terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Histórias que entretêm - Passeio Etílico em Uruguaiana (Parte III)

Os ideais, não importa quão belos sejam, têm sua validade sempre dependente do contexto. Por exemplo, a Reforma Psiquiátrica, que busca pôr abaixo os manicômios, hospícios e preconceitos e possibilitar uma vida mais livre e digna para pacientes portadores de sofrimento psíquico parece muito mais bonita quando não se está dentro de um veículo de grande porte dirigido por um esquizofrênico em surto. Bem, esta era a situação em que me encontrava, pois aquele caminhoneiro que parou para me dar carona, que a princípio parecia um lunático na verdade estava completamente delirante, me fazendo rezar por um hospício bem psiquiatrizante e com uma máquina de eletrochoque bem potente.

Ele dizia que seu "nome de cartório" era Pedro, mas que todos o chamavam de Tijolão. "Por que?" perguntei em um rompante infeliz de curiosidade, que o estimulou a contar uma história confusa e desligada da realidade, que envolvia de uma maneira muito bizarra a Brigada Militar, "os espião do Jorge Bush", alienígenas estupradores, rádios à pilha que controlam pensamentos e a olaria do pai dele, que tinha sido construída sobre a o tesouro dos Farroupilhas. Também envolvia, bastante tangencialmente diga-se de passagem, um golpe de tijolo que ele levou na cabeça quando guri. Em um setting terapêutico em Porto Alegre, seguro, confortável e cheirando à Bom Ar, eu acharia tal depoimento profundamente interessante, e mais fantástico que o caso do Presidente Schreber, mas ali, na boléia de um caminhão dirigido por este cidadão que deveria estar tomando Haldol como quem come Tic-Tacs, só serviu para aumentar meu pavor. Porém, eu já tinha começado a escarafunchar e ver as coisas com mais clareza, e não podia parar por ali. Restavam, pelo menos, mais duas perguntas por fazer: o que ele estava levando de carga e o porquê. Eu ia me arrepender de saber essas coisas, e ia ficar ainda mais apavorado, mas não dava para segurar:

- Seu Tijolão?
- Fala, guri.
- O que o senhor está levando na carga?
- Ali atrás?
- É. Ali atrás.
- Vacas.
- Como é que eu não ouvi nenhum mugido até agora?
- São vacas ninja. Tipo o Jiraya. Essas são muito rara. Tive que buscar elas lá na Argentina.

Estas informações reativaram meu olfato, até então anestesiado pelo meu próprio fedor, e passei a sentir um forte cheiro de carniça, e me impressionei por não tê-lo sentido antes. Pelo menos eu entendi como ele não se impressionou com o meu fedor. Ainda assim, continuava cheio de dúvidas (principalmente sobre onde ele aprendeu sobre Jiraya) e continuei:

- E o que o senhor pretende fazer com elas?
- Me vingar dos vermelhos, aqueles fiodaputa.
- Com um exército de vacas ninja?
- É isso aí. Por que?
- É um plano de gênio, seu Tijolão. Mas onde estão estes comunistas?
- Eles se escondem lá em Floripa, no Mercado Público.
- E o senhor vai soltar suas vacas lá, é isso?
- E pegar todos aqueles cornos.

Não me entendam mal - eu, mais do que qualquer outra pessoa, sou capaz de perceber o lado humorístico de um psicótico largando vacas mortas no meio de um mercado cheio de gente (e que, se ele fosse um estudante de Psicologia, ele estaria fazendo uma intervenção) e de todas os noticiários babacas que surgiriam na internet, mas precisava impedi-lo de fazer isto. Afinal de contas, quem pode imaginar quantas novas "doenças da vaca louca" (ou do "louco das vacas") podem surgir com essa brincadeira?

Precisava impedi-lo, já disse, mas não sabia como. Sabia que o papo furado de "confrontação empática" não iria colar ali, e que, se rolasse confrontação, ela seria bastante "antipática", por assim dizer. Comecei a olhar ao redor da boléia para ver se encontrava qualquer coisa que poderia ser como arma, especialmente contra mim. Além das dúzias de latinhas de cerveja que poderiam ser atiradas contra minha cabeça, identifiquei uma pá e um taco de basebol, além de um jogo de talheres completo. Por que este cidadão estava levando um jogo de talheres completo em sua boléia, não quero nem pensar - deveriam ser shurikens de vaca. Subitamente, surgiu em minha cabeça um ousado plano. Era absolutamente delirante, mas considerando que meu caroneiro também era, talvez funcionasse. "Seu Tijolão", disse com a voz baixa, "seu plano é genial, mas tem um problema". Ele levantou suas sobrancelhas e olhou para mim com interesse e espanto. Era o sinal de que tinha capturado sua atenção. Antes que ele perguntasse qualquer coisa, continuei - "suas vacas não estão bem treinadas". "Mas como, tchê? Eu mesmo peguei elas no campo e vi que elas eram boas!" exclamou ele. O olhar dele me pareceu um pouco assassino demais, então tão rápido quanto pude, emendei uma desculpa:

- Sim, elas tem muito potencial e só alguém muito bom poderia selecionar vacas ninja tão poderosas, mas precisam um treino especial a mais.
- E que treino é esse?

Olhei para os lados, como se procurando algum espião, e respondi:

- Não posso dizer agora. Os vermelhos podem nos ouvir. Eles controlam tudo nessa estrada, mas estamos com sorte. No próximo posto de gasolina há um mestre vaca ninja aliado nosso, e que pode dar o treinamento final para seus soldados.
- Tem certeza?
- Absoluta! Mas vamos com cuidado. Os espiões do Stalin estão por todos os lados, mesmo lá no posto.

