domingo, 16 de dezembro de 2007

Um ano na Universidade Federal - Um Sorriso Triste

Entrei de férias este sábado. Esta data memorável marca o fim do meu primeiro ano letivo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de ainda ter alguns compromissos na faculdade, acredito que agora seria o melhor momento para fazer uma retrospectiva deste ano (nada a ver com aquele programa que o Bóris Casoy apresentava lá por 30 de dezembro na Record recapitulando todas as merdas que aconteceram no ano que está acabando). Primeiro por que, como estou de férias, tenho tempo de sobra para ler, treinar, ver filmes e escrever para o blog. Segundo, por que são duas da manhã e não estou com sono.

Antes de mais nada, falarei um pouco sobre o ambiente em que estudei este ano, e que continuarei estudando pelos próximos quatro anos. A UFRGS é uma universidade pública, e como bem definiu a Lady Hell, é um universo paralelo (sim, temos portais de teletransporte, mas não posso revelar os locais. E o atalho é Shift+T). Temos nosso almoço e nossa janta subsidiados, caminhamos por entre pesquisadores e laboratórios altamente equipados e cheios de verba, pipocam projetos de extensão por aí e o a única coisa que pode nos impedir de cursar todas as disciplinas obrigatórias e algumas eletivas a mais é o tempo, e não o dinheiro. Tudo é de graça ou extremamente barato. Coisa que não existe na UCS ou na Unisinos, particulares que conheci pessoalmente.

Claro, a infraestrutura da UFRGS é bem mais capenga do que a da Unisinos, que tem um campus central do tamanho de um parque temático, prédios bem pintados e canteiros de flores bem cuidados, ou do que a UCS, que tem até zoológico na cidade universitária e várias unidades espalhadas pela Serra e além. Mas, pelo o que tudo indica, um canteiro cheio de violetas em flor não é o que mais conta na avaliação do Ministério da Educação. Tanto é que a UFRGS é, segundo aquele listão do Enade que eu postei aqui, a UFRGS é a sexta melhor universidade do Brasil em cursos de graduação, e segundo o CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), de nível internacional em cursos de pós-graduação. Por mais que os instrumentos utilizados na avaliação sejam incompletos (e são, como todo instrumento de avaliação subjetiva), eles refletem alguma coisa da verdade. Realmente, estudo em uma das melhores instituições de ensino superior do Brasil. Em termos.

Temos professores muito bem qualificados, pelo menos aqui na Psicologia. 83% deles tem doutorado (40% destes com pós-doutorado), contra 31% de doutores na Psicologia da UCS. Mas e daí? Um colega de outra faculdade reclamou de uma professora dizendo que "ela tem uns 8 pós-doutorados mas não consegue nem dizer o próprio nome direito". Diz-se que as avaliações nas Federais são muito mais exigentes, pois ninguém tem o dever de passar o filho do ricaço, que paga uma banana para que seu filho vire "dotô". Não tenho como comparar por experiência própria, mas pelo o que meu pai, psicólogo formado pela UCS diz, eu estudo muito mais do que ele estudava. Em termos absolutos, posso dizer que eu realmente me ferro estudando para passar nas provas e nos trabalhos. Mas isto é mais por senso de dever do que qualquer outra coisa, já que na Psicologia da UFRGS, qualquer macaco bem treinado tira A. Eu mesmo não acreditava nessa afirmação há alguns meses atrás, mas um exemplo me mostrou que tem o seu fundo de verdade. Em um trabalho para uma certa disciplina, tinhamos que escrever artigos para uma página da internet, patrocinada por um certo departamento. Não gostava muito da disciplina, mas fiz meu trabalho como deveria. Na semana final de aulas, nosso colega que estava organizando o site falou que um de nossos colegas havia simplesmente copiado todo seu trabalho da Wikipedia, e não tinha nem ao menos se dado o trabalho de excluir os hiperlinks. Ao falar deste pequeno detalhe para a professora, teve como resposta "Ai, nem me fala quem é, para eu não ter que descontar nota".

Também se diz que nas Universidades Federais, os estudantes são mais esforçados e interessados, pois o vestibular extremamente concorrido seleciona os melhores. Aqui, não posso negar que eu e meus colegas somos excelentes no que fazemos. Existem exceções, mas acho que são irrelevantes para o argumento que desenvolvo. Lembra, na época de colégio, de Primeiro ou Segundo Grau, de quando tanto você quanto todos os seus colegas estavam completamente de saco cheio por causa de um professor ou atitude da diretoria? Provavelmente você passou por algumas situações deste tipo. Pois bem, lembra que você ou outro colega seu se decidiram a mudar a situação, e contavam com a ajuda dos outros para tanto? Se você já fez algo assim, deve lembrar até hoje do resultado como sendo nulo, pois na hora da verdade, os teus colegas, os chamados "revolucionários de corredor" (só tem atitude no corredor. Na sala com o professor são uns santos) te deixaram e nada mudou, exceto que você ficou com má fama entre os professores. Talvez tu tenha tido o apoio dos teus colegas, mas o mais provável é que tu tenha se fodido sozinho. Pois é. Estamos cheios de revolucionários de corredor na UFRGS. Não digo que estas pessoas sejam insinceras ou má intencionadas. Geralmente, realmente desejam mudar as coisas, mas não conseguem transformar seu desejo em ato. E ficam lá, resmungando sobre como as aulas são uma merda e como eles fariam melhor. Até o professor chegar.

Outro tópico interessante de ser analisado são as políticas estudantis. As palavras "Movimento Estudantil", "Liberdade", "Democracia", "Luta" e outras tão ou mais impactantes são repetidas como mantras para lá e para cá por vários líderes de movimentos, especialmente na época (anual) de eleição para o DCE. Não passa de fachada. Apenas na eleição que eu pude ver, vi as mesmas pessoas que falavam em democracia fecharem ou tentarem impugnar urnas que sabiam que iriam fazer uma votação pouco expressiva, e quando viam que alguém iria votar em outra chapa que não a sua, o chamavam de "fascista" ou "comunista" (talvez eu faça um post falando mais a respeito destas eleições). Sem falar nos cartazes espalhados por aí, com mais palavras de ordem e grudadas de tal maneira que só tocando fogo ou colando outro cartaz por cima pra tirar. A primeira opção é a mais divertida, mas a segunda é muito mais provável de acontecer. Na próxima eleição para o DCE.

Se você for um leitor atento, terá percebido que fui afunilando os assuntos abordados: primeiro as diferenças entre universidades públicas e particulares, a universidade pública e seus funcionários, os estudantes da universidade pública. Falta falar sobre o último, porém não menos importante nível desta escala: eu mesmo.

