domingo, 22 de março de 2009

Vida Dura (Parte 22)

Acabo de perceber que é quando estou com fome que tenho as piores idéias, pois elas invariavelmente envolvem a cozinha. Da última vez, com desejo de fritura, decidi fazer pastel por conta própria, com resultados duvidosos. Hoje, com fome de qualquer coisa, resolvi cozinhar ovo.

Pode parecer piada (e se não parecesse, não estaria escrevendo a respeito disso aqui), mas cozinhar ovo é mais difícil do que se pode imaginar. OK, é só colocar os ovos na água e pôr para ferver, mas como eu vou saber que já posso desligar o fogão e tirá-los da panela? Geralmente quando tenho uma dúvida dessas ou eu pego o telefone e ligo para minha mãe perguntando da forma mais objetiva possível, ou pesquiso no Google. Este último, apesar de não ter o carinho de mãe, é anônimo, e poupa muitos constrangimentos (por que, convenhamos, cozinhar ovo é provavelmente o nível mais baixo de conhecimento culinário).

Aparentemente, não sou o único homem no mundo que sabe chongas de como se faz ovo cozido, por que já nas sugestões de pesquisa aparecem as seguintes opções:

E, não sendo isso o bastante, eu encontrei um blog chamado Culinária Masculina, e que tem por objetivo explicar "tudo o que um homem sempre quis saber daquele cômodo cheio de azulejos que não é o banheiro", mas que até o advento da internet não tinha coragem de perguntar para ninguém.

Para minha grata satisfação, um dos posts desse blog era justamente sobre a arte de cozinhar ovos. O texto falava das coisas simples, mas não tão óbvias para nós, turistas da cozinha, sobre esta refinada prática, e elucidava minha principal dúvida: 15 minutos e ficava pronto. Com este conhecimento em mãos (e considerando que cozinhar ovos no microondas deve ser o equivalente culinário de colocar Mentos numa garrafa de Coca-Cola), enchi a leiteira de água, coloquei os ovos e liguei o fogo. Diferentemente dos pastéis e demais frituras, que demandam a presença constante do cozinheiro, quando se cozinha algo pode-se abandonar a comida ao seu próprio destino e ir fazer alguma outra coisa, até que ela fique pronta. No meu caso, fui para a sala e fiquei lendo. Apesar de mais confortável do que os pingos de óleo fervente que voam para todos os lados quando se frita pastéis, a experiência de esperar os ovos cozinharem é muito mais perturbadora, pois é inevitável escutar o barulho da água borbulhante, os ovos colidindo uns com os outros e pensar "será que essas porcarias não vão explodir e esmerdalhar encher a cozinha de dejetos?" (não seria a primeira vez que faço algo parecido na cozinha).

Depois de 15 minutos passados, tirei os ovos do fogão, e comecei o lento processo de descascá-los. Este ponto marca a passagem da fase dramática do processo para a fase patética, pois meus esforços podem muito bem serem assim qualificados. Começou na hora de despejar a água quente na pia e deixar os ovos esfriarem, tarefa que imaginava demandar muito tato e delicadeza, pois os ovos poderiam se quebrar. Tirei a leiteira do fogão e equilibrei-a na borda da pia. Como o cabo por onde a segurava estava muito quente, peguei um paninho para segurá-la sem me queimar. Isso acabou se provando mais inútil do que o imaginado, pois acabei esbarrando na leiteira e derrubando-a dentro da pia. Apesar da lambança, foi até melhor deste jeito, pois me poupou o trabalho de ficar segurando a panela como alguém segura um recém-nascido (metaforicamente falando, pois bebês não saem de fábrica com alças plásticas. Infelizmente).

Peguei os ovos, coloquei-os novamente na leiteira, e a enchi de água fria, pois era essa a sugestão do Culinária Masculina para que esfriassem. Passado mais um tempo (preciso dizer que fui para a sala ler de novo?), comecei a descascar os ovos. O que é muito, muito chato, pois ficam pedacinhos de casca, bem pequenos, presos no ovo, que não podem ser removidos sem destroçar um pedaço da clara. Além disso, é um trabalho repetitivo e que não permite quase nenhuma abordagem mais criativa. Quero dizer, eu até poderia inventar um jeito mais emocionante de tirar a casca, como jogar os ovos na parede, mas isso implicaria em mais sujeira, que implicaria em mais faxina por minha conta, que é coisa que eu evito sempre que possível.

