Considero a literatura uma das mais fantásticas criações humanas. Não falo da capacidade geral de escrita, desenvolvida eras atrás por alguma civilização obscura, mas dos trabalhos maravilhosos que surgiram através dela. Não canso de me impressionar com o fato de ser possível pegar um livro escrito centenas de anos atrás e ainda assim não apenas entender o que o autor queria dizer, mas sentir empatia e identificação com ele. Carl Rogers, em seu livro “Tornar-se Pessoa”, fala que não pode deixar de considerar o filósofo Soren Kierkegaard um amigo sensível e altamente receptivo, mesmo tendo ele morrido há mais de cem anos. E sou obrigado a dizer o mesmo de Rogers, que apesar de ter morrido antes mesmo de meu nascimento, influencia-me bastante com sua serena e apaixonada defesa da liberdade humana para crescer e da pesquisa científica como um meio para este crescimento. Outro amigo meu é Tolstoi, que em “My Confession” relata o angustiante caminho que trilhou, da descrença em tudo que lhe fora ensinado anteriormente, de seu desespero e suas idéias de suicídio até a sua salvação através da descoberta de um novo sentido espiritual para sua vida. Ele, junto com outros tantos escritores, falecidos ou não, cujos livros me marcaram levam-me a crer que a literatura é mais do que um amontoado de palavras unidas de forma coerente ou mera forma de sublimar a libido, mas uma verdadeira irmandade humana, que me leva a conhecer o melhor de mim mesmo através das descobertas que outros deixaram aqui antes de partirem.
domingo, 12 de outubro de 2008
Vida Dura (Parte 18)
E hoje, dia 12 de outubro, é Dia das Crianças. Mais uma data fajuta inventada para forçar pais, mães, padrinhos, madrinhas, avôs, avós e praticamente todo tipo de ser humano diretamente ligado ao trato de crianças gaste seu rico dinheirinho nos brinquedos da moda, roupas de grifes do tipo "Tigor T. Tigre", comidas insalubres e outras porcarias para acalmar a sanha materialista de seus pimpolhos.
Mas não estou criticando o Dia das Crianças, muito pelo contrário! Durante um bom tempo eu fui um grande beneficiário do 12 de outubro, levando meus pais a gastarem seus salários em algum brinquedo especialmente chamativo que vi em algum lugar por aí, e que em menos de um ano (ou menos de um mês) era esquecido e substituído por outro. Considerando que as porcarias que me atraiam eram provavelmente caras, não era um bom negócio do ponto de vista financeiro para meus pais reforçar este meu comportamento, mas acho que era melhor do que me ver esperneando e gritando no meio do supermercado pelo boneco "Megavoltronzord" e suportar olhares de desaprovação de todos os transeuntes. Também há de se argumentar que o sorriso de uma criança não tem preço, especialmente se for do seu filho. Isso parece propaganda de loja de produtos infantis, mas também deve ter seu fundo de verdade (não que eu saiba na prática, considerando que não tenho filhos).
Quando pequeno, eu dividia os presentes que recebia em duas grandes classes: brinquedos e roupas. Se alguém quisesse me fazer feliz, era só me dar um brinquedo, por mais fuleiro que fosse. Roupas são OK hoje em dia para mim, mas lá pelos meus oito ou nove anos, elas eram para mim o que os americanos chamam de "big fucking no-no". Em outras palavras, eu via roupas como brinquedos não ganhos. Meus pais sabiam (e sabem até hoje) que se eu tiver que escolher entre algum gadget e peças de vestuário, eu não hesitarei em escolher o primeiro, e por isso já iam pedindo desculpas quando apareciam com uma camiseta para eu experimentar ou não contavam as roupas que me compravam como presentes. Já meus parentes, padrinhos e semelhantes nem sempre sabiam disto, e apareciam com uma blusa (com um palhaço ou similar bordado na frente, possivelmente piniquento) embrulhada cuidadosamente em papel vermelho. Nas primeiras vezes que isto aconteceu, peguei o embrulho, rasguei-o com ardor esperando encontrar alguma traquitana super-mega divertida para me decepcionar com um amontoado de lã costurado. E enquanto eu era exortado a vestir a nova roupinha ficava pensando "Cadê meu Hot Wheels, cacete?", ou a coisa mais parecida que minha mente infantil era capaz de formular. Para quê eu iria querer roupas novas? Aquela calça de abrigo manchada de lama e minhas camisetas do Mickey sujas de chocolate eram mais do que suficiente! Minha mãe discordava de mim (e até hoje me enche o saco dizendo que eu preciso de mais roupas) e provavelmente ficava tão entusiasmada quanto eu ficava desapontado com roupas.
Claro, nunca expressei diretamente minha raiva contra as pessoas que me compravam roupas de Dia das Crianças (e aniversário, Natal ou qualquer outra data-desculpa), pois fui bem educado pelo meus pais, que colaboraram com sua parte para continuar o mal-estar da civilização que Freud falava, e me ensinaram a não reclamar dos meus presentes. Não em público pelo menos.