No começo, eu idealizava muito mais o fato de estudar na UFRGS. Em certas aulas, pensava "nossa, temos aula com alguém que pesquisa sobre o assunto, e não alguém que leu em um livro". Também achava que ter aulas com um monte de doutores, que além de darem aula para nós davam aula na pós-graduação era o máximo. Considerava os estudantes da UFRGS muito mais ativos politicamente do que os estudantes das particulares próximas. Este um ano na Universidade Federal do Rio Grande do Sul me tornou muito mais pragmático e cético. Talvez até cínico. Às vezes, alguns colegas meus vinham me dizer que queriam colaborar com o DAP (Diretório Acadêmico de Psicologia), ajudar na editoração do nosso jornalzinho, o Psiu!, entre outras coisas. No começo do ano, me empolgava com a idéia de ter mais alguém ajudando, mas quase sempre me frustrava com o fato de que a pessoa não cumpria o que havia prometido (muitas vezes, só eu ficava frustrado). Um caso bem ilustrativo disto foram as inscrições para as comissões do diretório. A comissão com o maior número de membros era a Comissão de Eventos. A que organiza as festas. Mas como o pessoal não sabia que "fazer festa =/= organizar festa", só um ou dois continuam participantes ativos. No começo do ano, isto me deixaria louco, indignado com a falta de comprometimento dos outros. Agora, quando fico sabendo de casos parecidos, apenas esboço um sorriso triste e digo "previsível". E vou fazer algo de útil.

Não deixei de ajudar e encorajar os colegas que querem trabalhar e fazer algo de bom para nossa comunidade, seja ela a comunidade acadêmica ou a cidade de Porto Alegre como um todo. Apenas sei que, por mais sincero que seja seu desejo de ser útil, é bem provável que ele não seja mais forte do que a inércia que os mantém parados.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Sonho de uma tarde de verão

Oficialmente, hoje é meu penúltimo dia de aula. Extra-oficialmente, já tô cagando para as aulas. Faltam só dois trabalhos para entregar, e então, UFRGS só ano que vem.

Tinha esquecido como era boa esta época do ano. Faz um ano desde a última vez que tive férias em dezembro. Poder olhar para os papais nóeis escrotos abraçando criancinhas, as árvores de natal feitas com materiais catados do lixo (vide a árvore de natal feita com caixas de leite em Caxias), as lâmpadas coloridas piscando nas sacadas dos prédios, o sol quente de verão... como é bom olhar tudo isso e pensar "tô de férias".

Essas pré-férias já estão me influenciando. Terminei de ler um livro e recomecei a ler outro enquanto ia para o Campus do Vale (no ônibus errado, o que me fez gastar um vale-transporte por nada). Voltando ao Instituto, encontro um colega meu abastacendo a geladeira para a festa de hoje a noite com cerveja o suficiente para alegrar um batalhão. Não sei como conseguimos colocar tantas latinhas dentro daquela geladeira velha sem quebrar as prateleiras vagabundas e fechar a porta (que tem cerveja até no compartimento pra guardar ovo). Vou tirar uma foto e colocar aqui. É lindo.

Tenho uma última aula de Fisiologia hoje de tarde e depois, que venha (por e-mail) a prova. Sexta-feira, um último trabalho de Constituição do Sujeito Psíquico (sim, esse é o nome da disciplina), e fin. Se eu sobrevivi até aqui, eu sobrevivo até amanhã.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Malandragem

Hoje tive a prova final da cadeira de Alemão Instrumental. Demorei pra cacete para terminar tudo, tanto que quando saí, não dava mais para chegar no Campus Saúde e almoçar no RU. Como já estava tudo cagado mesmo, decidi ir na PUCRS, para pegar o certificado de uma atividade de extensão que rolou por lá em setembro (não vou nem comentar a demora para os certificados ficarem prontos).



A PUCRS é um universo muito diferente da UFRGS. É um campus gigantesco, bem no meio de Porto Alegre, cheio de prédios chiques, gente muito bem vestida caminhando sobre um chão muito bem pavimentado com pedras quase brancas. Parece bobagem, mas a pavimentação do campus da PUCRS é o que mais me chama a atenção quando vou lá. Os campi da UFRGS são sempre cheios de grama ou cobertos com pedras bem velhas, escuras, ou paralelepípedos putaquepariumente tortos.



Enfim, a PUCRS deixa bem claro que é uma universidade particular, e que as mensalidades estão sendo bem utilizadas para manter o visual clean de sua sede. Mas não foi isso o que mais me chamou a atenção enquanto caminhava por lá.Em vários pontos estratégicos do campus, havia um cartaz que era exatamente assim:



PUCRS
A melhor
universidade

privada da região sul



Para entender melhor por que decidi escrever um post sobre um cartaz da PUCRS, afaste-se da tela do computador e tente ler o que está escrito. Obviamente, você só vai conseguir ler "PUCRS, a melhor universidade".



Veja bem a malandragem dos padres maristas: eles não mentem, mas fazem um transeunte desatento pensar "A PUC é a melhor universidade? Nooooooossa!" Eu, desconfiado que sou, quando vi o cartaz pensei "isso é como propaganda de cerveja. Só tá faltando o 'aprecie com moderação' bem escondido". Dito e feito. Se o transeunte fosse tão desconfiado quanto eu, iria se aproximar do cartaz e ler a ressalva: privada, e da região sul. Que eu saiba, a melhor universidade privada do Brasil é a PUC, mas a do Rio de Janeiro.



De qualquer forma, talvez a PUCRS não seja a melhor universidade, mas pelo menos a Faculdade dos Meios de Comunicação (Famecos) é muito boa, pra sair com uma dessas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Vida Dura (Parte 4)

Neste exato momento, estou respondendo um questionário de 33 questões realmente complicadas a respeito da metodologia de pesquisa em Psicologia. Destas 33 questões, 4 ou 5 cairão na prova de segunda-feira sobre este assunto. É uma loteria. Você pode escolher responder apenas 5 e torcer para que todas caiam, ou responder todas e ficar mais seguro.

Optei pela segunda opção.

Enquanto discorro sobre as vantagens e desvantagens do uso de enquetes para pesquisas em Psicologia, duas perguntas pessoais martelam minha mente (este construto cretino): irei bem na prova? Afinal, nada me garante que eu lembre das questões que cairão na prova, ou, mesmo que eu lembre, que eu respondi elas corretamente enquanto estudava.

Minha nota está diretamente ligada à resposta desta pergunta: se lembrar na hora e estiver certo o que lembrar, vou bem. Caso contrário, fodeu.Mas é a segunda pergunta que me preocupa mais. Depois de tantas horas respondendo estas 33 questões, terei eu realmente aprendido alguma coisa?

Esta pergunta me leva a outra, muito mais importante: daqui a 4 ou 5 anos (ou mais), quando tiver meu diploma em mãos, vou saber alguma coisa de verdade ou serei só um papagaio de algum professor do Instituto?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Vida Dura (Parte 3)

Apesar de posts anteriores aparentemente degradarem a imagem infantil, eu respeito imensamente as crianças. Afinal, eu também já fui uma. E devo dizer, ser criança é mais difícil do que pode parecer para observadores externos. Uma das épocas mais tenebrosas é o Natal. "Mas é quando as crianças mais ganham presentes, Amiguinho Andarilho!" Verdade, meu astuto amigo imaginário (que de agora em diante chamarei de Bob. Bob Alhão). Mas para que elas possam receber os cobiçados presentes (o CD do RBD, a fantasia de RBD, a boneca do RBD, o vibrador do RBD... et cetera) elas precisam passar por provações quase infinitas.

