Na escola, vemos um monte de História. Eu não tinha problemas com isso, já que História era minha matéria preferida, e eu ia muito bem nas provas e trabalhos. Mas a matéria que aprendíamos era, e ainda é, muito incompleta. Apesar de vivermos na América do Sul, quase nada vemos a respeito da história do nosso continente. Já sobre a Europa, vemos desde a pré-história até os dias modernos, de forma quase ininterrupta.
Quando eu estava no Ensino Fundamental, não ligava muito para isso, já que estava plenamente contente em ver a história do Império Romano ao invés do Império Maia, pois qualquer coisa estava boa para mim. No Ensino Médio, não me lembro de estar descontente com o conteúdo dado. Mas hoje sinto uma certa tristeza por não ter aprendido tanto quanto gostaria sobre os povos americanos de antigamente. Sinto-me triste não por que não posso mais estudar (a Wikipédia está aí para isso), mas por que grande parte do que os astecas, toltecas, olmecas, maias, incas, guaranis, apaches e outros povos que habitaram as Américas tinham para dizer foi perdido na colonização européia, por descuido ou preconceito.
E isso é uma pena. Os astecas desenvolveram um sistema filosófico que poderia ser comparado ao da Grécia Antiga de Platão e Aristóteles, e foram arquitetos tão habilidosos quanto os antigos egípcios. Sua mitologia é rica e cheia de símbolos, imagens e histórias. Não é possível estimar quanto disso tudo foi perdido, mas é bastante triste.
Admiro a cultura européia, mas ela está viva ainda hoje, e pode-se dizer que domina o mundo (já que os Estados Unidos, maior potência atual, é predominantemente de cultura européia). Nada foi perdido, ou pelo menos quase nada.
Comecei a pensar a respeito da cultura pré-colonial das Américas por dois motivos. O primeiro e mais visível deles é o webcomic Lords of Death and Life, que conta a história de um maia em sua jornada através do complexo mundo que era o seu mundo. Um mundo de impérios poderosos, cidades construídas através das trocas mercantis e três mil anos de história escrita, mas onde nem a roda existia. O segundo, mais teórico, é relacionado com a Psicologia. Por não pertencerem à família indo-européia, os povos americanos originais teriam origens diferenciadas, e portanto, suas estruturas de valores e da mitologia seriam muito distintas da européia e asiática. Conhecer mais profundamente estas estruturas permitiria descobrir se os mesmos valores identificados no resto do mundo pelos psicólogos positivos e compilados no livro “Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification” são também válidos nas culturas pré-colombianas. Além disso, seria possível comparar as histórias mitológicas, e buscar alguma semelhança fundamental (ou diferença) com as mitologias européias, asiáticas, africanas e aborígines, e aprofundar a teoria de Jung sobre os arquétipos ou refutá-la de vez.
domingo, 13 de abril de 2008
Psicoterapia para todos
Como disse em um post anterior, bons psicoterapeutas empregam práticas durante o tratamento de seus pacientes, não importa sua vinculação teórica, e que estas “estratégias profundas” são utilizadas por pessoas comuns, mas com uma maior sensibilidade em suas vidas cotidianas. E que, muitas vezes, psicólogos tornam-se bons clínicos apesar da teoria que seguem, quando não se tornam clínicos ruins por aterem-se demais à ela. Foi provavelmente isso que levou Carl Rogers a dizer que seria mais proveitoso selecionar terapeutas ao invés de treiná-los. Neste post não pretendo falar mais a respeito da Psicologia Positiva, mas com sua ajuda teórica e prática, falar a respeito de um assunto que venho pensando a respeito faz um bom tempo.
Em uma reportagem do New York Times, foi mostrado um caso na Índia em que pessoas sem formação anterior em psicoterapia são educadas para identificar sintomas e indicadores de transtorno depressivo maior e transtorno de ansiedade em outros e em si mesmo. As formas como estas doenças se manifestam em países ocidentais e orientais é bastante diferente, especialmente no caso da depressão. Apesar das diferenças óbvias que existem entre países ocidentais e orientais na forma de expressar sentimentos (o que influencia a sintomatologia destas doenças nas duas culturas), o caso da Índia é excelente exemplo de política pública a ser implantada no Brasil. Aqui, os detentores do conhecimento de cura são os psiquiatras e psicólogos, que foram devidamente treinados para reconhecer indícios de que alguém padece de um transtorno mental. Mas não existem tantos psiquiatras por aí, e apesar de ter psicólogo se formando a bangu por aí, eles não são onipresentes e oniscientes, e muitas pessoas que sofrem neste exato momento por uma condição que poderia ser tratada não são diagnosticadas, e continuam sofrendo. Por que as faculdades de psicologia ao redor do Brasil e do mundo não seguem o exemplo deste psiquiatra de Goa, e oferecem cursos rápidos de capacitação em identificação de transtornos mentais como a depressão, a ansiedade e outros transtornos de humor e afeto?
Poderíamos começar modestamente e capacitar pessoas que lidam diretamente com o sofrimento alheio. Penso especificamente em líderes de congregações religiosas, como padres, que frequentemente são abordados por seus irmãos de fé em busca de conselhos e orientação. Padres católicos fazem isso com freqüência maior do que outros sacerdotes, por causa de sua obrigação de tomar confissões de qualquer um que entrar em sua paróquia. Além disso, acredito que pessoas que seguem a vida religiosa são em geral mais compassivas, e que seu posicionamento estratégico em comunidades beneficiaria muitos outros (a título de curiosidade, Rogers foi seminarista antes de entrar para a faculdade).
Por ser uma capacitação breve, não seria ensinado muita coisa, até por que existem pessoas que fazem faculdade especialmente para aprendê-las. Se fosse montar um currículo para um curso desses, daria rudimentos de diagnóstico ateórico, baseado no DSM, algumas técnicas e um pouco de teoria de Terapia Cognitivo-Comportamental e Logoterapia, além de um pouco de Psicologia Positiva. Seria superficial, mas seria o suficiente para melhorar a vida de quem está deprimido, ou pelo menos de conduzi-los a um psicoterapeuta. Além disso, as referências seriam fornecidas, permitindo aos interessados em se aprofundar no conteúdo buscar mais leituras e orientação.
Dependendo dos resultados obtidos, poderia se transformar o projeto temporário em algo mais definitivo, voltado para a população em geral.
Viktor Frankl, criador da Logoterapia, buscava tornar sua teoria mais conhecida e abrangente, de forma que mesmo leigos pudessem utilizá-la em suas vidas, tornando-as mais saudáveis e significativas. Entre os princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental, está a psicoeducação do paciente a respeito de seu transtorno e do tratamento cognitivo, da mesma forma que projetos que poderiam ser considerados como parte do movimento da Psicologia Positiva tentam promover educação emocional e social em lugares chave, como escolas primárias. O problema metodológico mais óbvio de um experimento como esse seria a mensuração de sua eficiência: como é que eu vou saber se treinar os padres é mais eficiente que treinar as velhas carolas que vão colocar dinheiro na caixinha do altar, ou se não vale a pena perder tempo com isso? Afinal, dificilmente os beneficiados por este projeto vão se manifestar (seja por vergonha ou por não fazerem a menor idéia de tal experimento). Poderia se instruir o líder religioso a pedir feedback aos seus irmãos de fé, após dar-lhes conselhos, mas esta pode ser uma prática altamente reativa, e que poderia influenciar no resultado do experimento.
Em todo caso, é uma medida simples, mais barata do que 5 anos de faculdade de Psicologia (e 10 de faculdade de Medicina e residência em Psiquiatria), mais abrangente e que possibilitaria uma melhora na qualidade de vida de muitas pessoas. Vale a pena pôr em prática.
Em uma reportagem do New York Times, foi mostrado um caso na Índia em que pessoas sem formação anterior em psicoterapia são educadas para identificar sintomas e indicadores de transtorno depressivo maior e transtorno de ansiedade em outros e em si mesmo. As formas como estas doenças se manifestam em países ocidentais e orientais é bastante diferente, especialmente no caso da depressão. Apesar das diferenças óbvias que existem entre países ocidentais e orientais na forma de expressar sentimentos (o que influencia a sintomatologia destas doenças nas duas culturas), o caso da Índia é excelente exemplo de política pública a ser implantada no Brasil. Aqui, os detentores do conhecimento de cura são os psiquiatras e psicólogos, que foram devidamente treinados para reconhecer indícios de que alguém padece de um transtorno mental. Mas não existem tantos psiquiatras por aí, e apesar de ter psicólogo se formando a bangu por aí, eles não são onipresentes e oniscientes, e muitas pessoas que sofrem neste exato momento por uma condição que poderia ser tratada não são diagnosticadas, e continuam sofrendo. Por que as faculdades de psicologia ao redor do Brasil e do mundo não seguem o exemplo deste psiquiatra de Goa, e oferecem cursos rápidos de capacitação em identificação de transtornos mentais como a depressão, a ansiedade e outros transtornos de humor e afeto?