Com o tempo, aprendi a identificar o tipo de presente ainda pelo embrulho. Pacote grande, mole e levemente disforme? Blusão. Disforme, mas pouco volumoso? Deve ser uma camiseta. Na verdade, não pensava muito no que havia dentro do embrulho, por que depois de descobrir que ganharia mais roupas, meu cérebro só conseguia pensar "NÃO É BRINQUEDO!", e era forçado a conter o desapontamento de se expressar de maneira muito óbvia.
Como já disse antes, hoje não me importo em ganhar roupas de presente, apesar de não me sentir entusiasmado com a possibilidade. A não ser que a roupa em questão seja uma camiseta com uma estampa inteligentemente abobada. Quanto aos brinquedos, ainda gosto mais deles, mas meus interesses mudaram bastante e se tornaram mais restritos. Por exemplo, um bonequinho do Pikachu não é o tipo da coisa que eu pediria para um Amigo Secreto, o que é algo bem significativo para quem já teve de ouvir do próprio pai que eu preferiria assistir Pokémon a fazer sexo. Gosto ainda de jogos de computador, mas disponho de tão pouco tempo para jogá-los que acho desperdício comprar mais deles. Gadgets como pendrives e HDs externos são sempre bem vindos.
Mas, para ser sincero, não vejo muita necessidade em ganhar presentes hoje em dia. Claro, é legal ganhar coisas, mas não é algo de que eu precise. A não ser que sejam livros. Eu sempre preciso de livros, apesar de já ter uma pilha bem grande aqui do meu lado.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008
As Provações da Faculdade XXXI
Duas horas para inventar uma conclusão decente para o trabalho. Minhas conclusões fedem.
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As Provações da Faculdade XXX
Toda vez que olho para o relógio, me apavoro, pensando se vai dar tempo de escrever tudo.
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Lições da Vida Universitária
São duas e meia da manhã e eu deveria estar dormindo, mas como fiquei assistindo vídeos estupidamente engraçados sobre filmes absolutamente escrotos e tenho um trabalho para entregar AMANHÃ sobre educação não-formal, eu estou acordado, e levemente hiperativo.
O trabalho, esqueci de mencionar, é em grupo, e falta eu escrever a minha parte. Isto está sendo particularmente complicado por que não consigo pensar em nada bom, por menos que seja. Decidi dar uma lidinha no que meus colegas já tinham escrito. Ainda na primeira linha do primeiro parágrafo, dou de cara com a seguinte oração: "Não demorou para que percebêssemos o intrincado e complexo caminho que se abria uma vez que tal pergunta foi feita."
Meus colegas estão enchendo murcilha. Isso fica evidente pelo fato de que alguém decidiu escrever duas palavras sinônimas na mesma frase. Dizer que algo é "intrincado e complexo" é o mesmo que dizer que a água é "molhada e úmida". Eu conheço bem demais o brainstorming de onde esta aberração lingüística saiu. Algum colega meu (posso até dizer o nome dele), também em plena madrugada, decidiu começar a escrever o texto e pensou "essa porra tá curta demais... eu preciso de mais linhas. Já sei! Eu vou colocar umas palavras complicadas a mais aqui e vou dar a impressão de que eu li mais do que as revistas que meu dentista deixa na sala de espera!". E, assim, "intrincado e complexo" vira parte do texto. Não culpo meu colega. Também já fiz isso. Com as MESMAS DUAS PALAVRAS QUE ELE USOU POR QUE EU QUERIA ENROLAR E AO MESMO TEMPO DEIXAR MEU TRABALHO COM CARA DE ERUDITO! Já ouviram falar em marcadores biológicos de doença? Resumidamente, se você tem um, também tem uma doença. Nasceu um bebê com cara de asiático em uma família de suecos? Síndrome de Down! Olhos inchados, vermelhos e riso fácil? Alguém fumou maconha! Um alienígena saiu de sua barriga e estourou as suas tripas? Você é Sigourney Weaver! "Intrincado e complexo" é o marcador literário que indica claro desejo de enrolação, especialmente se aparecerem nas PRIMEIRAS DUAS LINHAS do trabalho.
É uma tática grosseira para fazer volume no trabalho, que, além de desnecessária, é um tiro no pé. Desnecessária por que os professores, a ABNT e mesmo a APA fazem de tudo para que nossos trabalhinhos pareçam mais rechonchudos do que realmente são, começando com o infame espaçamento 1,5 entre as linhas, passando pela introdução e conclusão e finalizando com as malditas referências. Um tiro no pé por que faz quem quer que esteja corrigindo o trabalho ative "Código Amarelo de Ensebação". Eu fico imaginando o que meus professores pensam quando vêem uma coisa dessas:
-"Intrincado e complexo"? Espera um pouco, essas palavras não significam a mesma merda? Por que diabos esses animais colocaram uma do lado da outra? Puta que pariuHermes esse trabalho deve tá uma merda. Deixa eu ler isso com mais cuidado.
