sexta-feira, 13 de março de 2009

Entre a Ação e a Inação

O Mistério da Vida pode ser contemplado por diversos ângulos, e as dúvidas por ele suscitadas podem ser descritos de muitas formas. Contudo, a maneira que tem me inquietado é o difícil equilíbrio entre o agir e o não-agir. De um modo geral, este tema permeia toda a relação entre as civilizações ocidentais e orientais. Enquanto os monges zen e taoístas vivem o Wu Wei, a sábia não-ação, a contemplação do mundo tal como ele é, os filósofos existencialistas do ocidente como William James admoestam-nos para que agarremos o touro da vida com as próprias mãos, e nossa própria ciência age ativamente na modificação e controle da natureza. Pode parecer estranho que eu levante esta questão, pois, a primeira vista, é óbvio que o "melhor caminho" encontra-se na ciência positivista, pois foi graças à ela que "o mundo tornou-se nosso", e que tenhamos à nossa disposição ferramentas tão úteis e maravilhosas como o computador (isto não inclui o Windows Vista). Contudo, se formos honestos, perceberemos que estas conquistas são muito superficiais - continuamos sofrendo, nos matando de forma cruel e fazendo deste mundo por nós conquistado em um inferno particular da humanidade.

Caímos então no outro extremo, que foi muito bem formulada por algum cidadão ocidental, em algum momento da história, que proferiu as profundas palavras "se nada der certo, viro hippie". Não é uma idéia tão absurda ou pouco considerada quanto possa parecer. Lembro-me de, certa vez, durante uma aula no segundo ano do ensino médio, uma colega minha dizer que já considerou seriamente a possibilidade de virar freira e não ter que se preocupar mais com a vida - exceto com as orações matinais. Sedutora e atrante como parece, a acelerada vida do Ocidente muitas vezes nos faz olhar para aqueles chineses velhinhos fazendo Tai Chi em praça pública com certa inveja. "Ah! Isso sim é vida!" podemos ter exclamado um domingo desses, quando a Glória Maria ou alguma outra repórter celebridade fez alguma série de reportagens sobre a vida no Extremo Oriente, mas creio que poucos tenham realmente largado tudo o que tem aqui no Brasil para ir viver em Pequim para fazer lentos movimentos circulares. Não... isso daria trabalho demais.

E é aqui que minha consciência leva-me à um paradoxo: a mais vigorosa e enérgica ação vem sempre acompanhada da mais calma e meditativa contemplação. Não é algo que possa ser expresso de forma clara e cristalina em palavras, pois deve ser vivido, e as palavras corrompem a experiência pura. Percebi isto ontem, com o treino de Kung Fu. No tempo livre que dispunha antes de ir para a academia, comecei a ler um livro intitulado "Wu Wei: A sabedoria do não-agir", escrito por Henri Borel sobre este misterioso Wu Wei, e o que li entristeceu-me profundamente, pois pensei que nunca poderia atingir este estado, e que talvez nem mesmo quisesse fazê-lo, pois a maneira como o autor o explicava fazia parecer que o Wu Wei é apenas a arrogância de um homem que se orgulha de não fazer nada. Contudo, conforme treinava, minha tristeza desaparecia, ficando em seu lugar apenas o movimento, e então percebi que, ali, naquele momento e lugar, eu vivia o Wu Wei. A intelectualização da leitura toldara meus olhos para o óbvio! E é ali, treinando Kung Fu, exercitando todos os meus músculos, que o vivo. Movimento-me intensamente, mas no fundo, não estou fazendo nada, pois apenas sigo a corrente do universo que Lao Tsé chamou de Tao.

É um erro considerar que se ficarmos apenas sentados, olhando para uma risonha e gorda figura do Buda atingiremos o Wu Wei, este estado que foi chamado de Satori, Fluxo, Mindfulness, Iluminação e tantos outros nomes, mas é igualmente equivocado crer que o faremos através da volição ativa: é através dos dois, e nenhum ao mesmo tempo. Não entende o que eu digo? Ignore este texto, então. Ele é apenas aparência, e provavelmente tu te enganarás acreditando nele também.

Ô Dotô!

Tem uma comunidade no Orkut intitulada "Doutor é quem tem doutorado", e em seus fóruns, os membros da dita comunidade alternam acusações de arrogância aos médicos e advogados que exigem serem tratados por "doutor", e acusações de inveja aos demais, que foram incompetentes demais para entrar na faculdade de Medicina ou Direito e assim, merecerem o privilégio de poderem colocar "dr." na frente do nome.

