sábado, 31 de maio de 2008

Pontuação

Sou chato com a gramática e suas regras: elas existem para serem seguidas. Pelo menos quando se escreve. Na comunidade virtual, eu seria chamado de Grammar Nazi. Um enrustido, já que me controlo e não saio corrigindo todo tipo de erros que vejo na internet. Primeiro por que essa tarefa é digna de um Hércules da era do computador (e um Hércules baixinho, fraco, fedido que usa óculos e não tem amigos: um nerd quintessencial). Segundo, por que eu mesmo cometo erros gramaticais. São poucos - podem procurar aqui no blog - mas acontecem com alguma freqüência.

Sou bem tolerante com erros. No MSN, relevo erros gritantes, como "procurasse" (ou sua variante ainda mais terrível, "procurace"), "gemio" ou "dezejo". No Orkut, finjo que não vejo. Não tenho em grande conta quem escreva assim sempre. Um deslize que outro é aceitável, mas ter um blog inteiro escrito em "miguxês", ou em português puramente ruim, é algo que não acho digno de ler, quanto mais de criticar.

Mas o que realmente me deixa irritado são erros de pontuação. Sério. Não tem coisa que me deixe mais indignado. Geralmente, quem escreve em miguxês tem péssima noção de como e onde usar vírgulas, pontos de exclamação e interrogação, dois pontos e pontos finais. Sem falar nessas coisas mais complicadas, como travessões ou ponto-e-vírgula. Essa gente é simplesmente idiota, ou se faz de idiota, o que dá no mesmo. Agora, quem erra só a pontuação geralmente possui um cérebro funcional, e poderia aprender a usar essas porcarias. Sério. É deprimente ler um texto que poderia ser bom, mas não é por que o autor esqueceu onde empregar vírgulas.

É. Essa minha última frase prova que eu sou um Grammar Nazi.

Filosofia de boteco

Uma certeza cruel é ainda melhor que uma dúvida insolúvel.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

As Provações da Faculdade XX

Continuo na peleia de fazer o relatório de Processos Grupais. Não me sinto mais intelectualmente desonesto por usar os autores que o professor quer - encaro isso com um treino, que estou exercitando meu intelecto ao utilizá-los como lente teórica para enxergar o mundo. Além do mais, eles não são tão ruins assim. Entretanto, sinto que gasto pólvora em chimango quando cito autores que eu gosto: Maslow e Frankl até o momento, talvez Rogers nesse relatório. Baseado nas teorias destes autores, desenvolvi uma hipótese que considero muito interessante sobre o funcionamento do grupo, e ela tem se sustentado e sido corroborada ao longo das reuniões e relatórios. Sabe o que a monitora que corrige meus relatórios disse sobre essa hipótese? Quase nada. Para não ser injusto e mentiroso, no terceiro relatório, ela me perguntou por que o grupo se comporta desta maneira, mas foi só isso. Aquela história de que somos incentivados a buscar outros autores é pura balela. Continuo usando esses caras para fazer os relatórios, até por que abandonar mnha hipótese central no quarto relatório de um total de cinco seria contraproducente. Mas, sei lá, fico com a impressão de que eu poderia atribuir uma citação existencialista à Skinner, ou o inverso, que nem a monitora, nem o professor notariam problema algum. Isso não chega a ser tão decepcionante, mas é triste pensar que as melhores idéias que tive foram deixadas de lado.

As Provações da Faculdade XIX

Se não fosse a água batendo na bunda e meu inabalável desejo de passar na cadeira de Processos Grupais I ainda neste semestre, eu já estaria na cama.

As Provações da Faculdade XVIII

É transcrever meu relato e pumba na cama.

Layout

Não estou muito satisfeito com o layout do blog. Não sei se isso é coisa do meu PC ou do Blogger em si, mas acho que o espaço de tela está sendo subutilizado, e apesar de estar satisfeito com os serviços prestados por este servidor, estou pensando em mudar para outro por causa dessas questões estéticas. Andei olhando outros blogs por aí, e gostei muito do estilo da Wordpress, que é simples, bonito e funcional. Quanto ao último adjetivo não posso dizer com certeza, mas é o que aparenta o layout. Não sei se o mesmo se aplica para a “administração” do blog, mas, de novo, as inferências a mim possíveis mostram que também nisso a Wordpress é melhor e mais flexível que o Blogger.

Mas, se eu for realmente mudar para a Wordpress, eu vou passar por um bocado de trabalho. Primeiro, por que eu tenho que criar um blog novo. OK, até aí nada de mais, por que qualquer camundongo que saiba pressionar barrinhas consegue fazer isso. Mas eu não iria simplesmente criar um blog novo e afundar o velho com todos os textos que escrevi até agora. Por orgulho, síndrome de esquilo ou desejo de manter meu legado intacto para as gerações futuras, eu me obrigaria a transladar todos os artigos. E isso, meus amigos, daria um trabalho imenso. Quando criei esse blog aqui, selecionei os melhores posts que escrevi para o R&A, copiei e colei para cá, ajustei a data e publiquei. Tudo no braço. Com o perdão da palavra, aquela foi uma transferência de merda por que deu trabalho pra dedéu. Se eu soubesse alguma coisa de programação, seria barbada. Mas acontece que eu não sei nada desse negócio. E até eu aprender, daria para transferir tudo no braço. O que, como já disse, daria trabalho demais pra valer a pena. Eu poderia também simplesmente mudar o layout do Blogger mesmo, mas não me lembro de ter visto nenhum outro tão legal quanto os da Wordpress. Faz tempo, admito, desde a última vez que dei uma olhada nos skins de página do Blogger; eles podem ter colocado alguns novos, ou talvez eu goste de um que não tinha nem sequer dado atenção no passado.

