quarta-feira, 3 de março de 2010

Histórias que entretêm - O que vale um peão?

"Ei! Ei, Briggs! Ficou sabendo da última?" disse em meio a um sussurro Myers para seu companheiro. "Fique quieto, Myers. Você sabe que não é permitido conversar enquanto montamos guarda" respondeu o outro, um pouco irritado. "Bah! Como se alguém respeitasse essa regra! Temos que ficar em pé, plantados na frente de uma porta escura por 12 horas, sem saber o que há atrás dela, nem ao menos conversar, como se isso fosse possível! Mesmo que o capitão passasse por aqui agora, ele não ia fazer mais do que olhar feio para a gente e seguir em frente!" vomitou ainda mais irritado o primeiro. "Quem quer que inventou essa regra deveria ter um motivo", disse Briggs, de forma um pouco mais conciliadora do que da primeira vez, como se quisesse apaziguar os ânimos de Myers, a quem considerava um bom amigo. Aparentemente, não teve muito sucesso em seu intento, pois obteve apenas um silêncio emburrado como resposta.

Depois de mais alguns minutos nessa situação, Briggs resolveu ceder, e quebrou o desconfortável silêncio. "Qual é a última então, Myers?". "Nada de mais", respondeu Myers, "não acho que um soldado tão responsável do Exército Imperial como você se interessaria por coisas tão baixas quanto o resto de nós, que conversamos quando montamos guarda". "Myers, me desculpe, mas você sabe como eu sou preocupado com regulamentos, sempre fui, desde o Treinamento Básico, que você certamente se lembra! E, depois dos últimos acontecimentos, eu fiquei ainda mais preocupado. Se não tomarmos cuidado, estes rebeldes nos derrubam". Diante dessa confissão, Myers deixa a raiva um pouco de lado e entra outra vez em seu modo conversacional, e pergunta debochadamente "e certamente seguir a regra de não falar durante a guarda vai livrar-nos deste mal, não é mesmo?". Ele gostava muito de Briggs, desde o primeiro dia de treinamento, naquele distante planeta desértico, e admirava seu senso de dever e justiça. Entretanto, às vezes ficava pasmo diante dos extremos a que ele chegava por ser tão consciencioso. "OK, OK, você está certo!" respondeu Briggs, com o típico tom de voz que utilizava quando percebia estar errado, fazendo Myers rir, "você está certo, não falar durante o período de guarda provavelmente não vai salvar o Império, mas há muitas outras regras que ninguém segue e que fazem muita diferença. Sabe como aquele traidor rebelde entrou na base em Danuta e roubou os planos da Estrela da Morte? Se escondendo em uma caixa de madeira que disseram conter uma encomenda do comandante da base. A regra 45B do Manual do Stormtrooper diz explicitamente que 'todas as caixas fechadas que adentrarem bases militares de nível 4 de segurança' como a que o rebelde invadiu 'devem ser revistadas por pessoal autorizado, para evitar infiltrações inimigas de qualquer espécie'. O livro é bem claro. Por que ninguém fez o que estava escrito nele? Por que ninguém queria irritar o comandante, que tinha fama de ferrar com quem quer que se metesse em seus negócios, especialmente soldados rasos. E o que aqueles soldados conseguiram com isso? Nada, por que o rebelde, assim que percebeu que estava sozinho num depósito, saiu da caixa, matou todos os stormtroopers da base, roubou os planos da nossa arma mais poderosa e os levou até o comando rebelde, que então lançou os seus X-Wings contra ela, e matou pelo menos quinhentos mil soldados e passageiros, tudo isso por que um imbecil não quis seguir as regras!" As últimas frases não foram tanto ditas quanto gritadas, pois aquilo era algo que deixava Briggs profundamente irritado. Ele é um daqueles indivíduos que acreditam que muitos males poderiam ser evitados se todas as pessoas calassem a boca e seguissem as ordens dadas por alguém mais inteligente. Admirava incondicionalmente o Imperador Palpatine, e entrara no exército por sua causa, pois "queria servi-lo onde houvesse mais serviço", como costumava dizer.

"Está bem, você me convenceu" disse Myers em resposta "inspecionarei pessoalmente todas as caixas que entrarem nesse lugar de agora em diante!" Ele era um sujeito muito mais relaxado e tranquilo que Briggs. Respeitava o Imperador, mas não era tão reverente quanto seu amigo. Quando entrou para o exército, o fez pensando nas muitas aventuras e viagens que faria a serviço do Império, realizando atos de heroísmo e conhecendo lugares exóticos. Contudo, para seu azar, logo após completar seu treinamento básico, foi enviado para alguns dos lugares mais monótonos e desinteressantes da galáxia, o último deles sendo aquela base em Gromas 16, que, além de ser extremamente maçante, tinha como agravante o fato de ninguém lhes explicar o que acontecia por ali, e o que exatamente protegiam, especialmente atrás daquela porta ali. Era uma porta particularmente famosa entre os stormtroopers da base, pois era a mais bem guardada de todo o planeta: sempre havia pelo menos dois soldados a guardando, e para chegar até ela, era necessário passar por um longo e confuso sistema de corredores, elevadores e checkpoints. O que quer que estivesse ali atrás, certamente era muito valioso. Toda essa preocupação, unida a todo aquele mistério, fizeram surgir muitos rumores entre a soldadesca, que eram discutidos durante as folgas ou na hora das refeições, e relembrados durante as longas horas de guarda, como que para distrair a própria mente da chatice que era aquela tarefa. Aqueles mais afeitos a fantasias imaginavam defender alguma relíquia histórica de grande valor, como o Tesouro dos Jedi ou o primeiro sabre de luz de Darth Vader, enquanto que os mais realistas teorizavam proteger algum projeto militar que pudesse dar alguma vantagem ao Império em sua luta contra os rebeldes. Os irreverentes, por outro lado, diziam que, por trás daquela porta, estavam as roupas de mulher com que o General Rom Mohc se travestia quando ninguém estava olhando. Myers estava neste último grupo. Claro, ele levava seu serviço à sério, porém apenas quando estava em serviço. Por isso, quando tirava seu pesado capacete da cabeça, tirava com ele todas as preocupações referentes ao ofício de Stormtrooper, e ia tomar sua cerveja como se fosse qualquer outra pessoa da galáxia. O exército imperial poderia não ser tão aventureiro quanto ele desejara no início de sua carreira, nem Gromas 16 o lugar mais empolgante para se estar em uma galáxia cheia de batalhas, mas Myers preferia viver "no aqui e no agora". Ganhava um soldo razoavelmente bom, e aquela lua, apesar de isolada e sem graça, tinha alguns dos melhores bares que ele já frequentara. Por isso, sempre que podia, ia para algum deles para gastar os seus trocados com alguma bebida mais refinada, pois isso era o máximo de diversão que precisava.

Briggs não era assim. Aliás, se já existiu uma pessoa mais diferente de Myers, esta pessoa seria o próprio Briggs. Ao contrário de Myers, para qualquer lugar que ele fosse, ele era um "soldado do Imperador", preocupado com sua missão e com os regulamentos. Não gostava de sair para beber com Myers, pois prefiria ficar em seu alojamento, lendo muitos livros, na sua maioria de história do Império, manuais de treino e regulamentos. Lia tanto, e com tanta paixão, que os outros stormtroopers de seu regimento o consideravam um chato, fazendo com que seja ainda mais curioso o fato dele ser tão amigo de um homem como Myers. Como já foi dito, os dois se conheceram durante o treinamento básico. Alguns dias após terem se alistado, foram levados até Tatooine, onde passaram seis meses de suas vidas atirando, rastejando e se escondendo no meio da areia escaldante. Não era um serviço fácil, muito menos seguro: logo na primeira semana, três recrutas se perderam no deserto, e outros dois foram devorados por um dragão de krayt. Muitos mais vieram a morrer ao longo do treinamento, por estes ou por muitos dos outros perigos oferecidos pelo deserto de Tatooine. Foi ali que Myers e Briggs se conheceram. Ambos eram jovens, e estavam com medo. Por causa do ataque do dragão de krayt, eles fizeram um trato de sempre cuidarem um do outro. Quando um dormia, o outro ficava acordado, para ter certeza de que não seriam tomados de surpresa; se a comida era pouca, eles repartiam; se um deles se ferisse, o outro fazia os primeiros socorros. E, quando as coisas estavam mais calmas, eles conversavam sobre suas vidas antes do exército. Uma vez mais, os dois tinham histórias muito distintas. Enquanto Myers cresceu livre e solto com seus cinco irmãos numa fazenda em Dantooine, Briggs foi criado sozinho pela mãe em um pequeno apartamento num bairro pobre em Corruscant. Durante sua infância, Myers caçou animais selvagens, se escondeu no meio de florestas e aprendeu a montar. Briggs, por sua vez, foi obrigado a envolver-se em brigas de rua, fugir da polícia e, algumas vezes, catar comida no lixo. Os dois se complementavam. O que um era incapaz de fazer, o outro dominava com maestria. Foi assim que eles sobreviveram os seis meses em Tatooine. A eficiência dos dois era tão notável que, ao se formarem, o comandante do campo fez o que pode para mantê-los juntos, sabendo que, unidos, eles seriam melhores soldados. E foi assim que, juntos, eles foram postos a serviço da 100ª Legião de Stormtroopers. Com ela, não conheceram nem muitos lugares interessantes, nem lutaram em muitas batalhas, porém, fortaleceram ainda mais sua amizade.

