vencer do que já venci até agora - semestres, créditos, encheção de saco. Não posso dizer que estou na reta final, mas ela está logo além da próxima curva. Ao mesmo tempo que isto me anima um pouco, também me deixa um tanto quanto preocupado: há vida depois da faculdade? E se há, de que tipo? Ela vai ser significativa, ou apenas horas aplicando e corrigindo testes de personalidade para seleções de uma empresa qualquer?

Também atingi um outro marco que não considero tão positivo: na hora de escolher quais eletivas cursar este semestre, percebi que nenhuma das alternativas a mim oferecidas realmente me satisfazia. Já faz algum tempo que curso as disciplinas obrigatórias mais por obrigação do que por desejo, mas as eletivas, as que eu posso escolher livremente, sempre foram o porto seguro para onde eu ia quando discussões inúteis e trabalhos ridículos me faziam pensar seriamente se queria mesmo ser psicólogo. Admito que em semestres passados sofri decepções com algumas eletivas, mas o conjunto delas sempre me foi muito satisfatório. Agora, pela primeira vez, escolho minhas eletivas de acordo com o princípio do "menos pior". Com a exceção da cadeira de Fenomenologia e Cognição (na qual não posso me matricular por que ela é uma daquelas "Tópicos em Psicologia"), só achei minimamente atraentes as disciplinas oferecidas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, como Introdução à Sociologia e Introdução ao Pensamento Filosófico. E dessas, só vou poder fazer a última, pois a primeira ocorre no mesmo horário que uma das minhas obrigatórias (e que me levou a considerar seriamente a possibilidade de não fazer a obrigatória).

Não acho que isto fará do sexto semestre tão ruim assim, pois ainda tenho os estágios para me consolar, mas certamente as aulas, que já estavam muito chatas, vão ficar ainda mais, e eu já não sei se eu quero me formar logo ou não.

domingo, 2 de agosto de 2009

Olá mundo

É engraçado como as leituras podem influenciar alguém. No meu caso, noto que, depois de ler certos livros, textos ou poemas, além da óbvia vontade de agir conforme os ideiais neles contidos, sinto-me também compelido a escrever da mesma forma em que eles foram escritos. Preciso admitir que nunca consegui emular completamente o estilo de algum outro autor - até por que isto é praticamente impossível - mas consegui incluir alguns elementos de seu estilo no meu próprio e torná-lo mais rico e agradável.

Pensando nestas questões, lembrei-me deste blog, que é o melhor meio que possuo para dar vazão às minhas idéias, e que anda um tanto quanto negligenciado. Talvez esteja na hora de varrer a poeira deste lugar e voltar a escrever aqui.

Olá mundo, o Espadachim Cego voltou.