Eu já sabia que tinha talento para ganhar a simpatia de psicopatas, mas este meu talento para conquistar a confiança de psicóticos era algo novo para mim. Bom, pelo menos estava progredindo: tinha conseguido carona para a Capital, e iria parar em um posto de gasolina, onde provavelmente eu encontraria um orelhão e talvez um chuveiro, e poderia conseguir uns trocados para um telefonema e uma ducha fria, até mesmo um Prato Feito ou qualquer angu de posto de gasolina. Depois de informado, limpo e alimentado, eu pensaria em como continuar a história do treino das vacas ninja e impedir meu amigo Tijolão de fazer alguma merda em Florianópolis.

Depois de cansativos trinta minutos (por que ficar fingindo estar se escondendo de possíveis espiões cansa pra cacete), chegamos no posto. Era igual a quase todos os outros postos de gasolina de beira de estrada que já conheci. Não era nada de especial, mas naquele momento parecia especialmente paradisíaco. Faziam quatro dias que tinha sumido de maneira pecaminosa de Porto Alegre, já estava anoitecendo e eu continuava coberto de sujeira. Tudo conspirava para que meus pais estivessem surtados me procurando em todos os cantos errados da capital e da Serra e que não me encontrariam, o que os deixaria ainda mais surtados. Dadas estas circunstâncias, me senti liberto de qualquer pudor e decidi satisfazer minhas necessidades de qualquer maneira. Antes que vocês digam que eu decidi vender meu corpo por uma coxinha de galinha e uma Sukita, matando dois coelhos com uma cajadada só, já lhes informo que na verdade eu não cobro comecei a mendigar trocados e/ou cartões telefônicos. De certa forma, era mais ou menos como passar por um novo trote, com a diferença que dessa vez, não pedia trocados para beber demais, mas pedia trocados por beber demais.

Não sei o que as pessoas que eu abordava pensavam quando me viam, mas sei que recebi muitas doações. Talvez eles não quisessem que eu encostasse no carro deles, o que poderia vir a ser uma boa ameaça caso precisasse ser mais "convincente". Tendo acumulado muitos sucessos na minha carreira mendicante, pensei em descansar um pouco e tomar um banho. Porém, o senso de urgência que tomara meu corpo (além das minhas pulsões sado-masoquistas/auto-punitivas) era forte demais para permitir tamanho luxo antes de eu telefonar para alguém conhecido e confiável. Por isso, assim que achei que tinha créditos o suficiente para dizer, por telefone, onde e como eu estava, fui até o orelhão mais próximo e liguei para o Borat.

Tuuuuu... Tuuuuu... Tuuuuu... A ligação tinha sido feita. Enquanto esperava alguém atender, ensaiava novamente o que diria, especialmente se alguém além do Borat atendesse o telefone (e agradecia pelo fato de tal aparelho não transmitir odores). Tuuuuu... Tuuuuuu... Tuuuuu... Mais alguns segundo de espera, antes de contatar minha salvação. Tuuuuu... Tuuuuu... Tuuuuu... Já demorava demais, e começava a pensar se meu redentor não teria saído para beber e no processo esquecido completamente da minha existência (e, se ele realmente fez isso, se foi intencional). O orelhão iria começar mais uma vez sua monótona canção quando escuto o barulho de um fone sendo tirado do gancho do outro lado da linha e escuto o primeiro alô do meu amigo. Mal começara a dizer "Borat, seguinte..." quando, por razões que a própria razão não compreende, senti um forte impulso de largar o telefone e rolar para a esquerda. Quando fiz isso, percebi que dizer que a razão não comprendia por que eu deveria fazer isto talvez fosse incorreto, pois meu caroneiro Tijolão tinha recém arrebentado aquele orelhão com uma pá, enquanto gritava "Comunista" e "traidor" a plenos pulmões.  Ao contemplar tal espetáculo, pensei que, se algum dia eu tivesse a oportunidade de dizer ao meu psicanalista como me senti naquele instante, diria que me senti como Kitti Genovese e um bebê de 6 meses, por que ninguém que estava ali por perto fez nada, e por que eu acabara de cagar nas calças com o susto.

"Telefone é coisa de comunista, seu porco! Me traiu!" gritou ele mais uma vez, desta vez olhando para mim com olhos injetados de sangue. Ele não era mais Tijolão, mas Azrael, o anjo da morte, e ele viera para a terra para levar minha alma para o inferno, não com uma foice, mas com uma pá. Talvez, em condições normais, eu pudesse enfrentá-lo de frente, sem medo, como um verdadeiro guerreiro. Contudo, os últimos quatro dias que passei cometendo todas as heresias listadas pelo Vaticano e buscando voltar para Porto Alegre deixaram-me completamente esgotado e incapaz de dar um soco sequer. Eu ainda conseguia correr. E como conseguia! O problema que Tijolão também corria muito para um homem de seu tipo físico, o que me obrigava a mudar minha estratégia, e logo. Em uma ousada e desesperada manobra, desviei-me de Tijolão, e corri com todas as minhas forças em direção ao seu caminhão.

Continua...

As Histórias da Expedição Austral - Nossas Idiossincrasias Lingüísticas

Apesar da linguagem ser um desenvolvimento evolutivo relativamente recente, é razoável dizer que o Homo sapiens é um animal verbal. Em outras palavras, isto quer dizer que o ser humano inventa palavra para tudo que é porcaria que ele conhece e/ou inventa. Para dar um exemplo disto, vamos imaginar que voltamos no tempo, e que agora somos Vikings, navegando em um navio com cabeça de dragão, procurando terras para pilhar e usando capacetes com chifres mesmo que os vikings de verdade nunca tenham feito isto. Agora, pensem que nosso navio atracou em uma praia desconhecida, porém muito bela do hemisfério sul. No melhor espírito aventureiro, nós descemos do navio e exploramos a terra, com a expectativa de enfrentar alguma horda bárbara e irmos para o Valhalla, quando, de repente, vemos diante dos nossos olhos uma linda, colorida e gigantesca ave, voando com graça e elegancia. O que fazemos? Matamos a ave, obviamente, por que nós somos Vikings e nós matamos coisas. Porém, depois que a matamos, vemos que ela é muito diferente de qualquer outro pássaro que conhecíamos. O que temos que fazer? Além de descobrir se dá pra comer a carne do bicho, precisamos inventar um nome para ele. Mas não se preocupe, estas duas coisas acontecerão naturalmente, e algum dos nossos companheiros criará uma palavra como "Arara", "Papagaio" ou "Parakittar" para designar a nossa futura janta.