"Mas então, você sabe ou não sabe da última?" disse Myers outra vez, querendo mudar de assunto. "Não, eu não sei qual é a última" respondeu Briggs, rindo, pois se achava divertido o prazer que Myers tinha em contar fofocas "qual é?". "Bem" começou Myers, notando o interesse do amigo "acho que ouvi uma teoria bem interessante a respeito do que pode estar por detrás desta maldita porta". "Eu achei que estivessemos guardando as roupas de mulher do nosso estimado general" respondeu Briggs, um pouco cético. Várias vezes antes teve esta conversa com Myers, e ao final de todas, foi obrigado a ouvir alguma piada incrivelmente estúpida. Não estava disposto a passar por isso de novo. "Sim, sim, o vestido de Rom Mohc com certeza está ali, mas há também outra coisa, e essa coisa realmente faz sentido", retorquiu Myers. Pelo seu tom de voz, Briggs percebeu que, pela primeira vez em muitos meses de guarda, estava falando sério. Ainda assim, ele não estava com muita paciência, e antes mesmo que Myers pudesse explicar sua descoberta, disse "bom, antes de me dizer o que há atrás desta porta, quero saber sua fonte de informações. Se você me disser que descobriu isso conversando com aquele droide quebrado do terceiro quadrante eu enfio esse blaster no seu...". "Calma, calma!" exclamou Myers, com medo de perder a atenção de seu interlocutor "A informação é quente. Sabe o Capitão Eco, o que lutou nas Guerras dos Clones junto com Darth Vader? Pois é, foi ele quem me falou sobre a teoria dele. Você mesmo sabe que ele é um cara confiável, e não teria por que inventar histórias para recrutas como nós". Briggs nada disse, porém, fez um sinal com a cabeça, que entre os stormtroopers queria dizer "estou te ouvindo" (aqueles capacetes eram um grande empecilho para a comunicação não-verbal, e por isso, seus usuários tiveram que desenvolver métodos alternativos de expressar-se com eles). Encorajado, Myers continuou, agora com um tom mais professoral. "Veja bem, estamos em Gromas 16, um lugar completamente desinteressante desde muitos pontos de vista: estamos longe do centro da galáxia, isso aqui não é um entreposto comercial importante, nem um ponto militar estratégico. Então, por que diabos o Imperador mandou uma legião inteira defender esta lua miserável? Qual é a única coisa que fazem por aqui?" perguntou ele. "As minas" respondeu ele mesmo, sabendo que Briggs ia ficar olhando para ele impassivelmente. "Estamos defendendo as operações mineiras deste lugar. Isso não é segredo para ninguém. O porquê defendemos, contudo, é outro problema. Uma pessoa inteligente como eu poderia supor que o metal extraído aqui é bastante valioso. O problema dessa lógica é que nunca vimos nenhuma nave cargueira sair daqui carregada com mineral - tudo é levado para o outro lado da base, que é quase tão bem guardada quanto esta. O que eles fazem lá? Refinam o metal, e fazem alguma coisa com ele. O Capitão Eco, por ser menos rasteiro que a gente, já pode entrar lá, e viu, meio de relance, um projeto em cima de uma mesa". Nesse ponto, Myers parou de falar, apenas para forçar Briggs a mostrar-se interessado na história, o que, efetivamente, ele fez. "E que projeto era esse, Myers?" perguntou Briggs, entre relutante e curioso (sabia que Myers fazia aquilo de propósito). "Era uma armadura mecânica!" disse Myers finalmente, triunfante. "O metal extraído aqui, pelo o que me disse o capitão, é extremamente resistente, pode resistir milhares de tiros de blaster" continuou ele "e uma arma dessas nos daria ainda mais vantagem sobre os rebeldes. Depois que a Estrela da Morte foi destruída, tanto o Imperador quanto o exército começaram a procurar maneiras de derrotar estes malditos - antes era brincadeira, agora a coisa é para valer. Por isso, estão pesquisando novas armas e maneiras de destruir a Aliança, para se vingarem pelo o que eles fizeram conosco, e esta armadura, seria o prego no caixão deles" finalizou Myers, de maneira bastante dramática.

Briggs ponderou silenciosamente o que ouvira. Apesar de ser um salto lógico e tanto, o que Myers lhe contara fazia sentido, e isto, mais do que as histórias estapafúrdias que ouvira no passado, o deixou com muitas dúvidas. "Mas quem usaria estas armaduras?" perguntou por fim. "Como é que eu vou saber? O Capitão Eco viu só o projeto, e muito rapidamente. Eu acho que vão ser soldados treinados especialmente com este fim. O Capitão, porém, tem a estranha sensação de que elas serão pilotadas por droides" respondeu Myers. "Droides?! Quem em sã consciência usaria droides como soldados depois das Guerras dos Clones?" exclamou Briggs. "Eu que não seria" respondeu calmamente Myers "ainda assim, isso é só uma intuição do capitão. Ele diz que sente uma coceira no braço sempre que há um droide de batalha por perto. Não sei se isso é sinal de alguma doença no cérebro. Só sei que ele saiu vivo de um dos conflitos mais sangrentos da história da galáxia, enfrentando milhares de droides. Talvez ele esteja certo no fim das contas". Neste momento, o altofalante do corredor se ligou, e passou a despejar sua voz metálica e fria sobre Myers e Briggs: "Alerta vermelho! Alerta vermelho! A base foi invadida! O invasor é um homem branco, de aproximadamente um metro e oitenta de altura, vestindo um colete à prova de blaster, fortemente armado, está se dirigindo até a porta 72, e deve ser morto imediatamente. Repetindo, ele está se dirigindo até a porta 72, e deve ser morto imediatamente." "Ele vem para cá", disse laconicamente Briggs. "E com isso, temos mais uma prova de que o que está atrás desta porta é bastante valioso", falou Myers, mais para si mesmo do que para Briggs. Os dois se puseram em posição de batalha, e então esperaram o invasor chegar. Deviam matá-lo, e, depois deste pico de excitação, voltar à vida monótona de antes da invasão. Porém, não foi o que aconteceu, pois o invasor não era ninguém menos que Kyle Katarn, espião da Aliança Rebelde e excelente guerreiro. Quando ele apareceu no corredor que Myers e Briggs guardavam, os dois rapidamente abriram fogo contra ele. Contudo, isto foi em vão, pois rapidamente ele se esquivou e matou os dois, que morreram defendendo uma porta que nem ao menos sabiam o que escondia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Expedição Andina - O Retorno

Pois é, caros amigos, voltei. Neste momento, estou na sala da casa de meus pais, em Caxias do Sul, lendo um livro e ouvindo um pouco de música. E apesar de todo este conforto, a sensação de ter que sair daqui em cinco minutos para pegar um ônibus qualquer para outra cidade e o sotaque castelhano ainda não me abandonaram. De certa forma, continuo viajando, pois sinto ter voltado para um país completamente diferente. Algo mudou, e é muito provável que tenha sido eu.

Em todo caso, apesar de todas as mudanças e diferenças, voltei, não só para o Brasil como também para o blog. Por isso, dentro em breve, voltaremos à velha rotina de textos filosóficos, relatos cotidianos e reclamações incoerentes que tanto caracterizam este lugar. E, como vocês podem imaginar, pelo menos alguns destes textos serão sobre minha aventura pela América Latina.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Expedição Andina - A Partida

Pois é, caros amigos, chegou a hora de me despedir. Dentro de 9 horas, parto para Assunção, no Paraguai, onde minha viagem realmente começará. Acredito que será impossível postar qualquer coisa durante a jornada, mas não pensem que este é o fim. Espero estar de volta pelo final de fevereiro, e ter muito o que dizer por aqui.

Até então, me despeço. E caso vocês não consigam ficar sem ler algo durante este verão, recomendo o fantástico webcomic Girl Genius. Realmente vale a leitura.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sombras e Médicos

Acabo de assistir mais um episódio do fantástico seriado americano House MD, mais conhecida como "aquela do médico escroto que sempre acerta o diagnóstico". Já assisto este seriado há bons três anos, mas nunca antes na história deste país eu senti vontade de fazer uma análise psicológica a respeito de nenhuma das histórias. Contudo, o episódio de hoje, intitulado "Wilson", foi tão bom que seria um desrespeito à equipe da série não fazer uma desta vez.

Como todos que não moram de baixo de uma pedra sabem, House MD acompanha a vida do genial dr. Gregory House, gênio da Medicina, mestre em diagnósticos, agudo observador do comportamento humano e praticamente psicopata, que, junto de sua equipe, resolve os casos mais absurdos que os consultores científicos do programa conseguem descobrir. No começo do programa, os episódios giravam em torno das doenças, e do processo médico de descobrir o que está matando o paciente e como curá-lo. Porém, com o passar do tempo, os casos, apesar de continuarem bizarros e envolventes, tornaram-se secundários ao desenvolvimento da vida pessoal de House, sua equipe e os outros personagens relevantes, sendo muitas vezes usados como alavancas para fazer esta história ir adiante e os personagens se desenvolverem. Foi o que aconteceu no capítulo que assisti hoje, mas de uma maneira muito peculiar.

Geralmente, os episódios são "mostrados" do ponto de vista de House, e acompanham o desenrolar de seus casos, e como as relações pessoais do programa se desenvolvem. Em cada um destes episódios, temos dezenas, senão centenas, de exemplos tanto da genialidade do personagem principal quanto de seu comportamento sociopático (que, por incrível que pareça, é na maioria das vezes hilário), e, menos freqüente porém igualmente importante, vemos como estas duas coisas estão intimamente relacionadas. Hoje, entretanto, a história toda foi mostrada do ponto de vista de James Wilson, médico chefe do Departamento de Oncologia e melhor, se não único, amigo de House.