E, como frequentemente ocorre, o trabalho realmente está uma droga! Só que, se não fosse o nosso marcador literário, talvez o professor nem levantasse a hipótese de seus queridos aluninhos serem uns folgados. Há modos e modos de fazer trabalhos ruins e com pouco esforço, alguns mais sutis do que outros. Talvez você seja um destes escolhidos pela natureza que não só conseguem escrever um monte de abobrinha, como arrumam um séquito de seguidores que lê cada imbecilidade sua como se fosse o mais precioso bálsamo sagrado (alguém aqui poderia citar uma pessoa assim?), e, talvez o professor vire seu fã também! E eu sei, "séquito de seguidores" é tão ruim quanto "intrincado e complexo", mas eu não ganho nota nenhuma por escrever este texto e vocês não ganham dinheiro nenhum para lê-lo (até, bem pelo contrário, vocês gastam dinheiro para acessar esse amontoado de absurdos que é a internet e a blogosfera). Mas isso não vem ao caso aqui! O que eu quero dizer é que é plenamente possível passar em uma disciplina na faculdade realizando trabalhos medíocres ou até mesmo estúpidos, desde que você saiba fazer isto de uma maneira bonitinha.
O trabalho, esqueci de mencionar, é em grupo, e falta eu escrever a minha parte. Isto está sendo particularmente complicado por que não consigo pensar em nada bom, por menos que seja. Decidi dar uma lidinha no que meus colegas já tinham escrito. Ainda na primeira linha do primeiro parágrafo, dou de cara com a seguinte oração: "Não demorou para que percebêssemos o intrincado e complexo caminho que se abria uma vez que tal pergunta foi feita."
Meus colegas estão enchendo murcilha. Isso fica evidente pelo fato de que alguém decidiu escrever duas palavras sinônimas na mesma frase. Dizer que algo é "intrincado e complexo" é o mesmo que dizer que a água é "molhada e úmida". Eu conheço bem demais o brainstorming de onde esta aberração lingüística saiu. Algum colega meu (posso até dizer o nome dele), também em plena madrugada, decidiu começar a escrever o texto e pensou "essa porra tá curta demais... eu preciso de mais linhas. Já sei! Eu vou colocar umas palavras complicadas a mais aqui e vou dar a impressão de que eu li mais do que as revistas que meu dentista deixa na sala de espera!". E, assim, "intrincado e complexo" vira parte do texto. Não culpo meu colega. Também já fiz isso. Com as MESMAS DUAS PALAVRAS QUE ELE USOU POR QUE EU QUERIA ENROLAR E AO MESMO TEMPO DEIXAR MEU TRABALHO COM CARA DE ERUDITO! Já ouviram falar em marcadores biológicos de doença? Resumidamente, se você tem um, também tem uma doença. Nasceu um bebê com cara de asiático em uma família de suecos? Síndrome de Down! Olhos inchados, vermelhos e riso fácil? Alguém fumou maconha! Um alienígena saiu de sua barriga e estourou as suas tripas? Você é Sigourney Weaver! "Intrincado e complexo" é o marcador literário que indica claro desejo de enrolação, especialmente se aparecerem nas PRIMEIRAS DUAS LINHAS do trabalho.
É uma tática grosseira para fazer volume no trabalho, que, além de desnecessária, é um tiro no pé. Desnecessária por que os professores, a ABNT e mesmo a APA fazem de tudo para que nossos trabalhinhos pareçam mais rechonchudos do que realmente são, começando com o infame espaçamento 1,5 entre as linhas, passando pela introdução e conclusão e finalizando com as malditas referências. Um tiro no pé por que faz quem quer que esteja corrigindo o trabalho ative "Código Amarelo de Ensebação". Eu fico imaginando o que meus professores pensam quando vêem uma coisa dessas:
-"Intrincado e complexo"? Espera um pouco, essas palavras não significam a mesma merda? Por que diabos esses animais colocaram uma do lado da outra? Puta que pariu
E, como frequentemente ocorre, o trabalho realmente está uma droga! Só que, se não fosse o nosso marcador literário, talvez o professor nem levantasse a hipótese de seus queridos aluninhos serem uns folgados. Há modos e modos de fazer trabalhos ruins e com pouco esforço, alguns mais sutis do que outros. Talvez você seja um destes escolhidos pela natureza que não só conseguem escrever um monte de abobrinha, como arrumam um séquito de seguidores que lê cada imbecilidade sua como se fosse o mais precioso bálsamo sagrado (alguém aqui poderia citar uma pessoa assim?), e, talvez o professor vire seu fã também! E eu sei, "séquito de seguidores" é tão ruim quanto "intrincado e complexo", mas eu não ganho nota nenhuma por escrever este texto e vocês não ganham dinheiro nenhum para lê-lo (até, bem pelo contrário, vocês gastam dinheiro para acessar esse amontoado de absurdos que é a internet e a blogosfera). Mas isso não vem ao caso aqui! O que eu quero dizer é que é plenamente possível passar em uma disciplina na faculdade realizando trabalhos medíocres ou até mesmo estúpidos, desde que você saiba fazer isto de uma maneira bonitinha.