Agora, voltemos para o tempo presente, por mais desinteressante que ele possa parecer agora por não sermos mais vikings e por não termos arara para o jantar. Este exemplo que eu dei, apesar de ser preciso o suficiente, não é amplo o bastante, por que não inventamos palavras só quando um troço colorido e cheio de penas voa em nossa direção, e sim o tempo todo. De fato, apesar de não poder provar nada do que vou afirmar agora (e, aliás, nem preciso, isso aqui não é um artigo pra Science), creio que passamos por um processo parecido quando aprendemos a falar nossa língua materna, e é através dessa "invenção contínua" de novas palavras que novas línguas nascem. Se os vikings do nosso exemplo, ao invés de voltarem para a Escandinávia, resolvessem estabelecer uma comunidade ali naquela terra cheia de Parakittars e não fossem todos devorados por criaturas selvagens e/ou populações auctóctones, dentro de algumas décadas desenvolveriam uma linguagem tão diferente da original que se transformaria em uma nova. Isso aconteceu pelo menos uma vez, com os holandeses que se mudaram para a África do Sul e "criaram" a língua afrikaans.

Mas não precisamos ir tão longe assim. É bem possível que exista algum agrupamento humano que, apesar de separado do resto de sua sociedade, não desenvolva uma língua própria, contudo esteja isolado o suficiente para criar toda uma vasta gama de termos novos para coisas que não existem no "resto do mundo" ou que lá teriam um outro nome, mais convencional. Um exemplo disto são as Forças Armadas que, por obrigarem seus membros a passarem quase todo seu tempo isolados do resto da sociedade, desenvolvendo tarefas pouco ortodoxas (pilotar helicópteros, por exemplo), muitas vezes acabam criando espontaneamente e ao longo do tempo uma forma muito própria de se comunicar. O melhor exemplo que tenho deste fenômeno é este longo e interessante glossário de termos utilizados informalmente pelos membros da Marinha dos Estados Unidos. É longo, porém extremamente divertido (eu me matei de rir com "Whistling Shitcan of Death" e PFM). É discutível se, durante nossa viagem, eu e Marcelo ficamos realmente isolados do resto da sociedade, mas como nos confrontamos com necessidades diferentes das nossas em Porto Alegre, acabamos por inventar palavras novas ou remodelar as antigas para que melhor descrevessem nossas condições (e também serem mais engraçadas).

A primeira gíria surgiu ainda em Buenos Aires. No primeiro ou segundo dia de congresso, eu e Marcelo caminhávamos apressadamente para chegarmos à tempo de alguma palestra e, como estávamos com fome, paramos em um mercadinho, onde compramos algumas unidades de pão francês, que provavelmente deveriam ter pó de cimento na mistura, por que eram horríveis - secos, duros e sem gosto algum. Como bom estóico que é, Marcelo simplesmente passou a dar mordidas mais fortes, eu, como bom palhaço e nerd, me lembrei de um pedaço de "O Hobbit", e o compartilhei com meu amigo  no seguinte diálogo:

Eu- Marcelo, tu já leu "o Hobbit"?
Marcelo- Duas vezes.
Eu- Tu te lembra do "cram"?
Marcelo- Não.
Eu- Cram era o nome de um pão de viagem dos anões, parecido com o Lembas, que era duro, seco e sem gosto, e que servia mais para exercitar as mandíbulas do que para a alimentação.
Marcelo- Ah!

E assim, daquele momento em diante, cram virou sinônimo de "comida ruim, mas que supre nossas necessidades". Mais adiante na viagem, já na Patagônia, cram passou a ser o nome muito particular que demos para os mandolates da La Anonima, que descobrimos em uma promoção de Natal. Como os pães de Buenos Aires, eles eram secos, duros e com um gosto muito sutil (para não dizer inexistente), mas serviam para encher a barriga entre as refeições. Muitas vezes, durante as nossas caminhadas, ouvi Marcelo dizer "pega o cram, por favor", como se ele dissesse "hora de manter a glicemia". Curiosamente, mais para o final da viagem, compramos mandolates da Arcor, que além de mais macios, tinham sabor de alguma coisa, e a primeira coisa que dissemos quando descobrimos isso foi "bah, que merda, isso aqui tem gosto. A gente vai acabar com tudo logo, logo". Feliz ou infelizmente, não foi o que aconteceu, pois os tais mandolates provaram ser enjoativos.

A segunda palavra que desenvolvemos foi PDM. Sempre que iríamos fazer alguma coisa peculiarmente arriscada ou idiota, calculávamos seu PDM. E o que é PDM? É "Potencial pra Dar Merda". E nossa viagem era cheia de potencial! Como exemplo clássico do uso deste termo, lembro-me de "tchê, essa tua idéia tem um alto PDM", quando um de nós sugeria qualquer coisa perigosa ou imbecil. Foram tantas que nem vale a pena fazer uma lista. Considero esta sigla especialmente engraçada por ter, ao mesmo tempo, um ar altamente técnico e um significado particularmente vulgar.

A terceira palavra não é tanto uma gíria nossa, e sim mais um hábito nosso. Como nós estávamos bastante acostumados a comparar preços, nós fazíamos isto em qualquer lugar onde houvesse prateleiras e produtos à venda, mesmo que não quiséssemos comprar nada. Por que fazíamos isso? Por despeito, pois assim, podíamos nos sentir melhores do que o resto das pessoas que compravam, por que sabíamos que os preços ali eram absurdos e nós sabíamos onde era mais barato (no La Anonima, é claro!). E o nome que dávamos para esta sobra de preço era "achacação". Se, durante uma viagem de ônibus parássemos em um posto de conveniência (assim chamados por dois motivos: 1. são bem localizados, para a conveniência do viajante; 2. têm os preços absurdamente inflacionados, para a conveniência do dono do estabelecimento), um de nós certamente olharia o preço das coisas à venda e diria para o outro "a achacação aqui é violenta" e tentaria pegar discretamente a comida que o casal de idosos deixou sobrando no prato.