Vou ponderando a respeito enquanto isso. Como o pessoal que lê esse trumbisco começou a comentar um pouquinho, vou me atrever a pedir uns conselhos a respeito dessa idéia minha. Como exemplos de blogs na Wordpress, tem o do Marcelo, o Transmitindo Pensamentos, o Cognitive Therapy Today e o Generacion Y. Do Blogger, tem o Amoladores de Facas, o Vanguarda Filosófica, o Blog do Alon e o próprio Roqueiro & Alcoólatra. Tem outros por aí, mas não conheço tantos blogs assim para ficar colocando todos os exemplos. Em todo caso, eles sempre seguem um “esquemão” básico, igual para todos os blogs do servidor. Baseado nesses links (e em qualquer outra coisa que lhes der na telha) me dêem um conselho legal. Ou não. Não sou mais tão neurótico por causa de blogs como antigamente.

As Provações da Faculdade XVII

Depois de breves e felizes momentos de elevação, volto a pousar meus pés sobre a terra, e ponho-me novamente a escrever os difamados relatórios de Processos Grupais I.

Minha Individuação

Escrevi o post anterior baseado em uma intuição que tive. Como toda intuição, ela é extremamente íntima, e está profundamente ligada à meu ser e minha existência, e sentir ser tão importante escrever sobre ela que deixei de lado até mesmo os trabalhos mais urgentes para a faculdade. Há algum tempo, venho tendo algo que poderia chamar de “visão”. Nela, vejo a mim mesmo escalando um paredão de pedra, pendurado apenas por um braço, parado. Não fazia movimento algum em direção ao topo, apesar de olhar fixamente para o alto. Contudo, recentemente vi o que seria a continuação desta visão, e nela, encontro-me no alto de uma montanha rochosa, olhando para baixo, empunhando uma espada.

Não faz muito tempo, sonhei que o destino do mundo pesava sobre meus ombros, e que precisava sair em jornada para cumprir com minha missão imediatamente, mas protelava minha saída, pois havia uma pessoa a quem desejava beijar uma última vez. As lembranças deste sonho agora estão confusos, e lembro-me apenas de sua mensagem global, tendo os detalhes desaparecido quase que por completo. Porém, de todas as interpretações que posso fazer a respeito desta pessoa de quem desejo despedir-me, seja ela real ou uma alegoria para minha vida atual, o significado do sonho é claro: preciso iniciar a jornada de minha vida. Sinto este chamado já faz algum tempo, mas hoje esta mensagem tornou-se tão clara que ainda agora sinto meu corpo tremer. É hora. Como meu primeiro passo nesta senda, procurarei terapia, de linha Analítica ou Existencial. Tenho estas duas linhas em mente por acreditar que, devido à seu enfoque no desenvolvimento humano superior, possa me beneficiar mais de sua ajuda. O resto do caminho ainda está por decidir.

O Desenvolvimento Humano Superior

Na imaginação popular, o psicólogo é aquele profissional para quem se encaminham os loucos – pessoas desequilibradas em geral – para que ele dê um jeito neles e os faça “normais” novamente. Apesar de historicamente esta função pertencer mais aos psiquiatras do que aos psicólogos, não deixa de ser verdadeiro que, na grande maioria dos casos, as pessoas procuram psicoterapia para se curarem. As Terapias Cognitivo-Comportamentais são consideradas o padrão ouro de terapia justamente por serem as mais eficazes em modificar comportamentos, explícitos ou encobertos, disfuncionais e indesejáveis, e quase todas as técnicas em desenvolvimento tem isto por objetivo. Entretanto, apesar de em muitos casos ser necessário mudar atitudes nocivas, frequentemente esquecemos que este tipo de cura é apenas uma fração da missão da Psicologia, da Psiquiatria, da Filosofia e até mesmo das demais Ciências Humanas e Sociais.

Todos os teóricos da saúde mental que foram capazes de perceber isto compreenderam que a vida do homem (1) é mais do que um processo homeostático, de meramente retornar à um estado saudável depois de uma doença e assim permanecer até a próxima enfermidade, ou de um eterno adaptar-se as condições ambientais. De fato, como puderam constatar, há uma busca por algo além da não-doença, uma busca pela saúde verdadeira. O psicólogo que melhor definiu isto foi Abraham Maslow, com sua Hierarquia de Necessidades. Segundo ele, existem dois tipos distintos de necessidades: as necessidades de deficiência, e as necessidades de crescimento. As necessidades de deficiência são fisiológicas, como fome e sede; de segurança, como precisar de uma casa ou um bom emprego; de amor, como relacionamentos amorosos estáveis; e de estima, ou o reconhecimento de nossas habilidades, pelos outros e por nós mesmos. Este tipo de necessidade caracteriza-se por causar desconforto em nós quando não são supridas, levando-nos a agir de maneira tal que as satisfaçamos, diminuamos a sensação desconfortável e voltemos a um estado psicofísico ótimo. Quando temos fome, procuramos comida, comemos e nos saciamos. O melhor exemplo disto são os fumantes (2), que relatam sentir grande alívio quando fumam depois de um longo tempo em abstinência (3). No outro lado da moeda, as necessidades de crescimento ou de auto-atualização são bem diversas. Primeiro, para que possamos sentir este tipo de necessidade, precisamos que todas as outras necessidades de deficiência estejam pelo menos parcialmente satisfeitas (4). Segundo, elas não podem nunca ser saciadas. Quanto leio e aprendo sobre Psicologia, mais desejo ler e aprender. O céu é o limite. Terceiro, estas necessidades são tão únicas e diversas quanto existem pessoas no mundo. Os alpinistas são o melhor exemplo desta tendência auto-atualizante (5), pois escalam as montanhas por que “elas estão lá”, apesar de serem compreendidos apenas por aqueles que padecem desta mesma necessidade de ir sempre para o alto e avante.

