quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dando a Cara à Tapa

Hoje teve o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Na verdade, foi ontem, considerando que já são duas da manhã do dia 16, mas isso não importa. O jogo foi contra a Coréia do Norte. Considerando que este país está longe de ser uma potência do futebol como o nosso Brasilzão, era de se esperar que nós ganhássemos o jogo de hoje. De fato, nós ganhamos. Entretanto, por ser a Coréia um time ruim, deveríamos ter ganho de lavada. 4 a 0. 5 a 0. 6 a 0! Só que não foi assim, e o jogo terminou 2 a 1 - dois para o Brasil, um para a Coréia.

Não foi um resultado bom. Aliás, para muitos brasileiros, foi um resultado horrível. "Onde já se viu ganhar só de 2 a 1 da Coréia do Norte?" muitas vozes por todo o país perguntam, inconformadas. Estas vozes querem saber como a nação pentacampeã possa ter tido tantas dificuldades para vencer um time tão ruim, tão fraco, tão sem história e tradição. Elas querem saber tudo isto, mas estão mais preocupadas com uma coisa: chamar o Dunga de retardado.

Dunga, o técnico de nossa seleção, tem uma missão simples, porém importante: fazer o Brasil hexacampeão mundial de futebol. Para tanto, ele precisa escolher os jogadores e as táticas utilizadas durante as partidas, e comandar o time rumo à vitória. E, ao seu dispor, ele tem a nata do futebol internacional, os melhores jogadores, os que mais fazem gol - os brasileiros. Tendo isso à mão, ele deveria ganhar um joguinho contra um time de nada como a Coréia do Norte como o Michael Schumacher ganhava na Fórmula 1. Assim sendo, 2 a 1 é um resultado ridículo, e o fato do Brasil ter ganho desta maneira da Coréia do Norte sob a tutela de Dunga é prova irrefutável de seu retardo mental. E, para deixar ainda mais claro quão incapaz é Dunga de comandar a Esquadra Canarinho, os repórteres da Globo vão entrevistar quem realmente entende de futebol, quem sabe do assunto e que, se fosse técnico da seleção brasileira, certamente traria o caneco para casa: o torcedor mediano. Ninguém acompanhou mais copas que ele, ninguém analisou mais tabelas de campeonatos que ele, e ninguém conhece o estilo dos muitos e muitos times e jogadores do que ele.

Com base neste vasto e impecável conhecimento, ele destrincha com facilidade o assunto da copa, e através do microfone da TV do Plim-Plim, destila pequenas gotas de sabedoria boleira para Dunga, o Retardado: quem ele deveria escalar, qual esquema tático utilizar, como se preparar para a próxima partida e, é claro, quão imbecil ele (Dunga) realmente é, por não ter convocado Neymar e Ganso para irem para a África do Sul. O torcedor mediano deixa claro como cristal que, fosse ele o técnico, a Coréia teria tomado uma tunda, e que ele sairia carregado pela torcida por ser um indivíduo tão genial e visionário.

E é aqui que eu começo a ficar com raiva.

Talvez Dunga seja retardado, talvez tenha sido um erro não convocar Neymar e Ganso, e talvez colocar quem ele colocou no ataque fosse a pior coisa que ele poderia ter feito. Talvez. O que nenhuma dessas pessoas entrevistadas pela Globo, que escrevem nos seus blogs e nos seus twitters sobre a incompetência do nosso técnico percebem é que elas não estão lá na África do Sul, tentando levar o Brasil à vitória. Quem está fazendo isso é o Dunga. Eu preciso dizer o óbvio aqui, por que talvez isso não seja tão óbvio assim, mas isto quer dizer que ninguém pode entender de fato o que está acontecendo com a seleção brasileira nesta copa, a não ser o próprio Dunga.

Sim, caio em mais um talvez: talvez ele não seja o cara mais preparado para desempenhar esta função, e talvez haja alguém mais capacitado para isto. Lembro-me de ter visto, pouco tempo depois da copa de 2006, alguma previsão do professor Jucelino da Luz, que dizia que o Brasil perderia a Copa do Mundo para a Alemanha se o técnico não fosse o Felipão. Não sei onde vi isso, nem quero saber, por que não importa. Uma vez mais, talvez Felipão devesse ser o comandante em chefe este ano. Entretanto, ele não é, por que esta missão coube a Dunga levar a bom termo.

