segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Diálogo Imaginário

Estou bem tranquilo, sentado na frente do meu computador, quando escuto uma voz: "Ei, seu vadio!" A voz parece muito real, tanto, que olho para os lados e pela janela, para ver se havia alguém me chamando. "Aqui dentro, mané!" ela grita outra vez, e eu, espio em baixo da cama para ver se não havia ninguém além de mim no quarto. "Dentro da sua cabeça, animal" vociferou a voz mais uma vez, agora irritada com a minha imbecilidade. Finalmente entendo, e digo para mim mesmo: "hora de tomar gardenal, Andarilho." Com isso, a voz fica ainda mais irritada e diz "GARDENAL É REMÉDIO PRA EPILEPSIA E NÃO UM ANTIPSICÓTICO E NÃO VAI TE FAZER PARAR DE OUVIR VOZES!" Frente à uma lógica tão impecável, sou obrigado a parar de fingir que ela não existe e a escuto.

"O que foi? Alguma coisa errada?" pergunto-lhe da maneira mais cordial que consigo. Nunca antes tinha ouvido vozes, e, apesar de ser algo relativamente preocupante, não me dá permissão de ser mal educado. A voz, contudo, continuou irritada e resmungou "não vai nem perguntar meu nome? Dormi contigo por acaso?" Aturdido, retruquei "por que, se tu é um fragmento da minha imaginação? No final das contas, você sou eu" e fiquei ainda mais aturdido depois disso, por que comecei a pensar nas implicações filosóficas e lingüísticas de "você sou eu". A voz misteriosa continuou o diálogo: "que provas você tem de que eu sou um pedaço da sua imaginação? Eu poderia ser uma idéia implantada telepaticamente na sua mente" Quem ficou impaciente agora fui eu, que perguntei, um tanto rispidamente "foi pra isso que você me chamou a atenção, você que não sou eu?"

"Realmente, não foi" desculpou-se a voz. "Na verdade, vim falar contigo sobre o teu blog, o 'Espadachim Cego'. Por que você não tem atualizado ele?" Sem hesitar, respondi "por que eu tenho mais o que fazer - o estágio está tomando todo o meu tempo". "Então, por que atualizou hoje?", perguntou de novo. "Por que eu quis", repliquei. "Isso não explica absolutamente nada" a voz continuou falando, piorando ainda mais o meu humor "essa tua explicação é uma ficção explanatória, por que considera como causa última do teu comportamento algo que precisa ser explicado contextualmente - no caso, a tua vontade seria um estímulo descriminativo para algum evento ambiental que reforça teu comportamento de escrever posts para o blog". Fiquei irritado "cacete, para uma voz que não é um fragmento da minha imaginação, tu sabe demais dos livros que eu tenho lido." A voz, mais uma vez, responde "telepatia tem suas vantagens, meu caro."

Aquela resposta foi a gota d'água. "OK, agora chega! Eu vou tomar umas cinco gotas de haldol e te fazer sumir da minha cabeça, telepatia ou não!" A voz, agora visivelmente alarmada, continuou falando, tentando me dissudir de tal atitude "mas, mas... EU SOU VOCÊ! Você quer cortar uma parte tão importante de sua vida de uma maneira tão brusca? Quer, quer?" Ainda procurando o vidrinho de haldol, respondi secamente "quero, agora cala a boca e me deixa em paz." Ainda mais alarmada, a voz continuou "mas o haldol não funciona imediatamente. Vai levar alguns dias até que ele atinja concentração suficiente no teu sangue pra fazer efeito. Além disso, é cheio de efeitos colaterais. Tu quer ficar todo torto por causa dos efeitos extrapiramidais? E..." subitamente, a voz parou. Mesmo com o seu silêncio, era óbvio que ela percebera algo que a deixou muito mais assustada. Lentamente, ela voltou a falar "E desde quando tu tem um vidro de haldol em casa?". Nesse momento, respondi triunfante: "o texto pro blog é meu, e nele, o haldol funciona do jeito que eu quero - inclusive existindo em grande quantidade no armário do banheiro, mesmo isso sendo absolutamente irracional de um ponto de vista realista." Tendo dito isso, tomei o vidro inteiro de haldol e a voz, em resposta gritou "Eu voltarei! Minha vingança será maligna" antes de desaparecer completamente, como algum vilão de filme de ficção científica ruim. Então, em paz, eu saí da frente do computador e fui fazer alguma coisa de útil da minha vida ao invés de escrever textos conceituais absolutamente incompreensíveis para o resto da humanidade.

FIM

domingo, 24 de outubro de 2010

Histórias que Entretêm - A Ferida e a Pintura

Aquela não era uma ferida comum. Embora ela tivesse nascido da mesma maneira que todas as outras feridas, em encontrão brusco com a realidade que corta, queima e lacera, a dor que ela causava seguia regras próprias. Ao longo do dia, enquanto o sol brilhasse, e o mundo permanecesse agitado, ela não doía, como se já tivesse cicatrizado ou nem mesmo existisse. Porém, quando a noite e chegava tudo silenciava, a fina casca que a cobria desaparecia, e o sangue voltava a verter, nunca o bastante para matar seu dono - apenas para fazê-lo sofrer. Nestas horas, a única coisa que ocupava sua mente era estancar a hemorragia, encontrar alguma maneira de fazer a dor sumir para sempre. Obsessivamente procurava uma cura, até cansar-se e entregar-se a um sono que, se não o libertava do martírio, pelo menos lhe concedia a fugaz trégua de abandonar tudo que dizia respeito a si próprio, e voltar apenas quando a redentora luz do dia já tivesse chegado, fazendo mais uma vez a dor desaparecer num passe de mágica. Era um homem doente, o sabia, mas de um jeito sutil. Às vezes, nem ele o percebia, e pensava que tudo ia bem. Era a noite que o lembrava de sua condição enferma, de que sofria e que precisava de uma cura. 