Além disso, se não satisfeitas, o desconforto que estas necessidades nos causam é muito diferente. É extremamente sutil, se comparado com o sono ou a libido, porém é mais profundo e doloroso: é saber que não somos o que deveríamos ser. A este conjunto de sentimentos, Maslow chamou de metapatologias, doenças além das doenças ordinárias, mas já fora chamado pelos teólogos de acídia, e pelos filósofos de vazio existencial. Ao contrário de Maslow, porém, tanto os teólogos quanto os filósofos classificaram este estado não só como doentio, mas como um crime contra si mesmo, e em última análise, contra toda a humanidade.

Quando procuramos um psicoterapeuta para tratarmos de algum transtorno de comportamento que exibimos, buscamos suprir uma necessidade de deficiência, pois sentimos um desconforto e buscamos aliviá-lo. Porém, tanto os leigos quanto muitos iniciados (6) em Psicologia esquecem que as necessidades de deficiência não são o motor de nossa vida, e que mesmo as doenças mais severas estão subordinadas à nossa busca pelas necessidades de crescimento.

Muitos pesquisadores em seus artigos e livros tratam do desenvolvimento humano, mas o maior esforço neste campo volta-se para o desenvolvimento infantil, como o fazem Piaget e Freud. Apesar de considerar esta etapa do crescimento importante, não me interesso muito por ela. Afinal de contas, todos os adultos já foram crianças um dia, e passaram pelos mesmos processos. Mas não são todos os adultos que atingem níveis superiores de crescimento, apesar de todos sermos programados e preparados para isto. Piaget postula em sua Teoria do Desenvolvimento Cognitivo quatro estágios: Sensório-Motor; Pré-Operatório; Operatório Concreto e Operatório Formal. Cada etapa ocorre em algumas idades médias (7), e nelas se adquirem habilidades condizentes. No estágio Operatório Formal, que começa por volta dos 12 anos de idade, adquire-se a capacidade de pensamento lógico abstrato, independente de objetos concretos, e sua evolução ocorre ao longo da adolescência e da idade adulta. Entretanto, apenas metade da população atinge este estágio. Mais do que isso, é razoável supor que em algum momento esta habilidade chegue a um nível máximo, em que não há mais possibilidade de progresso. Mas seria razoável acreditar que o estágio Operatório Formal é o último a ser alcançado? Não, tanto que mesmo alguns alunos de Piaget formularam hipóteses sobre estágios de desenvolvimento e habilidades cognitivas da fase adulta em diante, apesar de não terem chegado a nenhuma idéia nova ou consenso.

Outros teóricos abordaram a dinâmica do progresso pessoal em idades mais avançadas, como a teoria da moral de Kohlberg, e a teoria psicossocial de Erikson, que vai até a chamada terceira idade. Apesar de contribuírem enormemente para a compreensão destas fases, falta algo nestas abordagens. Curiosamente, tanto Kohlberg quanto Erikson especularam também sobre a possibilidade de adicionarem mais um estágio cada à suas teorias. Pessoalmente, acho que o que falta nas duas é abordar o desenvolvimento de seres humanos que excedem em larga margem os limites médios de desenvolvimento pessoal. Em outras palavras, falta estudar o desenvolvimento de pessoas extraordinárias. Apesar de ter sido aparentemente esquecida em tempos recentes, esta área chama a atenção de estudiosos desde tempos muitos antigos. Todas as religiões do mundo têm um modelo de ser humano ideal. Destes, o modelo budista descrito na obra clássica Abhidhamma, o Arahat, é o mais amplamente formulado, sendo sua influência sentida até hoje.

Dos teóricos mais recentes, vários se propuseram a estudar o comportamento e evolução humanos em seus aspectos mais nobres (pelo menos em minha modesta opinião), e focaram-se nas etapas mais avançadas do crescimento. Entre estes autores, cito Rogers, Adler, o próprio Maslow e Jung. Provavelmente há outros, que tenham talvez ido além destes que enumero, mas falo do que conheço. Porém, deste pouco que conheço, quero fazer algumas colocações. Todos estes autores postularam a existência de um processo único a cada ser humano de ir de um nível inferior de complexidade para outro superior, de aprimoramento pessoal e elevação. Adler chamou este processo de luta pela superioridade, Rogers de auto-realização, Maslow de auto-atualização e Jung de individuação (8). Tanto Adler quanto Rogers afirmam que há uma força presente em todos os seres vivos, que os impulsiona para um eterno crescer e tornar-se mais forte. Jung e Maslow, no entanto, em suas teorias afirmam que esta força, apesar de realmente presente em todos os seres humanos, manifesta seu pleno poder em apenas alguns poucos, e que o processo pelo qual ela aparece pode ser comparado com a iluminação espiritual que a maioria das religiões busca.

Apesar dos diferentes nomes e das variações descritivas, todos abordam um mesmo processo, onde um ser humano paulatinamente sai de um nível de consciência limitado, expande-a, torna-se menos centrado em si e mais voltado para o seu ambiente, mais equilibrado, sincero, verdadeiro, criativo e funcional, abandonando pouco a pouco apegos antigos e desnecessários, e tornando-se um indivíduo pleno, único e indivisível, ao mesmo tempo em que uno com o universo. Pessoalmente, acredito que tamanha convergência teórica é prova de que há algo além do estágio que a grande maioria das pessoas se encontra atualmente. Pelas minhas poucas leituras, posso dizer que Maslow e Jung são os que melhor descrevem este processo: o primeiro define os traços de personalidade de um ser individuante, enquanto que o segundo explica o processo em si (9). Em um post futuro, pretendo falar mais a respeito de como as teorias dos dois abordam este assunto e se complementam.