Poderíamos começar modestamente e capacitar pessoas que lidam diretamente com o sofrimento alheio. Penso especificamente em líderes de congregações religiosas, como padres, que frequentemente são abordados por seus irmãos de fé em busca de conselhos e orientação. Padres católicos fazem isso com freqüência maior do que outros sacerdotes, por causa de sua obrigação de tomar confissões de qualquer um que entrar em sua paróquia. Além disso, acredito que pessoas que seguem a vida religiosa são em geral mais compassivas, e que seu posicionamento estratégico em comunidades beneficiaria muitos outros (a título de curiosidade, Rogers foi seminarista antes de entrar para a faculdade).
Por ser uma capacitação breve, não seria ensinado muita coisa, até por que existem pessoas que fazem faculdade especialmente para aprendê-las. Se fosse montar um currículo para um curso desses, daria rudimentos de diagnóstico ateórico, baseado no DSM, algumas técnicas e um pouco de teoria de Terapia Cognitivo-Comportamental e Logoterapia, além de um pouco de Psicologia Positiva. Seria superficial, mas seria o suficiente para melhorar a vida de quem está deprimido, ou pelo menos de conduzi-los a um psicoterapeuta. Além disso, as referências seriam fornecidas, permitindo aos interessados em se aprofundar no conteúdo buscar mais leituras e orientação.
Dependendo dos resultados obtidos, poderia se transformar o projeto temporário em algo mais definitivo, voltado para a população em geral.
Viktor Frankl, criador da Logoterapia, buscava tornar sua teoria mais conhecida e abrangente, de forma que mesmo leigos pudessem utilizá-la em suas vidas, tornando-as mais saudáveis e significativas. Entre os princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental, está a psicoeducação do paciente a respeito de seu transtorno e do tratamento cognitivo, da mesma forma que projetos que poderiam ser considerados como parte do movimento da Psicologia Positiva tentam promover educação emocional e social em lugares chave, como escolas primárias. O problema metodológico mais óbvio de um experimento como esse seria a mensuração de sua eficiência: como é que eu vou saber se treinar os padres é mais eficiente que treinar as velhas carolas que vão colocar dinheiro na caixinha do altar, ou se não vale a pena perder tempo com isso? Afinal, dificilmente os beneficiados por este projeto vão se manifestar (seja por vergonha ou por não fazerem a menor idéia de tal experimento). Poderia se instruir o líder religioso a pedir feedback aos seus irmãos de fé, após dar-lhes conselhos, mas esta pode ser uma prática altamente reativa, e que poderia influenciar no resultado do experimento.
Em todo caso, é uma medida simples, mais barata do que 5 anos de faculdade de Psicologia (e 10 de faculdade de Medicina e residência em Psiquiatria), mais abrangente e que possibilitaria uma melhora na qualidade de vida de muitas pessoas. Vale a pena pôr em prática.
Melhores Músicas da História
Um pequeno combo com o post anterior. Vale a pena ouvir, apesar do vídeo ser só uma escadaria para o Céu.
Melhores Músicas da História
Stairway To Heaven
Led Zeppelin
There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
When she gets there she knows if the stores are all closed
With a word she can get what she came for
Oooh... And she's buying a stairway to heaven
There's a sign on the wall but she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook there's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven
Oooh… It makes me wonder
Oooh… It makes me wonder
There's a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking
Oooh…It makes me wonder
Oooh…And it makes me wonder
And it's whispered that soon, if we all called the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn for those who stand long
And the forest will echo with laughter
Woe woe woe woe woe oh...
If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just the spring clean for the May Queen
Yes there are two paths you can go by
but in the long run
There's still time to change the road you're on
And it makes me wonder…
ohhh ooh woe...
Your head is humming and it won't go – in case you don't know
The piper's calling you to join him
Dear lady can you hear the wind blow and did you know
Your stairway lies on the whispering wind
And as we wind on down the road
Our shadows taller than our souls
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you at last
When all are one and one is all, yeah
To be a rock and not to roll
Oooh...!And she's buying a stairway to heaven...
Led Zeppelin
There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
When she gets there she knows if the stores are all closed
With a word she can get what she came for
Oooh... And she's buying a stairway to heaven
There's a sign on the wall but she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook there's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven
Oooh… It makes me wonder
Oooh… It makes me wonder
There's a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking
Oooh…It makes me wonder
Oooh…And it makes me wonder
And it's whispered that soon, if we all called the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn for those who stand long
And the forest will echo with laughter
Woe woe woe woe woe oh...
If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just the spring clean for the May Queen
Yes there are two paths you can go by
but in the long run
There's still time to change the road you're on
And it makes me wonder…
ohhh ooh woe...
Your head is humming and it won't go – in case you don't know
The piper's calling you to join him
Dear lady can you hear the wind blow and did you know
Your stairway lies on the whispering wind
And as we wind on down the road
Our shadows taller than our souls
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you at last
When all are one and one is all, yeah
To be a rock and not to roll
Oooh...!And she's buying a stairway to heaven...
A Missão da Psicologia
Carl Rogers, o primeiro psicólogo de formação a formular uma teoria psicoterápica e brilhante expoente da Psicologia Humanista, dizia que seria muito mais produtivo e econômico pararmos de treinar psicoterapeutas e nos focarmos em identificá-los. Estaria Rogers sendo determinista, declarando que é inútil treinarmos pessoas que não nasceram terapeutas? Qualquer um que tenha lido algo escrito por ele dirá que não. O que Rogers quis dizer com isso é que a formação psicoterápica (pelo menos de seu tempo) era falha, e que bons psicólogos e psiquiatras clínicos eram bons apesar de seu treinamento, e graças aos seus talentos pessoais. Esta crença foi corroborada por pesquisas realizadas muito tempo depois de Rogers ter partido, em especial a análise feita por Martin Seligman baseado nos dados coletados pela revista Consumer Reports. Basicamente, os dados revelavam que não havia diferença palpável entre as escolas de terapia utilizadas. Ademais, a maioria dos psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais depois contatados definiram-se como sendo “ecléticos”, ao invés de presos por juramento a uma teoria específica. Com base nestes dados, podemos pensar que as teorias atuais de psicologia e psiquiatria diferem apenas em um nível muito superficial, e que todas sustentam-se sob uma base comum – coisas que todo bom psicoterapeuta faz em terapia, independente de sua filiação intelectual. Esses hábitos mais profundos são senso comum entre bons clínicos, mas não o é entre muitos professores universitários, que, pressionados pelo clima de guerra intelectual, focam-se em diferenças epistemológicas e ontológicas bobocas uns contra os outros, e que na melhor das hipóteses esquecem de ensinar o óbvio, e na pior, as abominam e repreendem estudantes que as buscam ou praticam (o que, mais uma vez, mostra que selecionar psicoterapeutas talvez fosse melhor do que treiná-los).
Mas o que são essas boas práticas comuns para os bons clínicos, que escapam a visão mais ampla dos acadêmicos? Coisas absolutamente bobas, que qualquer pessoa de bom coração já faz: demonstrar empatia, escutar com atenção, construir relações de confiança e honestidade, e reforçar as qualidades dos pacientes. Martin Seligman chama estas práticas “estratégias profundas”. Pode parecer bobice isso que eu disse, mas mais bobice ainda é o fato de que, por mais necessárias que estas qualidades sejam para um bom psicoterapeuta, os professores dos cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia as ignorem. Por que isso acontece? Basicamente, quando a Psicologia foi estabelecida como ciência da saúde, depois da Segunda Guerra Mundial, ela adotou o modelo médico-psiquiátrico de clínica e pesquisa – procure uma doença, encontre e cure. Este modelo funciona muito bem para doenças mais palpáveis, como cardiopatias e dores musculares, mas não é tão eficaz com os elusivos problemas do ramo da psicopatologia. Eu posso identificar a etiologia de um infarto (fumo, bebida, sedentarismo, propensão genética), mas eu posso fazer o mesmo com a depressão? O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR) da American Psychiatric Association mostra que isso não é possível ainda, já que limita-se a descrever a sintomatologia. Esta lacuna dá espaço para muitas teorizações diversas e frequentemente conflitantes, o que permite que não exista contradição para um estudante de Psicologia ter na faculdade aulas de neurofisiologia, psicanálise lacaniana e análise experimental do comportamento. E aqui, volto para o problema das guerras teóricas entre acadêmicos, completando um ciclo.