A relação deles é, na minha opinião, o aspecto mais intrigante do show, pois com alguma facilidade te faz pensar "como justamente ELES DOIS serem melhores amigos?". House, como já disse antes, é um sociopata genial. Por um lado, estes dois termos parecem se anular, mas, dependendo do ângulo em que são encarados, podemos ver que se reforçam um ao outro. Sociopatia, também conhecida como Psicopatia ou Transtorno de Personalidade Antissocial, é uma síndrome psiquiátrica que consiste em um padrão constante e global de falta de empatia, egoísmo, manipulação, mentiras e conflito com a lei e outras pessoas, e olha que eu resumi bastante. Em outras palavras, um psicopata é o tipo de pessoa que você não quer por perto, por que ele em algum momento vai te usar em benefício próprio. Wilson, por sua vez, é o exato oposto: gentil, atencioso, prestativo e dedicado à sua profissão, ele sempre se esforça ao máximo para conseguir que seus pacientes sintam-se em paz, tanto física quanto psicológicamente, mesmo que isto signifique sacrificar a si mesmo para isto (por favor, gravem esta última frase na memória - ela é importante para esta análise). Em suma, um é o oposto do outro. House é egoísta, Wilson é altruísta; House é sarcástico e ácido com todos, Wilson é gentil e delicado; House rouba a lanchonete, por que sabe que Wilson pagará sua conta. Em outras palavras, estes dois personagens têm tudo para se odiarem da maneira mais visceral possível - como eles são melhores amigos? Bem, vou tentar dar a minha resposta, baseado na inspiração que o capítulo de hoje me deu. Este começa com ele indo caçar com Tucker, um ex-paciente que se tornou seu amigo após ter sua leucemia curada pelo bom oncologista. Obviamente (para quem acompanha a série), Tucker tem um treco piripaque nó nas tripa passa extremamente mal durante esta caçada e volta para o hospital onde fora curado 5 anos atrás. E enquanto sua doença progride, vemos como Wilson cuida dele, bem como a outros pacientes ali internados.

Isto é muito interessante, pois pela primeira vez em seis temporadas, ao invés de acompanharmos House conjurar geniais hipóteses diagnósticas de seu rabo para os casos mais absurdos enquanto insulta todos os seres humanos capazes de ouvi-lo num raio de 100m, tivemos a rara oportunidade de ver Wilson atendendo os seus pacientes. Ao contrário de House, que vive num constante fluxo de adrenalina induzido pelas mais surpreendentes reviravoltas, Wilson tem uma rotina muito mais calma e estável (e este contraste foi brilhantemente abordado neste episódio, com as rápidas e estrambóticas* aparições da equipe de House, vista trabalhando por alguém de fora). Não quero dizer com isto que o seu trabalho seja mais fácil, apenas que a dificuldade dele não reside nas rápidas mudanças, e sim na dolorosa constância. Não sei muita coisa a respeito de Oncologia, mas imagino que este é um retrato bastante acurado da realidade. E nesta rotina, descobrimos que Wilson também é um excelente médico, pois vemos que ele, apesar de não ser tão afiado quanto House, também é capaz de detectar mudanças importantes na condição de seus pacientes baseado em sinais muito sutis, o que poucos outros profissionais da saúde seriam capazes de fazer (eu poderia atribuir isso à sua convivência com House, mas não quero tirar seu mérito). Também testemunhamos sua "ética de trabalho" em ação, na maneira como ele se relaciona com seus pacientes, com seus colegas e com seus amigos, e como sua maior preocupação é sempre o bem-estar de todos.

Apesar deste seu traço de personalidade já ser velho conhecido da audiência, ele é se torna muito importante para a trama que hoje se desenvolve. Conforme o episódio avança, e a doença de Tucker piora, deixando-o a beira da morte, até que descobrimos que sua leucemia voltara ainda mais forte (e fazendo com que Wilson perdesse 100 dólares numa aposta contra House, que deu este diagnóstico nos primeiros cinco minutos do episódio**). Numa manobra médica bastante ousada, Wilson sugere à Tucker uma nova quimioterapia. Os riscos envolvidos são altos, mas Tucker concorda. O câncer é extirpado, mas o fígado dele também, o que o coloca na lista de espera para doação de órgãos. Neste processo, Tucker percebe que fora um erro abandonar sua família para "viver uma vida de aventuras" e ficar com uma mulher 20 anos mais nova, e reaproxima-se de sua ex-esposa e filha. Como no fim nenhum doador adequado é encontrado, Tucker pressiona Wilson para que ELE doe um pedaço do seu fígado, já que cinco anos antes, Wilson doara seu próprio sangue para Tucker em uma transfusão, dizendo que ele aceitara a nova quimioterapia só por que era Wilson quem a propôs. Wilson, depois de se debater se deveria fazer isso ou não, acaba concordando, um pouco por culpa, mas principalmente por que não queria deixar que a família reunificada se quebrasse novamente. A operação é realizada com estrondoso sucesso, Tucker é curado e Wilson não enfrenta nenhuma seqüela. Porém, quando tudo termina, Tucker abandona sua família mais uma vez para ficar com a namorada, deixando Wilson com a impressão de que fora tudo em vão. House, por sua vez, enquanto não está ocupado fazendo algum malabarismo profissional (como mentir que seu paciente está sangrando pelos olhos para ter prioridade na sala de cirurgia), passa o resto do episódio sendo ele mesmo, parasitando Wilson, ocupando espaço na geladeira e dizendo com todas as letras para seu amigo que não desse parte de seu fígado para um "imbecil auto-centrado" como Tucker.

O que esse episódio tem de especial que me deixou com tanta vontade de escrever uma análise psicológica? Para começo de conversa, ele contrasta, de uma maneira nunca antes feita, a personalidade de House e Wilson. Creio que esta diferença fica mais clara se utilizamos os termos criados Carl Gustav Jung, discípulo renegado de Freud e criador da Psicologia Analítica. Para Jung, a Psiquê humana possui dois pares de funções opostas: Intuição e Sensação, Pensamento e Sentimento.  As duas primeiras são irracionais, por serem duas vias pelas quais "percebemos" o mundo ao nosso redor, enquanto que as duas últimas são racionais, por estarem envolvidas nos processos de tomada de decisão, que depende de nossas capacidades verbais. Todos nós possuímos todas estas funções, porém, geralmente utilizamos apenas uma de forma consciente. Ela é chamada de "função dominante", por ser a mais desenvolvida, e seu funcionamento é auxiliado pela segunda mais desenvolvida, chamada (muito apropriadamente) de "função auxiliar", e se a função dominante for racional, a auxiliar será irracional. Para entender como as funções trabalham, pensem que elas são sistemas operacionais - a Intuição é o Linux, a Sensação é o Windows, o Pensamento é o Mac OS e o Sentimento o MS-DOS. Cada sistema tem seu ponto forte e seu ponto fraco, e é melhor para cumprir algumas tarefas do que os demais. No mundo real, podemos usar apenas um sistema operacional de cada vez em nossos computadores. Todavia, no computador que é nossa psiquê, temos todos estes programas instalados e funcionando em diferentes níveis: o sistema dominante é o que aparece na tela e é quem "manda", mas ele não trabalha sozinho, por que o sistema auxiliar está logo ali atrás dele, checando suas decisões a partir de um ponto de vista diferenciado. As outras duas funções continuam ali, só que são basicamente inconscientes, e só aparecem "na tela do PC" quando as duas principais "dão pau", como a infame "Tela Azul", sendo que a última função em nível de desenvolvimento foi definida por alguns teóricos como sendo nossa "Sombra", que explicarei melhor o que é mais adiante.

Como disse, cada função tem um jeito de agir e uma especialidade. A Sensação percebe o mundo através de seus sentidos físicos, e foca-se no mundo físico e no momento presente. Já a Intuição capta o mundo através de esquemas mais abstratos, que possibilitam fazer associações entre dados e informações aparentemente desconexas, e foca-se muito mais nas possibilidades futuras do que no aqui-e-agora. O Pensamento toma decisões baseado na lógica e pensa no todo, enquanto o Sentimento foca-se nas emoções, preocupando-se mais com questões específicas. Além destas funções, também temos que considerar a direção que damos para nossas energias psíquicas: se focamos nossa energia no mundo exterior, somos extrovertidos; se nos preocupamos mais com o mundo interior, somos introvertidos. Agora que já expomos toda a informação necessária, podemos continuar.

Como já disse, House e Wilson possuem personalidades opostas. Baseado em sua longa carreira de brilhantes deduções e curas milagrosas, sua teoria altamente elaborada e pessimista sobre a natureza humana, e de sua abordagem estritamente lógica para o mundo, podemos dizer com muita segurança que as funções mais bem desenvolvidas de House são a Intuição e o Pensamento. Não podemos, porém, dizer com tanta certeza qual delas é a dominante e qual é a auxiliar. Eu diria, pela sua postura ativa e sua posição como chefe de um departamento médico encarregado de muitas decisões difíceis e rápidas, que, além de ser extrovertido, o Pensamento é sua função dominante. Wilson, por sua vez, também é extrovertido e chefe de departamento, mas sempre leva em consideração os aspectos únicos de cada paciente, que ele sente de forma muito profunda, o que me faz concluir que ele tem como função dominante o Sentimento e auxiliar a Sensação. Acredito que o que cria tamanha afinidade entre os dois personagens é esta oposição que um faz ao outro - não por que "os opostos se atraem", e sim pela relação dos dois er o que Jung chamaria de "arquetípica". Como disse alguns parágrafos acima, a nossa função menos desenvolvida é a Sombra de nós mesmos. Para Jung, a Sombra é um dos quatro arquétipos principais que compõe nossa personalidade, que acumula todas as características opostas ao nosso Ego Consciente. Se acreditamos que somos bondosos, nossa Sombra é maldosa; se pensamos que somos vermes desprezíveis, nossa Sombra é um deus; se pensamos que somos tímidos, nossa Sombra não é. Poderíamos dizer, em outras palavras, que a Sombra contém todas as nossas potencialidades não desenvolvidas, tanto para o bem, quanto para o mal. E é isto que House e Wilson são - Sombras um do outro.