Antes de terminar este texto, gostaria de falar por que acho tão importante estudar o Desenvolvimento Humano Superior. Por muito tempo, a Psicologia ocidental acadêmica buscou compreender o ser humano estudando apenas pessoas doentes, no máximo medianas. Esta postura, apesar de ter permitido grandes progressos na área da psicopatologia e através dela termos conseguido até mesmo curar certos transtornos, é nociva para a humanidade ao longo prazo, por evidenciar o que há de pior em nós como sendo nossa essência mais profunda, e não apenas uma parte dela. Isto desencorajou muitas pessoas de seguirem um caminho mais elevado, simplesmente por fazê-las acreditar que somos intrinsecamente maldosos e cruéis, e que não importa o que façamos, não mudaremos isto, pois mesmo nossos sentimentos mais positivos não passam de mera sublimação de nossa podridão interna. Isto não pode ser verdade. Baseado em tudo que vivi até agora, digo que podemos ser o que quisermos ser, mesmo que dentro de nossos limites. O ambiente nos põe à prova, e nós precisamos responder à altura, e decidir se sucumbiremos ante o que há de pior em nós, ou se buscaremos o bem maior. Moralmente, podemos ser tanto doentes quanto saudáveis, e em grande parte, esta decisão cabe exclusivamente a nós próprios. Entretanto, podemos ajudar os demais a escolher o bem e a virtude, compreendendo, explicando e até mesmo controlando (10) melhor como fazemos para crescer e nos desenvolver nesta direção. Esta é a missão da Psicologia, e minha própria.







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1. Perdoem o machismo, mas neste caso, não acho que um termo assexuado teria sonoridade tão boa quanto “homem”.

2. Maslow não inclui vícios em sua hierarquia, justamente por serem negativos e trazerem prejuízos ao adito. Entretanto, acredito que podemos colocar a adição no nível fisiológico das necessidades, por isso sua grande influência no comportamento humano.

3. Para uma melhor e mais detalhada explicação de como o vício em nicotina age no corpo, leia este artigo. Não é a visão dominante em ciência atualmente, mas é uma teoria promissora.

4. Considero este ponto um tanto quanto controverso, já que muitos prisioneiros de campos de concentração e outros em situações-limite manifestaram tendências auto-atualizantes durante seu período de cárcere.

5. Devo admitir que isto é apenas uma metáfora, já que muitos alpinistas podem ser bem desequilibrados mentalmente, e escalar montanhas por necessidades inferiores.

6. Por iniciados, quero dizer pessoas que entendem mais do assunto, como psicólogos, psiquiatras e demais especialistas em comportamento humano, como neurocientistas e romancistas, e não pessoas que se crêem superiores por terem estudado algo que disseram ser segredo.

7. As etapas e as idades não necessariamente coincidem, pois cada criança desenvolve-se em seu próprio tempo.

8. Já falei do processo de individuação anteriormente, mas de forma breve e superficial, já que o assunto do texto era outro. Clique aqui para ler mais.

9. A Psicologia Positiva fez uma grande contribuição para este campo de pesquisa com a publicação do livro “Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification”, que foi escrito para ser como uma tabela periódica das virtudes e forças pessoais, ou um DSM da saúde mental.

10. Por “controle”, quero dizer manipular o ambiente de forma tal que torne-se mais propício para o processo de individuação. Como Skinner, uso este termo por seu significado ser preciso e direto. O controle pode se dar de várias maneiras, inclusive falando diretamente com a pessoa envolvida. Forçar alguém a individuar-se seria não só contraproducente como contraditório, pois cada pessoa cresce em seu próprio tempo e em sua própria maneira. Ir contra este tempo e esta maneira seria ir contra a própria individuação.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

As Provações da Faculdade XVI

Pois é. Tecnologia é uma coisa maravilhosa, mas quando dá pra te ferrar, te ferra com jeito. Fui hoje até o Centro de Porto Alegre, entrevistar uma psicóloga do Instituto de Delphos de Psicologia Humanista, para o trabalho de conclusão da cadeira de... bem, Psicologia Humanista! Eu sabia da importância de gravar o que era dito, por que depois eu não lembraria de quase nada, e que escrever tudo não funciona lá muito bem (5 reuniões observando Nar-Anon e tentando fazer isso me mostraram isso). Por isso, fui especialmente até o Zaffari da Lima e Silva para comprar pilhas para meu superultrahipermega MP3 Pen Drive Gravador, e testei se ele funcionava, na fila do RU. Tudo perfeito, lá fui eu pegar o São Manoel. Não, não tenho taras por estátuas de santos de igreja, é uma linha de ônibus que vai até o Mercado Público, que fica perto da Delphos.

A entrevista foi ótima, a pessoa que entrevistei foi muito simpática, havia empatia em nossa relação. Mas depois da terceira pergunta, percebi que o gravador não estava ligado. Ótimo. Fiquei atucanado com isso pelo resto da entrevista, achando que ainda não estava gravando. Quando cheguei em casa e fui ouvir o arquivo de som, não estava lá. Maravilhoso. Admito que isso deve ter sido por causa da minha imperícia no manuseio dessa porcaria, mas é bem frustrante ter que refazer as perguntas para fazer meu trabalho. E se digo que vou ter que refazer as perguntas ao invés da entrevista, é por que sei que essa entrevista de hoje está perdida para todo o sempre. Paciência.

