quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As Provações da Faculdade XXXI

Duas horas para inventar uma conclusão decente para o trabalho. Minhas conclusões fedem.

As Provações da Faculdade XXX

Toda vez que olho para o relógio, me apavoro, pensando se vai dar tempo de escrever tudo.

Lições da Vida Universitária

São duas e meia da manhã e eu deveria estar dormindo, mas como fiquei assistindo vídeos estupidamente engraçados sobre filmes absolutamente escrotos e tenho um trabalho para entregar AMANHÃ sobre educação não-formal, eu estou acordado, e levemente hiperativo.

O trabalho, esqueci de mencionar, é em grupo, e falta eu escrever a minha parte. Isto está sendo particularmente complicado por que não consigo pensar em nada bom, por menos que seja. Decidi dar uma lidinha no que meus colegas já tinham escrito. Ainda na primeira linha do primeiro parágrafo, dou de cara com a seguinte oração: "Não demorou para que percebêssemos o intrincado e complexo caminho que se abria uma vez que tal pergunta foi feita."

Meus colegas estão enchendo murcilha. Isso fica evidente pelo fato de que alguém decidiu escrever duas palavras sinônimas na mesma frase. Dizer que algo é "intrincado e complexo" é o mesmo que dizer que a água é "molhada e úmida". Eu conheço bem demais o brainstorming de onde esta aberração lingüística saiu. Algum colega meu (posso até dizer o nome dele), também em plena madrugada, decidiu começar a escrever o texto e pensou "essa porra tá curta demais... eu preciso de mais linhas. Já sei! Eu vou colocar umas palavras complicadas a mais aqui e vou dar a impressão de que eu li mais do que as revistas que meu dentista deixa na sala de espera!". E, assim, "intrincado e complexo" vira parte do texto. Não culpo meu colega. Também já fiz isso. Com as MESMAS DUAS PALAVRAS QUE ELE USOU POR QUE EU QUERIA ENROLAR E AO MESMO TEMPO DEIXAR MEU TRABALHO COM CARA DE ERUDITO! Já ouviram falar em marcadores biológicos de doença? Resumidamente, se você tem um, também tem uma doença. Nasceu um bebê com cara de asiático em uma família de suecos? Síndrome de Down! Olhos inchados, vermelhos e riso fácil? Alguém fumou maconha! Um alienígena saiu de sua barriga e estourou as suas tripas? Você é Sigourney Weaver! "Intrincado e complexo" é o marcador literário que indica claro desejo de enrolação, especialmente se aparecerem nas PRIMEIRAS DUAS LINHAS do trabalho.

É uma tática grosseira para fazer volume no trabalho, que, além de desnecessária, é um tiro no pé. Desnecessária por que os professores, a ABNT e mesmo a APA fazem de tudo para que nossos trabalhinhos pareçam mais rechonchudos do que realmente são, começando com o infame espaçamento 1,5 entre as linhas, passando pela introdução e conclusão e finalizando com as malditas referências. Um tiro no pé por que faz quem quer que esteja corrigindo o trabalho ative "Código Amarelo de Ensebação". Eu fico imaginando o que meus professores pensam quando vêem uma coisa dessas:

-"Intrincado e complexo"? Espera um pouco, essas palavras não significam a mesma merda? Por que diabos esses animais colocaram uma do lado da outra? Puta que pariu Hermes esse trabalho deve tá uma merda. Deixa eu ler isso com mais cuidado.

E, como frequentemente ocorre, o trabalho realmente está uma droga! Só que, se não fosse o nosso marcador literário, talvez o professor nem levantasse a hipótese de seus queridos aluninhos serem uns folgados. Há modos e modos de fazer trabalhos ruins e com pouco esforço, alguns mais sutis do que outros. Talvez você seja um destes escolhidos pela natureza que não só conseguem escrever um monte de abobrinha, como arrumam um séquito de seguidores que lê cada imbecilidade sua como se fosse o mais precioso bálsamo sagrado (alguém aqui poderia citar uma pessoa assim?), e, talvez o professor vire seu fã também! E eu sei, "séquito de seguidores" é tão ruim quanto "intrincado e complexo", mas eu não ganho nota nenhuma por escrever este texto e vocês não ganham dinheiro nenhum para lê-lo (até, bem pelo contrário, vocês gastam dinheiro para acessar esse amontoado de absurdos que é a internet e a blogosfera). Mas isso não vem ao caso aqui! O que eu quero dizer é que é plenamente possível passar em uma disciplina na faculdade realizando trabalhos medíocres ou até mesmo estúpidos, desde que você saiba fazer isto de uma maneira bonitinha.