Bem, isso pode parecer nobre e de suma importância para muitas pessoas, mas baseado em minhas experiências pessoais, posso dizer que isso é perda de tempo. Por que? Bem, esses dias, lá no ambulatório, estava conversando com a mãe de um paciente sobre o transtorno dele, quando ela me perguntou algo como "mas doutor, o que eu faço nesse caso?". Não lembro qual era a pergunta, mas lembro claramente que ela me chamou de doutor. Ontem mesmo, voltando da aula, uma colega minha disse que também fora chamada de "doutora" no estágio dela.

Nem eu, nem minha colega temos diploma em Medicina ou Direito, nenhum de nós dois fez doutorado, e tampouco temos caras de pessoas respeitáveis, pois ambos temos cara de criança. Na hora, pensei "puxa, como é disseminada essa mania de chamar alguém em posição de autoridade de 'doutor'", mas depois, quando percebi que qualquer estagiário pode ser doutor se disser algumas bobagens e prescrever alguns remédios para um paciente qualquer, vi que ser doutor não vale nada, e que ficar discutindo sobre isso é uma perda de tempo. Por isso, de agora em diante, assinarei meus textos como "Dr. Andarilho". Ou "Dom Andarilho", tipo bispo. Sei lá.

Texto escrito pelo genial, maravilhoso e humilde Dr. Andarilho

segunda-feira, 2 de março de 2009

Finais e Recomeços

Fui dormir tarde ontem, às quatro da manhã, acometido de uma certa insônia, fruto da minha indisciplina de verão, e tarde despertei esta manhã. Apesar da chuva, era uma manhã como outra qualquer, mas parecia que algo tinha mudado profundamente. O ar frio que entrava pelas janelas de casa não tinha mais a mesma leveza, e como que me lembrava que não poderia mais ficar deitado. Hoje começaram minhas aulas. E este fato, mais do que o clima chuvoso, parecia tornar a atmosfera ao meu redor mais pesada, carregada da responsabilidade de ir à faculdade, assistir seminários, fazer trabalhos.

Desde meus seis ou sete anos, na primeira série do primeiro grau, sentia que o espírito que envolve as férias ou as aulas são distintos como água e vinho. Na primeira manhã que passei em Porto Alegre depois da minha viagem pela Argentina também chovia, mas os pingos de água que caiam sobre mim eram completamente diferentes do que tamborilam pela minha janela neste momento. A chuva, o cheiro das ruas, as pessoas caminhando pelas calçadas e os carros, tudo me trazia a sensação de tranquilidade, sossêgo e contemplação que sentia durante minhas férias e o tempo que passava na praia. Não precisava ir a lugar algum, e minhas pernas, protegidas apenas por frágeis chinelos e bermudas, poderiam levar-me onde quer que quisessem. Hoje, apesar de praticamente não ter aulas, posto que fui fazer um exame médico de manhã e que a primeira aula da tarde fora cancelada, não tenho mais esta sensação. O que senti esta manhã foi que tinha que estar em outros lugares que não onde já estava. Meu passo tranquilo, sossegado e contemplativo teve que dar lugar às passadas rápidas, inquietas e focadas em alguma coisa mais além do que minha vista alcança, ao pesado sentimento de dever que acompanham a volta às aulas, e minhas pernas, agora firmemente vestidas com botas impermeáveis e calças jeans, voltaram a obedecer meus comandos, pois não mais poderiam levar-me para ver tudo que quisessem, mas sim a cumprir tarefas, uma após a outra, e a própria chuva, seu cheiro, as pessoas na parada esperando o ônibus e os carros passando pela Ipiranga lembravam-me de tudo isto.