Mas por que o modelo médico-psiquiátrico não obteve os mesmos progressos que obteve na cardiologia no campo da psicologia? Pega o DSM e lê algumas páginas. Além de ser surpreendentemente hilariante (como no caso do Transtorno de Pica), é possível perceber um padrão claro no que lá está escrito. Sendo meio ingênuo, só tem coisa ruim. O DSM é um manual incrivelmente útil e um progresso na prática diagnóstica, mas é severamente limitado por focar-se apenas em consertar o que está quebrado ao invés de fortalecer o que há de bom. E é esta a tese que Martin Seligman, ex-presidente da American Psychological Association e um dos precursores do movimento da Psicologia Positiva propõe. Segundo ele, e muitos outros pesquisadores importantes, a Psicologia obteve progressos consideráveis utilizando-se do modelo patológico (encontre o problema e o conserte), tanto que hoje em dia é possível atenuar enormemente os problemas de 14 transtornos mentais. Entretanto, esse modelo por si só está esgotado. A Psicologia tinha três missões antes da Segunda Guerra: curar as doenças mentais, fazer as vidas das pessoas mais felizes e estimular as habilidades de gênios e prodígios. Entretanto, pela doença ter se tornado o problema mais urgente naquela época, e o dinheiro de financiamento para pesquisas ter ido todo para quem buscava consertar doenças mentais, as outras duas foram sumariamente negligenciadas. Entretanto, os clínicos continuaram tacitamente a cultivar as virtudes dos pacientes, apesar de não o perceberem (ou aprovarem conscientemente tais práticas). O exemplo mais óbvio disto vem do próprio Freud. Em 1892, ele tratou e curou Elisabeth von R., uma jovem histérica que apaixonara-se pelo viúvo de sua irmã, e que por isso desenvolveu um problema psicogênico para caminhar. Freud originalmente concluiu que o êxito do tratamento devia-se a sua técnica psicanalítica, mas ao revisar suas anotações sobre o caso, percebeu que suas técnicas terapêuticas nada adicionaram de relevante ao tratamento, o que o levou a concluir que foi um “milagre”. Entretanto, se lermos o caso todo (como Irvin Yalom), veremos que Freud não se limitou ao seu consultório: falou com a mãe da paciente para que esta desse apoio emocional para a filha, constantemente tranqüilizou a paciente de que ela não era uma imoral, bem pelo contrário, que só uma pessoa muito honrada e nobre poderia sentir-se culpada por seus pensamentos, e quando Elisabeth estava curada, Freud foi vê-la dançar em um baile. O brilhante pai da psicanálise fez tudo o que um bom terapeuta faria: estabeleceu uma relação de confiança e honestidade com a paciente, foi um bom ouvinte e fortaleceu o que havia de bom em Elisabeth. Mas apesar de seu sucesso, ele foi incapaz de perceber a mágica que fizera, e preferiu ir chafurdar em sua nihilsta teoria da psicodinâmica e do Complexo de Édipo.
Durante quase todo o século XX, a Psicologia tentou imitar a Medicina, e deixou de lado as qualidades humanas, com as notáveis exceções dos psicólogos humanistas Carl Rogers, Abraham Maslow e William James, homens notáveis que cometeram o erro de nascerem em épocas em que suas teorias positivas a respeito da natureza humana não seriam valorizadas, preteridas em benefício de outras, que consideram as pessoas amontoados de emoções negativas e falsidade, ou o tracinho entre um estímulo e uma resposta. Mas suas obras estão sendo retomadas agora com grande ímpeto por milhares de pesquisadores, não só clínicos, mas também sociólogos, antropólogos, economistas e pesquisadores. Um dos mais notáveis esforços de pesquisa empreendidos até o momento foi a criação de um manual taxonômico de qualidades e valores, em moldes parecidos com o DSM.
Os proponentes da Psicologia Positiva não a imaginam como uma “revolução paradigmática” de que Thomas Kuhn falava (aliás, Seligman admite estar um pouco de saco cheio dessa abordagem histórica), pois não buscam destruir a antiga Psicologia “Negativa”. Na verdade, pretendem apenas complementá-la, e estudar o que até então fora negligenciado, utilizando-se das mesmas ferramentas metodológicas atualmente empregadas.
A Psicologia é ao mesmo tempo ciência da saúde e humana, o que implica que ela, ao mesmo tempo que busca tornar as vidas de todos os seres humanos mais saudáveis, também transcende o sistema de saúde, pois busca tornar nossas vidas mais do que meramente assintomáticas expressões de vida; até então, ela buscou apenas nos tirar de um nível -5 de felicidade para um nível 0. A Psicologia Positiva propõe irmos do 0 para o +5 em felicidade, e não só isso: que esta vida seja produtiva e que tenha um significado. Martin Seligman diz que, tornar a vida das pessoas melhor em todos os seus aspectos é o direito e a missão da Psicologia. Agora é a hora de tomá-la de volta em nossas mãos, e fazê-la acontecer.
Mas o que são essas boas práticas comuns para os bons clínicos, que escapam a visão mais ampla dos acadêmicos? Coisas absolutamente bobas, que qualquer pessoa de bom coração já faz: demonstrar empatia, escutar com atenção, construir relações de confiança e honestidade, e reforçar as qualidades dos pacientes. Martin Seligman chama estas práticas “estratégias profundas”. Pode parecer bobice isso que eu disse, mas mais bobice ainda é o fato de que, por mais necessárias que estas qualidades sejam para um bom psicoterapeuta, os professores dos cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia as ignorem. Por que isso acontece? Basicamente, quando a Psicologia foi estabelecida como ciência da saúde, depois da Segunda Guerra Mundial, ela adotou o modelo médico-psiquiátrico de clínica e pesquisa – procure uma doença, encontre e cure. Este modelo funciona muito bem para doenças mais palpáveis, como cardiopatias e dores musculares, mas não é tão eficaz com os elusivos problemas do ramo da psicopatologia. Eu posso identificar a etiologia de um infarto (fumo, bebida, sedentarismo, propensão genética), mas eu posso fazer o mesmo com a depressão? O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR) da American Psychiatric Association mostra que isso não é possível ainda, já que limita-se a descrever a sintomatologia. Esta lacuna dá espaço para muitas teorizações diversas e frequentemente conflitantes, o que permite que não exista contradição para um estudante de Psicologia ter na faculdade aulas de neurofisiologia, psicanálise lacaniana e análise experimental do comportamento. E aqui, volto para o problema das guerras teóricas entre acadêmicos, completando um ciclo.
Mas por que o modelo médico-psiquiátrico não obteve os mesmos progressos que obteve na cardiologia no campo da psicologia? Pega o DSM e lê algumas páginas. Além de ser surpreendentemente hilariante (como no caso do Transtorno de Pica), é possível perceber um padrão claro no que lá está escrito. Sendo meio ingênuo, só tem coisa ruim. O DSM é um manual incrivelmente útil e um progresso na prática diagnóstica, mas é severamente limitado por focar-se apenas em consertar o que está quebrado ao invés de fortalecer o que há de bom. E é esta a tese que Martin Seligman, ex-presidente da American Psychological Association e um dos precursores do movimento da Psicologia Positiva propõe. Segundo ele, e muitos outros pesquisadores importantes, a Psicologia obteve progressos consideráveis utilizando-se do modelo patológico (encontre o problema e o conserte), tanto que hoje em dia é possível atenuar enormemente os problemas de 14 transtornos mentais. Entretanto, esse modelo por si só está esgotado. A Psicologia tinha três missões antes da Segunda Guerra: curar as doenças mentais, fazer as vidas das pessoas mais felizes e estimular as habilidades de gênios e prodígios. Entretanto, pela doença ter se tornado o problema mais urgente naquela época, e o dinheiro de financiamento para pesquisas ter ido todo para quem buscava consertar doenças mentais, as outras duas foram sumariamente negligenciadas. Entretanto, os clínicos continuaram tacitamente a cultivar as virtudes dos pacientes, apesar de não o perceberem (ou aprovarem conscientemente tais práticas). O exemplo mais óbvio disto vem do próprio Freud. Em 1892, ele tratou e curou Elisabeth von R., uma jovem histérica que apaixonara-se pelo viúvo de sua irmã, e que por isso desenvolveu um problema psicogênico para caminhar. Freud originalmente concluiu que o êxito do tratamento devia-se a sua técnica psicanalítica, mas ao revisar suas anotações sobre o caso, percebeu que suas técnicas terapêuticas nada adicionaram de relevante ao tratamento, o que o levou a concluir que foi um “milagre”. Entretanto, se lermos o caso todo (como Irvin Yalom), veremos que Freud não se limitou ao seu consultório: falou com a mãe da paciente para que esta desse apoio emocional para a filha, constantemente tranqüilizou a paciente de que ela não era uma imoral, bem pelo contrário, que só uma pessoa muito honrada e nobre poderia sentir-se culpada por seus pensamentos, e quando Elisabeth estava curada, Freud foi vê-la dançar em um baile. O brilhante pai da psicanálise fez tudo o que um bom terapeuta faria: estabeleceu uma relação de confiança e honestidade com a paciente, foi um bom ouvinte e fortaleceu o que havia de bom em Elisabeth. Mas apesar de seu sucesso, ele foi incapaz de perceber a mágica que fizera, e preferiu ir chafurdar em sua nihilsta teoria da psicodinâmica e do Complexo de Édipo.