E esta maneira bonitinha não inclui "intrincado e complexo". Provavelmente inclui neologismos retardados e expressões nonsense como "maximização de dividendos", "upgrade técnico-industrial do paradigma quântico" ou qualquer palavra nova que apareça em livros de Psicologia em geral. Mas nunca use "intrincado e complexo". Diga que é sofisticado, diga que é complexo, ou diga que é intrincado. Mas sob hipótese alguma, use "intrincado e complexo" na mesma frase. NUNCA!
Agora, com licença, preciso mudar aquela porcaria de trabalho antes que seja tarde demais.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Fast Food
Estava voltando para casa, aqui em Caxias, quando decidi que iria comer alguma coisa no caminho (já que a geladeira daqui está quase vazia). A primeira coisa que pensei foi "onde posso encontrar um lugar barato para comer?". A única resposta que consegui pensar foi "na Lancheria do Parque... na Osvaldo Aranha. Em Porto Alegre". O bairro onde moro é meio desprovido de estabelecimentos de alimentação, mas não consegui lembrar de nenhum lugar aqui em Caxias que seja tão bom e barato quando a fabulosa Lanchera. Decidi que iria comer um Xis mesmo, do Casagrande. Paguei dez reais por um troço que em Porto Alegre pagaria cinco.
Esta é a prova cabal de que sou mais portoalegrense do que caxiense atualmente.
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
Resoluções de Intervalo de Aula
Hoje eu decidi que, um dia, terei uma banda de hard rock. E ela vai se chamar Apocalipse Mescalina.
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
As Provações da Faculdade XXXIX
Minha programação para esta noite: dois textos sobre avaliação neuropsicológica e um trabalho de psicopatologia. Pelo menos nenhum deles envolve Dinâmica de Grupo e Pichon-Riviere.
:)
Metaética
Meu post sobre os estágios rendeu uma discussão interessante com o Marcelo esses dias na faculdade. Meu texto lhe fez pensar no paradoxo da Metaética – a prática de moldar a própria ética futura, escolhendo as experiências que vivemos e como as vivenciamos, tomando por base nossa ética atual. Em outras palavras, a metaética é a resposta prática para a pergunta “quem eu quero ser no futuro?”.
Para ficar no mesmo tema do outro post: que personalidade quero ter? Se eu fizer apenas aquilo que o currículo manda, eu vou ser um tipo de psicólogo, provavelmente acomodado e preguiçoso; se eu participar das comissões do DAP, fizer extensão e ajudar em grupo de pesquisa, serei um psicólogo mais versátil e, espero, eficiente; mas eu posso escolher desde o primeiro semestre estudar apenas Neuropsicologia, e fazer todas as minhas atividades, desde as extracurriculares até os estágios, e me tornar um grande, porem limitado, especialista. Qual dos muitos caminhos disponíveis é preferível? É aqui que reside o paradoxo: não há como saber, baseado na minha conduta ética atual, quais as “escolhas ótimas” que devo fazer em ordem de melhor formar minha ética futura. Posso achar que a decisão que tomo agora é a melhor de todas, mas futuramente eu conclua que deveria ter tomado outro curso de ação – ou pode ser até que eu seja confrontado com uma situação muito semelhante e aja de forma muito diferente.
No fim, como disse o Marcelo, a Metaética é um paradoxo justamente por que não existe: ela é uma tentativa da própria ética de mudar a si mesma, e nunca será completamente satisfatória, por que, ao se basear na maneira como pensamos atualmente, sempre deixamos de lado muitas variáveis que interferirão no nosso comportamento futuro. Um exemplo bem representativo é o que acontecia com muita freqüência com os estudantes de Psicologia do currículo antigo da UFRGS: no primeiro semestre, eles eram bombardeados de tal maneira com a parte científica da psicologia que eram levados a odiar a psicanálise, mas, no final do curso, depois de muitas horas lendo Lacan e assistindo as aulas “fantásticas” de alguns professores de psicanálise, quase todos tornam-se psicanalistas de carteirinha. Mas ninguém no primeiro semestre poderia prever com segurança que isto aconteceria – da mesma forma que meus veteranos não podem prever o que vai acontecer conosco, já que estamos no currículo novo, que é muito diferente (não que eles não tentem, apenas não conseguem).
As mudanças em nosso código de conduta muitas vezes são tão profundas quanto esta, o que torna a prática da metaética um tanto complicada, mas não inócua. Podemos não saber o que vai acontecer no futuro, nem como iremos reagir, mas podemos tentar nos fortalecer e nos tornarmos o melhor que pudermos ser, sendo o melhor que podemos aqui e agora. Acredito que esta é a melhor maneira que temos de moldar o que seremos.