Depois dessa pequena teorização, é possível que alguém pergunte "OK, eles são a Sombra um do outro, mas o que impede que eles simplesmente deixem de ser amigos?" É uma pergunta bastante razoável. Segundo a teoria de Jung, nascemos com um determinado temperamento, e que com ele nos orientamos pelo mundo. Porém, segundo esta mesma teoria, não devemos morrer com o mesmo jeito de ver as coisas, porque dentro de nós existe o impulso para a Individuação. Jung falou bastante a respeito da Individuação e como ela se dá, e não tenho o conhecimento nem o tempo necessários para explicá-la aqui de forma completa. Por isso, me limitarei a dizer que a Individuação é o processo através do qual os seres humanos se desenvolvem e tornam-se plenos, perfeitos até. Como vocês podem imaginar, ninguém nunca chegou a ser "100% individuado", por que a psiquê está sempre se modificando, e sempre há algo em nós mesmos que pode melhorar. Porém, a principal característica da Individuação é sua função transcendente, que nos leva a desenvolver as nossas funções que estão "na sombra". House desperta em Wilson seu lado menos submisso e mais assertivo, enquanto que Wilson lembra House de seu lado mais compassivo. Ambos negariam isto, mas ambos precisam desta lembrança constante do que eles podem vir a ser. 

Uma última consideração psicológica relevante destes dois personagens vem de uma teoria mais recente, e mais cientificamente embasada: a Terapia do Esquema. De acordo com ela, nossa visão de mundo se dá através de nossos esquemas cognitivos, que são criados e refinados ao longo dos anos, e a maneira como enxergamos o mundo depende largamente da qualidade de nossas experiências. O criador deste modelo, Jeffrey Young, identificou 18 Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs), isto é, esquemas que predispõe seus portadores à sofrimento psíquico. Curiosamente, um destes esquemas é o Autossacrifício***, que é muito comum entre profissionais da área da saúde. Ele é relativamente bem visto em nossa sociedade, e talvez não se considerasse um esquema desadaptativo, se ele não levasse as pessoas a descuidarem de si mesmas e voltarem todas as suas forças para os outros, machucando-se no final. Acredito que tanto Wilson quanto House possuem este esquema, mas desenvolveram estratégias de enfrentamento (isto é, como encarar os sentimentos, pensamentos e memórias trazidas à tona por ele) diferentes. A Terapia do Esquema propõe três estratégias de enfrentamento diferentes: rendição, evitação e hipercompensação. Wilson adota primariamente a primeira estratégia, rendendo-se à sua crença de ser necessário sacrificar-se pelos demais, e age de forma cuidadora e atenta o tempo todo. House, por outro lado, é um hipercompensador, e na maior parte do tempo se comporta como um cretino narcisista. Porém, é comum em situações estressantes estas estratégias mudarem, e quando Wilson chega a seu limite e House vê que seu paciente ou alguém que lhe importa está sob risco, as coisas se invertem. Também é importante notar que sabemos mais do passado de House, e podemos inferir outros esquemas resultantes de seu relacionamento com os pais, como Desconfiança/Abuso e Privação Emocional, além de Isolamento Social/Alienação por causa de sua genialidade.








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* Um dos pacientes dele fora internado por que comeu pipoca demais. Sério.
** Wilson é bom, mas House é sempre melhor.
*** Jung criou o conceito de "complexo", que, apesar de mais complexo, é muito similar aos esquemas cognitivos. E, levando esta semelhança em consideração, poderíamos dizer que um outro nome adequado para o esquema de Autossacrifício na teoria junguiana poderia ser "Complexo do Curador Ferido".

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Primeiro Post de 2010

É isso aí - 2010 chegou no Espadachim Cego também! Este seria o post perfeito para falar dos meus sonhos e aspirações para o novo ano, fazer promessas e manifestar esperanças. Isto é, se eu fosse um blogueiro convencional. Como não sou (e se fosse, provavelmente eu não seria capaz de escrever duas frases seguidas de maneira coerente sem escrever "miguxxxu" no meio delas), vou só publicar isso aqui para fazer volume no número de posts do blog.

Em todo caso, janeiro e fevereiro serão meses que, garanto, terão baixo número de atualizações, pois estarei viajando pela América do Sul. Passarei a maior parte do tempo na Bolívia e no Peru, mas também passarei pelo Paraguai e até mesmo pelo Uruguai, o que significa que, se as exigências acadêmicas não sugarem todo o meu sangue, eu provavelmente terei muito o que escrever pelo resto do ano, não só sobre a Expedição Andina, como também sobre a Expedição Austral (não, não me esqueci, nem abandonei meus ambiciosos planos de escrever praticamente um livro a respeito daquela jornada).

Assim sendo, fiquem em paz, caros (e poucos) leitores. Aproveitem o verão que se avizinha, vão para a praia, pulem o carnaval, ou o que quer que agrade a vossa senhoria. Por que ler textos novos por aqui, só no fim das minhas férias.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Último Post de 2009

Decidi escrever um novo post. Não por que eu tenha algo especial para dizer, mas por que eu queria fazer o "último post do ano". Nós seres humanos damos muita importância para o Ano Novo. Daqui a alguns minutos no Fantástico, aposto que aparecerão alguns "videntes, místicos e profetas" que falarão sobre o que 2010 nos guarda. Uns vão falar muito sem dizer nada no final, enquanto outros serão mais ousados jogarão verde - e provavelmente se queimarão feio quando 201o acabar e a previsão deles não ter se tornado realidade.

Em todo caso, apesar de toda a comoção a respeito dessa nova volta ao redor do Sol, as coisas continuam como sempre foram. Exceto a folhinha do calendário, e essa muda todo ano. Os dias serão quentes ou frios, chuvosos ou secos, as noites serão claras ou escuras, com lua ou sem lua. E o tempo continuará correndo como sempre correu - sem se importar com a maneira como nós o contamos.

Estatisticamente é provável que ele não será tão diferente assim de 2009, mas aposto que as reviravoltas que necessariamente acontecerão serão diferentes (por exemplo, o Inter ser rebaixado para a segunda divisão ou o Corinthians ganhando a Libertadores), e você ficará doente tantas vezes quanto sempre ficou, porém ainda assim, deixo aqui meus votos de Feliz 2010.

PS.: Podem ter certeza que amanhã vou escrever alguma coisa, só para 2010 aparecer no Capacitor de Fluxo ali do lado.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pesquisas Inúteis no Sistema de Bibliotecas da UFRGS

O título deste post é bastante explicativo. Por causa da minha feliz insônia induzida por consumo de cafeína (má, má idéia!), resolvi pesquisar no catálogo virtual das bibliotecas da UFRGS por livros não clássicos - isto é, pouco usuais e que dificilmente alguém esperaria encontrar na biblioteca de uma universidade de excelência como a UFRGS. Para minha surpresa, descobri que, se eu quisesse, eu poderia pegar todos os livros da série "Harry Potter" no Colégio de Aplicação e na FACED, além de alguns trabalhos acadêmicos baseados nesta série (que eu li inteira, como bom adolescente dos anos 2000). Porém, o mais surpreendente é que o Colégio de Aplicação também tem uma cópia de "Crepúsculo". Se antes eu sentia raiva da UFRGS por não termos "Terapia do Esquema" à nossa disposição, agora eu sinto ainda mais.

Duro Aprendizado

Há três anos atrás, mais ou menos, decidi cortar a Coca-Cola e os refrigerantes da minha dieta de maneira radical: de um litro por dia, eu passaria a tomar nada. Isso mesmo, cortaria definitivamente todo e qualquer consumo de refrigerantes da minha rotina. Depois de muito batalhar, alcancei a vitória. Porém, como os mentalmente ágeis devem ter percebido, disse na oração anterior que cortaria definitivamente os refrigerantes da minha rotina, o que deixa espaço para consumir Coca-Cola e similares em situações não rotineiras.

Voltando aos dias de hoje, estamos no final do ano de 2009. É o fim de uma década. A última virada importante que tivemos foi a do Milênio, no final de 1999, dez anos atrás. É certamente algo histórico e, portanto, não rotineiro. Por isso, decidi ser um pouco mais complacente comigo mesmo e passei no mercadinho aqui da rua para comprar uma garrafa de dois litros por R$3,80 (um verdadeiro assalto, mas deixa pra lá).

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi tomar um copo de Coca-Cola bem gelada. Ah! O doce sabor de produtos químicos que não faço a menor idéia que existam! Logo depois do primeiro copo, vem o segundo, depois o terceiro, o quarto, o quinto... um menos gostoso que o outro, até eu chegar no fim da garrafa. Nesse ponto, meus dentes já estão grudentos e a garganta ardendo por causa do excesso de açúcar, meus olhos cansados são incapazes de dormir por causa da overdose de cafeína que acabo de tomar, dou graças à Aslam por ter comprado só uma garrafa e percebo que, qualquer que tenha sido o motivo que me levou a banir os refrigerantes da minha vida, ele deve ser muito, muito correto.

Resolução de Ano Novo Antecipada: Manter minha dieta "Soda-free".
Em tempo: C-c-c-combo breaker!