Durante quase todo o século XX, a Psicologia tentou imitar a Medicina, e deixou de lado as qualidades humanas, com as notáveis exceções dos psicólogos humanistas Carl Rogers, Abraham Maslow e William James, homens notáveis que cometeram o erro de nascerem em épocas em que suas teorias positivas a respeito da natureza humana não seriam valorizadas, preteridas em benefício de outras, que consideram as pessoas amontoados de emoções negativas e falsidade, ou o tracinho entre um estímulo e uma resposta. Mas suas obras estão sendo retomadas agora com grande ímpeto por milhares de pesquisadores, não só clínicos, mas também sociólogos, antropólogos, economistas e pesquisadores. Um dos mais notáveis esforços de pesquisa empreendidos até o momento foi a criação de um manual taxonômico de qualidades e valores, em moldes parecidos com o DSM.
Os proponentes da Psicologia Positiva não a imaginam como uma “revolução paradigmática” de que Thomas Kuhn falava (aliás, Seligman admite estar um pouco de saco cheio dessa abordagem histórica), pois não buscam destruir a antiga Psicologia “Negativa”. Na verdade, pretendem apenas complementá-la, e estudar o que até então fora negligenciado, utilizando-se das mesmas ferramentas metodológicas atualmente empregadas.
A Psicologia é ao mesmo tempo ciência da saúde e humana, o que implica que ela, ao mesmo tempo que busca tornar as vidas de todos os seres humanos mais saudáveis, também transcende o sistema de saúde, pois busca tornar nossas vidas mais do que meramente assintomáticas expressões de vida; até então, ela buscou apenas nos tirar de um nível -5 de felicidade para um nível 0. A Psicologia Positiva propõe irmos do 0 para o +5 em felicidade, e não só isso: que esta vida seja produtiva e que tenha um significado. Martin Seligman diz que, tornar a vida das pessoas melhor em todos os seus aspectos é o direito e a missão da Psicologia. Agora é a hora de tomá-la de volta em nossas mãos, e fazê-la acontecer.
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sexta-feira, 11 de abril de 2008
Uma Guerra Antiga
Um de meus assuntos preferidos é falar de Ciência. Geralmente, falo de Ciências Humanas, defendendo-as e defendendo um maior rigor em seus métodos e uma eterna busca pela Verdade, mesmo que no fim ela seja uma farsa. Não falo com muita freqüência de Ciências Exatas como Física, Matemática e Química, mas geralmente as uso como exemplos positivos.
E de fato, as Ciências Exatas são, de longe, as que mais progrediram ao longo da história da humanidade, tanto que seu modelo foi adaptado (sem sucesso, admito) para o estudo das Ciências Humanas. Eu seria um tolo se dissesse que a Física apenas trouxe infortúnios como a Bomba Atômica, a Química o Napalm e a Matemática os professores da rede de Ensino Médio. Primeiro por que graças à estas três ciências é que eu posso agora digitar estas palavras no meu blog, confortavelmente sentado em minha poltrona.
Mas existe um terceiro ramo da ciência, que atualmente anda meio desacreditado. Ele tem muitos nomes, mas o chamarei de Ciências Místicas. Grosso modo, são as ciências (de sciencia, saber e conhecimento em latim) que estudam aquilo que está além do mundo material, a alma, a natureza de Deus e a natureza divina do ser humano. Mais do que desacreditada, a Ciência Mística está em conflito aberto com a Ciência Exata, e em menor grau, com a Ciência Humana.
Muitos físicos, químicos e matemáticos são paradoxalmente ateus praticantes: não só acreditam como tentam arrebanhar (in)fiéis. E é difícil não se converter para a Sociedade da Terra Redonda, tendo em vista as maravilhosas conquistas da ciência cética. O que a religião trouxe de bom, de palpável para nossa civilização? Guerras santas e dogmas imprestáveis, majoritariamente. O ceticismo e o materialismo estão derrotando a fé e a espiritualidade. Mas então, por que é tão fácil encontrar um ex-físico que largou toda sua promissora carreira no mundo acadêmico pesquisando sobre glúons e leptons para ser monge, seja budista ou beneditino, e tão difícil encontrar um ex-monge que largou tudo, renunciou a sua fé e virou ateu convicto? Até hoje, só sei de um caso, em que um ex-crente virou ateu e criou um blog chamado “Jesus, me chicoteia!” para avacalhar com a bíblia. E só (e eu tenho minhas reservas quanto à igreja de onde ele veio). São casos anedotais que conheço, não representam a média da população e portanto não podem ser generalizados, mas levantam a dúvida mesmo assim: por que, apesar de tanto progresso material, por que ainda nos voltamos para o espiritual, especialmente em nossos tempos?
Deve ser exasperante para um Terra Redonda constatar isso. “É irracionalidade pura” diria um, pois tudo que a ciência materialista não pode explicar é irracional, e portanto não deve ser levado em conta. Nunca lhes passaria pela cabeça que há coisas além da ciência, pós-racionais. Talvez, as Ciências Exatas estejam chegando ao seu limite: há não muito tempo atrás, a teoria materialista de Newton foi posta abaixo, quando se descobriu que os átomos não estão presos uns aos outros como uma malha, mas estão dispersos, tão distantes uns dos outros como eu estou proporcionalmente distante do estádio Olímpico Monumental (OK, admito que não sei a proporção correta, mas é algo assim mesmo, longe pra burro). Entre eles, o vazio. E as partículas subatômicas ficam sumindo e aparecendo em outros lugares, como em locais construídos especialmente para serem simples vácuo. Como se explica isso de uma posição materialista? Baseado em meus conhecimentos de discussões científicas, há três possibilidades: faz-se uma explicação ad hoc, um ajambrado teórico feito especialmente para aquele caso; foge-se do assunto de maneira habilidosa; ou o materialista ataca a pessoa que fez a pergunta e a chama de obscurantista ou ignorante. Também há aqueles que explicam que “não é bem isso o que a teoria quis dizer”, e te provam através de sofismas que é justamente o contrário. Nenhuma dessas alternativas é uma resposta decente. Aliás, nenhuma delas é uma resposta.
Milênios de progressos científicos não refutaram ou destruíram a espiritualidade, a Ciência Mística como chamei no início do texto. Bem pelo contrário, agora a ciência confirma teorias espirituais de que o mundo não é tão real quanto imaginávamos, tão sólido quanto parece. Talvez as coisas em ciência aconteçam como William James acreditava: não importa quem tem o melhor discurso, por que a teoria mais verdadeira será triunfante no final*. Quem sabe estejamos vendo isto acontecer com as Ciências Exatas.
*Provem que o James velho-de-guerra está errado, pós-modernistas!
E de fato, as Ciências Exatas são, de longe, as que mais progrediram ao longo da história da humanidade, tanto que seu modelo foi adaptado (sem sucesso, admito) para o estudo das Ciências Humanas. Eu seria um tolo se dissesse que a Física apenas trouxe infortúnios como a Bomba Atômica, a Química o Napalm e a Matemática os professores da rede de Ensino Médio. Primeiro por que graças à estas três ciências é que eu posso agora digitar estas palavras no meu blog, confortavelmente sentado em minha poltrona.
