terça-feira, 13 de maio de 2008
Wushu
Engraçado. Apesar do Wushu ser um aspecto central em minha vida, escrevo muito pouco sobre ele por aqui. Certamente, tenho muito mais o que escrever sobre Filosofia, Psicologia, Neurociências e assuntos afins, pois há muito mais teoria por trás delas, ao contrário do Wushu, que apesar de basear-se em sólidos fundamentos filosóficos, é muito mais prático do que teórico. No Wushu, tenho muito mais o que fazer.
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Um Desafio Socrático
Acho que cansei de dizer por aqui que mato aula, e que não sinto o menor remorso por isso. OK, eu sinto uma pontinha de remorso, mas isso não vem ao caso. A questão é que na maioria dos casos, matei aula por que não a achava estimulante. Convenhamos, é difícil achar uma senhora de meia idade falando de Lacan com um power point excitante (tem colega meu que acha, mas é por outros motivos). Este um ano e meio de faculdade varreu da existência a minha vergonha na cara, o que me permite tranquilamente levantar-me, sair da sala e só voltar no dia seguinte, pois nem mochila eu levo para as aulas! Então, se a aula é chata, nem preciso pegar nada para ir embora. Minha professora de Psicologia Humanista troçou com isso, e respondi que eu sou existencialmente livre.
Admito que, apesar de em alguns dias não ter nem ao menos me dignado em dar o ar da graça na faculdade, tenho medo de rodar por FF – a infame falta de freqüência, a pior nota que se pode tirar na UFRGS. E admito que, apesar deste medo, não pensava em reconsiderar minha posição: pensava em no máximo aparecer nas aulas, pegar chamada e ir embora logo em seguida.
Entretanto, acontecimentos recentes me fizeram pensar a respeito de minhas atitudes perante as aulas exponenciais. Continuo achando que são chatas, e que me beneficio muito mais de discussões entre pequenos grupos, lendo e escrevendo. Mas foi justamente em discussões que cheguei a conclusão de que posso me beneficiar muito mais ao freqüentar as aulas, e beneficiar meus colegas no processo.
Esse final de semana, o senhor meu pai, psicólogo clínico e professor universitário (em crise), apontou uma incoerência em minhas atitudes. Com o Wushu, faço o possível e o impossível para treinar, faço exercícios em casa, vou na academia em horários ruins, tudo isso para fazer algo que não é tão diferente do que faço na faculdade: ouvir e ver o que outra pessoa tem para me ensinar. Claro, o Wushu é muito mais físico e prático do que a Psicologia, mas o princípio por trás dos dois é o mesmo – disciplina. É necessário disciplina para treinar formas e fazer flexões, mas também é necessário disciplina para permanecer em aula e prestar atenção. Por que desenvolvo apenas uma, e não a outra?
A segunda discussão que mudou muitos de meus conceitos foi com uma amiga minha, veterana e monitora na famigerada disciplina de Processos Grupais I. Além das muitas outras coisas que discutimos por MSN, ela me mostrou uma nova imagem do professor, que desde o início imaginei como dogmático, egocêntrico e agressivo. Segundo ela, o tio Leôncio* é uma pessoa flexível, disposta a rever seus conceitos e crítico. Se não tanto, pelo menos mais do que nós imaginamos. Este professor tem o hábito de nos dar cortaços – dependendo de quem leva, é bem traumático. Para mim, é só um cortaço entre os muitos que já tomei. E essa minha amiga me fez a proposta de discutir mais em aula o assunto tratado, questionar o que o professor diz, ao invés de tentar absorver por osmose o conteúdo.
No fim, percebo mais uma vez que o que me motiva são os desafios. Anteriormente, as aulas não pareciam interessantes por serem tão estáticas e mortas, sem nenhuma possibilidade de aprendizado real. Devo admitir que isto é falso, e que eu era incapaz de perceber todo o potencial nelas encerrado.
Antes desta discussão com minha amiga, fiquei pensando em como manter-me atento nas aulas, sem entediar-me profundamente e sair da sala. A primeira estratégia é dormir. Mas se eu for para a aula para dormir, é melhor nem aparecer no Instituto. A segunda estratégia era ficar desenhando em aula, mas como me conheço, é possível que eu comece a matar aulas para ficar desenhando (já faço disso com alguma freqüência para escrever). A terceira e última alternativa que pensara era encher o saco dos outros em aula. Por encher o saco, não penso em ficar jogando bolinhas de papel embebidas em saliva, ou queimar coisas fedorentas, mas questionar incessantemente. Isso enche muito mais o saco. A bolinha de papel atinge apenas a pele, mas as perguntas bem feitas acertam o coração.
Para ser franco, não sei como fazer isso. Recapitulando as últimas aulas, toda vez que pensava “preciso dizer algo”, nada vinha a minha mente. O que não é surpreendente, diga-se de passagem. Mas não fico pensando muito nisso. Se na hora eu tiver uma pergunta para fazer, farei. Vou ficando melhor com o tempo.
Kierkegaard, antes de abandonar sua antiga vida para dedicar-se à filosofia, chegara a conclusão que no mundo de facilidades em que vivia, era necessário que alguém tornasse as coisas difíceis novamente, para que viver não se tornasse insuportavelmente fácil. Decidiu, então, tornar-se um novo Sócrates, e questionar a essência de tudo e de todos. Pretendo fazer o mesmo, e questionar meus professores e colegas como se nada soubesse, e tudo tivesse para aprender.
Se isso vai mudar minha idéia de que aulas expositivas são chatas? Não, não vai. Até hoje acho fazer flexão uma atividade maçante. Mas com certeza, permanecerei em aula. Eu não consigo recusar um desafio.
*Esse não é o nome dele. Chamo-o assim por que ele é a cara daquela morsa que o Pica-Pau fica atazanando.
Admito que, apesar de em alguns dias não ter nem ao menos me dignado em dar o ar da graça na faculdade, tenho medo de rodar por FF – a infame falta de freqüência, a pior nota que se pode tirar na UFRGS. E admito que, apesar deste medo, não pensava em reconsiderar minha posição: pensava em no máximo aparecer nas aulas, pegar chamada e ir embora logo em seguida.
Entretanto, acontecimentos recentes me fizeram pensar a respeito de minhas atitudes perante as aulas exponenciais. Continuo achando que são chatas, e que me beneficio muito mais de discussões entre pequenos grupos, lendo e escrevendo. Mas foi justamente em discussões que cheguei a conclusão de que posso me beneficiar muito mais ao freqüentar as aulas, e beneficiar meus colegas no processo.
Esse final de semana, o senhor meu pai, psicólogo clínico e professor universitário (em crise), apontou uma incoerência em minhas atitudes. Com o Wushu, faço o possível e o impossível para treinar, faço exercícios em casa, vou na academia em horários ruins, tudo isso para fazer algo que não é tão diferente do que faço na faculdade: ouvir e ver o que outra pessoa tem para me ensinar. Claro, o Wushu é muito mais físico e prático do que a Psicologia, mas o princípio por trás dos dois é o mesmo – disciplina. É necessário disciplina para treinar formas e fazer flexões, mas também é necessário disciplina para permanecer em aula e prestar atenção. Por que desenvolvo apenas uma, e não a outra?
A segunda discussão que mudou muitos de meus conceitos foi com uma amiga minha, veterana e monitora na famigerada disciplina de Processos Grupais I. Além das muitas outras coisas que discutimos por MSN, ela me mostrou uma nova imagem do professor, que desde o início imaginei como dogmático, egocêntrico e agressivo. Segundo ela, o tio Leôncio* é uma pessoa flexível, disposta a rever seus conceitos e crítico. Se não tanto, pelo menos mais do que nós imaginamos. Este professor tem o hábito de nos dar cortaços – dependendo de quem leva, é bem traumático. Para mim, é só um cortaço entre os muitos que já tomei. E essa minha amiga me fez a proposta de discutir mais em aula o assunto tratado, questionar o que o professor diz, ao invés de tentar absorver por osmose o conteúdo.
No fim, percebo mais uma vez que o que me motiva são os desafios. Anteriormente, as aulas não pareciam interessantes por serem tão estáticas e mortas, sem nenhuma possibilidade de aprendizado real. Devo admitir que isto é falso, e que eu era incapaz de perceber todo o potencial nelas encerrado.
Antes desta discussão com minha amiga, fiquei pensando em como manter-me atento nas aulas, sem entediar-me profundamente e sair da sala. A primeira estratégia é dormir. Mas se eu for para a aula para dormir, é melhor nem aparecer no Instituto. A segunda estratégia era ficar desenhando em aula, mas como me conheço, é possível que eu comece a matar aulas para ficar desenhando (já faço disso com alguma freqüência para escrever). A terceira e última alternativa que pensara era encher o saco dos outros em aula. Por encher o saco, não penso em ficar jogando bolinhas de papel embebidas em saliva, ou queimar coisas fedorentas, mas questionar incessantemente. Isso enche muito mais o saco. A bolinha de papel atinge apenas a pele, mas as perguntas bem feitas acertam o coração.