Enfim, segui assim, tirando tanto quanto era possível da casca dos ovos. Tinha planejado guardá-los para fazer sanduíches mais tarde, mas como estava com fome e sou impaciente, simplesmente os comia quando considerava que já estava descascado o suficiente (não que eu não tenha pensado em comê-los com casca mesmo. Essa porcaria deve ter cálcio, ou alguma coisa saudável do genêro e que justificaria seu consumo). Enquanto comia o terceiro e último dos ovos cozidos, saí para a área de serviço para respirar o ar da noite, e senti um cheiro de comida vindo de algum apartamento mais abaixo. Era o cheiro de uma refeição completa, feita por alguém que domina minimamente os preceitos da culinária. Dei a última mordida na minha saborosa janta e pensei "merda. Um dia eu aprendo a cozinhar".

sábado, 21 de março de 2009

Vida Dura (Parte 21)

Hoje, como na semana passada, fui treinar, saí morto de fome da academia e quis comer uns pastéis. A diferença é que, desta vez eu paguei para alguém fritá-los por mim. Achei melhor do que correr o risco de comer mais corcundinhas.

sábado, 14 de março de 2009

Vida Dura (Parte 20) - Andarilho e seus pastéis

Em termos alimentares, creio que tenho uma dieta bastante saudável e balanceada: como salada e frutas em quantidade razoável, bebo bastante água e muito raramente como frituras ou fast food. Exceto pastel, por que eu adoro essa porcaria. Tanto que, esses dias, durante uma reunião de diretórios e centros acadêmicos da UFRGS no DCE, ao invés de prestar atenção no que estava sendo dito (algo sobre protestar contra alguma coisa), fiquei pensando no meu "plano alimentar" - quando saísse dali, passaria em um mercado, compraria massa pronta para pastel e tomate e levaria para casa, onde eu entraria dramaticamente no quarto da minha mãe e diria "mim fome. Frita pastel!" ou algo do gênero. Fiz exatamente isso (exceto a parte onde eu falo como um dislálico - acho que eu conjuguei mais adequadamente os verbos), e minha mãe, sendo a santa criatura que ela é, parou de jogar seu paciência Spider, vício virtual de pessoas na meia-idade, foi para a cozinha e fritou muitos pastéis, só para ver seu pimpolho satisfeito de barriguinha cheia.

Hoje, depois de um treino de Kung Fu relativamente cansativo, fiquei com fome, e pensei que comer alguns pastéis de novo não seria má idéia. Contudo, hoje a conjuntura doméstica não era a mesma do outro dia, pois minha mãe, como a boa esposa que é, voltou para Caxias do Sul para passar o final de semana com meu pai, o que torna a opção de entrar no apartamento esperneando e berrando até conseguir comida ineficaz (mas não impraticável - eu poderia fazer isto de qualquer jeito, mas dependendo dos decibéis empregados, eu poderia ser internado lá onde eu deveria fazer estágio). Mesmo assim, a idéia de comer um pouco de fritura no jantar era boa demais para ser abandonada, por isso, depois de certo tempo em devaneio, concluí que eu mesmo poderia fazer meus pastéis! Afinal de contas, tinha observado minha mãe preparando-os para mim, e não parecia ser tão difícil, aliás, parecia ser bastante fácil. "Que mistério existe em fritar massa recheada?" pensei, enquanto caminhava pela Lima e Silva, já saboreando os quitutes que ainda havia de fazer. Aaaah, este jovem gafanhoto iria aprender na marra que a coisa é mais complicada do que parece...

Chegando em casa, conferi os ingredientes, os dispus por sobre a mesa e repassei mentalmente o processo: pegar uma massa pronta, colocá-la no prato, recheá-la com queijo, tomate e orégano, dobrá-la e apertá-la com um garfo, para que não se desmanchasse na panela. Fácil, não? Bem, para uma dona de casa com pelo menos 20 anos de experiência em alimentar bebês chorões, deve ser quase uma segunda natureza, mas para um estudante de Psicologia cujas maiores habilidades consistem em devorar livros e treinar, o processo é um pouco mais... complexo. Peguei a primeira fatia de massa, estendi-a no prato e recheei-a. Tudo ia muito bem, até a hora que fui dobrá-la, e percebi que havia como que um plástico envolvendo meu projeto de pastel. É muito legal da parte do fabricante de ter colocado esta proteção a mais em seu produto, para garantir uma maior qualidade mas, porra, não dá pra por o pastel na panela com aquilo em volta! E tirando a camisinha alimentar do meu pastel, derrubei todo o recheio, e não consegui mais fazer com que ficasse do jeito que estava antes. Na hora de apertar com o garfo me atrapalhei um pouco e fiz uns furos um tanto quanto desnecessários, mas o resultado final ficou até que bonzinho. "Ficou bom, mas vou deixar pra fritar por último. Com a prática eu melhoro" pensei, antes de pegar a segunda fatia de massa e recomeçar o processo.

