terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Journey

Play
With
Your
Self

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 3)

Há certas pessoas na mídia brasileira que todos conhecem pelo nome, estão sempre aparecendo em jornais, revistas e programas de TV, que são famosos em fim, mas que ninguém sabe exatamente por que. Nana Gouvêa é uma dessas pessoas.

Esse é o maior mistério em todo o submundo das celebridades brasileiras: o que faz Nana Gouvêa? Para solucionar este mistério, não poupei esforços, e digitei o nome dela no Google. A primeira página que aparece na pesquisa é o site oficial dela. Esperando encontrar ali a informação que responderia minha pergunta, cliquei no link. O site é divido em apenas quatro seções. A primeira seção é uma biografia, que é tão curta que vou copiar pra cá na íntegra:

"Nana Gouvêa, atriz, formada em Cinema e TV pela Faculdade da Cidade. Iniciou na carreira artística aos 10 anos como modelo fotográfico. Aos 17 já representava as maiores e melhores marcas como Ellus, Fórum, Zoomp, De Millus, entre outras. Como atriz, Nana Gouvêa apresenta trabalhos em novelas, minisséries, especiais, programas semanais e cinema."

E isso é tudo, pessoal! Esse texto parágrafo é a coisa mais vaga pouco informativa que li essa semana, começando pela formação acadêmica da nossa conhecida. "Cinema e TV", na Faculdade da Cidade? Pelo naipe, tem cara de ter se formado em uma UniEsquina, em um curso que apareceu do chão tipo cogumelo. E Faculdade de Qual Cidade? O Brasil deve ter, sei lá, umas 3 mil cidades. O nome me diz tanta coisa quanto uma mancha do Teste de Roscharch. Google neles de novo, minha gente! O mais próximo que eu cheguei foi na Faculdade da Cidade de Salvador. Mas é lá mesmo? Não consta entre os cursos de graduação "Cinema e TV" (consta, porém, Psicologia). Algo está errado aqui. O que fazer? Apelar para a Wikipédia, a fonte de conhecimento mais confiável depois da opinião pessoal dos taxistas de Porto Alegre. E sim, ela tem uma página lá, o que só reforça a noção de que ela é uma celebridade. Quem sabe esse artigo da Wikipédia esclareça bem a profissão dela.

E, como eu esperava, há bem mais informação sobre Nana na Wikipédia do que em seu site pessoal. Ela é natural de Jataí, também conhecida como a Princesinha de Goiás (ou Cidade abelha, sabe-se lá por que) e é caracterizada pela Wikipédia como atriz e modelo. A palavra da Wiki é Palavra de Deus. Porém, eu sou da opinião de que eu não vou virar engenheiro só por que todo mundo me chama assim, e o mesmo vale para a amiga Nana. Vamos ver que trabalhos ela fez, então. No site dela, há outra seção, apropriadamente nomeada "TV". Como o site dela foi feito com um programa de flash bagaceiro que não deixa copiar textos, e eu estou com menos paciência agora do que quando comecei a escrever este post, vou só colar um printscreen que dei da página dela:


Como estou cheio de trabalhos para fazer para a faculdade não tinha nada melhor para fazer, olhei um por um os especiais, minisséries e novelas que são listadas tanto no seu site quanto na Wikipédia. E, para minha surpresa, ela é listada como atriz apenas em "Faça sua História", no sétimo episódio, no papel de "Veranista".