A mais dura pela qual tive que passar foi cantar no coral de Natal da escola. A professora que organiza este tipo de bobagem geralmente é uma senhora de 50 anos, 30 destes dedicados ao magistério, lendo livros do Paulo Coelho e de educadores de formação psicanalítica (péssimo). Ou seja, nada que preste. Então, para sublimar sua libido, elas inventam alguma merda para seus aluninhos queridos fazerem, como cantar músicas escrotas de Natal (perdoem a redundância). A seleção musical é sempre a mesma, o que me leva a acreditar que estas senhoras compartilham de apenas um cérebro coletivo, cujo uso pessoal está condicionado à um sorteio semanal. A música mais clássica de todas é a "Música da Família". Sim, caro amigo, você pode não se lembrar, mas já cantou esta obra de arte para centenas de pessoas, entre elas pais entusiasmados a filmar, irmãos mais velhos entediados e namorados de irmãs mais velhas querendo ganhar uns pontos com o sogrão. Caso você não lembre desta maravilha sonora, relembrar é viver! Acompanhe a melodia e cante junto. Isto não aconteceu uma ou duas vezes comigo, mas várias vezes. Como nosso colégio não tinha um auditório, iamos nos apresentar na escola Cristovão de Mendoza.

Mas meu espírito de fogo se revoltou contra esta situação, e em um certo ano (acho que foi na quarta ou quinta série), nos revoltamos, e ficamos rindo e cutucando o microfone no meio da música. Foi divertido pra cacete. O que não foi divertido foi a psicóloga da escola, Vânia, por nos chamada de Fânia, devido ao seu pouco entrosamento com os outros trabalhadores da área da saúde, fonoaudiólogos principalmente, nos puxando pelo braço e nos botando de castigo num canto escondido da platéia. Também não foi divertido o outro castigo que eu tomei do meu pai (sempre ele. Começo a pensar que Freud estava certo) por este desrespeito ao sistema. Fiquei um mês sem videogame. Ou uma semana. Sei lá. Isso não importa mais. O que realmente importa agora é que tive que me comportar como um bom menino em uma outra apresentação, desta vez nos pavilhões da Festa da Uva para algum outro feriado besta. Mas então já era tarde. Eu já era um cretino de carteirinha. E eu ganhei presente igual. Enganei Papai Noel.

Vida Dura (Parte 2)

Lavar louça. Eis um serviço ingrato. É só você terminar de lavar todos os talheres, todos os pratos e todas as panelas que chega a hora do almoço e você tem que sujar tudo de novo.

Raramente lavei a louça enquanto morava com meus pais. As vezes tomava vergonha na cara depois de um esporro paterno sobre como "eu era mimado e não ajudava em nada com a organização da casa". Claro que eu ajudava! Eu não bagunçava mais do que o necessário. Mas isso não vem ao caso agora. Achava uma merda ter que lavar a louça. Pra ser sincero, ainda acho. Mas agora não tenho muita escolha, pois ou eu faço este trabalho ou a casa fica com cheiro de esgoto por uma semana. Acabo de lavar um pote que serviu para transportar lingüiças fritas. Sexta-feira. Não consegui lavar tudo a tempo depois da aula antes de pegar meu ônibus (que, diga-se de passsagem, eu perdi). Ficou tudo parado, por três dias, apodrecendo. Quando voltei para Porto Alegre, senti medo ao olhar para aquele pote. Senti medo de que, ao abrí-lo, uma lingüiça mutante pularia no meu pescoço falando "pa...pai, pa...pai!" e arracaria minha jugular. Felizmente, mantive meu rosto (e principalmente meu nariz) afastado do pote e esfreguei-o com toda a força que pude (ele ainda está cheio de graxa, a propósito).

A pia não colabora com o andamento das coisas. O balcão para deixar a louça suja é muito apertado, o que me obriga a deixar muitas coisas dentro da pia em si, impedindo o escoamento da água. Suja. Engraxada. Nojenta. Que fica emporcalhando o resto da louça. Então, eu me obrigo a deixar os pratos em cima do balcão, as panelas em cima do fogão, os copos dentro da pia propriamente dita e os talheres dentro de copos ou panelas cheias de água (pra sujeira desgrudar, pois a relação de apego entre a comida e o talher se tornam muito fortes depois de três ou quatro dias juntos. É mais difícil que separar mãe e bebê. Winicott e Bowlby são para os fracos. Os fortes lavam louça).

O ralo da pia é outro problema. Tem uma gradezinha protetora que em teoria impede que resíduos mais largos de comida não caiam no ralo, mas isto é só em teoria, por que aquela porcaria de grade sempre sai do lugar por causa da água caíndo da torneira ou das panelas. Já tentei todo o tipo de técnica para impedir que isto aconteça, mas nenhuma é satisfatória: não deixar a água cair diretamente em cima do ralo, espalhar a água dentro das panelas em círculos dentro da pia, abrir a torneira apenas de leve... sempre a gradezinha sai do lugar. Neste exato momento, uma avançada civilização de germes de carne e queijo se desenvolve no cano da pia da cozinha. Preparem-se, o deus deles já disse que ele quer que eles conquistem o mundo e façam sacrifícios humanos diários em seu nome. E eu vou ter que chamar o encanador.

Vida Dura

Uma coisa que nunca entendi é o fascínio feminino por bebês pequenos. Não estou falando de mães de recém-nascidos que vivem quase que uma simbiose com seus filhos (até porque isto é esperado e necessário), estou falando de integrantes do sexo feminino, de 6 à 60 anos, que não têm filhos por perto pra ficar mostrando. Observe bem a reação da mulherada* a próxima vez que aquela colega que saiu em licença-maternidade ou o pai babão levarem o pimpolho para exibição: a grande maioria das mulheres vai pular em cima, querer segurar, abraçar e dizer "Qui coisinha maix lindinha!" ou "mas é a cara do pai!"

"Coisinha maix lindinha"? Só se for mais bonito que meu joelho. Bebê é tudo igual: nasce tudo com cara torta. Entendo que as mães e os pais os achem as coisas mais graciosas do mundo, mas, por Deus, eles são pais de um recém-nascido! Vocês esperariam outra reação?Mas e o resto das mulheres? Por que a súbita perda de capacidade discriminativa quando aparece um ser humano com menos de 2 anos por perto? Questões evolutivas? Não sei, mas até ontem eu achava que os abobados eram os primeiros a serem pisoteados pelos mamutes no tempo das Cavernas, ou os primeiros a comerem os cogumelos vermelhos com bolinhas brancas. Coisas que eu imagino que uma integrante do sexo feminino faça quando aparece um bebê por perto.