E esta maneira bonitinha não inclui "intrincado e complexo". Provavelmente inclui neologismos retardados e expressões nonsense como "maximização de dividendos", "upgrade técnico-industrial do paradigma quântico" ou qualquer palavra nova que apareça em livros de Psicologia em geral. Mas nunca use "intrincado e complexo". Diga que é sofisticado, diga que é complexo, ou diga que é intrincado. Mas sob hipótese alguma, use "intrincado e complexo" na mesma frase. NUNCA!

Agora, com licença, preciso mudar aquela porcaria de trabalho antes que seja tarde demais.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Fast Food

Estava voltando para casa, aqui em Caxias, quando decidi que iria comer alguma coisa no caminho (já que a geladeira daqui está quase vazia). A primeira coisa que pensei foi "onde posso encontrar um lugar barato para comer?". A única resposta que consegui pensar foi "na Lancheria do Parque... na Osvaldo Aranha. Em Porto Alegre". O bairro onde moro é meio desprovido de estabelecimentos de alimentação, mas não consegui lembrar de nenhum lugar aqui em Caxias que seja tão bom e barato quando a fabulosa Lanchera. Decidi que iria comer um Xis mesmo, do Casagrande. Paguei dez reais por um troço que em Porto Alegre pagaria cinco.

Esta é a prova cabal de que sou mais portoalegrense do que caxiense atualmente.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Resoluções de Intervalo de Aula

Hoje eu decidi que, um dia, terei uma banda de hard rock. E ela vai se chamar Apocalipse Mescalina.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

As Provações da Faculdade XXXIX

Minha programação para esta noite: dois textos sobre avaliação neuropsicológica e um trabalho de psicopatologia. Pelo menos nenhum deles envolve Dinâmica de Grupo e Pichon-Riviere.

:)

Metaética

Meu post sobre os estágios rendeu uma discussão interessante com o Marcelo esses dias na faculdade. Meu texto lhe fez pensar no paradoxo da Metaética – a prática de moldar a própria ética futura, escolhendo as experiências que vivemos e como as vivenciamos, tomando por base nossa ética atual. Em outras palavras, a metaética é a resposta prática para a pergunta “quem eu quero ser no futuro?”.

Para ficar no mesmo tema do outro post: que personalidade quero ter? Se eu fizer apenas aquilo que o currículo manda, eu vou ser um tipo de psicólogo, provavelmente acomodado e preguiçoso; se eu participar das comissões do DAP, fizer extensão e ajudar em grupo de pesquisa, serei um psicólogo mais versátil e, espero, eficiente; mas eu posso escolher desde o primeiro semestre estudar apenas Neuropsicologia, e fazer todas as minhas atividades, desde as extracurriculares até os estágios, e me tornar um grande, porem limitado, especialista. Qual dos muitos caminhos disponíveis é preferível? É aqui que reside o paradoxo: não há como saber, baseado na minha conduta ética atual, quais as “escolhas ótimas” que devo fazer em ordem de melhor formar minha ética futura. Posso achar que a decisão que tomo agora é a melhor de todas, mas futuramente eu conclua que deveria ter tomado outro curso de ação – ou pode ser até que eu seja confrontado com uma situação muito semelhante e aja de forma muito diferente.

No fim, como disse o Marcelo, a Metaética é um paradoxo justamente por que não existe: ela é uma tentativa da própria ética de mudar a si mesma, e nunca será completamente satisfatória, por que, ao se basear na maneira como pensamos atualmente, sempre deixamos de lado muitas variáveis que interferirão no nosso comportamento futuro. Um exemplo bem representativo é o que acontecia com muita freqüência com os estudantes de Psicologia do currículo antigo da UFRGS: no primeiro semestre, eles eram bombardeados de tal maneira com a parte científica da psicologia que eram levados a odiar a psicanálise, mas, no final do curso, depois de muitas horas lendo Lacan e assistindo as aulas “fantásticas” de alguns professores de psicanálise, quase todos tornam-se psicanalistas de carteirinha. Mas ninguém no primeiro semestre poderia prever com segurança que isto aconteceria – da mesma forma que meus veteranos não podem prever o que vai acontecer conosco, já que estamos no currículo novo, que é muito diferente (não que eles não tentem, apenas não conseguem).