Foi então, e só então, que percebi um estranho padrão. A Wikipédia, além de listar as "participações" de Nana na dramaturgia televisiva, lista também a aparição de nossa amiga em capas de revista, e todas em que ela apareceu foram revistas de estética/beleza. Ah, mas essas não foram as únicas revistas que Nana Gouvêa expôs seus dotes! A Wikipédia faz uma lista em separado das revistas eróticas para a qual posou nua: 4 capas da Sexy e 2 da Playboy (sem contar as que ela não foi capa). Na pesquisa no Google, com a exceção do site pessoal dela, todos os resultados são de fotos e/ou vídeos seus em trajes mínimos ou inexistentes (o melhor deles é um intitulado "OS CAÇA PEITOS" do Domingo Legal). Por Aslam, eu não sei nem por que eu considerei o site dela uma exceção à regra, por que as duas seções que restam do site são a galeria, onde há uma subseção só para fotos dela no carnaval, e a de capas de revista, onde, de 14 capas, 9 ela se encontra em posições altamente eróticas (eu contei a capa que ela está no meio de dois machos como uma insinuação de sexo grupal).

O que é Nana Gouvêa? Agora somos perfeitamente capazes de responder que ela é Gostosa. Não apenas esteticamente, mas profissionalmente também, pois ser Gostosa é o ganha pão de Nana Gouvêa, tanto quanto ser Arquiteto é para Niemeyer, ser Médico para Gregory House e ser Fresco para Leão Lobo. É a vocação dela, e é por isso que ela frequentemente aparece na nossa frente, expondo suas carnes para quem quiser ver, e assim será até o final dos tempos (ou quando ela começar a embarangar, o que vier primeiro).

Agora, vocês devem estar se perguntando, por que eu escrevi um post inteiro sobre a (falta de) profissão de Nana Gouvêa? E por que usando o mesmo título da série onde falo sobre minhas experiências televisivas no estágio? Simples, essa semana, durante uma das minhas rondas, acabei assistindo o programa da Sílvia Poppovic (outra criatura que me espanta), onde ela, Nana Gouvêa e outras mulheres discutiam o casamento gay. É por essas e outras que quem trabalha em Hospital Psiquiátrico ganha insalubridade.

E numa nota não relacionada ao assunto do texto, Nana Gouvêa tem duas filhas, o que faz dela uma MILF oficial.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pure and Simple Inane Banter

Acabo de perceber que estamos em dezembro, mês do Papai Noel e da Telesena de Natal. Isto significa muitas coisas, a principal delas sendo enfeites verde-vermelhos para todos os lados, e especiais de televisão com mensagem moralista. Até dia 25 de dezembro. Depois disso, serão as mensagens de Ano Novo que nos instigam a fazermos um ano completamente diferente do que passou.

Onde os Poetas Reinam (2)

Topograficamente, ler poesia é igual a ler qualquer outra coisa - jornal, revista, livro - pois o processo mecânico é o mesmo: passam-se os olhos sobre as letras e entende-se o conteúdo. Em termos de sentimento, porém, coisas muito diversas acontecem, especialmente os sentimentos envolvidos.

Viver é sentir. Não é possível fazer nada sem algum tipo de emoção, pois mesmo quando fazemos algo que exige "frieza" ou "lógica pura", estamos com algum tipo de emoção por detrás de nossa percepção. Por isso, quando leio um artigo científico, por mais chato que seja, sinto alguma coisa, nem que seja tédio.

Dentro desse esquema, é óbvio que a poesia me cause sentimentos, só que eles são muito diferentes dos que sinto normalmente, pois são muito mais intensos, profundos e duradouros, como se brotassem de uma parte de mim que existe há muito mais tempo que eu próprio. E, apesar de serem mais antigos do que eu, esses sentimentos dizem muito a meu respeito, da mesma maneira que o tipo de poesia que leio, como se eles soubessem melhor do que eu quem eu sou de verdade, ou quem eu devo me tornar com sua ajuda.

Minha Vida de Alcoolista

Tenho 21 anos, idade que em que sou plenamente responsável por mim mesmo, já morei sozinho e longe dos meus pais. Apesar disso, ainda sinto como se não tivesse saído da infância, por que, mesmo já acostumado a assumir responsabilidades, trabalhar e como um todo ser bastante "maduro", não faço três das coisas mais caracteristicamente adultas: ganhar dinheiro, dirigir e beber.