Tudo que os pequerruchos fazem é bonitinho. Tudo mesmo. Olhou para alguém? A reação é "Oooooh, ele gostou de mim! Que bibito!" Começou a chorar? Sempre vai aparecer a voluntária pra dizer "aaaaah, tadinho! " e pegar no colo. Arrotou? Todo mundo acha uma G-R-A-Ç-A. Aposto que se fosse eu de fraldas, cagando, peidando, arrotando e chorando por aí no colo do meu pai (por que duvido que minha mãe consiga me carregar nestas alturas do campeonato) ninguém ia achar bonitinho. Isso é injusto. E idiota.







*alguns homens também fazem isso, mas como os homens são seres infinitamente mais simples do que as mulheres, seu comportamento é compreensível: eles querem mostrar para a mulherada extasiada com o PpP (Pirralho por Perto) que eles também são sensíveis, e ganhar alguns pontos com elas. Assim, eles poderão talvez pegar uma delas, engravidá-la, levar seus filhos para o serviço e continuar com este ciclo de imbecilidades, e talvez ajudar algum outro marmanjo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Coisas que aprendi na Faculdade - Coletânea 2007

11/03/2007
- Domingo passado mudei-me para Porto Alegre, depois de conquistar uma vaga no curso de Psicologia da UFRGS. Divido um apartamento com outro estudante, de engenharia civil. Faz uma semana que moro longe de meus pais, e neste curto espaço de tempo, aprendi uma importante lição: o fogão não se concerta sozinho. E também não liga sozinho.

12/03/2007
- Atenção para todos os preguiçosos que não encontraram coragem e paciência para ler meus posts tamanho QE (Quilômetro Esticado): Se você pensa em cursar faculdade de Psicologia, e pensa em fazer na UFRGS, desista: só hoje, primeiro dia de aula propriamente dita, nos passaram mais de 60 leituras recomendadas. E eu vou ler todas.
E a propósito: apesar do Huginn ter me dito que posts quilométricos assustam uma boa parcela dos nossos leitores, ainda pretendo fazer um post mais elaborado sobre a minha rotina na universidade no futuro (quando eu tiver uma).
- Hoje aprendi mais uma importante lição na minha jornada na Federal: o tio do xerox é amigo. Da sua carteira.
- Mais uma lição da UFRGS (mais especificamente da Fabico) para a vida: a melhor defesa de um veterano é o recalque.

13/03/2007
- Catatonia é uma defesa natural do ser humano.

14/03/2007
- Café+Nestea=Red Bull
- Quando for lavar a louça, use um avental para não molhar ou sujar a roupa. Caso você não queira sujar o avental, tire a camisa.

15/03/2007
- O Cantinho do Xerox é melhor lugar para socialização de toda a faculdade. Afinal, toda e qualquer pessoa ligada ao instituto terá que, cedo ou tarde, passar por lá e esperar ser atendido. Aproveite e converse.
- Ou chá gelado é uma bebida muito mais popular do que eu imaginava, ou o distribuídor sofre de sérios problemas logísticos.
- Nunca faltará um boteco perto de uma faculdade. O dia que isto acontecer será o dia do Apocalipse.

19/03/2007
- Uma linha tênue diferencia uma discussão acadêmica de uma discussão de boteco. Esta linha é a cerveja.
- Amanditas expostas à altas temperaturas (mais de trinta graus celsius) ficam com o recheio cremoso.
- Sempre agradeça a Deus pelo Ego das pessoas ser uma substância etérea, ou caso contrário seria impossível entrar em qualquer prédio de universidade.
- Professores universitários são inteligentes, mas não necessariamente organizados, de especial maneira com suas leituras recomendadas e xerox.

20/03/2007
- Postar todas as idéias que vêm à sua cabeça tudo no mesmo dia não é bom.

21/03/2007
- É impressionante como um crachá te deixa com cara de importante.

26/03/2007
- Panelinhas são inevitáveis, porém é possível pular de uma para outra.
- Os arredores de um campus universitário sempre são muito interessantes.

29/03/2007
- Democracia não funciona quando o assunto é festa e cerveja.

04/04/2007
- Quando você decidir fazer feira, escolha VOCÊ as coisas. E pechinche. Desnecessário dizer que não fiz nenhuma das duas coisas hoje ao comprar frutas levemente batidas.

05/04/2007
- Aprendi, logo na segunda semana de aula no Instituto de Psicologia, durante as aulas de Filosofia e Psicologia, uma palavra maravilhosa: empírico. Algo é empírico quando é testado cientificamente, e pode ser reproduzido por qualquer pessoa no mundo. Por exemplo: é empírico que se você jogar uma pedra para cima, ela cairá logo em seguida, por causa das Leis da Física.