Depois de despejar sua sabedoria no mundo, o torcedor mediano volta para a sua rotina, esquece do grande drama por trás da não-convocação daquele cara com apelido de bicho e só volta a se incomodar com a Copa do Mundo no próximo jogo, quando ele mais uma vez fica indignado com o desempenho da seleção. Dunga não pode ser dar esse luxo. Cada minuto de seu dia é devotado a resolver um só problema: como ganhar o próximo jogo. E não só ele deve resolver este problema, como ele deve fazer isto enquanto se justifica para todo o Brasil - explicando por que fez isso em vez daquilo, assim em vez de assado - através de um bando de repórteres ansiosos por um erro seu.

Contudo, a maior diferença entre Dunga e aqueles que reclamam dele reside no fato que, independente do Brasil vencer ou não a Copa, quem reclamou continuará vivendo como sempre viveu (além de poder continuar reclamando de Dunga muito tempo depois da Copa ter acabado). Dunga não: toda sua vida futura depende do seu desempenho na África do Sul. Se o Brasil perder, ele será para sempre lembrado como "aquele técnico meia-boca que perdeu em 2010". Não haverá justificativas, paliativos ou argumentos que modificarão isso. Entretanto, se nós ganharmos, ele será para sempre lembrado como alguém glorioso, visionário e obstinado, e que sem sua liderança, a seleção seria incapaz de ganhar qualquer partida que fosse.

Quem entre os críticos, os difamadores e comentaristas possui a coragem de dar tamanho salto no escuro, e de apostar toda sua vida em um fugídio momento de glória? Nenhum, eu diria, por que criticar é fácil, seguro, conveniente. Depois de chamar Dunga de retardado em cinco línguas, eles podem voltar a viver como sempre viveram, tranquilamente. Porém, eles não criaram nada de novo, nada de bom, por que se mantiveram naquela zona cinza de conforto onde se encontram os pobres de espírito, que nunca fracassaram por que nunca tentaram nada glorioso. Pode ser que o futebol não seja realmente importante, e que Dunga esteja perdendo seu tempo dirigindo um bando de homens para correr atrás de uma bola de couro. Ainda assim, ele aceitou enfrentar uma tarefa grandiosa. Sim, ele pode terminar esta copa completamente desgraçado, sendo desclassificado ainda na primeira etapa. Ainda assim, eu o consideraria mais digno de respeito que todos aqueles que levantaram sua voz para chamá-lo de incompetente, por que ele escolheu correr todos os riscos, e mesmo a sua mais retumbante derrota será mais gloriosa que todas as críticas reunidas.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Barreiras

A única coisa que me impede
De derrubar estas paredes
São estas grades de papel
Que eu mesmo construí

domingo, 13 de junho de 2010

Sobre a Concentração

"No Koyogunkan, um homem pergunta:
-Quando enfrento o inimigo, sinto-me como se tivesse entrado na escuridão. Por causa disso, acabo me ferindo. Apesar de já ter enfrentado muitos homens famosos, você nunca se feriu. Por quê?
E o outro responde:
-Quando eu enfrentava o inimigo, obviamente também era como estar no escuro. Mas, se na hora eu acalmasse minha mente, a escuridão se tornava uma noite iluminada pelo pálido luar. Se eu atacasse nesse momento, sentia que não seria ferido.
Essa é a situação no momento da verdade."

(Adaptado de "Hagakure", páginas 196-197 - Editora Conrad)

Sobre a Dedicação

Estou lendo "Hagakure - O Livro do Samurai". Baseado nas preleções de um velho samurai chamado Yamaoto Tsunemoto, que viveu no Japão do século XVIII, o livro é uma pequena coleção de gotas de sabedoria e anedotas sobre o Bushido, o Caminho do Guerreiro, que se fossem proferidas hoje, seriam consideradas profundamente ridículas ou profundamente ofensivas. Entretanto, para um livro de notas breves ser publicado e lido nos nossos dias, ele deve ser mais do que uma piada histórica. E de fato, nas páginas de "Hagakure", encontrei esta pequena história, que, para mim, é uma parábola sobre dedicação total à uma tarefa:

"Quando o sacerdote Daiyu, de Sanshu, foi fazer uma visita a um doente em um determinado local, disseram a ele:
-O homem acabou de morrer.
-Isso não deveria ter acontecido neste momento. Será que foi falta de tratamento? Que pena - exclamou Daiyu.
O médico estava presente naquele exato instante, e escutou o que foi dito do outro lado da porta de papel.
-Escutei Vossa Reverência dizer que este homem morreu por falta de tratamento - disse, extremamente irritado. -Como sou um péssimo médico, isso provavelmente é verdade. Ouvi dizer que um sacerdote budista encar o poder das Leis de Buda. Então, traga este homem de volta à vida. Sem uma prova como essa, o budismo é inútil.
Daiyu ficou aborrecido, mas achou que era imperdoável para um sacerdote deixar que o budismo fosse difamado, então disse:
-Então eu vou lhe mostrar como trazer alguém de volta à vida com orações. Por favor, espere um momento. Eu preciso me preparar - e voltou ao templo.
Logo ele voltou, sentou-se e começou a meditar junto ao corpo. Pouco depois, o homem morto começou a respirar e depois reviveu por completo. Dizem que viveu por mais seis meses. Como esse fato foi relatado diretamente pelo sacerdote Tannen, não paira dúvidas sobre ele.
Quando perguntado a respeito da oração que utilizou, Daiyu disse:
-Essa prática não é comum em nosso culto, portanto, eu não conhecia nenhuma oração específica. Eu simplesmente foquei meu coração nas Leis de Buda, voltei ao templo, afiei uma espada curta, que tinha sido dada ao templo como oferta, e a escondi em minha roupa. Então encarei o homem morto e orei: 'Se existe força nas Leis de Buda, volte à vida imediatamente". Eu estava comprometido de tal forma que, se ele não tivesse voltado à vida, eu certamente iria cortar minha barriga e morrer abraçado ao corpo."

(Adaptado de "Hagakure", página 194-195 - Editora Conrad)

sábado, 12 de junho de 2010

Meu Dia em Imagens

Hoje, sábado, 12 de junho, é Dia dos Namorados. Neste exato momento, pelo menos cinco casais apaixonados se beijaram em Gramado, três trocaram presentes e quatro fizeram sexo em lugares públicos. Eu, por estar solteiro, não fiz nenhuma dessas coisas, por que eu estou no meu estágio, esperando os pacientes da tarde chegarem. Pois é, comecei a trabalhar no sábado de tarde também. Como vocês podem perceber, este é um assunto transbordando de drama, e, como vocês bem sabem, eu poderia escrever páginas e páginas de imbecilidades sobre este drama inócuo, mas hoje decidi adotar uma abordagem diferente. Ao invés de descrever detalhadamente tudo o que penso ser ridículo na situação de hoje, eu vou postar uma foto que, na minha opinião, resume tudo:


Feliz Dia dos Namorados para quem tem um(a). Para quem não tem, espero que vocês tenham algo melhor que livros, bergamotas e twitters para se entreter.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Desenhos da Minha Vida - Samurai X

Na minha época de Ensino Médio, dos 14 aos 17 anos, eu ainda assistia televisão. Estudava de manhã e passava a tarde inteira sozinho em casa - ou eu estudava ou via TV. Como bom adolescente que era, escolhia quase sempre a segunda opção. Naquele tempo, o Cartoon Network, emissora cuja programação consistia inteiramente em desenhos animados, exibia no final da tarde um bloco chamado "Toonami", que, como o nome deveria sugerir, consistia inteiramente de animes, desenhos animados criados no Japão. Como os shows que passavam nesse horário eram muito do meu agrado, eu assistia do princípio ao fim (exceto "Super Campeões", por que um anime sobre bons jogadores de futebol japoneses me parece mais irrealista que Dragon Ball Z), e, nos dias em que eu ia treinar Kung Fu, programava o vídeo cassete para gravar (sim, gente, em 2004 não existiam gravadores de DVD) e assistia quando voltava para casa.

Um dia, coloquei uma fita para gravar e fui treinar, imaginando que aquele seria um dia como qualquer outro, mas eu estava enganado. Quando voltei do treino, rebobinei a fita (quanto tempo eu não usava esse verbo!) e comecei a assistir, esperando ver mais um episódio de "InuYasha". Para meu espanto, não foi o que aconteceu. Ao invés da musiquinha de abertura desse programa, o que apareceu foi outro desenho, com cores menos brilhantes e um estilo completamente diferente, mostrando um mapa do Japão, enquanto uma voz feminina falava sobre um samurai que vivera e lutara durante a turbulenta guerra civil do final da Era Tokugawa. Senti um ímpeto de apertar o botão de "fast forward", e assistir o anime que viesse a seguir na programação. Decidi, entretanto, não fazer isso. "Talvez não seja tão ruim assim" pensei, e me permiti assistir ao primeiro episódio daquele programa que não sabia nem sequer o nome. Eu nunca me arrependi.