Para ficar no mesmo tema do outro post: que personalidade quero ter? Se eu fizer apenas aquilo que o currículo manda, eu vou ser um tipo de psicólogo, provavelmente acomodado e preguiçoso; se eu participar das comissões do DAP, fizer extensão e ajudar em grupo de pesquisa, serei um psicólogo mais versátil e, espero, eficiente; mas eu posso escolher desde o primeiro semestre estudar apenas Neuropsicologia, e fazer todas as minhas atividades, desde as extracurriculares até os estágios, e me tornar um grande, porem limitado, especialista. Qual dos muitos caminhos disponíveis é preferível? É aqui que reside o paradoxo: não há como saber, baseado na minha conduta ética atual, quais as “escolhas ótimas” que devo fazer em ordem de melhor formar minha ética futura. Posso achar que a decisão que tomo agora é a melhor de todas, mas futuramente eu conclua que deveria ter tomado outro curso de ação – ou pode ser até que eu seja confrontado com uma situação muito semelhante e aja de forma muito diferente.
No fim, como disse o Marcelo, a Metaética é um paradoxo justamente por que não existe: ela é uma tentativa da própria ética de mudar a si mesma, e nunca será completamente satisfatória, por que, ao se basear na maneira como pensamos atualmente, sempre deixamos de lado muitas variáveis que interferirão no nosso comportamento futuro. Um exemplo bem representativo é o que acontecia com muita freqüência com os estudantes de Psicologia do currículo antigo da UFRGS: no primeiro semestre, eles eram bombardeados de tal maneira com a parte científica da psicologia que eram levados a odiar a psicanálise, mas, no final do curso, depois de muitas horas lendo Lacan e assistindo as aulas “fantásticas” de alguns professores de psicanálise, quase todos tornam-se psicanalistas de carteirinha. Mas ninguém no primeiro semestre poderia prever com segurança que isto aconteceria – da mesma forma que meus veteranos não podem prever o que vai acontecer conosco, já que estamos no currículo novo, que é muito diferente (não que eles não tentem, apenas não conseguem).
As mudanças em nosso código de conduta muitas vezes são tão profundas quanto esta, o que torna a prática da metaética um tanto complicada, mas não inócua. Podemos não saber o que vai acontecer no futuro, nem como iremos reagir, mas podemos tentar nos fortalecer e nos tornarmos o melhor que pudermos ser, sendo o melhor que podemos aqui e agora. Acredito que esta é a melhor maneira que temos de moldar o que seremos.
A Arte de Fazer Indiadas
Eu sou um cara aventureiro. Desde o primeiro ano da faculdade, e muito tempo antes de entrar para a UFRGS, me meto em jornadas e viagens cujos níveis de conforto estão aquém do agradável, tanto que tornou-se sinônimo para mim "aventurar-me" com "ferrar-me". Ou como disse o velho Bonifácio, durante um acampamento especialmente chuvoso e complicado: "vocês se espreguiçam ao sol na praia! Isso aqui é um acampamento!" Quando ele falou isto, eu fiquei levemente irritado, já que ele tinha recém chegado ao local onde estávamos dormindo, e suas bandeirantes não tomaram um pingo de chuva em seus cabelos alisados com chapinha, mas hoje vejo a sabedoria de suas palavras. Moleza? Eu tenho isso em casa! Tô aqui pra sofrer, me desafiar e ter uma história para contar!
Contudo, esta minha vontade de ir além e viver uma vida significativa me fez desenvolver outro traço de personalidade: um certo desprezo por hedonistas. Para ser mais preciso, fiquei meio elitista. Sinto isso bastante quando vou correr no Parque dos Macaquinhos em dias de sol, e tenho que ficar desviando dos tiozões e demais preguiçosos que só saíram de casa por que seria fácil. Prefiro correr em dias de chuva ou muito frios por que, se tenho que desviar de alguém, é de alguém que escolheu sair de casa no pior dos climas e transcendeu a si mesmo. Merece meu respeito. OK, algum chato poderia escrever um comentário dizendo que eu devo respeitar todas as pessoas, sejam elas preguiçosas ou não. Minha resposta para isto é: eu respeito. Mas isto não significa que eu deva tratar todos como se fossem farinha do mesmo saco. Admiro muito mais as pessoas auto-transcendentes e disciplinadas pois sei como é difícil ser assim.
Tenho outro exemplo mais recente, que aconteceu faz uma semana ou menos. Nosso Diretório Acadêmico está organizando uma viagem para um congresso que ocorrerá em Buenos Aires em dezembro. A procura para ir neste evento está tão grande que já fechamos dois ônibus inteiros de 40 lugares e ainda há pessoas na lista de espera. Fomos ano passado neste mesmo congresso, mas com muito menos pessoas. E no ENEP foram só 7 estudantes de Porto Alegre. E uma veterana minha, que vai este ano pela primeira vez para um congresso com o pessoal, perguntou se no albergue em que ficaríamos havia banheiros em cada quarto. CACETE! QUER BANHEIRO NO QUARTO FICA EM CASA! OK, ela tem a opção de pagar um pouco mais e ficar em um hotel com banheiro individual, e isso é problema dela, mas fico indignado mesmo assim de querer viajar e não querer pagar o preço. Fazendo uma pequena comparação, sou como aquele cara que deixa de ser fã de uma banda quando ela deixa de ser underground e vai para o mainstream, como se o que me fazia admirar as músicas se perdesse com a fama. Congresso de Direitos Humanos e Saúde Mental em Buenos Aires? Bleh. Muito popular.