As mudanças em nosso código de conduta muitas vezes são tão profundas quanto esta, o que torna a prática da metaética um tanto complicada, mas não inócua. Podemos não saber o que vai acontecer no futuro, nem como iremos reagir, mas podemos tentar nos fortalecer e nos tornarmos o melhor que pudermos ser, sendo o melhor que podemos aqui e agora. Acredito que esta é a melhor maneira que temos de moldar o que seremos.

A Arte de Fazer Indiadas

Eu sou um cara aventureiro. Desde o primeiro ano da faculdade, e muito tempo antes de entrar para a UFRGS, me meto em jornadas e viagens cujos níveis de conforto estão aquém do agradável, tanto que tornou-se sinônimo para mim "aventurar-me" com "ferrar-me". Ou como disse o velho Bonifácio, durante um acampamento especialmente chuvoso e complicado: "vocês se espreguiçam ao sol na praia! Isso aqui é um acampamento!" Quando ele falou isto, eu fiquei levemente irritado, já que ele tinha recém chegado ao local onde estávamos dormindo, e suas bandeirantes não tomaram um pingo de chuva em seus cabelos alisados com chapinha, mas hoje vejo a sabedoria de suas palavras. Moleza? Eu tenho isso em casa! Tô aqui pra sofrer, me desafiar e ter uma história para contar!

Contudo, esta minha vontade de ir além e viver uma vida significativa me fez desenvolver outro traço de personalidade: um certo desprezo por hedonistas. Para ser mais preciso, fiquei meio elitista. Sinto isso bastante quando vou correr no Parque dos Macaquinhos em dias de sol, e tenho que ficar desviando dos tiozões e demais preguiçosos que só saíram de casa por que seria fácil. Prefiro correr em dias de chuva ou muito frios por que, se tenho que desviar de alguém, é de alguém que escolheu sair de casa no pior dos climas e transcendeu a si mesmo. Merece meu respeito. OK, algum chato poderia escrever um comentário dizendo que eu devo respeitar todas as pessoas, sejam elas preguiçosas ou não. Minha resposta para isto é: eu respeito. Mas isto não significa que eu deva tratar todos como se fossem farinha do mesmo saco. Admiro muito mais as pessoas auto-transcendentes e disciplinadas pois sei como é difícil ser assim.

Tenho outro exemplo mais recente, que aconteceu faz uma semana ou menos. Nosso Diretório Acadêmico está organizando uma viagem para um congresso que ocorrerá em Buenos Aires em dezembro. A procura para ir neste evento está tão grande que já fechamos dois ônibus inteiros de 40 lugares e ainda há pessoas na lista de espera. Fomos ano passado neste mesmo congresso, mas com muito menos pessoas. E no ENEP foram só 7 estudantes de Porto Alegre. E uma veterana minha, que vai este ano pela primeira vez para um congresso com o pessoal, perguntou se no albergue em que ficaríamos havia banheiros em cada quarto. CACETE! QUER BANHEIRO NO QUARTO FICA EM CASA! OK, ela tem a opção de pagar um pouco mais e ficar em um hotel com banheiro individual, e isso é problema dela, mas fico indignado mesmo assim de querer viajar e não querer pagar o preço. Fazendo uma pequena comparação, sou como aquele cara que deixa de ser fã de uma banda quando ela deixa de ser underground e vai para o mainstream, como se o que me fazia admirar as músicas se perdesse com a fama. Congresso de Direitos Humanos e Saúde Mental em Buenos Aires? Bleh. Muito popular.

Mas minha indignação é, mais uma vez, sem sentido. Cada um escolhe ser o que bem entende. Se a maioria dos meus veteranos querem ser "pirralhos de carpete", isso não é da minha conta. Pois eu prefiro pegar um ônibus capenga para qualquer lugar distante, viver tanto quanto puder e tornar-me maior do que era.

domingo, 28 de setembro de 2008

Coisas que não quero para minha vida.

Clique na imagem para ampliá-la.

Fonte: Subnormality.