As duas primeiras continuarão do jeito que estão por algum tempo ainda. A última, entretanto, está mudando lentamente. Nunca fui um grande beberrão - nem mesmo durante o Ensino Médio, a época onde todos os meus colegas e amigos aprenderam que encher a cara é um comportamento eminentemente social. Depois, já na faculdade, mantive o hábito de não beber, mesmo em situações muito alcoolizadas, e isso foi apenas reforçado pelo Roacutan, remédio pra espinha que ferra com o fígado e que impede qualquer consumo de álcool.

Parei de tomar Roacutan já fazem quase 10 dias, e decidi que iria me tornar um pouco mais alcoolista. Entrando nessa lógica, durante o intervalo entre uma aula e outra, fui com uns colegas meus ali na Vilma, o epicentro cervejístico do Campus Saúde, e tomamos umas, até eu achar  que estava pronto para duas horas de supervisão de estágio. Voltei para a faculdade vendo o mundo dançar num ritmo mais rápido que o meu, e, já com meus colegas, desandei a falar do jeito mais desinibido possível.

OK, até aqui relatei os efeitos que já sabia que o álcool causaria em mim. Depois disso descobri um novo. Voltei para casa, e fiquei na minha cama lendo. Depois de terminar um capítulo ("A Ilha", Aldous Huxley, esperem para breve um post sobre utopias), deitei um pouquinho, para descansar a cabeça e tal. Eram nove horas da noite. O pouquinho virou poucão, e acordei só às onze, com a sensação de estar 50% mais lento, e 50 pontos de QI mais burro. O QI, aliás, não aumentou ainda, só que o sono não volta. Aprender a beber envolve muito mais do que saber quando parar para não vomitar depois.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Vox Dei

E por todo o Universo,
Ressoou uma poderosa nota
Que dizia
"Por que não?"

Riders on the Storm

Faltam mais ou menos duas semanas para o final do semestre. Estudantes universitários em todo o país (se não no mundo inteiro) estão, assim como eu, passando pela fase que denomino "A Água Batendo na Bunda" - e se vendo obrigados a fazer milhares de trabalhos para entregar dentro de prazos apertadíssimos.

Uns tempos atrás, o Marcelo me falou que gostava de ler seus escritos mais antigos e fazer uma "Arqueologia do Self", isto é, remexer os artefatos antigos da alma e ver como ele era antigamente. Neste momento, estou fazendo algo muito parecido, comparando o Eu que sou agora com o Eu que era alguns semestres atrás e com os meus calouros, pelo menos no que tange esta tenebrosa época da faculdade.

O que vejo através dessa pequena "pesquisa" é que estou muito mais sereno. Tenho cinco trabalhos relativamente complicados para entregar nas próximas duas semanas, sendo que alguns deles eu não tenho como começar agora (falta a "matéria-prima", se vocês me compreendem). Não nego que isto me preocupe em certa medida, mas, se me comparo comigo mesmo três semestres atrás, e com meus bixos hoje (muitos dos quais estão passando pelo seu "primeiro final de semestre"), vejo que eu poderia estar muito mais neurótico a respeito disso. Não sei se isto acontece por que já tive a água batendo na bunda cinco vezes antes e já estou acostumado com isso*, ou se é por que eu simplesmente não me importo mais com o que os professores têm a dizer a respeito dos meus trabalhos. Só sei que já passei por outras tempestades, e passarei por esta também.




*Que tipo de gente o Google vai trazer pra cá por causa dessa frase?

Pequena Resenha de um Grande Livro

Tirando meus posts sobre utopias, não é hábito meu fazer resenhas de livros aqui no blog. Contudo, este livro que pretendo comentar aqui foi tão marcante que sinto que estaria perdendo alguma coisa de muito importante se não escrevesse nada a seu respeito.

Este livro é "Human Chance Processes" de Michael Mahoney.

