segunda-feira, 22 de junho de 2009

Vida Dura (Parte 24)

Ao contrário do que o senso comum poderia dizer, o centro de uma grande universidade não é a reitoria, mas o restaurante universitário. Para o diabo com o reitor e suas politicagens, pois o povo quer saber é de comida barata! É no RU onde todas as tribos se encontram pois, afinal de contas, desde o bicho-grilo cheirando à maconha mais chinelão das Ciências Sociais à patricinha mais rica e perfumada da Odontologia* querem poupar dinheiro (o primeiro para comprar livros do Marx e "erva doce da paz" e a segunda para comprar cremes da Avon e suas botas para cair na noite do Madras). Além disso, é o local onde estes tão diversos estereótipos convivem e ocupam as mesmas mesas, os mesmos talheres e, claro, comem o mesmo rango.

Claro, a relação que os estudantes de universidades particulares têm com seus RUs é um tanto quanto diversa da dos estudantes de universidades públicas (especialmente federais). Nas particulares, como todas as outras coisas, ela é definida pelo preço da refeição - sempre caro, entre 5 ou 6 reais. Já nas públicas, a questão do preço surge apenas esporadicamente, geralmente quando a reitoria decide aumentar o preço e o DCE organiza passeatas e protestos e os estudantes ficam gritando até o reitor mudar de idéia e deixar tudo como está, sendo o mais importante a natureza duvidosa da comida servida. Tá, eu sei que as estagiárias de Nutrição estão lá, zelando pela nossa saúde e cuidando para que não ocorra uma intoxicação alimentar em massa, mas a impressão corrente é que elas não têm muito sucesso nesta empreitada, e comer no RU da UFRGS é sempre uma aventura. Já ouvi relatos de já terem servido feijão peludo e da nutricionista responsável vir a publico dizer que aquilo na bandeja de todo mundo não era cabelo, mas carne desfiada (eu gostaria de estar inventando isto). Estes são apenas os casos saídos da Twilight Zone, que acontecem de vez em quando. São realmente bizarros, mas não dá para construir uma sólida reputação apenas com um ou dois grandes eventos, mas nas coisas pequenas e constantes de nosso dia a dia, como o feijão com pedrinhas, o arroz cru, a salada radioativa, as bandejas pré-servidas, o suco sabor caneta marca-texto, a carne que deveria ser estudada pelos geólogos e não por nutricionistas... enfim, todas as miudezas que fazem do RU ser tão nosso!

Diante desta situação, como reagem os estudantes? Continuam comendo lá, mas nem por isso deixam de reclamar. É fato que reclamar do RU é um esporte extremamente popular na UFRGS (e este deve ser meu enésimo post nesta categoria). Contudo, todavia, porém, dentre os muitos dias de comida esquisita (e que pode morder em retaliação), aparecem alguns dias que fazem valer a pena gastar R$1,30 para almoçar: os dias que servem delícias como banana com calda de chocolate.




Claro, a banana deve estar verde e tem pouca calda de chocolate, mas ainda é banana com calda de chocolate! E notem que o feijão com arroz também vem acompanhado com batata palha.

*Só pra constar: aqui na UFRGS esse encontro de titãs é difícil, mas pode acontecer em pelo menos um RU - o do Campus do Vale, onde o curso de Odontologia tem pelo menos algumas disciplinas.

Viva a Sociedade Alternativa!

Sentei-me hoje na biblioteca com duas colegas minhas para estudar. Não foi nada extraordinário - para ser franco, para um observador externo seria uma cena um tanto quanto monótona, pois quase nem conversamos. Ainda assim, senti como se algo fantástico estivesse acontecendo naquele exato momento, naquela mesa onde estavamos sentados fazendo algo tão comum.

Senti algo parecido semana passada, e na outra, durante a reunião do nosso diretório. Mais uma vez, não estavamos fazendo nada que não se faz em qualquer reunião de qualquer coisa, seja de diretório ou de clube de biriba: discutimos pautas, tomamos decisões práticas, ouvimos informes, fizemos piada a respeito de algumas bobagens. No meio de toda a algazarra, deixei-me levar e apenas observar, sentir e ouvir o que acontecia ali, e senti-me profundamente contente, pois foi-me permitido ver um coletivo estudantil decidindo seus próprios rumos, mesmo durante o inferno do final de semestre, e tudo isto sem conflitos partidários e brigas mesquinhas! Pode ser que dure pouco e que esta semana o DAP morra novamente, mas durante os últimos seis meses, como ele viveu! Fiquei ainda mais contente quando um outro colega meu, também presente nesta reunião, falou que sentiu algo muito parecido com o que eu mesmo senti.

Que sensação é essa? A resposta surgiu antes mesmo que conseguisse formular a pergunta - é a sensação de pertencer a um grupo, a algo maior que si mesmo e mesmo assim continuar um indivíduo único - de poder depender dos outros mas continuar independente. Se todo movimento estudantil fosse assim, viveriamos uma verdadeira revolução.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Segredo da Flor de Ouro

Pois é gente, eu sei que a última atualização deste blog foi em 18 de maio, 20 dias atrás. Considerando meu estilo de produção alucinado, isto é um tanto quanto incomum. Bem, talvez não seja. Tenho a teoria de que nossas maneiras de enfrentar a vida variam com o tempo, e que oscilamos entre extremos. Que quero dizer com isto? Que sou preguiçoso estou em uma fase em que não preciso escrever para elaborar meus enigmas existenciais. Talvez o verbo "precisar" não seja o mais adequado, pois ainda gosto de escrever, tanto que preciso disto tanto quanto eu preciso comer ou dormir (por isso estou aqui). Contudo, não estou em um momento produtivo, mas em um momento reflexivo, cujo foco maior está em absorver o que acontece comigo e transformar isto em algo dentro de mim. Talvez, quando este ciclo estiver superado, eu mostre aqui o que fiz com a flor da minha alma.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Experiências subjetivas de um treino incomum

Gostaria de, neste post, relatar uma experiência subjetiva que, apesar de relativamente banal e pouco interessante de um ponto de vista externo, impressionou-me profundamente este final de semana, a ponto de achar essencial descrevê-lo fenomenologicamente aqui.