Mas existe um terceiro ramo da ciência, que atualmente anda meio desacreditado. Ele tem muitos nomes, mas o chamarei de Ciências Místicas. Grosso modo, são as ciências (de sciencia, saber e conhecimento em latim) que estudam aquilo que está além do mundo material, a alma, a natureza de Deus e a natureza divina do ser humano. Mais do que desacreditada, a Ciência Mística está em conflito aberto com a Ciência Exata, e em menor grau, com a Ciência Humana.
Muitos físicos, químicos e matemáticos são paradoxalmente ateus praticantes: não só acreditam como tentam arrebanhar (in)fiéis. E é difícil não se converter para a Sociedade da Terra Redonda, tendo em vista as maravilhosas conquistas da ciência cética. O que a religião trouxe de bom, de palpável para nossa civilização? Guerras santas e dogmas imprestáveis, majoritariamente. O ceticismo e o materialismo estão derrotando a fé e a espiritualidade. Mas então, por que é tão fácil encontrar um ex-físico que largou toda sua promissora carreira no mundo acadêmico pesquisando sobre glúons e leptons para ser monge, seja budista ou beneditino, e tão difícil encontrar um ex-monge que largou tudo, renunciou a sua fé e virou ateu convicto? Até hoje, só sei de um caso, em que um ex-crente virou ateu e criou um blog chamado “Jesus, me chicoteia!” para avacalhar com a bíblia. E só (e eu tenho minhas reservas quanto à igreja de onde ele veio). São casos anedotais que conheço, não representam a média da população e portanto não podem ser generalizados, mas levantam a dúvida mesmo assim: por que, apesar de tanto progresso material, por que ainda nos voltamos para o espiritual, especialmente em nossos tempos?
Deve ser exasperante para um Terra Redonda constatar isso. “É irracionalidade pura” diria um, pois tudo que a ciência materialista não pode explicar é irracional, e portanto não deve ser levado em conta. Nunca lhes passaria pela cabeça que há coisas além da ciência, pós-racionais. Talvez, as Ciências Exatas estejam chegando ao seu limite: há não muito tempo atrás, a teoria materialista de Newton foi posta abaixo, quando se descobriu que os átomos não estão presos uns aos outros como uma malha, mas estão dispersos, tão distantes uns dos outros como eu estou proporcionalmente distante do estádio Olímpico Monumental (OK, admito que não sei a proporção correta, mas é algo assim mesmo, longe pra burro). Entre eles, o vazio. E as partículas subatômicas ficam sumindo e aparecendo em outros lugares, como em locais construídos especialmente para serem simples vácuo. Como se explica isso de uma posição materialista? Baseado em meus conhecimentos de discussões científicas, há três possibilidades: faz-se uma explicação ad hoc, um ajambrado teórico feito especialmente para aquele caso; foge-se do assunto de maneira habilidosa; ou o materialista ataca a pessoa que fez a pergunta e a chama de obscurantista ou ignorante. Também há aqueles que explicam que “não é bem isso o que a teoria quis dizer”, e te provam através de sofismas que é justamente o contrário. Nenhuma dessas alternativas é uma resposta decente. Aliás, nenhuma delas é uma resposta.
Milênios de progressos científicos não refutaram ou destruíram a espiritualidade, a Ciência Mística como chamei no início do texto. Bem pelo contrário, agora a ciência confirma teorias espirituais de que o mundo não é tão real quanto imaginávamos, tão sólido quanto parece. Talvez as coisas em ciência aconteçam como William James acreditava: não importa quem tem o melhor discurso, por que a teoria mais verdadeira será triunfante no final*. Quem sabe estejamos vendo isto acontecer com as Ciências Exatas.
*Provem que o James velho-de-guerra está errado, pós-modernistas!
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Treinos
Fui treinar Kung Fu hoje na academia. Demorei esta semana para fazer isto, graças à minha necessidade de ter que ir fazer uma observação de grupos na quarta-feira (que vai durar mais quatro semanas no mínimo), Psico 8 e ½ e outras pendengas. Mas valeu a pena.
Há três ou quatro anos, quando recém tinha começado a treinar em Caxias, conversei com um cara com mais tempo de treino, que me disse que “só fico satisfeito com o treino quando acordo dolorido no outro dia. Daí eu sei que eu me puxei”. Achei uma definição de produtividade bastante impactante, mas só em Porto Alegre desenvolvi um parâmetro próprio similar: para mim, treino bom é aquele que me faz voltar arrastando as pernas para casa. E ultimamente, apesar sentir que estou treinando menos do que deveria (e gostaria), tenho tido poucos treinos assim – não por falta de freqüência em aula, mas proporcionalmente. Alguns meses atrás, era batata ir para a academia e voltar quase morrendo. Agora, faço o treino completo e não me sinto tão fatigado (com exceções). Consigo até caminhar reto!
Outro parâmetro de produtividade pessoal que criei é o de formas praticadas, com pontos extras para aprender formas novas. E hoje foi um dia duplamente produtivo, pois além de sofrer para chegar em casa, foi-me ensinada a primeira parte completa da forma Louva-Deus, depois de um mês sem aprender nada de novo. É uma forma bem complicada, cheia de movimentos rápidos e estranhos (exatamente como um louva-deus), mas o que foi especialmente gratificante disso não foi apenas sua dificuldade, mas o tempo que levou para que me ensinassem. Senti-me próximo dos grandes guerreiros de antigamente, que levavam anos para aprender uma forma básica. O pai do Karatê-Do moderno passou 10 anos com um mesmo mestre para aprender apenas 3 katas (formas em japonês. Em chinês é katy). Dá uma média de 3 anos para cada, e os dias que ficaram de fora ele provavelmente ficou rachando lenha no mato (ou apanhando do mestre. Ou os dois. Ao mesmo tempo).
Para um bom preguiçoso, isso soa como masoquismo puro e simples, e só um abobado louco como eu se sujeitaria a tais condições. Mas a sensação de paz que sinto toda vez que entro no solo sagrado de treinamento, de deixar todos os meus problemas mundanos do lado de fora de suas paredes, de estar em harmonia comigo mesmo e com o universo mais do que supera a dor que às vezes sinto, mas dá sentido para ela. Os samurais antigos chamam esse estado mental de satori, os monges budistas de nirvana, e os psicólogos positivos de flow – fluir, pois não pensamos muito, apenas fluímos com a corrente, e cada passo dado em uma corrida, cada golpe desferido em uma luta, cada movimento em um katy é a única coisa que fazemos, a única que percebemos e a única com que nos importamos naquele momento. É uma meditação em movimento. O mundo cessa. É apenas um momento efêmero, mas que muitas vezes fez dias deprimentes que vivi tornarem-se subitamente iluminados. A dor é apenas uma plataforma para um crescimento pessoal maior, uma transcendência de si. Cada instante na academia é um instante bem aproveitado, e hoje mais do que muitos outros dias.
Há três ou quatro anos, quando recém tinha começado a treinar em Caxias, conversei com um cara com mais tempo de treino, que me disse que “só fico satisfeito com o treino quando acordo dolorido no outro dia. Daí eu sei que eu me puxei”. Achei uma definição de produtividade bastante impactante, mas só em Porto Alegre desenvolvi um parâmetro próprio similar: para mim, treino bom é aquele que me faz voltar arrastando as pernas para casa. E ultimamente, apesar sentir que estou treinando menos do que deveria (e gostaria), tenho tido poucos treinos assim – não por falta de freqüência em aula, mas proporcionalmente. Alguns meses atrás, era batata ir para a academia e voltar quase morrendo. Agora, faço o treino completo e não me sinto tão fatigado (com exceções). Consigo até caminhar reto!
Outro parâmetro de produtividade pessoal que criei é o de formas praticadas, com pontos extras para aprender formas novas. E hoje foi um dia duplamente produtivo, pois além de sofrer para chegar em casa, foi-me ensinada a primeira parte completa da forma Louva-Deus, depois de um mês sem aprender nada de novo. É uma forma bem complicada, cheia de movimentos rápidos e estranhos (exatamente como um louva-deus), mas o que foi especialmente gratificante disso não foi apenas sua dificuldade, mas o tempo que levou para que me ensinassem. Senti-me próximo dos grandes guerreiros de antigamente, que levavam anos para aprender uma forma básica. O pai do Karatê-Do moderno passou 10 anos com um mesmo mestre para aprender apenas 3 katas (formas em japonês. Em chinês é katy). Dá uma média de 3 anos para cada, e os dias que ficaram de fora ele provavelmente ficou rachando lenha no mato (ou apanhando do mestre. Ou os dois. Ao mesmo tempo).