Também tínhamos uma relação especial com as palavras do espanhol que aprendíamos no caminho. Não pedíamos carona, "haciamos dedo" - ou "fazer dedo", depois de muitas horas na beira da estrada. Jurel, caballa e pelón (além de choclo, por parte do Marcelo), apesar de provavelmente terem algum equivalente em português, eram os únicos termos que tínhamos à nossa disposição para descrever três itens bastante importantes de nossa empreitada - para ser sincero, até hoje não sei bem que tipo de peixe são caballa e jurel (porém pelón eu sei que em português é nectarina). Copado, apesar de não ter se tornado parte integrante do nosso vocabulário, era um acessório interessante, que usávamos quando conversávamos com argentinos e queríamos dar a entender, ao mesmo tempo, que achávamos que algo era legal, e que entendíamos do dialeto argentino. Como diriam os norte-americanos exceto os mexicanos worked like a charm.

Por fim, dois dedos de prosa a respeito do nosso equipamento. Não, não inventamos nomes personalizados para nenhum item do nosso inventário (exceto a garrafinha, que sempre chamamos de "A Saudosa"), mas fomos, com o tempo, descobrindo seus nomes em espanhol e utilizando-os quando necessário. Barraca é carpa ou tienda; fogareiro, calentador; guardanapo (sim, sempre tínhamos pelo menos dois à nossa disposição), servilleta. Por causa do hábito que nosso calentador tinha de apagar quando mais precisávamos dele, tivemos que desenvolver um dispositivo que protegesse sua chama e mantivesse seu calor. Foi assim que nasceu o "forno". Se vocês pensaram em um invento altamente sofisticado, eu sinceramente duvido que vocês tenham entendido como foi nossa viagem. Basicamente, nós colocávamos um de nossos isolantes térmicos em volta do fogareiro aceso, e o cobríamos com uma jaqueta. O fogo continuava apagando, mas com muito menos freqüência. E, last but not least, passamos a viagem inteira chamando nossa panela de "panela", para depois descobrirmos que era uma leiteira. O que não muda nada, pois continuo chamando ela de panela.

A "leiteira" em ação. Sim, a situação é algo que saiu de um livro dadaísta.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

As Histórias da Expedição Austral - Diários da Cozinha

Prometi, há muito tempo atrás, escrever um relato completo de minha viagem pela Patagônia, que em minha cabeça, seria tão grande quanto um livro: seria dividido em vários capítulos, um para cada fase da jornada, além de um que outro comentário psicológico ou antropológico que achasse interessante. Apesar de não ter ido além de um rascunho do segundo capítulo, nunca abandonei este plano. Por isso, graças ao tempo livre que surgiu com o fim do semestre, e uma nova viagem pairando no horizonte, decidi retomá-lo. Porém, como não estou com meu diário de viagem comigo, e não me encontro em estado de espírito favorável para narrativas, escreverei sobre um assunto que não pretendia originalmente, mas que está intimamente ligado à nossa peregrinação através do deserto patagônico: Nutrição. Provavelmente falarei a respeito disto em outros e futuros posts, sendo um pouco repetitivo, mas não vejo problema nisso, pois em nenhum outro lugar serei tão detalhista quanto aqui. Além do mais, a redundância tem seu charme.

O problema da comida preocupou a mim e Marcelo desde antes de colocarmos os pés no ônibus para Buenos Aires, e, conforme fomos progredindo e aprendendo com a experiência em nossa viagem, fomos nos adaptando, desenvolvendo novas estratégias e truques, além de algumas obsessões com a nossa alimentação. Ainda em Porto Alegre, nos encontramos na casa de uma tia dele, antiga viajante e tão fã de indiadas quanto nós, com dois objetivos. O primeiro era para testarmos a nossa recém adquirida (e ainda intacta) barraca, e aprendermos a cozinhar em circunstâncias adversas com nosso fogareiro. Não vou estragar a história e contar nada antes do seu devido tempo, mas quero neste ponto apenas dizer que, algumas semanas mais tarde, descobrimos que este treinamento fora bastante incompleto. Ah, como foi!

Em todo caso, naquele dia, cozinharíamos pela primeira vez a comida que imaginávamos que iríamos comer ao longo da Expedição. Assim sendo, preparamos uma refeição com os mesmos ingredientes e ferramentas que esperávamos usar na Argentina: nosso fogareiro, nossa panelinha, uma colher e nada de condimentos. O que saiu foi uma massa sem sal com atum. Tudo correra tranquilamente, e a comida foi suficiente tanto para mim, quanto para Marcelo, além de não ser tão ruim quanto eu imaginava. Por isso, saímos de lá com uma sensação de vitória, e de que, pelo menos no que dizia respeito à comida, não teríamos problema algum. Já em território estrangeiro, mas ainda na civilização, fizemos mais um treino, cozinhando outra massa, desta vez com tomate e uma lata de jardineira (logo mais falarei de todos os ingredientes que usamos ao longo da viagem em nossas refeições. Não eram tantos assim, acredite). Naquela ocasião, disse que eu perdera toda minha dignidade tentando abrir esta lata usando minha bota (não, não vou explicar como). Outra vez, achei erroneamente que este seria o ponto mais baixo que atingiria ao longo da Expedição.