Acredito que preciso comentá-lo aqui por dois motivos. O primeiro é o próprio mérito do autor, que graças a seu grande conhecimento teórico e prático da psicoterapia e das ciências como um todo, dedicou dez anos de sua vida ao processo de escrever uma obra magnífica, que transcende todos os manuais de psicoterapia que li até hoje (e olha, não foram poucos). O segundo é a ignorância dos profissionais da saúde mental no Brasil a respeito deste livro. Ele chegou a ser traduzido e publicado em 1998 pela Artmed, os números esgotaram e não houve mais reimpressões desde então, fazendo com que o livro seja encontrado apenas em sebos - e com relativa dificuldade. Considerando que vivemos um país onde incontáveis livros de psicanálise são publicados e republicados todos os anos, isso é bastante triste.

Expostas minhas razões, vamos ao livro em si. Não espero conseguir fazer uma resenha profunda e abrangente, que abarque todos os assuntos tratados no livro, por que "Human Change Processes" é extremamente abrangente, com capítulos sobre ética nas profissões de ajuda, uma história das idéias, bases e futuro da Psicologia Científica, ciências cognitivas, teoria construtivista e auto-organização, teoria da evolução, desenvolvimento humano, processos emocionais e estudos sobre o Self. Porém, o livro também é extremamente específico, pois todos estes assuntos não foram jogados no texto de forma desconexa e aleatória, como em uma enciclopédia ruim: há um fio condutor que os une, e que conduz até a parte final do livro, que trata sobre a psicoterapia em si - princípios, técnicas e, principalmente, a experiência de mudança em um contexto terapêutico, tanto do cliente quanto do terapeuta.

Em Psicologia e Ciências Humanas, estima-se que o conhecimento torna-se desatualizado em cinco anos. Isto significa que, no ano em que eu me formar, o que aprendi no primeiro ano de faculdade não terá mais validade - livros e artigos que li estarão superados, bem como as teorias que os embasavam. Dentro desta lógica, "Human Change Processes", por ter sido publicado em 1991, estaria 3,6 vezes desatualizado. Algumas das pesquisas citadas por Mahoney com certeza estão superadas, mas o livro como um todo não, por que ele não se limita ao seu tempo. De forma poética, eu poderia dizer que "Human Change Processes" é um livro além do tempo, pois fala da experiência de mudança e troca entre seres humanos que é e sempre será a Psicoterapia, e por isso, mesmo que seja lido daqui a 100 anos, continuará atual.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

As Duas Faces da Política

Hoje é 23 de novembro. As eleições para o DCE ocorreram dos dias 17 ao 19 deste mesmo mês. A apuração dos votos, de 20 à 21. O resultado foi divulgado ontem, mas ainda hoje ele se espalha entre os estudantes, que em sua maioria recebem a notícia em um misto de choque, medo e tristeza, pois foi a chapa 3, DCE Livre - Mudança Urgente, quem ganhou esta eleição.

Acho que estou cometendo dois erros aqui. O primeiro deles é dar por certa a vitória da chapa 3, pois ela possui uma vantagem de apenas 34 votos sobre a segunda colocada, e é muito possível que seja feita uma recontagem que lhe tire a vitória das mãos. O segundo é deixar os leitores no escuro sobre o que é a chapa 3, e por que ela instila tanto medo no coração dos estudantes. Permita-me corrigi-lo agora.

Para quem não estuda na UFRGS, ou não acompanha suas movimentações políticas, a chapa 3 é uma coligação organizada pelo Movimento Estudantil Liberdade (MEL), um movimento decididamente de direita, e que desde 2006 tenta sua sorte em conquistar através do voto o mais importante órgão de representação estudantil da Universidade, o Diretório Central dos Estudantes. Desde este ano até o atual, eles lançaram a mesma campanha, baseada nos mesmos princípios, de que o DCE deve servir os estudantes e defender seus interesses, ao invés de ficar se preocupando com o que acontece fora da UFRGS, como a questão do Pontal do Estaleiro, ou do "Fora Yeda", além de manifestar uma certa postura, que eles chamariam de "progressista", enquanto seus críticos definiriam de "nazista".