Eu e a Psicanálise

É bem comum, entre pessoas leigas, confundir Psicologia com Psicanálise. A primeira é a ciência ampla que estuda todo o espectro de fenômenos humanos, e a segunda uma abordagem teórica-clínica que, apesar de ser uma parte muito importante da Psicologia, não é sua totalidade. Ainda assim posso garantir, com possibilidade máxima de erro em 1%, que todos os estudantes de Psicologia do Brasil, estejam formados ou não, ao falarem de seu campo de atuação para alguém que acabaram de conhecer (num barzinho, por exemplo), já tiveram que responder a comentários sobre análise e Freud (os mais comuns sendo “tu está me analisando?” e “o que Freud diria sobre meu hábito de [insira bizarrice aqui]?"). E posso garantir também que todos foram capazes de responder de forma mais ou menos satisfatória, sendo fãs de Freud and buddies ou não.

Creio que seja necessário um pouco de história para explicar por que isto acontece. Como vocês podem imaginar, o mundo era um lugar muito diferente em 1895 do que é hoje. A diferença que acredito ser mais significativa para este texto é na Psicologia, tanto como ciência quanto como fenômeno.

No final do século XIX e início do XX, a ciência dominava porções cada vez mais amplas da natureza, através da adoção de metodologias mais rigorosas, que consistiam em estudar essencialmente apenas aquilo que podia ser visto e quantificado de alguma maneira. Reinava o pensamento no mundo ocidental que, através da ciência e da racionalidade, nada seria impossível. E é neste ambiente que nasce a Psicologia. Tomando como modelo as ciências mais velhas, os psicólogos da época buscam estudar a consciência e descobrir suas partes utilizando a mesma metodologia que fizeram o sucesso da Física e da Biologia. Mas como estudar um objeto tão complicado como o ser humano desta maneira? Por causa disto, a Psicologia tornou-se uma ciência humana um tanto quanto distante dos seres humanos que se propunha a estudar. Esta fé na racionalidade não se restringia apenas à ciência, e estendia-se a praticamente toda a sociedade ocidental. Falava-se muito em virtudes, e escondia-se todo o tipo de pecado e sujeira, especialmente a sexualidade, que era reprimida de forma muito dura.

E, no meio de tudo isto, longe da academia e cuidando de sua clínica particular, se encontrava o jovem neurologista Sigmund Freud. Ele estudara junto com alguns dos mais renomados psicopatologistas e psiquiatras da época, especialmente Josef Breuer, com quem escreveu o agora clássico “Estudos sobre a Histeria”. Com base neste livro, Freud desenvolveu uma teoria revolucionária do comportamento humano: não somos criaturas completamente racionais, nem virtuosas. Somos, na maioria dos casos, determinados por variáveis inconscientes e pouco louváveis, e que somos criaturas essencialmente sexuais. Se dissermos isto hoje em alguma palestra por aí, poderemos causar certo mal-estar entre os presentes, mas nada digno de nota, pois isto se tornou parte do senso comum. Na hipócrita sociedade do começo do século XX, onde todos os homens de respeito tinham uma amante e falavam de castidade, isto foi um verdadeiro choque. Freud iniciara uma verdadeira revolução paradigmática, injetando sangue novo na Psicologia e na Psiquiatria, e até hoje seus escritos cheios de insights inspirados causam polêmica, e é impossível estudar Psicologia sem ler nenhum de seus textos.

Se ela ler este texto aqui, minha professora de História da Psicologia vai ter uma crise de consciência por ter me dado aula, pois resumi grosseiramente mais de um século de muitas reviravoltas, mas isto explica porque todos os estudantes de Psicologia são capazes de falar de Freud. Além de impossível, é indesejável para qualquer estudante de Psicologia não ler nenhuma de suas obras. Curiosamente, entre os psicanalistas que me dão aula não há nenhum freudiano. Nosso amigo Sigmund era um homem muito inteligente, e atraiu muitos discípulos, mas ele também era dogmático e tirânico, proibindo seus seguidores de alterarem sua teoria. Isto gerou muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, que por sua vez também geraram muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, tornando a psicanálise muito fragmentada. No nosso Instituto de Psicologia, os psicanalistas seguem os ensinamentos de Jacques Lacan, que pregou um “Retorno à Freud”, e reinterpretou toda a teoria psicanalítica original de forma muito... original. E é entre os lacanianos que devo situar minha relação com a psicanálise.