Para ser franco, não sei como fazer isso. Recapitulando as últimas aulas, toda vez que pensava “preciso dizer algo”, nada vinha a minha mente. O que não é surpreendente, diga-se de passagem. Mas não fico pensando muito nisso. Se na hora eu tiver uma pergunta para fazer, farei. Vou ficando melhor com o tempo.
Kierkegaard, antes de abandonar sua antiga vida para dedicar-se à filosofia, chegara a conclusão que no mundo de facilidades em que vivia, era necessário que alguém tornasse as coisas difíceis novamente, para que viver não se tornasse insuportavelmente fácil. Decidiu, então, tornar-se um novo Sócrates, e questionar a essência de tudo e de todos. Pretendo fazer o mesmo, e questionar meus professores e colegas como se nada soubesse, e tudo tivesse para aprender.
Se isso vai mudar minha idéia de que aulas expositivas são chatas? Não, não vai. Até hoje acho fazer flexão uma atividade maçante. Mas com certeza, permanecerei em aula. Eu não consigo recusar um desafio.
*Esse não é o nome dele. Chamo-o assim por que ele é a cara daquela morsa que o Pica-Pau fica atazanando.
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segunda-feira, 12 de maio de 2008
E no próximo episódio...
Amanhã, depois do Kung Fu, é pau e corda fazer quatro relatórios de Seminário de Pesquisa em Psicologia, um relatório de Processos Grupais e um trabalho de Processos Institucionais.
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Grasshopper's Way
Esta sexta-feira, treinei na minha antiga academia em Caxias do Sul. Pensava em fazer isso havia um bom tempo, mas nunca encontrava a disposição para matar a aula de sexta-feira e sair de Porto Alegre. Fiz isto semana passada, e parece que o universo conspirou a meu favor. De manhã, quando me dirigia ao dentista, encontrei meu velho professor, que depois de jogar um pouco de conversa fora, perguntou-me se não eu não gostaria de treinar por lá. Aceitei na hora.
Foi um treino bem mais curto do que estou acostumado – uma hora, contra uma hora e meia de sempre em Porto Alegre. Fiquei com uma sensação de faltar alguma coisa, como mais tempo para fazer técnicas, e uma parte física completa. Não pense o leitor, porém, que não me cansei: repetir o mesmo chute ad nauseam é mais cansativo do que lembrava.
Com este pequeno desvio de rota, pude treinar com supervisão e revisar algumas técnicas que me deixavam em dúvida. Entretanto, não foi essa a grande vantagem do treino de sexta.
Pude relembrar como as coisas eram quando comecei a treinar Kung Fu. Refiro-me tanto à academia, como local de treino e socialização, quanto a mim mesmo, e a meu professor. Ele parece ter uma tendência a pegar mais pesado com os novos, não fisicamente (até por que, para quem está recém começando a treinar, qualquer coisa física é pesada), mas verbalmente. Um advogado poderia dizer que ele quase agride psicologicamente os faixas brancas. Quando eu próprio era um deles, tinha que ouvir todos os treinos algo como “tá horrível!”, “credo!” ou o clássico “pensa numa coisa horrível, e multiplica por 10: é isso aí o que tu fez agora”.
Não tenho muita certeza dos números, mas acredito que na academia em Caxias, haja em torno de 100 alunos. Desses, 70 são alunos passionais – começaram a treinar, mas dificilmente irão passar da faixa branca ou irão muito longe na faixa amarela. Os outros 30 são um núcleo duro, que treina há pelo menos três anos. Entrei para o Kung Fu em 2003, e devo dizer que, dos muitos que posso considerar sendo da “minha turma”, eu era o pior em muitos aspectos: demorava para entender as técnicas, facilmente divagava ou conversava com outros durante o treino, retrucava o que o professor dizia, e fui o que mais demorou para trocar de faixa (além de ter dado um pequeno vexame no exame). Mas sou o único que continua treinando até hoje. Não quero diminuir o valor dos colegas que desistiram – provavelmente tiveram bons motivos para tanto. Mas definitivamente, eu era um “azarão”, e continuei treinando sabe-se lá por que. Mas continuo. Aos trancos e barrancos, frequentemente deixando a peteca cair, mas nunca desistindo.
No primeiro episódio de um famoso seriado dos anos 70, Kung Fu, aparecia como o personagem principal fora aceito como discípulo no Templo Shaolin. Ele esperou sentado, de baixo de sol escaldante, de chuva congelante, com todo tipo de distração ao seu redor, os portões do templo se abrirem para ele. No fim, o grande mestre o aceitou. Acho que, de uma forma ou de outra, todos aqueles que seguem uma arte marcial passam por similar calvário: cansaço, humilhação, sensação de poder estar em um lugar mais divertido. É aí que muitos viram suas costas e voltam para o mundo; permanecem apenas aqueles que não buscam apenas novas sensações, mas um sentido novo para suas vidas. No meu caso, a espera era uma aparente humilhação. Mas logo que se vence este obstáculo, o despeito transforma-se em respeito contido, uma verdadeira admiração do professor pela persistência de continuarmos treinando, apesar do cansaço e do deboche.
Pode não ser uma coisa consciente, mas acho que, por mais que sejam os 70 inconstantes que coloquem comida na mesa do meu antigo professor, são os outros 30 que o mantém dando aula – e que nos tornemos parte destes 30 é o que ele busca que nos tornemos. E eu sou um deles. Pelo menos até o momento.
Foi um treino bem mais curto do que estou acostumado – uma hora, contra uma hora e meia de sempre em Porto Alegre. Fiquei com uma sensação de faltar alguma coisa, como mais tempo para fazer técnicas, e uma parte física completa. Não pense o leitor, porém, que não me cansei: repetir o mesmo chute ad nauseam é mais cansativo do que lembrava.
Com este pequeno desvio de rota, pude treinar com supervisão e revisar algumas técnicas que me deixavam em dúvida. Entretanto, não foi essa a grande vantagem do treino de sexta.
Pude relembrar como as coisas eram quando comecei a treinar Kung Fu. Refiro-me tanto à academia, como local de treino e socialização, quanto a mim mesmo, e a meu professor. Ele parece ter uma tendência a pegar mais pesado com os novos, não fisicamente (até por que, para quem está recém começando a treinar, qualquer coisa física é pesada), mas verbalmente. Um advogado poderia dizer que ele quase agride psicologicamente os faixas brancas. Quando eu próprio era um deles, tinha que ouvir todos os treinos algo como “tá horrível!”, “credo!” ou o clássico “pensa numa coisa horrível, e multiplica por 10: é isso aí o que tu fez agora”.
Não tenho muita certeza dos números, mas acredito que na academia em Caxias, haja em torno de 100 alunos. Desses, 70 são alunos passionais – começaram a treinar, mas dificilmente irão passar da faixa branca ou irão muito longe na faixa amarela. Os outros 30 são um núcleo duro, que treina há pelo menos três anos. Entrei para o Kung Fu em 2003, e devo dizer que, dos muitos que posso considerar sendo da “minha turma”, eu era o pior em muitos aspectos: demorava para entender as técnicas, facilmente divagava ou conversava com outros durante o treino, retrucava o que o professor dizia, e fui o que mais demorou para trocar de faixa (além de ter dado um pequeno vexame no exame). Mas sou o único que continua treinando até hoje. Não quero diminuir o valor dos colegas que desistiram – provavelmente tiveram bons motivos para tanto. Mas definitivamente, eu era um “azarão”, e continuei treinando sabe-se lá por que. Mas continuo. Aos trancos e barrancos, frequentemente deixando a peteca cair, mas nunca desistindo.
No primeiro episódio de um famoso seriado dos anos 70, Kung Fu, aparecia como o personagem principal fora aceito como discípulo no Templo Shaolin. Ele esperou sentado, de baixo de sol escaldante, de chuva congelante, com todo tipo de distração ao seu redor, os portões do templo se abrirem para ele. No fim, o grande mestre o aceitou. Acho que, de uma forma ou de outra, todos aqueles que seguem uma arte marcial passam por similar calvário: cansaço, humilhação, sensação de poder estar em um lugar mais divertido. É aí que muitos viram suas costas e voltam para o mundo; permanecem apenas aqueles que não buscam apenas novas sensações, mas um sentido novo para suas vidas. No meu caso, a espera era uma aparente humilhação. Mas logo que se vence este obstáculo, o despeito transforma-se em respeito contido, uma verdadeira admiração do professor pela persistência de continuarmos treinando, apesar do cansaço e do deboche.