É possível que uma pessoa de bom senso, ao ler este texto que agora escrevo, exclamasse: "se é assim, não é possível que eles tenham ganho esta eleição, pois os estudantes universitários são majoritariamente de esquerda! Por Aslan, qualquer pessoa remotamente relacionada à qualquer universidade pública tem que ser de esquerda!" Pois é, meu caro amigo imaginário, tu não estás tão enganado assim, por que desde os tempos da ditadura militar que a esquerda brasileira recruta seus militantes nestes templos estaduais e federais de saber. Todavia os tempos agora são outros: a ditadura acabou, o presidente é de esquerda e não há mais a mesma opressão que havia antes. Além disso, apesar de não serem tão glorificados quanto seus "rivais", os estudantes "direitistas" também existiam no tempo da ditadura, e existem até hoje, especialmente na Medicina, nas Engenharias e na Administração, se não me engano. Esses são os cursos mais marcantes, porém certamente encontram-se estudantes de direita em outras faculdades, escondidos, envergonhados, mas ainda assim fiéis a seus ideais, e votando na chapa 3.

Agora me sinto obrigado a responder outra pergunta que meu texto trouxe à tona: por que os estudantes com tendências à direita teriam que se esconder ou se envergonhar de acreditarem no que acreditam? Não vivemos num país livre? Bem, constitucionalmente falando, somos realmente livres. Contudo, a liberdade verdadeira não é garantida por papéis, pois brota de dentro de nós, através de nossos atos. E, por mais surpreendente que isso possa parecer aos inocentes, o ambiente da universidade é bastante opressivo com aqueles que manifestam simpatia a partidos mais "reacionários" ou "direitistas", por que, segundo a ideologia vigente, isto é um pecado capital, e nunca, em nenhum lugar, foi-me dada qualquer explicação para este fenômeno. Já vi explicações sobre porque a chapa 3 fará uma má gestão, ou porque suas propostas são idiotas, mas nunca vi explicação que abranja tudo, e me diga o que exatamente faz da direita a "orientação política do diabo".

Não acredita em mim? De fato, preciso admitir que estou dando um passo largo aqui, ao dizer que a maioria dos estudantes rejeita a direita como algo impuro. Portanto, proponho uma experiência concreta: vá à uma reunião de estudantes, qualquer uma, e fale bem do Democratas. Observe quantas pessoas olharam com a cara torta para você. Depois, dê um jeitinho e entabule uma discussão "Esquerda vs. Direita", e pergunte ao seu interlocutor por que ele despreza tanto os direitistas. A não ser que você discuta com algum cidadão muito desenvolvido e compassivo, a resposta que ele lhe dará será extremamente autojustificadora e preconceituosa, porém coberta por uma leve camada de tolerância incipiente. Em outras palavras, seria mais ou menos como se, na cena da bruxa de Monty Python e o Cálice Sagrado, alguém perguntasse "mas a bruxa não é um ser humano também?", pois, seguindo o mesmo humor daquela grande trupe, alguém responderia "sim, sim, ela também é um ser humano, com sentimentos, desejos e paixões como todos nós, mas... BRUXA! QUEIMEM ELA!". Não quero com este parágrafo dar a entender que as pessoas que seguem o "Lado Direito da Força" sejam mais tolerantes que as da esquerda (li no Orkut alguém usar a palavra "esquerdiota", por algum motivo que me falha a memória) - apenas que eles são menos numerosos.