Histórias que entretêm - Passeio Etílico em Uruguaiana (Parte V)

Quando terminei o telefonema e saí da lanchonete, Tijolão ainda estava com a mesma cara de antes, de olhos esbulhados e segurando firmemente sua querida pá com as duas mãos. Apaguei o mais rápido que pude o sorriso do meu rosto para ostentar um ar de "O Mestre não está nada satisfeito" e manter ele na linha. Ao me ver ao ar livre novamente, ele se aproximou de mim e perguntou-me, no tom de voz mais servil que já ouvi em toda minha vida:

- Então patrão, o que o Coronel disse?

Por um momento, pensei que era tudo uma piada. Tijolão na verdade era um ator consagrado, muito convincente e esforçado que Borat contratou para me sacanear depois de eu cair no tapete de entrada e entrar em coma alcoólico, por que, francamente, ninguém poderia agir de maneira tão submissa e tão insana ao mesmo tempo. Por meio minuto, fiquei apenas olhando para a cara dele, em silêncio, esperando ele largar a pá e dizer "Ha! Salci Fu Fu! Pegadinha do Mallandro!". Porém, ele continuou a me encarar, também em silêncio, ainda com seus olhos esbugalhados e os nós de seus dedos brancos de segurar o cabo de madeira. Então, ao perceber que eu estava atolado até o pescoço na história mais absurda que um ser humano poderia conceber, finalmente lhe respondi:

- O Coronel se pronunciou a respeito do teu caso. Ele não está nada satisfeito com o que aconteceu. Aliás, ele está completamente irritado.
- Ai meu Deus!
- Mas tenha calma, ele me disse que tu, por ter sido extremamente leal no passado, merece uma segunda chance. Desde que...
- Desde que o quê?
- Desde que tu faça o que eu te disser para fazer agora.
- O que que eu tenho que fazer, patrão?
- Algo que testará a tua coragem, a tua habilidade, a tua bravura, a tua honestidade e, principalmente, a tua fé.

Mais uma vez, ele olhava para mim, como quem olha para o Messias, e esperava a palavra da salvação. Enquanto isso, dentro da minha mente, o meu estoque de mentiras ia se esvaíndo, deixando-me sem saber o que dizer para aquele pobre crente. Que tarefa eu daria para ele realizar e que seria sua redenção?

"Cavar buracos", disse então. Tijolão lançou-me outro olhar, desta vez incrédulo. "Na verdade, um só buraco" continuei, "um buraco bem grande, que dê para enterrar uma vaca inteira. Uma não, todas as vacas do caminhão!" Tijolão parecia mais incrédulo ainda. "Espera aí, patrão. Por que o Coronel me mandaria enterrar os ninjas?" Infelizmente, o psicótico me fez uma pergunta muito razoável, considerando a insanidade de toda a situação. Por que enterrar as vacas especialmente treinadas que aparentemente o próprio Coronel mandou buscar na Argentina para atacar o Mercado Público em Florianópolis? "Bem, o Coronel trabalha de maneiras misteriosas", respondi. "Ou tu estás duvidando das ordens que ele mesmo me deu?" concluí de maneira intimidadora. Acho que meu truque funcionou, por que ele disse "não, claro que não" e imediatamente começou a cavar um buraco no chão batido, uns duzentos metros de distância do caminhão.

Fiquei feliz. Matara dois coelhos com uma cajadada só: me livrei das vacas mortas e coloquei Tijolão e sua pá para trabalharem com algo que não envolvesse meu crânio esmigalhado. Podia, finalmente, relaxar, tomar um banho e comer alguma coisa. Quem sabe eu até conseguisse tirar um cochilo, e voltasse a ser um homem normal e saudável no dia seguinte? Porém, não era isso que iria acontecer, por que o Universo tinha outros planos. Poucos minutos depois de pensar que meus problemas tinham acabado, quando outra vez percebi que estava na merda, formulei a seguinte teoria: eu sou a reencarnação de Hitler, e estou aqui neste posto de gasolina no fim do mundo pagando todo meu Karma à vista, pois nem bem dera dois passos em direção ao posto de gasolina quando fui abordado por dois soldados da Brigada Militar.

Reconstruí mentalmente os acontecimentos anteriores, e deduzi que, depois de eu ter acalmado Tijolão e feito meu telefonema, alguma pessoa de bom senso ligou para a polícia, avisando que um louco armado com uma pá estava quebrando tudo em um posto de gasolina na BR290, e que a presença dos defensores armados da sociedade era muito necessária ali. Quando os brigadianos ali chegaram, obviamente foram direto atrás das pessoas envolvidas no incidente (eu, por exemplo) para melhor se informarem a respeito do que se passou, fazer um boletim de ocorrência e, se tudo desse certo, encher alguém de porrada.

"Boa  noite, senhor, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas" disse para mim um dos policiais. Ele era de baixa estatura, porém largo e forte, além de ostentar no rosto redondo um bigode capaz de rivalizar com o do meu amigo Tijolão. O outro policial era quase que seu exato oposto - alto, magro e de cara fina, com um bigode fininho e moreno. Se, ao invés da farda da BM, eles vestissem camisas sociais brancas e gravatas vermelhas, eles ficariam idênticos àqueles mórmons que via de vez em quando em Caxias: "um alto e um baixo, e os dois enchem o saco" como dizia meu velho pai, que neste momento deveria estar deitado em um caixão, sendo velado pela minha mãe, que entre as lágrimas amaldiçoava o filho ingrato. "O senhor está bem? Está me ouvindo" perguntou pela segunda ou terceira vez o primeiro policial. Enquanto eu pensava nos mórmons e no velório do meu pai, devo ter entrado em um transe, e ignorado tudo o que os brigadianos me diziam. Deve ser um mecanismo de defesa, ou os efeitos de três noites não dormidas atacando minhas capacidades cognitivas. "Ah, desculpe, seu policial, é que eu tenho um sério problema de audição, e meu aparelho quebrou" inventei na hora, em parte para arranjar uma desculpa e em parte para conquistar a simpatia dos meus ouvintes. Infelizmente, não funcionou.

Estava um tanto quanto escuro ali onde nos encontrávamos, o que dificultava a minha identificação. Porém, o tempo que passei delirando com igrejas pouco convencionais foi o suficiente para que os policiais se acostumassem com a escuridão e observassem meus traços faciais, e antes que o "Gordo" pudesse formular qualquer pergunta, "Magro" segurou meu queixo, levantou-o e disse:

- Ô Juca, olha bem pra esse guri. Ele não te lembra alguém?
- Bah Betão, como é que eu vou lembrar de alguém? Tu sabe que eu não enxergo nada no escuro!
- Mas tchê, olha bem pra ele. Não te lembra aquele retrato falado que apareceu no Fantástico? Pega a lanterna aí e olha bem.
- Barbaridade! Não é que é mesmo? Ah, tu vem com a gente, guri, por que tu tá muito fodido.

Não, meus caros leitores, não são seus olhos pregando peças em vocês! Meu retrato falado realmente aparecera no Fantástico, em uma reportagem bombástica sobre o "Maníaco do Fusca", um jovem do interior do Rio Grande do Sul que espalhava o terror no coração de homens e mulheres pilotando um possante Fusca Itamar que tinha a apavorante frase "Pinheirinhos de Alegria" pichada na lateral esquerda. Em outras palavras, eu tinha feito uma cagada tão grande que eu apareci no Fantástico e ganhei um nome de guerra. Talvez tenha sido por isso que os clientes do posto não fizeram nada quando Tijolão tentou me matar, e por isso que a garçonete me emprestou o telefone tão prestativamente. Foi neste momento, enquanto Juca e Betão me algemavam, que considerei a hipótese de eu ser Hitler reencarnado (e se a ausência de pêlo facial não era o preço que eu estava pagando por ter usado aquele bigodinho horroroso). E ali, quando eu achava que tudo estava perdido, tudo mudou, e a coisa ficou ainda pior.

Já estava algemado e dentro da viatura quando, para minha surpresa, Tijolão aparece gritando e balançando sua pá no ar, esmaga o parabrisa do Prisma cor-de-oliva e rapidamente domina os dois policiais (leia-se "os deixa estatelados e inconscientes no chão"). Por um segundo, pensei que ele tivesse vindo me salvar e assim agradar o Coronel, e senti-me agradecido por ter decidido não enfrentar ele mano-a-mano, por que certamente teria morrido desta maneira. Porém, um segundo passa rápido e, como eu disse no parágrafo anterior, a coisa estava prestes a piorar por que, subitamente, percebi que ele não viera me resgatar: ele viera me matar. "Fiodasputa traidor sem vergonha!" gritava ele com um tom de voz demoníaco, "eu vou te matar! O Coronel me disse pra te matar, seu vagabundo!" Claro, eu esquecera que ele era psicótico e possivelmente ouvia vozes, entre elas a do Coronel!  Pensei então em Houdini, o famoso mágico que, não importava quão feia era a situação, sempre encontrava um jeito de escapar da maneira mais fantástica e improvável possível. Tudo isso algemado. Pensei em Houdini, e o que ele faria no meu lugar. Depois do terceiro pazáço que Tijolão deu na porta traseira, concluí que ele certamente se cagaria de medo.

No quarto golpe, a porta cedeu, e Tijolão avançou em minha direção para dar o golpe de misericórdia. Porém, em sua explosão de raiva, ele se esqueceu completamente de uma coisa: dois objetos distintos não podem ocupar o mesmo espaço no mesmo tempo. Em outras palavras, ele não tinha como acertar-me em cheio com uma pá dentro de um carro. Claro, ele poderia me dar estocadas no pescoço até eu morrer, mas não estava disposto a descobrir se ele desenvolveria este comportamento por conta própria ou se ele precisaria de uma dica externa, então, quando ele tentou me acertar à moda antiga, eu segurei a pá com os pés (por que se a necessidade é a mãe da invenção, o cagaço é o pai das habilidades ninja instantâneas), puxei-a para baixo, chutei o queixo de Tijolão e saí correndo desgraçadamente para o lado que parecia mais seguro.