Não foi o que aconteceu exatamente com o segundo pastel. Me atrapalhei mais ainda, e o que saiu foi uma aberração. Rasguei uns pedaços aqui, furei com o garfo um outro naco ali, e, no fim, para deixar aquilo mais decente para ir pra panela, amassei a massa com a mão para tapar os buracos por onde o queijo escaparia. Em outras palavras, saiu um Pastel de Notre Dame. "Tá, ESSE aqui eu frito por último. O próximo vai sair melhor" pensei, mais uma vez. O terceiro pastel, ao contrário dos anteriores, saiu perfeito, uma verdadeira obra-prima. Senti-me como Michelangelo depois de ter terminado o "Davi", e só não bati no meu pastel e disse "Parla!" por que... bem, pastéis não falam, via de regra. Em todo caso, tinha atingido a perfeição, e pude, por breves instantes, acreditar que todos os outros seriam tão ou mais perfeitos que este terceiro. Porém, uma obra-prima é sempre única, e minha ilusão foi violentamente destruída quando destruí além de qualquer reparo o quarto pastel, tentando levantá-lo do prato. Não tinha como amassar tudo e tentar fritar, por que estava tudo uma bela merda. Então, em minha fúria, urrei e comi-o cru mesmo. Dramático, não? São momentos como este que me fazem pensar se não sou adotado, e que um dia meu pai vai chegar para mim e dizer "Andarilho, gostaria de ter te dito antes, mas eu não sou teu pai. Na verdade, teu pai biológico é um ogro, e nós só te achamos abandonado em uma lata de lixo", por que, sério, até uma coisa simples como fritar pastel para mim acaba se tornando um exercício do meu trogloditismo.

Decidi dar um tempo na lambança culinária e ir pro meu quarto. Aproveitei e comi o corcundinha também (só imagino que tipo de gente o Google vai acabar jogando aqui no blog por causa desta última frase). Voltei à carga de "pegar, rechear, dobrar e apertar" só depois de quinze ou vinte minutos, quando já tinha suplantado a memória do meu mais recente fracasso com as bobagens que procriam na internet e superado tamanho trauma. Foi normal, ou pelo menos tão normal quanto poderia ser. Alguns pastéis saíram melhores, enquanto outros acabaram mais esburacados do que gostaria, mas estavam prontos. Só faltava fritá-los. Neste ponto, comecei a repensar a genialidade de cozinhar minha própria junk food. Frituras envolvem óleo fervente, substância cuja fama não é devida a suas propriedades terapêuticas. OK, não é tão difícil assim fazer fritura, mas era exatamente o que eu tinha pensado a respeito de fazer pastéis como um todo, e não era como eu esperava. Já podia até imaginar a cena: eu entrando no HPS, me dirigindo ao guichê de atendimento e dizendo "oi moça, tudo bem? É o seguinte, eu tava lá em casa fritando uns pastéis, e no vuco-vuco da coisa acabei derrubando óleo fervente nas minhas costas. Tem como colocar um band-aid ou coisa assim?", e a estagiária secretária, já cansada de ver este tipo de besteira, me encaminha para a Emergência, onde os médicos iriam ficar fazendo chacota da minha inaptidão com as panelas, me restando apenas o consolo de que eu não seria o paciente mais debochado da noite, pois o cara deitado de bruços na cama ao meu lado veio parar ali por causa de um rojão acesso que ele inserira em seu orifício excretor.

OK, OK, minha imaginação é fértil e eu tenho um gosto pelo absurdo, e sei que isto dificilmente aconteceria, mas eu realmente considerei a possibilidade de comer todos os pastéis crus mesmo. Mas esta idéia, além de me fazer imaginar outra cena no HPS que acabaria divertindo muitos médicos em um congresso de Coloproctologia, era admitir que eu fora derrotado pela cozinha, mais uma vez. Não, não iria dar o braço a torcer: se o Obama pode mudar o mundo, eu podia fritar pastéis sem sofrer desfigurações. Eu ainda corria o risco de realizar alguma proeza e me queimar todo, mas para casos como este é que existe o SUS sistema de planos privados de saúde. Superado o medo, pus-me a cozinhar.

Como vocês podem imaginar, não foi tão dramático quanto fiz parecer. Para ser franco, foi até que bem ordinário. Fui meio estabanado, voaram alguns pingos de óleo fervente na minha mão por causa da água dos tomates que escorreu para fora dos pastéis, tostei eles um pouco mais do que gostaria e, no fim, sentei-me e comi. Para minha grata surpresa, pastéis fritos são melhores do que pastéis crus, apesar de conterem mais gordura saturada. Só isso, nada de morte e dor em proporções épicas. A batalha com a panela está acabada, e agora, só falta resolver um outro problema de cozinhar a própria comida: lavar a louça e limpar a cozinha, mas isto fica para outro post.

Hey, McFly!