Então, por que, sendo menos numerosos eles ainda ganharam (ou quase) esta eleição? Certamente, se houvesse uma chapa de esquerda forte e unificada, ela seria imbatível, não é mesmo? Com certeza, só que isso não acontece desde o ano em que entrei na UFRGS, em 2007. Desde meu tempo de bixo, sempre existiram 3 chapas de esquerda, todas as três tentando comer o fígado (metafórico) das outras e, se possível, abocanhar uns votos. Para não dizer que esse pessoal é completamente cego para a força da chapa 3, sempre houve quem tomasse para si e sua coligação o papel de "Mais Forte" para combater os candidatos do MEL, tentando passar uma imagem de luta do bem contra o mal, para apelar aos sentimentos mais profundos dos eleitores. Ano passado, quem assumiu esse papel foi a chapa 1, por ser a mais numerosa e representativa. Este ano, porém, isto mudou, e por causa de desgastes políticos, houve um racha, e metade da gestão foi integrar a chapa 2 desse ano, que então assumiu o manto de "Paladino del Che" e anunciar aos quatro ventos que ou eram eles ou os "fascistas", ainda que não com a mesma força da chapa 1 do ano passado, porque... bem, ano passado isso funcionou.

Volto agora ao que disse no primeiro parágrafo deste ensaio: as reações de meus colegas. Ontem à tarde, meu amigo Marcelo mandou um e-mail para todos os estudantes da Psicologia através de nossa lista, a Tomada do DAP, informando que o MEL ganhara as eleições. Não muito tempo depois, começaram a vir as respostas, em sua maioria expressando não desagrado, e sim medo, medo por que uma chapa de direita ganhou as eleições. OK, não vou negar que o pessoal da chapa 3 tem o nome sujo no cartório - pelo menos um de seus membros foi acusado de ser nazista (com direito a julgamento e tudo), e eles não usaram as táticas mais limpas que existem nessa ou nas outras eleições. Contudo, posso dizer que as mesmas acusações se aplicam aos membros das outras chapas, com muito mais propriedade e segurança que meus colegas podem falar da chapa 3, por que eu vi o mecanismo da política estudantil da UFRGS por dentro. E baseado nessa experiência, posso dizer que a diferença ideológica entre esquerda e direita pode ser significativa em termos práticos (por exemplo, onde investir mais dinheiro), mas é absolutamente irrelevante no fim das contas.

Há muito tempo sinto grande desconfiança da política e de seu funcionamento, e ler The Kingdom of God is Within You de Tolstoi não ajudou a mitigar este sentimento. Porém, por mais que acreditasse que a política no fundo fosse completamente inútil, sempre me surgiram exemplos provando o contrário: os encontros estudantis da Psicologia, a reforma psiquiátrica, nossa frágil autogestão do DAP. Estes casos não são processos políticos perfeitos e ideais, mas são o suficiente para mostrar que há esperança. Desde muito tempo divido a política em duas: uma boa e outra má, sem nunca conseguir diferenciá-las de fato. Depois de muito ver e muito refletir, percebi que esta diferença é gritante, ainda que pouco notada. Não se encontra no exterior que todos enxergam, essa casca grosseira de direita e esquerda, revolucionário e reacionário, mas no fundo de tudo, na questão mais importante de todas: quero realmente sacrificar-me pelos outros? Se a resposta a esta questão for um poderoso e sincero SIM, não importa o que o candidato ou chapa faça, ele sempre encontrará um meio de fazer o mundo um lugar melhor que era antes, e se os membros da chapa 3 tomarem para si esta atitude, deixarão muitos bons frutos como legado de sua gestão. E se este não for o caso, certamente não serão muito piores do que aqueles que os procederam. 

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Por que eu sou uma tiete da Google

O Google é uma megacorporação, que dentro em breve dominará todo o mundo informatizado, instituindo a maior ditadura já vista sobre a face da terra. Apesar de todas as implicações negativas disto, não consigo parar de pensar em como o mundo se tornaria mais eficiente e bonitinho, por que faz tempo que vendi minha alma para esta empresa.

Tudo começou com o próprio sistema de busca deles. Oh meu Deus! Eu não acreditei que uma busca na internet pudesse ser tão rápida. Depois, veio o Gmail, que rapidamente substituiu meu antigo @uol.com.br como principal meio de comunicação (depois das vozes na minha cabeça, é claro). Deste ponto em diante, parei de pensar por que acho o Google absolutamente fodástico e passei a considerar isto como uma verdade básica, como as Leis de Newton:

1?) Lei da Inércia;
2?) Princípio Fundamental da Dinâmica;
3?) Lei da Ação e Reação;
4?) Google é Deus.