Todos os sábados à noite, na academia de Kung Fu, ocorrem treinos extras, para aqueles que querem participar de competições e demonstrações públicas. Eles são estruturados de maneira bastante diversa dos treinos regulares, pois o treino físico é grandemente reduzido, deixando muito mais tempo para a prática de formas a serem apresentadas em eventos externos. Outro ponto em que eles diferem da norma é que nem sempre o professor está presente - quando, por um motivo ou outro ele não está, as atividades feitas em conjunto, como o aquecimento e o alongamento, são ditadas pelo aluno mais antigo. Depois que elas são concluídas, cada um vai para seu canto (tanto quanto isso é possível) e treina as formas que decidiu apresentar em eventos externos individualmente. Quando o professor está na academia, ele impõe maior ordem no treino e acaba funcionando como um fator de "coesão social" entre nós e os outros colegas. Porém, isto não muda o fato de que cada um dos presentes tem que praticar suas técnicas independentemente dos demais. Ao final de cada treino, apresentamos as formas que praticamos para os outros, simulando uma competição. Pessoalmente, acredito que este momento final é o mais interessante, por que nele posso ver como os outros se comportam diante de uma situação potencialmente estressante e, principalmente, como eu me comporto nestas mesmas condições - se minha técnica está boa, se esqueço das coisas, se me mantenho calmo e concentrado.

Até então, meus "resultados" nesta apresentação final tinham sido de certo modo desapontadores. Uso este termo por não existirem outros mais adequados, já que, na verdade, não me senti verdadeiramente desapontado ou chateado em nenhuma das vezes, apenas notei que cometi muitos erros e segui adiante. Meu erro mais comum, de longe, é esquecer partes das formas durante as apresentações. Ficava preocupado demais em fazer tudo corretamente, e deixava de prestar atenção ao que estava fazendo naquele instante.

Neste último treino, entretanto, notei uma grande diferença em mim mesmo. Depois de termos aquecido e alongado, nos separamos e começamos a treinar separadamente, como sempre. Só que, desta vez, em quanto fazia minhas formas, senti uma mudança radical: não tinha nenhuma opinião sobre se o que eu estava fazendo estava certo, errado, bom ou ruim, mas me sentia extremamente satisfeito apenas em fazer. Quando parei e tentei observar esta sensação de forma mais atenta e entender o que a causava, ela sumiu, e voltou apenas quando deixei de procurá-la. Mais tarde, na hora das apresentações, ficou decidido que cada um mostraria apenas uma forma, para a coisa toda não levar muito tempo. Tinha treinado duas formas diferentes - uma de mãos livres, e outra de bastão. Enquanto a primeira eu sentia dominar relativamente bem, a segunda eu sentia certa insegurança, pois costumo esquecer ou confundir vários pedaços dela. Quando falaram que apresentariamos apenas uma forma, pensei que seria mais fácil apresentar aquela que dominava mais. Porém, logo em seguida pensei "por que eu não me desafio e apresento a forma mais ansiogênica?" e decidi demonstrar a forma de bastão. Para minha surpresa, pela primeira vez não esqueci nem errei nada. Relembrando a experiência e a colocando em palavras, parece tudo muito engraçado e paradoxal, pois durante minha apresentação eu não pensava, pelo menos não do mesmo jeito que estamos acostumados, pois mesmo assim eu estava plenamente consciente que não estava pensando! Os únicos pensamentos que quebravam este padrão de absorção ocorriam quando eu percebia algum erro na minha movimentação - e assim que o movimento errado fosse corrigido, eu voltava ao estado anterior. Não havia nenhum sentimento ou emoção, mas eu ainda assim (paradoxalmente), me sentia extremamente bem.

Não posso dizer se este estado de consciência que experimentei se tornará cada vez mais freqüente ou se foi apenas um caso isolado. Tomara que seja o primeiro. Se não for, paciência.

domingo, 10 de maio de 2009

Vida Dura (Parte 23)

Decidi pegar nas panelas e cozinhar minha própria janta. Esperem pelo pior.

Televisão, Estágio e Loucura

Fazer estágio nos leva a experienciar coisas que, em nossas vidas "normais", dificilmente o faríamos. Eu, como todo guri criado na década de 1990, cresci assistindo TV, e todas as porcarias que a Globo, o SBT ou a Record resolvessem passar. Não sei se é razoável dizer que fui um perfeito viciado em TV, mas posso seguramente dizer que eu assistia muitos programas, alguns deles bons, muitos deles ruins. Contudo, depois de uma certa época, acho que a partir do meu tempo fazendo cursinho, isso mudou completamente, e este comportamento cessou quase que completamente. Atualmente, só olho TV em quando minha mãe a liga para assistir o jornal e eu passo pela sala para ir até a cozinha. Poderia argumentar que troquei um vício por outro, pois passo boa parte de meu tempo na internet (coisa que rende muitas piadas entre meus colegas de faculdade), mas não creio que seja uma comparação completamente válida, pois o conteúdo veiculado na TV é mais homogêneo, pobre e restrito do que o que aparece na internet.


Resumindo tudo em poucas palavras: não tenho o hábito de assistir TV, e estou feliz com isto. Porém, nem todas as pessoas do mundo se comportam da mesma maneira que eu. Como exemplo disto, gostaria de citar os moradores do Residencial Terapêutico Morada São Pedro, onde atualmente faço estágio básico. Todos eles passaram muito tempo internados em instituições psiquiátricas totais, como clínicas e hospitais psiquiátricos, que são locais onde frequentemente a única opção de lazer é assistir TV (ou, pelo menos, escutar a estática quando o aparelho estraga). Além disso, apesar de agora morarem em casas próprias, onde eles próprios decidem o que farão (salvo alguns detalhes), eles passam muito tempo sem sair, e fazem o que sabem fazer: sentar no sofá e assistir o que for que estiver passando.