Apesar do ar carregado que envolve Porto Alegre nesta volta à vida regrada e certinha que a maioria de nós precisa viver após o Carnaval, não desejo que isto acabe e que as férias voltem. Não por que meu tempo de descanso tenha sido ruim, mas justamente por que ele foi tão bemaproveitado - nele, vivi desde a mais intensa aventura até a mais profunda contemplação; a solidão mais silente de meu quarto até a camaradagem ruidosa dos bares da Cidade Baixa; a dureza dos treinos até o ócio completo; o vento gelado da Patagônia e o calor de um abraço carinhoso. Como diria Viktor Frankl, estas memórias agora estão para sempre guardadas em meu passado, e ninguém as tirará de mim. Mas, por mais belo que o passado seja, nada acontece lá. Tenho agora, diante de mim, o desafio que o futuro me lança agora, com os estágios e as aulas. E é meu dever aceitá-lo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Narrativas

Acabei de checar meu e-mail. Pois é, nada de novo aí, considerando que faço isso quatro ou cinco vezes por dia. O que me levou a escrever um post a respeito foi uma mensagem que recebi, contendo o programa de uma disciplina obrigatória, Método Clínico e Diagnóstico. Como quase a totalidade das cadeiras de clínica, ela segue a orientação psicanalítica de Jacques Lacan. Quem lê este blog ou convive comigo e tem QI suficiente para discutir questões psicológicas sabe que eu detesto psicanálise, e que tenho espasmos de raiva quando ouço algum colega meu falar, com cara de sujeito suposto saber entendido, alguma bobagem que o Freud ou Lacan disseram em algum momento como se fosse a mais profunda verdade, ou quando leio os horríveis e incompreensíveis textos deste último cidadão ou do Deleuze e Guattari. Pelo menos costumava ser assim.

Não quero que me entendam mal - continuo não gostando deles por vários motivos, filosóficos, científicos e pessoais, mas nos últimos tempos, mas tenho os visto por um ângulo completamente diferente. Eu gosto de Neurociências, Psicologia Experimental e tantas outras coisas parecidas, considero elas importantes métodos de busca da verdade, mas não os únicos. Por mais que me desagrade, o saber produzido pelos psicanalistas, esquizoanalistas e toda essa trupe que não gosto também é importante. Numa visão pós-moderna, a ciência é uma narrativa, uma maneira de dizer algo a respeito do mundo, e existem muitas maneiras de fazer isto. Todas elas, seja a ciência moderna, a poesia, a literatura, a psicanálise, a mitologia, a religião, são importantes, por exporem lados diferentes do mesmo objeto, e se superpõem e se complementam. Seria uma pena se qualquer um desses desaparecesse e fosse suplantado em nome de uma maior cientificidade.

Este post marca a minha conversão ao Lacanismo? Não, continuo achando "O Estádio do Espelho na formação do [eu]" uma charlatanice, assim como praticamente todos os outros textos lacanianos que tive quer ler para a faculdade, mas há pessoas que os apreciam, e não há nada de errado com isto. Minha personalidade e meu destino me fizeram gostar de coisas como Terapia Cognitivo-Comportamental, mas meus gostos não são infalíveis, e não devem ser usados como modelo universal do que é certo. Seria um leito de Procusto. Quero dizer que todas as formas de conhecimento são equivalentes e que "tudo vale"? Sim, mas só até certo ponto. A ciência trouxe muitas vantagens para a humanidade, e continua trazendo. Porém seu alcance tem limites, como tudo que é humano. Para aquilo que seu discurso não abarca, há outras maneiras de pensar, como a religião e (ai ai) a psicanálise. No sentido oposto, é impensável substituir inteiramente a Medicina moderna pelo xamanismo ou por uma análise, por que isto seria estúpido e perigoso. Agora, fazer as três ao mesmo tempo para tratar um problema de saúde, por que não? Pode ser benéfico. Eu mesmo tenho tentado, quando leio alguma coisa de psicanálise, tirar algo de positivo, por mais detestável que possa ser, e incorporar na minha prática profissional.

Muito critiquei o pós-modernismo por sua atitude de "tanto faz", nihilista, mas a tolerância que perga é admirável. Posso não gostar das idéias de Freud ou de Lacan, mas quem sou eu para saber se eles não encontraram alguma verdade?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

De volta dos mortos... outra vez

Pois é, fieis, valorosos e parcos leitores do Espadachim Cego, voltei ontem da praia e estou aqui em Porto Alegre desde hoje de manhã. E, ao contrário do que tinha prometido no post anterior, não escrevi absolutamente NADA no tempo que fiquei em Paraíso – nem a respeito da Expedição Austral, nem sobre nada. Em compensação, li bastante. Não que isto seja alguma novidade bombástica, já que eu sempre leio bastante, mas quero deixar claro que meu tempo não foi de todo mal aproveitado.