Pode não ser uma coisa consciente, mas acho que, por mais que sejam os 70 inconstantes que coloquem comida na mesa do meu antigo professor, são os outros 30 que o mantém dando aula – e que nos tornemos parte destes 30 é o que ele busca que nos tornemos. E eu sou um deles. Pelo menos até o momento.
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sexta-feira, 9 de maio de 2008
Nota para a próxima vinda para Caxias
Copiar para o pendrive os textos escritos pela metade para o blog.
Vida Dura (Parte 10)
Como estudante universitário, eu preciso ler muito. Muito. Muito. Se leio duas horas em um dia acho pouco. E o que leio geralmente se divide entre livros e xerox. Os livros eu trago de casa, consigo emprestado de algum amigo ou pego na biblioteca (1). Com os polígrafos (nome bonito para xerox) a coisa é um pouco diferente. Os professores passam muito conteúdo (mas discutem sempre a mesma merda), e disponibilizam fotocópias de seus livros em pastas no infame “Ponto das Capas”, o xerox mais importante do Campus Saúde – é lá que professores da FABICO, Medicina, Farmácia, Enfermagem e Psicologia deixam os materiais para os alunos.
Apesar de serem quantitativamente iguais, livros e polígrafos são qualitativamente diferentes. Se eu saio com um livro como “Vigiar e Punir” ou “O Erro de Descartes” de baixo do braço na rua e faço uma cara séria, quem olhar para mim vai pensar “nossa, como é intelectual”. Agora, se eu tirar um xerox destes mesmos livros e sair com ele a tiracolo na rua, as pessoas vão pensar na melhor das hipóteses “o que esse cara tá fazendo com esse monte de papel grampeado?”, e na pior “esse infrator das leis dos direitos autorais e assassino de árvores!” Como diria uma amiga minha, “é soda”.
Fotocopiar livros é infração da lei, mas ninguém ali parece se importar – é mais fácil para os professores, que não precisam emprestar livros (ou consegui-los para a biblioteca), e os alunos se conformam. Vai ver que é assim por que a Brigada Militar não tem jurisdição em território federal, e não pode fazer batida ali dentro (na PUCRS são outros quinhentos).
E xerox é um gasto violento para nós, futuros psicólogos. Temos uma overdose de teoria nos primeiros semestres, o que nos obriga a ler feito condenados, e portanto, somos reféns do xerox. Os caras que trabalham lá já chamam a gente pelo nome, de tanto que ficamos lá, deixando nosso dinheiro se esvair.
Esse semestre poupei bastante dinheiro, pois verifiquei a bibliografia das cadeiras, e vi em casa se não tinha nenhum que se aproveitasse. Consegui uns cinco ou seis livros. Ainda assim, gasto pelo menos 30 reais por mês. Ainda bem que não pago mensalidade, caso contrário estaria fodido.
Apesar de serem quantitativamente iguais, livros e polígrafos são qualitativamente diferentes. Se eu saio com um livro como “Vigiar e Punir” ou “O Erro de Descartes” de baixo do braço na rua e faço uma cara séria, quem olhar para mim vai pensar “nossa, como é intelectual”. Agora, se eu tirar um xerox destes mesmos livros e sair com ele a tiracolo na rua, as pessoas vão pensar na melhor das hipóteses “o que esse cara tá fazendo com esse monte de papel grampeado?”, e na pior “esse infrator das leis dos direitos autorais e assassino de árvores!” Como diria uma amiga minha, “é soda”.
Fotocopiar livros é infração da lei, mas ninguém ali parece se importar – é mais fácil para os professores, que não precisam emprestar livros (ou consegui-los para a biblioteca), e os alunos se conformam. Vai ver que é assim por que a Brigada Militar não tem jurisdição em território federal, e não pode fazer batida ali dentro (na PUCRS são outros quinhentos).
E xerox é um gasto violento para nós, futuros psicólogos. Temos uma overdose de teoria nos primeiros semestres, o que nos obriga a ler feito condenados, e portanto, somos reféns do xerox. Os caras que trabalham lá já chamam a gente pelo nome, de tanto que ficamos lá, deixando nosso dinheiro se esvair.
Esse semestre poupei bastante dinheiro, pois verifiquei a bibliografia das cadeiras, e vi em casa se não tinha nenhum que se aproveitasse. Consegui uns cinco ou seis livros. Ainda assim, gasto pelo menos 30 reais por mês. Ainda bem que não pago mensalidade, caso contrário estaria fodido.
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
Livre-Arbítrio
No jornal “Folha de São Paulo”, há uma coluna semanal escrita por um cidadão chamado Hélio Schwartsman. Gosto muito das coisas que ele escreve e da forma como ele escreve. Ainda assim, sinto-me autorizado a discordar dele de vez em quando.
Em sua última coluna publicada, “O não tão Livre Arbítrio”, ele afirma que as pesquisas no campo das neurociências vem confirmando que o conceito de Livre Arbítrio é meramente uma ilusão necessária para nossa vida mental. Como já disse anteriormente, gosto muito das pesquisas no campo das neurociências, e duvido que Schwartsman escreveria abobrinhas infundadas em sua coluna.
No parágrafo em que afirma isto, ele cita algumas pesquisas importantes, demonstrou que a atividade cerebral inconsciente que faz alguém mover o braço, por exemplo, precede em pelo menos meio segundo a "decisão consciente" de mexer o braço. Entretanto, acredito que não possamos confirmar ou negar a existência da Vontade apenas em pesquisas relativamente simples do funcionamento neuronal.
Corro o risco de cair em um poço de sofismas ao tratar deste assunto, mas arrisco-me ainda assim. Se não temos livre arbítrio, por que pensamos em tal coisa? Por que cogitamos se somos capazes de decidir nossa vida por nós mesmos, ou se já temos um destino traçado, seja nos genes ou nas estrelas? Parece-me que, por mais presos que estejamos aos átomos, ao nosso corpo, ao nosso ambiente, à conjunção de Júpiter com Capricórnio, à Deus ou à Força, ainda retemos algum grau de liberdade.
Outra coisa que fico pensando é sobre o valor da vida humana. De que adianta viver se não posso decidir o que farei de minha vida e como o farei? Um determinista poderia muito bem me responder que estas dúvidas são perfeitamente previsíveis, e que depois de um período X de tempo, eu voltarei ao meu estado mental normal, ou que é necessário que tenhamos uma ilusão de liberdade para que possamos viver satisfeitos com a vida. Mas este último argumento seria uma validação da liberdade humana.
Acredito que exista livre arbítrio, sinceramente. Só sou incapaz de definir o que ele vem a ser. Talvez não sejamos tão livres assim para decidir se queremos comer doce de Cosme Damião (ou ganhar a bola de Natal, sei lá), mas sejamos livres para dar um rumo para nossas vidas. Ou talvez, a liberdade seja realmente um “presente de Deus”, que nos permite decidir nosso destino (em parte, devo dizer), mas que, entretanto, não o usemos a maior parte do tempo, por estarmos demasiadamente influenciados pelas forças à nós externas.
Liberdade talvez seja, em última análise, nossa capacidade de admitir nossos limites, de que não somos tão poderosos quando gostaríamos ou imaginamos (aquela “ilusão necessária”). Só com este conhecimento, seríamos capazes de transcender a nós mesmos e ser realmente livres.
Mas eu não sei.
Em sua última coluna publicada, “O não tão Livre Arbítrio”, ele afirma que as pesquisas no campo das neurociências vem confirmando que o conceito de Livre Arbítrio é meramente uma ilusão necessária para nossa vida mental. Como já disse anteriormente, gosto muito das pesquisas no campo das neurociências, e duvido que Schwartsman escreveria abobrinhas infundadas em sua coluna.
No parágrafo em que afirma isto, ele cita algumas pesquisas importantes, demonstrou que a atividade cerebral inconsciente que faz alguém mover o braço, por exemplo, precede em pelo menos meio segundo a "decisão consciente" de mexer o braço. Entretanto, acredito que não possamos confirmar ou negar a existência da Vontade apenas em pesquisas relativamente simples do funcionamento neuronal.
Corro o risco de cair em um poço de sofismas ao tratar deste assunto, mas arrisco-me ainda assim. Se não temos livre arbítrio, por que pensamos em tal coisa? Por que cogitamos se somos capazes de decidir nossa vida por nós mesmos, ou se já temos um destino traçado, seja nos genes ou nas estrelas? Parece-me que, por mais presos que estejamos aos átomos, ao nosso corpo, ao nosso ambiente, à conjunção de Júpiter com Capricórnio, à Deus ou à Força, ainda retemos algum grau de liberdade.
Outra coisa que fico pensando é sobre o valor da vida humana. De que adianta viver se não posso decidir o que farei de minha vida e como o farei? Um determinista poderia muito bem me responder que estas dúvidas são perfeitamente previsíveis, e que depois de um período X de tempo, eu voltarei ao meu estado mental normal, ou que é necessário que tenhamos uma ilusão de liberdade para que possamos viver satisfeitos com a vida. Mas este último argumento seria uma validação da liberdade humana.