No princípio, ignorava que mal lhe acometia. Com o passar das noites, contudo, foi se observando, e viu mais sintomas. A doença era como uma obra de arte complicada, uma pintura quase incompreensível, mas que seguia uma linha-mestre e que possuía um sentido. Pouco a pouco, foi desvendando seus traços, seus contornos, sua forma, seu todo. Contra sua vontade consciente, passou até mesmo a apreciá-la em sua beleza sofrida, de cores cinzentas, escuras e frias, que trazia em si algo de rebelde e teimoso: era sofrida, cheia de dor e mágoa, e mesmo assim, se recusava terminantemente a se macular com reclamações abjetas, indignas, mesquinhas. Lutava para manter-se digna até o final. Isso era ao mesmo tempo profundamente incompreensível e admirável.

A vista foi se tornando mais afinada, e foi encontrando coisas novas. Cada dia que passava contemplando aquele quadro, descobria uma nova ordem, como se os seus elementos tivessem se deslocado, mudado de lugar e composto uma outra pintura enquanto dormia ou olhava para os lados. No começo, a ferida estava lá, bem no meio, sangrando para todos os lados, mostrando sua dor para todos os que tivessem a capacidade (e a vontade) de ver. Mas havia mais, muito mais por se descobrir. Daquela ferida, saía a tinta que pintava o nome de uma mulher, borrado por lágrimas e cercado por espessa camada de melancolia. Quando contemplava esta parte do quadro por muito tempo, ele era imobilizado por um sentimento de inutilidade, desejava a cama, quando não a própria morte, para cair mais uma vez no esquecimento e fugir da dor. Às vezes, porém, fixava sua atenção em outra parte do quadro. Era um borrão que misturava o vermelho do ódio e da raiva com aquela cor pálida da nostalgia, não só do passado como do futuro, tingido com o tom decepcionante da falsa esperança. Quando mirava esta parte, o que lhe possuía era um enorme desejo de quebrar, destruir, causar um estrago irremediável, que amputasse sua ferida a golpes de machado cego. Era seu próprio ódio que falava - ódio não só da ferida ou daquela mulher maldita cujo nome escrevera com o próprio sangue, mas principalmente de si mesmo. Odiava-se por ser tão fraco, por também sangrar, por também sofrer, e por ter que carregar uma ferida tão humana. Esta ferida que agora carregava, já vira em outras pessoas, já causara em outras pessoas. Com elas, manteve-se nobre e distante como um médico em visita, e receitara os mesmos emplastros que hoje recusa, despreza. Ao lado do vermelho do ódio, encontrou o tom alaranjado da vergonha.

Contudo, sua vista foi se tornando mais e mais aguçada, até ser capaz de perceber, para seu espanto, que existia uma cor diferente de todas estas. Em um canto afastado, descobriu um fugaz matiz de aurora e de sol nascente. Era uma nesga pequena, quase irrelevante, mas pura e verdadeira, que não podia ser ignorada. Passou a observá-la mais e mais, e mais e mais se espantava, por que a nesga crescia, ganhava mais brilho e ainda mais cores - um azul celeste de esperança sincera, um verde claro de futuro, outro tom de vermelho, de paixão e amor pela boa briga, e um dourado fulgurante de êxtase. Foi então que finalmente descobriu que a ferida não era o centro da pintura. Pensou que fosse, por que era tudo que conseguia ver até então. No fim das contas, ela era apenas a mais recente de uma série de cicatrizes rosadas que um dia foram cortes dolorosos: também ela cicatrizaria, mais cedo ou mais tarde, e se tornaria uma lembrança entesourada de um tempo de beleza singular. Viu então, pela primeira vez, que restava muito por pintar. Uma imensidão de branco o encarava, pedia por mais tinta e o chamava à ação. Que cores usaria? Não sabia ao certo. Não iria sua ferida voltar a doer? Também não sabia ao certo. Porém, isto não importava, pois precisava continuar aquela obra, antiga e nova ao mesmo tempo. Pegou um pincel, e pôs-se a trabalhar.

domingo, 17 de outubro de 2010

Vlog

Aparentemente, está na moda ter um vlog. Pra quem não sabe, "vlog" é a contração de "Video-Log", e é como um blog, só que com vídeos. Por exemplo, se o Espadachim Cego fosse um vlog, ele não teria textos gigantescos tratando de assuntos irrelevantes, mas teria vídeos de dez minutos onde eu pessoalmente falaria de assuntos irrelevantes, como vlogs.

Criar e manter um vlog é ainda mais fácil do que criar e manter um blog, especialmente nos dias de hoje, quando qualquer idiota tem uma câmera digital de 12 megapixels: é só se filmar falando sobre qualquer coisa. Claro, como qualquer coisa desse mundo, a qualidade do conteúdo dos vlogs varia bastante, tanto quanto o da internet em geral. No Brasil, os mais famosos são o PC Siqueira e o Felipe Melo. Ambos tem um estilo bem diferente de "vlogar" - PC Siqueira é espontâneo e fala tudo o que vem na cabeça na hora de gravar, enquanto Felipe Melo obviamente tem um roteiro (e provavelmente dá uma ensaiada na frente do espelho do banheiro). Surpreendentemente, ambos alcançaram um razoável sucesso, e já podem se considerar subcelebridades nas interwebs canarinhas. Há outros exemplos por aí na internet como um todo, especialmente na parte que fala inglês - atualmente, meu favorito é o da Julia Nunes, que canta sozinha e com recursos e efeitos sonoros próprios as músicas favoritas dela, e que fica muito bom mesmo, mas também tem o clássico That Guy With The Glasses, e o infame Red Letter Media, que são sites mais focados em fazer reviews de filmes (usualmente detonando eles da maneira mais violenta possível - tão violento quanto a internet pode ser).