Mas minha indignação é, mais uma vez, sem sentido. Cada um escolhe ser o que bem entende. Se a maioria dos meus veteranos querem ser "pirralhos de carpete", isso não é da minha conta. Pois eu prefiro pegar um ônibus capenga para qualquer lugar distante, viver tanto quanto puder e tornar-me maior do que era.
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domingo, 28 de setembro de 2008
Eu e a Psicanálise
É bem comum, entre pessoas leigas, confundir Psicologia com Psicanálise. A primeira é a ciência ampla que estuda todo o espectro de fenômenos humanos, e a segunda uma abordagem teórica-clínica que, apesar de ser uma parte muito importante da Psicologia, não é sua totalidade. Ainda assim posso garantir, com possibilidade máxima de erro em 1%, que todos os estudantes de Psicologia do Brasil, estejam formados ou não, ao falarem de seu campo de atuação para alguém que acabaram de conhecer (num barzinho, por exemplo), já tiveram que responder a comentários sobre análise e Freud (os mais comuns sendo “tu está me analisando?” e “o que Freud diria sobre meu hábito de [insira bizarrice aqui]?"). E posso garantir também que todos foram capazes de responder de forma mais ou menos satisfatória, sendo fãs de Freud and buddies ou não.
Creio que seja necessário um pouco de história para explicar por que isto acontece. Como vocês podem imaginar, o mundo era um lugar muito diferente em 1895 do que é hoje. A diferença que acredito ser mais significativa para este texto é na Psicologia, tanto como ciência quanto como fenômeno.
No final do século XIX e início do XX, a ciência dominava porções cada vez mais amplas da natureza, através da adoção de metodologias mais rigorosas, que consistiam em estudar essencialmente apenas aquilo que podia ser visto e quantificado de alguma maneira. Reinava o pensamento no mundo ocidental que, através da ciência e da racionalidade, nada seria impossível. E é neste ambiente que nasce a Psicologia. Tomando como modelo as ciências mais velhas, os psicólogos da época buscam estudar a consciência e descobrir suas partes utilizando a mesma metodologia que fizeram o sucesso da Física e da Biologia. Mas como estudar um objeto tão complicado como o ser humano desta maneira? Por causa disto, a Psicologia tornou-se uma ciência humana um tanto quanto distante dos seres humanos que se propunha a estudar. Esta fé na racionalidade não se restringia apenas à ciência, e estendia-se a praticamente toda a sociedade ocidental. Falava-se muito em virtudes, e escondia-se todo o tipo de pecado e sujeira, especialmente a sexualidade, que era reprimida de forma muito dura.
E, no meio de tudo isto, longe da academia e cuidando de sua clínica particular, se encontrava o jovem neurologista Sigmund Freud. Ele estudara junto com alguns dos mais renomados psicopatologistas e psiquiatras da época, especialmente Josef Breuer, com quem escreveu o agora clássico “Estudos sobre a Histeria”. Com base neste livro, Freud desenvolveu uma teoria revolucionária do comportamento humano: não somos criaturas completamente racionais, nem virtuosas. Somos, na maioria dos casos, determinados por variáveis inconscientes e pouco louváveis, e que somos criaturas essencialmente sexuais. Se dissermos isto hoje em alguma palestra por aí, poderemos causar certo mal-estar entre os presentes, mas nada digno de nota, pois isto se tornou parte do senso comum. Na hipócrita sociedade do começo do século XX, onde todos os homens de respeito tinham uma amante e falavam de castidade, isto foi um verdadeiro choque. Freud iniciara uma verdadeira revolução paradigmática, injetando sangue novo na Psicologia e na Psiquiatria, e até hoje seus escritos cheios de insights inspirados causam polêmica, e é impossível estudar Psicologia sem ler nenhum de seus textos.
Se ela ler este texto aqui, minha professora de História da Psicologia vai ter uma crise de consciência por ter me dado aula, pois resumi grosseiramente mais de um século de muitas reviravoltas, mas isto explica porque todos os estudantes de Psicologia são capazes de falar de Freud. Além de impossível, é indesejável para qualquer estudante de Psicologia não ler nenhuma de suas obras. Curiosamente, entre os psicanalistas que me dão aula não há nenhum freudiano. Nosso amigo Sigmund era um homem muito inteligente, e atraiu muitos discípulos, mas ele também era dogmático e tirânico, proibindo seus seguidores de alterarem sua teoria. Isto gerou muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, que por sua vez também geraram muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, tornando a psicanálise muito fragmentada. No nosso Instituto de Psicologia, os psicanalistas seguem os ensinamentos de Jacques Lacan, que pregou um “Retorno à Freud”, e reinterpretou toda a teoria psicanalítica original de forma muito... original. E é entre os lacanianos que devo situar minha relação com a psicanálise.