Nos últimos tempos, o Google resolveu criar um serviço chamado Google Time Machine que, como o nome diz, funciona como uma máquina do tempo, e compara os sites de hoje com o que eles eram em 2001, quando o Google foi criado (se eles existissem na época, é claro).

Só que, aparentemente, esse gadget, aparentemente inútil, faz mais do que comparar um site com o outro: ele também te permite receber e-mails que nem sequer foram enviados.


Esses filhos da puta ainda vão conquistar o mundo.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Entre a Ação e a Inação

O Mistério da Vida pode ser contemplado por diversos ângulos, e as dúvidas por ele suscitadas podem ser descritos de muitas formas. Contudo, a maneira que tem me inquietado é o difícil equilíbrio entre o agir e o não-agir. De um modo geral, este tema permeia toda a relação entre as civilizações ocidentais e orientais. Enquanto os monges zen e taoístas vivem o Wu Wei, a sábia não-ação, a contemplação do mundo tal como ele é, os filósofos existencialistas do ocidente como William James admoestam-nos para que agarremos o touro da vida com as próprias mãos, e nossa própria ciência age ativamente na modificação e controle da natureza. Pode parecer estranho que eu levante esta questão, pois, a primeira vista, é óbvio que o "melhor caminho" encontra-se na ciência positivista, pois foi graças à ela que "o mundo tornou-se nosso", e que tenhamos à nossa disposição ferramentas tão úteis e maravilhosas como o computador (isto não inclui o Windows Vista). Contudo, se formos honestos, perceberemos que estas conquistas são muito superficiais - continuamos sofrendo, nos matando de forma cruel e fazendo deste mundo por nós conquistado em um inferno particular da humanidade.

Caímos então no outro extremo, que foi muito bem formulada por algum cidadão ocidental, em algum momento da história, que proferiu as profundas palavras "se nada der certo, viro hippie". Não é uma idéia tão absurda ou pouco considerada quanto possa parecer. Lembro-me de, certa vez, durante uma aula no segundo ano do ensino médio, uma colega minha dizer que já considerou seriamente a possibilidade de virar freira e não ter que se preocupar mais com a vida - exceto com as orações matinais. Sedutora e atrante como parece, a acelerada vida do Ocidente muitas vezes nos faz olhar para aqueles chineses velhinhos fazendo Tai Chi em praça pública com certa inveja. "Ah! Isso sim é vida!" podemos ter exclamado um domingo desses, quando a Glória Maria ou alguma outra repórter celebridade fez alguma série de reportagens sobre a vida no Extremo Oriente, mas creio que poucos tenham realmente largado tudo o que tem aqui no Brasil para ir viver em Pequim para fazer lentos movimentos circulares. Não... isso daria trabalho demais.

E é aqui que minha consciência leva-me à um paradoxo: a mais vigorosa e enérgica ação vem sempre acompanhada da mais calma e meditativa contemplação. Não é algo que possa ser expresso de forma clara e cristalina em palavras, pois deve ser vivido, e as palavras corrompem a experiência pura. Percebi isto ontem, com o treino de Kung Fu. No tempo livre que dispunha antes de ir para a academia, comecei a ler um livro intitulado "Wu Wei: A sabedoria do não-agir", escrito por Henri Borel sobre este misterioso Wu Wei, e o que li entristeceu-me profundamente, pois pensei que nunca poderia atingir este estado, e que talvez nem mesmo quisesse fazê-lo, pois a maneira como o autor o explicava fazia parecer que o Wu Wei é apenas a arrogância de um homem que se orgulha de não fazer nada. Contudo, conforme treinava, minha tristeza desaparecia, ficando em seu lugar apenas o movimento, e então percebi que, ali, naquele momento e lugar, eu vivia o Wu Wei. A intelectualização da leitura toldara meus olhos para o óbvio! E é ali, treinando Kung Fu, exercitando todos os meus músculos, que o vivo. Movimento-me intensamente, mas no fundo, não estou fazendo nada, pois apenas sigo a corrente do universo que Lao Tsé chamou de Tao.

É um erro considerar que se ficarmos apenas sentados, olhando para uma risonha e gorda figura do Buda atingiremos o Wu Wei, este estado que foi chamado de Satori, Fluxo, Mindfulness, Iluminação e tantos outros nomes, mas é igualmente equivocado crer que o faremos através da volição ativa: é através dos dois, e nenhum ao mesmo tempo. Não entende o que eu digo? Ignore este texto, então. Ele é apenas aparência, e provavelmente tu te enganarás acreditando nele também.

Ô Dotô!

Tem uma comunidade no Orkut intitulada "Doutor é quem tem doutorado", e em seus fóruns, os membros da dita comunidade alternam acusações de arrogância aos médicos e advogados que exigem serem tratados por "doutor", e acusações de inveja aos demais, que foram incompetentes demais para entrar na faculdade de Medicina ou Direito e assim, merecerem o privilégio de poderem colocar "dr." na frente do nome.