Nesta semana que passou tive uma experiência curiosa quanto a isso. Faltando menos de uma hora para ir embora, resolvi passar em uma das casas para conversar um pouco e tomar um café. Quando cheguei lá, como sempre, estavam assistindo a Globo. Eram quase 18 horas, hora da clássica "Sessão da Tarde". Digo "clássica" por que é um daqueles horários podres que ninguém assiste, mas que precisam ser preenchidos com alguma coisa, que acaba sendo um filminho de 10 ou 20 anos atrás. Às vezes passam coisas legais, como "Os Goonies" ou "Conta Comigo" neste programa, mas na maioria das vezes são filmes ruins. Como desta vez que passei lá naquela casa do Morada - era "Velocidade Máxima 2".


O "Velocidade Máxima" original era um filme de ação com uma premissa inovadora - um psicopata instalou uma bomba ao motor de um ônibus cheio de gente, e a programou para explodir caso a velocidade caísse para 20 km/h, colocando motorista, passageiros e autoridades responsáveis em apuros, por vários motivos que tenho preguiça de enumerar. Sendo criativo, empolgante e contar com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves como personagem principal, foi um estrondoso sucesso. Foi aí que os empresários mercenários de Hollywood pensaram em fazer uma seqüência. O psicopata foderia complicaria imensamente a vida de outros 47 clientes (sentados) da companhia municipal de transportes? Não, isso era café pequeno para eles. Por que não sonhar alto, e pôr em risco a vida de centenas de pessoas ao mesmo tempo? Dois ônibus ao mesmo tempo? Não. Um prédio inteiro? A velocidade média de um prédio é Zero km/h, o que iria contra o título da série. Então... por que não um iate transatlântico? Sim, um psicopata ameaçaria explodir um barco inteiro, junto com todos seus passageiros e tripulação por algum motivo pouco convincente. O tamanho do navio emularia o tamanho do ego do cidadão que teve essa idéia e pegaria embalo na comoção de "Titanic", ainda por ser lançado nos cinemas. Idéia genial, não?


Deve ter parecido quando foi concebida, mas quando apareceu nas telas de cinema, ficou óbvio que quem a pariu foi um executivo sanguessuga, e que arte e dinheiro deveriam ser discutidos separadamente, pois o filme é um completo lixo. Keanu Reeves teve insight o suficiente para não estrelar esta porcaria, mas mesma qualidade salutar não pode ser atribuída à Sandra Bullock, que aparentemente estava pensando só na bufunfa (especialmente durante as gravações). Surpreendentemente, justamente por ser tão ruim o filme fica tão bom. A cena do iate descontrolado invadindo uma cidade portuária foi tão malfeita que uma criança de 10 anos poderia dizer que era falso, e precisei me conter muito para não gritar "OLHA A MAQUETEEEE!" e bater os pés no chão para não matar minhas anfitriãs do coração. Contudo, não consegui segurar o riso quando, no clímax, o avião anfíbio do vilão, voando sem um dos flutuadores (como não ficou todo desestabilizado eu não sei), bate numa torre de metal de um petroleiro, cessa imediatamente de mover e EXPLODE TODO O MALDITO BARCO! Como? Não sei. Sei que tive que dizer "que filme fantástico" para explicar aquela risada.


Depois desse final apoteótico, me despedi e fui visitar outra casa. E o que estavam fazendo lá? Assistindo TV, ora bolas! Mas não era um filme a atração principal, mas um programa jornalístico. Bem, o termo "jornalístico" é aqui empregado de forma bastante ampla, de maneira tal que possamos considerar jornalismo profissional programas sensacionalistas e sem o menor rigor investigativo, pois era o "Brasil Hoje" do José Luis Datena. Eu achava que conhecia o Datena, e achava que conhecia programas "pinga-sangue" baratos que passam à tarde na TV aberta, mas Zé Luis é mais do que um âncora de em algum canal bagaceiro - ele é um artista e um revolucionário, que quebra todos os paradigmas. Quando comecei a assistir o programa, a reportagem era sobre um assalto a um posto de gasolina onde uma atendente tinha sido assassinada pelo assaltante após ele ter limpado o caixa. O Datena começou um discurso estupendamente moralista sobre o bandido, mas parou para falar com o Comandante Airton que, com seu helicóptero, sobrevoava a cidade de São Paulo procurando notícias fresquinhas. Sim, você entendeu corretamente: o Datena tem helicóptero só pra ele, procurando desgraça todo dia para dar ibope para o programa dele. E, cacete, é eficiente o tal Airton! Quando o Datena parou de falar sobre tiros desnecessários, o Comandante começou a contar a última morte ou acidente grave: "É Datena, um cidadão aqui caiu de 6 metros de altura quando concertava o telhado" - no que o Datena respondia "6 metros é alto, ele deve ter se machucado bastante". Sabe aquilo que as velhas do grupo de estudos bíblicos faz na hora do chá? Se chama fofoca. Agora, imagine se essas velhas tivessem um HELICÓPTERO para procurar assunto para elas? Essa é a essência do "Brasil Agora". E é essa a beleza do programa: ele é para o jornalismo o que a Nouvelle vague foi para o teatro! Convenhamos, é um feito e tanto, não? Também é digno de nota que, foi durante minhas horas de estágio, fiquei sabendo que Bruna Surfistinha já pensou em dizer para um de seus clientes que ele transava mal e que já gostou tanto de alguns programas que não cobrou pelo serviço.