Para um bom preguiçoso, isso soa como masoquismo puro e simples, e só um abobado louco como eu se sujeitaria a tais condições. Mas a sensação de paz que sinto toda vez que entro no solo sagrado de treinamento, de deixar todos os meus problemas mundanos do lado de fora de suas paredes, de estar em harmonia comigo mesmo e com o universo mais do que supera a dor que às vezes sinto, mas dá sentido para ela. Os samurais antigos chamam esse estado mental de satori, os monges budistas de nirvana, e os psicólogos positivos de flow – fluir, pois não pensamos muito, apenas fluímos com a corrente, e cada passo dado em uma corrida, cada golpe desferido em uma luta, cada movimento em um katy é a única coisa que fazemos, a única que percebemos e a única com que nos importamos naquele momento. É uma meditação em movimento. O mundo cessa. É apenas um momento efêmero, mas que muitas vezes fez dias deprimentes que vivi tornarem-se subitamente iluminados. A dor é apenas uma plataforma para um crescimento pessoal maior, uma transcendência de si. Cada instante na academia é um instante bem aproveitado, e hoje mais do que muitos outros dias.
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terça-feira, 8 de abril de 2008
O Humano, Demasiado Humano Desejo de Humilhar
Não precisa procurar ou observar muito o comportamento alheio (ou o próprio) para perceber certas atitudes mesquinhas. Uma das primeiras que notei foi a necessidade humana de humilhar os outros. Exemplos há por todo lado. Mas o que é interessante a respeito desta “pulsão de morte”, como Freud diria, é que ela é revestida por um ideal elevado de justiça, pois geralmente o alvo de desprezo e repúdio é alguém que cometeu algo hediondo. Enquanto os Aliados tomaram a Itália durante a Segunda Guerra Mundial, Mussolini e sua mulher foram capturados por uma turba violenta, que os enforcou ali mesmo, sem julgamento. A acusação feita era de violação de direitos humanos e anos de ditadura, cuja sentença era a pena de morte imediata e humilhante. Os especialistas chamam isso de “Justiça Selvagem”.
No caso do Duce, havia motivos claros para sua execução, como toda a repressão que ele fez contra sua oposição, a guerra em si, as mortes que ele causou. Mas sinto-me seguro em dizer que só isto não era suficiente para uma justiça selvagem. Havia mais motivos, obscurecidos por estes que citei, para que sua morte fosse pela forca e seu corpo destinado ao ultraje.
Vejo mais casos semelhantes em dias mais atuais. Alguns anos atrás, o programa do Ratinho (que defende abertamente a “Justiça Selvagem”) exibiu um vídeo-denúncia em que uma babá aparecia espancando um bebê. Esta notícia causou indignação na população da cidade em que esta mulher vivia, e quando ela foi prestar depoimento na delegacia, foi atacada por uma turba selvagem. Não foi linchada, mas foi atacada por todos os lados, por todas as pessoas, verbal e fisicamente (aí nasceu a lenda de Lindomar, o Sub-Zero brasileiro, que lhe aplicou uma voadora).
Mais recentemente, uma jovem chamada Lúcia foi abandonada por seu noivo dois meses antes do casamento, depois de terem arranjado quase tudo. Cheia de ódio e indignação, ela criou um blog – Noiva Abandonada Quer Vingança. Graças às leis que regem a internet (e por ela ter saído com seu vestido de noiva na rua distribuindo panfletos falando mal do falecido), sua história ganhou eco e ela ficou famosa, tanto que o UOL Tablóide a entrevistou. No tal do blog, ela fala de como odeia o ex-noivo, que a abandonou depois de anos de namoro onde ela não podia nem ao menos ter um Orkut, e que quer se vingar saindo com tantos homens quanto puder. Quem quer que fale com Lúcia expressa sua empatia. Recentemente, o “fdp”, Ed, recriou sua conta no Orkut, entrou em contato com ela, e reclamou dessa situação toda. Agora, ele é alvo de scraps furiosos de pessoas do Brasil inteiro que ficaram sabendo dessa história.
E, por fim, há o recentíssimo caso da menina Isabella, que morreu após ter sido espancada e jogada da janela do sexto andar do prédio onde morava com a madrasta e o pai, prováveis responsáveis pelo crime. Num curso de extensão que faço, uma das participantes disse que “com gente assim só matando”. Não é necessário ter muita imaginação para pensar que os pais estão em celas especiais, separados do resto dos presidiários, grandes partidários da barbárie justa.
O que todos estes casos têm em comum é que o culpado é hostilizado, com freqüência de forma física, nos piores casos mortalmente, nos mais amenos, apenas ouve ameaças de morte e imprecações. Os acusadores nada têm a ver com a história: apenas ouviram o caso, e envoltas por uma capa de divina fúria, partiram para cima das bestas demoníacas que são estas pessoas. Sentem-se bem fazendo isso, pois acusando alguém realmente culpado, projetam todo mal que existe dentro delas nele, e o atacam com mais fúria ainda. Não gosto muito de Freud, mas ele acertou em cheio quando definiu a projeção como um mecanismo de defesa.
Mas há algo que estes paladinos da moral e dos bons costumes esquecem: que atacam um ser humano. Sim, apesar de ter ordenado a morte de milhares, Benito continuava sendo um homem de carne e osso. A babá que batia no bebê, o noivo que abandonou a noiva no altar e os pais de Isabella também – demasiadamente humanos, como dizia Nietzsche. Cheios de falhas, imperfeitos, cruéis, mesquinhos, impacientes. Mas seriam só isso, tão bidimensionais quanto os vilões de He-Man? Não, eles também são capazes de amar e serem amados, de exultar, sorrir, cantar e chorar. Tanto quanto as pessoas que feriram e quanto as pessoas que os atacaram e atacam. E ainda assim, apesar de tão parecidos conosco, foram condenados à pena pior que a morte: o ódio e a desumanidade. Dói demais a ferida em nosso eu pensar que podemos ser iguais à eles, portanto os isolamos de tal maneira que isto se torne impossível, ou pelo menos suma de nossa mente.
Não pretendo justificar o que aconteceu: Mussolini agiu corretamente quando governou a Itália? Acredito que não. A babá deveria ter batido no bebê? Certamente que não. Lúcia merecia ser abandonada por Ed? De forma alguma. Merecia Isabella morrer de forma tão cruel? Nunca. Mas o que pergunto é: merecem estas pessoas que erraram serem vistas como além da redenção, e tratadas pior do que o cão mais sarnento? Mais uma vez, digo que não. Mas isto não cabe a mim decidir – cabe ao resto do mundo.
No caso do Duce, havia motivos claros para sua execução, como toda a repressão que ele fez contra sua oposição, a guerra em si, as mortes que ele causou. Mas sinto-me seguro em dizer que só isto não era suficiente para uma justiça selvagem. Havia mais motivos, obscurecidos por estes que citei, para que sua morte fosse pela forca e seu corpo destinado ao ultraje.
Vejo mais casos semelhantes em dias mais atuais. Alguns anos atrás, o programa do Ratinho (que defende abertamente a “Justiça Selvagem”) exibiu um vídeo-denúncia em que uma babá aparecia espancando um bebê. Esta notícia causou indignação na população da cidade em que esta mulher vivia, e quando ela foi prestar depoimento na delegacia, foi atacada por uma turba selvagem. Não foi linchada, mas foi atacada por todos os lados, por todas as pessoas, verbal e fisicamente (aí nasceu a lenda de Lindomar, o Sub-Zero brasileiro, que lhe aplicou uma voadora).
Mais recentemente, uma jovem chamada Lúcia foi abandonada por seu noivo dois meses antes do casamento, depois de terem arranjado quase tudo. Cheia de ódio e indignação, ela criou um blog – Noiva Abandonada Quer Vingança. Graças às leis que regem a internet (e por ela ter saído com seu vestido de noiva na rua distribuindo panfletos falando mal do falecido), sua história ganhou eco e ela ficou famosa, tanto que o UOL Tablóide a entrevistou. No tal do blog, ela fala de como odeia o ex-noivo, que a abandonou depois de anos de namoro onde ela não podia nem ao menos ter um Orkut, e que quer se vingar saindo com tantos homens quanto puder. Quem quer que fale com Lúcia expressa sua empatia. Recentemente, o “fdp”, Ed, recriou sua conta no Orkut, entrou em contato com ela, e reclamou dessa situação toda. Agora, ele é alvo de scraps furiosos de pessoas do Brasil inteiro que ficaram sabendo dessa história.