Já entrei na faculdade detestando a psicanálise. Meu pai, já formado em Psicologia, muito criticou os psicanalistas, e até me mostrou um livro absolutamente incompreensível (original, portanto) escrito por um. Era, no primeiro semestre, um ferrenho defensor das Terapias Cognitivo-Comportamentais e de sua adoção. Mas eu era bem dogmático também, e sem muitos argumentos. As conversas com meus colegas, as leituras e as aulas me levaram a um gradual afrouxamento de minhas convicções. Tive várias fases: a cognitiva, a comportamental, a humanista e também a psicanalítica. A cada leitura, a firmeza de minha fé era abalada, pois era levado a considerar todos estes pontos de vista, por absurdos que possam ter soado aos meus ouvidos, poderiam estar corretos. Tive a obrigatória crise existencial teórica pela qual todo bom estudante de Psicologia passa um dia. Convenci-me da veracidade de muitos deles, inclusive de muitos psicanalistas. Porém, por mais tolerante que me tornara, nunca ficara completamente satisfeito com a psicanálise que me é ensinada. Sim, eles podem estar certos apesar de serem incompreensíveis, herméticos e empolados, e posso no futuro tornar-me um lacaniano. Só que duvido muito.

Contudo, muito recentemente, cheguei à definitiva conclusão de que nunca serei um psicanalista. Em nome da diversidade teórica, inscrevi-me em dois cursos de extensão diferentes: o primeiro, era sobre “A Interpretação de Sonhos” de Freud, e foi dada por um dos maiores expoentes brasileiros em psicanálise lacaniana; o segundo, apesar de intitulado “Os Conceitos Fundamentais da Psicanálise Freudiana” também é dado por uma seguidora de Lacan. No minicurso sobre sonhos, o professor falou que a força de vontade é importante e nos trouxe muitos progressos, mas que no fim, somos sujeitos do desejo – ele manda em nós. E na última aula de “Conceitos Fundamentais...”, a professora falou que o amor não existe. Ele é uma mera ilusão, mas que podemos encontrar uma boa parceria e viver uma vida relativamente confortável. É a filosofia do status quo: vivemos nossa vida miserável fingindo que estamos no melhor dos mundos, pagamos o analista para ele ficar nos escutando e confirmando nossa mentira diária, mantemos tudo como está por que não há esperança e todos ficam felizes com isto. Nenhuma discussão epistemológica, nenhum texto absurdo falando sobre as gônadas das pombas e nenhum professor profundamente prepotente me convenceram de forma tão contundente que a psicanálise lacaniana é um absurdo e uma perda de tempo quanto estas duas afirmações, ditas de forma tão sóbria e com ares de tamanha sabedoria. Foi assim que descobri que não quero ser mais um destes acomodados.

É interessante notar que, pelo menos na UFRGS, existe uma dicotomia que meus bixos muito apropriadamente chamaram de “A Psicanálise versus o Resto do Mundo”. Neste conflito, a psicanálise coloca-se como defensora de toda subjetividade e liberdade humanas, contra todas as outras forças positivistas da ciência, que busca esmagar a tudo e a todos com sua objetividade controladora. Ó, a ironia!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Força Desafiadora do Espírito

Acho que um dos maiores problemas da humanidade é a apatia, aquele estado de ânimo que nos faz encararmos as paredes de casa o dia ou dormindo o dia inteiro, nos deixando levemente deprimidos, mas ao mesmo tempo sem vontade de fazer nada, criando um círculo vicioso que nos leva a ter cada vez menos vontade de fazer qualquer coisa. E isto vai lentamente se ampliando, tomando proporções mais globais, até que conseguimos instalar um episódio depressivo maior, com direito a dignóstico e tudo.

Falo por experiência própria. Hoje, depois do almoço, entrei nesta espiral de sono e não fiz nada do que queria fazer. Dormi pelo menos umas três ou quatro horas. E, mesmo quando estava acordado, não sentia o menor desejo de fazer nada - seja escrever, ler ou assistir TV. Voltava a dormir, para acordar alguns minutos mais tarde e ter a sensação de estar perdendo o dia, e pensar que não adianta mais tentar salvá-lo.