Mas o leitor deve estar pensando neste exato momento: qual será a próxima subcelebridade a virar atriz pornô? Se você está realmente pensando nisto, provavelmente entrou no blog errado, pois a verdadeira questão aqui é: por que, se sou tiete da Google faz tanto tempo, eu decidi fazer esse post só agora? Estarei eu recebendo algum tipo de jabá? Se estivesse, garanto que estaria bajulando eles com muito mais força. Tenho dois motivos para fazer isto agora: Google Tarefas e Google Labs.

O Google Tarefas, para quem não sabe, é um aplicativo do Gmail que permite ao usuário criar listas de tarefas (por exemplo, o que comprar no mercado, quais números jogar na Mega Sena, textos para publicar em um blog, essas coisas). É um aplicativo bagaceiro, que qualquer macaco poderia programar com algumas aulas de HTML básico e uma penca de bananas. Contudo, é justamente a bagaceirice desse aplicativo que o torna tão genial. Além disso, ele é perfeito para um obsessivo-compulsivo com problemas de memória como eu, pois serve para mim tanto como uma forma de lembrar minhas tarefas como um reforçador positivo, por que dá um prazer danado marcar as coisas que já fiz como feitas nele!

O Google Labs eu conhecia a mais tempo, mas comecei a usar só hoje. Na verdade, comecei a usar só agora. Em resumo, o Labs é o playground dos programadores da Google, onde eles podem inventar traquitanas que tu pode acoplar ao teu e-mail e trabalhar de maneira mais eficiente. E, através deste serviço, instalei uma traquitana (gadget, como eles preferem chamar) que me permite escrever posts no meu blog a partir do Gmail. Legal, não? Ainda preciso descobrir alguns truques, como por exemplo, formatar o texto em justificado e escrever em negrito, mas acho que é questão de prática. H? muitos outros gadgets no Labs, mas vou explorando eles aos pouquinhos, e, se achar que há algum que mereça o esforço de escrever outro texto lambendo as gônadas reprodutivas do Google por ela ser tão maravilhosa, eu escrevei.

Google, conquiste o mundo logo, e instale o Google Labs em Brasília.

PS.: Resolvi tirar a prova dos 9 e ver como fica o rascunho salvo no sistema interno do Blogger. Não fiquei muito feliz com o resultado, mas mantenho firme minha fé que o Google colocará tudo em seu devido lugar. Amém.

Onde os Poetas Reinam

Neste post, gostaria de falar um pouco mais sobre as descobertas que tenho feito em minhas breves incursões no reino da poesia, que comecei faz pouco tempo (e não um conto sobre um lugar onde os poetas deram um golpe de estado, como alguns de vocês poderiam imaginar).

Um livro de poesia, diferente de romances ou tratados científicos, não deve ser lidos de uma vez só. Claro, pode-se proceder desta maneira e tentar absorver todo o conteúdo nele escrito, mas seria um tanto quanto vão, pois a informação nele (se é que se pode chamá-la deste modo) contida não é linear e objetiva, e sim errática e subjetiva. Por isso, prefiro ir saltando páginas, pegando poemas aleatórios e vendo se eles me afetam de alguma maneira particular. Em caso afirmativo, leio-os várias e várias vezes, até que eles fiquem como marcados à fogo em meu coração ("de cor", como diríamos em bom português) e eu me torne incapaz de esquecer seus versos. Porém, por ser uma arte subjetiva, talvez seja possível que algum outro indivíduo prefira ler o livro inteiro, de cabo a rabo, e ainda aproveitá-lo da melhor maneira possível - essa metodologia só não dá certo comigo.