Não pretendo, com este post, desmerecer meus amigos do Morada por terem mau gosto televisivo - primeiro por que seria presunção minha dizer que o que eles gostam é "ruim" ou "inferior", e o que eu gosto é "bom" e "superior" - levei (e levo) uma vida diferente da deles, e aprendi a gostar de programas menos barulhentos e mais sutis. O que me levou a escrever este post foi o sentimento de estranhamento que tive, tanto entre meus gostos e dos moradores, quanto das minhas reações passadas e presentes a filmes que me desagradavam. Parece-me um bom sinal que eu seja mais capaz de rir deles do que sentir-me injuriado.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Ponto Focal do Caráter

"... Tenho pensado muitas vezes que a melhor maneira de de definir o caráter dum homem seria investigar a atitude particular mental ou moral com a qual, quando ela lhe ocorra, ele se sinta mais profunda e intensamente desperto e ativo. Em tais momentos, há uma voz dentro que fala e diz: "Este é o meu Eu real!" E ao depois, considerando as circunstâncias em que o homem está colocado e notando como algumas delas se ajustam para evocar esta atitude, ao passo que outras não a evocam, um observador de fora poderia profetizar quando o homem fracassaria, quando teria êxito, quando seria feliz ou desgraçado. Tanto, porém, como eu a posso descrever, esta característica atitude em mim envolve sempre um elemento de tensão ativa, de sustentação própria, por assim dizer, e de confiança em que as coisas exteriores desempenhem o seu papel de modo a fazer disso uma inteira harmonia, mas sem nenhuma garantia de que a farão. Ponham-le a garantia - e a atitude se torna imediatamente estagnante e inestimulante para a minha consciência. Tirem-lhe a garantia, e eu sinto (contanto que esteja überhaupt, em condição vigorosa) uma espécie de profundo entusiasmo, de vontade acre para fazer sofrer qualquer coisa, que se traduz fisicamente por uma espécie de dor picante dentro da armadura óssea do meu peito (não se riam disto - é, para mim, um elemento essencial de tudo isso!) a qual, apesar de ser um mero humor ou emoção que não posso exprimir por palavras, torna-se autêntica para mim como princípio mais profundo de toda a determinação ativa e teorética que eu possuo..."

Adaptado de A Filosofia de William James

terça-feira, 21 de abril de 2009

Heróis da Força

O Brunão escreveu recentemente um post muito inspirado intitulado "Arte, Quadrinhos e Revolução". Neste texto, ele relata sua experiência com HQs e mangás, que o inspiraram a viver a vida como uma grande aventura, cheia de desafios heróicos para vencermos. Ele também faz uma breve reflexão sobre qual o propósito das histórias em quadrinhos, especialmente na civilização ocidental, que tem sido até então quase que exclusivamente mercadológico, e o que elas poderiam inspirar de superior em nós.

Como meu amigo, posso relatar uma experiência similar de elevação moral com o legendarium de Star Wars. Esta história, que começou na década de 1970 com um filme, não pode atualmente ser mais chamada de "série", pois cresceu de tal maneira, envolvendo desde produções cinematográficas, programas de TV, histórias em quadrinhos e jogos, que fazê-lo seria mutilar sua beleza. Também não é mais possível chamá-la de "franquia": apesar dos direitos autorais sobre os personagens e lugares criados por George Lucas ainda estarem firmes e fortes em suas mãos (fazendo-o lucrar milhões), eles próprios já não os pertencem mais - por que, apesar de terem sido inspirados em várias outras figuras históricas ou lendárias, tornaram-se parte de uma mitologia plena e viva, que inspira milhões de pessoas ao redor do mundo, por verem ali, naquela tela de cinema ou naquela revista em quadrinhos, no sofrimento de Anakin Skywalker ou na sabedoria de Obi-Wan Kenobi, alguma coisa extremamente importante e bela, e que também faz parte de suas vidas. Estes símbolos universais, arquétipos, não pertencem a ninguém, pois estão no domínio daquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. Pouco me importa se a Psicologia Analítica por ele criada seja empiricamente válida ou não - tudo que me importa é que, a maneira romântica e poética como ele definiu a natureza humana ressoa profundamente dentro de mim, e de algum jeito faz sentido, mesmo que eu não a entenda perfeitamente.

Desta mitologia moderna, o fragmento que mais teve impacto, seja em mim ou no resto do mundo, foi a Sagrada Ordem dos Cavaleiros Jedi. Apesar de ser uma tarefa homérica numa história fantástica como Star Wars alguma coisa chamar mais atenção do que o resto, é um tanto quanto fácil entender por que os Jedi recebem tanta atenção, com seus poderes de levitar objetos com o poder da mente, antever o futuro, lutar com seus sabres de luz com velocidade e potência sobrehumanas e muitas, muitas outras coisas - tudo com o auxílio da misteriosa Força. Na minha infância, nas primeiras vezes que assisti a Antiga Trilogia, foi exatamente isso que mais me impressionava. Quem não gostaria de ser um Jedi, e fazer tudo isto também? Porém, com o tempo, fui gradativamente percebendo que o grande poder dos Jedi, como seu aspecto assombroso, não eram suas habilidades incríveis, mas alguma coisa além delas. No começo, não era muito bem capaz de descrever o que seria este "algo além", mas cada vez mais aprendendo sobre ele, senão com a mente, com o coração. Fui percebendo que, aqui, nesse nosso mundinho tão sem poderes e tão sem graça, existiam pessoas com este "algo além" - que agem com compaixão, bondade, coragem, justiça, altruísmo e amor, e cuja simples presença pode acalmar o espírito mais inquieto. O "algo além" que caracteriza a essência Jedi não é um poder mágico inalcançável, e sim um poder mais do que moral, mais do que ético: é um poder espiritual. A mais poderosa e bela cena dos filmes da Antiga Trilogia, pelo menos na minha opinião, é a de Yoda descrevendo a natureza da Força para Luke Skywalker, em "O Império Contra-Ataca". O que ela tem de especial? Visualmente, não há muitos efeitos especiais, exceto o tosco boneco verde que representa o pequeno grande mestre. Mas eis que o poder dela não reside no que se vê, mas no que se sente! Ali, Yoda não faz apenas uma descrição da Força como um botânico descreveria uma flor, mas deixa brotar do fundo de seu ser como ele vive e sente a Força, e como através dela ele sente-se conectado com todo o universo. Extrapolando desta cena para a série de cinema como um todo, é isto que faz a Antiga Trilogia ser tão melhor do que a Nova Trilogia - o quanto os filmes falam diretamente com o que há de mais profundo e divino em nós. As duas contam a jornada de um herói da família Skywalker, suas provações e seu destino final. Ambas, de certa forma, tratam do destino de todos nós, seres humanos, mas os últimos filmes são por demais materialistas e politiqueiros, pondo de lado o espírito que fez os filmes antigos tão emocionantes. Claro, precisamos levar em conta o Zeitgeist (espírito do tempo, em alemão) em que cada Trilogia foi concebida - a Antiga, durante o auge do movimento Hippie e de seitas religiosas, e a Nova, durante a II Guerra do Golfo e o muito criticado Governo George W. Bush.