Já entrei na faculdade detestando a psicanálise. Meu pai, já formado em Psicologia, muito criticou os psicanalistas, e até me mostrou um livro absolutamente incompreensível (original, portanto) escrito por um. Era, no primeiro semestre, um ferrenho defensor das Terapias Cognitivo-Comportamentais e de sua adoção. Mas eu era bem dogmático também, e sem muitos argumentos. As conversas com meus colegas, as leituras e as aulas me levaram a um gradual afrouxamento de minhas convicções. Tive várias fases: a cognitiva, a comportamental, a humanista e também a psicanalítica. A cada leitura, a firmeza de minha fé era abalada, pois era levado a considerar todos estes pontos de vista, por absurdos que possam ter soado aos meus ouvidos, poderiam estar corretos. Tive a obrigatória crise existencial teórica pela qual todo bom estudante de Psicologia passa um dia. Convenci-me da veracidade de muitos deles, inclusive de muitos psicanalistas. Porém, por mais tolerante que me tornara, nunca ficara completamente satisfeito com a psicanálise que me é ensinada. Sim, eles podem estar certos apesar de serem incompreensíveis, herméticos e empolados, e posso no futuro tornar-me um lacaniano. Só que duvido muito.
Contudo, muito recentemente, cheguei à definitiva conclusão de que nunca serei um psicanalista. Em nome da diversidade teórica, inscrevi-me em dois cursos de extensão diferentes: o primeiro, era sobre “A Interpretação de Sonhos” de Freud, e foi dada por um dos maiores expoentes brasileiros em psicanálise lacaniana; o segundo, apesar de intitulado “Os Conceitos Fundamentais da Psicanálise Freudiana” também é dado por uma seguidora de Lacan. No minicurso sobre sonhos, o professor falou que a força de vontade é importante e nos trouxe muitos progressos, mas que no fim, somos sujeitos do desejo – ele manda em nós. E na última aula de “Conceitos Fundamentais...”, a professora falou que o amor não existe. Ele é uma mera ilusão, mas que podemos encontrar uma boa parceria e viver uma vida relativamente confortável. É a filosofia do status quo: vivemos nossa vida miserável fingindo que estamos no melhor dos mundos, pagamos o analista para ele ficar nos escutando e confirmando nossa mentira diária, mantemos tudo como está por que não há esperança e todos ficam felizes com isto. Nenhuma discussão epistemológica, nenhum texto absurdo falando sobre as gônadas das pombas e nenhum professor profundamente prepotente me convenceram de forma tão contundente que a psicanálise lacaniana é um absurdo e uma perda de tempo quanto estas duas afirmações, ditas de forma tão sóbria e com ares de tamanha sabedoria. Foi assim que descobri que não quero ser mais um destes acomodados.
É interessante notar que, pelo menos na UFRGS, existe uma dicotomia que meus bixos muito apropriadamente chamaram de “A Psicanálise versus o Resto do Mundo”. Neste conflito, a psicanálise coloca-se como defensora de toda subjetividade e liberdade humanas, contra todas as outras forças positivistas da ciência, que busca esmagar a tudo e a todos com sua objetividade controladora. Ó, a ironia!
Creio que seja necessário um pouco de história para explicar por que isto acontece. Como vocês podem imaginar, o mundo era um lugar muito diferente em 1895 do que é hoje. A diferença que acredito ser mais significativa para este texto é na Psicologia, tanto como ciência quanto como fenômeno.
No final do século XIX e início do XX, a ciência dominava porções cada vez mais amplas da natureza, através da adoção de metodologias mais rigorosas, que consistiam em estudar essencialmente apenas aquilo que podia ser visto e quantificado de alguma maneira. Reinava o pensamento no mundo ocidental que, através da ciência e da racionalidade, nada seria impossível. E é neste ambiente que nasce a Psicologia. Tomando como modelo as ciências mais velhas, os psicólogos da época buscam estudar a consciência e descobrir suas partes utilizando a mesma metodologia que fizeram o sucesso da Física e da Biologia. Mas como estudar um objeto tão complicado como o ser humano desta maneira? Por causa disto, a Psicologia tornou-se uma ciência humana um tanto quanto distante dos seres humanos que se propunha a estudar. Esta fé na racionalidade não se restringia apenas à ciência, e estendia-se a praticamente toda a sociedade ocidental. Falava-se muito em virtudes, e escondia-se todo o tipo de pecado e sujeira, especialmente a sexualidade, que era reprimida de forma muito dura.