Em todo caso, gostaria de deixar claro que, apesar deste lapso meu, não abandonei a idéia de escrever sobre minhas aventuras na Patagônia e que, de agora em diante, consagrarei uma parte do meu dia exclusivamente para escrever. Hoje retorno à minha tranqüila rotina de férias, lendo, escrevendo e treinando, que durará apenas até segunda-feira quando recomeçam minhas aulas e, com sorte, meu segundo estágio (que ninguém sabe quando começará a convocar seus escravos estagiários). Não prometo a taxa de atualização obscena do ano passado (que levou o Marcelo a dizer que “escrevo feito um tarado”), mas garanto que continuarei escrevendo bastante por aqui.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Histórias por vir

Um aviso aos leitores deste blog: amanhã de manhã irei para Paraíso, praia povoada no verão por velhos, crianças e pessoas sem internet, por isso, não atualizarei o blog até quarta-feira. Eu sei que dizer isso é bobagem, considerando que aquelas atualizações diárias que eu fazia antigamente foram para a cucuia, mas o que vim dizer neste post mesmo é que, apesar de longe da internet, não estarei ocioso. Aproveitarei meu tempo livre e escreverei sobre a Expedição Austral. Aguardem (ou não. Tanto faz de qualquer jeito).

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre o tempo e relógios esquisitos

Morei e cresci em Caxias do Sul por quase toda minha vida, mas desde que comecei a faculdade em Porto Alegre, há dois anos, não tenho sido muito diferente de um turista, vindo para a cidade natal em alguns finais de semana e logo voltando para a capital para continuar os estudos. Dá para perceber que minha relação com a cidade mudou de morador para visitante só pela organização sintática do meu texto - eu volto para Porto Alegre de Caxias do Sul, e não o contrário.

Esse distanciamento me faz ver Caxias de outros ângulos que antes me eram inacessíveis. Quando se vive em um lugar, não se nota suas mudanças, apenas paulatinamente. Devargazinho, um detalhe que outro muda, até que, 10 anos depois, já não se vive mais na mesma cidade, apenas no mesmo local. Agora, quando apenas se visita um lugar, todas as mudanças são - ou parecem - bruscas. Não por que sua presença mágica faz com que as coisas se transformem de repente, mas como você não estava por aqui acompanhando os detalhes mudando a passo de formiga, vê apenas o resultado, e não o processo. Hoje tive esse impacto pelo menos duas ou três vezes.

Caxias do Sul é o pólo industrial mais importante do estado, mais do que a própria capital, arrisco dizer, atrái muitos investimentos e pessoas, e por isso muda muito rapidamente. A última vez que estive aqui e pude ver o centro da cidade com mais calma foi a quase um mês. Dá tempo para muita coisa mudar, ou, pelo menos, parecer muito diferente. Logo na rodoviária, quando desci do ônibus, percebi que as coisas por lá estão mais arrumadas, bonitas. Não gosto de rodoviárias e acho todas elas feias e sujas (por que são mesmo), e a daqui de Caxias parecia mais limpa do que de costume. Claro, fizeram uma rampinha bonitinha ao lado do desembarque, colocaram uns vidros bonitos e pintaram as paredes de branco com detalhes em azul e amarelo. Da última vez que desci lá, só havia poeira e cimento para todos os lados. Eu poderia ligar os pontos e pensar "olha, terminaram a reforma", e de fato fiz isso, mas só depois que o impacto do local estar tão diferente ter passado.

Depois, já fora da rodoviária e no centro da cidade, atravessando a Sinumbu, do lado da praça Dante Alighieri, vejo uma coisa estranha naquele pedaço de calçada no meio da rua. À primeira vista, parecia um daqueles relógios que também dão a temperatura, só que mais afrescalhado. Numa inspeção mais atenta, percebi que era quase isso - era uma bomba-relógio um marcador contando quantos dias faltam para a Festa da Uva de 2010. 364 dias até o grande festival de terra, pão e vinho com o qual eu não poderia me importar menos. Da última vez que passei por ali, ao contrário do que aconteceu no caso da rodoviária, não havia nada que indicasse a futura aparição do Inri Cristo e seus anjos do Apocalipse daquele trambolho prateado. Eu sei que para ele aparecer ali ocorreu todo um processo, desde a liberação da prefeitura até a construção do mecanismo e sua eventual fixação anal ao solo, mas para eu que só vi ele hoje, parece que ele caiu de alguma nuvem no céu. Foi ali, naquele momento quando todas estas coisas fervilharam em minha cabeça, que este post nasceu.