Contudo, apesar de acreditar que é o apelo espiritual que fez e faz de Star Wars um enorme sucesso, tenho visto com mais frequencia que o que mais chama a atenção das pessoas que vão aos cinemas ou baixam da internet assistem às séries são os efeitos especiais, e, mesmo quando a filosofia dos guerreios da Força as comove, elas não parecem acreditar que também podem pautar sua vida por ela e, assim, também serem Jedi. Como bem disse o Brunão, é mais fácil encontrar um admirador do Seiya do que alguém que sustente o sonho de realizar todo seu potencial humano. Apesar dele não ter falado em nenhum momento de seu texto em "potencial humano", mas sim em "super-herói", não faço distinção entre essas duas coisas. Talvez, por trás desta fixação material ou apatia espiritual, haja mais do que desinteresse pessoal, mas uma questão cultural de nossa época. Como disse Maslow, em 1968:

"Todas as idades, exceto a nossa, tiveram seu modelo, seu ideal. Todos eles foram abandonados pela nossa cultura: o santo, o herói, o cavalheiro, o místico. Quase tudo que nos resta é o homem bem ajustado, sem problemas, um substituto muito pálido e duvidoso"

É preciso admitir que, nos 41 anos que nos separam da época em que este parágrafo foi escrito, muitas coisas mudaram, especialmente no que diz respeito ao estudo científico dos aspectos positivos da natureza humana, com o movimento da Psicologia Positiva e suas pesquisas em Bem-Estar Subjetivo e Florescimento, e, talvez, como Maslow diz imediatamente após a parte que citei,

"estejamos aptos em breve a usar como nosso guia e modelo o ser humano plenamente desenvolvido e realizado, aquele em que todas as suas possibilidades estão atingindo o pleno desenvolvimento, aquele cuja natureza íntima se expressa livremente, em vez de ser pervertida, desvirtuada, suprimida ou negada."

Ainda assim, mesmo nos atuais modelos teóricos do desenvolvimento humano superior, sinto que falta algo de muito importante - o mesmo que sinto faltar na Nova Trilogia de Star Wars. De maneira um tanto quanto romântica, digo que prefiro ser um cavaleiro Jedi à um indivíduo florescente.

Dignidade humana?

De um certo ponto de vista, a Psicoterapia é uma profissão um tanto quanto engraçada. Não por que a existência humana seja uma comédia sem sentido como querem os nihilistas ou o sofrimento e angústia de nossos pacientes seja ridícula, mas por que os motivos que trazem as pessoas aos consultórios de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, que os fazem sofrer, geralmente são tão insignificantes que é possível rir deles, se podemos nos colocar a uma certa distância.

Eu vejo isso com meus pacientes adolescentes, entre 15 e 17 anos. Não sou tão mais velho do que eles - poderia até dizer que acabei de me formar na escola da adolescência - e as memórias do que me causava angústia três ou quatro anos atrás ainda estão vivas o suficientes para serem fortes, mas longínquas o bastante para serem vistas por outro ponto de vista, mais maduro (espero eu). É bem comum esses pacientes, especialmente durante uma entrevista inicial, ao falarem das brigas em que se meteram em casa, na rua ou em alguma festa, dizerem "eu não me importo com o que os outros pensam: a vida é minha e eu faço o que quero" como se fossem absolutos senhores de si. E, então, quando eu pergunto por que então eles brigaram, me respondem que a mãe o chamou de idiota, o cara na parada questionou a dignidade de sua irmã e sua mãe ou que aquele outro passou a mão na guria dele. Para quem "faz o que quer" e "não se importa com o que os outros pensam" é uma atitude um tanto quanto preocupada com a opinião alheia.

Psicoterapia também é um trabalho delicado. Pode ser óbvio para mim que se eles se importassem menos com o que os outros acham eles estariam sofrendo muito menos, mas para eles, o sofrimento é sinônimo de ter fama de bicha, frouxo ou qualquer coisa assim. Sei disso por que até não muito tempo atrás também eram estas as coisas que mais me assustavam. Também pode ser óbvio para mim que é muito engraçado alguém dar como justificativa para quebrar o nariz de alguém "eu tô pouco me lixando para o que os outros pensam. Além do mais, ele tava olhando torto pra mim", mas para eles, é perfeitamente normal e absolutamente sério. De que adiantaria simplesmente dizer essas coisas para quem não está preparado para ouví-las? Dizer as coisas mastigadas todo mundo faz, e não adianta nada, como aqueles programas para elevar a auto-estima das crianças bem comprovam. Estes adolescentes precisam passar por todo um processo de expansão da consciência, e perceberem por si próprios, como num estalo, o ridículo da situação. É esta expansão da consciência que todo modelo de psicoterapia busca causar em seus pacientes. Claro, muda-se o enfoque de acordo com o psicoterapeuta e sua linha teórica, mas o resultado acaba sendo muito parecido. O método socrático, usado principalmente nas terapias cognitivo-comportamentais, busca, através de perguntas, fazer com que a outra pessoa pense de formas não-convencionais sobre um assunto normal para ela, e o veja de outro ângulo, mais distante, menos sofrido e mais engraçado. Se este objetivo for atingido, pronto! Posso considerar meu trabalho como feito, por que, pode ser que meu paciente sofra novamente no futuro por causa da mesma coisa, mas será então capaz de perceber que aquilo ali é bastante engraçado se se prestar atenção, e parará de sofrer ali mesmo.