Claro, o exemplo dado é óbvio, mas há outros casos em que a palavra "Empírico" pode ser usada. E é especialmente divertido dizer "É EMPÍRICO PORRA!" para coisas imbecis, sexistas e preconceituosas em geral, como "Mulheres tem o cérebro do mesmo tamanho do de um esquilo. É empírico!" ou "Todo homem, quando tem a oportunidade de namorar uma menina, come ela. É empírico!"A parte mais divertida é gritar num boteco, depois da quinta cerveja algo como "He-Man era um boiola. Isso é empírico, porra!"
Aiaiai... os prazeres de fazer Psicologia.
- Só existem duas profissões no Canadá: lenhador e urso. Para ser urso, é necessário fazer um curso de especialização.
13/04/2007
- Viva o espaçamento entre linhas 2!
04/05/2007
- Os viadinhos do curso revelar-se-ão com o tempo.
- O mundo parece muito mais sombrio quando a lâmpada do seu quarto queima, e você acha mais importante estudar (na sala) do que comprar outra. Mas amanhã de tarde eu compro outra. Se eu não mudar de idéia. Não vai ser a primeira vez que fico sem luz no meu quarto por pura inércia.
06/05/2007
- Trecho do artigo "O Estranho", de 1919, escrito por Sigmund Freud:
"Em certa tarde quente de verão, caminhava eu pelas ruas desertas de uma cidade provinciana na Itália, quando me encontrei num quarteirão sobre cujo caráter não poderia ficar em dúvida por muito tempo. Só se viam mulheres pintadas nas janelas das pequenas casas, e apressei-me a deixar a estreita rua na esquina seguinte. Mas, depois de haver vagado algum tempo sem perguntar o meu caminho, encontrei-me subitamente de volta à mesma rua, onde a minha presença começava agora a despertar atenção. Afastei-me apressadamente uma vez mais, apenas para chegar, por meio de outro détour, à mesma rua pela terceira vez."
O que aprendemos com este texto? Sigmund Velho de Guerra ia pra Itália pra cair nas bocas, e de quebra, arranjar assunto para seu próximo artigo!
15/05/2007
- O Inconsciente é um lugar escuro e anárquico, onde todas as coisas são jogadas; O DAP é um lugar escuro e anárquico, onde todas as coisas são jogadas; O DAP é, portanto, o Inconsciente. Eu tenho a chave do DAP; A chave do DAP é a chave do Inconsciente; Se eu tenho a chave do Inconsciente, eu sou o Ego. Se eu sou o Ego, mas eu uso uma camisa do Superman, não sou mais apenas o Ego, mas o Superego. Conclusão: Psicanálise no Primeiro Semestre é uma cousa de louco.
13/06/2007
- Omelete com presunto e queijo (peito de peru, no meu caso) é o alimento mais completo para universitários do sexo masculino.
22/06/2007
- Janta no RU: 1,30
Suco do RU: 0,30
Comer musse de chocolate de sobremesa no RU: Não tem preço
Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras, a Mãe UFRGS te consegue um descontão.
12/08/2007
Dicas de Ouro para a UFRGS
1- Campus do Vale:
A) Não pise na grama do Campus do Vale. Os cachorros cagam nela. Muitos cachorros.
B) Não importa qual o seu curso, ou quantas vezes você vai para o Vale por semana, o Homem das Pastilhas vai te abordar com a famosa frase "Compra uma balinha pra ajudar o amigo?" ou "Tem um V.T.* pra ajudar o amigo?". Esteja preparado.
C) Se você sentir um cheiro forte de queimado em algum lugar mais isolado do Vale, não tenha dúvida: é maconha.
D) Quer almocar por R$ 1,30? Entre na fila cedo.
E) Prepare-se: o Vale é o lugar das revolucões estudantis. Semanais.
2- Campus Saúde:
A) Não tente atravessar o campus para chegar mais rápido do outro lado, a não ser que você esteja disposto a pular algumas muitas grades.
B) A Medicina reina no Saúde, e de modo geral, na saúde inteira também. Por isso, todos os prédios do campus terão, pelo menos, um andar inteiro dedicado exclusivamente à Medicina.
C) Use o seu cartão universitário pendurado como crachá, pra ficar com cara de "dotô".
D) Desconfie de quem usa crachá do Hospital de Clínicas. Ele provavelmente se tornará um médico. Ou enfermeira(o), mas mesmo assim, não dê sorte para o azar.
E) Ao contrário do Campus do Vale, o Campus Saúde tem muitas alternativas para rango, pois há sempre um bar por faculdade. O melhor de todos, claro, é o da Medicina. O pior, claro, é o da Psicologia.
F) Idolatre Folha e Pretinha, os cachorros vira-latas do campus.
G) A FABICO** (Faculdade de Bilhar e Confraternizacão) oferece uma série de cadeiras sui generis para todos estudantes da UFRGS: Sinuca em Condicões Adversas I, II, III e "Mais que 3 em números romanos".
H) Os administradores das faculdades deste campus são os mais cagados de toda a universidade. Portanto, tenha sempre sua carteirinha em mãos se quiser entrar em qualquer um dos prédios.
3- Campus Centro:
A) O lugar é velho. Brinque de "Indiana Jones e as Ruínas Gaudérias" enquanto você fica perdido ali dentro.
B) Tal como no Vale, o Centro é terreno fértil para agitacões estudantis.
4- Campus Olímpico (ESEF):
A) Fique gritando por "RU na ESEF JÁ!" sempre. Mesmo que o reitor já tenha se comprometido a construir um até o final do ano.
B) Aliás, fique gritando "RU na ESEF JÁ!" mesmo depois que o RU tiver sido construído.
5- Instituto de Artes:
A) Cuidado: o teto pode cair no seu cucuruto a qualquer momento.
B) Se quiser colar um cartaz em algum mural, você terá que preencher um formulário, mostrar a autorizacão da reitoria e acender uma vela para Santo Expedito. E torcer para que o funcionário que cola os cartazes não esteja de greve.
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*V.T. - Vale Transporte. O Campus se chama "do Vale" por que você à falência sem as fichinhas rosas que te garantem meia passagem.
**Também conhecida por FABICOnha e FABICanha.
13/08/2007
- A faculdade pode ter Data Show em todas as salas, mas isto não quer dizer que todos funcionem perfeitamente. Manutenção é coisa de frutinha.
15/08/2007
- Lei de Murphy para universitários: Quando você estiver em dia com as leituras das aulas, todos os seus professores, ao mesmo tempo, vão resolver passar 2 textos a mais para o dia seguinte. Como diria o formando Tales: "Gurizada, xerox é enganação. Peguem só a metade dos xerox que os professores dão, e leiam só a metade do que vocês pegarem. Pensando bem, peguem só um quarto dos xerox."
20/08/2007
- No início do ano, meu professor de Filosofia disse que nos tornaríamos desonestos ao longo do curso. Por causa da carga de leituras absurda, iríamos matar aulas para ler, ler durante as aulas ou mesmo deixar de pegar polígrafos por não gostarmos da cadeira/professor/assunto/pressão atmosférica. No final de semestre, juntando tudo isso com os trabalhos e provas, faríamos muito pior. Não acreditei. Ele estava certo.
03/09/2007
- Se a professora passar um trabalho de relacionar dois textos diferentes, não seja pão-duro e gaste dinheiro pegando o xerox que ela deixou na pasta, pois, muito provavelmente, o xerox virá com as partes sublinhadas pela própria. O que poupa muito trabalho.
- 10 dicas para quem quer comer no Bistrô Le R.U. (Restaurante Universitário) da UFRGS:
1) O R.U. é um local de paz e harmonia. Tenha isto sempre em mente.
2) Quando for se servir de feijão, passe a concha no fundo do panelão para pegar mais sementes de feijão.
3) Ao se servir de carne, tente pegar os pedaços que ficam no fundo, pois eles se conservam quentes e absorvem mais molho, além da possibilidade maior de achar um bifão.
4) Lembre-se que você só pode, pelo menos legalmente, pegar um pedaço de carne por refeição. Por isso, prefira os bifes "dobrados", pois eles tem muito mais carne do que aparentam (e uns nervos aqui e ali).
5) Se a "carne do dia" for servida por algum funcionário do restaurante, dê uma choradinha por um pouco mais. Nunca se sabe se ele vai atender seu pedido e reforçar sua dieta.
6) Não procure descobrir qual o sabor do suco do dia. É sem graça. Compre seu suco e tente adivinhar o sabor (ou inventar).
7) A carne de boi do R.U. é preparada especialmente para exercitar sua mandíbula.
8) A colher serve para comer qualquer fruta que tiver na sobremesa, inclusive laranjas (sério).
9) De vez em quando, aparece pudim ou alguma coisa gostosa do gênero, como sobremesa. Aproveite e chore o quanto puder por uma porçãozinha maior.
10) Por último, lembre-se: coma a comida antes que ela coma você.
11/09/2007
- "Democracia" é o poder do Demo.
22/09/2007
- Lembre-se sempre de comer. Não deixe a faculdade interferir em sua alimentação.
03/12/2007
- Nenhuma afirmação que comece com "Primeiro a gente compra um Del Rey e..." pode prestar. O mesmo é válido para "a gente fala com uns agricultor..." (Duarte et al, 2007).

sábado, 22 de setembro de 2007

O Ministério da Saúde adverte

Preciso escrever alguma coisa. Qualquer coisa, mesmo que besta. Passei o dia de hoje inteiro debruçado sobre questões de metodologia de pesquisa em Psicologia, e por mais que eu ache o assunto interessante e importante para minha futura profissão, precisava dar um basta em todo trabalho e parar para descansar um pouco. Dei-me conta, de maneira muito brusca, que não comi nada substancial o dia inteiro, não escutei música, não fiz absolutamente nada além de estudar. E o engraçado é que só notei tudo isso após constatar que a qualidade do meu trabalho estava decaindo.