E, ainda impressionado com como as coisas mudam, quase chegando ao lar, vi que pintaram uma das casas aqui da rua de um verde bem chamativo, ao contrário da cor antiga, apagada demais até para eu lembrar. Ficou bonito. Sábado estarei indo gerundicamente para Paraíso, a praia onde passei todos os verões de minha infância. Faz pelo menos um ano desde a última vez que estive lá, quando tive o choque de descobrir muitas coisas mudadas. Provavelmente há mais novidades que caíram do céu me aguardando por lá para me surpreenderem.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Alquimia do Estágio

Na sociedade ocidental contemporânea (ai, que clichê essa introdução!), os jovens geralmente passam boa parte de suas vidas estudando, e ao longo deste percurso, enfrentam muitas mudanças e crises de identidade, como diria o velho Erik Erikson. Em relação à escola, a primeira crise é quando começamos a freqüentar o jardim-de-infância ou a creche, e pela primeira vez conhecemos pessoas que não são nossos parentes. Depois, vem a 1ª série, o ensino médio, o vestibular, o começo da faculdade e o começo dos estágios. Pois é, caros amigos, como vocês bem sabem, estou enfrentando esta última crise.

Considero a “crise de estagiário” qualitativamente muito diferente de todas as outras crises que a antecederam. Quando se entra no ensino médio, faz o vestibular ou começa a faculdade, apesar da mudança de contextos e cobranças, você continua fazendo a mesma coisa – estudar. Pode ser que o 1º ano do ensino médio seja mais difícil que a 8ª série do ensino fundamental, que o vestibular exija que você decore muita coisa irrelevante (por exemplo, que Frederico Westphalen é uma cidade produtora de jóias semipreciosas) e que na faculdade você tenha que estudar assuntos muito mais específicos do que história, matemática ou geografia, mas, em essência, para superar todas estas crises a estratégia é a mesma: ler livros, fazer anotações em aula, tirar dúvidas com os professores e colegas. Quando você começa a estagiar, isso tudo, apesar de continuar importante, torna-se insuficiente, pois sua competência e aprendizado não serão medidos por provas e testes, mas na prática, atendendo pacientes, melhorando a vida deles, fazendo o que é necessário. E isso é muito mais complicado do que dissertar sobre a natureza do Self, ou discutir os aspectos teóricos das crenças centrais. De certa forma, é um pouco como ir para a escolinha pela primeira vez, com a diferença que, agora, seus erros influenciam muito mais pessoas do que seus coleguinhas, seus pais e as “tias”.

Como já disse por aqui, esta sensação de desamparo é tão grande, que quando confrontei meu primeiro paciente, pensei “tudo que estudei foi para nada!”, pois senti-me absolutamente despreparado para fazer qualquer coisa. Naquele momento, pareceu extremamente verdadeiro dizer que ler não adiantava para nada, mas esta afirmação não se sustenta diante de uma análise cuidadosa e honesta, como percebi alguns minutos mais tarde. Os estudos não me prepararam para trabalhar, mas onde e como eu estaria se não tivesse lido absolutamente nada, exceto o básico para passar nas disciplinas da faculdade (e que não é tanto assim)? Acho que é razoável dizer que eu estaria ainda mais perdido e fazendo estágio num lugar cagado como a Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS ou no CAP-SOP.

Não, para quem enfrenta os estágios, as leituras são ainda mais fundamentais. Eu poderia cair na falácia de dizer que quem começa a trabalhar deve descobrir o que funciona e o que não funciona tudo por conta própria, que a teoria não funciona na prática e que estudar é perda de tempo. Mas não vou fazer isso. Teorias são sínteses das experiências de outras pessoas, e não ler a respeito delas é jogar fora o conhecimento acumulado por outras pessoas muito boas que se dignaram a dividi-lo. Mas o problema todo não é ter conhecimento sobre o que fazer no estágio (se fosse, os filósofos teriam emprego garantido), mas saber o que fazer. Essa diferenciação entre “saber” e “conhecimento”, e a relação entre “saber” e “poder” foi descrita por Michel Foucault, pensador francês e careca. Só agora percebo o valor do que ele diz (aliás, teria esquecido completamente dele, se não fosse o Brunão me lembrar dele ontem, conversando entre um paciente e outro).