Acredito que exista livre arbítrio, sinceramente. Só sou incapaz de definir o que ele vem a ser. Talvez não sejamos tão livres assim para decidir se queremos comer doce de Cosme Damião (ou ganhar a bola de Natal, sei lá), mas sejamos livres para dar um rumo para nossas vidas. Ou talvez, a liberdade seja realmente um “presente de Deus”, que nos permite decidir nosso destino (em parte, devo dizer), mas que, entretanto, não o usemos a maior parte do tempo, por estarmos demasiadamente influenciados pelas forças à nós externas.
Liberdade talvez seja, em última análise, nossa capacidade de admitir nossos limites, de que não somos tão poderosos quando gostaríamos ou imaginamos (aquela “ilusão necessária”). Só com este conhecimento, seríamos capazes de transcender a nós mesmos e ser realmente livres.
Mas eu não sei.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Eu e a Educação
Até 1968, as Faculdades de Filosofia dominavam a produção do conhecimento. Na UFRGS, a Faculdade de Filosofia era responsável por 16 cursos de graduação, desde Química até Letras. E como dizia Foucault, o saber e o poder andam lado a lado (1).
Por isso, em 1968, o governo militar impôs a reforma universitária, que alterou toda a forma como as universidades se estruturaram: substituíram as antigas cátedras pelos departamentos, dividiram os cursos de graduação entre diversas unidades orgânicas (1), e com isso, fizeram da filosofia um instituto qualquer. O objetivo dos generais era enfraquecer um possível núcleo golpista, e para sedimentar seus poderes sobre a Academia, criaram as Faculdades de Educação como novos centros de irradiação de poder.
Não sei se os militares atingiram todos os seus objetivos com esta reforma, mas acredito que pelo menos em parte o fizeram: a FACED tem uma das melhores bibliotecas da universidade, vários alunos de vários cursos de graduação têm aulas lá, e muitos professores de muitas áreas distintas são especialistas em Educação, e estão intimamente ligados com os facedianos. A Psicologia é uma delas.
Sinceramente, sempre tive uma certa birra com educação. Não com a Educação, mas com a educação formal que tive. E eu tive educação formal desde pelo menos os 6 anos de idade, quando entrei na 1ª Série do Ensino Fundamental. Já falei disso antes, quando reclamei de algumas aulas da faculdade, mas falei um tanto quanto superficialmente.
O que me deixa incomodado é a forma passiva como temos que aprender: o professor entra em sala, todos os alunos sentam e permanecem quietos, enquanto que o sábio mestre despeja seu conhecimento sobre nós, pobres ignorantes. Não há espaço para pensamento crítico, por mais que os professores digam que apreciem “livres pensadores” (3). Toda vez que uma voz solitária se levanta e questiona o professor de qualquer maneira, a resposta é rápida e rasteira. A mais clássica de todas é a pergunta “para que preciso aprender isto?”, que muitas vezes fiz durante muitas aulas. Quando fazia essa pergunta para minha professora de Biologia, ela dizia “por que cai no vestibular”; quando perguntava para meu professor de Filosofia, ele respondia “para que tu tenhas pensamento crítico”; quando perguntei para a psicóloga educacional do colégio por que tínhamos que ter aulas de italiano, ela me respondeu “na vida, às vezes temos que fazer coisas que não queremos fazer”.
São respostas válidas, mas que não estão à altura da pergunta feita. Por que alguém que não quer fazer vestibular, alguém que queira ser marceneiro, deve aprender sobre protozoários? Como se cria pensamento crítico aprendendo o que outra pessoa quer que eu aprenda? E eu tive que aprender italiano por que vocês querem? E por que os professores não se sujeitaram a nossa vontade, que não gostávamos e não aproveitávamos as aulas de italiano, e as tiraram do currículo?
Mais uma vez, volto à relação desigual entre professores e alunos. O nome “aluno” já diz muita coisa: vem do latim, e significa “sem luz”, esperando que algum sábio ilumine ou coisa assim. Os professores nunca teriam tirado italiano do currículo por que nós não gostávamos, por que eles sabiam o que era melhor para nós. Afinal de contas, o que pirralhos de 10 anos sabem sobre eles próprios? E como eles, que foram para a faculdade e estudaram poderiam estar errados? É inconcebível! Mesmo as piadas deles são melhores que as nossas. Lembro-me de uma aula de Biologia, em que a professora disse para a coordenadora, de forma nada sutil, que tínhamos espermatozóides na cabeça. Um colega meu retrucou, e deu uma risada cretina, meio mongolóide, para evidenciar quão sem graça a professora fora. A turma riu do gracejo, mas a professora ficou indignada, e o chamou de mal-educado. Ela pode dizer que a gente tem porra na cabeça, mas ai de quem inferir que ela é sem graça.
Na faculdade, esta relação tornou-se mais parelha, mas não muito. Isso fica óbvio já nas eleições para reitor, onde o voto dos estudantes tem peso 1, e dos professores peso 3 (4). Mas há coisas mais sutis – a famigerada chamada. A chamada é a maneira que os professores encontraram para achacar seus aluninhos a ficarem em aula ouvindo suas belas vozes. No Ensino Fundamental e no Ensino Médio elas são consideradas parte do processo de aprendizagem, tanto pelos adultos quanto pelas crianças. Mas no Ensino Superior, não existem crianças dóceis, apenas adultos, que não obedecem tão facilmente o que um indivíduo com giz na mão diz. Para que a lista de presença exerça influência sobre os estudantes, basta apenas o professor dizer no começo do semestre que faz chamada e que roda por falta de freqüência. Claro, dá para pegar a chamada e sair da sala logo em seguida (muito fiz isso), mas o professor pode ser murrinha, e fazer a chamada em horários alternados: às vezes no início da aula, às vezes durante a aula, às vezes no final da aula; ou fazer chamada duas vezes por aula e dar falta para quem pegou só a primeira. Ainda dá para driblar o sistema, mas torna-se muito mais prático (e cômodo) aceitar que a batalha está perdida e assistir as aulas (5).
Não gosto de aulas presenciais. Melhor dizendo, gosto mais de estudar por conta própria. A vantagem de estudar em uma faculdade é ter os professores a disposição para tirarem dúvidas, proporem desafios, darem idéias, e é impossível que tudo isso ocorra sem um tempo de lousa, giz, suor e até os famigerados power points. Mas acho que o equilíbrio se perde quando temos que assistir aulas das 13:30 até às 19:10. Tenho, em média, sete disciplinas obrigatórias por semestre. Com tudo isso, não dá tempo de fazer o que quero. Sim, o que EU quero, e não o que os professores querem. Eu sei o que me agrada, eu sei em que período do dia sou mais produtivo, eu sei como estudo melhor. Se disser isso para algum professor meu, ele provavelmente irá concordar. Entretanto, ele vai dizer que por um motivo ou outro não é possível por isto em prática. Os motivos alegados podem ir de que não estamos preparados, que o instituto não tem estrutura para isso, até que esta pedagogia poderia beneficiar certos professores, mas o que acho que é verdade nunca seria dito: os professores gostam de ter o poderzinho deles. Preferem ficar ouvindo suas belas vozes a orientar as mentes inquietas de seus alunos, como disse William James (meu herói).
Eu mato aulas, muito mais do que imaginava que iria matar no início da faculdade. Faço isso basicamente por princípios. Não vou pregar moral de cuecas, e dizer que nunca faltei aulas por preguiça ou para fazer algo que deveria ter feito antes – pelo contrário. Mas toda vez que não apareci na sala para fazer um trabalho, tinha em mente a quantidade absurda de horas-aula que tenho. E me indigno quando lembro do que um professor me disse quando reclamei da falta de tempo livre, que deveríamos maneirar nossas atividades “extracurriculares”. Nunca as curriculares.
O que eu realmente gostaria que fosse posto em prática, não só na faculdade, mas no Ensino Fundamental e Médio, é o Ensino Centrado no Estudante. Neste spin-off da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, o estudante é o responsável por sua aprendizagem e crescimento pessoal. Não é mero aluno, é estudante, que estuda ativamente. O professor e a escola estão lá, para apoiar o estudante, fornecer-lhe informação e orientação. Mas tal e qual Morpheus no filme “Matrix”, o professor apenas mostra a porta: quem a abre é o estudante. Me daria muito bem nesse sistema, pois poderia ler mais, discutir mais, escrever mais para o blog sobre o que aprendo por aí, ao invés de ter que perder horas e horas ouvindo o grasnar egocêntrico de muitos professores.
Mas a vida é injusta, então eu tenho que me virar com o que tenho.
------
(1) Conhecimento é diferente de saber para Foucault, mas este não é o lugar para falar disso (além do mais, estou com preguiça).
(2) Faculdades, Escolas e Institutos.