Bem, isso pode parecer nobre e de suma importância para muitas pessoas, mas baseado em minhas experiências pessoais, posso dizer que isso é perda de tempo. Por que? Bem, esses dias, lá no ambulatório, estava conversando com a mãe de um paciente sobre o transtorno dele, quando ela me perguntou algo como "mas doutor, o que eu faço nesse caso?". Não lembro qual era a pergunta, mas lembro claramente que ela me chamou de doutor. Ontem mesmo, voltando da aula, uma colega minha disse que também fora chamada de "doutora" no estágio dela.

Nem eu, nem minha colega temos diploma em Medicina ou Direito, nenhum de nós dois fez doutorado, e tampouco temos caras de pessoas respeitáveis, pois ambos temos cara de criança. Na hora, pensei "puxa, como é disseminada essa mania de chamar alguém em posição de autoridade de 'doutor'", mas depois, quando percebi que qualquer estagiário pode ser doutor se disser algumas bobagens e prescrever alguns remédios para um paciente qualquer, vi que ser doutor não vale nada, e que ficar discutindo sobre isso é uma perda de tempo. Por isso, de agora em diante, assinarei meus textos como "Dr. Andarilho". Ou "Dom Andarilho", tipo bispo. Sei lá.

Texto escrito pelo genial, maravilhoso e humilde Dr. Andarilho

segunda-feira, 2 de março de 2009

Finais e Recomeços

Fui dormir tarde ontem, às quatro da manhã, acometido de uma certa insônia, fruto da minha indisciplina de verão, e tarde despertei esta manhã. Apesar da chuva, era uma manhã como outra qualquer, mas parecia que algo tinha mudado profundamente. O ar frio que entrava pelas janelas de casa não tinha mais a mesma leveza, e como que me lembrava que não poderia mais ficar deitado. Hoje começaram minhas aulas. E este fato, mais do que o clima chuvoso, parecia tornar a atmosfera ao meu redor mais pesada, carregada da responsabilidade de ir à faculdade, assistir seminários, fazer trabalhos.

Desde meus seis ou sete anos, na primeira série do primeiro grau, sentia que o espírito que envolve as férias ou as aulas são distintos como água e vinho. Na primeira manhã que passei em Porto Alegre depois da minha viagem pela Argentina também chovia, mas os pingos de água que caiam sobre mim eram completamente diferentes do que tamborilam pela minha janela neste momento. A chuva, o cheiro das ruas, as pessoas caminhando pelas calçadas e os carros, tudo me trazia a sensação de tranquilidade, sossêgo e contemplação que sentia durante minhas férias e o tempo que passava na praia. Não precisava ir a lugar algum, e minhas pernas, protegidas apenas por frágeis chinelos e bermudas, poderiam levar-me onde quer que quisessem. Hoje, apesar de praticamente não ter aulas, posto que fui fazer um exame médico de manhã e que a primeira aula da tarde fora cancelada, não tenho mais esta sensação. O que senti esta manhã foi que tinha que estar em outros lugares que não onde já estava. Meu passo tranquilo, sossegado e contemplativo teve que dar lugar às passadas rápidas, inquietas e focadas em alguma coisa mais além do que minha vista alcança, ao pesado sentimento de dever que acompanham a volta às aulas, e minhas pernas, agora firmemente vestidas com botas impermeáveis e calças jeans, voltaram a obedecer meus comandos, pois não mais poderiam levar-me para ver tudo que quisessem, mas sim a cumprir tarefas, uma após a outra, e a própria chuva, seu cheiro, as pessoas na parada esperando o ônibus e os carros passando pela Ipiranga lembravam-me de tudo isto.

Apesar do ar carregado que envolve Porto Alegre nesta volta à vida regrada e certinha que a maioria de nós precisa viver após o Carnaval, não desejo que isto acabe e que as férias voltem. Não por que meu tempo de descanso tenha sido ruim, mas justamente por que ele foi tão bemaproveitado - nele, vivi desde a mais intensa aventura até a mais profunda contemplação; a solidão mais silente de meu quarto até a camaradagem ruidosa dos bares da Cidade Baixa; a dureza dos treinos até o ócio completo; o vento gelado da Patagônia e o calor de um abraço carinhoso. Como diria Viktor Frankl, estas memórias agora estão para sempre guardadas em meu passado, e ninguém as tirará de mim. Mas, por mais belo que o passado seja, nada acontece lá. Tenho agora, diante de mim, o desafio que o futuro me lança agora, com os estágios e as aulas. E é meu dever aceitá-lo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Narrativas