A voz continuou a falar sobre este espadachim, conhecido como Battousai, o Retalhador, que lutara em nome do Imperador, e que, sozinho com sua espada, assassinou muitos inimigos, e abriu o caminho para a Nova Era Meiji. Entretanto, quando os conflitos cessaram e a vitória estava garantida, Battousai desapareceu, e seus feitos viraram lenda. A história então avança dez anos, e nós encontramos Kenshin Himura, um andarilho com cara de tonto, vagando pela cidade de Edo com uma espada de lâmina invertida, onde é abordado pela jovem mestra de Kendô Kaoru, que o toma por um perigoso assassino. Mal ela sabe que, apesar de ser um excelente espadachim, Kenshin fez um voto solene de nunca mais matar, e de pagar pelos crimes que cometera no passado...

E assim, começa a saga de "Samurai X" ("Rurouni Kenshin" no original em japonês). Lançado originalmente como um mangá (revista em quadrinhos japonesa) e depois adaptado para anime, é, na minha opinião, uma das melhores histórias já escritas em todos os tempos. Não vou ficar falando do que se passa nela, mas falar do que ela significa para mim. Durante meu segundo ano, era esse desenho que fazia minhas segundas-feiras valerem à pena, por que eu sabia que um novo episódio de "Samurai X" seria exibido. Depois de ter visto todos os episódios, e da série ter sido substituída por algum outro desenho, eu comprei toda a coleção de mangás e li a história novamente, tamanho o impacto que ela causara em mim.

Em um texto que li recentemente, encontrei a seguinte frase: "minha idéia de herói é alguém que deveria ser admirado não tanto pelo o que ele conseguiu realizar em sua vida, mas pelo o que ele conseguiu realizar na minha - pelo o que ele me inspirou a crescer e mudar, e a ser mais do que eu fora criado para ser." Ao ler isto, percebi por que eu queria escrever este post sobre "Samurai X": por que seus personagens são meus heróis. Numa época de minha vida em que me sentia perdido e só, encontrei neles exemplos a seguir, amigos para imitar. E não é apenas com o personagem principal, Kenshin, o gentil porém poderoso andarilho que busca redenção por seus crimes, que fez isto. Ao lembrar das pessoas que apareceram ao longo da história, lembro daquilo que mais me marcou nelas. Yahiko, o aprendiz de Kaoru, que apesar de ser fraco, nunca fugiu de uma luta, e sempre treinou ao máximo para tornar-se um mestre; Saitou, o cínico e sarcástico rival de Kenshin, me marcou com seu profundo senso de dever para com sua filosofia de vida, tanto que por um tempo adotei como minha própria; De Sanosuke, eu busquei copiar a incansável persistência; e, por fim, eu adotei Seijuro Hiko, o mestre de Kenshin, como o modelo de guerreiro que alcançou a perfeição.

Eu poderia continuar listando o que cada personagem fez ao longo da história e que me inspirou profundamente, mas isso levaria tempo demais. Além disso, estragaria a chance de vocês, meus leitores, conhecerem a história por si e também se inspirarem neles. Por isso, gostaria de terminar este post recomendando que vocês também conheçam a saga de "Samurai X", por que duvido que vocês também não saiam transformados depois dela.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cemitério de Sonhos

Hoje me bateu uma tristeza. Quando eu entrei naquela sala, tão cheia de lembranças, tão prenhe de sonhos, tão contaminada de ideais, e vi tudo aquilo que morrera, percebi que uma parte de mim morreu também. Aquela sala não era só uma sala - era um ser vivo, dotado de vontade própria, que também sonhava e sentia, e que, de alguma maneira bizarra, servia como exemplo para todos nós. Que restou daquilo tudo? Onde antes havia uma anarquia criativa, hoje só resta um caos nihilista, egocêntrico, preocupado com o próprio umbigo. Por que tanta beleza tinha que morrer? Enquanto seco as lágrimas que não chorei, espero: espero pelo dia em que tudo se resolva, as flores nasçam outra vez e aquela sala deixe de ser um vaso de contemplação inútil e se encha de esperança de novo, como costumava ser. Mas antes que este dia chegue, deixo que a tristeza me consuma, e me limpe de toda essa sujeira que me rodeia nessa sala, nessa sala que já foi tudo, e que hoje não é nada. Que a tristeza me limpe e me transforme, e eu seja capaz de passar por isso sem sofrer novamente.