Não que eu não tenha mais nada para fazer: preciso escrever três relatórios do Seminário de Pesquisa em Psicologia, o quarto relatório para a cadeira de Processos Grupais, o esboço do trabalho final sobre Psicologia Analítica de Psicopatologia I, fazer a prova e o trabalho final de Teorias da Personalidade. Imaginem a carga de leituras que fazer tudo isso traz de arrasto. Aguardem para esta madrugada mais alguns posts da série “As Provações da Faculdade”.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A Decepcionante Política

Esta é uma época politicamente efervescente na UFRGS. Universidades públicas, federais em particular, têm por característica mais marcante sua intensa movimentação política, já que os destinos da instituição estão mais ligados ao governo e seus membros do que as instituições particulares, mas este ano tem sido mais movimentado do que o anterior. Primeiro por que esta semana está se realizando o plebiscito sobre o REUNI na UFRGS, organizado pelo pessoal do DCE, dentro em breve acontecerá a eleição para a reitoria, e no segundo semestre, teremos a tradicional eleição para o DCE, e todos os outros cargos que vão de arrasto.

Confesso que, apesar do meu interesse em política, sinto-me bastante desmotivado este ano, apesar de toda essa algazarra. Nos meus tempos de bixo, que acabaram a não faz tanto tempo assim, eu tinha mais esperança de ver as coisas darem certo se as pessoas se mobilizassem. Além disso, tudo aqui na Federal era novo para mim, tinha um sabor de descoberta, então me envolvia tanto quanto podia e achava seguro nas pendengas políticas. Às vezes, comparo minha estadia aqui na UFRGS com os livros do Harry Potter, pois cada semestre conheço faces novas desta universidade. O primeiro semestre fora meu livro de estréia, “Andarilho e o Instituto de Psicologia” e consistiu nas minhas proezas como novato aqui pelo Campus Saúde e no Centro; o segundo continuara minha saga, “Andarilho e a Política Universitária”, e conta minhas andanças pelo Campus do Vale e meu interesse e envolvimento nas eleições para o DCE. Não consigo definir um título para este terceiro semestre, pelo menos não ainda. Sei, contudo, que o seu livro falará das minhas descobertas no infame mundo da pesquisa e do Reino CAPES. Política? Só de leve, por que não dá para evitar receber panfletos bobocas na saída do RU.

O movimento estudantil é um movimento prioritariamente político, em seu sentido mais usado – lida com o presidente da república, o governador do estado, o prefeito municipal e as leis e políticas que eles inventam. A Educação aparece, sim, mas só como bandeira oportunista, pois como meu colega de apartamento já me dissera, eles nunca fazem campanhas por bibliotecas maiores e melhor equipadas, ou por ensino de excelente qualidade. No máximo, colocam alguma coisa a respeito nos seus panfletos e cartazes.

Como falei no primeiro parágrafo, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) está organizando esta semana um plebiscito para conhecer a opinião dos estudantes da UFRGS sobre o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). Mas esperto que sou, já sei o resultado. Não que precise ser um rocket scientist para saber isto, basta saber ler e interpretar textos adequadamente. Certo dia, ao ir almoçar no RU, foi me entregue um panfleto escrito no cabeçalho “Plebiscito Nacional sobre o REUNI – diga NÃO!”. Considero perfeitamente aceitável que se faça propaganda política antes de uma votação importante como esta, dita nacional, mas não vi ninguém por aí distribuindo panfletos dizendo “SIM ao REUNI!”. Gozado isso. E lendo meio por cima o tal do panfleto dá para ver seu conteúdo. O texto é dividido nos seguintes três subtítulos:

1 – Você concorda com o decreto REUNI do governo Lula, que praticamente dobra o número de alunos por professor e institui os cursos tecnólogos?

2 – Você concorda com uma eleição para reitor em que os professores têm 70% do peso dos votos, os estudantes têm 15% e os técnicos administrativos 15%?


3 – Você é a favor que se mantenham ligadas às universidades as fundações de apoio, que facilitam o desvio de dinheiro público para fins privados?

No final da folha, está escrito em letras garrafais “VAMOS DIZER NÃO AO REUNI!”

Não consegui entender como a segunda e a terceira questões estão ligadas ao REUNI, mas pensei que o panfleto não estava escrito assim, com subtítulos em forma de questão por nada. Intui que estas perguntas estariam na cédula de votação do tal plebiscito, mas achei que isto seria absurdo demais. Seria melhor colocar algo como “Sim, sou contra o REUNI” e “Não, não sou a favor do REUNI”. Logo depois de receber o tal panfleto, conversei com uma veterana minha que confirmou minhas expectativas. Os organizadores do plebiscito compareceram a uma reunião do DAP (Diretório Acadêmico de Psicologia) para pedir nosso apoio para sua causa, que é dizer não ao REUNI de qualquer jeito, e que provavelmente as perguntas do panfleto seriam as mesmas na cédula.

Muitas vezes já ouvi que os jovens, os estudantes têm direito à voz, de dizer o que pensam e que os governantes devem ouvi-los, mas certamente o máximo de atenção que daria como presidente ou reitor para um plebiscito desses seria para dizer que ele é altamente enviesado e inválido. E o pior é que é inválido de propósito. A atitude do DCE me parece muito com daquelas crianças pequenas que querem ganhar tudo no berro, que se fossem capazes de articular frases coerentes diriam em sua defesa “como eu gritei bem alto, eu estou certa, então ME DÁ O DOCE!”. Mais do que isso, é uma atitude autocrática e manipuladora, pois tem por objetivo levar milhares de estudantes pelo cabresto para dizer não ao REUNI, sem ao menos dar-lhes a chance de decidir por conta própria os méritos e deméritos deste projeto.