Os problemas de fato só começaram em Puerto Madryn, primeira cidade patagônica que visitamos. Porém, estes problemas não eram relacionados à comida em si, mas sim a um dos equipamentos mais importantes: o fogareiro. Para quem não sabe, na Patagônia venta muito, e para quem sabe menos ainda, fogueiras e chamas fracas podem ser apagadas com lufadas de vento muito fortes. Para quem não conseguiu ligar os pontos, eu explico: nosso fogareiro tinha a chama fraca, e como ventava o tempo todo, não tinha como cozinhar em campo aberto. É, não tínhamos previsto este contratempo em Porto Alegre, o que apenas nos deixou mais abobalhados na hora que percebemos isto. Como somos indivíduos muito capazes e inteligentes, demos um jeito naquela hora. Porém, este problema continuou ao longo de toda a Expedição, e em todos os lugares que cozinhávamos com o fogareiro, éramos obrigados a inventar soluções novas, e cada vez mais bizarras. Como este não é o assunto deste post, e não quero ser por demais repetitivo, deixo ao cargo da imaginação de vocês quais soluções eram estas, até que chegue o momento de relatá-las neste mesmo blog.

Em todo caso, apesar de sermos novatos no ramo da mochilagem, sabíamos que passar fome é uma coisa ruim, e conhecíamos meios de evitar que isto acontecesse. Para ser justo, quem sabia mesmo esse tipo de coisa era o Marcelo, que lera algumas coisas sobre Nutrição antes de partirmos, e pedira algumas dicas para uma nutricionista, além de ser o cozinheiro efetivo da dupla (meses depois de nosso retorno, enquanto fazíamos uma jantinha lá em casa, Marcelo falou que minha maior habilidade culinária era lavar a louça com muita presteza. Lamento dizer que aquela bicha ele está corretíssimo). Por isso, apesar de contarmos com poucos recursos, tínhamos à nossa disposição um método eficaz de investi-los, que fazia com que comêssemos o máximo desperdiçando o mínimo (pelo menos assim acreditávamos). Este método é relativamente simples, e leva em conta dois grandes fatores: os nutrientes e o dinheiro. Quando íamos ao mercado, fazíamos um "cálculo subjetivo" (ugh, só um psicólogo pra largar uma dessas), cujas variáveis eram nossas necessidades nutricionais, a quantidade do produto e o preço. Se um dado produto contasse com mais nutrientes (segundo a Wikipédia, os principais são proteínas, carboidratos, gorduras e minerais - se bem que não éramos tão refinados a ponto de conhecermos a necessidade de ingerir minerais, ou pelo menos eu não lembro do Marcelo falar a respeito deles), maior peso líquido e menor preço, seria comprado. Claro, nem sempre encontrávamos um produto que suprisse tão perfeitamente nossas necessidades, e na maior parte das vezes, precisávamos escolher o produto "menos pior". Contudo, imagino que, para algum transeunte que passasse por nós dois, sentados no chão e olhando para várias latas diferentes, deveríamos parecer algum tipo de pegadinha do Faustão.

Os alimentos que comprávamos eram bastante simples e repetitivos, e como conseqüência disto, nossas refeições quentes também. Posso resumir tudo o que comíamos no almoço e no jantar em arroz, macarrão, peixe enlatado e latas de verduras e legumes em conserva, mais conhecidas como jardineiras. O modo de preparo era igualmente refinado: aquecer, misturar e comer. Esta fórmula de sucesso manteve-se inalterada por praticamente toda a viagem, salvo memoráveis exceções (que intencionalmente omitirei neste post), mas sofreu ligeiras modificações no que tange os ingredientes em si. No começo da viagem, era mais comum de nós fazermos macarrão - contudo, depois que percebemos que arroz rendia mais e enchia mais a barriga, meio que o deixamos de lado. Também fazíamos refeições mais ricas, que envolviam arroz, tomate, jardineira e atum, só que, de novo, largamos disso e passamos a usar só um acompanhamento de cada vez para nossa fonte de carboidrato (i.e. o arroz), alternando qual tipo de lata usávamos em cada refeição. Quando queríamos dar uma incrementada protéica no negócio, cozinhávamos um ovo no arroz. É isso mesmo: quebrávamos ele e deixávamos ele cozinhar por cima do arroz e, quando ele estava consistente o bastante, misturávamos tudo e engolíamos (em muitos momentos, "comer" tornou-se um verbo pouco acertado para nossa postura). Em certos dias, porém, lançávamos mão do recurso do "pão com qualquer coisa". Por exemplo, nos primeiros dias em Puerto Madryn, estávamos no centro da cidade, e compramos um pão do tamanho de uma cabeça humana e comemos com queijo, iogurte natural e cereais, e, dias mais tarde, no meio de um areal cheio de moscas monstruosas, comemos pão com jurel (e eu, um pouco de areia, por pura ogrice teimosia).

Com o dinheiro acabando e a fome continuando, fomos ficando menos seletivos quanto ao tipo de porcaria que comprávamos. Foi assim que deixamos de comprar atum enlatado, que é um peixe relativamente nobre (leia-se "caro"), e passamos a comprar outros peixes de segunda qualidade. Adotamos essa prática depois de percebermos que as latas de Jurel e Caballa, além de serem mais baratas, eram maiores e portanto continham mais comida. Sim, sim, elas também vinham com a coluna vertebral do peixe de brinde, mas isso é fato irrelevante. O que importava é que a gente comia mais, e tinha praticamente o mesmo gosto (dava gases, porém, segundo um Guilherme, um dos caras que conhecemos durante a viagem. Ele provou isto empiricamente - conosco por perto, no less). As jardineiras que comprávamos também sofreram modificações, todavia, não por vontade nossa, e sim por contingências econômicas. Basicamente, há dois tipos de jardineiras: com milho e sem milho. Por que só o milho caía fora da mistura e mais nada, eu não sei. Porém, sempre que tínhamos a escolha, comprávamos as que tinham milho, talvez por considerá-las mais nutritivas, por algum desejo reprimido de ver nossas fezes decoradas como escatológicas árvores de natal, ou simplesmente por que era mais gostoso. Uma curiosidade para vocês: quando eu e Marcelo discutíamos a questão de comprar jardineiras com ou sem milho (por que aquilo era Coisa Séria), ele sempre se referia ao milho como "choclo" (que é milho em argentino castelhano), enquanto que eu, por algum tipo de bairrismo, continuei falando "milho".