Fiquei surpreso com a minha determinação em terminar de responder todo o questionário da prova. Não muito tempo atrás daria prioridade máxima para qualquer coisa fora os estudos (como descongelar o freezer da geladeira, por exemplo). Mas hoje fui para o extremo oposto, e esqueci de comer. Sim, esqueci de satisfazer uma necessidade fisiológica básica! Que determinação doentia apossou-se de mim?

Decidi então fazer alguma coisa para comer, descançar, cair um pouco em estado de ócio criativo. Ficar algum tempo sem fazer nada objetivamente útil é muito importante para a saúde física e mental de qualquer um. Só depois de ter tomado essa decisão meu mundo parece mais leve. Fico até em dúvida sobre o que fazer: Ler um livro? Tenho vários na lista do "Por Ler". Olhar algum filme? Também tenho muitos desses aqui em casa. Decidi primeiro escrever alguma coisa para o blog, que precisava ser atualizado, afinal ficamos quase 4 dias sem atualizações até o Rainmaker se coçar e por alguma coisa.

Em todo caso, o post desta vez vai ser curtinho (algo raro para meus padrões). Só vou dar um conselho para quem estiver lendo isto: lembrem-se da Pirâmide de Maslow.

Agora, dá licença que eu tenho que descansar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Verdade me confunde

ATENÇÃO: o seguinte texto não é engraçado. Se você procura rir, ignore-o.

A história da Psicologia no Brasil é muito interessante e curiosa, pois seus cursos de graduação foram criados por interesse e iniciativa não de psicólogos, mas acadêmicos de outras áreas, interessados em estudar a mente humana usando as ferramentas à sua disposição. Este quadro criou uma certa dicotomia, pois, os cursos eram criados ou em instituições universitárias de ciências naturais, como Medicina ou Biologia, ou em faculdades de ciências humanas, em especial de Filosofia. Acredito que seja desnecessário falar a respeito das diferenças práticas e teóricas existentes entre a Medicina e a Filosofia. O curso de Psicologia da UFRGS foi criado com o Departamento de Psicologia, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, sendo que tornou-se um Instituto em separado apenas em 1996.

Como bem disse minha professora de História da Psicologia, nosso curso é único, pois só nós temos aulas de Fisiologia e Filosofia na grade curricular. Vamos de um extremo a outro com muita facilidade: do cientificísmo puro e aplicado, até quase o esoterismo. Tudo isto pode ser enquadrado na Psicologia. Talvez esteja exagerando, mas isso não ao caso. O que importa no momento é que somos apresentados a uma vastíssima gama de teorias paralelas altamente discrepantes entre si. Todas elas se sobrepõem em algum momento, explicando o mesmo fenômeno de maneiras completamente diferentes. E não podemos descartar nenhuma teoria, pelo menos não completamente, pois dada a dificuldade de estudar algo tão abstrato e elusivo como a mente humana, dificilmente temos os meios de refutar ou comprová-las. Talvez até possamos, e este é o ponto que quero tocar.

Escrevi os dois primeiros parágrafos inteiros apenas para demonstrar que sofremos fortes influências da Filosofia, e que por causa disso, somos constantemente assolados por questionamentos filosóficos profundos (sem falar que nossa vida fica muito mais complicada quando temos que escrever um texto filosófico sem usar termos como "Ontologia" e "Epistemologia", por que o público-alvo não tem este conhecimento a priori). Estou com uma séria dúvida agora, a respeito das teorias que falei.

De fato, elas são muitas e muito variadas. Frequentemente, são diametralmente opostas entre si. Mas apesar de tamanha variedade, consigo identificar dois grandes grupos de teorias: as Poéticas e as Objetivas. Poderia ter escolhido nomes mais exatos, como "Sofistas" e "Socráticas", mas prefiro nomes mais acessíveis, pois, tirando os eventuais colegas meus que visitam este blog, poucas pessoas aqui estudam filosofia de maneira tão hardcore como eu (a não ser que a UCS tenha arranjado mais uma cadeira caça-níqueis para os cursos da Informática, né Huginn e Lady Hell?).

Enfim, dividi as teorias nestes dois grandes grupos baseado em seus pontos comuns mais evidentes. Os autores das linhas Poéticas são na grande maioria das vezes refinados, com um ar de nobreza e inteligência inatingíveis por meros mortais. E eles fazem questão de demonstrar isto quantas vezes for possível. Com freqüencia, possuem seguidores. Sua obras são volumosas, cobertas por um verniz de intelectualismo, cheios de palavras e conceitos complicadíssimos, incompreensíveis, até. Os autores Objetivos, por outro lado, são um tanto quanto apagados, "plebeus" por assim dizer, muito parecidos ou iguais a qualquer pessoa sobre a face da Terra. Seus textos são, pelo menos comparando com as obras Poéticas, mirrados em páginas, despojados de intelectualismo e conceitos técnicos cabalísticos, contendo apenas o que o autor considerou essencial, escrito num estilo muito simples.

Tanto os Poéticos quanto os Objetivos demonstram interesse em propagar seu conhecimento, mas diferem radicalmente na forma como o fazem. Para ser capaz de compreender o que um Guru Poético ensinou, é necessário primeiramente ser aceito em um grupo de seus seguidores, tornar-se parte de seu séquito. Feito isso, precisa-se estudar por anos, todos os textos que o Guru escreveu. Começa-se pelos escritos mais básicos, que pertencem ao Senso Comum, e ir evoluíndo para os mais avançados e arcanos, sempre procurando absorver, sugar seu conhecimento, entender suas explicações do mundo, tornar-se imagem e semelhança do Guru. Feito isso, você pode ser considerar um Fulanista: um seguidor do Fulanismo, que foi criado pelo grande guru Fulano. Você fez um bom investimento, já que o conhecimento adquirido neste processo é eterno e infalível.

Já com os Objetivos, a coisa já é mais sem graça: você apenas entra em contato com alguma teoria de algum autor, lê, estuda, analisa e vê se é racional ou não. Se você considerar racional, aceita e põe em prática (ou pelo menos tenta por em prática). Caso contrário, jogue fora e procura alguma outra teoria que seja compatível com sua lógica. O problema é que o conhecimento dos Objetivos já vem com prazo de validade, e precisa ser trocado assim que você encontra uma teoria melhor que a que já conhecia.