(3) Na realidade, eles apreciam os livres pensadores que concordam com eles.
(4) E dos funcionários, peso 2.
(5) Pode-se exercer resistência ainda assim, e ler qualquer porcaria no fundo da sala, conversar, trocar bilhetinhos ou simplesmente dormir.
Por isso, em 1968, o governo militar impôs a reforma universitária, que alterou toda a forma como as universidades se estruturaram: substituíram as antigas cátedras pelos departamentos, dividiram os cursos de graduação entre diversas unidades orgânicas (1), e com isso, fizeram da filosofia um instituto qualquer. O objetivo dos generais era enfraquecer um possível núcleo golpista, e para sedimentar seus poderes sobre a Academia, criaram as Faculdades de Educação como novos centros de irradiação de poder.
Não sei se os militares atingiram todos os seus objetivos com esta reforma, mas acredito que pelo menos em parte o fizeram: a FACED tem uma das melhores bibliotecas da universidade, vários alunos de vários cursos de graduação têm aulas lá, e muitos professores de muitas áreas distintas são especialistas em Educação, e estão intimamente ligados com os facedianos. A Psicologia é uma delas.
Sinceramente, sempre tive uma certa birra com educação. Não com a Educação, mas com a educação formal que tive. E eu tive educação formal desde pelo menos os 6 anos de idade, quando entrei na 1ª Série do Ensino Fundamental. Já falei disso antes, quando reclamei de algumas aulas da faculdade, mas falei um tanto quanto superficialmente.
O que me deixa incomodado é a forma passiva como temos que aprender: o professor entra em sala, todos os alunos sentam e permanecem quietos, enquanto que o sábio mestre despeja seu conhecimento sobre nós, pobres ignorantes. Não há espaço para pensamento crítico, por mais que os professores digam que apreciem “livres pensadores” (3). Toda vez que uma voz solitária se levanta e questiona o professor de qualquer maneira, a resposta é rápida e rasteira. A mais clássica de todas é a pergunta “para que preciso aprender isto?”, que muitas vezes fiz durante muitas aulas. Quando fazia essa pergunta para minha professora de Biologia, ela dizia “por que cai no vestibular”; quando perguntava para meu professor de Filosofia, ele respondia “para que tu tenhas pensamento crítico”; quando perguntei para a psicóloga educacional do colégio por que tínhamos que ter aulas de italiano, ela me respondeu “na vida, às vezes temos que fazer coisas que não queremos fazer”.
São respostas válidas, mas que não estão à altura da pergunta feita. Por que alguém que não quer fazer vestibular, alguém que queira ser marceneiro, deve aprender sobre protozoários? Como se cria pensamento crítico aprendendo o que outra pessoa quer que eu aprenda? E eu tive que aprender italiano por que vocês querem? E por que os professores não se sujeitaram a nossa vontade, que não gostávamos e não aproveitávamos as aulas de italiano, e as tiraram do currículo?
Mais uma vez, volto à relação desigual entre professores e alunos. O nome “aluno” já diz muita coisa: vem do latim, e significa “sem luz”, esperando que algum sábio ilumine ou coisa assim. Os professores nunca teriam tirado italiano do currículo por que nós não gostávamos, por que eles sabiam o que era melhor para nós. Afinal de contas, o que pirralhos de 10 anos sabem sobre eles próprios? E como eles, que foram para a faculdade e estudaram poderiam estar errados? É inconcebível! Mesmo as piadas deles são melhores que as nossas. Lembro-me de uma aula de Biologia, em que a professora disse para a coordenadora, de forma nada sutil, que tínhamos espermatozóides na cabeça. Um colega meu retrucou, e deu uma risada cretina, meio mongolóide, para evidenciar quão sem graça a professora fora. A turma riu do gracejo, mas a professora ficou indignada, e o chamou de mal-educado. Ela pode dizer que a gente tem porra na cabeça, mas ai de quem inferir que ela é sem graça.
Na faculdade, esta relação tornou-se mais parelha, mas não muito. Isso fica óbvio já nas eleições para reitor, onde o voto dos estudantes tem peso 1, e dos professores peso 3 (4). Mas há coisas mais sutis – a famigerada chamada. A chamada é a maneira que os professores encontraram para achacar seus aluninhos a ficarem em aula ouvindo suas belas vozes. No Ensino Fundamental e no Ensino Médio elas são consideradas parte do processo de aprendizagem, tanto pelos adultos quanto pelas crianças. Mas no Ensino Superior, não existem crianças dóceis, apenas adultos, que não obedecem tão facilmente o que um indivíduo com giz na mão diz. Para que a lista de presença exerça influência sobre os estudantes, basta apenas o professor dizer no começo do semestre que faz chamada e que roda por falta de freqüência. Claro, dá para pegar a chamada e sair da sala logo em seguida (muito fiz isso), mas o professor pode ser murrinha, e fazer a chamada em horários alternados: às vezes no início da aula, às vezes durante a aula, às vezes no final da aula; ou fazer chamada duas vezes por aula e dar falta para quem pegou só a primeira. Ainda dá para driblar o sistema, mas torna-se muito mais prático (e cômodo) aceitar que a batalha está perdida e assistir as aulas (5).
Não gosto de aulas presenciais. Melhor dizendo, gosto mais de estudar por conta própria. A vantagem de estudar em uma faculdade é ter os professores a disposição para tirarem dúvidas, proporem desafios, darem idéias, e é impossível que tudo isso ocorra sem um tempo de lousa, giz, suor e até os famigerados power points. Mas acho que o equilíbrio se perde quando temos que assistir aulas das 13:30 até às 19:10. Tenho, em média, sete disciplinas obrigatórias por semestre. Com tudo isso, não dá tempo de fazer o que quero. Sim, o que EU quero, e não o que os professores querem. Eu sei o que me agrada, eu sei em que período do dia sou mais produtivo, eu sei como estudo melhor. Se disser isso para algum professor meu, ele provavelmente irá concordar. Entretanto, ele vai dizer que por um motivo ou outro não é possível por isto em prática. Os motivos alegados podem ir de que não estamos preparados, que o instituto não tem estrutura para isso, até que esta pedagogia poderia beneficiar certos professores, mas o que acho que é verdade nunca seria dito: os professores gostam de ter o poderzinho deles. Preferem ficar ouvindo suas belas vozes a orientar as mentes inquietas de seus alunos, como disse William James (meu herói).
Eu mato aulas, muito mais do que imaginava que iria matar no início da faculdade. Faço isso basicamente por princípios. Não vou pregar moral de cuecas, e dizer que nunca faltei aulas por preguiça ou para fazer algo que deveria ter feito antes – pelo contrário. Mas toda vez que não apareci na sala para fazer um trabalho, tinha em mente a quantidade absurda de horas-aula que tenho. E me indigno quando lembro do que um professor me disse quando reclamei da falta de tempo livre, que deveríamos maneirar nossas atividades “extracurriculares”. Nunca as curriculares.
O que eu realmente gostaria que fosse posto em prática, não só na faculdade, mas no Ensino Fundamental e Médio, é o Ensino Centrado no Estudante. Neste spin-off da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, o estudante é o responsável por sua aprendizagem e crescimento pessoal. Não é mero aluno, é estudante, que estuda ativamente. O professor e a escola estão lá, para apoiar o estudante, fornecer-lhe informação e orientação. Mas tal e qual Morpheus no filme “Matrix”, o professor apenas mostra a porta: quem a abre é o estudante. Me daria muito bem nesse sistema, pois poderia ler mais, discutir mais, escrever mais para o blog sobre o que aprendo por aí, ao invés de ter que perder horas e horas ouvindo o grasnar egocêntrico de muitos professores.
Mas a vida é injusta, então eu tenho que me virar com o que tenho.
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(1) Conhecimento é diferente de saber para Foucault, mas este não é o lugar para falar disso (além do mais, estou com preguiça).
(2) Faculdades, Escolas e Institutos.
(3) Na realidade, eles apreciam os livres pensadores que concordam com eles.
(4) E dos funcionários, peso 2.
(5) Pode-se exercer resistência ainda assim, e ler qualquer porcaria no fundo da sala, conversar, trocar bilhetinhos ou simplesmente dormir.
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Eu e a Filosofia
Certa vez no meu terceiro ano, durante uma daquelas visitas de dono de cursinho para angariar mais alunos, disse que queria fazer Filosofia por que era mais fácil de passar no vestibular. Como um bom chiste freudiano, tinha seu fundo de verdade. O camarada do Mutirão (ou qualquer outro por aí) disse, um tanto quanto desconcertado pela bobagem que eu tinha proferido, que era importante termos pessoas sendo pagas para pensar nos problemas do mundo (1).
Entretanto, tive a sorte de adiar meu confronto com o demônio Vestibular que guarda a porta para a casa da Grande Mãe UFRGS, ir para os Estados Unidos e nem ao menos ter que pensar em estudar Química. Foi lá que decidi fazer Psicologia (2).