E, por fim, há o recentíssimo caso da menina Isabella, que morreu após ter sido espancada e jogada da janela do sexto andar do prédio onde morava com a madrasta e o pai, prováveis responsáveis pelo crime. Num curso de extensão que faço, uma das participantes disse que “com gente assim só matando”. Não é necessário ter muita imaginação para pensar que os pais estão em celas especiais, separados do resto dos presidiários, grandes partidários da barbárie justa.
O que todos estes casos têm em comum é que o culpado é hostilizado, com freqüência de forma física, nos piores casos mortalmente, nos mais amenos, apenas ouve ameaças de morte e imprecações. Os acusadores nada têm a ver com a história: apenas ouviram o caso, e envoltas por uma capa de divina fúria, partiram para cima das bestas demoníacas que são estas pessoas. Sentem-se bem fazendo isso, pois acusando alguém realmente culpado, projetam todo mal que existe dentro delas nele, e o atacam com mais fúria ainda. Não gosto muito de Freud, mas ele acertou em cheio quando definiu a projeção como um mecanismo de defesa.
Mas há algo que estes paladinos da moral e dos bons costumes esquecem: que atacam um ser humano. Sim, apesar de ter ordenado a morte de milhares, Benito continuava sendo um homem de carne e osso. A babá que batia no bebê, o noivo que abandonou a noiva no altar e os pais de Isabella também – demasiadamente humanos, como dizia Nietzsche. Cheios de falhas, imperfeitos, cruéis, mesquinhos, impacientes. Mas seriam só isso, tão bidimensionais quanto os vilões de He-Man? Não, eles também são capazes de amar e serem amados, de exultar, sorrir, cantar e chorar. Tanto quanto as pessoas que feriram e quanto as pessoas que os atacaram e atacam. E ainda assim, apesar de tão parecidos conosco, foram condenados à pena pior que a morte: o ódio e a desumanidade. Dói demais a ferida em nosso eu pensar que podemos ser iguais à eles, portanto os isolamos de tal maneira que isto se torne impossível, ou pelo menos suma de nossa mente.
Não pretendo justificar o que aconteceu: Mussolini agiu corretamente quando governou a Itália? Acredito que não. A babá deveria ter batido no bebê? Certamente que não. Lúcia merecia ser abandonada por Ed? De forma alguma. Merecia Isabella morrer de forma tão cruel? Nunca. Mas o que pergunto é: merecem estas pessoas que erraram serem vistas como além da redenção, e tratadas pior do que o cão mais sarnento? Mais uma vez, digo que não. Mas isto não cabe a mim decidir – cabe ao resto do mundo.
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
Alterações
Adicionei, no fim da página, duas listas novas: minhas Leituras Atuais e minhas Leituras Futuras. Em outras palavras, livros que estou lendo e livros que quero ler.
Não estou bem satisfeito ainda com a maneira que o layout ficou, e é bem provável que eu mude as listas de lugar ou até mesmo as exclua e relate minhas leituras mais informalmente. Até lá, deixo como está.
Não estou bem satisfeito ainda com a maneira que o layout ficou, e é bem provável que eu mude as listas de lugar ou até mesmo as exclua e relate minhas leituras mais informalmente. Até lá, deixo como está.
Epifania
Acabo de perceber que este blog se transformou num blog de ciência. Nada mais natural, já que considero todo o processo científico de busca rigorosa da verdade mais do que importante, mas essencial até mesmo para a vida pessoal. E mesmo assim, sinto como se tivesse deixado algo de importante pelo caminho. Tento sempre ser coerente com o que digo, e no subtítulo deste site está escrito que o assunto do Espadachim Cego é, entre outras coisas que não quero abordar aqui, “Ciência, Filosofia e Transcendência”. As duas primeiras estão fartamente presentes aqui. Mas e a última, por onde anda?
Lembro-me de um sonho que tive, em que uma dama vestida de vermelho entregava-me uma rosa rubra e uma espada para matar o mal que habitava um velho casarão, cujos portões abriam-se diante de mim. Tinha uma missão, e os meios para cumpri-la. Entretanto, havia o risco de desvirtuar-me, encantar-me com coisas outras belamente irrelevantes, e assim abandonar meu caminho. Quando penso em meu futuro, não penso em fazer especialização, mestrado, doutorado, post-doc, pois que não é meu caminho fazer ciência até o fim. Mas quando vejo o histórico do blog, percebo que tenho feito isso, justamente e apenas isto – ciência. E novamente a sensação de ter deixado algo importante para trás me assola. Sei o que deixei para trás, ou pelo menos o que deixei ignorado e sem cuidados: minha transcendência, meu crescimento pessoal mais profundo. O saber que a ciência pode me dar é para a transcendência apenas um meio, e não um fim em si mesmo. Mas posso me iludir e confundir tudo. Temo não ser honesto comigo mesmo e colocar no centro da minha existência algo que deveria ser apenas secundário. E este é um risco permanente.
Eis minha mais recente epifania.
Lembro-me de um sonho que tive, em que uma dama vestida de vermelho entregava-me uma rosa rubra e uma espada para matar o mal que habitava um velho casarão, cujos portões abriam-se diante de mim. Tinha uma missão, e os meios para cumpri-la. Entretanto, havia o risco de desvirtuar-me, encantar-me com coisas outras belamente irrelevantes, e assim abandonar meu caminho. Quando penso em meu futuro, não penso em fazer especialização, mestrado, doutorado, post-doc, pois que não é meu caminho fazer ciência até o fim. Mas quando vejo o histórico do blog, percebo que tenho feito isso, justamente e apenas isto – ciência. E novamente a sensação de ter deixado algo importante para trás me assola. Sei o que deixei para trás, ou pelo menos o que deixei ignorado e sem cuidados: minha transcendência, meu crescimento pessoal mais profundo. O saber que a ciência pode me dar é para a transcendência apenas um meio, e não um fim em si mesmo. Mas posso me iludir e confundir tudo. Temo não ser honesto comigo mesmo e colocar no centro da minha existência algo que deveria ser apenas secundário. E este é um risco permanente.
Eis minha mais recente epifania.
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A Arte do Diagnóstico na Saúde Mental
No post anterior, citei um texto que tratava dos perigos de fazer diagnósticos em psiquiatria e psicologia utilizando-se apenas do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), de ignorar o “sujeito do sintoma” e tratar apenas o “sintoma do sujeito”. Além disso, criticou o modelo positivista de fazer diagnóstico, que deixa de lado três importantes tradições psicopatológicas – a fenomenologia, a psicanálise a daseinanálise. Um palestrante de nosso seminário criticou o DSM por ser frio, e não possuir a beleza artística que um guia como “Psicopatologia Geral” de Karl Jaspers possui.