Olhando todos esses exemplos de sucesso, bem como outros exemplos de fracasso, cheguei à uma conclusão: eu posso ter um vlog também. Qual seria o assunto principal desse vlog? Sei lá. Qualquer coisa que me interessasse por mais de 15 segundos. Teria roteiro, script, seria ensaiado? Olha, como bom cientista humano, seria semi-estruturada: começa com alguma coisa ensaiada e depois descamba para a putaria o improviso. Alguém iria olhar? Provavelmente meu pai, que depois de duas semanas ia começar a reclamar que eu não atualizo de chega (tipo o blog). Seria um vlog engraçado? Para algumas pessoas, provavelmente. A única certeza que tenho é que eu ia me divertir fazendo isso. Aliás, já teria feito se soubesse como usar a câmera do meu laptop.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mochilas, bolsas e outras porcarias que carregam porcarias

Depois de ler o post da Vane sobre como ela prefere mochilas a bolsas femininas, resolvi escrever um texto sobre isso também. Não por que eu não goste de usar bolsas, mas por que tenho o que dizer sobre mochilas, considerando todos os anos de experiência usando diversos tipos de modelos.

Como disse, já usei muitos e muitos tipos de mochilas, inclusive alguns que seriam mais adequadamente classificados como bolsas. As mais clássicas são aquelas que a gente usa para ir pra escola quando pequenos: coloridas, cheias de compartimentos para coisas pequenas e grandes, com um desenho da Mônica e do Cebolinha na parte da frente. A maneira de carregá-las variava conforme a época. Quando eu entrei na primeira série do fundamental, não havia muita frescura: bota no lombo e leva todas as tuas porcarias pra aula. Ou, para ser mais exato, passa as tuas porcarias pros teus pais carregarem, e vai correndo pro pátio brincar com os coleguinhas. Depois, lá pela terceira ou quarta série, começou a moda de mochilas com rodinhas. A explicação por trás delas é que carregar mochilas pesadas nas costas prejudicava o desenvolvimento postural dos pimpolhos, e portanto, levar os materiais escolares em um carrinho de mão seria muito mais saudável. Pessoalmente, eu acho que isso foi invenção de pais cansados de
 carregarem as tranqueiras pelos filhos, que queriam um jeito de não ter que carregar cadernos, livros, lápis e canetinhas (em sua maioria inúteis, por que só usávamos as canetinhas para colorir), ou sofrer menos na hora de carregar.

Não lembro quando parei de usar "mochilas de carrinho", mas lembro que voltei a usar mochilas de botar nos ombros, como também tive um flerte rápido com bolsas do "tipo carteiro". Ela é usada em um só ombro, com uma alça relativamente grande, e, apesar de ser chamada de "bolsa", ela não é feminina. Aliás, ela pode ser bastante máscula.

Apesar da pesquisa no Google indicar o contrário

O problema é que, para carregar os cada vez mais pesados materiais escolares numa bolsa dessas é o que os psicólogos chamam de "pedir pra se foder". Eu fiz isso, e um belo dia, caminhando para a aula, a alça da bolsa se arrebentou sem mais nem menos. Não que fosse algo surpreendente, considerando todos os livros, cadernos e outras porcarias que, apesar de continuarem sendo inúteis mesmo no ensino médio, eu era obrigado a levar todos os dias para a aula. Fiquei um pouco traumatizado com esta experiência, e só voltei a usar esse tipo de bolsa, e a perceber sua utilidade, esse ano, quando viajei para o nordeste. Todos os participantes do Encontro Nacional de Estudantes de Educação Física (ENEEF) ganharam uma capanga, que é basicamente uma bolsa de palgodão cru. Como eu estava lá para fazer turismo e dormir em um lugar barato, ganhei uma também. Apesar de ser bastante bagaceira (vamos e viemos, era só algodão cru), achei ela bastante prática e cômoda para levar minhas coisas, mais até do que a minha mochila. Porém, admito que era uma coisa do contexto - comparado com Porto Alegre e Caxias do Sul, Fortaleza é uma cidade muito mais relaxada e quente, o que torna o ato de carregar mochila algo bastante desconfortável, e torna o uso de capangas muito mais atraente.

Porém, com a exceção desse breve período no nordeste usando capangas, durante todo meu tempo de faculdade, eu só usei mochilas. Aliás, dificilmente consigo sair pra rua sem uma. Atualmente, tenho duas, mas uso realmente uma só, daquelas de carregar notebook. Como a Vane mesmo disse, elas são muito práticas, pois são cheias de divisórias, além de serem espaçosas. Com ela, eu posso carregar tanto meus livros (nunca saia de casa sem pelo menos três - vai que a fila do banco seja especialmente morosa hoje), quanto meus papéis - polígrafos, prontuários e comprovantes autenticados de matrícula - e o eventual pen drive, bem como meu porta escova de dentes. De vez em quando, levo uma muda de roupa, que fica por cima dos livros, mas isso é bem lá de vez em quando.