E na faculdade, aprendo que é impossível separar Filosofia de Psicologia, não só historicamente, mas epistemológica e tecnicamente. “Uma vida não refletida é uma vida indigna de ser vivida” dizia Sócrates há quase três mil anos atrás (3). Até hoje suas palavras ecoam pelas universidades, pelos bares de esquina e por qualquer lugar onde se estude a vida humana.
Para trabalhar com engenharia, não precisa cursar os 5 anos de faculdade e conquistar um diploma que garanta seu título de Engenheiro. Basta fazer um curso de tecnólogo, e em 2 anos começar a trabalhar na área (4). Em um curso como Psicologia (e Filosofia também) isso não é possível. A diferença entre um tecnólogo e um bacharel está no que lhes é ensinado. Enquanto que o primeiro aprende apenas as técnicas essenciais para sua profissão (fazer cimento, por exemplo), ao bacharel é ensinado tudo que é possível apreender sobre a profissão, o código de conduta do profissional, a filosofia por trás do que lhe é ensinado, além das técnicas básicas. Não entendo muito de construção civil, mas a maneira como eu precedo para construir uma parede ou uma estrada é basicamente a mesma. Certamente há muitas variáveis, como o material a ser empregado, o local onde construir, o tipo de solo do local, o clima, entre outras coisas que não sou capaz de pensar, mas o procedimento é sempre o mesmo. Não é necessário ler a filosofia de Pitágoras para construir uma ponte.
O mesmo não é válido para um emprego onde se lida diretamente com seres humanos (5), como psicoterapia. Posso sempre utilizar associação livre com meus pacientes? Ou Condicionamento Operante? Ou Intenção Paradoxal? A resposta para todas estas perguntas é não. Para aplicar uma técnica de psicoterapia, é necessário conhecer suas bases epistemológicas (6), a filosofia por trás dela, para então aplicá-la. A associação livre é uma técnica psicanalítica, uma teoria que parte do pressuposto que os seres humanos são determinados por seus conteúdos mentais inconscientes; o Condicionamento Operante foi desenvolvido por B.F. Skinner e seus amigos behavioristas radicais, que acreditavam que livre arbítrio é um mito, e que o ser humano é uma máquina de reagir a estímulos; e a Intenção Paradoxal, por outro lado, foi desenvolvida por Viktor Frankl, teórico da Logoterapia, que acreditava firmemente na capacidade dos seres humanos de determinarem seus estilos de vida (7), e é utilizada pelos terapeutas cognitivo-comportamentais de hoje em dia. Não estou dizendo que devemos nos manter dentro de nossos cercadinhos teóricos, fazendo apenas o que nos foi ensinado – pelo contrário, devemos buscar mais coisas de outros campos e teorias. Apenas precisamos ter o bom senso de adaptar, tanto as técnicas quanto a nós mesmos. Um behaviorista radical pode muito bem utilizar em uma terapia a Intenção Paradoxal, mas ele já não será mais um behaviorista radical – só na formação.
Eu poderia muito bem ter entrado para o curso de Filosofia. De fato, a Psicologia tomou para si a função que antigamente era exclusiva da Filosofia, que é a compreensão do ser humano como tal. O campo da Personologia, os estudos da Personalidade, é o mais próximo da Filosofia que temos. Muitos filósofos de antigamente podem ser considerados como psicólogos da personalidade. Entretanto, acho que, por mais que fosse gostar da faculdade, ainda prefiro a Psicologia, por não ser apenas teórica (apesar da teoria ser preponderante), mas por ter uma parte prática muito sólida. Algumas coisas em Filosofia pouco me interessam, como as concepções cosmológicas ultrapassadas de Aristóteles, Pitágoras e Demócrito (8), até por que o ser humano é muito mais intrigante que as distantes estrelas.
O que Sócrates dizia há 3 mil anos atrás continua válido – viver sem saber o que se está vivendo é perda de tempo. Muitas filosofias e linhas terapêuticas buscam que as pessoas tomem consciência do que fazem e por que o fazem: a Psicanálise e os insights sobre o Inconsciente, a Terapia Cognitiva com a Psicoeducação, a Gestalt-Terapia com a Awareness. Uma das críticas feitas à Psicologia e à Filosofia é que, se Platão ou Sócrates aparecessem hoje em dia, eles não seriam capazes de entender um livro sobre Física Quântica (9), mas seriam perfeitamente capazes de entender um livro de Personalidade e Antropologia Filosófica (10). Mas desde a Grécia Antiga até hoje, ainda somos a mesma espécie: dois olhos, duas orelhas, uma boca, um estômago, um coração, e, apesar de vivermos em uma cultura completamente diferente, as mesmas angústias: quem sou eu? Por que estou aqui? O que devo fazer de minha vida? É falacioso dizer que estas duas disciplinas não mudaram em 3 mil anos – obviamente progrediram. Mas seu núcleo continua o mesmo. E isso provavelmente continuará por muito tempo depois de nosso tempo.
------
(1) Aqui no Brasil, filósofo é, parafraseando André Dahmer, mais um cidadão com ensino superior completo destinado a vender salgadinhos na praia. Nos Estados Unidos, existem os “Think Tanks” – Tanques Pensantes, numa tradução livre, que fazem justamente isso: são pagos para pensar de forma avassaladora sobre questões relevantes como aborto, guerra e outras porcarias mais.
(2) Que vem a ser um curso bem mais concorrido do que Filosofia. No meu ano, havia 23,55 candidatos por vaga para Psicologia, contra 5,15 para Filosofia. Minha preguiça era retórica.
(3) Pode-se argumentar que “ignorância é uma benção”, mas isto está aberto para questionamentos futuros.
(4) Com suas devidas restrições. Tecnólogos em engenharia civil, por exemplo, não podem assinar plantas, nem serem responsáveis por uma construção: precisam ser supervisionados por um Engenheiro – esse sim, passou 5 anos ralando na faculdade pra conseguir diploma.
(5) OK, engenheiros têm que lidar com os peões da obra, os chefes da construtora e quem mandou construir a obra. Mas duvido que ensinem esse tipo de coisa na faculdade para eles.
(6) Epistemologia é o ramo da Filosofia que reflete sobre a natureza do conhecimento, e por conseqüência, os métodos de pesquisa e de aplicação prática.
(7) Mas não determinarem seus destinos, o que é bem diferente.
(8) Não quero diminuir a contribuição destes distintos homens para a Astrofísica, contudo.
(9) Não de cara, pelo menos. Estudando vai.
(10) Nesse aspecto, os pós-modernistas realmente foram um progresso para a Humanidade.
Entretanto, tive a sorte de adiar meu confronto com o demônio Vestibular que guarda a porta para a casa da Grande Mãe UFRGS, ir para os Estados Unidos e nem ao menos ter que pensar em estudar Química. Foi lá que decidi fazer Psicologia (2).
E na faculdade, aprendo que é impossível separar Filosofia de Psicologia, não só historicamente, mas epistemológica e tecnicamente. “Uma vida não refletida é uma vida indigna de ser vivida” dizia Sócrates há quase três mil anos atrás (3). Até hoje suas palavras ecoam pelas universidades, pelos bares de esquina e por qualquer lugar onde se estude a vida humana.
Para trabalhar com engenharia, não precisa cursar os 5 anos de faculdade e conquistar um diploma que garanta seu título de Engenheiro. Basta fazer um curso de tecnólogo, e em 2 anos começar a trabalhar na área (4). Em um curso como Psicologia (e Filosofia também) isso não é possível. A diferença entre um tecnólogo e um bacharel está no que lhes é ensinado. Enquanto que o primeiro aprende apenas as técnicas essenciais para sua profissão (fazer cimento, por exemplo), ao bacharel é ensinado tudo que é possível apreender sobre a profissão, o código de conduta do profissional, a filosofia por trás do que lhe é ensinado, além das técnicas básicas. Não entendo muito de construção civil, mas a maneira como eu precedo para construir uma parede ou uma estrada é basicamente a mesma. Certamente há muitas variáveis, como o material a ser empregado, o local onde construir, o tipo de solo do local, o clima, entre outras coisas que não sou capaz de pensar, mas o procedimento é sempre o mesmo. Não é necessário ler a filosofia de Pitágoras para construir uma ponte.