O café da manhã é um caso mais complexo, pois nele não seguíamos nenhuma fórmula bem estabelecida, exceto o da necessidade de comer pela manhã. Entre as coisas que comemos no desjejum que agora me vêm à memória, encontra-se uma lata gigantesca de abacaxi em calda (foi com ele que, pela primeira vez, percebemos quão ridículo era nosso "cálculo subjetivo"), frutas, bolinhos da Bauducco (que não eram da Bauducco), sucos de caixinha convenientemente coletados de um ônibus, pão com dulce de leche e, maravilha das maravilhas, leite de chocolate com granola. Neste dia, o Marcelo declarou sentir-se em casa, por ser o tipo de café que ele tomava em Porto Alegre, enquanto eu fiquei feliz simplesmente por que era quase como tomar Nescau - e não fora a primeira vez (uma viagem dessas mostra como somos simplórios).

As frutas constituem um caso interessante. Primeiro, por que eram difíceis de serem encontradas na Patagônia em boas condições e por um preço razoável. Quero dizer, conseguimos mais de uma vez encontrar frutas de boa qualidade, mas o preço geralmente era mais alto do que desejaríamos. No começo, buscávamos mais produtos tropicais ("eu sinto falta de banana" sendo uma frase que Marcelo disse algumas vezes e que eu posso ou não ter escrito aqui de maneira distorcida e descontextualizada só para fazer uma piada de duplo sentido). Com o tempo e a experiência, fomos procurando outros tipos. Nossa melhor descoberta foi o "pelón", um tipo de pêssego que não tem a casca aveludada e não é tão gosmento quanto. Segundo, por que elas servem como um interessante dispositivo literário, que me permite falar agora dos nossos "lanches da tarde". Estes lanches tinham por objetivo manter nossa glicemia - o nível de glicose no sangue. Fazíamos isto principalmente com frutas, bolinhos da Bauducco (que não eram da Bauducco), mandolates La Anonima, carinhosamente apelidados por nós de "cram" (explico por que em algum post futuro sobre as expressões altamente idiossincráticas que utilizávamos durante a Expedição) e castanhas do pará. Estes lanches, além de reporem nossas energias, serviam também como um momento para pormos as coisas da jornada em ordem - por onde ir, quanto gastar, que erros evitar... - ou para jogarmos conversa fora, principalmente com nerdices e observações antropológicas. As castanhas do pará, trazidas especialmente pelo Marcelo, eram a comida mais próxima que tínhamos da poção mágica do druida de Asterix: uma delas segurava nossa fome por um bom tempo. Infelizmente, tivemos que comer todas elas em Rio Gallegos, antes de passarmos pela fronteira com o Chile, país que não permite a entrada de nenhum organismo ou substância orgânica alienígena. Para substituir estas sementes, compramos amêndoas, mas não era a mesma coisa.

Por fim, gostaria de falar sobre água. Do jeito que escrevi até agora, dei a entender que nunca tomávamos água. Contudo, não há nada mais distante da realidade, pois água era o líquido que mais ingeríamos. Até El Calafate, nossa companhia era composta de três membros: eu, Marcelo e a garrafa de água mineral que compramos ainda em Buenos Aires, e enchíamos sempre que podíamos. Infelizmente, ela foi jogada fora por alguma pessoa bem intencionada, mas que nada sabia dos profundos laços de amizade que nos uniam àquela garrafa. Logo encontramos outra para desempenhar sua função, porém nenhuma que ocupasse o mesmo lugar em nossos corações. Ou algo assim. Em todo caso, a água é a substância mais importante em nossa nutrição, mais até do que a própria comida. Sabíamos disto, e por isso tínhamos especial cuidado para enchermos nossa garrafa. A Patagônia tem fama de ser fria. O que ninguém fala é que, durante o verão, ela é quente e seca, tornando a hidratação uma necessidade constante. Geralmente, tomávamos água de torneira - era o que normalmente tínhamos à nossa disposição. Claro, quando podíamos escolher entre água de torneira e água de algum bebedouro, sempre escolhíamos este último, pois tinha melhor gosto e melhor qualidade. Creio que a melhor água que bebemos foi em Torres del Paine, pois ela provinha do degelo de uma geleira próxima, fazendo dela gelada e muito pura. Lamentei muito o fato de não ter enchido nossa garrafa uma última vez em algum riacho antes de terminarmos o percurso.

Creio que poderia falar de muitos outros detalhes de nossa viagem, todavia, como creio que este texto já está grande o suficiente, contarei uma última história alimentar: depois de todas estas indiadas, voltei para casa, e a primeira coisa que consumi foi um grande caneco de leite com achocolatado. Tive diarréia por três dias seguidos depois disto. Traveling is not easy, folks.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A Expedição Andina - Uma Nova Aventura

Emerson disse certa vez que um homem nunca está só em sua casa, quando está perto de seus livros, apenas quando está no meio da natureza, com as estrelas como suas únicas companheiras. No momento em que escrevo este post, tenho um livro em minhas mãos, e estou confortavelmente sentado na sala de estudos do apartamento em Caxias do Sul, e, apesar de não haver mais ninguém aqui comigo, fazem-me companhia anos e anos de cultura ocidental e oriental, por muitos autores diversos, vários deles meus velhos amigos. Porém, encontro-me em um estado de expectativa, pois toma forma, em minha mente e na realidade, algo que mudará este estado de coisas, e me colocará a sós com as estrelas que Emerson tanto amava.