A única maneira que conheço de vencer a apatia é deliberadamente fazendo qualquer coisa ativa. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não dá para ficar esperando que uma força mágica chamada motivação venha e encha nossos corpos. Se fosse assim, ninguém nunca iria para o trabalho de manhã ou faria qualquer esforço sobre-humano. A ação precede a motivação, e a torna realidade. Quando decidi escrever este texto, foi para sacudir a poeira do meu próprio corpo e animar-me novamente.

É uma coisa simples de ser feita, mas muito difícil ao mesmo tempo. Já estamos disfóricos e tudo parece um esforço gigantesco demais ou muito pouco prazeroso para valer a pena. Pessoas muito deprimidas não conseguem nem sair da cama para ir no banheiro! Deste ponto de vista, é bem compreensível que esperemos pela fada motivadora nos fortalecer. Entendo isto como sendo parte de uma questão mais ampla: o auto-domínio e a auto-transcendência.

Mais uma vez, falo por mim mesmo. Tenho problemas sérios de disciplina, ou, pelo menos, acho que são sérios. Preciso ler muitos textos para a faculdade, mas não consigo ler todos; quero acordar cedo, mas a "síndrome ds 5 minutinhos" quase sempre leva a melhor sobre mim; quero treinar mais, mas o "cansaço" é uma desculpa para não fazê-lo; tenho trabalhos para fazer, mas prefiro ficar vendo babaquices na internet por que é mais fácil. A apatia está por trás de tudo isto, e minha falta de auto-domínio permite que as coisas continuem como estão. Sinto-me muitas vezes desanimado, e até mesmo desesperado: como eu vou viver desta maneira? Parece que sempre será assim! Mas, se eu for honesto comigo mesmo, vejo que as coisas podem ser diferentes. Há dois anos, decidi que não iria mais ligar o chuveiro e tomar banho gelado todos os dias. E, pouco tempo antes, decidira parar de tomar refrigerantes. Foram dias e semanas lutando para entrar no chuveiro, resistindo ativamente à tentação de parar em qualquer lugar por aí e comprar uma garrafa 600ml de Coca-Cola, e muitas vezes não conseguindo. Mas hoje, eu estou no controle, e eu decido quando tomarei banho quente ou um gole de refrigerante. A tentação continua aí, mas é quase desprezível.

Estas minhas duas conquistas são pequenas, mas absolutamente verdadeiras, e me animam a não desistir. E mesmo minhas aparentes derrotas até o momento não são destituídas de valor. Não leio tanto quanto quero, mas ainda consigo ler mais do que quase todos os meus colegas; as poucas vezes que me determinei a manter-me acordado, eu consegui; meus treinos na academia são cumpridos religiosamente; e, até hoje, só atrasei um trabalho da faculdade (qualquer estudante de psicologia da UFRGS pode dizer que isto é um verdadeiro feito, levando-se em conta a cultura procrastinadora que lá existe). Mas quem disse que seria fácil? Eu vou tropeçar muitas vezes ainda, mas um dia eu vou poder dizer, da mesma forma que posso sobre os refrigerantes e os banhos, que tenho pleno domínio sobre meus hábitos de estudo e treino. E esta capacidade humana de buscar ser cada vez melhor é o que o psiquiatra vienense Viktor Frankl (um dos mais citados por aqui) chama de auto-transcendência, a força de nosso espírito que desafia o próprio e destino.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

One down, twelve to go...

Tenho uma memória um tanto quanto fraca. Para a faculdade, tenho que fazer muitos trabalhos, ler muitos textos e participar de muitos outros compromissos além das aulas. Estas duas variáveis unidas me obrigam a manter uma lista de coisas por fazer, para que eu não esqueça nada que deveria lembrar. Minha "agenda", por assim dizer, precisa ser visível e chamativa, ou caso contrário será inútil. O modo mais espalhafatoso que já inventei para isto foi escrever com sabonete na janela do meu quarto, mas como sai fácil e dependendo da hora do dia fica meio difícil de enxergar, optei por simplesmente colar uma folha listando meus trabalhos e provas. Depois de entregar uma prova ou fazer um trabalho, no melhor espírito "mission accomplished", risco o respectivo item da lista. Hoje, risquei a primeira prova de Avaliação Psicológica. E tive o desprazer de perceber que falta todo o resto da lista. Oh the humanity. E o título deste post se refere a proporção do que resta fazer.