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Texto ruim talvez, incompreensível com certeza. Publico ele mesmo assim, por que me parece ser necessário, considerando o que eu vi hoje. Alguns aqui talvez entendam e compartilhem essa dor.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Post nada a ver - Cachecol

Esse inverno eu comecei a usar cachecol. Nunca usara antes por que achava desnecessário, uma frescura até. Esse ano, porém, decidi experimentar, mais ou menos como uma pessoa qualquer decidiria experimentar crack, com a diferença que usar cachecol não é usar crack. Ainda assim, vicia.

Decidi começar a usar depois que eu voltei da Bolívia. Lá, eu comprei roupas e acessórios que normalmente eu não usaria, como uma camiseta laranja, uma calça roxa, um poncho de lã de alpaca e um gorro andino - resumindo, todas aquelas peças de vestuário que só gente metida usa no Brasil, pra mostrar que viajou pra fora do país e se "mesclou" com a população nativa (quando na verdade elas só mostram que gastaram dinheiro para dar a impressão de que se misturaram com a população nativa, mas isso não é o assunto do post de hoje). Eventualmente, eu uso alguma dessas coisas, porém está sendo um pouco difícil, por que, convenhamos, ir de poncho ou de toquinha boliviana para o estágio não pega bem. O cachecol, por outro lado, não é tão mal visto. Pelo contrário, chega até a ser elegante. Enquanto eu enrolo meu cachecol envolta do meu pescoço, fico me imaginando em Torres, do lado do farol, olhando em direção ao mar com uma expressão desafiadora, enquanto o vento furiosa e inutilmente sopra meu cachecol cinzento para trás como uma bandeira.

Claro, depois que eu termino de enrolar ele, percebo que nada disso está acontecendo, mas pelo menos minha garganta está aquecida e eu estou mais apresentável.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Minha Irrelevante Opinião - Bastardos Inglórios

Então... seis dias sem atualizações. Acho que agora seria uma boa hora para mudar isto e publicar um textinho, nem que seja só para dizer "hey, tem novidade no meu blog!" ou "eu não sou tão relapso assim!" Talvez uma boa maneira de fazer isto e não deixar transparecer minha intenção seria fazer uma resenha de filme - é um tipo de texto que atrai as pessoas, e que não costumo fazer com muita freqüência. Considerando que andei assistindo um bom número de filmes esta semana (três - uma quantidade fenomenal considerando minha rotina), vou revisar o último: "Bastardos Inglórios", dirigido pelo Quentin Tarantino.

OK, sei que, se tomar a internet como parâmetro, eu estou quase sete meses atrasado para fazer uma resenha dessas, mas como só consegui assistir o filme ontem, acho que estou perdoado. Além disso, penso que toda e qualquer opinião omitida sobre todo e qualquer filme já produzido, filmado e exibido neste planeta tem seu valor, vou publicar aqui a minha. Se vocês discordam de mim, é por que vocês estão errados.

Bem, Tarantino é um daqueles diretores que todo estudante de Cinema da PUCRS diz achar o máximo - prova de sua popularidade é o fato de seu sobrenome (e apenas isto) ser utilizado para rotular seus filmes, da mesma maneira que críticos de arte rotulam uma pintura de acordo com o sobrenome do pintor. Todo aspirante a intelectual cult deve, obrigatoriamente, citar pelo menos dois filmes do Tarantino em uma conversa de boteco como sendo "geniais", para provar que ele é realmente cult e não ser confundido com um desses tipos que gostam de filmes pop, como Star Wars e "Senhor dos Anéis". E, aparentemente, pelo o que vejo na internet, Tarantino é bem quisto também entre críticos profissionais de cinema, caras que são pagos especificamente para ver filmes e escrever o que eles acharam. Então, levando tudo isto em consideração, parecia razoável que eu fosse ver um filme dele, para ver se o que dizem é realidade.

A oportunidade surgiu esta terça-feira, graças à Secretaria de Difusão Cultural da UFRGS, que periodicamente faz exibições gratuitas de filmes no Campus do Vale, onde passo a maior parte do meu tempo este semestre. O filme, como vocês já devem ter adivinhado, era "Bastardos Inglórios" e, apesar do horário ser um tanto quanto ruim, decidi ficar sem almoço para assistí-lo.