Acabei de checar meu e-mail. Pois é, nada de novo aí, considerando que faço isso quatro ou cinco vezes por dia. O que me levou a escrever um post a respeito foi uma mensagem que recebi, contendo o programa de uma disciplina obrigatória, Método Clínico e Diagnóstico. Como quase a totalidade das cadeiras de clínica, ela segue a orientação psicanalítica de Jacques Lacan. Quem lê este blog ou convive comigo e tem QI suficiente para discutir questões psicológicas sabe que eu detesto psicanálise, e que tenho espasmos de raiva quando ouço algum colega meu falar, com cara de sujeito suposto saber entendido, alguma bobagem que o Freud ou Lacan disseram em algum momento como se fosse a mais profunda verdade, ou quando leio os horríveis e incompreensíveis textos deste último cidadão ou do Deleuze e Guattari. Pelo menos costumava ser assim.

Não quero que me entendam mal - continuo não gostando deles por vários motivos, filosóficos, científicos e pessoais, mas nos últimos tempos, mas tenho os visto por um ângulo completamente diferente. Eu gosto de Neurociências, Psicologia Experimental e tantas outras coisas parecidas, considero elas importantes métodos de busca da verdade, mas não os únicos. Por mais que me desagrade, o saber produzido pelos psicanalistas, esquizoanalistas e toda essa trupe que não gosto também é importante. Numa visão pós-moderna, a ciência é uma narrativa, uma maneira de dizer algo a respeito do mundo, e existem muitas maneiras de fazer isto. Todas elas, seja a ciência moderna, a poesia, a literatura, a psicanálise, a mitologia, a religião, são importantes, por exporem lados diferentes do mesmo objeto, e se superpõem e se complementam. Seria uma pena se qualquer um desses desaparecesse e fosse suplantado em nome de uma maior cientificidade.

Este post marca a minha conversão ao Lacanismo? Não, continuo achando "O Estádio do Espelho na formação do [eu]" uma charlatanice, assim como praticamente todos os outros textos lacanianos que tive quer ler para a faculdade, mas há pessoas que os apreciam, e não há nada de errado com isto. Minha personalidade e meu destino me fizeram gostar de coisas como Terapia Cognitivo-Comportamental, mas meus gostos não são infalíveis, e não devem ser usados como modelo universal do que é certo. Seria um leito de Procusto. Quero dizer que todas as formas de conhecimento são equivalentes e que "tudo vale"? Sim, mas só até certo ponto. A ciência trouxe muitas vantagens para a humanidade, e continua trazendo. Porém seu alcance tem limites, como tudo que é humano. Para aquilo que seu discurso não abarca, há outras maneiras de pensar, como a religião e (ai ai) a psicanálise. No sentido oposto, é impensável substituir inteiramente a Medicina moderna pelo xamanismo ou por uma análise, por que isto seria estúpido e perigoso. Agora, fazer as três ao mesmo tempo para tratar um problema de saúde, por que não? Pode ser benéfico. Eu mesmo tenho tentado, quando leio alguma coisa de psicanálise, tirar algo de positivo, por mais detestável que possa ser, e incorporar na minha prática profissional.

Muito critiquei o pós-modernismo por sua atitude de "tanto faz", nihilista, mas a tolerância que perga é admirável. Posso não gostar das idéias de Freud ou de Lacan, mas quem sou eu para saber se eles não encontraram alguma verdade?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

De volta dos mortos... outra vez

Pois é, fieis, valorosos e parcos leitores do Espadachim Cego, voltei ontem da praia e estou aqui em Porto Alegre desde hoje de manhã. E, ao contrário do que tinha prometido no post anterior, não escrevi absolutamente NADA no tempo que fiquei em Paraíso – nem a respeito da Expedição Austral, nem sobre nada. Em compensação, li bastante. Não que isto seja alguma novidade bombástica, já que eu sempre leio bastante, mas quero deixar claro que meu tempo não foi de todo mal aproveitado.

Em todo caso, gostaria de deixar claro que, apesar deste lapso meu, não abandonei a idéia de escrever sobre minhas aventuras na Patagônia e que, de agora em diante, consagrarei uma parte do meu dia exclusivamente para escrever. Hoje retorno à minha tranqüila rotina de férias, lendo, escrevendo e treinando, que durará apenas até segunda-feira quando recomeçam minhas aulas e, com sorte, meu segundo estágio (que ninguém sabe quando começará a convocar seus escravos estagiários). Não prometo a taxa de atualização obscena do ano passado (que levou o Marcelo a dizer que “escrevo feito um tarado”), mas garanto que continuarei escrevendo bastante por aqui.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Histórias por vir