Tenho visto, nestes dias como estagiário, que conhecimento e saber são duas coisas distintas, mas intimamente ligadas – lendo eu tenho idéias sobre que intervenções fazer em uma consulta, e aplicando-as, vejo quais idéias são boas, quais não são e com quais eu trabalho melhor. Outra conversa com outra pessoa, a Mariza, psicóloga (já formada) do ambulatório pode ilustrar melhor o que quero dizer. Em um dado momento, quando ia pegar uma folha de papel para escrever alguma coisa durante uma consulta, nos esbarramos no corredor, e ela me pergunta “precisa de alguma coisa?” – perguntei se ela não teria um pouco de experiência para vender (tipo o Tome of Experience do Warcraft III, que seria realmente útil na vida real). Ela me respondeu citando um psicanalista cujo nome já esqueci que disse que, com o tempo, as nossas leituras iriam se amalgamando em nós mesmos. Achei essa uma metáfora muito bonita, e que resume bem a maneira como penso a relação entre teoria e prática.

Transformar o conhecimento em saber, aplicar a teoria à prática, especialmente em uma profissão como a Psicologia, é um processo extremamente pessoal, ao mesmo tempo simples e difícil. De forma poética, poderia dizer que é um processo alquímico, onde precisamos transformar o chumbo de nossos estudos no ouro de nossa prácita. É bom poder conversar com professores e outros psicólogos com experiência clínica (mesmo psicanalistas), pois eles podem dar idéias interessantes e nos ensinar novas maneiras de encarar um problema. Mesmo assim, eles não vão estar lá conosco quando atendemos um paciente particularmente complicado, e como vamos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo em saber ainda é problema nosso. E eu tenho pilhas de chumbo aqui para transformar em ouro.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A Arte de usar palavrões

Quando se escreve um texto, há vários recursos disponíveis, mas que cujo uso precisa ser bem pensado para não estragar com tudo. O melhor exemplo disto são os palavrões.

Palavrão é uma coisa complicada, por que ao mesmo tempo que pode dar uma ênfase poderosa à mensagem que se pretende passar, também pode desmoralizá-la por ser vulgar. É como lítio - na quantidade certa, impede as violentas variações de humor do Transtorno de Humor Bipolar, mas se passar um pouco da dose terapêutica, mata. OK, lítio também pode levar a obesidade e depois do décimo surto não medicado não adianta nada, mas isso não vem ao caso aqui.

Descobri hoje um blog muito legal e que exemplifica bem o que quero dizer neste texto aqui - o Substativolátil. A autora e gatinha Mirian Bottan (tem a foto dela no blog) escreve crônicas (eu acho) sobre coisas corriqueiras como o fato dela odiar telefones, considerações filósoficas sobre gramática e o agora e outros assuntos legais mas que ainda não tive tempo de ler. De vez em quando, aparece um "bosta" ou "cu" nos textos dela, mas é com tanto jeitinho, tanto charme, que parece natural que estas palavras ditas feias apareçam onde aparecem. Claro, ela escreve bem (ou eu não teria usado ela como exemplo), e sabe como dosar os "termos tabu", mas aposto que ela demorou um pouco para dominar esta arte, errando bastante, que muitas pessoas de talento ainda não a dominaram, e escrevem textos cheios de potencial, mas que perdem apelo ou força por que colocaram palavrões demais ou fora de lugar. Textos sobre política na blogosfera são os mais afetados por este problema (e por serem bobagens pura, mas não vem ao caso, novamente).

Isso tudo, creio eu, se aplica também à língua falada, essa que a gente usa todos os dias com as outras pessoas. Lembro de uma reunião do Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre particularmente agitada que assisti, onde um médico particularmente indignado com a rapidez com que os gestores mudavam falou que "tem muito motel que inveja nossa rotatividade" (OK, não é palavrão, mas é potencialmente muito ofensivo), ou todas aquelas discussões onde alguém encerrou magistralmente sua argumentação bem estruturada e ponderada com um "pô, se é pra ser assim, vai tomar no cu!" ou coisa parecida. Mas aqui está o pulo do gato: colocar palavrões em um texto ou fala só fica bom se o texto ou fala for bom por conta própria, e o palavrão servir apenas como um recurso, e não ser o argumento principal (como é o caso deste post aqui). Se isso não for respeitado, teremos um texto bagaceiro. Tipo aqueles fimes como "Todo Mundo em Pânico" ou "Superhero Movie", só que em palavras.