Não sei se esta é uma generalização correta, mas creio que todos os sofrimentos psicológicos decorrem disto que poderia se chamar de uma "ultradignificação de si próprio": nos cremos tão importantes para o universo que nos achamos superiores ao ridículo e ao sofrimento. Mas passamos vergonha e sofremos, e sofremos ainda mais por que achamos que não deveria ser assim. Somos, como dizem os nihilistas pós-modernos, insignificantes como poeira para o universo, ou animais com estratégias de sobrevivência que permitem construir foguetes como diria um biólogo, e poderíamos facilmente nos sentirmos mal por causa dessas afirmações. Mas e daí que somos? É indigno sermos o que somos? Nenhum outro animal se preocupa com isso. As lesmas são lesmas, mas nem por isso elas sofrem de depressão! Viver com um pouco menos "dignidade" e um pouco mais de humor certamente nos faria muito bem.

domingo, 19 de abril de 2009

Perguntinha

Certa vez, durante nossa viagem pela Patagônia, no dia 1º de janeiro de 2009, eu e Marcelo estavámos com alguns amigos brasileiros que conhecemos no camping, quando eles começaram a falar de carros. Não era aquela conversa de elevador, do tipo "viu o novo Celta?", mas uma entre pessoas profundamente apaixonadas por todas as coisas feitas de metal e providas de motor. O colóquio, que começara com um elogio ao jipe de um dos presentes, logo se tornou cheia de termos técnicos. É desnecessário dizer que, para eu e Marcelo, estudantes de Psicologia que viajavam sem qualquer veículo próprio, a conversa tornou-se incompreensível a partir do momento que começaram a discutir chassis e velas de motor.

Por que estou contando esta história aqui? Além dela ser engraçada por si própria, ela talvez não seja muito diferente do que faço aqui no blog. Foi muito prazeroso escrever meu último post, sobre Ciência e Psicologia, por tratar de um assunto do meu maior interesse e sintetizar o que andava pensando há um bom tempo, mas não posso dizer que a maioria dos leitores possa dizer que o prazer que sentem ao lê-lo é diretamente proporcional ao prazer que senti ao escrevê-lo, por vir carregado de tantos termos técnicos.

Por isso, resolvi fazer uma pequena pesquisa: você, que lê este blog, o que achou do meu último texto? Deixe um comentário a respeito.

sábado, 18 de abril de 2009

Ciência e Psicologia

Originalmente, quando instalei um contador no meu blog, pensava em usá-lo apenas para isto – contar quantos visitantes o Espadachim Cego recebia. E, de fato, o Bravenet Counter faz isso, como vocês bem podem atestar, mas ele também vem com alguns outros recursos que, talvez por irem um pouco além da mera quantificação, permitem inferências muito mais interessantes.

Destes recursos, o que eu considero mais rico é Visitor Analys (Análise de Visitantes), que permite ver de onde são os leitores das minhas bobagens e o que os trouxe até este blog. Como eu sou mão fechada, uso a versão gratuita do contador, que só disponibiliza as informações dos dez últimos visitantes. Ainda assim, posso atestar que, na maioria dos casos, as pessoas que vêm até o Espadachim Cego são interessadas em Ciências Humanas, especialmente Psicologia.

A Análise de Visitantes não me permite saber se estas pessoas são em sua maioria psicólogos, estudantes de Psicologia ou apenas leigos interessados levemente no assunto. Posso, porém, dar um conselho para todos os que pretendem fazer a graduação em Psicologia um dia ou que entraram este ano na faculdade: preparem-se para estudar uma disciplina cuja cientificidade é altamente contestada, apesar de sua relevância. Que quero dizer com isto? Quero dizer que, por mais que nosso campo de atuação seja amplo e nosso trabalho como psicólogos seja requisitado e importante para a sociedade, sempre haverá um grupo considerável de pessoas que questionará os fundamentos teóricos e a validade do que fazemos. Estes céticos encontram-se em contextos muito diferentes – são filósofos, cientistas da área das exatas (Física e Matemática), e mesmo cientistas sociais e psicólogos – mas que compartilham a dúvida (muitas vezes a certeza) a respeito de um projeto de ciência psicológica. A principal questão que eles levantam é: pode a Psicologia ser considerada uma ciência?

Outras perguntas surgem desta: tal questionamento é positivo, quero dizer, traz algum benefício para a Psicologia ou a sociedade? Pessoalmente, acredito que a resposta para esta questão é afirmativa. Primeiro, por que trabalhamos com um assunto realmente delicado, onde qualquer certeza dogmática a respeito de nossas capacidades e limitações seria potencialmente fatal, seja para nosso projeto científico quanto para as pessoas que atendemos, e um questionamento saudável a este respeito, seja ele incitado por nós próprios ou por outros campos de conhecimento, nos ajuda a mantermos a humildade e o foco. Segundo, a discussão sempre atual da cientificidade da Psicologia, mesmo que não traga nenhum outro benefício concreto, nos proporciona uma oportunidade impar de exercitar nossas capacidades cognitivas e conhecer outros pontos de vista, o que é sempre necessário (e bem vindo) para a criação de novas redes neurais e o fortalecimento de nosso intelecto.

A segunda questão é mais relevante: que argumentos são utilizados por aqueles que consideram que a Psicologia não pode ser considerada uma ciência? Não creio ser capaz de fazer uma lista exaustiva de argumentos, mas o principal (e que mais aparece em discussões) é que a Psicologia, mesmo passados mais de 100 anos desde sua fundação oficial e muitos progressos tecnológicos, ainda não atingiu o objetivo da ciência clássica: a descrição, previsão e controle dos fenômenos estudados – em outras palavras, dar respostas certas e garantidas a respeito de seu objeto de estudo. É inegável que, se comparada com ciências mais tradicionais, em especial a Física, a Psicologia não progrediu muito neste sentido, pois, apesar da maioria dos processos psicológicos estarem descritos em muitos livros de forma satisfatória, tanto nossa capacidade de previsão quanto de controle de comportamentos futuros é parco, mesmo em suas correntes mais experimentais. Como uma estudante de Filosofia deixou bem claro para mim em uma discussão há algum tempo atrás, isso se deve, principalmente, à subjetividade humana – pois cada ser humano é único e irrepetível, não havendo, portanto, parâmetros para compará-lo com outros e assim criar uma ciência do ser humano.