Esta atitude manifesta-se não só no tal do plebiscito, mas nos comportamentos de seus campeões também. Um dia desses, estava eu assistindo uma aula de Processos Grupais I bem interessante (o que é raro), quando me lembrei de que queria procurar mais tarde um artigo no portal de periódicos da CAPES, e que precisava de um livro para encontrá-lo. Saí da sala e fui até em casa pegar o tal do livro (moro a uma quadra de distância do Instituto de Psicologia). Quando voltei, um grupo relativamente grande de pessoas carregando bandeiras da CONLUTE e com adesivos “REUNI NÃO!” estavam paradas na frente da porta da sala em que estava tendo aula. Em volta de cinco minutos depois de ter entrado, eles batem à porta e pedem se podem entrar para falar do plebiscito. O professor faz uma cara meio estranha e faz um sinal dando a entender que a decisão era nossa, dos estudantes. Algumas pessoas se manifestaram, e falaram “não”, e acredito que o sentimento da turma fosse que não queríamos ouvir nada a respeito, pelo menos não durante aquela aula específica. Ainda assim, o cara que bateu na porta entrou na sala mesmo assim para falar do tal plebiscito, e seus companheiros para entregar mais panfletos (fiz um aviãozinho bem bonito com o meu). Indignado com essa falta de respeito, um colega meu exclamou que tínhamos dito que não, e perguntou por que ele entrara mesmo assim. “Ah, é que o ‘não’ tava meio tímido, e vai que tem um ‘sim’ escondido?” foi a resposta que ouvimos. Então, ele perguntou qual nosso curso, e quando constatou que éramos da área da saúde, começou a falar de um curso de tecnólogo que estava por abrir na UFRGS, “Administração de Redes de Saúde Pública” ou algo assim. Ele não falou muita coisa, pois já tínhamos sido desrespeitados o suficiente por aquela aula, e meu colega novamente os mandou irem embora (educadamente, apesar de um “SE TOQUEM DAQUI AGORA!” ser apropriado para a ocasião).

Acho que esta atitude por parte deste cidadão deixa claro que eles não se importam com nossa opinião, com nossos desejos ou inclinações políticas – a gente só tem que ouvir e fazer o que eles nos dizem. E se há algo neste mundo que me deixa indignado é esse tipo de comportamento. Por que tenho que aceitar passivamente como verdadeiro o que eles, ou qualquer outra pessoa, sobre qualquer outro assunto, nos dizem? Acho vergonhoso e preocupante ver que as pessoas por trás de um plebiscito dito democrático tenham atitudes tão autoritárias.

A eleição para reitoria é outra apurrinhação. Se tivesse acontecido ano passado eu teria ficado bem empolgado, mas esse ano, toda vez que eu vejo os montes de cartazes colados por aí, só consigo pensar quem é que vai limpar essa sujeira quando a brincadeira acabar. Só posso dizer com certeza que não vai ser nem o reitor eleito, nem os outros candidatos. São quatro chapas concorrendo este ano, mas estou por fora das propostas de todas. Sei que um candidato à vice-reitor parece o Olívio nos tempos áureos de seu bigode e tem um nome esquisito, e que um dos candidatos à reitor, o Schmidtão, foi um figurão da ADUFRGS (Associação Docente da UFRGS), que conseguiu comprar um apartamento em Paris com salário de professor, e que, pra tirar uma graninha em cima disso, publicou no boletim da referida instituição que o tal apartamento estava disponível para aluguel. No mais, apesar de poder votar, não estou muito interessado: tenho trabalhos por fazer e textos por ler, e se envolvimento político é algo secundário em minha vida, a eleição para a reitoria é terciário. O panfleto contra o REUNI não diz só abobrinhas, por que os professores de fato detêm 70% do peso dos votos na eleição para reitor, ficando os 30% divididos entre estudantes e funcionários administrativos. Não vou gastar pólvora em chimango, ir até a urna mais próxima, preencher a cédula e votar na chapa “Kiko e Seu Madruga: pela união da vizinhança”, pois eu sei que não vai mudar nada. Estou ciente de que esta é uma atitude omissa, e que tudo que o mal precisa para triunfar é que os homens bons não façam nada (Alucard, 1997). Mas não vejo como os estudantes poderiam virar a mesa nesse tipo de eleição. Votando em massa em um candidato que vá instituir a paridade 33/33/33? Duvido que o melhor estrategista de campanha seja capaz de fazer todos os estudantes da UFRGS votarem, quanto mais votarem no mesmo candidato. Fazer um voto simbólico, um ato de vontade contra a injustiça do mundo? Isso é mais a minha cara, mas dadas as circunstâncias, prefiro ser pragmático e deixar a poesia para quando eu puder.

E, por fim, as eleições para o DCE. Acho que já mostrei como a atual gestão trabalha, seus altos ideais de liberdade e democracia, mas seria injusto se não fizesse o mesmo com as outras facções estudantis dentro da UFRGS que não ganharam o primeiro prêmio da eleição DCE 2007. Faltam alguns meses para a próxima eleição, mas não vai ser muito diferente do que já vi ano passado, considerando que serão as mesmas pessoas a participarem do jogo eleitoral.

Quando se fala de política estudantil, pode-se agrupar as facções em dois grandes grupos: esquerda e direita. Alguns cursos são tradicionalmente de esquerda, como História, Ciências Sociais e Comunicação, outros de direita, como Medicina, Engenharias e Direito. Isso pode parecer uma generalização um tanto grosseira, e de fato o é, exceto em dois casos, Medicina e Comunicação. Explicarei mais adiante por que. Podemos continuar dividindo a esquerda de acordo com seus matizes de esquerdismo – esquerda moderados, esquerda radicais e esquerda Heloísa Helena. Na última eleição, havia uma chapa para cada um desses matizes:

- A Chapa 1, “Todos Iguais, Braços Dados ou Não” (1), da atual gestão que na época buscava a reeleição, é financiada pelo P-Sol.
- A Chapa 2, “Quem vem com tudo não cansa” (2), era financiada pela União Juventude Socialista, movimento Jovem do PC do B.
- A Chapa 4, “Roda Viva” (3), não era financiada por nenhum partido que eu saiba, mas vários de seus membros participam da Kizomba, movimento jovem dentro do PT (e campo fértil para malas sem alça).