Outro problema com os palavrões pode ser cultural. Pensando neste assunto, me lembrei da época que morei nos Estados Unidos como intercambista. Uma das primeiras coisas que aprendi na escola foi sobre o uso correto dos palavrões. Em sala de aula é tabu dizer qualquer coisa mais "feia", e não me refiro apenas aos clássicos "fuck", "shit", "ass" e variantes divertidas, mas também "hell" e "damn". Pô, aqui no Brasil um professor pôr pra fora da sala alguém que diz "foda-se" durante a aula é compreensível, mas por dizer "dane-se", alguém já viu? E inferno? Pra mim inferno é para onde psicanalistas as pessoas más vão quando morrem, e não um termo a ser evitado! Aliás, "vai pro inferno" é uma exclamação extramemente sonora de indignação, e muito triste ficaria se tivesse que parar de usá-la.

Então, quando na escola lá nos EUA, eu precisava ter cuidado pra não escorregar a língua e dizer bobagem na hora errada pra não parar no SOE ou qualquer que seja o nome que dão para a "sala de tomar esporro" por lá, por que os professores não toleram este comportamento (exceto o de história mundial, que sabia o gênio que eu sou e que também escorregava na etiqueta de vez em quando), mas não quer dizer que o povo abria a mão totalmente do poderoso efeito moral que dizer "fucking" antes de qualquer coisa tem. Para fazer isto, se lança mão de um mecanismo meio psicanalítico de defesa, mudando só um pouquinho a frase para torná-la aceitável. "Fucking" se torna "frigging", "freaking" ou "flipping"; "shit" vira "shoot" e "holy shit" se transforma nos divertidos "holy schinakees" ou "holy schomoligans". Como nem o santo nome de Jesus pode ser usado em vão, ele vira "Gee" ou "Jeez" ou "Jebas".

Fora da escola, contudo, algumas pessoas de meu círculo de amizades usavam tantos palavrões que eu ficava envergonhado. Não sei se o inglês (a língua, não aquele cidadão que mora no Reino Unido) tem essa característica de ser mais ofensivo, ou eu não estava acostumado a ouvir alguém falar tantos "fucks" consecutivamente, ou se eu fiquei dessensibilizado de ouvir palavrões em português e não sou mais capaz de perceber que xingar nas duas línguas é igualmente ofensivo ou impactante. Como eu não fazia todas estas considerações quando ouvia aquele gringo menor de idade mascando tabaco (proibido por lei) xingando todo o universo, eu ficava vermelho.

Por isso amiguinhos que chegaram até aqui, para concluir este texto, gostaria de dar uma dica, caso você queira escrever um texto ou fazer um discurso com palavrões no meio: vá em frente, só saiba dosar a coisa toda, ou vai ficar com a mesma cara de panaca que eu estou agora, tentando concluir este post.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Dica de blog

Não costumo fazer muitos posts divulgando sites ou blogs alheios, apenas quando encontro um que mereça divulgação. Pois bem, encontrei essa semana um blog muito bom, o Contraditorium. Lendo os muitos excelentes textos lá publicados, descobri que sou um alienado da blogosfera, que não sei merda nenhuma do que acontece na internet por que não estou linkado a quase ninguém exceto o Play the Coin! e um que outro blog anti-social como o meu (estou olhando para vocês, Marcelo e Bruno). Mas estou fugindo assunto aqui, até por que não vou me coçar pra deixar meu blog popular (nem os outros dois anti-sociais supracitados).

O que quero dizer aqui é que o Contraditorium é muito bom e vale a pena ler. O autor tem opiniões que variam do divertido ao polêmico, sobre temas muito variados, mas especialmente sobre a cultura da internet. Ficadica.

Drugs

Algumas pessoas são viciadas em chocolate; outras, em álcool, drogas ilícitas, atenção, sexo, dormir. Se eu tenho um vício, algo que preciso pra viver, é treinar Kung Fu. E estou tendo uma crise de abstinência neste exato momento.

Post Obrigatório sobre Big Brother

Depois de escrever um post enquanto assistia a novela, escrevo agora um outro post, dessa vez assistindo "Big Brother Brasil". Sinceramente, acho que este programa é subvalorizado pela academia. Um estudo psicológico sobre os traços de personalidade das pessoas que participam dele deveria ser feito. Tenho a hipótese de que 90% deles seriam considerados patologicamente egocêntricos.