Ano passado, nesta mesma época do ano, me encontrava no meio da Patagônia, em Puerto Madryn ou Esquel, honrando o nome virtual que escolhi para mim mesmo. Eram os primeiros dias da Expedição Austral, longa viagem que me levou para o extremo sul do continente, até Ushuaia, por caminhos que cruzavam ora território argentino, ora chileno. Tal experiência foi extremamente marcante para mim, pois depois dela, descortinaram-me muitos horizontes que nunca imaginara. Foi pensando nela que escrevi este poema. Logo que voltei da Patagônia, apesar de ter levado algum tempo para formulá-la desta forma, tinha a nítida sensação de que poderia moldar e plasmar a mim mesmo da maneira que Eu bem entendesse. Play With Your Self - Brinque com o seu Self, altere-o, faça dele o que quiser! Por mais que a superfície mude, as profundezas continuaram imperturbáveis. Essa sensação, no princípio muito forte, foi se dissipando, como uma chama que vai se apagando ao longo da noite, mas uma brasa dela continua viva em mim.

Quero reavivá-la, transformar a brasa em vibrantes labaredas, e por isso, planejo uma nova viagem. Desta vez, viajarei para a Bolívia e para o Peru. Este trajeto, o mais conhecido da América do Sul, não apresentará os mesmos desafios que o patagônico. Porém, desta vez, não viajarei com a companhia de algum companheiro mais experiente que eu nas estradas desta parte do mundo - serei só eu e minha mochila. Ainda assim, peço que ninguém se desespere por causa de minha condição. Primeiro por que ela é necessária, segundo, por que ela é temporária. Sei que, no fim das contas, ninguém nunca viajou realmente sozinho - sempre há outro alguém por perto para fazer-lhe companhia, sendo necessário apenas estar disposto a percebê-lo.

Não me despeço ainda, caros leitores, pois resta muito o que fazer antes de embarcar de fato para os Andes. Até este dia continuarei escrevendo o que puder (e quiser) por aqui. Contudo, já deixo-lhes o aviso de que este Andarilho que agora vos fala nunca mais voltará das montanhas. Outro voltará em seu lugar, só não sei ainda quem ele será.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Cochilada

Entreguei hoje o último trabalho do semestre, depois de muitas horas de leitura e escrita. Descansado, fui treinar, e na volta, vim pensando em como é bom estar de férias, e não ter que se preocupar com absolutamente nada que seja acadêmico.

Daí eu acordei do meu devaneio e lembrei que amanhã é meu último dia de estágio no São Pedro e de prova no Campus do Vale. Cochilei e sonhei, mas logo, logo será verdade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ad Eternum

Aquele que busca
vencer o Tempo
Continua seu escravo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

12 de Dezembro

A segurança trás conforto,

Mas sempre com o amargo gosto

De não saber qual probabilidade

Se tornaria realidade.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Journey

Play
With
Your
Self

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 3)

Há certas pessoas na mídia brasileira que todos conhecem pelo nome, estão sempre aparecendo em jornais, revistas e programas de TV, que são famosos em fim, mas que ninguém sabe exatamente por que. Nana Gouvêa é uma dessas pessoas.

Esse é o maior mistério em todo o submundo das celebridades brasileiras: o que faz Nana Gouvêa? Para solucionar este mistério, não poupei esforços, e digitei o nome dela no Google. A primeira página que aparece na pesquisa é o site oficial dela. Esperando encontrar ali a informação que responderia minha pergunta, cliquei no link. O site é divido em apenas quatro seções. A primeira seção é uma biografia, que é tão curta que vou copiar pra cá na íntegra:

"Nana Gouvêa, atriz, formada em Cinema e TV pela Faculdade da Cidade. Iniciou na carreira artística aos 10 anos como modelo fotográfico. Aos 17 já representava as maiores e melhores marcas como Ellus, Fórum, Zoomp, De Millus, entre outras. Como atriz, Nana Gouvêa apresenta trabalhos em novelas, minisséries, especiais, programas semanais e cinema."

E isso é tudo, pessoal! Esse texto parágrafo é a coisa mais vaga pouco informativa que li essa semana, começando pela formação acadêmica da nossa conhecida. "Cinema e TV", na Faculdade da Cidade? Pelo naipe, tem cara de ter se formado em uma UniEsquina, em um curso que apareceu do chão tipo cogumelo. E Faculdade de Qual Cidade? O Brasil deve ter, sei lá, umas 3 mil cidades. O nome me diz tanta coisa quanto uma mancha do Teste de Roscharch. Google neles de novo, minha gente! O mais próximo que eu cheguei foi na Faculdade da Cidade de Salvador. Mas é lá mesmo? Não consta entre os cursos de graduação "Cinema e TV" (consta, porém, Psicologia). Algo está errado aqui. O que fazer? Apelar para a Wikipédia, a fonte de conhecimento mais confiável depois da opinião pessoal dos taxistas de Porto Alegre. E sim, ela tem uma página lá, o que só reforça a noção de que ela é uma celebridade. Quem sabe esse artigo da Wikipédia esclareça bem a profissão dela.

E, como eu esperava, há bem mais informação sobre Nana na Wikipédia do que em seu site pessoal. Ela é natural de Jataí, também conhecida como a Princesinha de Goiás (ou Cidade abelha, sabe-se lá por que) e é caracterizada pela Wikipédia como atriz e modelo. A palavra da Wiki é Palavra de Deus. Porém, eu sou da opinião de que eu não vou virar engenheiro só por que todo mundo me chama assim, e o mesmo vale para a amiga Nana. Vamos ver que trabalhos ela fez, então. No site dela, há outra seção, apropriadamente nomeada "TV". Como o site dela foi feito com um programa de flash bagaceiro que não deixa copiar textos, e eu estou com menos paciência agora do que quando comecei a escrever este post, vou só colar um printscreen que dei da página dela:


Como estou cheio de trabalhos para fazer para a faculdade não tinha nada melhor para fazer, olhei um por um os especiais, minisséries e novelas que são listadas tanto no seu site quanto na Wikipédia. E, para minha surpresa, ela é listada como atriz apenas em "Faça sua História", no sétimo episódio, no papel de "Veranista".