São argumentos fortes e contundentes, que aparentemente desmontam todo o projeto da Psicologia científica, colocando-a no mesmo nível de rigor que a astrologia e a sabedoria popular. Isso poderia desanimar qualquer interessado em Psicologia, e com razão. Entretanto, se refletirmos com cuidado a respeito das posições teóricas acima apresentadas, perceberemos que elas não passam de opiniões. Não há nenhuma razão empírica, nenhuma experiência bruta que confirme ou refute a viabilidade de uma ciência do comportamento humano, apenas as pessoas interessadas tomam partido de uma ou de outra possibilidade. Os argumentos que aqui apresentei são argumentos racionalistas. Para esta escola, cujas origens podem ser traçadas até Platão, a verdade do mundo só pode ser compreendida através de seu conceito perfeito. Ou seja, só o que é perfeito, advindo daquele plano das idéias de que Platão falava, é verdadeiro, ao passo que o que temos aqui e agora é apenas uma cópia mal-feita, na melhor das hipóteses, ou uma grandíssima perda de tempo, na pior.

Francamente, creio que tal atitude é prejudicial. Ao adotarmos um padrão epistemológico de verdade tão rígido e inalcançável, tudo o que conseguimos, na maioria das vezes, é desestimular qualquer esforço positivo na busca pela verdade, pois, afinal de contas, é impossível atingi-la e, assim, inútil. É uma forma patológica de ver a vida, e os milhares de homens e mulheres que desistem de encarar a vida por terem certeza de que errarão em algum momento e que isto será terrível só reforçam minha opinião.

Proponho uma forma diferente de encarar a ciência e a Psicologia. Não é uma forma nova ou original, pois foi proposta há muitos e muitos anos, pelo brilhante filósofo e psicólogo estadunidense William James: o pragmatismo. Nesta forma de pensar, qualquer idéia que nos ajude a lidar com a realidade de maneira efetiva é, pelo menos em parte, verdadeira, pelo menos no que tange a parte da realidade que afeta. Mesmo que este mundo seja uma ilusão, esta ilusão nos circunda e nos afeta, e não podemos simplesmente ignorá-la e apelar para conceitos mentais perfeitos, abstratos e distantes. Trabalha-se com um processo constante de descoberta e ampliação dos horizontes, pois se baseia na experiência, e não nos ideais, para fazer ciência. Na Antiguidade, era verdade que o mundo era um disco chato, pois era desta forma que os povos de então organizavam a informação que coletavam do universo, e tornavam-se capazes de navegar e desenhar rotas terrestres de comércio; na Idade Média, era verdade que o Sol girasse em torno da Terra redonda, pois com este modelo os navegantes e comerciantes ampliaram suas capacidades de orientação; hoje, a verdade é que a Terra gira em torno do Sol, e graças a essa informação somos mais capazes que nossos antepassados. Quem, destas três distintas épocas, está mais próximo da verdade em Astronomia? Obviamente, atualmente temos maiores conhecimentos sobre o funcionamento das galáxias, mas isto não teria sido possível se não fossem os astrônomos de eras passadas formularem hipóteses imperfeitas, porém melhores e mais verdadeiras que as anteriores. Da mesma forma, daqui a 100 ou 200 anos, se a humanidade continuar existindo de alguma forma, o conhecimento de que dispomos atualmente, seja sobre Astronomia, Medicina ou Psicologia parecerá irrisório, mas terá sido de crucial importância para as descobertas futuras.

Por isso, dentro do paradigma pragmático, é possível fazer da Psicologia uma ciência plena, pois é inegável que ela tem feito progressos, lentos mas seguros, na explicação dos comportamentos humanos. São as pessoas criaturas únicas e irrepetíveis? Sim, são, mas isto não quer dizer que cada um seja uma espécie em si mesma, pois todo homem e toda mulher, por mais diferentes que sejam entre si, compartilham da mesma natureza biológica – contando com estômago, pulmões, cérebro e demais órgãos – dos mesmos traços de personalidade – extroversão, socialização, neuroticismo, abertura à experiência e Realização – e buscando as mesmas coisas – justiça, beleza, bondade, perfeição. Estes pontos em comum são iguais em todas as pessoas de todas as culturas? Não, mas pelo o que se sabe até o momento, são iguais o suficiente para a criação de instrumentos de avaliação psicológica equivalentes, seja no Japão, Alemanha ou nas culturas esquimós do Canadá. De certa forma, somos tão semelhantes entre nós quanto são os cachorros ou os gatos entre si – as diferenças são muitas vezes gritantes, mas ninguém de bom senso diria que um Pastor Alemão e um São Bernardo são incomparáveis por serem tão diferentes. Se não fosse assim, o Homo sapiens nunca teria povoado todo o globo terrestre, pois cada família ou clã que se distanciasse tornar-se-ia uma espécie diferente, e a comunicação entre diferentes povos seria tão impraticável quanto é entre humanos e chimpanzés.