Por causa da comoção que eu e meu amigo causávamos, o número de observadores e curiosos aumentou em progressão geométrica. Claro, da mesma forma que os torcedores em um estádio de futebol ninguém fez nada (por mais que eu quisesse que alguém começasse a tocar fogo nos banheiros químicos ou coisa assim), nem mesmo chamar a polícia. Tampouco isto foi necessário, por que Juca ou Betão eventualmente despertaram de seu sono reparador e chamaram por reforços. Depositava toda a minha esperança em minha habilidade de me esconder até que a poeira baixasse e Borat chegasse para me buscar. O que não era garantido, piorando muito minha situação.

Continua num próximo post...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Histórias que entretêm - Passeio Etílico em Uruguaiana (Parte IV)

Sim, da mesma forma que Forrest Gump fez quando estava prestes a ter a cara amassada pelos valentões do bairro, corri, corri, corri, com a diferença que por causa disso ninguém iria me colocar como quarterback de time de futebol americano nenhum. Porém, consegui chegar na boléia do caminhão e me trancar ali dentro. Não teria muito tempo antes de Tijolão começar a arrebentar os vidros a pazadas, então coloquei-me a trabalhar em uma solução para minha situação assim que pude. Olhei ao meu redor. As latinhas de cerveja ainda estavam lá, bem como os talheres e o taco de basebol. O taco de basebol, é claro! Chekhov provavelmente deve ter rolado em seu túmulo no mesmo momento em que eu percebi que este item desportivo poderia me ser útil naquela perigosa situação. Continuava fraco demais para enfrentar meu oponente de igual para igual, mas aquele taco seria de grande ajuda, por que, além de longo, ele era feito de alumínio, e bastante pesado.

Abafados e distantes, ouvi os gritos de Tijolão se aproximarem com uma rapidez demoníaca, e quando percebi, ele arrebentara o vidro do lado do motorista. Esta era a minha deixa. Aproveitando-me do fato daquele caminhão ter uma janela a menos, peguei o taco de basebol e acertei em cheio uma estocada na testa de Tijolão. O que, para meu horror, não serviu para nada, além de deixá-lo ainda mais furioso. Sentindo a morte se aproximando, desesperei-me e gritei: "Tu acaba de falhar no primeiro teste, Pedro Tijolão! O Coronel vai ficar muito desapontado quando eu lhe disser o que aconteceu aqui esta noite". Para meu espanto, ele parou e olhou para mim, com uma expressão confusa no rosto. "Quer dizer que tu conhece o... o Coronel?". Oh meu bom Deus, obrigado por um dos delírios dele ser a respeito de um Coronel! Agarrei-me à esta oportunidade de salvar-me como um náufrago se agarraria à uma tábua de madeira e continuei desfiando abobrinha em cima de abobrinha.

- Sim, conheço o Coronel, por que eu sou enviado direto dele. Eu vim testar a tua fé, e tu falhou, Pedro, falhou miseravelmente.
- Desculpa, patrão, desculpa! Mas como é que eu ia saber que tu não era um comunista? Até o telefone tu usou!
- Mas era essa a idéia, Pedro! Esse teste serviria para ver se tu era digno de levar adiante o plano, e agora não me resta outra escolha se não procurar alguém que seja.
- Por favor, patrão! Me dá outra chance, eu sei que eu posso!
- Não, não, não! Tu já teve a tua chance, e tu jogou ela fora. O Coronel foi bem claro quanto a isto!
- Por favor! Eu te peço de joelhos!

Claro que eu ia dar mais uma "chance" para ele! Mas, como em qualquer barganha, eu precisava bancar o difícil, e inventar uma nova prova de fé, que servisse o triplo propósito de acalmar os ânimos de Tijolão, impedir ele de chegar em Florianópolis e me deixar em casa. Quando pensei em "casa", lembrei que tinha perdido minhas chaves, e que precisaria arrombar a porta ou chamar um chaveiro, o que fosse mais conveniente. Como este pensamento não tem nada a ver com o que está acontecendo agora, me desconcentrei e disse:

- A chave! Há uma chave para tua salvação, Pedro! Uma só! E ela reside em uma simples tarefa. Mas antes de te dizer o que ela é, vou ter que consultar o Coronel. Vem comigo.

Desci do caminhão e caminhei em direção ao posto de gasolina da maneira mais digna e aristocrática que um homem que acabara de defecar nas próprias calças poderia. Fui até o balcão da lanchonete e pedi "o telefone, por favor". Esse "por favor" foi dito mais por hábito do que por desejo de ser educado, afinal de contas, por que eu tinha que ser educado se eu tinha um psicótico armado com uma pá me seguindo como um guarda-costas? A assustada garçonete não pensou duas vezes, e logo me trouxe um sem-fio. Tijolão, que acompanhava todos os meus movimentos com seus olhos esbugalhados e abraçando a sua pá como uma criança que abraça seu ursinho, parecia ansioso por alguma palavra minha, e para saber o que o Coronel teria a dizer para mim. A fim de aumentar a tensão dramática, e impedir que ele ouvisse a minha conversa com meu "chefe", disse "espera lá perto do caminhão. Tu vai saber o que fazer quando eu achar que tu deve saber". Papo para boi dormir, mas ele obedeceu.

Assim que ele saiu da lanchonete e não podia mais me ver, abandonei o ar pomposo e voltei a me comportar como um rato acuado, agarrando-me com toda a minha força ao telefone, e dizendo com a maior rapidez possível quando o outro lado atendeu:

- Borat, tô na merda!
- Que?!

Para meu azar, era a mãe dele.

- Quero dizer... o Lucas se encontra?
- Não, ele acabou de sair. Quer deixar recado?
- Ele levou o celular dele? Me diz por favor que ele levou o celular...
- Não, tá aqui em cima da mesa o celular dele.
- Ai...
- Não quer deixar recado mesmo?
- Não... quero dizer, sim! Pensando bem, tia, me faz um favor?

Acho que ela não gostou muito de ser chamada de "tia", pois respondeu com a maior das más vontades:

- O quê tu quer?
- Bom dona, tem como tu olhar a agenda do telefone dele e procurar uns telefones?
- Por que eu faria isso? Olha, liga mais tarde e fala com o Lucas.

Desesperado com a possibilidade dela desligar o telefone, dei minha última cartada:

- Não desliga, por favor! Olha só, é caso de vida ou morte, e isso não é metafórico! Por favor, por favor, por favor, OLHA O CELULAR DELE POR MIM! Se fosse o teu filho ligando para a minha mãe, tu não ia querer que ela fizesse isso por ele?

Sensibilizada pelo meu medo e seu instinto materno, ela se dispôs a fazer isto, e me passou o contato de todas as pessoas que eu conhecia e que Borat tinha um número, e de algumas que nunca vi mais gordas. Depois de agradecer profusa e efusivamente pela ajuda que me dera, desliguei e imediatamente liguei para uma amiga:

- Alô? Cháris, me salva!
- Andarilho, é tu? Onde tu tá? Uma hora tu estava com a gente na festa, e na outra, tu sumiu! O Borat nos contou que tu tá em Uruguaiana, isso é verdade?
- Não tô mais. Consegui carona e viajei uns 50km, e devo estar mais pros lados de Alegrete agora. Não tomo banho à 4 dias, tô coberto de bosta, tô fedendo, meu caroneiro é um psicótico em surto e acabou de tentar me matar com uma pá!
- Como assim?!
- É isso aí. Quando eu disse "Cháris, me salva" não foi por força de expressão!
- Mas o que tu quer que eu faça?
- Rouba um carro e vem me buscar. Sei lá. Só arranja um jeito de me buscar! Fala com o Borat que tem carro, e diz pra ele que eu tô num posto de gasolina pra depois de Alegrete, e que um pirado pode me matar. Depois que ele se matar de rir da minha cara, ele vai vir me buscar. Ah! E diz pra ele que eu vou chamar ele de "Coronel".
- Tá...
- Ah, e diz pra ele cobrir os bancos do carro com algum plástico para eu sentar e não estragar o estofamento.
- Tá...
- E que eu não vou ficar triste se ele trouxer uma arma junto.

Ao desligar o telefone, sentia-me tão alegre, tranquilo e leve quanto Homer Simpson se sentiria na Terra das Rosquinhas. Claro que essa minha alegria não durou muito, pois logo lembrei que precisava ir falar com o meu maluco favorito e inventar alguma tarefa redentora que o deixasse ocupado por pelo menos 8 horas, tempo que imaginava ser suficiente para Borat pegar o carro e vir me buscar. Dependendo de como Tijolão reagisse, tudo ficaria mais fácil ou mais difícil. Preciso dizer qual alternativa vai ser?

Continua...

Histórias que entretêm - Passeio Etílico em Uruguaiana (Parte III)

Os ideais, não importa quão belos sejam, têm sua validade sempre dependente do contexto. Por exemplo, a Reforma Psiquiátrica, que busca pôr abaixo os manicômios, hospícios e preconceitos e possibilitar uma vida mais livre e digna para pacientes portadores de sofrimento psíquico parece muito mais bonita quando não se está dentro de um veículo de grande porte dirigido por um esquizofrênico em surto. Bem, esta era a situação em que me encontrava, pois aquele caminhoneiro que parou para me dar carona, que a princípio parecia um lunático na verdade estava completamente delirante, me fazendo rezar por um hospício bem psiquiatrizante e com uma máquina de eletrochoque bem potente.