O mesmo não é válido para um emprego onde se lida diretamente com seres humanos (5), como psicoterapia. Posso sempre utilizar associação livre com meus pacientes? Ou Condicionamento Operante? Ou Intenção Paradoxal? A resposta para todas estas perguntas é não. Para aplicar uma técnica de psicoterapia, é necessário conhecer suas bases epistemológicas (6), a filosofia por trás dela, para então aplicá-la. A associação livre é uma técnica psicanalítica, uma teoria que parte do pressuposto que os seres humanos são determinados por seus conteúdos mentais inconscientes; o Condicionamento Operante foi desenvolvido por B.F. Skinner e seus amigos behavioristas radicais, que acreditavam que livre arbítrio é um mito, e que o ser humano é uma máquina de reagir a estímulos; e a Intenção Paradoxal, por outro lado, foi desenvolvida por Viktor Frankl, teórico da Logoterapia, que acreditava firmemente na capacidade dos seres humanos de determinarem seus estilos de vida (7), e é utilizada pelos terapeutas cognitivo-comportamentais de hoje em dia. Não estou dizendo que devemos nos manter dentro de nossos cercadinhos teóricos, fazendo apenas o que nos foi ensinado – pelo contrário, devemos buscar mais coisas de outros campos e teorias. Apenas precisamos ter o bom senso de adaptar, tanto as técnicas quanto a nós mesmos. Um behaviorista radical pode muito bem utilizar em uma terapia a Intenção Paradoxal, mas ele já não será mais um behaviorista radical – só na formação.
Eu poderia muito bem ter entrado para o curso de Filosofia. De fato, a Psicologia tomou para si a função que antigamente era exclusiva da Filosofia, que é a compreensão do ser humano como tal. O campo da Personologia, os estudos da Personalidade, é o mais próximo da Filosofia que temos. Muitos filósofos de antigamente podem ser considerados como psicólogos da personalidade. Entretanto, acho que, por mais que fosse gostar da faculdade, ainda prefiro a Psicologia, por não ser apenas teórica (apesar da teoria ser preponderante), mas por ter uma parte prática muito sólida. Algumas coisas em Filosofia pouco me interessam, como as concepções cosmológicas ultrapassadas de Aristóteles, Pitágoras e Demócrito (8), até por que o ser humano é muito mais intrigante que as distantes estrelas.
O que Sócrates dizia há 3 mil anos atrás continua válido – viver sem saber o que se está vivendo é perda de tempo. Muitas filosofias e linhas terapêuticas buscam que as pessoas tomem consciência do que fazem e por que o fazem: a Psicanálise e os insights sobre o Inconsciente, a Terapia Cognitiva com a Psicoeducação, a Gestalt-Terapia com a Awareness. Uma das críticas feitas à Psicologia e à Filosofia é que, se Platão ou Sócrates aparecessem hoje em dia, eles não seriam capazes de entender um livro sobre Física Quântica (9), mas seriam perfeitamente capazes de entender um livro de Personalidade e Antropologia Filosófica (10). Mas desde a Grécia Antiga até hoje, ainda somos a mesma espécie: dois olhos, duas orelhas, uma boca, um estômago, um coração, e, apesar de vivermos em uma cultura completamente diferente, as mesmas angústias: quem sou eu? Por que estou aqui? O que devo fazer de minha vida? É falacioso dizer que estas duas disciplinas não mudaram em 3 mil anos – obviamente progrediram. Mas seu núcleo continua o mesmo. E isso provavelmente continuará por muito tempo depois de nosso tempo.
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(1) Aqui no Brasil, filósofo é, parafraseando André Dahmer, mais um cidadão com ensino superior completo destinado a vender salgadinhos na praia. Nos Estados Unidos, existem os “Think Tanks” – Tanques Pensantes, numa tradução livre, que fazem justamente isso: são pagos para pensar de forma avassaladora sobre questões relevantes como aborto, guerra e outras porcarias mais.
(2) Que vem a ser um curso bem mais concorrido do que Filosofia. No meu ano, havia 23,55 candidatos por vaga para Psicologia, contra 5,15 para Filosofia. Minha preguiça era retórica.
(3) Pode-se argumentar que “ignorância é uma benção”, mas isto está aberto para questionamentos futuros.
(4) Com suas devidas restrições. Tecnólogos em engenharia civil, por exemplo, não podem assinar plantas, nem serem responsáveis por uma construção: precisam ser supervisionados por um Engenheiro – esse sim, passou 5 anos ralando na faculdade pra conseguir diploma.
(5) OK, engenheiros têm que lidar com os peões da obra, os chefes da construtora e quem mandou construir a obra. Mas duvido que ensinem esse tipo de coisa na faculdade para eles.
(6) Epistemologia é o ramo da Filosofia que reflete sobre a natureza do conhecimento, e por conseqüência, os métodos de pesquisa e de aplicação prática.
(7) Mas não determinarem seus destinos, o que é bem diferente.
(8) Não quero diminuir a contribuição destes distintos homens para a Astrofísica, contudo.
(9) Não de cara, pelo menos. Estudando vai.
(10) Nesse aspecto, os pós-modernistas realmente foram um progresso para a Humanidade.
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segunda-feira, 5 de maio de 2008
Mande notícias do mundo de lá...
Cheguei ontem em casa do Encontro Regional de Estudantes de Psicologia do Sul (EREP-Sul). Atualizarei o blog novamente assim que puder.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
A Cultura Urguiana
Acho engraçado como dentro de uma mesma cidade, por divisões meramente burocráticas, criam-se subculturas diferenciadas. A UFRGS é um caso típico deste fenômeno. Como muitas pessoas, sejam elas funcionários, estudantes ou professores, passam longos períodos de tempo dentro da universidade (como eu, que tenho dias que entro às 9 da manhã e saio às 19:10), acaba-se criando um dialeto, um folclore e práticas próprias.
A prática mais visível é a de descascar laranja com a colher no RU. Ninguém sabe quem inventou essa prática nem quando, mas sabe-se que foi por causa das facas ruins do amado bistrô, que mal e parcamente cortam a carne oferecida (1). Outro hábito comum a todos os estudantes da UFRGS é falar mal do RU – pode ser que não exista comida mais deliciosa no mundo que a comida subsidiada que comemos, mas mesmo assim, xingamo-la sem dó (talvez seja aí que resida todo o seu sabor). Comparar a comida dos 4 restaurantes que temos por aí é outra prática comum, e nunca se chega a um consenso de qual restaurante é o melhor (falei mais disso num post mais antigo). Mas há outros hábitos mais sutis.
Um desses hábitos é a nomenclatura. Dentro da UFRGS, há muitas unidades orgânicas e departamentos diferentes. Como vários tem nomes compridos demais, é comum falar apenas suas siglas. A Faculdade de Medicina vira a FAMED, a Faculdade de Educação vira FACED, e a Faculdade de Farmácia vira FACFAR. O Instituto de Ciências Básicas da Saúde é chamado apenas de ICBS, e o Instituto de Biociências vira o Biociências, ou simplesmente o “Bio” (2). E vai mais longe do que isso: lembro-me do meu colega Filósofo (assim chamado por ser formado em Filosofia), quando falávamos das loucuras que tínhamos que ver em aula, falar que os facedianos faziam a mesma coisa.
Estes nomes e siglas são óbvios para quem está dentro da UFRGS, mas para pessoas externas, devemos ter um pouco de senso comum, e falar o nome por extenso dos locais e das unidades. Em certos casos, devemos ser ainda mais específicos, e falar o que o tal departamento faz. Quando falo na Faculdade de Medicina, fica bem claro o que quero dizer. Mas quando falo no Instituto de Ciências Básicas da Saúde não. Nesse caso, eu preciso dizer “o instituto onde temos aulas práticas de anatomia e fisiologia” para que tudo fique claro. O próprio RU precisa ser explicado às vezes como sendo o Restaurante Universitário. O RU!
Há diferenças entre os diversos campi da universidade, tanto que é possível dizer que existem pelo menos 4 universidades diferentes dentro da própria UFRGS, sem contar o Instituto de Artes (devidamente chamado de IA), a Escola de Administração, as Faculdades de Agronomia e Veterinária, o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (mais conhecido como IPH) e o Ceclimar em Imbé. Contando todos estes, temos 10 UFRGS diferentes.
Já falei dessas diferenças de maneira jocosa anteriormente, mas não me aprofundei muito (até por que meu intuito era avacalhar, não fazer uma análise sociológica). Não posso afirmar nada, até por que o que sei é baseado no senso comum dos estudantes e no que pude observar de forma não sistemática, mas algumas diferenciações são possíveis de serem feitas. Por exemplo, os estudantes dos cursos do Campus do Vale são muito mais sociáveis e metidos em revoluções semanais do que os estudantes do Campus Saúde (meu campus), devido à configuração geográfica dos prédios – no Vale, os prédios dos diferentes cursos são próximos, enquanto que no Saúde tem grade para tudo quanto é lado. Mesmo entre cursos no mesmo campus as diferenças existem. Uma das mais gritantes que vejo é entre a Psicologia e os estudantes da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação – FABICO, de agora em diante chamados de Fabicanos. Nós na Psicologia somos muito mais propensos a refletir sobre as questões que nos envolvem, enquanto que os fabicanos têm uma tendência muito maior de fazer passeatas e invadir reitorias (especialmente os da Comunicação, que dominam a atual gestão do DCE). Não estou dizendo que isto é bom ou ruim, apenas que é diferente.