E, no meio de tudo isto, longe da academia e cuidando de sua clínica particular, se encontrava o jovem neurologista Sigmund Freud. Ele estudara junto com alguns dos mais renomados psicopatologistas e psiquiatras da época, especialmente Josef Breuer, com quem escreveu o agora clássico “Estudos sobre a Histeria”. Com base neste livro, Freud desenvolveu uma teoria revolucionária do comportamento humano: não somos criaturas completamente racionais, nem virtuosas. Somos, na maioria dos casos, determinados por variáveis inconscientes e pouco louváveis, e que somos criaturas essencialmente sexuais. Se dissermos isto hoje em alguma palestra por aí, poderemos causar certo mal-estar entre os presentes, mas nada digno de nota, pois isto se tornou parte do senso comum. Na hipócrita sociedade do começo do século XX, onde todos os homens de respeito tinham uma amante e falavam de castidade, isto foi um verdadeiro choque. Freud iniciara uma verdadeira revolução paradigmática, injetando sangue novo na Psicologia e na Psiquiatria, e até hoje seus escritos cheios de insights inspirados causam polêmica, e é impossível estudar Psicologia sem ler nenhum de seus textos.
Se ela ler este texto aqui, minha professora de História da Psicologia vai ter uma crise de consciência por ter me dado aula, pois resumi grosseiramente mais de um século de muitas reviravoltas, mas isto explica porque todos os estudantes de Psicologia são capazes de falar de Freud. Além de impossível, é indesejável para qualquer estudante de Psicologia não ler nenhuma de suas obras. Curiosamente, entre os psicanalistas que me dão aula não há nenhum freudiano. Nosso amigo Sigmund era um homem muito inteligente, e atraiu muitos discípulos, mas ele também era dogmático e tirânico, proibindo seus seguidores de alterarem sua teoria. Isto gerou muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, que por sua vez também geraram muitas quebras de relacionamento e novas teorias psicanalíticas, tornando a psicanálise muito fragmentada. No nosso Instituto de Psicologia, os psicanalistas seguem os ensinamentos de Jacques Lacan, que pregou um “Retorno à Freud”, e reinterpretou toda a teoria psicanalítica original de forma muito... original. E é entre os lacanianos que devo situar minha relação com a psicanálise.
Já entrei na faculdade detestando a psicanálise. Meu pai, já formado em Psicologia, muito criticou os psicanalistas, e até me mostrou um livro absolutamente incompreensível (original, portanto) escrito por um. Era, no primeiro semestre, um ferrenho defensor das Terapias Cognitivo-Comportamentais e de sua adoção. Mas eu era bem dogmático também, e sem muitos argumentos. As conversas com meus colegas, as leituras e as aulas me levaram a um gradual afrouxamento de minhas convicções. Tive várias fases: a cognitiva, a comportamental, a humanista e também a psicanalítica. A cada leitura, a firmeza de minha fé era abalada, pois era levado a considerar todos estes pontos de vista, por absurdos que possam ter soado aos meus ouvidos, poderiam estar corretos. Tive a obrigatória crise existencial teórica pela qual todo bom estudante de Psicologia passa um dia. Convenci-me da veracidade de muitos deles, inclusive de muitos psicanalistas. Porém, por mais tolerante que me tornara, nunca ficara completamente satisfeito com a psicanálise que me é ensinada. Sim, eles podem estar certos apesar de serem incompreensíveis, herméticos e empolados, e posso no futuro tornar-me um lacaniano. Só que duvido muito.
Contudo, muito recentemente, cheguei à definitiva conclusão de que nunca serei um psicanalista. Em nome da diversidade teórica, inscrevi-me em dois cursos de extensão diferentes: o primeiro, era sobre “A Interpretação de Sonhos” de Freud, e foi dada por um dos maiores expoentes brasileiros em psicanálise lacaniana; o segundo, apesar de intitulado “Os Conceitos Fundamentais da Psicanálise Freudiana” também é dado por uma seguidora de Lacan. No minicurso sobre sonhos, o professor falou que a força de vontade é importante e nos trouxe muitos progressos, mas que no fim, somos sujeitos do desejo – ele manda em nós. E na última aula de “Conceitos Fundamentais...”, a professora falou que o amor não existe. Ele é uma mera ilusão, mas que podemos encontrar uma boa parceria e viver uma vida relativamente confortável. É a filosofia do status quo: vivemos nossa vida miserável fingindo que estamos no melhor dos mundos, pagamos o analista para ele ficar nos escutando e confirmando nossa mentira diária, mantemos tudo como está por que não há esperança e todos ficam felizes com isto. Nenhuma discussão epistemológica, nenhum texto absurdo falando sobre as gônadas das pombas e nenhum professor profundamente prepotente me convenceram de forma tão contundente que a psicanálise lacaniana é um absurdo e uma perda de tempo quanto estas duas afirmações, ditas de forma tão sóbria e com ares de tamanha sabedoria. Foi assim que descobri que não quero ser mais um destes acomodados.
É interessante notar que, pelo menos na UFRGS, existe uma dicotomia que meus bixos muito apropriadamente chamaram de “A Psicanálise versus o Resto do Mundo”. Neste conflito, a psicanálise coloca-se como defensora de toda subjetividade e liberdade humanas, contra todas as outras forças positivistas da ciência, que busca esmagar a tudo e a todos com sua objetividade controladora. Ó, a ironia!
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