Por fim, falta falar sobre o último tipo de mochila que uso: a cargueira. Uso esse tipo só quando viajo e tenho que levar minha casa nas costas - várias mudas de roupa, tênis reserva, material de higiene, saco de dormir... enfim, a tranqueirada toda. Elas são muito práticas, entretanto, trazem consigo o pequeno inconveniente de necessitarem re-organização constante, especialmente em viagens longas, para que não machuquem tuas costas com coisas em lugares inadequados (por exemplo, cabo de panela nas costas é bem pouco confortável). E, com elas, a pérola de sabedoria da Vane de "não levar mais de 5kg no lombo" é sumariamente ignorada. No meu último dia na Bolívia, caminhei pelo menos uns 8km por Santa Cruz de la Sierra com uma mochila que eu pensava pesar 15kg, mas que no aeroporto descobri pesar 20kg. Por sorte, já conheço muita gente da Fisioterapia pra futuramente consertar minhas costas. Minha cargueira já tem mais de dez anos, e continua servindo muito bem aos meus propósitos, mas há modelos mais recentes que são realmente muito bons. Nenhuma é no formato do R2D2, mas são legais também.

Para o Infinito e Além

O trampolim estava logo ali, na minha frente, a uns dez ou vinte metros. Para vencer essa distância, apenas uma rápida corrida é necessária. No entanto, se tudo se resumisse à corrida, seria muito mais fácil. Precisava encontrar a velocidade certa - não muito rápido, para não perder o controle, nem muito devagar, para ter energia cinética o suficiente - fazer o tempo certo e a movimentação certa - como fazer para pular no trampolim sem perder o embalo, e como utilizá-lo adequadamente?

Todos estes cálculos passam pela minha cabeça muito rapidamente, em menos de cinco segundos. Claro, para ter pensamentos tão ágeis, ajuda o fato de eu já ter repetido esse processo várias e várias vezes, ainda que várias e várias vezes sem sucesso, em dois aparelhos diferentes. "Ginástica Artística envolve muita cognição, pessoal" disse o professor cinco minutos antes. Essa afirmação me tranquiliza, não sei bem por que. Talvez a palavra "cognição" torne tudo muito mais familiar, fácil de compreender. Tiro da minha memória de longo prazo uma de minhas estratégias metacognitivas e, enquanto espero minha vez para correr até o trampolim e pular no fosso acolchoado, ensaio mentalmente minha performance: me vejo correndo, em velocidade adequada, rumo ao trampolim. Num rápido e suave movimento, faço a transição do solo para o aparelho, e me projeto para o ar. Ainda em minha mente, insiro as correções que o monitor, o professor e os colegas me sugeriram: menos projeção para frente, mais projeção para cima, tomar cuidado com a posição das pernas, pois elas devem ir dobradas, e não estendidas. Por fim, caio nos colchões azuis, e em pé. Pelo menos na minha imaginação, fui bem sucedido. Agora, só restava fazer isso na vida real.

É chegada a hora. A pessoa que estava na minha frente na fila acabara de fazer sua tentativa. Não sei se ele ou ela conseguiu fazer um salto mortal e cair em pé, e naquele momento, pouco importava, pois toda minha energia tinha um único foco, o meu próprio salto mortal. Reviso rapidamente todo o processo - tantas coisas para fazer em menos de cinco segundos! Olho para o professor uma última vez, para ter certeza de que ele está prestando atenção em mim. Espero um sinal, algo que me diga "pode ir", enquanto pensamentos ricocheteiam dentro do meu crânio. Oliva, o professor, olha para mim e balança a cabeça. É a hora. Os pensamentos que antes me incomodavam desaparecem como num passe de mágica. Não há nada acontecendo em meu organismo que não seja o preparo para salto mortal. Minha mente e meu corpo tornaram-se um só através da ação.

Racionalmente, sei que tudo não passou de um breve momento, mas, relembrando todo o processo, parece uma eternidade. Antes de ir, digo "agora vai!", como que em desafio ao Deus do Fracasso que se intrometera em todas as minhas tentativas anteriores. Corro, salto com os dois pés para cima do trampolim e subitamente me vejo no ar. Nos poucos segundos que tenho ali em cima, sou tomado pela certeza de que eu estou voando, ou pelo menos "caindo com estilo". A gravidade faz seu trabalho, e logo começa a me trazer para o solo. Encolho as pernas e projeto meu quadril. Caio sobre os meus dois pés no colchão, e tão rapidamente quanto posso, olho para o professor e perguntou "fiz certo?" Dessa vez, ele diz que sim.

Saio do fosso, e a tarefa do dia está terminada. Acabou. Eu, porém, continuo pensando nela. Eu quero mais, eu quero voar outra vez, ainda mais alto. Para o Infinito e Além!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Crônicas de um Restaurante Universitário

Estou no meu estágio outra vez, e, como como surgiu uma folguinha, decidi escrever aqui no blog outra vez sobre meu assunto favorito: o RU. Eu sei, eu sei, dizer que RU é meu assunto favorito é o mesmo que dizer que o Clodovil era afrescalhado. Tenho a impressão que toda vez que eu digo "oi, vou falar do RU hoje" vocês reagem da mesma maneira aos Testemunhas de Jeová que batem na sua porta e perguntam "posso te falar sobre Jesus?" A diferença entre eu e os Testemunhas de Jeová é que eu não bato na sua porta pra falar do RU (e se eu fizesse, seria por que eu não tomei meu antipsicótico) - na verdade, quem vem ler minhas ridículas opiniões sobre o Restaurante Universitário da UFRGS é você, então eu não sei por que estou me justificando aqui.

Mas, voltando ao assunto, minha opinião é clara: o RU é do caralho. Tudo que se refere à esta instituição, se não me faz ficar feliz por ter vindo estudar em Porto Alegre, pelo menos me faz rir, como o estranho hábito que todo calouro da UFRGS desenvolve de descascar laranjas com colheres. Eu até fiz um trabalho de Antropologia sobre essas coisas! E hoje, mais uma vez caminhando do ambulatório para meu almoço, percebi: o RU me transformou em mais um esquisitão da UFRGS, por que nunca, de maneira alguma, um restaurante em Caxias do Sul, mesmo o RU da UCS me faria achar que andar com um vidro de azeite de oliva e outro de queijo ralado dentro de um pote de sorvete da Kibon de baixo do braço seria algo normal. Mais engraçado ainda, ninguém dentro do RU achou estranho - bom, pelo menos ninguém me abordou e perguntou "ô amigo, que porra é essa?", o que já é sinal de alguma coisa.