Um aviso aos leitores deste blog: amanhã de manhã irei para Paraíso, praia povoada no verão por velhos, crianças e pessoas sem internet, por isso, não atualizarei o blog até quarta-feira. Eu sei que dizer isso é bobagem, considerando que aquelas atualizações diárias que eu fazia antigamente foram para a cucuia, mas o que vim dizer neste post mesmo é que, apesar de longe da internet, não estarei ocioso. Aproveitarei meu tempo livre e escreverei sobre a Expedição Austral. Aguardem (ou não. Tanto faz de qualquer jeito).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre o tempo e relógios esquisitos

Morei e cresci em Caxias do Sul por quase toda minha vida, mas desde que comecei a faculdade em Porto Alegre, há dois anos, não tenho sido muito diferente de um turista, vindo para a cidade natal em alguns finais de semana e logo voltando para a capital para continuar os estudos. Dá para perceber que minha relação com a cidade mudou de morador para visitante só pela organização sintática do meu texto - eu volto para Porto Alegre de Caxias do Sul, e não o contrário.

Esse distanciamento me faz ver Caxias de outros ângulos que antes me eram inacessíveis. Quando se vive em um lugar, não se nota suas mudanças, apenas paulatinamente. Devargazinho, um detalhe que outro muda, até que, 10 anos depois, já não se vive mais na mesma cidade, apenas no mesmo local. Agora, quando apenas se visita um lugar, todas as mudanças são - ou parecem - bruscas. Não por que sua presença mágica faz com que as coisas se transformem de repente, mas como você não estava por aqui acompanhando os detalhes mudando a passo de formiga, vê apenas o resultado, e não o processo. Hoje tive esse impacto pelo menos duas ou três vezes.

Caxias do Sul é o pólo industrial mais importante do estado, mais do que a própria capital, arrisco dizer, atrái muitos investimentos e pessoas, e por isso muda muito rapidamente. A última vez que estive aqui e pude ver o centro da cidade com mais calma foi a quase um mês. Dá tempo para muita coisa mudar, ou, pelo menos, parecer muito diferente. Logo na rodoviária, quando desci do ônibus, percebi que as coisas por lá estão mais arrumadas, bonitas. Não gosto de rodoviárias e acho todas elas feias e sujas (por que são mesmo), e a daqui de Caxias parecia mais limpa do que de costume. Claro, fizeram uma rampinha bonitinha ao lado do desembarque, colocaram uns vidros bonitos e pintaram as paredes de branco com detalhes em azul e amarelo. Da última vez que desci lá, só havia poeira e cimento para todos os lados. Eu poderia ligar os pontos e pensar "olha, terminaram a reforma", e de fato fiz isso, mas só depois que o impacto do local estar tão diferente ter passado.

Depois, já fora da rodoviária e no centro da cidade, atravessando a Sinumbu, do lado da praça Dante Alighieri, vejo uma coisa estranha naquele pedaço de calçada no meio da rua. À primeira vista, parecia um daqueles relógios que também dão a temperatura, só que mais afrescalhado. Numa inspeção mais atenta, percebi que era quase isso - era uma bomba-relógio um marcador contando quantos dias faltam para a Festa da Uva de 2010. 364 dias até o grande festival de terra, pão e vinho com o qual eu não poderia me importar menos. Da última vez que passei por ali, ao contrário do que aconteceu no caso da rodoviária, não havia nada que indicasse a futura aparição do Inri Cristo e seus anjos do Apocalipse daquele trambolho prateado. Eu sei que para ele aparecer ali ocorreu todo um processo, desde a liberação da prefeitura até a construção do mecanismo e sua eventual fixação anal ao solo, mas para eu que só vi ele hoje, parece que ele caiu de alguma nuvem no céu. Foi ali, naquele momento quando todas estas coisas fervilharam em minha cabeça, que este post nasceu.

E, ainda impressionado com como as coisas mudam, quase chegando ao lar, vi que pintaram uma das casas aqui da rua de um verde bem chamativo, ao contrário da cor antiga, apagada demais até para eu lembrar. Ficou bonito. Sábado estarei indo gerundicamente para Paraíso, a praia onde passei todos os verões de minha infância. Faz pelo menos um ano desde a última vez que estive lá, quando tive o choque de descobrir muitas coisas mudadas. Provavelmente há mais novidades que caíram do céu me aguardando por lá para me surpreenderem.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Alquimia do Estágio

Na sociedade ocidental contemporânea (ai, que clichê essa introdução!), os jovens geralmente passam boa parte de suas vidas estudando, e ao longo deste percurso, enfrentam muitas mudanças e crises de identidade, como diria o velho Erik Erikson. Em relação à escola, a primeira crise é quando começamos a freqüentar o jardim-de-infância ou a creche, e pela primeira vez conhecemos pessoas que não são nossos parentes. Depois, vem a 1ª série, o ensino médio, o vestibular, o começo da faculdade e o começo dos estágios. Pois é, caros amigos, como vocês bem sabem, estou enfrentando esta última crise.