E essas facções ficam se bicando durante as eleições, tentando roubar voto umas das outras e acabam se enfraquecendo. Isso não acontece com a direita, pois por mais subdivisões que possam ter (neonazistas, liberais, democratas, membros da Igreja Universal, lenhadores, ursos...) eles geralmente sabem que a união faz a força, e unem-se em volta de uma só chapa, e ficam pegando votos enquanto a esquerda está distraída tentando se destruir. Foi isso que aconteceu ano passado. A chapa 3, DCE Livre (4), do Movimento Estudantil Liberdade (MEL), dizia que não era bancada por partido algum, mas seus membros tinham sido, até antes das inscrições de chapas para concorrer, membros do Democratas, antigo PFL. Além disso, alguns de seus membros estavam (pelo menos na época) sendo processados racismo e apologia ao nazismo. Uma chapa bem diversificada, no mínimo.

A bandeira mais hasteada e balançada ano passado foram as ações afirmativas, e de especial maneira, as cotas raciais e sociais. Segundo decreto federal, todas as universidades federais eram obrigadas a desenvolver um projeto de ações afirmativas por conta própria e implementá-lo, caso contrário o governo empurraria um projeto goela abaixo da universidade. Ano passado acabava esse prazo para a UFRGS, e o projeto e sua implantação estavam sendo discutidos, com muita polêmica. As cotas raciais até hoje geram controvérsia (5), mas na época aquilo tudo estava muito fresco e recente. O CONSUN teve que fazer duas reuniões para decidir se as cotas seriam aprovadas ou não, pois na primeira algumas pessoas assistindo começaram a fazer tumulto e a sessão teve que ser interrompida.

Não sei como foi a “entrada” das cotas em universidades de outros estados, mas aqui no sul, uma região tradicionalmente racista, elas não iriam entrar sem uma boa briga. Em outubro, época da campanha, elas já tinham sido aprovadas pelo CONSUN, mas a chapa 3 não esmoreceu, e prometia entrar na justiça para proibi-las. As outras três chapas a acusavam de racista, preconceituosa e nazista (eu mesmo fui em sala de aula alheia pedir para que não votassem nela[6]) mas isso não a enfraquecia. Pelo contrário: fazia marketing para ela. O fato é que, as três chapas de esquerda eram todas iguais, divergindo só em algumas coisas . A chapa 1 era de longe a mais forte das três, mas ela perdia muitos votos preciosos para a 2 e a 4. Entretanto, com a chapa 3 a coisa era diferente. Ela tinha um diferencial, que era ser contra as cotas de todo o coração. Muita gente, na UFRGS e no estado inteiro, sentiu-se indignada com esse sistema de dar barbada para alguns poucos entrarem na Federal, a mais tradicional e bem conceituada universidade do estado, e o MEL soube bem capitalizar os votos destas pessoas.

A campanha, apesar de ter quatro concorrentes, ficou polarizada entre a chapa 1 e a chapa 3: quem era a favor das cotas contra quem era contra as cotas. E nesta briga, a baixaria foi generalizada. Tanto uma quanto a outra colecionava print screens das discussões do Orkut onde alguém falava algo que não devia: afirmações racistas, ditatoriais, que pegavam mal de algum jeito. Toda semana eu ouvia alguém de alguma dessas duas chapas dizer que “agora nós temos isso aqui em mãos, eles estão ferrados, por que vai queimar muito o filme deles”. Se lembro bem, esses print screens eram bobagem pura, mas falavam como se fosse o Dossiê Pelicano da chapa adversária. As discussões, especialmente na comunidade da UFRGS no Orkut, a troca de ofensas era a moeda de troca. O dia da votação foi especial, pois tanto a chapa 1 quanto a 3 tentou impugnar alguma urna onde sabia que iria perder. As urnas da Medicina e da FABICO (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação), como disse antes, foram as mais estereotipadas: a primeira continha votos quase que exclusivamente para o MEL, enquanto que a segunda quase só para a “Todos Iguais, Braços Dados ou Não”. No fim, o MEL perdeu as eleições, mas a vitória da chapa 1 não foi completa.

Historicamente, os estudantes universitários e a academia como um todo têm uma tendência à esquerda muito forte, tanto que eu posso ser considerado um reacionário fascista por causa de minhas idéias (aliás, já fui chamado assim, duas vezes por duas pessoas diferentes). Mas por causa das atitudes politiqueiras das gestões do DCE (7) e dessa mania da esquerda ficar fazendo fogo amigo, muitos estudantes começaram a cansar dos amigos do Che Guevara, e começaram a votar na única chapa diferente – a da direita. A chapa DCE Livre não fizera sua estréia em 2007, mas já em 2006 (e talvez até antes) o MEL concorrera para o DCE, e apesar de ter perdido as duas eleições, seu número de votos, tanto relativo quanto absoluto, cresceu, ao passo que os votos para todas as outras chapas de esquerda diminuíram nos dois quesitos. Além disso, com sua expressiva votação, a chapa 3 conseguiu emplacar membros no Conselho Universitário (CONSUN), o órgão deliberativo máximo dentro da UFRGS. Se a coisa continuar assim, eles ainda vão ganhar a eleição para o DCE. Talvez não esse ano, mas no próximo é bastante provável.