Ele dizia que seu "nome de cartório" era Pedro, mas que todos o chamavam de Tijolão. "Por que?" perguntei em um rompante infeliz de curiosidade, que o estimulou a contar uma história confusa e desligada da realidade, que envolvia de uma maneira muito bizarra a Brigada Militar, "os espião do Jorge Bush", alienígenas estupradores, rádios à pilha que controlam pensamentos e a olaria do pai dele, que tinha sido construída sobre a o tesouro dos Farroupilhas. Também envolvia, bastante tangencialmente diga-se de passagem, um golpe de tijolo que ele levou na cabeça quando guri. Em um setting terapêutico em Porto Alegre, seguro, confortável e cheirando à Bom Ar, eu acharia tal depoimento profundamente interessante, e mais fantástico que o caso do Presidente Schreber, mas ali, na boléia de um caminhão dirigido por este cidadão que deveria estar tomando Haldol como quem come Tic-Tacs, só serviu para aumentar meu pavor. Porém, eu já tinha começado a escarafunchar e ver as coisas com mais clareza, e não podia parar por ali. Restavam, pelo menos, mais duas perguntas por fazer: o que ele estava levando de carga e o porquê. Eu ia me arrepender de saber essas coisas, e ia ficar ainda mais apavorado, mas não dava para segurar:

- Seu Tijolão?
- Fala, guri.
- O que o senhor está levando na carga?
- Ali atrás?
- É. Ali atrás.
- Vacas.
- Como é que eu não ouvi nenhum mugido até agora?
- São vacas ninja. Tipo o Jiraya. Essas são muito rara. Tive que buscar elas lá na Argentina.

Estas informações reativaram meu olfato, até então anestesiado pelo meu próprio fedor, e passei a sentir um forte cheiro de carniça, e me impressionei por não tê-lo sentido antes. Pelo menos eu entendi como ele não se impressionou com o meu fedor. Ainda assim, continuava cheio de dúvidas (principalmente sobre onde ele aprendeu sobre Jiraya) e continuei:

- E o que o senhor pretende fazer com elas?
- Me vingar dos vermelhos, aqueles fiodaputa.
- Com um exército de vacas ninja?
- É isso aí. Por que?
- É um plano de gênio, seu Tijolão. Mas onde estão estes comunistas?
- Eles se escondem lá em Floripa, no Mercado Público.
- E o senhor vai soltar suas vacas lá, é isso?
- E pegar todos aqueles cornos.

Não me entendam mal - eu, mais do que qualquer outra pessoa, sou capaz de perceber o lado humorístico de um psicótico largando vacas mortas no meio de um mercado cheio de gente (e que, se ele fosse um estudante de Psicologia, ele estaria fazendo uma intervenção) e de todas os noticiários babacas que surgiriam na internet, mas precisava impedi-lo de fazer isto. Afinal de contas, quem pode imaginar quantas novas "doenças da vaca louca" (ou do "louco das vacas") podem surgir com essa brincadeira?

Precisava impedi-lo, já disse, mas não sabia como. Sabia que o papo furado de "confrontação empática" não iria colar ali, e que, se rolasse confrontação, ela seria bastante "antipática", por assim dizer. Comecei a olhar ao redor da boléia para ver se encontrava qualquer coisa que poderia ser como arma, especialmente contra mim. Além das dúzias de latinhas de cerveja que poderiam ser atiradas contra minha cabeça, identifiquei uma pá e um taco de basebol, além de um jogo de talheres completo. Por que este cidadão estava levando um jogo de talheres completo em sua boléia, não quero nem pensar - deveriam ser shurikens de vaca. Subitamente, surgiu em minha cabeça um ousado plano. Era absolutamente delirante, mas considerando que meu caroneiro também era, talvez funcionasse. "Seu Tijolão", disse com a voz baixa, "seu plano é genial, mas tem um problema". Ele levantou suas sobrancelhas e olhou para mim com interesse e espanto. Era o sinal de que tinha capturado sua atenção. Antes que ele perguntasse qualquer coisa, continuei - "suas vacas não estão bem treinadas". "Mas como, tchê? Eu mesmo peguei elas no campo e vi que elas eram boas!" exclamou ele. O olhar dele me pareceu um pouco assassino demais, então tão rápido quanto pude, emendei uma desculpa:

- Sim, elas tem muito potencial e só alguém muito bom poderia selecionar vacas ninja tão poderosas, mas precisam um treino especial a mais.
- E que treino é esse?

Olhei para os lados, como se procurando algum espião, e respondi:

- Não posso dizer agora. Os vermelhos podem nos ouvir. Eles controlam tudo nessa estrada, mas estamos com sorte. No próximo posto de gasolina há um mestre vaca ninja aliado nosso, e que pode dar o treinamento final para seus soldados.
- Tem certeza?
- Absoluta! Mas vamos com cuidado. Os espiões do Stalin estão por todos os lados, mesmo lá no posto.

Eu já sabia que tinha talento para ganhar a simpatia de psicopatas, mas este meu talento para conquistar a confiança de psicóticos era algo novo para mim. Bom, pelo menos estava progredindo: tinha conseguido carona para a Capital, e iria parar em um posto de gasolina, onde provavelmente eu encontraria um orelhão e talvez um chuveiro, e poderia conseguir uns trocados para um telefonema e uma ducha fria, até mesmo um Prato Feito ou qualquer angu de posto de gasolina. Depois de informado, limpo e alimentado, eu pensaria em como continuar a história do treino das vacas ninja e impedir meu amigo Tijolão de fazer alguma merda em Florianópolis.

Depois de cansativos trinta minutos (por que ficar fingindo estar se escondendo de possíveis espiões cansa pra cacete), chegamos no posto. Era igual a quase todos os outros postos de gasolina de beira de estrada que já conheci. Não era nada de especial, mas naquele momento parecia especialmente paradisíaco. Faziam quatro dias que tinha sumido de maneira pecaminosa de Porto Alegre, já estava anoitecendo e eu continuava coberto de sujeira. Tudo conspirava para que meus pais estivessem surtados me procurando em todos os cantos errados da capital e da Serra e que não me encontrariam, o que os deixaria ainda mais surtados. Dadas estas circunstâncias, me senti liberto de qualquer pudor e decidi satisfazer minhas necessidades de qualquer maneira. Antes que vocês digam que eu decidi vender meu corpo por uma coxinha de galinha e uma Sukita, matando dois coelhos com uma cajadada só, já lhes informo que na verdade eu não cobro comecei a mendigar trocados e/ou cartões telefônicos. De certa forma, era mais ou menos como passar por um novo trote, com a diferença que dessa vez, não pedia trocados para beber demais, mas pedia trocados por beber demais.

Não sei o que as pessoas que eu abordava pensavam quando me viam, mas sei que recebi muitas doações. Talvez eles não quisessem que eu encostasse no carro deles, o que poderia vir a ser uma boa ameaça caso precisasse ser mais "convincente". Tendo acumulado muitos sucessos na minha carreira mendicante, pensei em descansar um pouco e tomar um banho. Porém, o senso de urgência que tomara meu corpo (além das minhas pulsões sado-masoquistas/auto-punitivas) era forte demais para permitir tamanho luxo antes de eu telefonar para alguém conhecido e confiável. Por isso, assim que achei que tinha créditos o suficiente para dizer, por telefone, onde e como eu estava, fui até o orelhão mais próximo e liguei para o Borat.

Tuuuuu... Tuuuuu... Tuuuuu... A ligação tinha sido feita. Enquanto esperava alguém atender, ensaiava novamente o que diria, especialmente se alguém além do Borat atendesse o telefone (e agradecia pelo fato de tal aparelho não transmitir odores). Tuuuuu... Tuuuuuu... Tuuuuu... Mais alguns segundo de espera, antes de contatar minha salvação. Tuuuuu... Tuuuuu... Tuuuuu... Já demorava demais, e começava a pensar se meu redentor não teria saído para beber e no processo esquecido completamente da minha existência (e, se ele realmente fez isso, se foi intencional). O orelhão iria começar mais uma vez sua monótona canção quando escuto o barulho de um fone sendo tirado do gancho do outro lado da linha e escuto o primeiro alô do meu amigo. Mal começara a dizer "Borat, seguinte..." quando, por razões que a própria razão não compreende, senti um forte impulso de largar o telefone e rolar para a esquerda. Quando fiz isso, percebi que dizer que a razão não comprendia por que eu deveria fazer isto talvez fosse incorreto, pois meu caroneiro Tijolão tinha recém arrebentado aquele orelhão com uma pá, enquanto gritava "Comunista" e "traidor" a plenos pulmões.  Ao contemplar tal espetáculo, pensei que, se algum dia eu tivesse a oportunidade de dizer ao meu psicanalista como me senti naquele instante, diria que me senti como Kitti Genovese e um bebê de 6 meses, por que ninguém que estava ali por perto fez nada, e por que eu acabara de cagar nas calças com o susto.

"Telefone é coisa de comunista, seu porco! Me traiu!" gritou ele mais uma vez, desta vez olhando para mim com olhos injetados de sangue. Ele não era mais Tijolão, mas Azrael, o anjo da morte, e ele viera para a terra para levar minha alma para o inferno, não com uma foice, mas com uma pá. Talvez, em condições normais, eu pudesse enfrentá-lo de frente, sem medo, como um verdadeiro guerreiro. Contudo, os últimos quatro dias que passei cometendo todas as heresias listadas pelo Vaticano e buscando voltar para Porto Alegre deixaram-me completamente esgotado e incapaz de dar um soco sequer. Eu ainda conseguia correr. E como conseguia! O problema que Tijolão também corria muito para um homem de seu tipo físico, o que me obrigava a mudar minha estratégia, e logo. Em uma ousada e desesperada manobra, desviei-me de Tijolão, e corri com todas as minhas forças em direção ao seu caminhão.