Também cria-se um folclore diferente de acordo com o campus. No Vale, há o infame Tio da Pastilha, que aborda todos os que ali estudam, dizendo “vai uma balinha pra ajudar o amigo?” (nem eu escapei de ouvir essa infame questão). Tão famoso é o cidadão que fizeram uma camiseta com os dizeres “EU NÃO QUERO A DROGA DA PASTILHA!” (3). Na Escola de Engenharia, há a lenda viva de Klaus, o viking, que há mais de 12 anos faz as cadeiras de cálculo, e suas eventuais incursões por outros cursos da UFRGS (ano passado ele começou a vir para as aulas de Fisiologia da Psicologia. Sim, foi meu colega, e é uma figura).
A maior diferença entre o Vale e o Saúde é em relação aos cachorros. Enquanto que no Vale tem cachorro pra todo lado, e frequentemente ocorrem uns genocídios caninos por parte da prefeitura do campus, no Saúde os cachorros Folha e Bolinha, que vivem do lado da guarita dos seguranças do Instituto de Psicologia, quando ameaçados de remoção, são protegidos por vigorosa reação dos estudantes, seguranças e demais funcionários, contando com cartazes plastificados (4) pelo campus e até abaixo-assinado (sim, eu assinei essa porcaria).
Também há a prática comum a todos os estudantes e professores, e talvez a todos os gaúchos, de achar que a UFRGS é o centro do universo, ou, na melhor das hipóteses, querer saber quão perto a UFRGS está do centro do universo (5)
Não pretendo agora fazer um estudo detalhado dos hábitos peculiares dos Urguianos, até por que não tenho tempo para isso. Entretanto, esse é um assunto que me fascina, essa diversidade comportamental e cultural que se cria dentro de uma única universidade. Talvez um dia eu possa falar mais disso, seja aqui, ou num mestrado ou doutorado.
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(1) O que não é grande coisa, já que os bifes são bem nervosos. Nem as facas novas que servem até pra sangrar porco dão conta do recado.
(2) Também é comum abreviar o nome dos cursos, como Psicologia para Psico, Biologia para Bio e Jornalismo para Jornal. Mas isso acontece em qualquer faculdade do Brasil.
(3) E logo surgiram lendas de como aqueles que compraram essa camiseta morreram de forma misteriosamente dolorosa.
(4) Os cartazes eram tão bem feitos que pensamos seriamente em roubar um e expô-lo em um Salão de Iniciação Científica para ver no que daria.
(5) O centro do universo é a USP. A UFRGS está logo ali do lado, contudo.
A prática mais visível é a de descascar laranja com a colher no RU. Ninguém sabe quem inventou essa prática nem quando, mas sabe-se que foi por causa das facas ruins do amado bistrô, que mal e parcamente cortam a carne oferecida (1). Outro hábito comum a todos os estudantes da UFRGS é falar mal do RU – pode ser que não exista comida mais deliciosa no mundo que a comida subsidiada que comemos, mas mesmo assim, xingamo-la sem dó (talvez seja aí que resida todo o seu sabor). Comparar a comida dos 4 restaurantes que temos por aí é outra prática comum, e nunca se chega a um consenso de qual restaurante é o melhor (falei mais disso num post mais antigo). Mas há outros hábitos mais sutis.
Um desses hábitos é a nomenclatura. Dentro da UFRGS, há muitas unidades orgânicas e departamentos diferentes. Como vários tem nomes compridos demais, é comum falar apenas suas siglas. A Faculdade de Medicina vira a FAMED, a Faculdade de Educação vira FACED, e a Faculdade de Farmácia vira FACFAR. O Instituto de Ciências Básicas da Saúde é chamado apenas de ICBS, e o Instituto de Biociências vira o Biociências, ou simplesmente o “Bio” (2). E vai mais longe do que isso: lembro-me do meu colega Filósofo (assim chamado por ser formado em Filosofia), quando falávamos das loucuras que tínhamos que ver em aula, falar que os facedianos faziam a mesma coisa.
Estes nomes e siglas são óbvios para quem está dentro da UFRGS, mas para pessoas externas, devemos ter um pouco de senso comum, e falar o nome por extenso dos locais e das unidades. Em certos casos, devemos ser ainda mais específicos, e falar o que o tal departamento faz. Quando falo na Faculdade de Medicina, fica bem claro o que quero dizer. Mas quando falo no Instituto de Ciências Básicas da Saúde não. Nesse caso, eu preciso dizer “o instituto onde temos aulas práticas de anatomia e fisiologia” para que tudo fique claro. O próprio RU precisa ser explicado às vezes como sendo o Restaurante Universitário. O RU!
Há diferenças entre os diversos campi da universidade, tanto que é possível dizer que existem pelo menos 4 universidades diferentes dentro da própria UFRGS, sem contar o Instituto de Artes (devidamente chamado de IA), a Escola de Administração, as Faculdades de Agronomia e Veterinária, o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (mais conhecido como IPH) e o Ceclimar em Imbé. Contando todos estes, temos 10 UFRGS diferentes.
Já falei dessas diferenças de maneira jocosa anteriormente, mas não me aprofundei muito (até por que meu intuito era avacalhar, não fazer uma análise sociológica). Não posso afirmar nada, até por que o que sei é baseado no senso comum dos estudantes e no que pude observar de forma não sistemática, mas algumas diferenciações são possíveis de serem feitas. Por exemplo, os estudantes dos cursos do Campus do Vale são muito mais sociáveis e metidos em revoluções semanais do que os estudantes do Campus Saúde (meu campus), devido à configuração geográfica dos prédios – no Vale, os prédios dos diferentes cursos são próximos, enquanto que no Saúde tem grade para tudo quanto é lado. Mesmo entre cursos no mesmo campus as diferenças existem. Uma das mais gritantes que vejo é entre a Psicologia e os estudantes da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação – FABICO, de agora em diante chamados de Fabicanos. Nós na Psicologia somos muito mais propensos a refletir sobre as questões que nos envolvem, enquanto que os fabicanos têm uma tendência muito maior de fazer passeatas e invadir reitorias (especialmente os da Comunicação, que dominam a atual gestão do DCE). Não estou dizendo que isto é bom ou ruim, apenas que é diferente.
Também cria-se um folclore diferente de acordo com o campus. No Vale, há o infame Tio da Pastilha, que aborda todos os que ali estudam, dizendo “vai uma balinha pra ajudar o amigo?” (nem eu escapei de ouvir essa infame questão). Tão famoso é o cidadão que fizeram uma camiseta com os dizeres “EU NÃO QUERO A DROGA DA PASTILHA!” (3). Na Escola de Engenharia, há a lenda viva de Klaus, o viking, que há mais de 12 anos faz as cadeiras de cálculo, e suas eventuais incursões por outros cursos da UFRGS (ano passado ele começou a vir para as aulas de Fisiologia da Psicologia. Sim, foi meu colega, e é uma figura).
A maior diferença entre o Vale e o Saúde é em relação aos cachorros. Enquanto que no Vale tem cachorro pra todo lado, e frequentemente ocorrem uns genocídios caninos por parte da prefeitura do campus, no Saúde os cachorros Folha e Bolinha, que vivem do lado da guarita dos seguranças do Instituto de Psicologia, quando ameaçados de remoção, são protegidos por vigorosa reação dos estudantes, seguranças e demais funcionários, contando com cartazes plastificados (4) pelo campus e até abaixo-assinado (sim, eu assinei essa porcaria).
Também há a prática comum a todos os estudantes e professores, e talvez a todos os gaúchos, de achar que a UFRGS é o centro do universo, ou, na melhor das hipóteses, querer saber quão perto a UFRGS está do centro do universo (5)
Não pretendo agora fazer um estudo detalhado dos hábitos peculiares dos Urguianos, até por que não tenho tempo para isso. Entretanto, esse é um assunto que me fascina, essa diversidade comportamental e cultural que se cria dentro de uma única universidade. Talvez um dia eu possa falar mais disso, seja aqui, ou num mestrado ou doutorado.
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(1) O que não é grande coisa, já que os bifes são bem nervosos. Nem as facas novas que servem até pra sangrar porco dão conta do recado.
(2) Também é comum abreviar o nome dos cursos, como Psicologia para Psico, Biologia para Bio e Jornalismo para Jornal. Mas isso acontece em qualquer faculdade do Brasil.
(3) E logo surgiram lendas de como aqueles que compraram essa camiseta morreram de forma misteriosamente dolorosa.
(4) Os cartazes eram tão bem feitos que pensamos seriamente em roubar um e expô-lo em um Salão de Iniciação Científica para ver no que daria.
(5) O centro do universo é a USP. A UFRGS está logo ali do lado, contudo.
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