Além de todas essas coisas que me fazem desgostoso do mundo da política, há algo mais que me faz voltar meus interesses para os estudos e para os treinos. Sinto, perto de pessoas muito envolvidas com política, como os coordenadores e secretários do DCE, que militam ativamente para algum partido, um ar de falsidade. Não os estou chamando de mentirosos, mas o que quero dizer é que, por trás de todo o barulho e impacto que fazem por suas causas políticas não encontro nenhuma substância moral que sustente tudo, e ao sinal da primeira dificuldade (ou facilidade), eles irão para o outro lado do front. Eles são existencialmente desonestos, e enganam a si mesmos. Não duvido que eles realmente acreditem no que dizem, mas tenho dúvidas se a crença deles é tão sólida quanto vendem. Hoje eles estão no PSTU, mas no futuro não estranharia de vê-los no PP, fazendo tudo aquilo que abominavam quando jovens. Não quero isso para mim. Dê-me livros e Wushu.






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1. Nome de chapa pra DCE geralmente é ridículo assim mesmo.

2. Viu? Falei que era tudo ridículo.

3. Quase se salva esse nome. Quase.

4. Nome ridículo também, mas pelo menos faz sentido.

5. Eu próprio não tenho bem certeza se sou a favor ou contra as cotas, apesar de ter bixos cotistas e achá-los admiráveis pelas pessoas que são.

6. Ah, a contradição: não gosto que me digam o que fazer, mas digo aos outros o que eles devem fazer!

7. Durante a votação, um dos integrantes da chapa 1 não nos permitiu abrir nossa urna na Psicologia enquanto tivessem estudantes de Medicina por perto para votar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Cuba e minha posição política

Todo bom acadêmico esquerdista brasileiro adora falar bem de Cuba e de Fidel Castro. Não tenho nada contra isto, mas considerando que este tipo de acadêmico é maioria nas universidades públicas, e que frequentemente eles tentam calar vozes dissidentes, sinto-me um pouco indignado quando eles começam a falar de Cuba.

Pode ser impressão minha, mas parece que, para estas pessoas Cuba é o paraíso na terra: elogiam o sistema de saúde, o governo socialista, o sistema de educação, a distribuição de renda. Estes são realmente os pontos fortes do governo cubano. Mas não sei se não são os únicos.

E meus amigos esquerdistas frequentemente esquecem de mencionar que o governo cubano é uma ditadura há quase 50 anos, desde que Fidel Castro e seus compadres tomaram o poder, que pouquíssimos cubanos podem sair do país livremente e que inúmeras balsas abarrotadas de fugitivos saem clandestinamente em direção aos EUA, el gran satan. Já ouvi muitas racionalizações sobre os dois primeiros pontos, mas sobre os fugitivos ninguém que defenda Fidelzito consegue me explicar. Francamente, acho estranho que haja mais pessoas estrangeiras à Cuba defendendo o regime cubano do que cubanos. Ou o mundo sofre de esquizofrenia, ou Cuba não é esse paraíso que tentam me vender.

Quando falo em “esquerda”, “esquerdistas” e termos afins, dou a entender que não sou de esquerda, mas não sou capaz de definir exatamente o que sou. Já me chamaram de “reacionário”, que vem a ser o supra-sumo do direitismo. Mas considerando que todas as vezes que me chamaram assim vieram de arrasto alguns palavrões e ofensas diretas (“arrogante” por exemplo, além de outros que prefiro não mencionar), não dá pra considerar estas definições sobre minhas opiniões políticas como sendo válidas, pois partiram de pessoas raivosas, mais preocupadas em me atingir do que debater.

Certamente, não sou de esquerda. Não acho que eu preencha o quesito número 1 para ser assim definido – não sou acéfalo. Também não acho que eu seja um direitista – por que eu tenho coração. Deleuze disse uma vez que direitista é todo aquele que pensa primeiro em si, na indústria, no governo e depois nos outros, e que esquerdista é quem pensa primeiro nos outros. Nunca levei Deleuze a sério, mas esta afirmação dele é a mais tendenciosa que poderia existir. Se ele não fosse um cara com mestrado, doutorado e não sei mais o quê, se ele fosse uma pessoa sem muita educação ele teria dito “a esquerda é do bem e a direita do mal. Quem não for de esquerda é do mal.” OK, posso estar interpretando erroneamente esta afirmação dele, e que na verdade ele estava tentando definir esquerda-direita pela bondade, e não tentando dicotomizar a política entre certo e errado, mas como já disse, Deleuze falou pouca coisa que presta (e só não digo que não falou nada que presta por que é estatisticamente provável que ele já tenha dito algo útil).

Não acho que não existam diferenças ideológicas e políticas entre esquerda direita, mas acredito que, num panorama mais amplo, estas diferenças tornam-se irrelevantes. Não acho que quem seja de esquerda pense primeiro no bem-estar alheio e que quem seja de direita pense primeiro no bem-estar do dinheiro: os dois pensam no bem maior, mas de maneiras diferentes. Mas daí para antagonismos entre as partes é um salto. O governo Lula é um governo de esquerda e prioriza programas sociais, mas seu maior mérito é ter adotado a política econômica do governo anterior, direitista. Ou pelo menos isso é o que me dizem vários formadores de opinião em política e economia.

Há diferenças entre esquerda e direita? Sim, mas elas são irrelevantes. Não acho que exista um continuum entre estes dois extremos, com o DEM de um lado e o P-Sol do outro. Acho que o que existe é um círculo, onde os extremos se tocam, e onde o antigo PFL e o partido da Heloísa Helena se encontram em seus extremismos.

Não acho que o caminho mais curto para um mundo melhor seja abandonarmos as diferenças – das últimas vezes que tentaram isso não prestou, e até por que seria muito chato se realmente acontecesse. É com as diferenças que crescemos (ô frase tirada de livro de auto-ajuda!), com o atrito gerado por idéias divergentes. Mas acredito que o que devemos deixar de lado é a idéia de que nossas idéias são melhores que as dos outros.