Acho que divaguei para muito longe da Psicologia. Observei estas duas correntes no meu curso, e devo admitir que sinto-me atraído pelos Objetivos. Talvez por causa de algum fator da minha personalidade, ou por pura ignorância. Não sei dizer bem o porquê. O fato é que, tenho muito mais aulas e explicações sobre teorias que escolhi chamar de "Poéticas" do que sobre as que chamei de "Objetivas". E cada vez mais, percebo que vou na contramão de meus colegas, cujos olhos brilham com as intrincadas e poéticas explicações de certas aulas. Quando pensei no meu apelido para postar no blog, pensei em "Andarilho" por que todo andarilho é solitário por natureza. E estou só nesta jornada, ou pelo menos não tenho muitos companheiros de viagem (que, imagino, preferem a expressão "amolação de facas" à jornada).

Resumindo toda minha dissertação, todos nós buscamos a Verdade, mas de formas diferentes. Muitas pessoas procuram uma explicação convincente, perfeita, que crie um mundo perfeito onde qualquer coisa pode ser explicada (uma Fulanolândia, por assim dizer). Uma vez que encontram esta explicação, se acomodam e se contentam em explicar tudo. Algumas outras, bem poucas, nunca se acomodam, e procuram sempre a Verdade absoluta. Constantemente questionam seu conhecimento, e buscam algo melhor, mais completo. Nunca a encontram, pois parece que sempre falta metade do caminho para percorrer, por mais que tenham caminhado. Portanto, nunca descansam.

Tudo o que vivi me levou a acreditar que a melhor forma de buscar a Verdade incansavelmente, nunca se dando por satisfeito com o que se sabe. Mas agora, depois de ver que tantas pessoas inteligentes preferem acomodar-se com uma explicação convincente o bastante para parar de procurar, fiquei em dúvida. Está é a dúvida filosófica que me assola: qual é o caminho certo?

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Relatos de um Calouro no Movimento Estudantil da UFRGS

Acho que faz uma semana desde que li a respeito da invasão da reitoria da USP pelos seus estudantes. Sentindo o cheiro da "pólvora no ar", ou em outras palavras, a eletrecidade na atmosfera acadêmica, me flagrei pensando "tomara que arrebente uma merda parecida aqui na UFRGS, pra que eu possa invadir a reitoria também!"

No dia 5 de junho de 2007, aproximadamente às 9 horas da manhã, estava caminhando pelo Campus do Centro, procurando um computador que não estivesse Orkut bloqueado (era pra coisa útil, gente, eu juro). Caminhar pelo Campus do Centro é uma experiência maravilhosa para mim, que vivo no Campus Saúde. Meu campus, se é que posso chamá-lo assim, é tudo, menos um campus universitário. É um amontoado de prédios da UFRGS, que calham de estarem fisicamente próximos uns dos outros. Mas não há nenhum tipo de interação real entre os cursos: estudantes de Farmácia ficam na Faculdade de Farmácia, estudantes de Psicologia ficam no Instituto de Psicologia, separados por grades e preconceitos. No Campus Centro ocorre justamente o contrário: todos estão juntos de todos, caminhando por entre os prédios históricos, jogando truco no Bar do Antônio, interagindo (engraçado que no Antônio ter cartazes escritos "Proibido jogar cartas" dentro de um certo horário. As partidas de truco devem pegar fogo).

O Campus do Centro é sede de vários cursos, mas o principal deles não é contado como tal: o curso de Movimentação Política.

Durante minhas andanças, acabei passando na frente da Faculdade de Educação, onde havia um aglomerado de pessoas em torno de alguém com um megafone. Eu sabia o que era, pois tinha recebido um panfleto sobre um ato público naquele local ainda noutro dia. A curiosidade me levou até lá, para tentar escutar o que diziam. Me arrependi. Tudo o que ouvi foram gritos de guerra batidos, como "Cotas na UFRGS Já!" "Pela universidade pública popular de qualidade", e um punhado de outras abobrinhas que, de tão irritantes, fiz questão de não conseguir lembrar. Fui para a livraria da universidade, que estava vendendo livros por 6,50. Fiquei lá por pelo menos trinta minutos, olhando para as capas dos livros mais interessantes. Nem passava pela minha cabeça que eu estava apenas 400 metros de uma importante manifestação.

Foi depois de uma aula particularmente chata que fiquei sabendo que a reitoria da UFRGS tinha sido ocupada por estudantes em protesto. A primeira coisa que passou pela minha mente não foi aquela imagem romântica dos estudantes, lutando por um mundo melhor, invadindo a sala do reitor opressor e clamando por melhoras. Na hora, pensei "Virou modinha essa história de invadir reitoria agora, porra?!?!" Mas, mais uma vez, o cheiro de pólvora no ar era intoxicante, e meu lado racional lutava contra o desejo de ir lá acampar no saguão.Decidi ver por que estes estudantes protestavam de forma tão veemente, e li outro panfleto, que me entregaram naquele mesmo dia, com muito mais atenção do que li o outro. Está escrito:

Pauta de Reivindicações:

1) Apoio à ocupação da Reitoria da USP;

2) Contra a Reforma Universitária;

3) Redução da taxa do vestibular e ampliação das isenções totais;

4) RU na ESEF já!;

5) Ampliação do RU do Vale;

6) Garantia definitiva dos espaços estudantis. Ninguém toca na TOCA, no CECS, no CEABi e no DACOM;

7) Novo prédio do Instituto de Artes;

8) Ações afirmativas na UFRGS. Onde está a diversidade na universidade?



Já falei como senti-me a primeira vez que li sobre os estudantes na reitoria da USP, e entendo a importância das reivindicações número 4, 5 e 6, pois o que seria de mim sem o nosso amado almoço de 1,30 e o sofá do Diretório Acadêmico? Provavelmente um indivíduo mais estudioso, mas profundamente entediado e infeliz. Também entendo a importância de mudar o prédio das Artes para um lugar mais seguro, pois na última festa que fui lá, uma colega minha quase foi atingida por um braço de gesso na cabeça e o elevador de lá é quase um instrumento de tortura psicológica, e sou compreensivo quanto ao fato de muitos acharem que 95 reais de taxa de inscrição um tanto salgado, mas fiquei intrigado com essas coisas de "Reforma Universitária" e "Ações Afirmativas". O que seriam?


A primeira pergunta foi respondida à noite, durante nossa reunião do DAP, por um convidado que fez parte do DCE-UFRGS, mas que acabou saíndo por divergências ideológicas. Segundo ele, que também acabou saíndo do PSTU por divergências ideológicas (esquerdista demais?), a Reforma Universitária é um projeto do Banco Mundial para privatizar o ensino superior público. Como eu não li, ainda, o projeto de lei da Reforma, fico por isso mesmo, apesar de achar um tanto quanto inverossímil esta explicação. A segunda resposta só me foi dada no dia seguinte. Segundo minha fonte, que considero confiável, ações afirmativas são atitudes que as universidades tomam para aumentar a inclusão social de grupos menos favorecidos, como pobres e negros. E negros pobres. Estava pensando seriamente em ir ocupar a reitoria também, fazer um pouco de turismo por aí, mas me lembrei que tinha trabalho para fazer. Iria para lá se o local continuasse ocupado até quarta-feira.