Outra coisa que me chamou a atenção hoje foi a fila: não havia uma. Quero dizer, havia uma sim, mas nada que se compare com as monstruosidades que já vi por aqui ainda esse ano. Com a reforma e a expansão do RU aqui do Vale, não é mais necessário esperar 40 minutos na fila para poder comer o feijão com arroz mais maravilhoso do mundo - hoje fiquei menos de 5 minutos, isso considerando toda a embananação que me deu ficar segurando o pote de sorvete da Kibon. Contudo, apesar de ficar maravilhado com isso, não pude deixar de notar que o bandejão estava funcionando no limite de sua capacidade. Como nos meus tempos de bixo no Campus Saúde, era plenamente possível encontrar lugar para todo mundo se servindo, mesmo estando todas as cadeiras ocupadas, por que o fluxo de clientes é ágil o suficiente para que as pessoas se sirvam, sentem, comam e vão embora, deixando seus lugares para os que chegam depois.

Esse é um equilíbrio delicado, especialmente se considerarmos a época em que vivemos. Agora, eu posso ir almoçar às 12:30 e não ficar com cãimbra de esperar em pé, mas cada começo de semestre pode jogar tudo isso pelos ares. Logo depois que virei veterano, criei o saudável hábito de, no início de cada semestre, passar do lado da fila do RU usando a roupa que mais me deixasse com cara de mendigo louco, fazendo cara feia e dizendo "malditos bixos" e algumas ameaças, para ver se a fila diminuía mais rapidamente. Mas aquela era uma época mais simples, quando o REUNI não existia, e a possibilidade de um curso novo brotar da terra era inexistente. Agora, todo ano, somos confrontados com o risco de alguma unidade criar uma graduação nova, como Massagem Erótica, que, além de roubar mercado da Fisioterapia, atravanca a fila do RU com mais bixos e mais pessoas comendo no RU. São tempos difíceis.

Outra coisa difícil são as prefeituras dos campi, e as decisões que elas tomam. Por exemplo, esses dias, voltando para casa, tomei um atalho e passei do lado do RU da Saúde. Descobri então que colocaram uma grade em volta do restaurante. Por que? Não faço a menor idéia, mas eu acho que é para atrapalhar todo mundo, por que a entrada agora só pode ser feita por um lado da rua, e justamente o lado mais difícil.

Por fim, por que eu escrevi esse post? Por nenhum outro motivo além de que o RU é, realmente, do caralho, e merece mais um post aqui para atestar isso.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ginástica Artística Aplicada à Linguagem

Hoje apareceu um comentário anônimo num post meu falando sobre uma gíria portoalegrense, dizendo que curtiu o texto, e que eu deveria escrever mais textos sobre outras expressões idiomáticas utilizadas por aqui. Apesar de ter gostado das sugestões, fiquei com vontade de escrever um pequeno post sobre uma expressão que nasceu faz pouco tempo, provavelmente vai ser esquecida pelo público em três dias, mas que eu achei o máximo e vou utilizar quando encontrar o contexto apropriado: Salto Triplo Carpado Hermenêutico.

Estava eu no twitter, tocando minha vida como de costume, quando olho os Trending Topics Brazil, os assuntos que estão bombando nos tuíteres tupiniquins, e vejo essa frase. Obviamente, me assustei, por que a palavra "Hermenêutica" só pode ser utilizada em duas situações: 1) em um contexto acadêmico, discutindo a relevância da obra fenomenológica-existencial de Merleau-Ponty para a filosofia contemporânea e 2) quando um assassino profissional aponta uma arma para sua cara e pergunta quais são as suas últimas palavras, e você tenta enrolar ele para te manter vivo. Como eu considero discussão de Merleau-Ponty o equivalente intelectual de um apocalipse zumbi, as duas situações supracitadas são de vida ou de morte - hermenêutica não é uma palavra que se usa assim, como quem fala cu.

Então, fui procurar no Google essa expressão no Google, para descobrir se ela surgiu de algo que apareceu na mídia, ou foi alguma campanha viral para promover a nova edição de "Fenomenologia da Percepção", ou um meme criado por algum intelectual entediado como eu. E eis que, pela primeira vez em muito tempo, a realidade é mais satisfatória que a ficção: encontrei esse link aqui explicando tudo. Não vou ficar resumindo a notícia pra vocês por que ela é bem curtinha, e vou dizer só o seguinte - é mais genial do que eu imaginava. Por isso, acho uma pena que essa expressão, ao contrário de bestialidades como "né brinquedo, não!", "óia a faca!" ou qualquer outra coisa que o Zorra Total tenha produzido em seus dez anos de existência, não vire um meme em seu pleno direito, e se torne parte de nosso vocabulário, nem que seja por um mês apenas.

Assim sendo, concluo, através de um Salto Triplo Carpado Hermenêutico, que nós devemos divulgar essa expressão por todo o Brasil, mesmo que ninguém entenda o que ela significa.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Experiências Cinemáticas - O Exterminador do Futuro II

E, conforme prometido, acabei de assistir "O Exterminador do Futuro II". E, conforme eu não tinha prometido, vou escrever uma resenha sobre esse filme também, aproveitando que ele está fresco na minha memória.