Considero a “crise de estagiário” qualitativamente muito diferente de todas as outras crises que a antecederam. Quando se entra no ensino médio, faz o vestibular ou começa a faculdade, apesar da mudança de contextos e cobranças, você continua fazendo a mesma coisa – estudar. Pode ser que o 1º ano do ensino médio seja mais difícil que a 8ª série do ensino fundamental, que o vestibular exija que você decore muita coisa irrelevante (por exemplo, que Frederico Westphalen é uma cidade produtora de jóias semipreciosas) e que na faculdade você tenha que estudar assuntos muito mais específicos do que história, matemática ou geografia, mas, em essência, para superar todas estas crises a estratégia é a mesma: ler livros, fazer anotações em aula, tirar dúvidas com os professores e colegas. Quando você começa a estagiar, isso tudo, apesar de continuar importante, torna-se insuficiente, pois sua competência e aprendizado não serão medidos por provas e testes, mas na prática, atendendo pacientes, melhorando a vida deles, fazendo o que é necessário. E isso é muito mais complicado do que dissertar sobre a natureza do Self, ou discutir os aspectos teóricos das crenças centrais. De certa forma, é um pouco como ir para a escolinha pela primeira vez, com a diferença que, agora, seus erros influenciam muito mais pessoas do que seus coleguinhas, seus pais e as “tias”.

Como já disse por aqui, esta sensação de desamparo é tão grande, que quando confrontei meu primeiro paciente, pensei “tudo que estudei foi para nada!”, pois senti-me absolutamente despreparado para fazer qualquer coisa. Naquele momento, pareceu extremamente verdadeiro dizer que ler não adiantava para nada, mas esta afirmação não se sustenta diante de uma análise cuidadosa e honesta, como percebi alguns minutos mais tarde. Os estudos não me prepararam para trabalhar, mas onde e como eu estaria se não tivesse lido absolutamente nada, exceto o básico para passar nas disciplinas da faculdade (e que não é tanto assim)? Acho que é razoável dizer que eu estaria ainda mais perdido e fazendo estágio num lugar cagado como a Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS ou no CAP-SOP.

Não, para quem enfrenta os estágios, as leituras são ainda mais fundamentais. Eu poderia cair na falácia de dizer que quem começa a trabalhar deve descobrir o que funciona e o que não funciona tudo por conta própria, que a teoria não funciona na prática e que estudar é perda de tempo. Mas não vou fazer isso. Teorias são sínteses das experiências de outras pessoas, e não ler a respeito delas é jogar fora o conhecimento acumulado por outras pessoas muito boas que se dignaram a dividi-lo. Mas o problema todo não é ter conhecimento sobre o que fazer no estágio (se fosse, os filósofos teriam emprego garantido), mas saber o que fazer. Essa diferenciação entre “saber” e “conhecimento”, e a relação entre “saber” e “poder” foi descrita por Michel Foucault, pensador francês e careca. Só agora percebo o valor do que ele diz (aliás, teria esquecido completamente dele, se não fosse o Brunão me lembrar dele ontem, conversando entre um paciente e outro).

Tenho visto, nestes dias como estagiário, que conhecimento e saber são duas coisas distintas, mas intimamente ligadas – lendo eu tenho idéias sobre que intervenções fazer em uma consulta, e aplicando-as, vejo quais idéias são boas, quais não são e com quais eu trabalho melhor. Outra conversa com outra pessoa, a Mariza, psicóloga (já formada) do ambulatório pode ilustrar melhor o que quero dizer. Em um dado momento, quando ia pegar uma folha de papel para escrever alguma coisa durante uma consulta, nos esbarramos no corredor, e ela me pergunta “precisa de alguma coisa?” – perguntei se ela não teria um pouco de experiência para vender (tipo o Tome of Experience do Warcraft III, que seria realmente útil na vida real). Ela me respondeu citando um psicanalista cujo nome já esqueci que disse que, com o tempo, as nossas leituras iriam se amalgamando em nós mesmos. Achei essa uma metáfora muito bonita, e que resume bem a maneira como penso a relação entre teoria e prática.

Transformar o conhecimento em saber, aplicar a teoria à prática, especialmente em uma profissão como a Psicologia, é um processo extremamente pessoal, ao mesmo tempo simples e difícil. De forma poética, poderia dizer que é um processo alquímico, onde precisamos transformar o chumbo de nossos estudos no ouro de nossa prácita. É bom poder conversar com professores e outros psicólogos com experiência clínica (mesmo psicanalistas), pois eles podem dar idéias interessantes e nos ensinar novas maneiras de encarar um problema. Mesmo assim, eles não vão estar lá conosco quando atendemos um paciente particularmente complicado, e como vamos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo em saber ainda é problema nosso. E eu tenho pilhas de chumbo aqui para transformar em ouro.