Continua...

As Histórias da Expedição Austral - Nossas Idiossincrasias Lingüísticas

Apesar da linguagem ser um desenvolvimento evolutivo relativamente recente, é razoável dizer que o Homo sapiens é um animal verbal. Em outras palavras, isto quer dizer que o ser humano inventa palavra para tudo que é porcaria que ele conhece e/ou inventa. Para dar um exemplo disto, vamos imaginar que voltamos no tempo, e que agora somos Vikings, navegando em um navio com cabeça de dragão, procurando terras para pilhar e usando capacetes com chifres mesmo que os vikings de verdade nunca tenham feito isto. Agora, pensem que nosso navio atracou em uma praia desconhecida, porém muito bela do hemisfério sul. No melhor espírito aventureiro, nós descemos do navio e exploramos a terra, com a expectativa de enfrentar alguma horda bárbara e irmos para o Valhalla, quando, de repente, vemos diante dos nossos olhos uma linda, colorida e gigantesca ave, voando com graça e elegancia. O que fazemos? Matamos a ave, obviamente, por que nós somos Vikings e nós matamos coisas. Porém, depois que a matamos, vemos que ela é muito diferente de qualquer outro pássaro que conhecíamos. O que temos que fazer? Além de descobrir se dá pra comer a carne do bicho, precisamos inventar um nome para ele. Mas não se preocupe, estas duas coisas acontecerão naturalmente, e algum dos nossos companheiros criará uma palavra como "Arara", "Papagaio" ou "Parakittar" para designar a nossa futura janta.

Agora, voltemos para o tempo presente, por mais desinteressante que ele possa parecer agora por não sermos mais vikings e por não termos arara para o jantar. Este exemplo que eu dei, apesar de ser preciso o suficiente, não é amplo o bastante, por que não inventamos palavras só quando um troço colorido e cheio de penas voa em nossa direção, e sim o tempo todo. De fato, apesar de não poder provar nada do que vou afirmar agora (e, aliás, nem preciso, isso aqui não é um artigo pra Science), creio que passamos por um processo parecido quando aprendemos a falar nossa língua materna, e é através dessa "invenção contínua" de novas palavras que novas línguas nascem. Se os vikings do nosso exemplo, ao invés de voltarem para a Escandinávia, resolvessem estabelecer uma comunidade ali naquela terra cheia de Parakittars e não fossem todos devorados por criaturas selvagens e/ou populações auctóctones, dentro de algumas décadas desenvolveriam uma linguagem tão diferente da original que se transformaria em uma nova. Isso aconteceu pelo menos uma vez, com os holandeses que se mudaram para a África do Sul e "criaram" a língua afrikaans.

Mas não precisamos ir tão longe assim. É bem possível que exista algum agrupamento humano que, apesar de separado do resto de sua sociedade, não desenvolva uma língua própria, contudo esteja isolado o suficiente para criar toda uma vasta gama de termos novos para coisas que não existem no "resto do mundo" ou que lá teriam um outro nome, mais convencional. Um exemplo disto são as Forças Armadas que, por obrigarem seus membros a passarem quase todo seu tempo isolados do resto da sociedade, desenvolvendo tarefas pouco ortodoxas (pilotar helicópteros, por exemplo), muitas vezes acabam criando espontaneamente e ao longo do tempo uma forma muito própria de se comunicar. O melhor exemplo que tenho deste fenômeno é este longo e interessante glossário de termos utilizados informalmente pelos membros da Marinha dos Estados Unidos. É longo, porém extremamente divertido (eu me matei de rir com "Whistling Shitcan of Death" e PFM). É discutível se, durante nossa viagem, eu e Marcelo ficamos realmente isolados do resto da sociedade, mas como nos confrontamos com necessidades diferentes das nossas em Porto Alegre, acabamos por inventar palavras novas ou remodelar as antigas para que melhor descrevessem nossas condições (e também serem mais engraçadas).

A primeira gíria surgiu ainda em Buenos Aires. No primeiro ou segundo dia de congresso, eu e Marcelo caminhávamos apressadamente para chegarmos à tempo de alguma palestra e, como estávamos com fome, paramos em um mercadinho, onde compramos algumas unidades de pão francês, que provavelmente deveriam ter pó de cimento na mistura, por que eram horríveis - secos, duros e sem gosto algum. Como bom estóico que é, Marcelo simplesmente passou a dar mordidas mais fortes, eu, como bom palhaço e nerd, me lembrei de um pedaço de "O Hobbit", e o compartilhei com meu amigo  no seguinte diálogo:

Eu- Marcelo, tu já leu "o Hobbit"?
Marcelo- Duas vezes.
Eu- Tu te lembra do "cram"?
Marcelo- Não.
Eu- Cram era o nome de um pão de viagem dos anões, parecido com o Lembas, que era duro, seco e sem gosto, e que servia mais para exercitar as mandíbulas do que para a alimentação.
Marcelo- Ah!

E assim, daquele momento em diante, cram virou sinônimo de "comida ruim, mas que supre nossas necessidades". Mais adiante na viagem, já na Patagônia, cram passou a ser o nome muito particular que demos para os mandolates da La Anonima, que descobrimos em uma promoção de Natal. Como os pães de Buenos Aires, eles eram secos, duros e com um gosto muito sutil (para não dizer inexistente), mas serviam para encher a barriga entre as refeições. Muitas vezes, durante as nossas caminhadas, ouvi Marcelo dizer "pega o cram, por favor", como se ele dissesse "hora de manter a glicemia". Curiosamente, mais para o final da viagem, compramos mandolates da Arcor, que além de mais macios, tinham sabor de alguma coisa, e a primeira coisa que dissemos quando descobrimos isso foi "bah, que merda, isso aqui tem gosto. A gente vai acabar com tudo logo, logo". Feliz ou infelizmente, não foi o que aconteceu, pois os tais mandolates provaram ser enjoativos.

A segunda palavra que desenvolvemos foi PDM. Sempre que iríamos fazer alguma coisa peculiarmente arriscada ou idiota, calculávamos seu PDM. E o que é PDM? É "Potencial pra Dar Merda". E nossa viagem era cheia de potencial! Como exemplo clássico do uso deste termo, lembro-me de "tchê, essa tua idéia tem um alto PDM", quando um de nós sugeria qualquer coisa perigosa ou imbecil. Foram tantas que nem vale a pena fazer uma lista. Considero esta sigla especialmente engraçada por ter, ao mesmo tempo, um ar altamente técnico e um significado particularmente vulgar.

A terceira palavra não é tanto uma gíria nossa, e sim mais um hábito nosso. Como nós estávamos bastante acostumados a comparar preços, nós fazíamos isto em qualquer lugar onde houvesse prateleiras e produtos à venda, mesmo que não quiséssemos comprar nada. Por que fazíamos isso? Por despeito, pois assim, podíamos nos sentir melhores do que o resto das pessoas que compravam, por que sabíamos que os preços ali eram absurdos e nós sabíamos onde era mais barato (no La Anonima, é claro!). E o nome que dávamos para esta sobra de preço era "achacação". Se, durante uma viagem de ônibus parássemos em um posto de conveniência (assim chamados por dois motivos: 1. são bem localizados, para a conveniência do viajante; 2. têm os preços absurdamente inflacionados, para a conveniência do dono do estabelecimento), um de nós certamente olharia o preço das coisas à venda e diria para o outro "a achacação aqui é violenta" e tentaria pegar discretamente a comida que o casal de idosos deixou sobrando no prato.

Também tínhamos uma relação especial com as palavras do espanhol que aprendíamos no caminho. Não pedíamos carona, "haciamos dedo" - ou "fazer dedo", depois de muitas horas na beira da estrada. Jurel, caballa e pelón (além de choclo, por parte do Marcelo), apesar de provavelmente terem algum equivalente em português, eram os únicos termos que tínhamos à nossa disposição para descrever três itens bastante importantes de nossa empreitada - para ser sincero, até hoje não sei bem que tipo de peixe são caballa e jurel (porém pelón eu sei que em português é nectarina). Copado, apesar de não ter se tornado parte integrante do nosso vocabulário, era um acessório interessante, que usávamos quando conversávamos com argentinos e queríamos dar a entender, ao mesmo tempo, que achávamos que algo era legal, e que entendíamos do dialeto argentino. Como diriam os norte-americanos exceto os mexicanos worked like a charm.

Por fim, dois dedos de prosa a respeito do nosso equipamento. Não, não inventamos nomes personalizados para nenhum item do nosso inventário (exceto a garrafinha, que sempre chamamos de "A Saudosa"), mas fomos, com o tempo, descobrindo seus nomes em espanhol e utilizando-os quando necessário. Barraca é carpa ou tienda; fogareiro, calentador; guardanapo (sim, sempre tínhamos pelo menos dois à nossa disposição), servilleta. Por causa do hábito que nosso calentador tinha de apagar quando mais precisávamos dele, tivemos que desenvolver um dispositivo que protegesse sua chama e mantivesse seu calor. Foi assim que nasceu o "forno". Se vocês pensaram em um invento altamente sofisticado, eu sinceramente duvido que vocês tenham entendido como foi nossa viagem. Basicamente, nós colocávamos um de nossos isolantes térmicos em volta do fogareiro aceso, e o cobríamos com uma jaqueta. O fogo continuava apagando, mas com muito menos freqüência. E, last but not least, passamos a viagem inteira chamando nossa panela de "panela", para depois descobrirmos que era uma leiteira. O que não muda nada, pois continuo chamando ela de panela.

A "leiteira" em ação. Sim, a situação é algo que saiu de um livro dadaísta.