Outro "dogma de leitura" que deixo de lado quando pego um livro de poesia é a obrigatoriedade de lê-lo todo. Quando pego um livro qualquer - sobre Neurociência ou Sociologia, por exemplo - leio os prefácios, agradecimentos, introduções, capítulos, posfácios e apêndices: tudo, em suma. Com os livros de poesia, leio o que me agrada, quanto me agrada. Duas páginas ou duas dezenas, tanto faz. O que importa é o que eu li, e não quanto. Assim, se achar que um livro não me trará nada de novo por enquanto, o devolvo à estante onde pertence, ou à biblioteca de onde o retirei, e deixo-o lá até achar que preciso dele de novo. Tenho certeza de que não perdi ou perderei tempo assim procedendo.

Sintetizando toda a experiência, posso dizer que esta nova maneira de tratar os livros tem me aberto novas portas no teatro mágico da minha alma (vão ler "O Lobo da Estepe" inteiro se não entenderam essa metáfora - certamente valerá a pena), e me mostrado novas maneiras de existir. Verei até onde isso me levará.

domingo, 15 de novembro de 2009

Utopias (4)

Terminei de ler, ainda esta semana, um livro que apesar de não descrever uma utopia propriamente dita, esbarra na irremediável busca do ser humano por algo mais elevado, e nos erros que ele comete nesta senda. Falo de "Sebastopol", escrito pelo russo Leon Tolstoi. Apesar de ter sido escrito por um autor mundialmente reconhecido, é bem provável que vocês nunca tenham ouvido falar deste livro, pois foi um dos primeiros que Tolstoi publicou e alcançou o sucesso. Quem leu alguma obra posterior de Tolstoi e ler "Sebastopol" perceberá que neste livro o estilo de escrita do autor ainda não alcançou a plenitude, e mesmo assim, não se sentirá decepcionado, pois as três histórias nele contadas são baseadas na vida do próprio Tolstoi, quando ele lutou como oficial de infantaria no Cerco de Sebastopol, a maior batalha da Guerra da Criméia e famosa pelos atos de heroísmo de seus defensores.

E é sobre esses atos de heroísmo de Tolstoi nos conta. À época da Guerra da Criméia, pululavam em toda a Rússia histórias sobre a grande coragem dos soldados de Sebastopol em sua incansável defesa da Grande Rússia e de sua lealdade ao Tsar, o "Pai da Pátria" contra um inimigo muito mais numeroso e bem equipado, e como os bastiões (onde as batalhas aconteciam) eram locais de bravura, glória e honra. Tolstoi, porém, conta uma outra versão – uma em que os soldados sentem medo, os oficiais preocupam-se mais com as condecorações, promoções e honrarias que poderiam ganhar na batalha, as trincheiras são fétidas e cheias de cadáveres, e que no fim, a luta parece não passar de uma grande e mortal vaidade. Tudo isto ele contrasta com aquela imagem romantizada da guerra que era tão comum àquela época e que ainda hoje encontra eco em nós – e a discrepância é gigantesca.

Como disse no primeiro post desta série, o ser humano desde muito tempo busca a perfeição, ou, em outras palavras, algo superior, que transcenda a si próprio, que traga cor e calor para sua vida cinzenta e fria. A guerra, neste sentido, tem servido para isto, levando homens comuns a erguerem-se como heróis em defesa de sua pátria, como ocorreu em Sebastopol, na II Guerra Mundial e mesmo nas guerras modernas. Contudo, o preço que elas cobram por esta transcendência é alto. Ao longo de sua vida e de seus escritos, Tolstoi foi lentamente forjando em si uma consciência pacifista, de que temos que transformar nossas espadas em relhas de arados, mesmo sendo um "herói de guerra". Fico com a impressão que, em nossa busca pela perfeição, devamos destruir essa utopia de que a guerra é algo belo, nobre e necessário, e substituí-la por outra, que cause menos destruição.

 

 


Vou demorar para ler "A Ilha" ou "A República", como disse no post anterior, mas não abandonei a idéia de lê-los e comentá-los aqui.