Graças à sincronia do universo, tive o prazer de ler para a cadeira de Psicologia Humanista um texto diagnóstico daseinanalítico, escrito pelo eminente psicanalista e analista existencial Medard Boss. Faz algum tempo que me interesso por Análise Existencial, mas nunca tive a oportunidade de entrar em contato com esta teoria. Enfim, o diagnóstico é parte de um estudo de caso conduzido por Boss, o caso Ellen:
Se tentarmos, então, sumarizar uma vez mais as características individuais e formas fenomenais do modo de (Ellen) ser-no-mundo dentro das várias regiões-do-mundo... será melhor começarmos pelo mundo da paisagem (Umwelt): o ser-limitado e o ser-oprimido expressam-se aqui no escurecimento, na escuridão, na noite, no frio, na maré-baixa; as fronteiras ou limites mostram-se como as paredes de névoa úmida, ou como as nuvens; o vazio, como o Mistério; o anseio de liberdade (libertar-se do mundo) como a elevação no ar; o eu como um pássaro emudecido. No mundo da vegetação, o ser-restrito e o ser-oprimido mostram-se no esmaecimento e as barreiras no ar sufocante; o vazio, nas sementes; o anseio de liberdade, na urgência de crescer; o eu, na planta seca. No mundo das coisas encontramos o ser-restrito no buraco, no sótão, no túmulo; as barreiras estão nas paredes, na alvenaria, nas correntes, nas redes; a ânsia de liberdade no vaso da fertilidade; o eu na casca jogada fora. No mundo animal o ser-restrito é visto como ser-esburacado por dentro; as barreiras, como a terra ou a noite escura; o eu como um verme incapaz de ainda ansiar por liberdade; o vazio como simples vegetar. No Mitwelt, o ser-restrito é visto como ser-subjugado, oprimido, prejudicado e perseguido; o vazio, como a falta de paz, a indiferença, a submissão infeliz, a reclusão, a solidão; as barreiras, como algemas ou as víboras de todo dia ou como o ar sufocante; o vazio em si mesmo como o pequeno mundo (dia-a-dia); o anseio por liberdade, como a necessidade de independência, de desafio, de insurreição, revolta; o eu como covarde, niilista e, mais tarde, covardemente comprometido. No Eigenwelt, o mundo-do-pensamento, reconhecemos o ser-restrito na covardia, na indlugência, no abandono dos planos a longo prazo; as barreiras, nos fantasmas ou espectros acusadores e zombeteiros que a rodeiam e invadem por todos os lados; o vazio, no ser-norteado por uma única idéia, como a do Nada; o eu, na minhoca tímida, no coração gelado; o anseio de liberdade, no desespero. Finalmente, no Eigenwelt, o mundo-corporal, encontramos o ser-restrito no ser gorda; as barreiras ou paredes, na camada de gordura em que a existência dá murros; o vazio, no ser tola, estúpida, velha, feia, e mesmo ser morta; o anseio de liberdade no desejo-de-emagrecer; o eu, como um mero tubo que se enche e se esvazia de matéria.
A primeira vez que li este texto pensei: “ou seja: bulimica, gravemente depressiva com tendências suicidas. Poderia ter me poupado trabalho.” Admito que o DSM é uma ferramenta bastante limitada para diagnosticar pacientes, já que apenas descreve os sintomas externos visíveis, e não dá uma etiologia (origem, causa) dos transtornos, e que estudos fenomenológicos de caso poderiam cobrir esta lacuna. Mas demora muito mais escrever um relato desses do que fazer um diagnóstico pelo DSM (só digitando demorou um monte, imagina inventando). Vale lembrar que Ellen se matou durante o tratamento. E por causa da depressão, que nem de longe é um bicho papão. Claro, na época do velho Boss a psicoterapia era muito rudimentar se comparada com as técnicas que temos atualmente, portanto dá para dar um desconto para o fracasso dele em tratar Ellen. Também temos de convir que, por mais que tenha escrito, Boss deve ter se dedicado ao caso, e que o que menos desejava era a morte de Ellen. E fico pensando como ele, um psiquiatra, teria reagido se um manual de diagnóstico tivesse sido criado em sua época. Prefiro imaginar que teria ficado feliz com a ajuda de mais uma ferramenta, e continuaria a daseinanalisar seus pacientes.
É irreconciliável a prática de um diagnóstico rápido e preciso com uma descrição qualitativa detalhada? Acredito que não. Apesar de não ser capaz de ver como um relato como o de Boss pode ser útil para o progresso da Psicologia e da Psiquiatria (prefiro o estilo do neurologista Oliver Sacks, que trata mais diretamente dos sentimentos e impressões dos pacientes e de todos em volta, inclusive o próprio médico), acredito que é uma prática salutar, pois leva o psicoterapeuta a pensar melhor a respeito da vida de seus pacientes, seus sentimentos e sua relação interpessoal. Mas negar-se a usar o DSM-IV ou o CID-10 por que “subjetivam” os pacientes é coisa de ideólogo ignorante.
Graças à sincronia do universo, tive o prazer de ler para a cadeira de Psicologia Humanista um texto diagnóstico daseinanalítico, escrito pelo eminente psicanalista e analista existencial Medard Boss. Faz algum tempo que me interesso por Análise Existencial, mas nunca tive a oportunidade de entrar em contato com esta teoria. Enfim, o diagnóstico é parte de um estudo de caso conduzido por Boss, o caso Ellen:
Se tentarmos, então, sumarizar uma vez mais as características individuais e formas fenomenais do modo de (Ellen) ser-no-mundo dentro das várias regiões-do-mundo... será melhor começarmos pelo mundo da paisagem (Umwelt): o ser-limitado e o ser-oprimido expressam-se aqui no escurecimento, na escuridão, na noite, no frio, na maré-baixa; as fronteiras ou limites mostram-se como as paredes de névoa úmida, ou como as nuvens; o vazio, como o Mistério; o anseio de liberdade (libertar-se do mundo) como a elevação no ar; o eu como um pássaro emudecido. No mundo da vegetação, o ser-restrito e o ser-oprimido mostram-se no esmaecimento e as barreiras no ar sufocante; o vazio, nas sementes; o anseio de liberdade, na urgência de crescer; o eu, na planta seca. No mundo das coisas encontramos o ser-restrito no buraco, no sótão, no túmulo; as barreiras estão nas paredes, na alvenaria, nas correntes, nas redes; a ânsia de liberdade no vaso da fertilidade; o eu na casca jogada fora. No mundo animal o ser-restrito é visto como ser-esburacado por dentro; as barreiras, como a terra ou a noite escura; o eu como um verme incapaz de ainda ansiar por liberdade; o vazio como simples vegetar. No Mitwelt, o ser-restrito é visto como ser-subjugado, oprimido, prejudicado e perseguido; o vazio, como a falta de paz, a indiferença, a submissão infeliz, a reclusão, a solidão; as barreiras, como algemas ou as víboras de todo dia ou como o ar sufocante; o vazio em si mesmo como o pequeno mundo (dia-a-dia); o anseio por liberdade, como a necessidade de independência, de desafio, de insurreição, revolta; o eu como covarde, niilista e, mais tarde, covardemente comprometido. No Eigenwelt, o mundo-do-pensamento, reconhecemos o ser-restrito na covardia, na indlugência, no abandono dos planos a longo prazo; as barreiras, nos fantasmas ou espectros acusadores e zombeteiros que a rodeiam e invadem por todos os lados; o vazio, no ser-norteado por uma única idéia, como a do Nada; o eu, na minhoca tímida, no coração gelado; o anseio de liberdade, no desespero. Finalmente, no Eigenwelt, o mundo-corporal, encontramos o ser-restrito no ser gorda; as barreiras ou paredes, na camada de gordura em que a existência dá murros; o vazio, no ser tola, estúpida, velha, feia, e mesmo ser morta; o anseio de liberdade no desejo-de-emagrecer; o eu, como um mero tubo que se enche e se esvazia de matéria.
A primeira vez que li este texto pensei: “ou seja: bulimica, gravemente depressiva com tendências suicidas. Poderia ter me poupado trabalho.” Admito que o DSM é uma ferramenta bastante limitada para diagnosticar pacientes, já que apenas descreve os sintomas externos visíveis, e não dá uma etiologia (origem, causa) dos transtornos, e que estudos fenomenológicos de caso poderiam cobrir esta lacuna. Mas demora muito mais escrever um relato desses do que fazer um diagnóstico pelo DSM (só digitando demorou um monte, imagina inventando). Vale lembrar que Ellen se matou durante o tratamento. E por causa da depressão, que nem de longe é um bicho papão. Claro, na época do velho Boss a psicoterapia era muito rudimentar se comparada com as técnicas que temos atualmente, portanto dá para dar um desconto para o fracasso dele em tratar Ellen. Também temos de convir que, por mais que tenha escrito, Boss deve ter se dedicado ao caso, e que o que menos desejava era a morte de Ellen. E fico pensando como ele, um psiquiatra, teria reagido se um manual de diagnóstico tivesse sido criado em sua época. Prefiro imaginar que teria ficado feliz com a ajuda de mais uma ferramenta, e continuaria a daseinanalisar seus pacientes.
É irreconciliável a prática de um diagnóstico rápido e preciso com uma descrição qualitativa detalhada? Acredito que não. Apesar de não ser capaz de ver como um relato como o de Boss pode ser útil para o progresso da Psicologia e da Psiquiatria (prefiro o estilo do neurologista Oliver Sacks, que trata mais diretamente dos sentimentos e impressões dos pacientes e de todos em volta, inclusive o próprio médico), acredito que é uma prática salutar, pois leva o psicoterapeuta a pensar melhor a respeito da vida de seus pacientes, seus sentimentos e sua relação interpessoal. Mas negar-se a usar o DSM-IV ou o CID-10 por que “subjetivam” os pacientes é coisa de ideólogo ignorante.
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