Como eu disse no post anterior, todo mundo já assistiu "O Exterminador do Futuro II" pelo menos algumas vezes na Tela Quente, ou qualquer outro programa de filmes da TV aberta - eu também, tanto que minha lembrança de certas cenas é bastante antiga. Ainda assim, assistir esse filme tendo assistido sua "preqüência" faz toda a diferença. Talvez não tanto em termos de história, já que é plenamente possível vê-lo e entender tudo sem ter visto o número 1, mas sim para fazer algumas comparações.

Fica claro, pelo menos para mim, que o primeiro filme da franquia tinha um orçamento muito menor do que o do segundo. Como apontou um anônimo nos comentários do post anterior, James Cameron era apenas um ilustre desconhecido quando lançou "O Exterminador do Futuro". Certamente ele não poderia ter na época os mesmos recursos dos quais ele dispunha na produção e gravação do segundo filme. Não vejo isso nem como bom, nem como ruim. Entretanto, isto certamente afeta o desenvolvimento da trama.

É muito comum na indústria cinematográfica acontecer o que o TV Tropes chama de Real Life Writes the Plot - isto é, a Vida Real Escreve a Trama. Nos casos em que isto acontece, o diretor, ou quem quer que seja o responsável pelo roteiro, é obrigado a fazer mudanças na história por que algum problema de gravação ou produção não permite que a idéia original seja posta em prática. O próprio "Exterminador do Futuro" foi vítima disto: James Cameron queria que o filme fosse uma guerra de robôs, o que implicava em vários robôs ao mesmo na tela. Entretanto, como ele não tinha cacife para bancar uma coisa dessas, resolveu adotar uma outra abordagem: pegar um ator de verdade, ou, na falta disso, Arnold Schwarzenegger, dizer que ele é um robô do futuro com pele humana e por ele a caçar uma pessoa nos tempos de hoje. Qual história é mais impactante? O filme teria sido melhor se James Cameron contasse desde o início com todo o dinheiro e recursos do mundo no primeiro filme do Exterminador? Francamente, é difícil dizer, mas, na minha opinião, a história que ele nos contou, sobre um andróide extremamente humano que vem do futuro eliminar nossa última esperança é muito mais cativante (e assustadora) do que robôs lutando contra robôs, e talvez Cameron não fosse o titã hollywoodiano que é hoje com ela, nem Schwarzenegger governador da Califórnia.

O fato é que, muitas vezes, a vida real escrever a trama, e mudar o que o diretor tinha em mente de alguma forma, é uma coisa positiva, por que acaba limpando o roteiro de idéias ruins, e substituindo-as por outras mais dinâmicas. E, quando o diretor tem poder demais sobre o filme, este processo acaba não acontecendo. Dizem por aí que este é o principal motivo para os novos filmes da saga de Star Wars serem tão inferiores à trilogia antiga - como George Lucas tinha todo o dinheiro do mundo, toda a tecnologia e ninguém para lhe dizer coisas como "hey, George, a trama está muito ruim e não faz sentido", "sério cara, você está muito preocupado com efeitos especiais" e "por favor, mata esse coelho retardado com sotaque jamaicano", os erros fundamentais da trama não foram eliminados.

Quero dizer com isto que "Exterminador do Futuro II" é ruim por que dispôs de dinheiro demais para sua filmagem, e que Cameron deixou o poder subir à cabeça? Não. Na verdade, apesar de achar o primeiro filme da série muito melhor, sua continuação é também excelente. Quero apenas apontar que a quantidade de recursos disponíveis afeta de maneiras imprevisíveis a produção de um filme. Fica óbvio que, além de ter mais pilas pra gastar, Cameron também tem objetivos muito mais ousados com "Exterminador do Futuro II". Com o primeiro, ele tinha que se preocupar apenas em lotar os cinemas e convencer as pessoas a irem às locadoras pegar em VHS. Ele conseguiu, e com um sucesso retumbante. Agora, com este filme que acabei de assistir, ele não se preocupava mais com isso - ele sabia que o sucesso comercial para ele era líquido e certo. Como ele fez ano passado com "Avatar", ele se dedicou ao desenvolvimento de novas tecnologias cinematográficas, como técnicas de animação digital mais avançadas, de filmagem e também de narração. O resultado? Outra obra-prima. Tenho que dizer que, polêmico do jeito que é, James Cameron é um mestre no que ele faz. O que ele faz? Duas coisas: contar histórias e ganhar dinheiro contando essas histórias. Talvez alguém poderia acusá-lo de ser "clichê" ou "manipulativo", por usar tantos símbolos e temas emocionalmente carregados para a grande parte da humanidade, mas eu considero isto parte de sua genialidade. Em "Exterminador do Futuro", ele abordou nosso medo de sermos destruídos por nossas próprias criações, ao mesmo tempo humanas e monstruosas; na seqüência, ele continuou com este tema, e o expandiu, colocando a velha questão "podem máquinas aprender a amar?" em pauta mais uma vez. Pode ser exagero meu chamá-lo de filósofo; porém, os seus filmes contém muito daquilo que poderia se chamar filosofia, e fazem os espectadores pensar de maneiras diferentes.

"Exterminador do Futuro II" não é melhor do que seu antecessor, mas se sustenta sozinho brilhantemente e, em alguns momentos, até mesmo supera o primeiro filme. As cenas de ação, na minha opinião, apesar de serem mais bem montadas, simplesmente por causa do excesso de dinheiro disponível, não são tão boas quanto as do primeiro, que passa melhor a idéia do desespero por trás de uma luta contra máquinas. Ainda assim, são muito boas, e te deixam, 20 anos depois da estréia, em um permanente estado de expectativa por John Connor e sua família. As expressões faciais de tronco de árvore de Schwarzenegger são muito bem utilizadas, e sua interação com o jovem John Connor, que acaba vendo-o como um pai, são de fazer muito marmanjo chorar (não que tenha acontecido comigo, claro). Por fim, Linda Hamilton reprisando o papel de Sarah Connor está fantástica. Quem mais fica impressionado com sua atuação é quem viu o primeiro filme, e é tomado pela sensação de "quem te viu, quem te vê": de moça simpática que trabalha num restaurante, à máquina destruidora que faz de tudo para proteger seu filho e treiná-lo para ser um grande líder militar, ela é muito convincente.