Agora, vem a pergunta que não quer calar: o que eu achei de "Bastardos Inglórios"? Bom, eu achei muitas coisas. A primeira que me vem à mente agora é a estética do filme: os cenários são bem construídos, de maneira fidedigna à época em que se passa a história (Segunda Guerra Mundial), e há algumas cenas muito marcantes por causa de sua beleza, especialmente uma do primeiro capítulo (por que Tarantino tem mania de dividir seus filmes em capítulos, como se fossem livros), além de ser filmado quase todo em cores brilhantes (pelo menos é essa a minha impressão). A segunda coisa que me vem à mente é o que eu poderia chamar de o "encadeamento das cenas". Sendo eu um indivíduo que cresceu assistindo blockbusters de Hollywood, e ao mesmo tempo um aspirante à pseudocult intelectual, consigo notar diferenças bastante grandes entre filmes norte-americanos e filmes europeus. "Bastardos Inglórios", apesar de ser um filme "Made in USA", tem uma certa atmosfera de Velho Mundo, não só por tratar do teatro europeu da Segunda Guerra Mundial, mas também na maneira como as cenas são conduzidas e mostradas. Algumas partes que seriam tomadas como "irrelevantes" em um filme tradicionalmente hollywoodiano por serem "lentas demais", como o Coronel Landa sendo servido de leite e bebendo, ganham um certo destaque. Talvez "destaque" seja uma palavra forte demais, mas me parece evidente que elas não são descartadas para deixar o filme mais "dinâmico" e "adrenalínico". Pessoalmente, gostei disso.

Entretanto, um filme não se resume a cenários e cenas: ele deve contar a história de algo ou alguém, e deve ter personagens que a contem ou interpretem. Quanto a isto, eu tenho alguns problemas a resolver com "Bastardos Inglórios". Não é que eu não tenha gostado dos personagens, ou da história que eles contam. Na verdade, há muitas coisas que tornaram a experiência de assistir este filme muito agradável - Brad Pitt como o tenente Aldo Raine está ótimo. Ele fala com um carregado sotaque (artificial) do Tennessee, é irreverente, destemido e um grande fã de violência gratuita. A equipe dele, "Os Bastardos Inglórios", um time composto apenas de soldados judeus infiltrados atrás das linhas inimigas para espalhar o terror entre os nazistas compartilha de seu temperamento e gosto por sangue, e são muito bons em seu trabalho de assustar os alemães. E é aqui que eu começo a ter problemas. Segundo o TVtropes, os Bastardos poderiam ser classificados como Heróicos Sociopatas, por que, apesar de cometerem atos de violência que o adjetivo "horrendo" não é suficiente para descrever, eles os cometem em nome de um bem maior, qual seja, ganhar a guerra de derrubar Hitler. Só que, ao longo de todo o filme, eu não consegui simpatizar mais com eles por isso. Na verdade, eu alternava entre sentir-me neutro em relação a eles e torcer abertamente contra seu sucesso.

Muito diferente foi meu relacionamento com os nazistas. O Coronel Hans Landa é tão ruim ou pior que os Bastardos, só que de uma maneira tão charmosa que eu preferia as cenas onde ele estava presente do que as do Brad Pitt (a não ser quando os dois estavam juntos) - não há como não gostar desse Desgraçado Magnificente! Não chegava a torcer para ele, por que torcer para ele era torcer para Hitler... pelo menos até um certo ponto, mas quase fiz isso em alguns momentos. Outro personagem nazista pelo qual eu nutro mais simpatia do que pelos Bastardos é o One Scene Wonder sargento Rachtman, que, mesmo ameaçado de morte, se nega a entregar seus companheiros e morre como um homem de valor nas mãos de um judeu ensandecido com um taco de basebol na mão. Se fosse resumir "Bastardos Inglórios", eu diria que é o único bom filme que me fez torcer pelos nazistas por causa dessa única cena.

Sim, sim, sim... há também um outro fio de história correndo paralelo aos Bastardos Inglórios tocando o terror no Exército Alemão ocupando a França, que é da dona de um cinema em Paris cujos pais foram mortos por Landa. Um herói de guerra alemão, interpretado por aquele cara de "Adeus Lenin!", se apaixona por ela e oferece, inadvertidamente, uma chance dela se vingar do Terceiro Reich. É, essa parte é legal também, mas da mesma maneira que os trailers de um filme são legais: você os assiste, você gosta dele, mas quando o filme propriamente dito começa, você esquece deles. Não achei essa parte da história tão marcante assim, portanto, não vou escrever mais nada a respeito dela, exceto que ela continha um dos poucos personagens realmente simpáticos do filme, e mesmo ele não se salvou no final de ser um filho da mãe.