Por isso, acredito que a Psicologia não só pode tornar-se uma ciência como já é uma, pois está constantemente descobrindo coisas novas a respeito de nós mesmos. Contudo, os ideais de descrição, previsão e controle dos fenômenos, tão caros para os cientistas ortodoxos, precisam ser reformulados, ou encarados de outra forma. Um psicólogo não pode, por motivos práticos ou éticos, controlar outro ser humano da mesma forma que um químico controla reações entre substâncias, nem prever o comportamento de uma pessoa como um físico prevê o movimento de um corpo em movimento, pois precisa levar muitas variáveis em conta ao mesmo tempo, podendo desconsiderar várias por não conseguir computá-las. A Psicologia nunca será uma ciência como a Física ou a Química, que em seus campos de ação reinam supremas. Entretanto, isto não significa que devemos renunciar completamente ao status científico. Poderemos descrever fenômenos psíquicos de maneira incompleta, mas ainda conseguir prever quando um paciente caminha em direção à sua autodestruição, impedi-lo de prejudicar a si mesmo e guiá-lo rumo a uma vida melhor. Uso exemplos clínicos, por ser este meu campo de atuação e onde me situo melhor, mas o mesmo pode ser dito de muitos outros casos em muitos outros contextos onde a Psicologia se insere – cresceremos, de forma imperfeita, mas constante.

Referências
James, William (1943). A Filosofia de William James. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Notas sobre Psicologia Positiva

A Psicologia está mudando muito, e rápido. Quem quer que esteja interessado nos aspectos positivos da natureza humana encontrará uma vasta literatura, desde livros publicados até artigos indexados em sites como o Scielo ou o Portal de Periódicos da CAPES, cujo assunto principal é a Psicologia Positiva, o estudo das virtudes e forças de caráter dos seres humanos. Trinta anos atrás, isto seria na melhor das hipóteses um sonho distante.

Contudo, apesar disso, não significa que não fosse possível já naquela época encontrar alguma coisa a respeito deste assunto, pois autores como Erich Fromm, Carl Rogers e Abraham Maslow estavam no auge de suas carreiras, desbravando estas áreas que hoje vemos florescer. Gosto muito destes três autores que citei, mas o que mais me impressionou e cativa é o terceiro, o velho Maslow, que em suas obras deu vôos filosóficos ousados e inovadores. Na Psicologia acadêmica e nas faculdades de Administração, ele é mais conhecido por sua Teoria da Motivação Humana, frequentemente representada por uma pirâmide de necessidades. Contudo, se posso fazer isto, digo que sua maior contribuição para a ciência foram seus apontamentos sobre Auto-Atualização: a necessidade humana de transcender a si mesmo e crescer.

A Auto-Atualização, tal como muitos outros conceitos desenvolvidos nos anos 1960 pelos teóricos humanistas, passou por uma revitalização nos anos 1990 e 2000 e voltou a ser pesquisado pelos psicólogos positivos, mas com o nome de “Flourishing”, que poderia ser traduzido para português como “Florescer” ou “Desabrochar”. Um nome muito bem escolhido, diga-se de passagem.

Há uma semelhança em particular entre estas duas teorias que gostaria de ressaltar: a maneira como saúde e doença são encaradas por ambas. Maslow acreditava que a clássica divisão cartesiana entre o que é saudável e o que é patológico muito ineficiente, por depender demais em definições arbitrárias do que é bom e o que é ruim para uma pessoa, além de todo o histórico destas duas palavras. Para substituí-las, Maslow propôs o conceito de “Humanness”, um termo cunhado por ele próprio, que poderia ser entendido como “Nível de Humanidade”: quanto mais “humano” for alguém, mais feliz, desenvolvido e, enfim, saudável será uma pessoa, e quanto menos “humano”, mais infeliz, atrofiado e patológico. Ele defendia que a principal vantagem deste modelo era a possibilidade da criação de escalas psicológicas, capazes de medir objetivamente quão “humano” uma pessoa é.

Isto foi feito de fato pela moderna Psicologia Positiva, com o “Continuum de Saúde Mental”, cujos extremos são o Desabrochar (Saúde Mental) e o “Languish” – Fenecer, Decair (Psicopatologia). Esta escala leva em conta dois grandes fatores: a presença de aspectos positivos na vida de uma pessoa, tal como afeto positivo, rede social efetiva, sentimento de autoeficácia e sentido na vida, e ausência de aspectos negativos. Estes dois fatores, ao contrário do que poderia se imaginar, são completamente diferentes e não são extremos de um mesmo continuum. Claro, eles se correlacionam de forma negativa, mas é possível estar feliz e triste ao mesmo tempo.

Segundo uma pesquisa realizada recentemente, cujos resultados foram publicados no artigo “The Mental Health Continuum - From Languishing to Flourishing”, cerca de 17% da população dos EUA enquadra-se nos critérios de Florescimento, 56% como moderadamente saudáveis e não apresentando doença mental, e 18% como fenecendo (sendo que cerca de 4% apresentam comorbidade de Depressão Maior). Em outras palavras, quase 20% da população dos EUA está em franco processo de “tornar-se pessoa”, para citar o livro mais famoso de Carl Rogers, enquanto 17% segue o caminho contrário, de encolhimento existencial, e mais da metade da população fica no meio-termo: não está doente, mas está só um pouco saudável. Indiferentemente se estes são números positivos ou negativos para a nação estadunidense, fica a pergunta: quem são as pessoas que se enquadram nestes 20%?

Maslow fazia uma diferenciação entre dois tipos de pessoas auto-atualizantes: os comuns e os transcendentes. A diferença entre estes dois tipos reside na quantidade e na qualidade das experiências culminantes, sentimentos de plenitude e estados de consciência mais elevados e êxtases místicos, por eles vivenciadas. Os primeiros são pessoas boas, que cultivam boas relações e progridem em termos humanos, mas não vão muito além disso. Os segundos, por outro lado, muitas vezes foram considerados como sobre-humanos, seres tão desenvolvidos que parecem pertencer a outra espécie que não a Homo sapiens. Em outras palavras, são os santos, os heróis e os gênios; os Gandhis, os Lincolns e Einsteins. Como eles se tornam o que são, e como diferenciá-los dos 20%? Maslow acreditava que só 3% de toda a população do mundo atingia este patamar de Auto-Atualização. Identificá-los e estudá-los talvez não seja tarefa da Psicologia Positiva, mas de uma Teologia Empírica, tal como descrita por Aldous Huxley no prefácio de “A Filosofia Perene” – a Ciência da Iluminação Humana.