Então, se você não viu esse filme, além de sair de baixo dessa pedra onde você está morando nos últimos 20 anos, eu recomendo que você assista os dois primeiros filmes da série "O Exterminador do Futuro" em seqüência, por que vale muito à pena.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Experiências Cinemáticas - O Exterminador do Futuro

Olá mais uma vez, meus queridos! É com alegria que volto a escrever aqui no blog depois de quase um mês de ausência. Tenho, todavia, uma boa desculpa, por que, desta vez, ao invés de não escrever nada aqui por que estava sendo meramente preguiçoso, eu estava sendo meramente preguiçoso no norte e no nordeste do Brasil. A mudança geográfica, que aconteceu por causa do Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia (ENEP) e do Encontro Nacional de Estudantes de Educação Física (ENEEF), torna minha inatividade mais facilmente justificável, visto que não tinha computadores sempre à disposição como tenho aqui em casa, e que precisava pagar para utilizar aqueles que estavam por perto. Além disso, acho um tanto quanto chato ficar escrevendo e pensando em textos para o blog enquanto viajo. Mas eu não vim aqui só para justificar minha falta de atualizações. Venho aqui hoje com o propósito de escrever sobre cinema.

Senti vontade de assistir uns filmes este final de semana, e então, passei na locadora e peguei dois: "Star Wars - Uma Nova Esperança" e "O Exterminador do Futuro". Sobre "Star Wars" não há muito o que falar, ou melhor dizendo, há muito o que falar, mas não é o que eu quero falar a respeito. Sou muito fã da série, tanto que peguei o filme pela enésima vez, mas acho que, justamente por tê-lo assistido tantas vezes, seu impacto foi muito diferente de ter assistido "O Exterminador do Futuro" pela primeira vez. Pois é, hoje foi a primeira vez. Todo mundo já assistiu o segundo filme em alguma noite chata na "Tela Quente", muita gente já viu o terceiro e tenho minhas razões para crer que bastante gente viu o quarto filme (por que o personagem principal é o Batman). Agora, quem assistiu o primeiro, aquele que deu origem à série? Também muitas pessoas, mas a maioria delas é do tempo que a Rita Cadillac era a "Rainha do Bumbum" - ainda estou por encontrar alguém com menos de 35 anos que viu o filme. O que é uma pena, por que ele é muito bom.

Antes de falar mais aprofundadamente do filme, gostaria de falar sobre alguns aspectos contextuais dele. Segundo o Internet Movie Database, "O Exterminador do Futuro" estreiou nos cinemas em 1984, a mais de 25 anos. Para fazer uma comparação tosca, eu tenho 21. Muita coisa mudou nesse tempo: os computadores ficaram mais modernos, as roupas ganharam outras cores, os penteados ficaram menos ridículos e o filme bombou e entrou para a cultura pop como um marco. Hoje, todo mundo sabe de onde saiu a imortal frase "I'll be back", que John Connor vai liderar a resistência humana contra os robôs no futuro apocalíptico e que Sarah Connor é dura na queda. Em outras palavras, o final do filme hoje é de conhecimento geral. Obviamente, não era assim quando o filme entrou em cartaz no cinema, e por alguns anos depois de já ter saído. Assistir o filme hoje, mesmo que pela primeira vez, não causa o mesmo impacto que causaria em 1984, por causa de todos estes motivos que listei acima, e isto é muito perceptível. Quando o filme começa, sabemos que os dois caras que aparecem pelados no meio de uma tempestade elétrica são do futuro, e que um é humano e um é andróide. Só isso. Podemos inferir que eles são inimigos com base no gênero do filme e na Lei de Conservação dos Detalhes (por que mandariam duas pessoas do futuro, se não fosse para elas se pegarem no soco?), e que o fortão é um andróide por que ele é o mais racional e metódico, igual a uma máquina, e por que ele arranca com as mãos o coração de um punk. Entretanto, aposto que muita gente na época deve ter pensado "puxa, como esse magrão é forte". Também demora um pouco para ficar claro que o que eles querem fazer está relacionado à uma mulher chamada Sarah Connor - mas o que eles querem com ela? Protegê-la? Matá-la? Fazer sexo grupal com ela? De novo, pode se inferir com base nos mesmos princípios citados anteriormente, mas ainda é pura intuição. E por que eles querem ela especificamente?

O filme vai, lentamente, respondendo a cada uma dessas perguntas: o loiro, chamado Kyle Reese, é um soldado humano do futuro, enquanto que o moreno fortão é um andróide. Reese foi enviado para proteger a mesma mulher que o andróide exterminador foi enviado para matar. Esta mulher, Sarah Connor, é o alvo de tanta atenção por que ela será a mãe do futuro comandante da resistência contra os andróides, que no futuro dominam o planeta e buscam com todas as forças destruir os humanos que sobreviveram à guerra nuclear. Só bem no final, descobrimos que Reese é na verdade o pai de seu comandante, que o mandou não só para proteger sua mãe, como também para ser seu pai de fato.