Então, em poucas palavras, o que achei de "Bastardos Inglórios"? É um bom filme, mas só recomendo para quem gosta de Tarantino, um diretor que, por mais qualidades que tenha, não me agrada muito.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ilusões Pessoais

Descobri, um pouco através das leituras, e muito através da experiência pessoal, que todos nós temos um conjunto de ilusões próprias sem as quais não poderíamos viver. Chamo-as de "ilusões" não por serem mentiras, mas por serem aquilo que o William James chamou de "verdades dependentes de nossa ação pessoal". Obviamente, tenho algumas destas ilusões, mas aquela que mais amo é a idéia de que eu sou um asceta.

Asceta, da maneira como eu defino, significa alguém que conquistou a si mesmo, tem pleno controle sobre seus impulsos e está constantemente testando seus próprios limites. O ascetismo, para mim, é manifesto em duas esferas distintas da vida: a acadêmica, através dos estudos e dos trabalhos de faculdade, e a esportiva, no treino constante e dedicado do corpo.

Agora, como vocês bem devem ter percebido, minha definição é por demais exigente para que um mero ser humano como eu possa alcançá-la um dia. Isso se torna ainda mais óbvio se eu disser que eu acabei de perder o treino de Kung Fu que eu queria fazer hoje, para compensar o treino que eu faltei na segunda. Significa isto que minha ilusão é desprovida de valor, posto que eu não consegui pô-la em prática? Por muito tempo, eu acreditei que, se eu falhasse uma vez, tudo o que eu fiz anteriormente imediatamente perdia o  valor. Como vocês podem imaginar, isso me causava bastante sofrimento, que eu chamaria de desnecessário. Hoje, adoto uma visão diferente - eu vou falhar, e não há nada que eu possa fazer contra isto. Entretanto, eu posso insistir em viver a minha ilusão, dia após dia, até que se torne inegável que, apesar de no fundo ela não existir, ela mudou alguma coisa neste mundo. Adotando esta atitude perante a vida, percebi algumas coisas a meu respeito: falhei no treino desta semana, porém, eu não continuo treinando a quase 7 anos? Não mudei muito de lá para cá e não me disciplinei, mesmo que seja um pouquinho? Creio que sim. Por que, então, deveria eu me considerar um fracasso total? Isso provavelmente só vai fazer com que eu desista de algo que eu valorizo, e me fará sentir ainda pior.

Há um próximo horário para treinar, e mesmo que eu não recupere o treino de segunda, eu pelo menos não vou perder mais um treino. Isto não é o ideal, mas é bem melhor que desistir.

Histórias que entretêm - O Terror de Chapéu

Um dia, eu acordei, e, inexplicavelmente, encontrei do meu lado aquela criatura. Se estivessem no meu lugar, muitas outras pessoas considerariam-se abençoadas por terem ganho a chance de conviver com ele. Eu, da minha parte, não consigo compreender o que estas pessoas vêem neste ser, e tudo o que mais quero neste momento é que ele desapareça para sempre. A pior parte de tudo isto é que, tão inexplicável quanto foi a sua chegada, é a maneira como ele continua em minha vida.

Como eu disse, um certo dia, eu acordei, e ele estava lá, do meu lado. Alceu Valença. Enquanto eu lentamente despertava e tentava compreender o que estava acontecendo, ele olhava fixamente para mim, com aquela expressão facial que só tarados conseguem manifestar. O mais assustador não era ter Alceu Valença deitado na mesma cama que eu e me olhando com desejo sodomita no olhar, e sim o fato dele estar usando chapéu de aba larga. Nem quando percebi que ele estava completamente nu fiquei mais aterrorizado do que quando vi aquele horroroso chapéu.

Tremam mortais, e se desesperem!

Como era uma manhã de domingo, pensei que estava ainda sob o efeito do álcool, ou que alguém tivesse colocado Rohypnol na minha bebida, e comecei a me estapear para despertar logo, e a apalpar meu corpo para ver se tinham removido algum de meus órgãos vitais com um bisturi enferrujado. Lentamente, contudo, percebi que aquilo não era uma ilusão da minha mente degenerada, e junto com minha compreensão, aumentou meu desespero. Preferia ter perdido meus dois rins e um pedaço do fígado a ter que passar por tamanha provação. Tomado pelo medo, congelei, e fiquei ali, deitado, encarando meu possível molestador. Nem eu, nem ele nos movíamos, e ele continuava a me olhar de maneira obscena, com aquele terrível chapéu preto a encobrir seus olhos obscenos e seu sorriso pederasta.