Foi então, e só então, que percebi um estranho padrão. A Wikipédia, além de listar as "participações" de Nana na dramaturgia televisiva, lista também a aparição de nossa amiga em capas de revista, e todas em que ela apareceu foram revistas de estética/beleza. Ah, mas essas não foram as únicas revistas que Nana Gouvêa expôs seus dotes! A Wikipédia faz uma lista em separado das revistas eróticas para a qual posou nua: 4 capas da Sexy e 2 da Playboy (sem contar as que ela não foi capa). Na pesquisa no Google, com a exceção do site pessoal dela, todos os resultados são de fotos e/ou vídeos seus em trajes mínimos ou inexistentes (o melhor deles é um intitulado "OS CAÇA PEITOS" do Domingo Legal). Por Aslam, eu não sei nem por que eu considerei o site dela uma exceção à regra, por que as duas seções que restam do site são a galeria, onde há uma subseção só para fotos dela no carnaval, e a de capas de revista, onde, de 14 capas, 9 ela se encontra em posições altamente eróticas (eu contei a capa que ela está no meio de dois machos como uma insinuação de sexo grupal).

O que é Nana Gouvêa? Agora somos perfeitamente capazes de responder que ela é Gostosa. Não apenas esteticamente, mas profissionalmente também, pois ser Gostosa é o ganha pão de Nana Gouvêa, tanto quanto ser Arquiteto é para Niemeyer, ser Médico para Gregory House e ser Fresco para Leão Lobo. É a vocação dela, e é por isso que ela frequentemente aparece na nossa frente, expondo suas carnes para quem quiser ver, e assim será até o final dos tempos (ou quando ela começar a embarangar, o que vier primeiro).

Agora, vocês devem estar se perguntando, por que eu escrevi um post inteiro sobre a (falta de) profissão de Nana Gouvêa? E por que usando o mesmo título da série onde falo sobre minhas experiências televisivas no estágio? Simples, essa semana, durante uma das minhas rondas, acabei assistindo o programa da Sílvia Poppovic (outra criatura que me espanta), onde ela, Nana Gouvêa e outras mulheres discutiam o casamento gay. É por essas e outras que quem trabalha em Hospital Psiquiátrico ganha insalubridade.

E numa nota não relacionada ao assunto do texto, Nana Gouvêa tem duas filhas, o que faz dela uma MILF oficial.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pure and Simple Inane Banter

Acabo de perceber que estamos em dezembro, mês do Papai Noel e da Telesena de Natal. Isto significa muitas coisas, a principal delas sendo enfeites verde-vermelhos para todos os lados, e especiais de televisão com mensagem moralista. Até dia 25 de dezembro. Depois disso, serão as mensagens de Ano Novo que nos instigam a fazermos um ano completamente diferente do que passou.

Onde os Poetas Reinam (2)

Topograficamente, ler poesia é igual a ler qualquer outra coisa - jornal, revista, livro - pois o processo mecânico é o mesmo: passam-se os olhos sobre as letras e entende-se o conteúdo. Em termos de sentimento, porém, coisas muito diversas acontecem, especialmente os sentimentos envolvidos.

Viver é sentir. Não é possível fazer nada sem algum tipo de emoção, pois mesmo quando fazemos algo que exige "frieza" ou "lógica pura", estamos com algum tipo de emoção por detrás de nossa percepção. Por isso, quando leio um artigo científico, por mais chato que seja, sinto alguma coisa, nem que seja tédio.

Dentro desse esquema, é óbvio que a poesia me cause sentimentos, só que eles são muito diferentes dos que sinto normalmente, pois são muito mais intensos, profundos e duradouros, como se brotassem de uma parte de mim que existe há muito mais tempo que eu próprio. E, apesar de serem mais antigos do que eu, esses sentimentos dizem muito a meu respeito, da mesma maneira que o tipo de poesia que leio, como se eles soubessem melhor do que eu quem eu sou de verdade, ou quem eu devo me tornar com sua ajuda.

Minha Vida de Alcoolista

Tenho 21 anos, idade que em que sou plenamente responsável por mim mesmo, já morei sozinho e longe dos meus pais. Apesar disso, ainda sinto como se não tivesse saído da infância, por que, mesmo já acostumado a assumir responsabilidades, trabalhar e como um todo ser bastante "maduro", não faço três das coisas mais caracteristicamente adultas: ganhar dinheiro, dirigir e beber.

As duas primeiras continuarão do jeito que estão por algum tempo ainda. A última, entretanto, está mudando lentamente. Nunca fui um grande beberrão - nem mesmo durante o Ensino Médio, a época onde todos os meus colegas e amigos aprenderam que encher a cara é um comportamento eminentemente social. Depois, já na faculdade, mantive o hábito de não beber, mesmo em situações muito alcoolizadas, e isso foi apenas reforçado pelo Roacutan, remédio pra espinha que ferra com o fígado e que impede qualquer consumo de álcool.

Parei de tomar Roacutan já fazem quase 10 dias, e decidi que iria me tornar um pouco mais alcoolista. Entrando nessa lógica, durante o intervalo entre uma aula e outra, fui com uns colegas meus ali na Vilma, o epicentro cervejístico do Campus Saúde, e tomamos umas, até eu achar  que estava pronto para duas horas de supervisão de estágio. Voltei para a faculdade vendo o mundo dançar num ritmo mais rápido que o meu, e, já com meus colegas, desandei a falar do jeito mais desinibido possível.

OK, até aqui relatei os efeitos que já sabia que o álcool causaria em mim. Depois disso descobri um novo. Voltei para casa, e fiquei na minha cama lendo. Depois de terminar um capítulo ("A Ilha", Aldous Huxley, esperem para breve um post sobre utopias), deitei um pouquinho, para descansar a cabeça e tal. Eram nove horas da noite. O pouquinho virou poucão, e acordei só às onze, com a sensação de estar 50% mais lento, e 50 pontos de QI mais burro. O QI, aliás, não aumentou ainda, só que o sono não volta. Aprender a beber envolve muito mais do que saber quando parar para não vomitar depois.