E o filme conta tudo isso em um ritmo incansável e envolvente, que não te deixa parar para pensar e ficar de saco cheio. Aliás, mesmo nos momentos que eu parei para ir no banheiro e pensei, não fiquei de saco cheio. Pelo contrário, me senti ainda mais empolgado com a história. Obviamente, assistir um filme passados 25 anos de sua estréia é uma experiência prejudicada por do que a influência que ele exerceu na cultura: outros elementos também acabam fazendo com que ele pareça velho. Por exemplo, as músicas que tocavam durante as cenas de ação são anos 80 demais para mim. As idéias de como fazer filmes de ação da época, bem como aquelas sobre música, mudaram dramaticamente. Para uma pessoa nascida depois de 1988, "O Exterminador do Futuro" parece um filme lento, com uma trilha sonora composta por arquivos .MIDI vagabundos. Na minha opinião, o filme envelheceu bem, e só alguém muito chato e cabeça oca diria que ele é chato. Entretanto, as diferenças permanecem.

Por fim, gostaria de dizer que, embora considere o primeiro "Exterminador do Futuro" o melhor de toda a série, ele fica melhor ainda depois de se assistir o segundo (que também é muito bom, diga-se de passagem). No primeiro, Sarah Connor é uma mulher normal, que trabalha num lugar meio podre, sai para a balada com a melhor amiga e praticamente borra as calças quando percebe que tem um assassino em sua cola. No segundo, porém, a história é outra: ela é uma máquina de combate, e treina seu filho para ser ainda melhor do que ela para enfrentar seu terrível destino. Essa mudança começa ainda no primeiro filme, quando ela destrói sozinha o que resta do Exterminador (com direito a um One Liner "you're terminated, fucker!") e depois vai para o México comprar armas. Realmente foderoso.

Enfim, "Exterminador do Futuro" é um bom filme, e recomendo a todos que ainda não o assistiram a corrigir este terrível erro em suas vidas o quanto antes, por que foi relançando em DVD, para que nós, filhos do século XXI, possamos assisti-lo em toda sua glória. Vou aproveitar o embalo e os últimos dias de férias para assistir os outros filmes da série, mesmo que não sejam tão bons assim, só pra ver a história evoluir.

domingo, 4 de julho de 2010

A Finaleira do Semestre

Fazer faculdade é tudo de bom, especialmente se tu estudas em uma universidade graúda como a UFRGS - tu tens acesso a livros de graça aos montes através das bibliotecas, faz grandes amigos nas cadeiras, descobre festas bisonhas nos lugares mais estranhos possíveis, compra cerveja barata e conhece um monte de gente bonita e inteligente. Daí chega o final do semestre e tu te lembra por que tu entrou para a faculdade para início de conversa: aprender um ofício.

OK, talvez "aprender um ofício" seja uma maneira capitalística demais de dizer qual a função do ensino superior, além de ser também restrita demais: socializar, conhecer gente nova e se divertir são alguns dos objetivos da faculdade, mas eles são dependentes, pelo menos em parte, da parte séria dela - estudar, fazer trabalhos, fazer provas, passar nas cadeiras e eventualmente se formar e ganhar um diploma.

O grande problema do final de semestre é que ele surge subitamente. Você está lá, bem feliz, lendo seus livros, saindo com seus amigos, dando em cima daquela sua colega bonitinha, quando, de repente, você olha sua agenda e percebe que precisa fazer 5 trabalhos e estudar para 4 provas na mesma semana. Diante de tão tenebrosa missão, você calcula quanto tempo dispõe para fazer tudo de maneira organizada, saudável e que te permita continuar se divertido adequadamente, e conclui que não tem tempo pra mais porra nenhuma. Você até elabora uma escala de horários, se planeja, faz tabelas, promessas e juramentos à Santo Expedito e à Santa Rita de Cássia, e tem certeza de que, se aderir a elas, vai dar tudo certo, mas, então, acontecem duas coisas. Ou você adere, e não dá certo, ou você não adere, e não dá certo também. Por que, veja bem, só há uma coisa certa no final do semestre: você vai se ferrar por causa dele. Então, parafraseando aquele velho ditado, "em caso de prova de Neuroanatomia ou trabalho de Avaliação Psicológica, relaxe e goze!"

Não vou dizer para não se preocupar com o final de semestre, e o tsunami de responsabilidades que vem junto com ele, mas também não vou dizer para você deixar de se divertir por causa dele. Lembre-se, Deus não fez o mundo em 6 dias - ele ficou de coçação por 5 dias e ficou a madrugada inteira do sexto trabalhando. Faça você o mesmo. Agora, com licença que eu tenho mais quatro trabalhos pra entregar terça-feira...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Copa do Mundo II

Brasil perdeu o jogo contra a Holanda. Por um lado, isso é triste, mas, por outro, isso faz com que meu time preferido de todos os tempos deste ano fique mais próximo de ganhar o copa.

FORÇA PARAGUAI!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quando o Semestre Acabar...

... Eu vou ter um volume obsceno de tempo livre, e não vou saber o que fazer com ele. Prevendo este problema, aqui vai uma lista das coisas que eu pretendo fazer com meu superávit de coçação de saco:

1) Assistir "Tropa de Elite" e "Cidade de Deus";
2) Fazer uma maratona de "Star Wars" e "Star Trek";
3) Ir para o Encontro Nacional de Estudantes de Enfermagem;
4) Ir para o Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia;
5) Ler "The Once and Future King";
6) Ler mais Jung, Adler e Freud;
7) Ir mais vezes na Redenção;
8) Ir no Gasômetro perder meu tempo;
9) Ir no Fantaspoa;
10) Comer pastel na Venâncio Aires;
11) Treinar Kung Fu com mais calma;
12) Chamar amigos para ver filmes e comer porcarias;
13) Ler mais sobre Desenvolvimento Humano;
14) Assistir "De Volta para o Futuro";