Não sei quanto tempo se passou até eu tomar coragem e balbuciar algumas palavras - podem ter dois segundos, dois minutos ou duas horas - e perguntar "quem é você?" Era uma pergunta imbecil, por que eu sabia que ele era o Alceu Valença. Creio que ele pensara o mesmo, pois continuou quieto, me olhando. Como ele não tentou pular para cima de mim quando eu abri a boca, senti-me encorajado a lhe fazer outra pergunta, desta vez mais válida e importante do que a anterior: "o que diabos o senhor está fazendo de chapéu na minha cama, e como veio parar aqui?" Não sei bem por que eu tratei de maneira tão formal alguém poderia muito bem ter violado minha virgindade anal durante meu sono, porém, outra vez, ele se manteve em silêncio, e seu sorriso aumentou.

Temendo que ele subitamente pulasse em cima de mim, saí tão rapidamente quanto consegui da cama em direção à porta, de maneira que pudesse fugir se fosse o caso. Sentindo-me muito mais seguro com esta mudança de posição, fiz uma última pergunta. A resposta que ele deu congela meu sangue toda vez que lembro dela.

Eu - O que você quer de mim?
Alceu - "Morena Tropicana, eu quero teu sabor, ooo io io io!"

Ali, naquele instante, ficou claro o que ele queria. O medo tomou conta de mim, e imediatamente corri para fora do quarto, rumo à porta e à rua. Entretanto, antes mesmo que eu pudesse encostar na maçaneta, ele estava lá, me esperando com seu chapéu. Quando eu o vi, ele começou a cantar outra vez "tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais!" enquanto caminhava ao meu encontro. Esgueirei-me por outra porta, e corri até a cozinha, onde peguei a maior faca de cortar bifes que pude encontrar e me pus em guarda. Antes mesmo que eu percebesse, ele já estava lá, olhando para mim com aqueles olhos terríveis.

Alceu Valença watches you in your sleep. Alceu Valença watches you in your nightmares!

Minha tentativa de defender-me mostrou-se vã, pois, no momento em que o vi, a faca escorregou de minhas mãos e eu caí de joelhos, dominado pelo horror de ter diante de mim um cantor nordestino de forró usando chapéu preto. E, assim que ficou clara a minha derrota, ele cantou uma última vez:

Foi mistério e segredo
E muito mais
Foi divino brinquedo
E muito mais
Se amar como
Dois animais...

Ao ouvir estas palavras, desmaiei, e encontrei refúgio no doce esquecimento do sono.

Desde então, ele me segue. Não importa onde eu vá, ele está logo atrás, sorrindo pederasticamente por baixo daquele chapéu negro, lembrando-me do terror que se transformou minha vida. E mesmo ele me seguindo por todas as partes e sendo visto por todos, ninguém me ajuda. Tentei gritar por socorro, mas minha voz trancou em minha garganta. Temo pelo dia de minha morte, não por crer que irei para um inferno pior do que o já vivo, mas por recear que ele me seguirá.

Ensaios Enrolativos - Vida de Criança

Sabe, hoje, voltando para casa do estágio, percebi que, apesar da infância ter muitas limitações, como não poder dirigir, beber e trepar socializar de maneira adequada, ainda é uma fase da vida muito boa, por que criança pode sair na rua vestida de Homem-Aranha e ninguém acha escroto. Ninguém reclama, ninguém acha ridículo, ninguém fala nada, e se você sair correndo atrás daquela menininha bonitinha, nenhum PM vai pular no seu pescoço e te prender por atentado violento ao pudor.

Eu sei que a infância é também uma época cheia de problemas, e eu sou sempre o primeiro a apontar os problemas de ser menor de idade, contudo, também é meu dever chamar a atenção da sociedade para todos os transtornos envolvidos no processo de crescer. E eu não quero falar da puberdade - já tem gente demais falando disso, e como sua adolescência foi uma merda, mas ninguém fala da maneira brutal e injusta que perdemos nosso direito de irmos fantasiados de super heróis para a aula. Um senhor de família tradicionalista responderia à minha pergunta dizendo "você é adulto agora". OK, sou mesmo, mas por que não posso me vestir de Homem-Aranha? Deve ter alguma loja que venda tamanhos GG! "Por que você perderia toda a credibilidade" ele continuaria. Só que, como eu perderia credibilidade ao me vestir como um super-herói? Todo mundo confia neles! "Pare de falar besteira e se comporte como um adulto!" seria, provavelmente, a última e furiosa resposta do senhor de família para meus questionamentos (antes de voltar a ler a Veja e reclamar do PT), ao que eu replicaria "tudo bem, desde que eu possa usar minha capa de Batman no processo!"