Dito e feito, quarta-feira dia 6, às 18:30, estava eu e meu companheiro de indiadas Bétts na frente da reitoria, para uma assembléia de estudantes que ocorreria naquele local. Ficamos assistindo, com muito entusiasmo, uma apresentação dos estudantes de Artes Dramáticas. Minha alta sensiblidade para as subjetividades artísticas me levaram a refletir que caralho eu estava fazendo naquele lugar assistindo teatro subsubjetivo. Mas logo a assembléia começou, e discutiu-se de cara uma pauta de extrema importância para a humanidade: a posição da caixa de som. Parecia uma piada de mau gosto aqueles caras com ares de importância dizendo "a proposta número 1 é colocar a caixa no meio do saguão. A proposta número 2 é deixar a caixa onde está, em cima do balcão". Mais dois minutos dessa lenga-lenga e eu iria propor pendurar a caixa no teto.


Não sei se foi só impressão minha, mas os caras do DCE pareciam estar servindo algum interesse que não do movimento estudantil (já falei que eles são filiados ao P-SOL?). Diziam que a assembléia seria democrática, mas também diziam que só alguns poderiam falar (quem era do DCE) por questões de "praticidade". Claro que esta história não colou, e todos que quisessem poderiam, desde que se inscrevessem antes, falar no microfone por até 1 minuto.


Na teoria isso deveria funcionar, mas na prática a coisa foi bem diferente. Tive a ligeira impressão de que o relógio corria mais devagar para quem ia lá na frente falar "Esta ocupação foi uma grande vitória, um marco na história do movimento estudantil", do que quem ia se opor às posições do DCE. E o Guardião do Tempo, o Cara que ficava controlando o tempo, fazia questão de a cada 15 segundos dizer para estas pessoas que o tempo estava acabando. Há boatos que o fio do microfone encolhia magicamente quando alguém deste segundo grupo ia falar. Também fiquei com a impressão de que o chefe do DCE estava na fase da fixação oral que Freud falava, pois ele só largava o microfone a cara e custo. E quando largava fazia beicinho (tá, não fazia, mas bem que gostaria de fazer).


Segundo o DCE, todas as reivindicações que citei acima, menos as de número 1 e 2, foram aceitas pelo reitor, graças à ocupação: a taxa do vestibular será cortada pela metade e as isenções totais serão ampliadas já no próximo concurso, os RUs da ESEF e do Vale ficarão prontos até o final do ano, os espaços estudantis estão garantidos e o Instituto de Artes será movido para o antigo prédio da Faculdade de Medicina no Centro. Inacreditável! Uma guria da História que estava sentada do meu lado no chão do saguão fez uma observação muito interessante, que era muito improvável que uma ocupação de um dia conseguisse mudar as idéias do reitor tão rapidamente. Fiz alguns cálculos mentais e cheguei a seguinte conclusão: 400 estudantes na UFRGS, ocupando a reitoria por um dia, conseguiram muito mais concessões do que 1500 estudantes da USP, que ocupam a reitoria deles há mais de 35 dias. Eu esqueci de falar antes, mas o RU da ESEF é uma reclamação antiga dos estudantes, e a manutenção dos espaços estudantis ainda mais, especialmente no caso da Toca. É realmente significativo que o reitor tenha cedido em tantos pontos nevrálgicos. Provavelmente, os projetos já estavam engatilhados, mas agora foi a hora perfeita para o DCE anunciá-los como conquistas do movimento estudantil.


No fim da assembléia, foi decidido que a ocupação já tinha sido vitoriosa, e, para não por as recentes conquistas a perder, ela deveria ser encerrada. Os estudantes sairiam do saguão da reitoria de cabeça erguida! Vitória! "Ocupar, Ocupar, Resistir pra Estudar!" "Na USP, na UFRGS, quem disse que não viu? Quem disse que tá morto o movimento estudantil!"

Dois colegas meus, um tanto quanto mais velhos do que eu, tanto em idade quanto em vida em universidade, disseram basicamente a mesma coisa: quando você vai nessas manifestações políticas, você tem seus próprios motivos para tanto, seja ideologia, inércia ou vontade de fazer baderna. Mas quem articula estes movimentos também tem motivos próprios, especialmente poder. E, mesmo que você não queira, você acaba servindo de escada para eles. É importante lembrar que praticamente todos os políticos de nossa época começaram nos movimentos estudantil ou sindical.


Desta vez, fui apenas um observador. Talvez, numa próxima manifestação relevante eu seja mais do que isso. Não sei. Mas vi que quem entra nessa brincadeira tem que seguir as regras estabelecidas: coação, fraude, incoerência. Talvez eu entre nesta história para acabar com isso, caçar os marajás. Mas eu não posso me esquecer que o último Caçador de Marajás era o maior de todos os marajás. Talvez eu esteja completamente equivocado quanto as minhas posições. Por enquanto eu não sei responder se fiz escolhas erradas. Me perguntem isso daqui a dois semestres.


Já dizia Nietzsche: "Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você."















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-Dicionário para quem está mais perdido do que peido em bombacha:

*USP - Universidade de São Paulo;

*UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Onde eu estudo atualmente;
*DAP - Diretório Acadêmico de Psicologia. Lugar bacanoso;
*RU - Restaurante Universitário. Local de rango barato;
*ESEF - Escola Superior de Educação Física. Também conhecida como Campus Olímpico;
*Campus do Vale - Campus mais isolado fisicamente. Notório pela alta densidade de usuários de substâncias tóxicas (drogados) e por seus parques temáticos (fumódromo). Também conhecido como "A Selva";
*Toca - Lugar todo especial onde os estudantes de Letras e História vão para cheirar maconha e fumar cocaína;
*CECS - Centro Estudantil de Ciências Sociais (presumo eu);
*CEABi - Centro Estudantil da Arquivologia e Biblioteconomia. Só descobri que essa birosca existia ontem;
*DACOM - Diretório Acadêmico da Comunicação. Tem uma mesa de sinuca supimpa lá;
*DCE - Diretório Central Estudantil. Se você procurar no Google, vai aparecer "Você quis dizer: Máfia".

quarta-feira, 28 de março de 2007

Racismo, Liberdade de Expressão e Cotas

Em uma entrevista recente, a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial da Política da Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), disse que é aceitável um negro ter ojeriza à um branco, já, que segundo ela "Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou."

Concordo plenamente, mas percebo um furo na lógica dela: alguém conhece algum ex-escravo vivo por aí, e que possa falar a respeito da chibata?

E há ainda outro detalhe que a nobre ministra não percebeu: se os negros têm direito a exercerem o racismo contra os brancos, os índios e os orientais também. Da mesma forma como os brancos contra todos os outros.

Li essa notícia logo após um seminário sobre Cotas Raciais nas universidades, onde os professores convidados defendiam sua implementação na UFRGS com unhas e dentes. Ele alega que os cotistas da UnB (Universidade Nacional de Brasília) mantiveram a mesma média dos demais alunos não beneficiados pelo projeto. Realmente espero que isto seja verdade, e não um malabarismo com os números.